27 fevereiro 2016

Jewgeni Onegin


Roubei a fotografia a um post do Wladimir Kaminer, que passo a traduzir:

Foi com alegria que me dei conta de que, graças à ópera moderna, as velhas tradições russas não desaparecem. A minha mãe e eu quase chorámos quando vimos o poster do Onegin na estação de metro. Pois qual é o russo que não gosta de nadar com um samovar? Eu prefiro nadar de costas, pois permite-me simultaneamente fazer desporto e observar a vida a acontecer à minha volta. Por regra, nado com o samovar em cima da barriga, e sorvo o chá do pires. A minha mãe leva sempre a compota para a piscina. 

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Fui ontem ver o Jewgeni Onegin à Komische Oper. Do que vi, quase só se aproveita este texto do Kaminer.

Há tempos, fomos à Komische Oper numa madrugada de domingo. Era o dia de venda das roupas e dos adereços de produções antigas, que fazem de dois em dois anos. Abria às dez, mas nós chegámos às nove, e a fila já estava bem comprida. Estava lá a Barbara (ou teria outro nome? Já me esqueci. Em todo o caso: é a pessoa na primeira fotografia. Vinha com um vestido de seda levíssimo, muito elegante, e fartou-se de apanhar frio apesar do casaco de pele. Rimos um bom bocado, porque disse que vinha preparada para arrancar das mãos de toda a gente - olhou para mim de soslaio, temos o mesmo tamanho - os vestidos que lhe agradassem). Meti conversa com as pessoas à volta, fiz aquelas perguntas sem importância nenhuma ("vêm cá comprar coisas para o Carnaval?") mas pelo modo evasivo como responderam, pareceu-me que não seria bem para o Carnaval. Deve haver por aí muitos mundos que desconheço.

Os que chegaram pouco antes de abrir foram obrigados a esperar várias horas ao frio, até que os gulosos como nós se achassem servidos. Foi um fartote: o Ring completo com cantores formidáveis, vários vinil de música clássica, uma colecção de Bossa Nova e Samba de ouvir e chorar por mais - tudo junto por vinte euros, que era o que eu tinha na carteira. Também comprei um chapéu lindíssimo de papoila. Já me podem convidar para um casamento qualquer, vou arrasar.

De modo que ontem estava a ver a ópera, e pelo meio dos tercetos e quartetos que o Tchaikovsky compôs tão bem, olhava para os vestidinhos e os cadeirões, e pensava se na próxima venda quero algum daqueles.




(o meu chapéu de papoila)


(uma senhora na fila para a caixa, com um chapéu de girassol)


Estavam a vender um tutu do Bolshoi. Vinte metros de tule, bordados à mão. 444 euros. Não comprei porque, digamos assim, tive medo que me estivesse muito largo... 







ri melhor...



Já deve estar tudo dito, o que havia para dizer sobre o cartaz do Bloco. Pessoalmente, o que mais me desagrada é o tom de revanchismo que pressinto neste cartaz. Mas pode ser problema meu.
Já o segundo cartaz me parece uma resposta muito bem-humorada à provocação do primeiro. Soubesse a Igreja responder mais vezes desta maneira!



A segunda gargalhada do dia foi amarga: o Correio da Manhã faz uma notícia sobre uma deputada portuguesa ter uma conta Tinder. Diz que tem lá fotografias ousadas: uma de costas, em biquíni, e outra a fumar.
Talvez fosse boa ideia começarmos a abrir os olhos para o facto de que os "guardas da revolução" não são uma coisa só lá desses países retrógrados de fundamentalistas muçulmanos. É muito preocupante que um jornal português nesta altura do séc. XXI ainda ache lícito atacar uma mulher desta forma. 

Também é triste esta "notícia" suscitar comentários como os que li no facebook. Homens muito contentinhos a falar das suas fantasias com políticas e a querer ir ao Tinder ver se fulana ou sicrana lá teria conta. Coitados, confundem o Tinder com uma sex shop de Amesterdão, e não sabem que é um espaço de igualdade e escolha mútua: quem não passar determinados critérios de qualidade, não tem hipótese. Coitados. Coitados. 

Coitados. 


26 fevereiro 2016

"e porque é que se quer tornar alemã?"


Arrasto há anos o projecto de me naturalizar alemã. Quando casei não era possível (tinha de escolher entre as duas, e achei que mais valia continuar portuguesa, porque com o meu sotaque francês nunca conseguiria convencer ninguém de que sou alemã). Quando se tornou possível ter as duas, a Europa ia tão de vento em popa que me pareceu supérfluo adquirir mais uma nacionalidade, se afinal somos todos europeus. Entretanto, surgem sinais preocupantes. A Europa parece em risco de implodir, e talvez no futuro faça realmente diferença ser português ou alemão.

Já tenho os papéis, e até já comecei a preenchê-los. O meu problema é a pergunta "porque é que se quer tornar alemã?" É uma pergunta armadilhada, podem crer! Em menos de nada dou comigo a tropeçar para dentro do chorrilho de disparates que me habita. Só me ocorrem respostas como: porque já sou, os meus amigos portugueses até me chamam alemoa. Ou: porque até já perdi amigos no facebook (sim! para que se veja a dimensão da tragédia!) por andar a defender que a Angela Merkel não é nazi como a pintam. Ou: porque sou a única estrangeira da minha família, e é muito triste quando passamos uma fronteira e o meu passaporte dá nas vistas por ser diferente. Ou: porque se for raptada no Jemen o MNE alemão paga mais que o MNE português. Ou: porque é para isso que me pagam (é verdade: uma vez, ali para os lados da terceira cerveja, os meus amigos fizeram um crowd founding, juntei 6 euros!) (de facto, 6,01 euros, porque uma antipática só deu 1 cêntimo, disse que eu estava muito bem como portuguesa, a grande antipática) (e também há a minha sogra, que quer pagar as despesas todas do processo, para haver mais um eleitor que não vota Alternativa para a Alemanha, mas tenho de prometer que também não voto Die Linke) (estou a pensar ir aos Die Linke perguntar se querem cobrir a oferta da minha sogra).

Claro que podia escrever "porque quero participar no sistema democrático do país onde já vivi metade da minha vida, etc. etc." - mas isso seria demasiado prosaico. Coitados dos funcionários públicos alemães, passam a vida a ler as mesmas frases sem graça. Soubesse eu escrever alguma que provocasse uma alegre gargalhada no cinzentismo daquele escritório!
(Soubesse eu fazê-los rir, sem me desgraçar...)
Para um dia que não tenha nada que fazer, já tenho projecto de vida: preencher formulários de modo a alegrar a vida aos funcionários públicos. Reduzo a taxa de depressão nos serviços, o pessoal até vai trabalhar mais cedo na expectativa de encontrar um dos meus formulários, a produtividade aumenta, e com sorte o presidente Gauck ainda me dá uma medalhinha no 3 de Outubro. Embora eu preferisse a do 10 de Junho, porque trago Portugal no coração e é essa a gentil pátria minha amada, e além disso os rissóis da cozinheira da Embaixada de Portugal em Berlim são extraordinários, uma pessoa fica cheia de vontade de prestar serviços de valor à pátria só para merecer um pratinho bem aviado deles.

[post biblogar]


post entre o divã do psicanalista e a mesa do café

(Este post é vítima de biblogaridade. Por causa da Destreza das Dúvidas, ao qual só vou muito compostinha, de gravata e tal, tirei-lhe frases como "no tempo do papa de sapatos Prada eu não era assim. Mas o papa Francisco, com os seus sapatos cambados e a sua mania de Jesus Cristo para aqui, Jesus Cristo para ali, esfanicou a ordem natural das coisas".
Vou estudar com atenção a letra do "eu tenho dois amores", pode ser que aprenda lá algum truque para gerir o problema. Ou isso, ou uma conversinha com Hegel, para discutirmos um sistema de trialéctica.)


O que mais me custa, nestes 26 anos de Alemanha - mais ainda que a falta de sol e de mar -, é quando as pessoas me dizem que eu, como estrangeira, não posso dizer ou fazer certas coisas. Não acontece muito, mas sempre que mo dizem é desagradável e doloroso. Logo a mim, que estou tão bem no centro do meu mundo, vêm dizer que não posso criticar, não posso sugerir, não posso pisar o risco? Como é que lhes passa pela cabeça que eu posso ser menos que eles?!

Traumatizaram-me. E deve ser por causa deste trauma profundo que estremeço sempre que se diz que os refugiados que não cumprirem as nossas regras devem ser sumariamente recambiados para a terra deles. Que estranho conceito de dignidade humana e de liberdade são os nossos, se apomos permanentemente uma espada de Dâmocles sobre pessoas que estão num terrível estado de dependência e fragilidade? E como será viver permanentemente sob essa ameaça? Atravessas no vermelho - volta para a tua terra! Largas um piropo a desconhecidas - volta para a tua terra! Roubas um telemóvel - volta para a tua terra! És indisciplinado na sala de aulas - volta para a tua terra, e leva a tua família contigo! Andas de bicicleta no passeio - volta para a tua terra! Mandas bocas homofóbicas - volta para a tua terra!

