17 março 2016
viagem de autocarro
(Fotos de Fevereiro, da altura da Berlinale. Como o tempo passa, é assim que nos pomos velhos, etc.)
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viver nos transportes públicos
16 março 2016
"no dia em que nas lojas não houver secção de roupa para menino e para menina..."
(Ele é a Enciclopédia Ilustrada, ele é a Destreza das Dúvidas, onde acabei de publicar o post que se segue... Esta minha vida de facadinhas no matrimónio com o Dois Dedos de Conversa é só stress.)
(A propósito: o Luís Aguiar-Conraria escreveu um texto muito pertinente sobre este tema no Observador.)
Se tivesse tempo, fazia um post sobre os melhores filmes que vi na Berlinale, outro sobre o antigo ministro do Trabalho de Helmut Kohl, Norbert Blüm, que aos oitenta anos passou uma noite numa tenda enlameada em Idomeni, e disse coisas que a Angela Merkel não se atreve a dizer (e talvez nem sequer a pensar), ou sobre o modo como os media alemães estão a reagir à deriva castanha do eleitorado de três Estados que foram às urnas no domingo passado.
Mas como não tenho tempo (tantos recursos aplicados a clonar ovelhas, como se elas não se soubessem clonar naturalmente e com todo o gosto, e ninguém se lembra de me clonar um bom par de horas por dia!) limito-me a um apontamento muito rápido ainda a propósito do tema "menino ou menina" (a introdução a este post serve apenas para explicar que este tema não é uma obsessão minha, é simplesmente o atalho mais rápido para escrever um post antes de ser corrida deste blogue por estar há vários dias em idle mode) (a culpa não é minha, é dos cientistas que não sabem estabelecer prioridades e não me clonam o tempo!).
(A propósito: o Luís Aguiar-Conraria escreveu um texto muito pertinente sobre este tema no Observador.)
Se tivesse tempo, fazia um post sobre os melhores filmes que vi na Berlinale, outro sobre o antigo ministro do Trabalho de Helmut Kohl, Norbert Blüm, que aos oitenta anos passou uma noite numa tenda enlameada em Idomeni, e disse coisas que a Angela Merkel não se atreve a dizer (e talvez nem sequer a pensar), ou sobre o modo como os media alemães estão a reagir à deriva castanha do eleitorado de três Estados que foram às urnas no domingo passado.
Mas como não tenho tempo (tantos recursos aplicados a clonar ovelhas, como se elas não se soubessem clonar naturalmente e com todo o gosto, e ninguém se lembra de me clonar um bom par de horas por dia!) limito-me a um apontamento muito rápido ainda a propósito do tema "menino ou menina" (a introdução a este post serve apenas para explicar que este tema não é uma obsessão minha, é simplesmente o atalho mais rápido para escrever um post antes de ser corrida deste blogue por estar há vários dias em idle mode) (a culpa não é minha, é dos cientistas que não sabem estabelecer prioridades e não me clonam o tempo!).
Curto resumo: o Happy Meal usava a classificação "brinquedo de menina" ou "de menino" em vez de descrever o brinquedo, houve uma crítica, a empresa McDonald's percebeu e aceitou, e levantou-se um coro de protestos contra quem quer mudar essa ordem natural das coisas. Um dos argumentos usados era que nas lojas também se dividia a roupa em secção para meninas e secção para meninos.
Ontem, ao folhear um catálogo da Tchibo (uma empresa que vende café, e todas as semanas tem ofertas especiais temáticas - roupa de desporto, roupa para crianças, produtos de limpeza, etc.), deparei com várias páginas de roupa misturada, sem distinção clara sobre o que é para rapaz e o que é para rapariga.
Ontem, ao folhear um catálogo da Tchibo (uma empresa que vende café, e todas as semanas tem ofertas especiais temáticas - roupa de desporto, roupa para crianças, produtos de limpeza, etc.), deparei com várias páginas de roupa misturada, sem distinção clara sobre o que é para rapaz e o que é para rapariga.
Por sua vez, o maior site alemão de produtos para criança, o Jako-o, tem na sua secção de roupa para rapaz coisas assim:
E na secção das raparigas:
Sem perder muito do nosso tempo a comparar as páginas, nota-se logo que a t-shirt cor-de-rosa com uma borboleta, a azul de unicórnio e a que tem uma águia imponente repetem-se nas duas secções do catálogo.
(Mas eu gosto é da alegria das cores da roupa infantil da Tchibo. Quase me dava vontade de ter outra vez filhos nesta idade, para comprar tudo.)
"relógio"
(relógio é a palavra de hoje na nossa famosa Enciclopédia)
O problema dos meus relógios é que me dizem qual é a hora de hoje, mas não me dizem que hoje é.
Haverá relógios com outros problemas (como os desgraçados que andam na zona de reservas de Native Americans no South West, onde, conforme a reserva que atravessam, é uma hora mais tarde ou mais cedo - pobres relógios, passam a vida a fazer horas extraordinárias, e a desfazê-las) mas estes senhores do tempo que só indicam as horas, e não o dia, nem a semana, nem o mês, nem o ano, são provavelmente os responsáveis por tanta gente andar tão fora do seu tempo. A AfD, por exemplo, que venceu em toda a linha nas eleições de três Estados alemães no domingo passado: está neste preciso momento nas 12:06 dos anos trinta do século passado, e pensa que está no futuro.
O problema dos meus relógios é que me dizem qual é a hora de hoje, mas não me dizem que hoje é.
Haverá relógios com outros problemas (como os desgraçados que andam na zona de reservas de Native Americans no South West, onde, conforme a reserva que atravessam, é uma hora mais tarde ou mais cedo - pobres relógios, passam a vida a fazer horas extraordinárias, e a desfazê-las) mas estes senhores do tempo que só indicam as horas, e não o dia, nem a semana, nem o mês, nem o ano, são provavelmente os responsáveis por tanta gente andar tão fora do seu tempo. A AfD, por exemplo, que venceu em toda a linha nas eleições de três Estados alemães no domingo passado: está neste preciso momento nas 12:06 dos anos trinta do século passado, e pensa que está no futuro.
