2 Dedos de Conversa

... sobre o que nos desaquieta

10 fevereiro 2016

a mocinha e o Varoufakis

A "mocinha" referida no post anterior contou-me entretanto que teve uma bela conversa com o Varoufakis, e que se sentiu tão à vontade com ele que até pôde brincar: ensinou-lhe a palavra "penetra" e pediu bilhetes para o grupo.

[Este é o momento em que em Portugal milhares de fãs exclusivas e nº1 do Varoufakis lançam uma fatwa contra a usurpadora infiel, por ter tido o atrevimento de brincar com ele, e por lhe ensinar a dizer "penetra" em vez de algo muito mais importante para ele usar nas suas idas a Portugal, como "és a mulher da minha vida", ou "esquece as outras, só tu existes para mim" ou "agora sei o que tenho procurado durante todos estes anos sem saber".]

[Dei este título ao post de propósito para aumentar os cliques no meu blogue. Se eu fosse esperta, punha isto com publicidade. Dois ou três posts com "Varoufakis" no título, e o dinheiro caía-me no bolso como se tivesse ganho o euromilhões. Mas não faço, porque se o Varoufakis soubesse que eu andava a explorar o seu nome para estas excrescências do capitalismo ainda lhe dava uma coisa má, e depois as fãs exclusivas e nº1 dele largavam uma fatwa contra mim, e eu desgraçava-me. Para que conste mais uma vez que o dinheiro não dá felicidade.]



Enviado por: Helena Araújo às: 08:39 1 comentário: Links para este post

09 fevereiro 2016

é uma pena não deixarem que Berlim mande em Portugal... ;)






As conclusões do encontro e do debate de ontem com a Marisa Matias podiam ser sintetizadas desta forma: se deixassem Berlim mandar em Portugal, íamos ter uma presidente da República fabulosa.

Depois do encontro improvisado com um grupo de portugueses e do debate de pré-lançamento do DiEM 25, vendo-a participar com inteligência, humor, capacidade de ouvir e de dialogar, e sobretudo ouvindo o que dizia, fiquei a pensar que não estamos perante uma mulher que vai longe, mas perante uma pessoa que nos leva longe.

O debate de ontem pode ser visto aqui (começa a 6:35):



A sessão de lançamento do DiEM 25 - Democracy in Europe Movement 2025 foi hoje. Em breve vai estar disponível online.

++

E agora, para quem quer saber tudo tudo tudo (ou quase tudo, vá) o que não se vê no vídeo:

Quando soube, na véspera, que a Marisa Matias vinha a Berlim e gostava de estar com portugueses, e me dei conta de que havia portugueses que queriam encontrar-se com ela, mas não sabiam como, telefonei ao teatro, perguntei se nos podíamos encontrar na cantina (e já agora, se nos deixavam assistir ao debate) (não, não deixavam, foi a resposta - a sala é demasiado pequena), e dei a notícia nas redes sociais. Não há dúvida que os portugueses são campeões da flexibilidade: tendo em conta que o aviso foi feito 5 horas antes do início do encontro, ainda se juntou um belo grupo. Com uma piscadela de olhos brindámos à nossa presidente (foi quem teve maior número de votos em Berlim), a que se seguiu uma conversa séria e franca. Pouco antes do início da sessão, o Varoufakis apareceu na cantina (mas - aviso já as minhas amigas mais cuscas - fizemos todos de conta que não vimos, e ninguém gritou "faz-me um filho" nem nada). Provavelmente incomodado com a nossa indiferença (nós somos óptimos a disfarçar os olhares de raio-X pelo canto do olho), veio até à nossa mesa, e disse, muito simpático, "Hello, I'm Yanis". Cumprimentámos amavelmente, conversámos um bocadinho com ele, portámo-nos muito bem. Excepto uma mocinha do grupo, não vou dizer o nome, que lhe foi pedir bilhetes para nós todos, para a sessão de hoje (*). Mas estavam esgotados há quatro meses, e por isso não nos deu nenhum. Para que conste que o Varoufakis não faz milagres.
O meu contacto no Volksbühne também apareceu, e disse-nos que havia lugar para nós na sala, e podíamos assistir ao debate. De modo que eu escrevi um sms ao Joachim a dizer "Estou com o Varoufakis. Não sei quando chego a casa. O jantar está no forno" e fui com os outros assistir a um debate no qual a Marisa Matias nos encheu de orgulho.
Depois fui para casa, onde encontrei a família toda ainda a conversar à mesa, contei-lhes a minha aventura, e com tanto entusiasmo que da próxima vez já sei que o sms vai ser assim: "Estou com a Marisa Matias. Não sei quando chego a casa. Venham vocês depressa ter connosco!"


Enviado por: Helena Araújo às: 23:37 Sem comentários: Links para este post

e se um dia tivesse a oportunidade de fazer uma pergunta ao Varoufakis, que lhe perguntaria?

Com o extraordinário sentido de oportunidade que me caracteriza, a pergunta que eu fiz foi esta: "importa-se de fazer uma fotografia aqui com este grupo?"


(Mas escusam de criticar, porque não fiz outra pergunta ainda pior: "como é que se pronuncia Tsipras correctamente?")


Enviado por: Helena Araújo às: 10:42 Sem comentários: Links para este post

08 fevereiro 2016

à atenção de quem está em Berlim: hoje, encontro informal com a Marisa Matias



A Marisa Matias vai estar em Berlim para o lançamento do movimento DiEM 25 - Democracy in Europe Movement 2025.
Hoje encontra-se com portugueses às 17:30, na Kantine do teatro Volksbühne, Linienstrasse 227.


Enviado por: Helena Araújo às: 13:12 1 comentário: Links para este post

Marisa Matias e Yanis Varoufakis em debate hoje em Berlim



Hoje, 8.02.2016, às sete da tarde, há um debate no teatro Volksbühne, com a participação de, entre outros, a Marisa Matias e o Yanis Varoufakis. Antes do debate, os portugueses que moram em Berlim poderão falar com a Marisa Matias.