Vamos com calma. Melhor será ficar assente que daqui não sai ninguém, e que as pessoas que precisam da nossa ajuda não são seres humanos de segunda, e muito menos reféns da nossa generosidade. Se queremos que os refugiados se integrem, temos de treinar em conjunto algumas regras básicas: intangibilidade da dignidade humana, igualdade perante a lei. A melhor maneira de ensinar é dar o exemplo.

Surpreende-me a falta de confiança nos seus próprios valores que a Europa tem revelado. Serão eles tão frágeis e abstrusos que uma vaga de imigração correspondente a menos de 1% do total da população os pode pôr em causa e até destruir? Temos tão má impressão dos nossos modelos de vida e de sociedade, que não acreditamos que eles possam ser atraentes para quem vem viver entre nós?
Acredito que, muito pelo contrário, se soubermos ser o que dizemos que somos, os nossos novos concidadãos saberão orientar-se neste quadro. De facto, o maior desafio não é ensinar-lhes os nossos princípios e regras - é nós próprios termos consciência deles, e saber conceder aos recém-chegados a mesma margem de tolerância que concedemos aos nacionais. De certo modo, a crise dos refugiados pode ser uma oportunidade para a Europa tomar consciência de si própria e reencontrar-se consigo.

Recentemente, numa mesa de café, ouvi alemães queixarem-se da "invasão". Naquele tom exaltado de quem tem a coragem de afrontar o politicamente correcto, acusavam a dificuldade de trabalhar nas salas de aulas com alunos que não falam alemão e não respeitam as professoras, a esperteza de alguns refugiados que "chegam cá cheios de exigências", o "só estão interessados no nosso rico dinheirinho", os "inúmeros casos de abusos sexuais, que nenhum jornal se atreve a publicar" - os queixumes habituais, com o habitual refrão de estamos perdidos, vem aí o fim do mundo.
Não entendo: então uma escola com dezenas de professores adultos não é capaz de dizer a um adolescente que ganhe juízo? E qual é a dificuldade de dar a um refugiado aquilo a que ele tem direito, e fazer-lhe ver que há limites legais e processuais para atender os seus desejos e necessidades? O que leva pessoas de uma sociedade - tão avançada e com tanta maturidade democrática como esta - a inventar um papão para poder exibir um medo irracional e infantil?

À mesa do café, respondi que me sinto nos antípodas desses medos, e que o meu problema é outro: é sentir-me egoísta por ter uma casa de férias que quase não é usada quando há tantas pessoas a viver em condições dramáticas. Ou o desconforto perante o número cada vez maior de casas vazias, usadas para especulação. Como é possível brandirmos os valores cristãos e humanitários da herança europeia, e pormos a protecção da propriedade privada acima da ajuda humanitária? Perguntei-lhes: o que impede o Estado de requisitar as casas vazias para alojar refugiados? Desde que as liberte mal sejam realmente necessárias, e faça as obras de recuperação que for preciso, não vejo nisso qualquer inconveniente. Além de ter uma grande vantagem: em vez de se criar guetos de refugiados, as pessoas são distribuídas uniformemente pelas cidades, uma condição sine qua non do sucesso na integração.
Olharam-me incrédulos: eu, como estrangeira, não me devia pôr a dar conselhos aos alemães sobre as regras, a política e a gestão da propriedade privada deles. Olharam-me com ar de "volta para a tua terra!"

(Um divã de psicanalista junto a esta mesa de café seria uma bela medida de saúde pública: os meus amigos tratavam a sua Angst, e eu a minha angústia da rejeição.)


25 fevereiro 2016

reincidir



Dido e Eneias, com coreografia de Sasha Waltz.
Belíssimo, ainda mais que da primeira vez.

Em suma: mais um vício.


como se fosse uma apresentação

Meu único e grande amor,

casei-me.


Começava assim a carta que um rapaz enviou à amiga de uma amiga minha. O que já me ri por conta disto. Mas eis que me dou conta de andar a fazer a mesma figura: o facebook, mais a "enciclopédia ilustrada" no facebook, e agora a Destreza das Dúvidas. É difícil gerir este meu único e grande amor - o Dois Dedos de Conversa, e sobretudo o que devo aos seus leitores - e as escapadinhas que tenho andado a fazer por aí.

Ontem publiquei o primeiro post na Destreza das Dúvidas. Embora tenha algumas histórias que já aqui contei (e o que eu gosto de fazer amigos novos, para poder recontar as minhas histórias!), publico-o também no Dois Dedos de Conversa. Porque vocês sabem que o primeiro amor nunca esquece, e que se a vida me levar por outros caminhos acabarei por descobrir que todos eles, sem vocês, são ínvios, etc. etc. etc.

Ora então, ecce post:
 

Quando mudámos de Weimar para Berlim, inscrevemos a nossa filha adolescente numa escola católica. Foi conselho de uma amiga, directora de uma escola confessional. Que a miúda ficava mais acompanhada nesta cidade de quatro milhões, e que a escola era muito bem frequentada e tinha um ambiente protegido, patati-patata. Para quem vinha de uma cidade de 60.000 habitantes, onde todos se conhecem e acompanham atentamente a vida dos outros, aqueles argumentos pareceram-me pertinentes. Depois de terminar o secundário e deixar essa escola, a nossa filha desenganou-nos cruelmente: "escola católica = elite = dinheiro. São os melhores sítios para criar novos consumidores de droga, ó meus queridos e ingénuos paizinhos!"
A minha amiga contava histórias mirabolantes sobre as famílias que procuram essas escolas. Como a de ter perguntado aos pais de um miúdo com milhentos nomes próprios como é que ele queria ser chamado e os pais, magnânimos: oh, não é preciso complicar, "senhor duque" basta. Infelizmente, contou a minha amiga, descobriu-se que já não havia mais nenhuma vaga.
Em todo o caso: um belo dia, pouco depois da nossa chegada a Berlim, dei comigo no fim de uma reunião de pais a comer pizza em frente a uma duquesa muito simpática, que se chamava Mary e se fazia tratar por tu. Seguiu-se um convite da Mary para um pequeno-almoço na sua casa. Fiz uma bola de Lamego, e fui. À mesa, era a única plebeia. Todas as outras senhoras eram condessas, marquesas, duquesas, sei lá. Também havia uma princesa, e vinha vestida com jeans confortáveis, botas de couro e um camisolão velho e largo cheio de borbotos. Já não se fazem princesas como antigamente, no tempo do Walt Disney. O pequeno-almoço foi óptimo. A bola de Lamego foi muito louvada, anotaram a receita (sou a Catarina de Bragança da Alemanha: daqui a uns séculos o mundo falará da tradição alemã de fazer um pequeno-almoço de amigas com bola de Lamego). Como ia dizendo: foi um pequeno-almoço óptimo, elas iam contando as suas histórias e eu ia descobrindo pelas entrelinhas que a nobreza alemã é como as bruxas espanholas: ninguém acredita nelas, pero que las hay, pero que las hay. Também contei as minhas histórias, imensas coisas interessantíssimas da área da sociologia no tempo de Jesus Cristo, e elas estavam pasmadas, até parecia aquela cena de Jesus no meio dos doutores do templo. Depois não sei que aconteceu, nunca mais devem ter tomado pequeno-almoço, coitadas, porque não recebi nenhum convite.

Voltei a cruzar-me com a Mary no Estádio olímpico, durante a missa do Papa Bento XVI. Calhou de nós, os plebeus, termos convite para os lugares VIP mesmo atrás da Angela Merkel, e os duques estarem no terceiro anel. Às vezes desconfio que Deus é um grande cínico. Ou distraído. Ou republicano.

Alguns anos mais tarde, faz agora algumas semanas, vesti-me confortavelmente e fui com o cão distribuir pela cidade folhetos para um evento dos Portugueses em Berlim. Ao passar pelo consulado tive tanto azar que me cruzei com o novo Embaixador, e mais azar ainda: fomos logo ali apresentados. Ele de uma elegância impecável, no seu sobretudo cognac, e eu feita princesa alemã: camisola larga e cheia de borbotos, jeans velhas, e as minhas botas favoritas, iguaizinhas às da Laura Ingalls. O cão, esse, estava um autêntico príncipe encantado antes de lhe darem o tal beijo. Parecia um cão de sem-abrigo com a trela velha e cheia de emendas, do tempo em que a roía para ir à sua vidinha em vez de esperar por nós (é um rafeiro português independente e cheio de personalidade). Como se não fosse já suficientemente mau, da segunda vez que me cruzei com o Embaixador estava vestida de minhota. Não sei se ele me dará uma terceira oportunidade.