15 março 2016
a explosão do carro em Berlim - relato de uma testemunha
Reportagem em directo (enfim, quase) de um amigo (ó Felix, posso dar o teu nome?) sobre o carro que explodiu hoje ao pé da casa dele:
"eu vi o carro desfeito pois passei por lá às 8:30h da manhã, mas não percebi o que era, achei estranho estar lá um helicoptero mas fiquei a achar que deveria ser um acidente. Claro que também achei estranho ser um acidente com um só carro no meio da estrada, mas o outro poderia já ter tido sido rebocado. Mais tarde passei por lá outra vez, mas dessa vez as ruas estavam completamente fechadas e já não podia passar tão perto quanto tinha passado antes. Liguei o rádio no meu telemóvel e aí é que ouvi as notícias que tinha sido um carro que explodiu, mas na altura não tinham mais informações."
(senhores jornalistas portugueses: tenho o número de telemóvel do Felix, cedo por bom preço)
(senhores "jornalistas" do Correio da Manhã: se quiserem misturar o nome do Sócrates nesta história também posso tentar arranjar indícios falsos perfeitamente utilizáveis, mas para isso o preço é outro)
"eu vi o carro desfeito pois passei por lá às 8:30h da manhã, mas não percebi o que era, achei estranho estar lá um helicoptero mas fiquei a achar que deveria ser um acidente. Claro que também achei estranho ser um acidente com um só carro no meio da estrada, mas o outro poderia já ter tido sido rebocado. Mais tarde passei por lá outra vez, mas dessa vez as ruas estavam completamente fechadas e já não podia passar tão perto quanto tinha passado antes. Liguei o rádio no meu telemóvel e aí é que ouvi as notícias que tinha sido um carro que explodiu, mas na altura não tinham mais informações."
(senhores jornalistas portugueses: tenho o número de telemóvel do Felix, cedo por bom preço)
(senhores "jornalistas" do Correio da Manhã: se quiserem misturar o nome do Sócrates nesta história também posso tentar arranjar indícios falsos perfeitamente utilizáveis, mas para isso o preço é outro)
a ver se consigo contar isto em estilo "olha eu aqui, que escapei por um triz"
Esta manhã o Joachim despediu-se, como todos os dias, para ir para o trabalho. Eu digo-lhe sempre adeus com boa cara, por causa daquela palestra do Benjamin Zander no TED, e que a gente nunca se deve despedir de alguém com palavras que não possam ficar como as últimas que dissemos a essa pessoa. Parecia que estava a adivinhar! O Joachim fez o caminho do costume, pela Bismarckstrasse. Escassos minutos depois de ter passado por lá, um carro explodiu no meio da avenida, deu várias voltas sobre si (depois vou ver se rodopiou, ou se deu cambalhotas), o condutor ainda conseguiu sair do carro, mas acabou por sucumbir aos ferimentos. A polícia fechou aquela via de circulação muito importante (4 faixas em cada direcção) para ver se haveria mais explosivos no carro. Diz que a vítima era um conhecido da polícia, por ligações ao mundo da droga. Não houve mais vítimas humanas, apenas um carro estacionado que ficou danificado.
Quando, de Portugal, me perguntaram porque é que ainda não tinha escrito no facebook que não tinha rebentado nem nada, fui ver ao Spiegel e não encontrei nenhuma informação. Ainda agora não tem. Começo a desconfiar que o Spiegel online é imprensa falsa...
Há bocado o Joachim telefonou-me do trabalho, a perguntar se estava viva. Ficou a saber do caso porque um amigo dele lhe ligou da Bulgária. Não sei que pensar disto: em Portugal e na Bulgária sabe-se das coisas mais depressa que aqui, no próprio bairro onde elas acontecem.
Em todo o caso: estava em Charlottenburg quando aquele carro explodiu, e o meu marido até passou por lá momentos antes da explosão. Fazemos preço de amigo para autógrafos no facebook, e preços especiais para selfies de survivor com quem nos quiser acrescentar à sua foto de perfil.
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viver na internet
"quintal"
(Lembram-se de ter falado há tempos de um grupo de enciclopedistas que há no facebook?
A palavra de hoje é "quintal".)
A palavra de hoje é "quintal".)
A casa onde eu nasci (quer dizer, para onde fui quando saí da maternidade) (por acaso não sei se a minha família ainda vivia num apartamento, e se mudou para a casa depois de eu nascer) (um dos problemas de já não ter pais é que se fica sem ter a quem fazer perguntas) ficava na saída de Braga para o monte Picoto. Agora é o centro da cidade, mas naquela altura era uma avenida muito sossegada, com moradias grandes (enfim, para meninas a três palmos do chão tudo é desmesurado) rodeadas de quintais sem fim. A nossa tinha o jardim do lado esquerdo, entre a casa e a garagem, o quintal do lado direito, e a pocilga e o tanque (e o sítio onde se deitava o lixo) por trás da casa. Nós dizíamos "jardim" e "quintal", mas estava tudo coberto pela mesma camada diversificada e alta de ervas. Era a nossa savana, tivemos lá muitas aventuras fantásticas.