Hoje amanheceu assim (e não sei se ceci n'est pas une metaphore):






Enviado por: Helena Araújo às: 08:40 4 comentários: Links para este post

07 fevereiro 2016

"o perigo é a minha profissão"



Esboço do Orçamento do Estado - Diário de um sobrevivente
Esboço do Orçamento do Estado - Diário de um sobreviventeDedicado a todos os jornalistas e comentadores que pereceram nesta tragédia sem sentido.
Publicado por Portugal Não Pode Mais em Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2016

(fonte)

Por estes dias alguns comentadores de direita deram uma enorme prova de coragem, quiçá loucura. O perigo é a sua profissão, e atiraram-se de cabeça, os comentadores. Enquanto Bruxelas pensava sobre o OE apresentado pelo governo de Portugal, eles foram adiantando trabalho e deram-nos a saber como é que Bruxelas ia decidir, e porquê. Avançavam as respostas com uma certeza tal que fiquei a pensar se isto seriam segredos da alcova de algum comissário. Ou inconfidências do personal trainer - que, sob tortura, as pessoas acabam por confessar tudo.

Ao contrário do anunciado peremptoriamente pelos comentadores, o OE passou em Bruxelas. Se o informador foi o personal trainer, mais uma vez se comprova que as pessoas sujeitas à tortura muitas vezes não dizem a verdade, mas o que o interrogador quer ouvir.

Com que cara andarão agora esses comentadores? Será que a meteram dentro de um saco ao ver a luz verde em Bruxelas, e o António Costa a trazer a Berlim um Portugal de costas direitas?
A verdade é que não lembra ao diabo fazer wishful thinking em público de modo tão óbvio e num caso em que não têm o menor controlo da situação.

Não é que eu não tenha feito o mesmo. Se querem saber tudo, já me aconteceu, na escola primária: zanguei-me com a minha colega de carteira, e disse-lhe que o meu pai era amigo do chefe dos bombeiros, e no dia seguinte iam cercar a casa dela e ela ia presa. Arrependi-me logo a seguir, claro, mas já era tarde demais. E foi assim que aprendi, aos sete anos, que nunca se deve fantasiar em voz alta.
Felizmente, tudo se resolveu: no dia seguinte eu confessei-lhe que o meu pai não era nada amigo do chefe dos bombeiros, e que tinha sido muito parva, e ela confessou-me que de manhã tinha ido à janela, cheia de medo, ver se a casa estava cercada por polícias. Ficámos amigas outra vez.

Pelos vistos há por aí comentadores que nunca se zangaram com os amiguinhos da escola quando tinham sete anos.


Enviado por: Helena Araújo às: 10:35 5 comentários: Links para este post

06 fevereiro 2016

2'44''

Dois minutos e quarenta e quatro segundos de frente a frente entre o melhor e o pior dos EUA.

(E um teste a cada um de nós: até onde conseguimos ir na aceitação confiante das regras do Estado de Direito?)



"Pharma Bro" goes to Washington
Today was Martin Shkreli's day in Congress, but that didn't stop him from acting the part as “the most hated man in America.”
Publicado por Quartz em Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2016

Enviado por: Helena Araújo às: 21:27 1 comentário: Links para este post

um vírus mortal e desconhecido?


(fonte)

Por causa de terem sugerido o Donald Trump para o Nobel da Paz ando a pensar mudar-me para outro planeta. A lua seria a hipótese mais à mão, mas a notícia recente da morte do Edgar Mitchell está a obrigar-me a repensar. Dos 12 homens que pousaram na lua, 5 já morreram.

Uma taxa de mortalidade de 42% já se pode considerar epidemia, ou não?


Enviado por: Helena Araújo às: 09:54 1 comentário: Links para este post

05 fevereiro 2016

no dia em que prenderam quatro argelinos suspeitos de estarem a preparar um atentado em Berlim...

(fonte: artigo do jornal Die Zeit)

Ontem, a polícia alemã apanhou quatro argelinos que aparentemente estavam a preparar um atentado aqui em Berlim, no Checkpoint Charlie (o Bild fala na Alexanderplatz). O suspeito principal entrou pela rota dos Balcãs no Outono de 2015, usou várias identidades, e registou-se como refugiado sírio em Munique. Estava alojado num centro de refugiados no norte do país, com a mulher e dois filhos bebés. Dois dos suspeitos já viviam há vários anos na Alemanha, e trabalhavam na Alexanderplatz. O quarto suspeito parece estar ligado aos fundamentalistas belgas.

No dia em que numa operação gigantesca (só em Berlim andaram 450 polícias) apanham quatro homens por haver indícios fortes de que iam fazer um ataque terrorista na capital do país, o que faz o noticiário da ARD às oito da noite? Abre com notícias sobre a reunião da comunidade internacional em Londres, o compromisso de dar nove mil milhões de euros para ajudar a população síria, e a frase de Ban Ki-moon: "nunca se juntou tanto dinheiro em tão pouco tempo". Continua com notícias sobre nova vaga de bombardeamentos na Síria, com imagens de Aleppo devastada e as pessoas aterrorizadas. E só depois, quando já tinha passado cerca de um terço do programa, é que deram a notícia de Berlim.

Como não gostar deste país?


Enviado por: Helena Araújo às: 21:24 2 comentários: Links para este post

experiência de pedagogia Waldorf num bairro problemático: de como o Henri foi para a escola da Fatin





Traduzo e sintetizo algumas frases retiradas de uma notícia do Spiegel online sobre uma curiosa experiência pedagógica e social em Hamburgo:

Experiência de pedagogia Waldorf num bairro problemático: de como o Henri foi para a escola da Fatin

Um artigo de Heike Klovert

Como é que uma escola de um bairro problemático consegue captar alunos de famílias com nível académico? Normalmente, não consegue. Para mudar esta situação, a cidade de Hamburgo fez uma experiência pedagógica arriscada.

Síntese: numa escola primária de Hamburgo, as aulas são dadas em conjunto por professores do ensino público e professores da pedagogia Waldorf. O objectivo deste projecto - atrair famílias de académicos a uma escola pública num bairro de imigrantes - está a ser atingido. Mas na prática ainda há várias questões a resolver. 