Para o caso de um dia, por sorte, me ser permitido reajustar a imagem perante o novo Embaixador, estou preparada: já comprei uma trela nova para o cão. Numa loja cara e tudo, um luxo. Agora, quando o deixo à porta do supermercado, venho repetidamente espreitar à porta, não vá alguém querer roubar a trela de marca e levar o rafeiro agarrado. Estava capaz de inventar uma nova modalidade de fitness: põe um saco de cebolas no carro das compras, vai à porta do supermercado. Põe dois litros de leite no carro das compras, vai à porta do supermercado. Põe um pacote de arroz no carro das compras, ...

E assim vai a vida, em Berlim. Vai e vem, vai e vem, e a cada coisa pergunta que nome tem.



24 fevereiro 2016

há muito tempo que não dou música neste blogue

De momento, é o bailado Sheherazade, de Rimsky-Korsakov que toca em repeat. Se tivesse uma bucket list, escrevia mais uma linha: ver este bailado num palco, interpretado por uma boa companhia.
Sem bucket list, o desejo suspende-se num lugar difuso.
Tanto melhor: em vez de riscar de uma lista, vou-me deixando surpreender pela vida, e acrescentando à página da alegria.




Ontem fui ao Lunchkonzert na Filarmonia. Era um almoço de negócios, que os meus parceiros são do melhor, combinam almoços de negócios na Filarmonia (mais uma coisa que nunca escreveria numa bucket list, e me dá uma cor feliz à vida).

Começou com Tristia, de Vallée d'Obermann, de Franz Liszt. Eles a tocar, e eu a chorar copiosamente, porque ainda estou com a Berlinale flu, e tentava controlar a tosse de tísica.
Ia apanhando uma desidratação com tanta lágrima, mas ganhei: nem uma tossidela.

A peça é maravilhosa. Pode ser ouvida aqui.
Mas acaba depressa demais. Bem podia continuar assim durante cinco horas. AquiMais uma vez. E outra. E outra. E outra. E outra.

Depois de Liszt, Robert Schumann: trio para piano nº 1 em ré menor op. 63. Partilho o terceiro andamento, o meu favorito, numa versão com ruído, mas com a alma toda de músicos excelentes:




E que mais? Ah, já me esquecia: o almoço de negócios correu bem.


sinal de maturidade da Democracia

(foto)

Em 1990, quando foi preciso tomar uma decisão de grande impacto para o país, Kohl mentiu: afirmou que a reunificação alemã não teria custos.

Em 2015, quando foi preciso tomar uma decisão de grande impacto para o país, Merkel disse a verdade: estamos perante um desafio que vai ocupar toda a nação durante décadas.


23 fevereiro 2016

esta Ellen, este Obama...



O modo como ela reage à comoção é fantástico. E o modo como ele entra na brincadeira é fantástico.
Agarrem-me, que passava o resto do dia a pôr coraçõezinhos neste post.

(Quem preferir ler, em vez de ouvir: aqui)


22 fevereiro 2016

de boas intenções...



"OS ESTRANGEIROS ROUBAM-NOS OS EMPREGOS!!!"
"Papá... porque é que agora decidiste que queres trabalhar?"

À primeira vista tem graça. Mas logo soam os sinais de alarme: a seguir aos refugiados, o grupo mais atingido por esta crise são os mais pobres de cada país. Há menos disponibilidade dos serviços estatais para os atenderem e apoiarem, há menos dinheiro.

A luta contra o racismo e a xenofobia não pode ser feita com as mesmas armas do racismo e da xenofobia. Não podemos ceder à tentação de generalizar, e muito menos ridicularizar as pessoas de determinados grupos sociais, como - no caso - os desempregados de longa duração.


21 fevereiro 2016

Berlinale 2016 - dia 2


Se inteligência é a capacidade de aprender, de se adaptar a mudanças e de lidar com a complexidade, as filas dos bilhetes da Berlinale estão cheias de Einsteins. E eu mais Einstein que os outros todos: depois do fiasco da quinta-feira, passei a sair de casa de madrugada, com o Joachim. Ficava na 17 Juni, atravessava o Tiergarten a pé à hora mágica do nascer do sol, e chegava cedo à fila para a caixa que abre às 8:30. Em pé, consultava febrilmente as folhas do dia, anotando os filmes para os quais não é preciso ter bilhete, e fazendo planos alternativos para o caso de não haver mais lugares.

Filas da Berlinale, é do melhor: as pessoas conversam, comentam os filmes que vêem, as expectativas que têm... Uma festa. No meu primeiro dia conheci uma mulher que faz programação de filmes para crianças e jovens, e me contou do refugiado de 18 anos que tem a seu cargo. O rapaz esteve seis meses em Berlim à espera de se registar, e nada. Foi para um Estado vizinho, registou-se em dois dias. Agora vai ser penalizado por voltar para Berlim, em vez de ficar onde se registou: não terá apoio da Segurança Social durante dois meses. Ela encolhe os ombros: "fica na minha casa, pago eu o que for preciso". Falou de haver agora burqas em Charlottenburg, onde mora. Burqas! Entre as pessoas à nossa volta na fila, havia consenso: há limites. A nossa sociedade não pode permitir mulheres cobertas por burqas e niqabs. "E como é possível que venham a fugir dessa gente, e tragam os seus piores tiques?", perguntou alguém. "As mulheres de burqa vêm do Afeganistão. Mas a maior parte dos sírios não foge do Daesh - vêm a fugir ao Assad", foi a resposta.
Gostaria muito de ver estatísticas sobre isto: quem são, de que país vêm, de que fogem?

O tema mudou. Fiquei a saber porque é que não se deve usar o saco da Berlinale do próprio ano: é muito fácil haver uma troca. A programadora de filmes infantis contou o pânico de chegar a casa, e descobrir que as chaves estavam no saco que outra pessoa levou por engano. Também me revelaram um truque fantástico: as sessões da manhã para a imprensa nunca enchem completamente. É muito fácil para os simples acreditados irem à sessão das nove - e com sorte conseguem também lugar na do meio-dia. "Os jornalistas ainda estão a curar a ressaca da noite anterior", disseram.

Levantei os meus bilhetes, informei-me sobre as possibilidades de milagre para conseguir entrar no workshop da Meryl Streep no domingo de manhã, e fui comprar bilhetes para a família, na fila dos comuns mortais. Do que me fui lembrar! A fila não estava comprida, mas demorava imenso tempo, porque havia muitos turistas que tinham vindo para o fim-de-semana na Berlinale, e, quando chegavam à caixa, em vez de pedir "2 do 120011, 2 do 130012, etc.", perguntavam "o que é que ainda tem até domingo às 2 da tarde?", e depois "esse filme de que país é? e sobre quê?"

À minha frente estava um refugiado mergulhado no seu smartphone. Provavelmente aproveitava as 2 horas grátis de wifi no Arkaden da Potsdamer Platz. Volta e meia uma senhora de meia-idade, com um ar um pouco ansioso, vinha ter com ele, e dizia-lhe em inglês que filmes se tinham esgotado entretanto. Ele ouvia em silêncio, ela voltava para o seu posto de observação, ele voltava para o smartphone. E eu atrás dele, a pensar que depois dos horrores de teres de fugir, e de teres de atravessar a Europa em condições tão difíceis, chegas à terra prometida e ficas à mercê de uma boa e ansiosa alma que faz questão de te ajudar à sua maneira, quer queiras quer não.
Talvez não fosse o caso daqueles dois, talvez nem ele fosse refugiado nem ela ansiosa. Mas a questão permanece: o absoluto estado de dependência da boa vontade e da caridade alheia torna os refugiados ainda mais vulneráveis.  





À tarde fui a uma competição de pitching organizada pelo Raindance. As pessoas têm dois minutos para contar ao público e ao júri a ideia do filme. Ao fim de minuto e meio toca um gongo, ao fim de dois minutos toca de novo, e se a pessoa continuar a falar, quem não quiser ouvir mais pode começar um aplauso lento. "A very british slow aplause", dizia o organizador. Também lhe podiam chamar mobbing, era horroroso. A pessoa apresentava o filme, dois membros do júri comentavam, o apresentador impedia qualquer espécie de diálogo, passava-se ao seguinte. Puro show. Teria a sua graça, se as pessoas não viessem com tantas esperanças de conseguir um apoio, e se não lhas destruíssem liminarmente. Por exemplo: o comentário dado à jovem de Hong Kong que apresentou uma história de emancipação feminina e sexual, uma história trágica e que fazia pensar, foi: "transforme isso numa curta cómica". Falei com ela no fim, disse-lhe que achava a sua história muito boa. Ela comentou que era dificílimo fazer um filme sobre este tema em Hong Kong, porque o mercado chinês não está nada receptivo.    
A minha amiga teve mais sorte. O pitch dela foi muito aplaudido, e os membros do júri elogiaram-no bastante. Bem precisa: anda a juntar cinco milhões para fazer o seu filme.
Ao meu lado estava sentado um inglês que se mudou recentemente para Berlim. Realizador, autor, fotografia, actor. Fazia tudo. Queria que eu lhe dissesse quais eram os melhores filmes desta Berlinale. "De que tipo de filme gosta mais?", perguntei-lhe, tentando orientar-me entre os quatrocentos do festival. "De bons filmes", respondeu. Parvo. E ainda dizem que é fácil fazer small talk. Por sorte começaram os pitches. O meu vizinho era péssimo colega: ao fim de dois minutos, começava logo a bater palmas pausadamente. Parvo e antipático. Por causa das coisas, quando foi a vez dele, nem sequer o ouvi. O que foi asneira: um dia destes ainda faz o filme, e fica famoso, e eu tinha aqui uma roupinha suja para vender ao Correio da Manhã, mas nunca mais vou saber quem era, e que filme trazia.