Um belo dia de primavera, tinha eu sete anos e o meu irmão mais novo uns três ou quatro meses, a minha mãe disse-me que ia num instante à mercearia, e que eu ficava a tomar conta do bebé, que estava a dormir no berço. Muito consciente da minha responsabilidade fui espreitá-lo, e espreitei-o com tanto empenho que ele acordou. "O bebé acordou", pensei eu, tal e qual como a Anita Mamã, e fiz tal e qual como ela: levei-o para o ar fresco. Para o quintal, claro. [Não se preocupem, esta história acaba bem] [enfim, quase] Pousei o meu embrulhinho precioso na erva, disse-lhe as palermices que é costume dizer aos bebés, e depois lembrei-me que a minha boneca também precisava de ar fresco. Fui a casa buscá-la num instante, mas ela estava a dormir nua na sua caminha. Procurei a roupa adequada para lhe vestir, não fosse apanhar uma constipação. Infelizmente, não me lembrava onde tinha deixado a roupa, de modo que procurei e procurei, entretanto reparei que as gavetas da minha própria roupa estavam muito desarrumadas e deu-me uma febre de limpeza de primavera. Estava a dobrar as cuecas muito bem, uma após a outra, quando tocaram à campainha. Era a minha mãe, que foi espreitar o berço e voltou muito aflita: "onde é que está o bebé?" e eu, a bater com a mão na testa, "ai!", e a sair disparada para o quintal. Ainda lá estava, muito sossegadinho.
Nesse verão os meus pais arranjaram um jardineiro para limpar o jardim e o quintal, e disseram-nos que ele encontrou várias cobras. "Gulp", pensei eu com uns meses de atraso.
Anos mais tarde alguém deu com a língua nos dentes, e contou esse episódio ao meu irmão mais novo. Ainda hoje não me perdoou eu tê-lo abandonado no meio das cobras. [Esta é a parte da história que não acaba assim tão bem]
Um belo dia de primavera, tinha eu sete anos e o meu irmão mais novo uns três ou quatro meses, a minha mãe disse-me que ia num instante à mercearia, e que eu ficava a tomar conta do bebé, que estava a dormir no berço. Muito consciente da minha responsabilidade fui espreitá-lo, e espreitei-o com tanto empenho que ele acordou. "O bebé acordou", pensei eu, tal e qual como a Anita Mamã, e fiz tal e qual como ela: levei-o para o ar fresco. Para o quintal, claro. [Não se preocupem, esta história acaba bem] [enfim, quase] Pousei o meu embrulhinho precioso na erva, disse-lhe as palermices que é costume dizer aos bebés, e depois lembrei-me que a minha boneca também precisava de ar fresco. Fui a casa buscá-la num instante, mas ela estava a dormir nua na sua caminha. Procurei a roupa adequada para lhe vestir, não fosse apanhar uma constipação. Infelizmente, não me lembrava onde tinha deixado a roupa, de modo que procurei e procurei, entretanto reparei que as gavetas da minha própria roupa estavam muito desarrumadas e deu-me uma febre de limpeza de primavera. Estava a dobrar as cuecas muito bem, uma após a outra, quando tocaram à campainha. Era a minha mãe, que foi espreitar o berço e voltou muito aflita: "onde é que está o bebé?" e eu, a bater com a mão na testa, "ai!", e a sair disparada para o quintal. Ainda lá estava, muito sossegadinho.
Nesse verão os meus pais arranjaram um jardineiro para limpar o jardim e o quintal, e disseram-nos que ele encontrou várias cobras. "Gulp", pensei eu com uns meses de atraso.
Anos mais tarde alguém deu com a língua nos dentes, e contou esse episódio ao meu irmão mais novo. Ainda hoje não me perdoou eu tê-lo abandonado no meio das cobras. [Esta é a parte da história que não acaba assim tão bem]
11 março 2016
uma pessoa bem quer começar uma dieta, mas aparecem sempre problemas urgentes para resolver
Por sorte tenho o Mrs Tilly's Fudge para me ajudar a resolver este problema.
a propósito de um concerto para refugiados e voluntários
(fonte: facebook Berliner Philharmoniker)
O concerto de 1.03.2016 na Filarmonia de Berlim para os refugiados e voluntários já está disponível gratuitamente no Digital Concert Hall. Recomendo em especial o segundo andamento da sétima de Beethoven. E reparem na vertigem final no quarto andamento - um dia destes, o Simon Rattle ainda vai fazer com que os seus músicos caiam das cadeiras.
Esta sinfonia estreou-se em 1813, num concerto de beneficência para inválidos das guerras contra Napoleão, celebrando a libertação e a paz. Foi também a sétima de Beethoven que Barenboim escolheu para o concerto que os Filarmónicos ofereceram a cidadãos de Berlim Leste três dias após a queda do muro.
Ver o director da Filarmonia de Berlim a dar as boas-vindas em árabe arrumou comigo, e ainda o concerto não tinha começado. Vê-lo a convidar todos para no fim do concerto brindarem juntos ao futuro foi o golpe de misericórdia.
E mais comovida ainda fiquei quando o Daniel Barenboim se dirigiu àquele público com várias frases em árabe. Promessa de tempos melhores: um judeu no coração de Berlim a falar em árabe com o público que deveria ser o da sua West-Eastern Divan Orchestra. Até agora não tem sido possível: os países árabes boicotam esta iniciativa de diálogo entre árabes e judeus.
Foi Goethe quem inspirou o nome daquela orquestra, fundada em Weimar, et pour cause. Que diria o escritor se estivesse presente nesta sala cheia de alemães e árabes, cristãos e muçulmanos, e um músico judeu a tocar Mozart?
Talvez isto:
Gottes ist der Orient!
Gottes ist der Okzident!
Nord- und südliches Gelände
Ruht im Frieden seiner Hände.
É de Deus o Oriente!
É de Deus o Ocidente!
Setentrião, meridião
estão na paz da Sua mão.
Numa entrevista, o director revelou que 1800 pessoas naquela sala eram refugiados, e 600 voluntários. Houve pedidos para mais de seis mil bilhetes gratuitos. Ele estava impressionado com a quantidade de voluntários que, só em Berlim, se dedicam quotidianamente a ajudar estes estrangeiros, e comentou sobre falar-se tanto num punhado de neonazis que por exemplo em Clausnitz atacam um autocarro de refugiados, esquecendo sempre de olhar para os vários milhares de pessoas que inclusivamente mudam a sua vida para ajudar desconhecidos.