Nesta escola pública, o dia começa com uma roda de canções e expressão corporal, e pequeno-almoço tomado em conjunto. A pedagogia Waldorf define o ritmo da aprendizagem: 3 ou 4 semanas de alemão, 3 ou 4 semanas de matemática, 3 ou 4 semanas de desenho, para então recomeçar com alemão, e assim sucessivamente.
A experiência decorre de 2014 a 2020, num bairro de Hamburgo no qual 3/4 das crianças que entram na primeira classe não falam alemão em casa [nota: como não é obrigatório frequentar o ensino pré-primário, há muitas crianças nascidas na Alemanha que chegam à escola primária sem saber falar alemão; em Berlim, este fenómeno sucede bastante com crianças polacas: os pais vivem em Berlim, e têm os filhos em casa de familiares, na Polónia. Quando estes chegam à idade escolar, para não perderem o abono de família, os pais vão buscá-los no início do ano lectivo e metem-nos numa escola pública sem que as crianças saibam uma única palavra de alemão]. Praticamente metade das crianças deste bairro vem de famílias que precisam de apoios da Segurança Social.
A experiência pedagógica nesta escola pública está a atrair a esse bairro cada vez mais famílias de um nível cultural e de rendimento mais alto, que dão muita importância à Educação.

O conceito pedagógico ainda não está afinado. Há muitas questões em aberto: quantos minutos deve durar a roda matinal? As crianças devem sentar-se em cadeiras ou em almofadas de grãos? Devem começar a aprender apenas com maiúsculas? Devem ter sempre o mesmo professor? Ou deve haver dois professores, um estatal e um Waldorf? Como combinar elementos didácticos e conceitos de escola tão diversos como estes? Há ainda muito trabalho a fazer.

Mesmo assim, a experiência está a dar bons resultados: na escola há cada vez mais crianças de famílias de académicos, e que falam alemão sem erros. Na primeira classe, já representam 25% dos alunos, o que é muito mais do que acontecia há apenas 3 anos.

Duas professoras que preparam em conjunto as aulas afirmam que esta experiência é enriquecedora para todos, e que a pedagogia Waldorf não deve ser vista como algo que apenas interessa às famílias de académicos com bons rendimentos que querem poupar os filhos à pressão competitiva da escola pública. Reconhecem que já se ensinaram muito mutuamente: uma aprendeu a trabalhar com fichas já existentes, em vez de fazer ela própria todos os exercícios, a outra aprendeu a acalmar as crianças com rimas e outros pequenos truques.
Aula de alemão: as crianças estão sentadas nas suas almofadas vermelhas de grãos, e desenham leões com lápis de cera caros, que depois arrumarão cuidadosamente nos estojos de tecido que os seus pais fizeram em colaboração com os professores. Típico Waldorf: os desenhos, os estojos bonitos, as cores de muita qualidade. Os materiais de trabalho têm de ser muito bons, e agradáveis ao tacto.
A professora do ensino público já não consegue separar a pedagogia Waldorf do seu próprio ramo. "Não devemos arrumar a escola em gavetas", acrescenta a sua colega Waldorf.            
Nesta escola, o que conta é: quais são as necessidades das crianças?


Enviado por: Helena Araújo às: 11:47 3 comentários: Links para este post
Etiquetas: educação

cá vamos nós outra vez

Levantei-me à hora do costume (tão cedo que quase lhe poderia chamar ainda véspera). Espreitei a rua. Não havia ninguém por perto, fui em pijama buscar o jornal à caixa do correio. Ao passar pelo carro, vi que estava coberto de gelo. Como o Joachim estava atrasado, ajudei-o a raspar o gelo todo. Em pijama, claro, que em tempo de guerra não se limpam armas, e além disso estamos em Berlim. Levei o jornal para a cozinha, preparei o meu pequeno-almoço. Quando me ia sentar para gozar finalmente os primeiros momentos sossegados do dia olhei pela janela e:



Saí para o terraço, para melhorar o ângulo da fotografia, e de repente o chão abriu-se debaixo dos meus pés, que foram um para cada lado. Elementar, mas só então me ocorreu: se o carro tinha gelo, o terraço também. Levantei-me, e avancei cuidadosamente. Não há-de ser um terraço escorregadio como não-me-ocorre-nenhuma-imagem que me vai impedir de fazer o que considero importante. Sou eu e a Marie Curie, que ela também desgraçou a saúde mas não se desviou do seu objectivo. Já se arranjava um Nobel do Físico para casos como o nosso.







Enviado por: Helena Araújo às: 09:56 Sem comentários: Links para este post
Etiquetas: viver em Berlim

04 fevereiro 2016

"maestros - cada movimento conta"



A quem está em Berlim: esta semana estão a passar no Sputnik o documentário alemão "Dirigenten - jede Bewegung zählt", sobre um concurso internacional de maestros que decorre na Alemanha.

A sorte ajudou muito o realizador: dois dos maestros que ele escolheu, de entre os 25 iniciais, conseguiram chegar à final. E um dos perdedores era um tipo muito novo, muito sem filtro, que aceitou mostrar-se na sua fragilidade. Duvido que, se estivessem a trabalhar com roteiro, lhes tivessem ocorrido uma história tão boa como esta e personagens tão cativantes. Ou seja: um documentário que se vê como um bom filme de ficção. E uma delícia: os movimentos, a personalidade de cada um, a música.


Dirigenten - Jede Bewegung zählt!


Aos 19 anos, Aziz Shokhakimov ainda não estava preparado para uma competição destas. Mas também não estava preparado para a perder. As suas reacções, filmadas sem pudor, dão uma autenticidade quase embaraçosa a este filme. Em contrapartida, a sua amizade com James Lowe oferece momentos de candura e serenidade tais que surpreendem num contexto destes.
Entretanto, Aziz fez o seu caminho. Este mês está na Filarmonia, no dia 15, com a DSO.

Dos cinco maestros que o filme apresenta, o meu favorito foi o japonês Shizuo Kuwahara. Aquelas mãos, aquelas mãos!
Ganhou o concurso, está a fazer carreira nos EUA, não vem muito à Europa. Que pena Berlim estar um pouco à desamão! Já me sonhava num concerto com ele, sentada nos bancos de pau da Filarmonia, e estava a fazer figas para ninguém descobrir que nesse dia aqueles seriam os melhores lugares - de longe! - na sala inteira.