Em todo o caso: a mim é que não apanham a fazer pitching. Prefiro ir lavar escadas para juntar dinheiro para fazer um filme...

Berlinale 2016 - dia 1



A minha Berlinale começou mal: na quinta-feira, em vez de ir buscar os bilhetes do dia seguinte às 7:30 da manhã, como quem se interessa, apareci a meio da tarde, e sem ter o programa estudado. Quando tinha finalmente decidido que filmes queria ver na sexta-feira, já não havia bilhetes disponíveis.
Mais me valia ter ido estudar o programa para a Audi Berlinale Lounge, um pavilhão instalado mesmo junto ao tapete vermelho. Assim, quando chegasse ao momento de vir embora de mãos vazias, pelo menos já estava na varanda a meia dúzia de metros dos VIP que chegavam para a cerimónia de abertura do festival.

Mas não. Acabei empoleirada entre dois canteiros ao fundo da praça, em equilíbrio precário, olhando para o écran gigante que mostrava o Ai Weiwei (tinha vindo fazer uma instalação no Gendarmenmarkt, cobrindo as colunas do Konzerthaus com coletes de salvação), a Meryl Streep (muito jeitosinha num vestido confortável e agasalhado) (estou em crer que as verdadeiras artistas são as que não se sentem obrigadas a passar frio no tapete vermelho da Berlinale), os irmãos Cohen, o George Clooney, e todos os outros. Melhor ideia, sem dúvida, era ir ver aquelas cenas em casa, confortavelmente sentada no sofá em frente à televisão, mas queria sentir o entusiasmo da multidão. Há algo embriagante no clamor alegre do público, nos gritos dos jornalistas, nos apelos dos coleccionadores de autógrafos.


Berlinale 2016 - Balada de um Batráquio

Faz um bocado de impressão estarem todos a falar do ouro para a curta "Balada de um Batráquio", louvando por ser ouro, por ser mulher e por ser tão jovem. E por ser portuguesa, claro.

O filme é mesmo curto. Se me deixassem mandar, tirava do telejornal meia dúzia de minutos de futebol e de peças tipo "como é que se sentiu?", e passava este filme em horário nobre. Para que todos saibam de que estão a falar.

É que o mais impressionante não é ser ouro para Portugal, nem para uma mulher, nem para uma jovem. O mais importante é que este filme é um bofetada muito bem dada nos nossos brandos costumes, e na cegueira com que convivemos diariamente com o racismo e a exclusão.



(Entrevista com a Leonor Teles a partir de 7:30)


Do programa da Berlinale:


BALADA DE UM BATRÁQUIO clip#01 from Uma Pedra no Sapato on Vimeo.

“Once upon a time, before people came along, all the creatures were free and able to be with one another”, narrates the voiceover. “All the animals danced together and were immeasurably happy. There was only one who wasn’t invited to the celebration – the frog. In his rage about the injustice, he committed suicide.” Something Romani and frogs have in common is that they will never be unseen, or stay unnoticed. In her film, young director Leonor Teles weaves the life circumstance of Romani in Portugal today with the recollections of a yesterday. Anything but a passive observer, Teles consciously decides to participate and take up position. As a third pillar, she establishes an active applied performance art that becomes integrated in the cinematic narrative. Thereby transforming “once upon a time” into “there is”. “Afterwards, nothing will be as it was and the melody of life will have changed”, explains a voice off-camera.


18 fevereiro 2016

the Berlinale flu

Diz que há uma coisa que se chama "the Berlinale flu" e costuma revelar-se na quarta-feira da Berlinale.
Confirmo.

(e ainda queria ver 10 filmezitos, triste vida)


17 fevereiro 2016

apontamentos da Berlinale

Quando tiver tempo, conto com mais vagar. Para já, alguns apontamentos mais ou menos soltos:

Ontem vi o Cartas da Guerra e o Eldorado XXI.
Queria dizer alguma coisa mais intelectual, mas só me ocorre: opá! opá! opá!
O Cartas da Guerra devia ter sido dobrado (e exigia uma tradução realmente literária), para as pessoas poderem ver também as imagens. Perde-se muito da sua riqueza por se estar a ler as legendas.
O Eldorado XXI deixa-nos sem palavras perante a imensidão das imagens, da dureza da vida, e do risco cinematográfico. 
Não pude ver a estreia do Cartas da Guerra, só vi a repetição, sem a equipa. Mas vi a estreia do Eldorado XXI. É sempre um prazer ver a Salomé Lamas no palco. Um prazer da inteligência.


Hoje ouvi um manda-chuva da ARTE falar do Cartas da Guerra. Dizia ele, a propósito de nunca se saber à partida como é que o filme vai ser acolhido pelo público, que resolveram dar apoio ao Cartas da Guerra, pensando que seria um filme impossível de vender (preto e branco, literatura...) mas esteve na estreia, na Berlinale, e viu as pessoas a sair da sala com lágrimas nos olhos.
"Este filme vai vender", disse ele.
Dizem que vai vender especialmente no público feminino.
(Não contem ao Lobo Antunes, coitado. Ninguém merece, e muito menos ele.)

Falei com o manda-chuva da ARTE, concordou que o Cartas da Guerra não é um filme, é Cinema.
Disse-lhe que veja o Eldorado XXI. Fiquei de lhe mandar uma mensagem a lembrar o nome, quando ele tiver acalmado da Berlinale. Disse que não acalma nunca. Amanhã segue para a próxima batalha.

Esta Berlinale vai arrumar comigo, e ainda só vai a meio.
Hoje: manhã no Instituto Ibero-Americano para celebrar e debater o cinema da Península Ibérica e da América Latina. Eles gostam muito de incluir Portugal, Portugal é que não parece com muita vontade de se deixar incluir. Não encontrei lá nenhum português.
Bilhetes para os programas com a família. Um saltinho ao Arsenal para ver o Havarie (um filme francês, sobre - um doce para quem adivinhar... - refugiados).
Ir a casa resolver umas questões pendentes. Ensaio do coro.
Festa no Instituto Cervantes. (Com pisco sour! fiquei logo cheia de vontade de me tornar ibero-americana...)
No regresso, uma argentina com quem tenho andado nestas andanças perguntou-me pelo Cartas da Guerra, eu contei, falei nos textos do Lobo Antunes, ela perguntou se ele era bom.
 - Muito bom!
- Como o García Márquez?
- Melhor!
(Acho que ainda se está a rir. Humpf. Também, ninguém a mandou exagerar no pisco sour.)

Tenho a sensação que metade dos filmes da Berlinale 2016 são sobre refugiados ou sobre a vida nos países de onde essas pessoas vêm. Dizem-me que o filme que vai vencer o Urso de Ouro vai ser o italiano sobre, adivinharam, refugiados. Por motivos políticos, dizem-me.
A ver vamos.

11 fevereiro 2016

Berlinale 2016 - quase a começar



"O que fizeste para conseguires a acreditação na Berlinale?", perguntou-me uma amiga.
"Preenchi a ficha de inscrição", respondi eu. Ela não conseguia parar de rir.

Só percebi o espanto quando me contaram que este ano houve 2.000 pedidos para acreditação que não foram atendidos.

Ontem começaram a dar os cartões. Entrei no espaço enorme dos serviços para acreditados sentindo-me muito pequenina. Nem meia dúzia de pessoas conheço no panorama do cinema alemão, com que cara vou andar naquelas festas deles? Enquanto esperava pela minha vez, pensei no que ouvi num workshop que fiz há tempos, um "survival guide for the Berlinale":  ficar a um canto, de braços cruzados ou protegido pelo copo de vinho erguido à altura do peito, é má ideia. Vá falar com as pessoas. Vá conhecer as pessoas. Sem agenda. E, sobretudo, sem levar no bolso um DVD do seu filme ou do seu projecto!

Vá conhecer as pessoas, dizia ele. Decidi ir até ao café desse centro (tanto mais que os bolos que lá têm são fantásticos), sentar-me à mesa de alguém, meter conversa. Olhei para as mesas em busca de uma vítima que me interessasse, e... descobri lá um dos convidados do Cinemagosto de 2015. Inacreditável: não conheço pessoalmente nem meia dúzia de gente do cinema alemão (e, triste vida, já me esqueci da cara de quatro deles, um dia que encontre o Brad Pitt por aí hei-de perguntar-lhe como é que se desenrasca apesar desta terrível memória visual que ambos temos por sina) e ainda antes de receber os meus papéis já estou a dar com um deles!

A Berlinale 2016 começa bem.