Era a segunda vez que estas três orquestras excepcionais de Berlim se revezaram naquele palco para darem um só concerto. A primeira ocorreu em Setembro de 2001, num gesto de solidariedade para com as vítimas do 9/11.
Uma amiga minha, que teve a sorte de arranjar um bilhete, comentou depois que o público - com as senhoras alemãs de meia-idade e tantos homens jovens com ar muito atinado - lembrava uma excursão escolar. Ela teria gostado de perguntar àqueles jovens a sua história, mas não se atreveu.
Nas entrevistas que estão disponíveis no mesmo site, no final do concerto, Daniel Barenboim fala no poder da música para as culturas se darem a conhecer, e lembra as várias comunidades religiosas sírias na Argentina, bem como os três milhões de muçulmanos desse país que estão perfeitamente integrados.
Iván Fischer, o maestro húngaro à frente da orquestra da Konzerthaus, que no concerto também se dirigiu ao público falando em árabe e sem cábula, afirmou-se contra a velha Europa que ninguém quer voltar a ter, "nações contra nações, religiões contra religiões, exploração de colónias", e louvou o que vê hoje em dia: "uma transformação maravilhosa: o nascimento de uma Europa tolerante, na qual as pessoas abrem as suas portas e os seus corações."
Simon Rattle fala na oportunidade extraordinária que a chegada destes "novos europeus", com toda a sua riqueza cultural e diversidade, representa para a Alemanha e a Europa.
Poucos dias depois deste concerto, um punhado de países europeus reuniu-se para fechar a rota das Balcãs, e a Europa combina com a Turquia extradições sumárias. Quantas mulheres e crianças, familiares destes homens que aplaudiram entusiasticamente na Filarmonia, se puseram a caminho em pleno inverno por temer que as fronteiras da Europa se fechem definitivamente? Quantas delas estarão agora apanhadas na armadilha dos muros de arame farpado?
A música não basta. O coração generoso de muitos milhares de pessoas que abrem as suas casas para acolher quem luta pela sobrevivência e pelo futuro também não basta. O que está a acontecer na Europa é a falência dos valores que acreditávamos serem os nossos e fazerem deste continente um lugar especial.
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refugiados
09 março 2016
George Martin
Então o quinto Beatle morreu e ninguém o ripa no facebook e nos blogues? Está mal, está mal. Não fosse o meu "Klassik Radio", e nem sabia disso!
Esta manhã tinha uma peça sobre o produtor dos Beatles. Lembraram algumas das suas ideias (o acompanhamento de cordas em Yesterday, e em Penny Lane o solo de trompete que faz pensar em Bach) e terminaram com um CD que George Martin produziu com trabalhos dos Beatles.
Sean Connery, In My Life:
There are places I remember
All my life though some have changed
Some forever not for better
Some have gone and some remain
All these places had their moments
With lovers and friends I still can recall
Some are dead and some are living
In my life I've loved them all
But of all these friends and lovers
There is no one compared with you
And these memories lose their meaning
When I think of love as something new
Though I know I'll never lose affection
For people and things that went before
I know I'll often stop and think about them
In my life I'll love you more
In my life I'll love you more
Esta manhã tinha uma peça sobre o produtor dos Beatles. Lembraram algumas das suas ideias (o acompanhamento de cordas em Yesterday, e em Penny Lane o solo de trompete que faz pensar em Bach) e terminaram com um CD que George Martin produziu com trabalhos dos Beatles.
Sean Connery, In My Life:
There are places I remember
All my life though some have changed
Some forever not for better
Some have gone and some remain
All these places had their moments
With lovers and friends I still can recall
Some are dead and some are living
In my life I've loved them all
But of all these friends and lovers
There is no one compared with you
And these memories lose their meaning
When I think of love as something new
Though I know I'll never lose affection
For people and things that went before
I know I'll often stop and think about them
In my life I'll love you more
In my life I'll love you more
Clara Rockmore
Esta manhã o google tinha uma bela surpresa: a propósito do 105º aniversário da Clara Rockmore, um doodle interactivo permitia-nos experimentar uma espécie de teremim.
Com ouvido absoluto, criança prodígio no violino, Clara Rockmore teve de desistir desse instrumento por problemas nos ossos. "Onde se fecha uma porta, abre-se uma janela..." - no caso, a janela foi aberta pelo físico russo Leon Theremin, que inventou um instrumento musical electrónico que é tocado sem tocar, apenas usando campos magnéticos. Clara ficou encantada com a ideia de fazer música dançando com as mãos no ar, e acabou por se tornar a maior especialista de teremim, tendo até feito algumas sugestões para o melhorar.
Faria hoje 105 anos.
(Um dia que o google faça 105 anos também lhe hei-de dedicar um post sobre as muitas surpresas e alegrias que me dá com estes seus doodles.)
a vez do Happy Meal na Potsdamer Platz
Hoje estive na Potsdamer Platz, e aproveitei para experimentar uma happy meal alemã, já que entretanto sabemos como é em Portugal e no Texas. Tive alguma vergonha de pedir um pacote para crianças (quantas vezes não me lembrei já de fazer isso no restaurante da IKEA!) (mas nunca fiz, por causa do "maldito inquilino", como naquela tira da Mafaldinha), mas lembrei-me que era um estudo sociológico e ganhei coragem. Cientista sofre!, que o diga a Madame Curie.
Trouxe um cheeseburger, batatas fritas, água com gás e bocadinhos de maçã.Quando chegou o momento tã tã tã tãããã do brinquedo, o senhor da caixa mostrou-me uma folha plastificada com todos os brinquedos que estão a dar esta semana, e deixou-me escolher, sem me explicar quais eram os de menino e quais eram os de menina. Simpático! Mostrou ter grande confiança nas minhas capacidades intelectuais.
Escolhi a Hello Kitty de braços abertos a levitar por cima da Europa, virada para o sul. Lembra-me um bocadinho a Angela Merkel a acolher refugiados.