Pode-se ver neste filme, a dirigir sem batuta de modo a ter as mãos mais livres para mostrar o que quer:

Brahms: Symphony No. 2Malko Competition Final RoundBrahms: Symphony No. 2
Publicado por Shizuo Z Kuwahara / シズオ・Z・クワハラ em Segunda-feira, 25 de Maio de 2009


E aqui está o Mariss Jansons a dirigir, também sem batuta, a peça que Kuwahara apresentou na competição no dia em que ganhou o primeiro prémio:



Enviado por: Helena Araújo às: 18:21 Sem comentários: Links para este post
Etiquetas: filarmonia de Berlim

subway stories: tales from the underground

(foto)


No metro berlinense, a minha filha costuma meter conversa, ou pelo menos trocar sorrisos, com os refugiados que encontra. Um olhar de empatia para a mãe que não consegue acalmar o bebé, a oferta de mudar de lugar para todos os membros da família ficarem no mesmo banco, coisas simples.

Alguns tentam comunicar em alemão, e pedem desculpa por não falarem bem. Ela põe-nos à vontade:
- Oh, não se preocupem! A minha mãe está cá há um quarto de século, e também continua a ter problemas com o idioma.
Eles ficam muito aliviados.

Há dias decidiu ajudar um homem que ia no metro a aprender alemão numa lista de vocábulos em árabe e alemão. Sentada ao seu lado, a Christina ensinava-lhe a pronúncia. Às tantas ele chegou à palavra مول, leu

 E I N K A U F S Z E N T R U M 

e suspirou, chocado e desanimado:
- Oh, nooooooo! Really?!!!!

Pobres refugiados. Como se não bastasse a guerra, a travessia do Mediterrâneo, a rota dos Balcãs, a insegurança e a falta de perspectivas, ainda têm de aprender alemão...



Enviado por: Helena Araújo às: 14:23 4 comentários: Links para este post
Etiquetas: refugiados

alô alô, escuto...



Esta manhã um amigo ligou para o meu telemóvel, e começou por perguntar se eu estava no estrangeiro, porque o sinal de chamada que ele tinha ouvido era diferente do habitual na Alemanha, e que soava como quando faz uma chamada transatlântica.

A meio da conversa a ligação caiu, e eu fiquei à espera que me ligasse de novo.
Daí a um bom bocado o telefone tocou, e ele contou-me que de repente tinha começado a ouvir a minha voz repetindo tudo o que dissera desde o princípio do primeiro telefonema.

Eu sabia que não devia ter escrito aqueles textos para o Observador! Agora tenho a CIA no meu encalço. Ou isso, ou então será (enfim, remota hipótese, mas uma pessoa tem de contemplar todas as possibilidades) por ele me ter ligado do telefone fixo de uma empresa alemã importante, onde tem um trabalho de certa responsabilidade.

Agora estamos ambos a pensar numa conversa para ter ao telefone um dia que volte a parecer que a chamada está a ser captada algures do outro lado do mundo. Aceito sugestões.

(Estou a brincar, mas é sério: vigilância total. Não me agrada nada ter de me habituar à ideia de autocensurar tudo o que digo e escrevo para não correr o risco de, um dia que calhe de cair em desgraça por um motivo qualquer, se aproveitarem de uma fuga ao segredo de justiça (esse incontinente) para escarrapachar uma frase minha na primeira página de algum pasquim.)


Enviado por: Helena Araújo às: 10:45 Sem comentários: Links para este post

"o melhor escritor português"


"José Rodrigues dos Santos é considerado pelos portugueses o melhor escritor nacional." 
(jornal i online)


Depois de ter desperdiçado 10 minutos a tentar entender este fenómeno, diria que o prémio vai para os marketingueiros da empresa Cinco Estrelas.
Conseguiram dar uma espantosa visibilidade ao produto.
São - como direi? - 5 estrelas.

(E nós damos cinquenta a zero ao cão do Pavlov. Qualquer casca de banana é boa para nos estatelarmos ao comprido.)


Enviado por: Helena Araújo às: 08:37 2 comentários: Links para este post

03 fevereiro 2016

refugiados - a vez do humor




A anedota do dia, na Alemanha, é um cartaz do NPD, partido de extrema-direita, onde se vê um avião a levantar voo, e as frases:

DEPORTAR DE FORMA CONSEQUENTE


O NOSSO POVO PRIMEIRO   NPD

("unser Volk" também pode ser entendido como "o nosso grupo")

O meu diário berlinense comenta que este é o melhor cartaz de sempre do NPD - finalmente conseguiu agradar às multidões. No facebook multiplicam-se os elogios: "Queridos NPD, esta é a primeira ideia boa que alguma vez tiveram!", "por favor, deportem-se para bem looooonge", "Finalmente seguem de forma consequente o "nazis, fora!" que andamos a repetir há anos, que maravilha!". O grupo "Hooligans gegen Satzbau" (penso que será um grupo de fundamentalistas da gramática) farta-se de rir com o cartaz (e eu com eles). Há quem se queixe de terem levado demasiado a sério um artigo num jornal satírico que informava sobre as conclusões de um novo estudo, segundo o qual o Estado pouparia cem mil milhões de Euros anualmente se deportasse de forma consequente os neonazis, uma vez que neste grupo se encontra uma taxa de desemprego, violência e baixo nível educacional superior à média nacional.
O jornal refere ainda outro caso exemplar das estratégias de mobilização do partido, com um vídeo que convoca para uma manifestação contra a vinda de mais refugiados para a região:



(depois do primeiro orador começar a falar, podem saltar para 1:30)
(desde os tempos daquele vídeo do Marcelo Rebelo de Sousa para dizer umas coisas aos alemães que não via uma coisa tão bem feita, coisa mesmo de profissionais)

E depois, como se não tivesse já rido o suficiente, aparecem os africanos a oferecer asilo aos velhinhos dinamarqueses, por estarem cheios de pena do seu estado de necessidade:




Enviado por: Helena Araújo às: 22:32 Sem comentários: Links para este post

ajudar a morrer



Nesta sociedade que faz de conta que a morte não existe, ou que é culpa do profissional da saúde, muitas pessoas fazem essa travessia na mais terrível solidão. O medo de morrer fica ainda maior perante a parede de silêncio erguida pela recusa dos outros de assumir a ruptura iminente e irreparável, e o embaraço de não saber o que fazer numa hora de morte.