Começa hoje. Ontem os operários estavam a trabalhar a toda a velocidade para preparar o tapete vermelho. Hoje vão passar por ele a Meryl Streep, o George Clooney e os irmãos Cohen.








PS: O saco deste ano é bem giro! Em feltro cinzento, com pega em couro. 
(Eu é que andei a fazer figura de principiante: fui para lá com uma mochila cheia de papéis, regressei com a mochila e mais o saco a tiracolo. Isso não se lembraram eles de ensinar no workshop "survival guide for the Berlinale"! Vou já pedir o meu dinheiro de volta, que ontem a zona estava cheia de câmaras de televisão, e eu entrei logo a fazer figurinhas tristes.)

10 fevereiro 2016

Berlinale 2016





Cá vamos nós outra vez. Eu bem digo que esta cidade... 


a mocinha e o Varoufakis

A "mocinha" referida no post anterior contou-me entretanto que teve uma bela conversa com o Varoufakis, e que se sentiu tão à vontade com ele que até pôde brincar: ensinou-lhe a palavra "penetra" e pediu bilhetes para o grupo.

[Este é o momento em que em Portugal milhares de fãs exclusivas e nº1 do Varoufakis lançam uma fatwa contra a usurpadora infiel, por ter tido o atrevimento de brincar com ele, e por lhe ensinar a dizer "penetra" em vez de algo muito mais importante para ele usar nas suas idas a Portugal, como "és a mulher da minha vida", ou "esquece as outras, só tu existes para mim" ou "agora sei o que tenho procurado durante todos estes anos sem saber".]

[Dei este título ao post de propósito para aumentar os cliques no meu blogue. Se eu fosse esperta, punha isto com publicidade. Dois ou três posts com "Varoufakis" no título, e o dinheiro caía-me no bolso como se tivesse ganho o euromilhões. Mas não faço, porque se o Varoufakis soubesse que eu andava a explorar o seu nome para estas excrescências do capitalismo ainda lhe dava uma coisa má, e depois as fãs exclusivas e nº1 dele largavam uma fatwa contra mim, e eu desgraçava-me. Para que conste mais uma vez que o dinheiro não dá felicidade.]



09 fevereiro 2016

é uma pena não deixarem que Berlim mande em Portugal... ;)






As conclusões do encontro e do debate de ontem com a Marisa Matias podiam ser sintetizadas desta forma: se deixassem Berlim mandar em Portugal, íamos ter uma presidente da República fabulosa.

Depois do encontro improvisado com um grupo de portugueses e do debate de pré-lançamento do DiEM 25, vendo-a participar com inteligência, humor, capacidade de ouvir e de dialogar, e sobretudo ouvindo o que dizia, fiquei a pensar que não estamos perante uma mulher que vai longe, mas perante uma pessoa que nos leva longe.

O debate de ontem pode ser visto aqui (começa a 6:35):



A sessão de lançamento do DiEM 25 - Democracy in Europe Movement 2025 foi hoje. Em breve vai estar disponível online.

++

E agora, para quem quer saber tudo tudo tudo (ou quase tudo, vá) o que não se vê no vídeo:

Quando soube, na véspera, que a Marisa Matias vinha a Berlim e gostava de estar com portugueses, e me dei conta de que havia portugueses que queriam encontrar-se com ela, mas não sabiam como, telefonei ao teatro, perguntei se nos podíamos encontrar na cantina (e já agora, se nos deixavam assistir ao debate) (não, não deixavam, foi a resposta - a sala é demasiado pequena), e dei a notícia nas redes sociais. Não há dúvida que os portugueses são campeões da flexibilidade: tendo em conta que o aviso foi feito 5 horas antes do início do encontro, ainda se juntou um belo grupo. Com uma piscadela de olhos brindámos à nossa presidente (foi quem teve maior número de votos em Berlim), a que se seguiu uma conversa séria e franca. Pouco antes do início da sessão, o Varoufakis apareceu na cantina (mas - aviso já as minhas amigas mais cuscas - fizemos todos de conta que não vimos, e ninguém gritou "faz-me um filho" nem nada). Provavelmente incomodado com a nossa indiferença (nós somos óptimos a disfarçar os olhares de raio-X pelo canto do olho), veio até à nossa mesa, e disse, muito simpático, "Hello, I'm Yanis". Cumprimentámos amavelmente, conversámos um bocadinho com ele, portámo-nos muito bem. Excepto uma mocinha do grupo, não vou dizer o nome, que lhe foi pedir bilhetes para nós todos, para a sessão de hoje (*). Mas estavam esgotados há quatro meses, e por isso não nos deu nenhum. Para que conste que o Varoufakis não faz milagres.
O meu contacto no Volksbühne também apareceu, e disse-nos que havia lugar para nós na sala, e podíamos assistir ao debate. De modo que eu escrevi um sms ao Joachim a dizer "Estou com o Varoufakis. Não sei quando chego a casa. O jantar está no forno" e fui com os outros assistir a um debate no qual a Marisa Matias nos encheu de orgulho.
Depois fui para casa, onde encontrei a família toda ainda a conversar à mesa, contei-lhes a minha aventura, e com tanto entusiasmo que da próxima vez já sei que o sms vai ser assim: "Estou com a Marisa Matias. Não sei quando chego a casa. Venham vocês depressa ter connosco!"


e se um dia tivesse a oportunidade de fazer uma pergunta ao Varoufakis, que lhe perguntaria?

Com o extraordinário sentido de oportunidade que me caracteriza, a pergunta que eu fiz foi esta: "importa-se de fazer uma fotografia aqui com este grupo?"


(Mas escusam de criticar, porque não fiz outra pergunta ainda pior: "como é que se pronuncia Tsipras correctamente?")


08 fevereiro 2016

à atenção de quem está em Berlim: hoje, encontro informal com a Marisa Matias



A Marisa Matias vai estar em Berlim para o lançamento do movimento DiEM 25 - Democracy in Europe Movement 2025.
Hoje encontra-se com portugueses às 17:30, na Kantine do teatro Volksbühne, Linienstrasse 227.


Marisa Matias e Yanis Varoufakis em debate hoje em Berlim



Hoje, 8.02.2016, às sete da tarde, há um debate no teatro Volksbühne, com a participação de, entre outros, a Marisa Matias e o Yanis Varoufakis. Antes do debate, os portugueses que moram em Berlim poderão falar com a Marisa Matias.

Hoje amanheceu assim (e não sei se ceci n'est pas une metaphore):






07 fevereiro 2016

"o perigo é a minha profissão"



Esboço do Orçamento do Estado - Diário de um sobrevivente
Esboço do Orçamento do Estado - Diário de um sobreviventeDedicado a todos os jornalistas e comentadores que pereceram nesta tragédia sem sentido.
Publicado por Portugal Não Pode Mais em Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2016

(fonte)

Por estes dias alguns comentadores de direita deram uma enorme prova de coragem, quiçá loucura. O perigo é a sua profissão, e atiraram-se de cabeça, os comentadores. Enquanto Bruxelas pensava sobre o OE apresentado pelo governo de Portugal, eles foram adiantando trabalho e deram-nos a saber como é que Bruxelas ia decidir, e porquê. Avançavam as respostas com uma certeza tal que fiquei a pensar se isto seriam segredos da alcova de algum comissário. Ou inconfidências do personal trainer - que, sob tortura, as pessoas acabam por confessar tudo.

Ao contrário do anunciado peremptoriamente pelos comentadores, o OE passou em Bruxelas. Se o informador foi o personal trainer, mais uma vez se comprova que as pessoas sujeitas à tortura muitas vezes não dizem a verdade, mas o que o interrogador quer ouvir.

Com que cara andarão agora esses comentadores? Será que a meteram dentro de um saco ao ver a luz verde em Bruxelas, e o António Costa a trazer a Berlim um Portugal de costas direitas?
A verdade é que não lembra ao diabo fazer wishful thinking em público de modo tão óbvio e num caso em que não têm o menor controlo da situação.

Não é que eu não tenha feito o mesmo. Se querem saber tudo, já me aconteceu, na escola primária: zanguei-me com a minha colega de carteira, e disse-lhe que o meu pai era amigo do chefe dos bombeiros, e no dia seguinte iam cercar a casa dela e ela ia presa. Arrependi-me logo a seguir, claro, mas já era tarde demais. E foi assim que aprendi, aos sete anos, que nunca se deve fantasiar em voz alta.
Felizmente, tudo se resolveu: no dia seguinte eu confessei-lhe que o meu pai não era nada amigo do chefe dos bombeiros, e que tinha sido muito parva, e ela confessou-me que de manhã tinha ido à janela, cheia de medo, ver se a casa estava cercada por polícias. Ficámos amigas outra vez.

Pelos vistos há por aí comentadores que nunca se zangaram com os amiguinhos da escola quando tinham sete anos.


06 fevereiro 2016

2'44''

Dois minutos e quarenta e quatro segundos de frente a frente entre o melhor e o pior dos EUA.

(E um teste a cada um de nós: até onde conseguimos ir na aceitação confiante das regras do Estado de Direito?)