Em vez de fazer como a Rita do Texas, almoçar aquelas porcarias com um copo de tinto servido num copo Riedel, comi ali mesmo, com as batatas espalhadas no tabuleiro, mas de óculos escuros e com o braço a tapar tudo, que nos tempos que correm uma pessoa tem de ter muito cuidado com a sua imagem.
Na caixa tinha um foguetão para recortar e montar, e um pequeno questionário, para as crianças se habilitarem a certos prémios. Queriam saber quantos planetas se viam na caixa (sem contar o sol, dizem eles) (acho que vou fazer queixa a um jornal qualquer, isto é uma formulação que induz as crianças em erro). Os prémios são: um fim-de-semana com a família toda no Movie Park (acho que vou fazer queixa a um jornal: os pais põem os filhos a contar planetas e descontar estrelas, e no fim aproveitam para se alapar no Movie Park à boleia do trabalho infantil dos filhos?! está mal); 1 x flatrate durante um ano inteiro no MyToys; 3 x Nintendo 3DS; 10 x assinatura anual para a revista das tartarugas ninja; 20 x jogo de tartarugas ninja; 10 x não sei quê para o Nintendo.
Acho que não vou preencher o questionário, porque ainda me arrisco a ganhar as assinaturas da revista da tartaruga ninja, e depois leio, e fico cheia de dúvidas sobre o meu género.
A caminho de casa ocorreu-me que devia ter trazido antes as tartarugas ninja, porque tenciono dar o brinquedo a uma criança qualquer, e na vizinhança só há rapazes, e não sei se se interessam assim tanto por uma metáfora da Angela Merkel.
08 março 2016
ora então saia uma florzinha para a mesa esquecida ali no canto...
I. Humor alemão:
Tradução:
Mulheres inteligentes conseguem chegar a todo o lado.
Mulheres inteligentes conseguem chegar a todo o lado.
(Isso é importante ao fazer limpezas)
II. E já que hoje é o dia internacional da mulher, convido os meninos e as meninas a escrever cem vezes a palavra "discriminação"
(e os que escrevem "descriminação", duzentas vezes)
a ordem natural e eterna das coisas (2)
A propósito do meu post "menino ou menina", o Luís Aguiar-Conraria criticou, em conversa privada, a minha posição, porque se fica com a ideia de que os pais não contribuem nada para a socialização das crianças, quando de facto contribuem, nomeadamente impondo restrições.
Penso que os pais contribuem para a socialização das crianças antes de mais com o exemplo. As imposições, e em particular as regras que os pais não cumprem, de pouco servem. No caso da minha família, é ainda mais complexo, porque criámos os filhos entre várias culturas diferentes: Portugal, Alemanha ocidental, Califórnia, França, ex-RDA, Berlim - com o cristianismo/catolicismo como elemento de base. Antes de lhes impor determinada regra ou obrigação, surgia-me sempre a dúvida: em que país é que isto é uma verdade absoluta? Para que país e sociedade os estou a preparar? Isto que estou a dizer é a minha vontade, quiçá capricho, ou corresponde a uma ordem superior a todos nós?
Ainda hoje lembro o meu choque ao ver amigos portugueses obrigarem a filhinha de dois anos a dar o seu brinquedo favorito à minha, para que aprendesse a partilhar. Para os alemães que conheço, isto seria uma violentação da criança, um gesto de prepotência dos pais. Nos EUA, um miúdo da vizinhança insultou os meus filhos por eles se recusarem a emprestar-lhe a bicicleta. Na Alemanha, nenhum rapazinho se atreveria a exigir que outra criança lhe emprestasse um brinquedo. Uma conhecida nossa, americana, explicou-me que os meus filhos estavam certos na sua recusa - mas não sei se, nesse julgamento, teve algum papel o facto de o outro miúdo ter pele escura. Na Alemanha, o corpo de uma criança é só dela. Em Portugal, as crianças são "objectos de palpar" - que o diga a filha dos meus amigos, loiríssima, que numa romaria minhota teve um ataque de nervos porque toda a gente que passava por ela lhe tocava o cabelo. Na Alemanha, um menino de unhas pintadas ou a passear uma boneca num carrinho não choca, mas em Portugal já se arrisca a ser gozado. Crianças a dar beijinhos umas às outras num infantário português é algo normalíssimo, no infantário californiano dos meus filhos era uma perversão terminantemente proibida. A minha filha podia andar nua nas praias portuguesas ou nos lagos alemães, mas na Califórnia tinha de ser muito cuidadosa para ninguém lhe ver as cuecas debaixo da saia. Ah, a Califórnia... por causa dos seus calções de banho europeus, os nossos dois alemães - o pai e o filho de 3 anos - passavam por gays. Podia ficar aqui horas a dar exemplos de diferenças, mas termino já, com uma história muito curiosa que me aconteceu em Weimar: na mesma semana, ouvi o padre dizer às crianças da catequese que nunca-nunca-nunca se deve contar aos adultos o que as outras crianças fizeram, e a professora dizer aos alunos que se deve contar sempre tudo-tudo-tudo. Uma dúzia de anos depois da queda do muro, o padre mantinha os reflexos de defesa contra a perseguição religiosa, e a professora defendia o Estado omnipotente e omnisciente. "Entendam-se!", suspirava eu. Como é que posso dar coordenadas aos meus filhos, se nem sequer as pessoas desta aldeiazita de sessenta mil habitantes estão de acordo sobre o que é correcto e errado?
Atravessei a infância dos meus filhos como um peixe que não sabe se é de água doce, ou de água salgada, ou anfíbio, ou sequer peixe. Muitas vezes disse-lhes que não tinha resposta, e procurámos juntos uma solução que nos parecesse mais adequada àquele caso. À falta de verdades absolutas para tudo e nada, os miúdos desenvolveram a capacidade de observar as situações e os contextos, e de decidir no respeito por si próprios e pelos outros. Se os tivesse criado no meu microclima português, talvez os tivesse educado bem para viver em Portugal. Assim, treinaram a flexibilidade, a capacidade de análise e a auto-estima que lhes permitem adaptar-se facilmente à vida em países diferentes. Tanto melhor, uma vez que hoje em dia ninguém sabe em que país ou até continente os seus filhos conseguirão arranjar trabalho.