Noutros tempos, as pessoas nasciam e morriam em casa - tudo fazia parte do ciclo da vida, e a assistência ao moribundo aprendia-se naturalmente. Para os católicos, o rito da extrema-unção exigia o entender dos sinais, e a vinda do padre contribuía para que todos se preparassem para aceitar o inevitável. Mas desde que a morte se tornou um tema tabu, os saberes e os ritos perderam-se, e ficámos desamparados. Era preciso aprender a dar assistência a moribundos, tal como aprendemos primeiros socorros.

Do pouco que sei, partilho duas frases que me parecem notáveis:

A médica que acalmou a miúda de cinco anos que fazia uma cena de gritos porque não queria que a avó morresse, dizendo: "Morrer é muito difícil, e a tua avó precisa da ajuda de todos para poder partir em paz. Queres ajudar?"

A filha que disse ao homem moribundo: "No sítio para onde vais, já estão à tua espera, preparados para te acolher".

--

Para quem estava à espera que eu falasse sobre a eutanásia: desculpem.
Não tenho opinião sobre esse assunto, apenas uma preocupação: que, numa sociedade onde a velhice é vista como um fardo e um incómodo, as pessoas se sintam tentadas a ir desta para melhor para não incomodar mais, para não pesarem a ninguém.


Enviado por: Helena Araújo às: 18:09 1 comentário: Links para este post

02 fevereiro 2016

a cultura como refúgio




Ao ver as imagens aéreas da destruição de Homs, que têm sido divulgadas esta semana, lembrei-me de cenas semelhantes que vi numa reportagem sobre sírios que estão a regressar ao país para reconstruir as suas cidades. Vivem e trabalham em ruas como estas.
Em termos de imagens de ruínas, contudo, nada ultrapassa o efeito chocante das que passaram há meia dúzia de meses, num programa da televisão sobre os refugiados que chegaram à Alemanha: mostravam o antes e o depois. O antes: ruas bonitas e cheias de vida tranquila, com árvores e jardins bem cuidados.

(foto)

Foi nesse programa que conheci o coro Zuflucht, "refúgio", um projecto de integração que junta cantores líricos alemães e refugiados. O coro interpretou o Hino da Alegria, fundindo de forma muito bela a música de Beethoven com a tradição musical síria. Infelizmente apagaram o vídeo do youtube. Mas deixo aqui um outro (que já publiquei neste blogue), onde cantam "paraíso". O paraíso de onde vieram, esse "antes" que já não existe.



"Chamo-me Ahmed Osman, e sou de Homs, na Síria.
Estive meio ano na prisão, três anos em fuga, e estou agora na Alemanha com a minha mulher e os nossos três filhos.
Obrigado, alemães, por nos abraçarem e acolherem.
Temos uma mensagem para todo o mundo:
Basta de sangue! Acabem com as guerras!
[faz uma pausa antes de continuar, visivelmente emocionado]
"Janna" significa paraíso. A nossa canção sobre o paraíso fala das cidades belíssimas da Síria, de onde viemos, e agora estão reduzidas a ruínas.
Peço-vos, alemães: preservem a vossa Paz!"

Pesquisei mais trabalhos deste coro, e encontrei uma adaptação da ópera Zaide, de Mozart, à situação dos refugiados. "Zaide - uma fuga". Com música de Mozart, testemunhos de refugiados, um mapa do corredor para a Europa.


Neste filme, o presidente da Câmara conta como o seu cepticismo inicial deu lugar à confiança no projecto. Os espectadores dizem-se profundamente tocados pelos testemunhos, e louvam o trabalho dos refugiados. Uma jovem diz que já se habituou às imagens de refugiados que todos os dias aparecem na televisão, mas que esta encenação lhe lembra Brecht, porque a obriga a parar para pensar.
Eu comovo-me com tudo, particularmente com a alegria e a comoção deles no final, e ainda mais com este sinal do poder da cultura como refúgio de náufragos, palco de testemunhos e ferramenta de integração.


Enviado por: Helena Araújo às: 10:27 2 comentários: Links para este post
Etiquetas: refugiados

01 fevereiro 2016

a grandeza de um país

(foto)

O texto que escrevi, traçando um retrato da situação com os refugiados na Alemanha, e que foi ontem publicado no Observador, está a tornar-se um caso curioso de agradar a gregos e troianos. Escrevi-o como reacção a quem acusava certos países de estarem em "deriva nazi", porque me pareceu que não estavam na posse de todas as informações. Dou-me agora conta de que muitas pessoas treslêem o que relatei, para poderem confirmar aquilo que já defendiam antes: que a Europa tem de se proteger desta invasão que só traz problemas - ou, como alguém comentava no Observador: da "praga islâmica".

Recapitulando o que se está a passar na Alemanha: acolher um milhão de pessoas num só ano não está a ser fácil. O aparelho de Estado não estava preparado, e não se pôde reajustar ao ritmo exigido pelos acontecimentos. Cada uma destas pessoas que chegam à Alemanha precisa, para além da satisfação urgente das necessidades básicas, de quem as acompanhe, as ouça, lhes explique com paciência e empatia a diferença entre a sua cultura e a cultura alemã, e precisa também de ocupação e perspectivas de futuro. Há movimentos de extrema-direita que se manifestam, por palavras e por actos violentos, contra a vinda dos refugiados. O discurso no espaço público está a degradar-se: num país que se orgulhava da sua cultura de debate, multiplicam-se opiniões emitidas não a partir do cérebro, mas das tripas. Para evitar a propagação de lixo no espaço público, alguns media online fecham as caixas de comentários nas notícias relativas aos refugiados, e o governo alemão fez diligências junto do facebook para que persiga o discurso de ódio com o mesmo empenho com que persegue a nudez feminina.