"Pharma Bro" goes to Washington
Today was Martin Shkreli's day in Congress, but that didn't stop him from acting the part as “the most hated man in America.”
Publicado por Quartz em Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2016

um vírus mortal e desconhecido?



Por causa de terem sugerido o Donald Trump para o Nobel da Paz ando a pensar mudar-me para outro planeta. A lua seria a hipótese mais à mão, mas a notícia recente da morte do Edgar Mitchell está a obrigar-me a repensar. Dos 12 homens que pousaram na lua, 5 já morreram.

Uma taxa de mortalidade de 42% já se pode considerar epidemia, ou não?


05 fevereiro 2016

no dia em que prenderam quatro argelinos suspeitos de estarem a preparar um atentado em Berlim...


Ontem, a polícia alemã apanhou quatro argelinos que aparentemente estavam a preparar um atentado aqui em Berlim, no Checkpoint Charlie (o Bild fala na Alexanderplatz). O suspeito principal entrou pela rota dos Balcãs no Outono de 2015, usou várias identidades, e registou-se como refugiado sírio em Munique. Estava alojado num centro de refugiados no norte do país, com a mulher e dois filhos bebés. Dois dos suspeitos já viviam há vários anos na Alemanha, e trabalhavam na Alexanderplatz. O quarto suspeito parece estar ligado aos fundamentalistas belgas.

No dia em que numa operação gigantesca (só em Berlim andaram 450 polícias) apanham quatro homens por haver indícios fortes de que iam fazer um ataque terrorista na capital do país, o que faz o noticiário da ARD às oito da noite? Abre com notícias sobre a reunião da comunidade internacional em Londres, o compromisso de dar nove mil milhões de euros para ajudar a população síria, e a frase de Ban Ki-moon: "nunca se juntou tanto dinheiro em tão pouco tempo". Continua com notícias sobre nova vaga de bombardeamentos na Síria, com imagens de Aleppo devastada e as pessoas aterrorizadas. E só depois, quando já tinha passado cerca de um terço do programa, é que deram a notícia de Berlim.

Como não gostar deste país?


experiência de pedagogia Waldorf num bairro problemático: de como o Henri foi para a escola da Fatin





Traduzo e sintetizo algumas frases retiradas de uma notícia do Spiegel online sobre uma curiosa experiência pedagógica e social em Hamburgo:

Experiência de pedagogia Waldorf num bairro problemático: de como o Henri foi para a escola da Fatin

Um artigo de 

Como é que uma escola de um bairro problemático consegue captar alunos de famílias com nível académico? Normalmente, não consegue. Para mudar esta situação, a cidade de Hamburgo fez uma experiência pedagógica arriscada.

Síntese: numa escola primária de Hamburgo, as aulas são dadas em conjunto por professores do ensino público e professores da pedagogia Waldorf. O objectivo deste projecto - atrair famílias de académicos a uma escola pública num bairro de imigrantes - está a ser atingido. Mas na prática ainda há várias questões a resolver. 

Nesta escola pública, o dia começa com uma roda de canções e expressão corporal, e pequeno-almoço tomado em conjunto. A pedagogia Waldorf define o ritmo da aprendizagem: 3 ou 4 semanas de alemão, 3 ou 4 semanas de matemática, 3 ou 4 semanas de desenho, para então recomeçar com alemão, e assim sucessivamente.
A experiência decorre de 2014 a 2020, num bairro de Hamburgo no qual 3/4 das crianças que entram na primeira classe não falam alemão em casa [nota: como não é obrigatório frequentar o ensino pré-primário, há muitas crianças nascidas na Alemanha que chegam à escola primária sem saber falar alemão; em Berlim, este fenómeno sucede bastante com crianças polacas: os pais vivem em Berlim, e têm os filhos em casa de familiares, na Polónia. Quando estes chegam à idade escolar, para não perderem o abono de família, os pais vão buscá-los no início do ano lectivo e metem-nos numa escola pública sem que as crianças saibam uma única palavra de alemão]. Praticamente metade das crianças deste bairro vem de famílias que precisam de apoios da Segurança Social.
A experiência pedagógica nesta escola pública está a atrair a esse bairro cada vez mais famílias de um nível cultural e de rendimento mais alto, que dão muita importância à Educação.

O conceito pedagógico ainda não está afinado. Há muitas questões em aberto: quantos minutos deve durar a roda matinal? As crianças devem sentar-se em cadeiras ou em almofadas de grãos? Devem começar a aprender apenas com maiúsculas? Devem ter sempre o mesmo professor? Ou deve haver dois professores, um estatal e um Waldorf? Como combinar elementos didácticos e conceitos de escola tão diversos como estes? Há ainda muito trabalho a fazer.

Mesmo assim, a experiência está a dar bons resultados: na escola há cada vez mais crianças de famílias de académicos, e que falam alemão sem erros. Na primeira classe, já representam 25% dos alunos, o que é muito mais do que acontecia há apenas 3 anos.

Duas professoras que preparam em conjunto as aulas afirmam que esta experiência é enriquecedora para todos, e que a pedagogia Waldorf não deve ser vista como algo que apenas interessa às famílias de académicos com bons rendimentos que querem poupar os filhos à pressão competitiva da escola pública. Reconhecem que já se ensinaram muito mutuamente: uma aprendeu a trabalhar com fichas já existentes, em vez de fazer ela própria todos os exercícios, a outra aprendeu a acalmar as crianças com rimas e outros pequenos truques.
Aula de alemão: as crianças estão sentadas nas suas almofadas vermelhas de grãos, e desenham leões com lápis de cera caros, que depois arrumarão cuidadosamente nos estojos de tecido que os seus pais fizeram em colaboração com os professores. Típico Waldorf: os desenhos, os estojos bonitos, as cores de muita qualidade. Os materiais de trabalho têm de ser muito bons, e agradáveis ao tacto.
A professora do ensino público já não consegue separar a pedagogia Waldorf do seu próprio ramo. "Não devemos arrumar a escola em gavetas", acrescenta a sua colega Waldorf.            
Nesta escola, o que conta é: quais são as necessidades das crianças?


cá vamos nós outra vez

Levantei-me à hora do costume (tão cedo que quase lhe poderia chamar ainda véspera). Espreitei a rua. Não havia ninguém por perto, fui em pijama buscar o jornal à caixa do correio. Ao passar pelo carro, vi que estava coberto de gelo. Como o Joachim estava atrasado, ajudei-o a raspar o gelo todo. Em pijama, claro, que em tempo de guerra não se limpam armas, e além disso estamos em Berlim. Levei o jornal para a cozinha, preparei o meu pequeno-almoço. Quando me ia sentar para gozar finalmente os primeiros momentos sossegados do dia olhei pela janela e:



Saí para o terraço, para melhorar o ângulo da fotografia, e de repente o chão abriu-se debaixo dos meus pés, que foram um para cada lado. Elementar, mas só então me ocorreu: se o carro tinha gelo, o terraço também. Levantei-me, e avancei cuidadosamente. Não há-de ser um terraço escorregadio como não-me-ocorre-nenhuma-imagem que me vai impedir de fazer o que considero importante. Sou eu e a Marie Curie, que ela também desgraçou a saúde mas não se desviou do seu objectivo. Já se arranjava um Nobel do Físico para casos como o nosso.







04 fevereiro 2016

"maestros - cada movimento conta"



A quem está em Berlim: esta semana estão a passar no Sputnik o documentário alemão "Dirigenten - jede Bewegung zählt", sobre um concurso internacional de maestros que decorre na Alemanha.

A sorte ajudou muito o realizador: dois dos maestros que ele escolheu, de entre os 25 iniciais, conseguiram chegar à final. E um dos perdedores era um tipo muito novo, muito sem filtro, que aceitou mostrar-se na sua fragilidade. Duvido que, se estivessem a trabalhar com roteiro, lhes tivessem ocorrido uma história tão boa como esta e personagens tão cativantes. Ou seja: um documentário que se vê como um bom filme de ficção. E uma delícia: os movimentos, a personalidade de cada um, a música.



Aos 19 anos, Aziz Shokhakimov ainda não estava preparado para uma competição destas. Mas também não estava preparado para a perder. As suas reacções, filmadas sem pudor, dão uma autenticidade quase embaraçosa a este filme. Em contrapartida, a sua amizade com James Lowe oferece momentos de candura e serenidade tais que surpreendem num contexto destes.
Entretanto, Aziz fez o seu caminho. Este mês está na Filarmonia, no dia 15, com a DSO.

Dos cinco maestros que o filme apresenta, o meu favorito foi o japonês Shizuo Kuwahara. Aquelas mãos, aquelas mãos!
Ganhou o concurso, está a fazer carreira nos EUA, não vem muito à Europa. Que pena Berlim estar um pouco à desamão! Já me sonhava num concerto com ele, sentada nos bancos de pau da Filarmonia, e estava a fazer figas para ninguém descobrir que nesse dia aqueles seriam os melhores lugares - de longe! - na sala inteira.