O resultado desta educação interactiva? Dois exemplos: aos cinco anos, o rapazinho sabia melhor que eu o que teria feito no tempo dos nazis ("perguntava-lhes porque é que fazem essas maldades") e, por volta dos dez anos, a miúda reagiu à minha tentativa de invocar a pressão social para lhe impor determinado comportamento, dizendo-me: "deixa que isso seja o meu problema, sim?"
[Na foto: no 4º aniversário do miúdo, em San Francisco, em vez do bowling ou do palhaço que faz bonecos de balões, como é uso na terra, optámos por um torneio medieval com estandartes e armaduras feitos pelas crianças. Os pequenos americanos adoraram.]
07 março 2016
a ordem natural e eterna das coisas
(fonte)
Nesta foto, tirada em 1917, vê-se a família da monarquia austro-húngara: o imperador Karl e a imperatriz Zita com as suas quatro princesinhas, no tempo em que o lobby fundamentalista da igualdade acéfala ainda não tinha começado a fazer estragos na sociedade. Da esquerda para a direita: Felix, Robert, Otto e Adelheid.
Menos de um século depois, as fundações do mundo tal como o conhecemos estremecem só porque se pede ao McDonald's que chame "pequenos póneis" aos pequenos póneis, em vez de lhes chamar "brinquedos para meninas". Argumenta-se com reduções ao absurdo e ao ridículo, fala-se até em deixar de distinguir entre roupa para meninos e para meninas (Pedro Ivo Carvalho), como se fosse este o argumento que acabaria com todas as dúvidas sobre o caso, como se os rapazes e as raparigas das famílias abastadas do tempo dos nossos avós não usassem todos os mesmos vestidinhos rendados, bordados e cheios de laçarotes. Teme-se a cedência às forças que querem "esbater as diferenças até ao ponto da mais estéril igualdade" (João Miguel Tavares), e - horror dos horrores! - criar uma sociedade assexuada. Be afraid, be very afraid.
Bem tento, mas não vejo o risco dessa estéril igualdade em chamar "pequeno pónei" a um pequeno pónei, "vestido" a um vestido, "cor-de-rosa" ao cor-de-rosa, e "educadora de infância" a uma educadora de infância, em vez de "brinquedo/roupa/cor/profissão para meninas". Em compensação, chamar "brinquedo para meninas" tanto a um pequeno pónei como a uma bateria de panelas miniatura, "roupa para meninas" tanto a um vestido como a um kilt (como a uns jeans?...), "cor para meninos" ao azul e ao preto, e "profissão para meninos" a astronauta e piloto de corridas, tudo isso implica esbater as características concretas das coisas que nos permite reconhecê-las e ter um posicionamento pessoal perante elas.
Há menos de um século, um vestido era uma peça de vestuário indiferenciada para meninas e meninos, e as crianças dormiam em quartos com decoração unissexo. Gostaria de saber por acção de quem ou de quê é que se decidiu vestir os rapazes como machos desde o dia em que nascem, e há adultos que se sentem confortados e mais seguros nesta exacerbação caricatural de diferenças artificialmente criadas:
(fonte)
Mais: sendo certo, e sendo até uma verdade reconhecida há milénios, que "todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades", pergunto-me por que motivo algumas pessoas se querem agarrar obsessivamente à ilusão de que aquilo que é uso em determinado momento corresponde à ordem natural e eterna das coisas, e não pode mudar ou sequer ser alvo de crítica.
Quanto disto é natural, quanto é cultural, quanto é condicionamento?
E que margem de liberdade damos aos nossos filhos para que eles possam descobrir quem são e como querem ser?
06 março 2016
o retrato do presidente
Num último esforço (diria: quase póstumo) de pedagogia, Cavaco Silva escolheu Carlos Barahona Possollo para pintar o seu retrato como presidente. "Deixe-se lá dessas modernices amalucadas, que eu bem sei que não há rapazes maus", ter-lhe-á dito, "e pinte-me antes uma natureza morta".
Meu dito, meu feito. O artista podia ter-se atrevido a mais. Podia inspirar-se no retrato do Gerhard Schröder feito por Jörg Immendorff, com o chanceler rodeado por macacos e teias de aranha - as teias de aranha podiam ficar, trocava os macacos por vaquinha e cagarras, ficava um retrato muito catita.
(fonte: Welt)
Ou podia, em homenagem ao recuperado "dia da raça" (sim, esta ficou-me atravessada para sempre) retomar a estética triunfante da Leni Riefenstahl (aposto que o Cavaco Silva ia gostar de tão castiço retrato).
(fonte: faheykleingallery)
Mas não. Em vez disso compõe um presidente amarrado à Constituição, com a bandeira da República a fazer as vezes do leão nas imagens da Santa Eufémia. Um presidente emparedado vivo entre os limites democráticos.
(fonte: Expresso)
Já a história de ter mandado fazer dois retratos para escolher um deixa-me uma sensação dolorosa de um presidente que vive acima das possibilidades dos portugueses. Desde que o vi a mandar uma mensagem de Natal com um cenário de vários pinheirinhos de Natal, todos enormes e sobrecarregados de tralha, suspeito que pensa que é a reencarnação do D. João V.
Segundo a tradição, a mando d'El- Rei o Marquês de Abrantes procurou informar-se do preço de um carrilhão tendo-lhe sido indicado o valor de 400.000$00 réis, quantia tida como demasiado elevada para um país tão pequeno. Ao que D. João V, ofendido - era o monarca mais rico do seu tempo - terá respondido: “Não supunha que fosse tão barato; quero dois!” Assim, foi executado em Liége, nas oficinas de Nicolau Levache, o carrilhão da torre norte e, em Antuérpia, na fundição de Willem Witlockx, o da torre sul.