Para os preocupados com "a praga islâmica": sim, os ataques de Colónia aconteceram mesmo (embora os números tenham sido empolados, segundo revela agora a polícia). Sim, há alguns delinquentes entre esta imensa massa de refugiados. Sim, muitos deles vêm de um contexto cultural muito diferente do nosso. Sim, a maior parte deles são muçulmanos. Sim, dois terços deste milhão são homens.

Para os preocupados com a "deriva nazi" e a "sombra do Holocausto": sim, há refugiados identificados com pulseira, para se ter a certeza de que é esse recém-chegado, e não outra pessoa qualquer, que recebe o auxílio humanitário mais básico enquanto espera para ser convenientemente registado. Sim, houve piscinas que vedaram temporariamente o acesso a todos os refugiados de sexo masculino. Sim, houve uma discoteca que aventou impedir a entrada a pessoas de certos grupos. Sim, há dois Estados a pensar em obrigar os refugiados a participar no pagamento das suas próprias despesas, tal como já se exige a cada alemão. Sim, houve uma responsável do partido "Alternativa para a Alemanha" que disse que a polícia devia atirar sobre os refugiados que tentam entrar no país, e que a seguir corrigiu "não se pode atirar sobre as crianças, mas pode-se atirar sobre as mulheres".

Perante estes problemas tão variados e complexos, o que faz a Alemanha? Acolhe, e corrige os erros. Não se deixa confundir pelo acessório, e continua focada no essencial - que é ajudar quem chega, debater abertamente as questões, procurar um rumo que seja fiel aos seus princípios fundamentais, sempre consciente da responsabilidade que advém da memória histórica.

A crise dos refugiados está a revelar a maturidade e a grandeza deste país. Apesar das lutas dentro da coligação governamental, que enfraquecem a posição da chanceler, e dos movimentos de extrema-direita que aproveitam a crise dos refugiados para conquistar mais espaço, a Alemanha não vacila nas questões fundamentais. Os refugiados continuam a chegar, e a ser ajudados. Na sequência dos ataques de Colónia, o Governo não deixou margem para dúvidas de que esses delinquentes só serão repatriados se houver a certeza de que no país deles não os espera a morte ou a tortura, e uma parte importante da sociedade alemã deu sinais claros de saber distinguir muito bem entre refugiados e actos de violência sexual. Multiplicam-se os debates na televisão e nos jornais. Ainda ontem, na Anne Will, que é o talkshow mais importante do país, se falou do medo e da desconfiança provocados por incidentes como os que aconteceram em algumas discotecas e piscinas. Alertou-se para a tentação de generalizar, e para o erro inadmissível dos castigos colectivos. Foram sessenta minutos de bálsamo para os espíritos atormentados, no qual se deu visibilidade aos refugiados que procuram a Alemanha porque querem ter o orgulho de fazer parte de uma sociedade que admiram, se falou do combate impreterível a comportamentos abusivos e à criminalidade. Houve palavras de compreensão para erros cometidos pela parte alemã, sinal de um certo atarantamento devido ao ritmo e à dimensão dos problemas, e palavras de compreensão para a situação difícil de alguns homens jovens, que passam meses à espera, sem família e sem qualquer perspectiva ou ocupação. Foi referido o generoso contributo da população, sem o qual o país não conseguiria fazer tanto, e concluiu-se que a integração é possível, desde que haja vontade e as regras sejam claras para todos.

Não está a ser fácil. Nunca ninguém disse que seria fácil. Quando abriu as fronteiras para acolher essa multidão que atravessava a Europa em condições catastróficas, lembrando o êxodo que aqui teve lugar no fim da segunda guerra mundial, Angela Merkel avisou que o esforço de acolher e integrar estas pessoas seria um desígnio nacional para as próximas décadas. As suas palavras encontraram terreno fértil no coração e no sentido de decência de um grande número de alemães. Apesar das dificuldades, apesar dos erros e dos mal-entendidos de parte a parte, apesar do cansaço, há muitos alemães que não desistem de ajudar o mais que podem, e mais alemães ainda que, em vez de se entrincheirarem por medo do desconhecido e repudiarem liminarmente essas pessoas, estão abertos para as ir conhecer, para falar e aprender com elas, para criar laços de amizade e solidariedade.

O nosso maior inimigo não é a "invasão muçulmana" - é o medo. É impossível parar este fluxo de seres humanos que fogem à guerra, à insegurança e à fome. Não tenhamos dúvidas: não há fronteiras estanques - e o muro de Berlim foi disso prova. Não vale a pena gastar energias a tentar parar o imparável. Mais vale olhar para o problema de frente, tendo consciência das nossas forças e responsabilidades.

O que vejo na Alemanha é a consciência de se estar a viver um momento histórico, e a vontade de, desta vez, estar do lado certo da História. O trabalho de décadas de consciencialização da responsabilidade herdada do passado está a dar frutos, que se revelam nesta atitude de não ceder ao medo do desconhecido e de outras culturas. O cristianismo e o humanismo secular que inspiram esta sociedade aparecem a trabalhar de mãos dadas para construir um quotidiano e um futuro baseados nos valores que lhes são comuns. Há muitos milhões de alemães - os que se preocupam com os refugiados e se aproximam deles, os que arregaçam as mangas e trabalham - que têm uma enorme confiança na capacidade da Alemanha para acolher e integrar estas pessoas, que acreditam que a integração vai resultar e que os valores de que se orgulham sairão reforçados. E sabem que, se optarem por jogar à defesa e fugir às dificuldades, o primeiro perdedor vai ser a Alemanha.

Este é um daqueles momentos difíceis e raros em que está na mão de cada um de nós contribuir para que se caminhe numa direcção de que os nossos netos se possam orgulhar. É também um momento revelador do muito que está a mudar para melhor na nossa sociedade. Tempos novos, estes, que se mostram das formas mais inesperadas. Como aconteceu há algumas semanas no Parlamento, quando um deputado do partido Die Linke defendeu a chanceler, que estava a ser muito pressionada pela sua coligação para pôr fim à vinda de refugiados, e o fez com estas palavras:

"Pois tive fome, e me destes de comer, tive sede, e me destes de beber; fui estrangeiro, e vós me acolhestes."