Pode-se ver neste filme, a dirigir sem batuta de modo a ter as mãos mais livres para mostrar o que quer:

Brahms: Symphony No. 2Malko Competition Final RoundBrahms: Symphony No. 2
Publicado por Shizuo Z Kuwahara / シズオ・Z・クワハラ em Segunda-feira, 25 de Maio de 2009


E aqui está o Mariss Jansons a dirigir, também sem batuta, a peça que Kuwahara apresentou na competição no dia em que ganhou o primeiro prémio:



subway stories: tales from the underground

(foto)


No metro berlinense, a minha filha costuma meter conversa, ou pelo menos trocar sorrisos, com os refugiados que encontra. Um olhar de empatia para a mãe que não consegue acalmar o bebé, a oferta de mudar de lugar para todos os membros da família ficarem no mesmo banco, coisas simples.

Alguns tentam comunicar em alemão, e pedem desculpa por não falarem bem. Ela põe-nos à vontade:
- Oh, não se preocupem! A minha mãe está cá há um quarto de século, e também continua a ter problemas com o idioma.
Eles ficam muito aliviados.

Há dias decidiu ajudar um homem que ia no metro a aprender alemão numa lista de vocábulos em árabe e alemão. Sentada ao seu lado, a Christina ensinava-lhe a pronúncia. Às tantas ele chegou à palavra مول, leu

 E I N K A U F S Z E N T R U M 

e suspirou, chocado e desanimado:
- Oh, nooooooo! Really?!!!!

Pobres refugiados. Como se não bastasse a guerra, a travessia do Mediterrâneo, a rota dos Balcãs, a insegurança e a falta de perspectivas, ainda têm de aprender alemão...



alô alô, escuto...



Esta manhã um amigo ligou para o meu telemóvel, e começou por perguntar se eu estava no estrangeiro, porque o sinal de chamada que ele tinha ouvido era diferente do habitual na Alemanha, e que soava como quando faz uma chamada transatlântica.

A meio da conversa a ligação caiu, e eu fiquei à espera que me ligasse de novo.
Daí a um bom bocado o telefone tocou, e ele contou-me que de repente tinha começado a ouvir a minha voz repetindo tudo o que dissera desde o princípio do primeiro telefonema.

Eu sabia que não devia ter escrito aqueles textos para o Observador! Agora tenho a CIA no meu encalço. Ou isso, ou então será (enfim, remota hipótese, mas uma pessoa tem de contemplar todas as possibilidades) por ele me ter ligado do telefone fixo de uma empresa alemã importante, onde tem um trabalho de certa responsabilidade.

Agora estamos ambos a pensar numa conversa para ter ao telefone um dia que volte a parecer que a chamada está a ser captada algures do outro lado do mundo. Aceito sugestões.

(Estou a brincar, mas é sério: vigilância total. Não me agrada nada ter de me habituar à ideia de autocensurar tudo o que digo e escrevo para não correr o risco de, um dia que calhe de cair em desgraça por um motivo qualquer, se aproveitarem de uma fuga ao segredo de justiça (esse incontinente) para escarrapachar uma frase minha na primeira página de algum pasquim.)


"o melhor escritor português"


"José Rodrigues dos Santos é considerado pelos portugueses o melhor escritor nacional." 
(jornal i online)


Depois de ter desperdiçado 10 minutos a tentar entender este fenómeno, diria que o prémio vai para os marketingueiros da empresa Cinco Estrelas.
Conseguiram dar uma espantosa visibilidade ao produto.
São - como direi? - 5 estrelas.

(E nós damos cinquenta a zero ao cão do Pavlov. Qualquer casca de banana é boa para nos estatelarmos ao comprido.)


03 fevereiro 2016

refugiados - a vez do humor




A anedota do dia, na Alemanha, é um cartaz do NPD, partido de extrema-direita, onde se vê um avião a levantar voo, e as frases:

DEPORTAR DE FORMA CONSEQUENTE


O NOSSO POVO PRIMEIRO   NPD

("unser Volk" também pode ser entendido como "o nosso grupo")

O meu diário berlinense comenta que este é o melhor cartaz de sempre do NPD - finalmente conseguiu agradar às multidões. No facebook multiplicam-se os elogios: "Queridos NPD, esta é a primeira ideia boa que alguma vez tiveram!", "por favor, deportem-se para bem looooonge", "Finalmente seguem de forma consequente o "nazis, fora!" que andamos a repetir há anos, que maravilha!". O grupo "Hooligans gegen Satzbau" (penso que será um grupo de fundamentalistas da gramática) farta-se de rir com o cartaz (e eu com eles). Há quem se queixe de terem levado demasiado a sério um artigo num jornal satírico que informava sobre as conclusões de um novo estudo, segundo o qual o Estado pouparia cem mil milhões de Euros anualmente se deportasse de forma consequente os neonazis, uma vez que neste grupo se encontra uma taxa de desemprego, violência e baixo nível educacional superior à média nacional.
O jornal refere ainda outro caso exemplar das estratégias de mobilização do partido, com um vídeo que convoca para uma manifestação contra a vinda de mais refugiados para a região:



(depois do primeiro orador começar a falar, podem saltar para 1:30)
(desde os tempos daquele vídeo do Marcelo Rebelo de Sousa para dizer umas coisas aos alemães que não via uma coisa tão bem feita, coisa mesmo de profissionais)

E depois, como se não tivesse já rido o suficiente, aparecem os africanos a oferecer asilo aos velhinhos dinamarqueses, por estarem cheios de pena do seu estado de necessidade:




ajudar a morrer



Nesta sociedade que faz de conta que a morte não existe, ou que é culpa do profissional da saúde, muitas pessoas fazem essa travessia na mais terrível solidão. O medo de morrer fica ainda maior perante a parede de silêncio erguida pela recusa dos outros de assumir a ruptura iminente e irreparável, e o embaraço de não saber o que fazer numa hora de morte.

Noutros tempos, as pessoas nasciam e morriam em casa - tudo fazia parte do ciclo da vida, e a assistência ao moribundo aprendia-se naturalmente. Para os católicos, o rito da extrema-unção exigia o entender dos sinais, e a vinda do padre contribuía para que todos se preparassem para aceitar o inevitável. Mas desde que a morte se tornou um tema tabu, os saberes e os ritos perderam-se, e ficámos desamparados. Era preciso aprender a dar assistência a moribundos, tal como aprendemos primeiros socorros.

Do pouco que sei, partilho duas frases que me parecem notáveis:

A médica que acalmou a miúda de cinco anos que fazia uma cena de gritos porque não queria que a avó morresse, dizendo: "Morrer é muito difícil, e a tua avó precisa da ajuda de todos para poder partir em paz. Queres ajudar?"

A filha que disse ao homem moribundo: "No sítio para onde vais, já estão à tua espera, preparados para te acolher".

--

Para quem estava à espera que eu falasse sobre a eutanásia: desculpem.
Não tenho opinião sobre esse assunto, apenas uma preocupação: que, numa sociedade onde a velhice é vista como um fardo e um incómodo, as pessoas se sintam tentadas a ir desta para melhor para não incomodar mais, para não pesarem a ninguém.


02 fevereiro 2016

a cultura como refúgio




Ao ver as imagens aéreas da destruição de Homs, que têm sido divulgadas esta semana, lembrei-me de cenas semelhantes que vi numa reportagem sobre sírios que estão a regressar ao país para reconstruir as suas cidades. Vivem e trabalham em ruas como estas.
Em termos de imagens de ruínas, contudo, nada ultrapassa o efeito chocante das que passaram há meia dúzia de meses, num programa da televisão sobre os refugiados que chegaram à Alemanha: mostravam o antes e o depois. O antes: ruas bonitas e cheias de vida tranquila, com árvores e jardins bem cuidados.

(foto)

Foi nesse programa que conheci o coro Zuflucht, "refúgio", um projecto de integração que junta cantores líricos alemães e refugiados. O coro interpretou o Hino da Alegria, fundindo de forma muito bela a música de Beethoven com a tradição musical síria. Infelizmente apagaram o vídeo do youtube. Mas deixo aqui um outro (que já publiquei neste blogue), onde cantam "paraíso". O paraíso de onde vieram, esse "antes" que já não existe.



"Chamo-me Ahmed Osman, e sou de Homs, na Síria.
Estive meio ano na prisão, três anos em fuga, e estou agora na Alemanha com a minha mulher e os nossos três filhos.
Obrigado, alemães, por nos abraçarem e acolherem.
Temos uma mensagem para todo o mundo:
Basta de sangue! Acabem com as guerras!
[faz uma pausa antes de continuar, visivelmente emocionado]
"Janna" significa paraíso. A nossa canção sobre o paraíso fala das cidades belíssimas da Síria, de onde viemos, e agora estão reduzidas a ruínas.
Peço-vos, alemães: preservem a vossa Paz!"

Pesquisei mais trabalhos deste coro, e encontrei uma adaptação da ópera Zaide, de Mozart, à situação dos refugiados. "Zaide - uma fuga". Com música de Mozart, testemunhos de refugiados, um mapa do corredor para a Europa.