03 março 2016
pressinto que tenho com que me habilitar a uma fatwa minhota
Pelo que tenho lido por aí, o livro "Alentejo prometido", do Henrique Raposo, é um retrato do Alentejo a partir de um conjunto de histórias pessoais ou que ele ouviu a terceiros. Infelizmente, o retrato não terá merecido o aplauso geral - aliás, ainda poucos leram o livro.
Não terá merecido aplauso e, pelo contrário, parece que o autor tem agora uma fatwa alentejana à perna, e que vai haver polícias no lançamento do livro.
(Uma pessoa escreve "fatwa alentejana" e começa logo a pensar em anedotas, tipo: coitado do Raposo, vai ter uma morte lenta.)
(Mas calateboca, que bem sei que os alentejanos não merecem.)
(De facto, há anedotas que me fazem rir - por exemplo: alentejanos, Samora Machel - mas me provocam um certo sentimento de culpa. A ideia da anedota é engraçada, mas já não tem tanta graça dar essa ideia das pessoas. Claro que me podem dizer que toda a gente sabe distinguir entre uma anedota sobre um grupo, e a realidade do grupo. Mas tenho as minhas dúvidas. Nomeadamente depois de ter ajudado um colega brasileiro, e ele, muito agradecido:
- Nossa, Helena, você é tão legal - não fazia ideia que os portugueses são legais assim.
- Desconfio que andaste a ouvir demasiadas anedotas de português!
- Pois é...)
Em todo o caso: invejosa como sou, também me apetece uma pequena fatwa à portuguesa. Vou experimentar provocar uma fatwa minhota: junto algumas histórias da minha infância, teorizo a partir delas (muito à maneira daquela velha piada "todos os índios andam em fila indiana - pelo menos o que eu vi, andava") e depois é só arranjar um pateta que me publique o livro sem eu ter de pagar o meu trabalho e o dele.
Conto a história da Ana, a antiga empregada da minha avó, que para me mostrar que o filhinho dela era fino como um alho lhe gritava "ai foge, meu filho da puta, que se te apanho fodo-te os cornos todos!", e ria da esperteza do pequenito, que fugia a toda a velocidade nas pernas bambas. Já tenho aqui muito com que encher chouriços no capítulo "A ternura rude dos pais minhotos".
Conto o bairrismo ferrenho das aldeias - as raparigas que não podiam casar na freguesia vizinha, os gentílicos inventados para insultar os de fora (por exemplo: chamavam Bilachuôtos aos de Vila-Chã). Seria o capítulo "As vizinhas da ira".
Conto o episódio daquela mulher a quem deu uma urgência no meio dos campos, e aninhou-se ali mesmo, por azar logo na altura em que passou um compadre, que não tinha como fazer de conta que não via, de modo que se lançou na fuga para a frente, olhou a direito para ela e disse "é a vida...", e ela, aninhada e de pernas escanchadas, "tem de ser!". Podia chamar a este capítulo "Diálogos bucólicos".
Conto histórias da criada do padre, e teorizo sobre... - oh, isto aqui dava para vários capítulos, todos eles de sumarento nome.
Conto sobre aqueles súbitos restolhares - na loja do vinho, no palheiro, num quarto onde não devia estar ninguém. "Apontamentos para uma petite histoire do sexo furtivo".
Faço uma compilação de máximas. Ah, as frases dos minhotos! Uma das minhas favoritas é "oh, os ricos também cagam e meijam como a gente!" - quais comunismo quais carapuça, os minhotos resolvem a luta de classes a seu favor com uma simples frase.
E as histórias de cemitérios. O suicídio está para os alentejanos como o cemitério para os minhotos. Tenho histórias de trágico surrealismo e maravilhoso fantástico. O García Márquez, comparado com as minhas histórias de cemitérios, é um menino de coro.
Ora então, é arregaçar as mangas e começar a escrever. Tenho a certeza que vou ficar tristemente célebre. Fatwinha, és minha!
02 março 2016
menino ou menina
(fotos tiradas de um post sobre "rapazes e bonecas" - em alemão)
A empresa fez esta mudança sem dramas, mas algumas pessoas ficaram chocadas. Se bem entendi os comentários nos jornais online (também, quem me mandou ler?!), teme-se que os miúdos dêem todos em homossexuais, por terem liberdade de escolher entre um pequeno pónei e um transformer.
Nestas discussões fico sempre muito impressionada com a falta de confiança na Natureza. Até parece que a homossexualidade tem um tal poder de sedução que nos obriga a orientar e vigiar permanentemente as nossas crias, para que elas não cedam à "tentação dos maus caminhos".
Podia continuar a brincar com esta história, mas o caso é sério. Deixando de lado a questão do condicionamento para corresponder a determinados papéis predefinidos, quero chamar a atenção para a vida emocional dos nossos rapazinhos. Para os proteger, era importante evitar ao máximo a classificação "para meninas". Na nossa sociedade, infelizmente, um rapaz que se interesse por coisas de meninas é cruelmente ridicularizado. Um miúdo tem de pensar duas vezes antes de pedir "um brinquedo de meninas" na caixa do McDonald's. Uma miúda pode usar jeans à vontade, um rapaz não pode usar vestidos. A miúda pode jogar à bola (agora já nem é maria rapaz, é apenas desportiva), o rapaz não pode brincar com bonecas. Não quero dizer com isto que os rapazes devam ser obrigados a brincar com bonecas, mas que, simplesmente, não deviam ser obrigados a preferir determinado tipo de brinquedos só porque é isso que se espera deles e não têm coragem de assumir que gostam de outros. Qual é o problema de um rapaz experimentar saias, maquilhagem, pintar as unhas? Se quiser fazer isso, qual é o problema? O caminho para a maturidade passa pela escuta de si próprio, e não pelo acomodamento a formas predefinidas.