Enviado por: Helena Araújo às: 22:24 10 comentários: Links para este post
Etiquetas: refugiados

África minha

Arejar um pouco a vista. O programa segue dentro de momentos.
Foi uma óptima ideia ter feito a cozinha no último andar da casa. Todas as manhãs vemos o sol nascer por entre as árvores, olho pela janela e sinto-me numa África minha.

(Será que em África há nuvens densas como estas?)

 



Cortaram uma árvore no lago. Ficou o tronco, de um laranja vivo como nunca tinha visto numa árvore, e os restos de pó espalhados pelo chão. Já não será África minha - tenho de arranjar outro continente para estas cores.


 



Enviado por: Helena Araújo às: 19:55 Sem comentários: Links para este post
Etiquetas: da minha vida vê-se um lago

30 janeiro 2016

será que alguém em Portugal faz ideia do pandemónio que por aqui vai com os refugiados?

(foto: Zazzle)

Tenho andado a conversar com algumas pessoas no facebook sobre a retórica usada para criticar as medidas de alguns governos para tentarem reduzir o fluxo de refugiados para o seu país, e começa a ser bastante evidente que as pessoas desconhecem partes importantes da realidade. Aqui deixo alguns apontamentos sobre mais alguns lados desta questão, a partir do que observo aqui em Berlim.

Todos os dias chegam à capital alemã centenas de refugiados. Os serviços estatais responsáveis pelos refugiados já estavam a trabalhar no seu limite antes de ter começado esta onda imparável de pessoas em terrível estado de necessidade. Centenas de pessoas diariamente, que é preciso registar, que é preciso controlar cuidadosamente (depois do 13 de Novembro em Paris foi imperativo aumentar as medidas de segurança; depois de Colónia acresceram as preocupações de identificar potenciais delinquentes misturados com o grupo), para as quais é preciso arranjar alojamento, comida, cuidados médicos (especiais e acrescidos para quem fez milhares de quilómetros em terríveis condições), e apoio psicológico (muitos estão profundamente traumatizados). É preciso arranjar tradutores de árabe.

Há um batalhão de voluntários a ajudar imenso. Alguns envolvem-se em disputas com os funcionários, há azedume e crítica de parte a parte. Os media dão uma e outra vez notícias de situações de grande desumanidade, por falta de organização dos serviços. As queixas nos tribunais multiplicam-se, e são sempre casos de muita urgência (geralmente pessoas que esperam semanas e meses para se registarem, porque só depois disso recebem ajuda do Estado), o que significa que se atrasam ainda mais os casos de alemães à espera de uma decisão sobre apoios da Segurança Social.

Esta semana um voluntário inventou a morte de um refugiado de 24 anos em Berlim. As redes sociais incendiaram-se em desabafos muito emocionais e em críticas duríssimas aos serviços ("quantos mais terão de morrer até eles começarem a fazer o que devem?", "mais valia acabar com o LaGeSo!"), até que se descobriu que era tudo mentira. Um ministro do governo regional berlinense criticou a chefe desse grupo de voluntários, e esta respondeu que se está nas tintas para a opinião do ministro.

Na semana passada os media russos divulgaram o caso de uma menina russa de 13 anos, vítima de rapto e violação colectiva por refugiados em Berlim. Um escândalo, acusações gravíssimas de a polícia estar a encobrir o caso para proteger a fama dos refugiados - e afinal tinha sido tudo invenção. Possivelmente haverá um grupo de extrema-direita por trás deste incidente, com o intuito de aumentar o medo e o sentimento de insegurança. E não é caso único. Multiplicam-se as queixas de violações cometidas pelos refugiados, as redes sociais agitam-se (acusando os media de serem mentirosos, porque ocultam estas notícias assustadoras) e no fim a polícia descobre que muitos desses casos são invenção. A polícia queixa-se: enquanto anda a investigar mentiras, perde tempo que era muito necessário para fazer o seu trabalho.

Os refugiados continuam a chegar, e são alojados em sítios inacreditáveis. Muitos deles escapam aos dormitórios colectivos e são acolhidos por famílias, o que deixa os apartamentos sobrelotados, os vizinhos e os senhorios inseguros e desconfiados. Quando pensámos alugar o apartamentozinho do Matthias a um casal de refugiados, ouvimos muita gente dizer: "cuidado, não se metam nisso, ao fim de uma semana têm lá dez pessoas!"

Fala-se em cancelar eventos importantes para dar lugar aos refugiados. Ou então leva-se mil refugiados de um armazém para outro ainda pior, para não ter de cancelar uma feira internacional.

Há bandos mafiosos árabes a ganhar muito com a situação, e a envolver refugiados numa rede da qual dificilmente se poderão libertar. Há casos de refugiados que vendem o cartão que recebem ao entrar em Berlim, para terem acesso a comida e aos transportes públicos, e vão pedir um novo. Para evitar este tipo de burla, dá-se uma pulseira às pessoas, como nos hotéis "all inclusive". O que cria um certo mal-estar. Pensa-se numa nova solução - cartões com um chip e a fotografia do portador. Entretanto os refugiados continuam a chegar às centenas, diariamente. Alguns imigrantes há muito instalados, e que ajudam a traduzir e a organizar, tentam usar esse poder de "interface" para instalar na sua área de influência uma certa ordem islâmica. O que tem como consequência, entre outros, haver refugiados cristãos que escondem a todo o custo a sua religião, com medo de sofrerem represálias dos outros. Isto passa-se no coração de Berlim.

Os media tentam dar uma perspectiva equilibrada da realidade, e evitar ao máximo - sem prejuízo dos seus deveres de informação - alimentar a xenofobia, mas são acusados de serem parciais e até de mentirem. Confesso que me incomoda que só mostrem imagens de crianças e famílias para ilustrar notícias sobre os refugiados, quando todos sabemos que a maior parte dos refugiados são homens jovens. Muitas pessoas sentem-se mais que incomodadas - sentem-se amordaçadas, obrigadas a engolir os seus medos para não ficarem mal na fotografia. Na intimidade das famílias e dos amigos multiplicam-se os desabafos e os boatos: os professores que se sentem incapazes de disciplinar adolescentes que se recusam a ficar sossegados a trabalhar como os outros, ou que não respeitam a professora por ela ser uma mulher; os casos de abuso sexual de que nenhum jornal quer falar; os refugiados que defecam nos jardins; os espertalhões que se portam como se tudo lhes fosse devido; etc.
Haverá com certeza entre um milhão de refugiados alguns que acham normal defecar num jardim, alguns adolescentes (traumatizados?) que se portam mal na sala de aula, alguns espertalhões que acham que podem tudo porque "foram convidados pela Frau Merkel". Mas no espaço reservado das casas e das mesas de café estes casos desenham o retrato robot do refugiado, e tudo o que os media possam fazer para o corrigir reforça a ideia de imprensa manipuladora e parcial.