Neste filme, o presidente da Câmara conta como o seu cepticismo inicial deu lugar à confiança no projecto. Os espectadores dizem-se profundamente tocados pelos testemunhos, e louvam o trabalho dos refugiados. Uma jovem diz que já se habituou às imagens de refugiados que todos os dias aparecem na televisão, mas que esta encenação lhe lembra Brecht, porque a obriga a parar para pensar.
Eu comovo-me com tudo, particularmente com a alegria e a comoção deles no final, e ainda mais com este sinal do poder da cultura como refúgio de náufragos, palco de testemunhos e ferramenta de integração.


01 fevereiro 2016

a grandeza de um país

(foto)

O texto que escrevi, traçando um retrato da situação com os refugiados na Alemanha, e que foi ontem publicado no Observador, está a tornar-se um caso curioso de agradar a gregos e troianos. Escrevi-o como reacção a quem acusava certos países de estarem em "deriva nazi", porque me pareceu que não estavam na posse de todas as informações. Dou-me agora conta de que muitas pessoas treslêem o que relatei, para poderem confirmar aquilo que já defendiam antes: que a Europa tem de se proteger desta invasão que só traz problemas - ou, como alguém comentava no Observador: da "praga islâmica".

Recapitulando o que se está a passar na Alemanha: acolher um milhão de pessoas num só ano não está a ser fácil. O aparelho de Estado não estava preparado, e não se pôde reajustar ao ritmo exigido pelos acontecimentos. Cada uma destas pessoas que chegam à Alemanha precisa, para além da satisfação urgente das necessidades básicas, de quem as acompanhe, as ouça, lhes explique com paciência e empatia a diferença entre a sua cultura e a cultura alemã, e precisa também de ocupação e perspectivas de futuro. Há movimentos de extrema-direita que se manifestam, por palavras e por actos violentos, contra a vinda dos refugiados. O discurso no espaço público está a degradar-se: num país que se orgulhava da sua cultura de debate, multiplicam-se opiniões emitidas não a partir do cérebro, mas das tripas. Para evitar a propagação de lixo no espaço público, alguns media online fecham as caixas de comentários nas notícias relativas aos refugiados, e o governo alemão fez diligências junto do facebook para que persiga o discurso de ódio com o mesmo empenho com que persegue a nudez feminina.

Para os preocupados com "a praga islâmica": sim, os ataques de Colónia aconteceram mesmo (embora os números tenham sido empolados, segundo revela agora a polícia). Sim, há alguns delinquentes entre esta imensa massa de refugiados. Sim, muitos deles vêm de um contexto cultural muito diferente do nosso. Sim, a maior parte deles são muçulmanos. Sim, dois terços deste milhão são homens.

Para os preocupados com a "deriva nazi" e a "sombra do Holocausto": sim, há refugiados identificados com pulseira, para se ter a certeza de que é esse recém-chegado, e não outra pessoa qualquer, que recebe o auxílio humanitário mais básico enquanto espera para ser convenientemente registado. Sim, houve piscinas que vedaram temporariamente o acesso a todos os refugiados de sexo masculino. Sim, houve uma discoteca que aventou impedir a entrada a pessoas de certos grupos. Sim, há dois Estados a pensar em obrigar os refugiados a participar no pagamento das suas próprias despesas, tal como já se exige a cada alemão. Sim, houve uma responsável do partido "Alternativa para a Alemanha" que disse que a polícia devia atirar sobre os refugiados que tentam entrar no país, e que a seguir corrigiu "não se pode atirar sobre as crianças, mas pode-se atirar sobre as mulheres".

Perante estes problemas tão variados e complexos, o que faz a Alemanha? Acolhe, e corrige os erros. Não se deixa confundir pelo acessório, e continua focada no essencial - que é ajudar quem chega, debater abertamente as questões, procurar um rumo que seja fiel aos seus princípios fundamentais, sempre consciente da responsabilidade que advém da memória histórica.

A crise dos refugiados está a revelar a maturidade e a grandeza deste país. Apesar das lutas dentro da coligação governamental, que enfraquecem a posição da chanceler, e dos movimentos de extrema-direita que aproveitam a crise dos refugiados para conquistar mais espaço, a Alemanha não vacila nas questões fundamentais. Os refugiados continuam a chegar, e a ser ajudados. Na sequência dos ataques de Colónia, o Governo não deixou margem para dúvidas de que esses delinquentes só serão repatriados se houver a certeza de que no país deles não os espera a morte ou a tortura, e uma parte importante da sociedade alemã deu sinais claros de saber distinguir muito bem entre refugiados e actos de violência sexual. Multiplicam-se os debates na televisão e nos jornais. Ainda ontem, na Anne Will, que é o talkshow mais importante do país, se falou do medo e da desconfiança provocados por incidentes como os que aconteceram em algumas discotecas e piscinas. Alertou-se para a tentação de generalizar, e para o erro inadmissível dos castigos colectivos. Foram sessenta minutos de bálsamo para os espíritos atormentados, no qual se deu visibilidade aos refugiados que procuram a Alemanha porque querem ter o orgulho de fazer parte de uma sociedade que admiram, se falou do combate impreterível a comportamentos abusivos e à criminalidade. Houve palavras de compreensão para erros cometidos pela parte alemã, sinal de um certo atarantamento devido ao ritmo e à dimensão dos problemas, e palavras de compreensão para a situação difícil de alguns homens jovens, que passam meses à espera, sem família e sem qualquer perspectiva ou ocupação. Foi referido o generoso contributo da população, sem o qual o país não conseguiria fazer tanto, e concluiu-se que a integração é possível, desde que haja vontade e as regras sejam claras para todos.

Não está a ser fácil. Nunca ninguém disse que seria fácil. Quando abriu as fronteiras para acolher essa multidão que atravessava a Europa em condições catastróficas, lembrando o êxodo que aqui teve lugar no fim da segunda guerra mundial, Angela Merkel avisou que o esforço de acolher e integrar estas pessoas seria um desígnio nacional para as próximas décadas. As suas palavras encontraram terreno fértil no coração e no sentido de decência de um grande número de alemães. Apesar das dificuldades, apesar dos erros e dos mal-entendidos de parte a parte, apesar do cansaço, há muitos alemães que não desistem de ajudar o mais que podem, e mais alemães ainda que, em vez de se entrincheirarem por medo do desconhecido e repudiarem liminarmente essas pessoas, estão abertos para as ir conhecer, para falar e aprender com elas, para criar laços de amizade e solidariedade.

O nosso maior inimigo não é a "invasão muçulmana" - é o medo. É impossível parar este fluxo de seres humanos que fogem à guerra, à insegurança e à fome. Não tenhamos dúvidas: não há fronteiras estanques - e o muro de Berlim foi disso prova. Não vale a pena gastar energias a tentar parar o imparável. Mais vale olhar para o problema de frente, tendo consciência das nossas forças e responsabilidades.

O que vejo na Alemanha é a consciência de se estar a viver um momento histórico, e a vontade de, desta vez, estar do lado certo da História. O trabalho de décadas de consciencialização da responsabilidade herdada do passado está a dar frutos, que se revelam nesta atitude de não ceder ao medo do desconhecido e de outras culturas. O cristianismo e o humanismo secular que inspiram esta sociedade aparecem a trabalhar de mãos dadas para construir um quotidiano e um futuro baseados nos valores que lhes são comuns. Há muitos milhões de alemães - os que se preocupam com os refugiados e se aproximam deles, os que arregaçam as mangas e trabalham - que têm uma enorme confiança na capacidade da Alemanha para acolher e integrar estas pessoas, que acreditam que a integração vai resultar e que os valores de que se orgulham sairão reforçados. E sabem que, se optarem por jogar à defesa e fugir às dificuldades, o primeiro perdedor vai ser a Alemanha.

Este é um daqueles momentos difíceis e raros em que está na mão de cada um de nós contribuir para que se caminhe numa direcção de que os nossos netos se possam orgulhar. É também um momento revelador do muito que está a mudar para melhor na nossa sociedade. Tempos novos, estes, que se mostram das formas mais inesperadas. Como aconteceu há algumas semanas no Parlamento, quando um deputado do partido Die Linke defendeu a chanceler, que estava a ser muito pressionada pela sua coligação para pôr fim à vinda de refugiados, e o fez com estas palavras:

"Pois tive fome, e me destes de comer, tive sede, e me destes de beber; fui estrangeiro, e vós me acolhestes."


África minha

Arejar um pouco a vista. O programa segue dentro de momentos.
Foi uma óptima ideia ter feito a cozinha no último andar da casa. Todas as manhãs vemos o sol nascer por entre as árvores, olho pela janela e sinto-me numa África minha.

(Será que em África há nuvens densas como estas?)

 



Cortaram uma árvore no lago. Ficou o tronco, de um laranja vivo como nunca tinha visto numa árvore, e os restos de pó espalhados pelo chão. Já não será África minha - tenho de arranjar outro continente para estas cores.