Como se dizia antes: menino ou menina? Não interessa! O importante é que tenha saúde.
E por falar em saúde: tanta conversa sobre os brinquedos do McDonald's, e ninguém informa que aquilo não é alimentação decente para ninguém, e muito menos para as nossas crianças?!
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A propósito de rapazes e bonecas: conheço um miúdo a quem a mãe deu um boneco de pano quando tinha três anos. Era o "Peterle", e ficaram grandes amigos. Ora, um boneco de pano que acompanha um rapazinho para todo o lado, acaba por se estragar. Ao fim de uns anos o Peterle já estava todos remendado e meio careca. Quando o infantário organizou uma pajamas party para os miúdos que passavam para a escola primária, o rapazinho quis levar o seu Peterle. Temendo que ele fosse gozado por levar uma boneca, para mais naquele desgraçado estado de conservação, a mãe perguntou-lhe:
- Achas mesmo boa ideia levar o Peterle?
- Tens razão - respondeu ele, depois de pensar um bocadinho. Os outros meninos podiam ficar com inveja.
gralha
Uma amiga muito mais espirituosa que eu sugeriu-me mais uma dica para o meu manual de auto-ajuda para a alegria:
Dica nº 58: antes celebrar os pica-paus que perder tempo com as gralhas da vida!
(Estava capaz de passar esta para as top ten das dicas do tal manual)
Dica nº 58: antes celebrar os pica-paus que perder tempo com as gralhas da vida!
(Estava capaz de passar esta para as top ten das dicas do tal manual)
pica-pau
No caminho para o meu lago há agora um pica-pau.
Esta manhã, ao passar por ele (melhor dizendo: pela barulheira que ele fazia) lembrei-me daquela tarde em que o Matthias, pequenino, entrou em casa a correr, agarrou na máquina fotográfica e saiu disparado. Voltou pouco depois, feliz, para me mostrar as fotografias que tinha tirado. Vitorioso:
- Olha, mãe, o primeiro pica-pau da minha vida!
[dica nº 57 de um manual de auto-ajuda para a alegria: celebrar os pica-paus que a vida te dá]
[se me deixassem mandar, o plural de pica-pau era picam-pau]
Esta manhã, ao passar por ele (melhor dizendo: pela barulheira que ele fazia) lembrei-me daquela tarde em que o Matthias, pequenino, entrou em casa a correr, agarrou na máquina fotográfica e saiu disparado. Voltou pouco depois, feliz, para me mostrar as fotografias que tinha tirado. Vitorioso:
- Olha, mãe, o primeiro pica-pau da minha vida!
[dica nº 57 de um manual de auto-ajuda para a alegria: celebrar os pica-paus que a vida te dá]
[se me deixassem mandar, o plural de pica-pau era picam-pau]
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da minha vida vê-se um lago
01 março 2016
concerto para os refugiados na Filarmonia - agora mesmo, em directo e gratuito, no DCH
Daqui a nada começa a transmissão (gratuita) do concerto especial para os refugiados (isso mesmo: convidaram refugiados para um concerto na Filarmonia).
Três orquestras berlinenses, três maestros, três compositores:
- Daniel Barenboim ao piano e a dirigir a Staatskapelle - concerto para piano em ré menor, de Mozart
- Iván Fischer a dirigir a Konzerthausorchester - sinfonia nº 1 de Prokofiev
- Simon Rattle a dirigir os Filarmónicos - sinfonia nº 7 de Beethoven Enjoy.
Ainda não a vi, mas parece que a Angela Merkel está sentada entre os refugiados.
O director deu as boas-vindas em árabe. E convidou todos para, no fim do concerto, ficarem pelo foyer da Filarmonia, para brindarem juntos ao futuro.
Aqui.
Três orquestras berlinenses, três maestros, três compositores:
- Daniel Barenboim ao piano e a dirigir a Staatskapelle - concerto para piano em ré menor, de Mozart
- Iván Fischer a dirigir a Konzerthausorchester - sinfonia nº 1 de Prokofiev
- Simon Rattle a dirigir os Filarmónicos - sinfonia nº 7 de Beethoven Enjoy.
Ainda não a vi, mas parece que a Angela Merkel está sentada entre os refugiados.
O director deu as boas-vindas em árabe. E convidou todos para, no fim do concerto, ficarem pelo foyer da Filarmonia, para brindarem juntos ao futuro.
Aqui.
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filarmonia de Berlim
já perdeu
(foto)
Por trás de um guichet de caixa dos museus do Vaticano (pelo menos era onde estava, da última vez que lá fui) (nos museus do Vaticano estão sempre a mudar o lugar às coisas, um dia destes ainda dou com a Capela Sistina num centro de refugiados) (ou vice-versa, que com este Papa já nada me admira) (isto não é uma crítica) como ia dizendo há nem sei quantos parêntesis, por trás de um guichet de caixa dos museus do Vaticano há uma cópia da estátua falsa do grupo de Laocoonte. Na escultura verdadeira, encontrada em 1506, faltava o braço direito do herói. Em vez de exporem o homem assim maneta como saíra da terra, resolveram dar-lhe um braço. Um braço corajoso, a lutar contra a serpente, senhor da situação. Quatrocentos anos mais tarde descobriram o braço verdadeiro, e o Vaticano precisou de mais cinquenta anos para se render à evidência: o braço está torcido para trás, a serpente já ganhou, Laocoonte e os seus filhos, de olhar angustiado e horrorizado, estão perdidos.
(Isto vem tudo na wikipedia - caso seja invenção, não é minha)
Lembrei-me do Laocoonte esta manhã no duche, ao cantar "Ne me quitte pas". Quando canta "laisse-moi devenir l'ombre de ton ombre, l'ombre de ta main, l'ombre de ton chien", Jacques Brel já perdeu. Ele não sabe ainda, e ergue o poema como o braço direito da escultura errada, perante o nosso olhar incrédulo, angustiado e horrorizado: já perdeu.
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