Entretanto, as ruas da Berlim estão cada vez mais esburacadas, e em inúmeras escolas não há aulas de ginástica, porque os ginásios estão a servir de camaratas. Para dar apenas dois exemplos de problemas práticos. Isto, em Berlim - que nem é a cidade em situação mais difícil.

Noutras cidades já há grupos de cidadãos a fazer patrulhas nas ruas, porque sentem que a polícia é incapaz de responder a todas as necessidades. E há localidades onde de repente passou a haver mais refugiados que alemães.

O Estado de Direito está a rebentar pelas costuras, e os governos tentam responder adequadamente para que o país continue a funcionar em normalidade democrática. Entretanto a Áustria tenta ser apenas um corredor, a Alemanha sente-se aliviada por cada refugiado que resolve continuar caminho, a Dinamarca espera que eles sigam para a Suécia, a Suécia devolve-os à Dinamarca e insiste que é preciso respeitar Dublin.

O sentimento geral é de que estamos perante uma nova vaga de "invasões dos bárbaros" (em alemão diz-se Völkerwanderung, migração de povos - não tem o sentido pejorativo e ameaçador do português). Os alemães vêem o estado de necessidade das pessoas que aqui chegam e sentem que têm de ajudar, mas também estão apreensivos sobre o que isto possa significar de mudança nos hábitos e no nível de vida (nomeadamente as mulheres terem medo de andar na rua, ou uma redução drástica dos apoios sociais, nomeadamente os cuidados de saúde, devido a este enorme acréscimo de despesas). Apesar disso, continua a haver uma multidão de voluntários que sabem focar-se no essencial: ajudar estas pessoas, que precisam tanto. O país olha para elas com gratidão. Em 2015 contaram-se cerca de 800 ataques contra os refugiados. Ninguém contou os gestos de acolhimento, mas são milhões.

Amanhã, dia 31 de Janeiro, mais de 80 instituições culturais da cidade abrem as portas aos voluntários, oferecendo gratuitamente a entrada em museus e exposições, visitas guiadas, peças de teatro e concertos para os que ajudaram a acolher 70.000 refugiados em 2015. Berlin sagt Danke!
E na segunda-feira chegarão mais autocarros. E na terça, e na quarta, ...
Ninguém sabe quantos milhões entrarão na Alemanha em 2016.


Enviado por: Helena Araújo às: 23:01 13 comentários: Links para este post
Etiquetas: refugiados

uma ideia de Deus

(foto)

Este post do Leandro Karnal no facebook já tem uns meses, mas hoje passei por ele de novo e gostei ainda mais de reler. Copio tudo para aqui (o poema da Hilda Hilst, o texto de introdução do Leandro Karnal e a foto), como presente para o fim-de-semana:



Hilda Hist (1930-2004)

Li, nos aviões da semana passada, o volume organizado pelo meu amigo Alcir Pécora, sobre as poesias de Hilda Hist. (Exercícios, ed da Folha de São Paulo) Termino o volume com uma sensação estranha: amei cada linha, achei a linguagem (ou metalinguagem) fascinante; admirei esta mulher e... creio que não entendi nada. Entendi as metáforas, as metonímias; entendi tudo o que ela escreve, mas não sei se entendi Hilda. No poema abaixo, por exemplo, estamos diante da relação do eu terreno com o outro divino e Deus como metáfora do além e da ousadia. Consciência imanente versus consciência de epifania? Seria o poema um diálogo do ego dela com o superego? Acho muito denso, muito bonito e muito poético... Porém, acho que estou inventando uma Hilda para mim... Será a verdadeira Hilda? A senhora genial do Casa do Sol perto de Campinas: sexuada, culta e cercada de cachorros? Tenho de perguntar ao Alcir... Este poema é de 1967. Amar a poesia talvez seja suficiente...

Exercício no 1

Se permitires
Traço nesta lousa
O que em mim se faz
E não repousa:
Uma Ideia de Deus.

Clara como Coisa
Se sobrepondo
A tudo que não ouso.

Clara como Coisa
Sob um feixe de luz
Num lúcido anteparo.

Se permitires ouso
Comparar o que penso
O Ouro e Aro
Na superfície clara
De um solário.

E te parece pouco
Tanta exatidão
Em quem não ousa?

Uma ideia de Deus
No meu peito se faz
E não repousa.

E o mais fundo de mim
Me diz apenas: Canta,
Porque à tua volta
É noite. O Ser descansa.
Ousa.


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29 janeiro 2016

"pulseiras brilhantes identificativas"


A notícia vem no Sapo, com o título: Refugiados obrigados a usar pulseiras brilhantes identificativas no norte de Inglaterra. A empresa que distribui os alimentos quer que os refugiados usem a pulseira, porque facilita o trabalho de identificar quem tem direito a receber as três refeições diárias. 

Onde é que já vimos algo semelhante?
Nos festivais, nos hotéis com regimes diferentes pensão completa/meia pensão, coisas assim. É muito prático, e ninguém se queixa.
Também vimos há uns anos uma coisa deste género. Em França. Era um cartão que os sem-abrigo deviam trazer consigo, com a sua história clínica, para serem mais facilmente ajudados. Também era uma ideia muito prática, mas teve tantos protestos (não ajudou especialmente ter um triângulo amarelo desenhado num dos lados) que foi rapidamente abolida.
Façamos então um coro de protestos para que esta "brilhante" ideia de identificar os refugiados com pulseiras seja também rapidamente abolida. Ser refugiado não é o mesmo que ter direito a entrar num festival ou a servir-se de todas as bebidas de um hotel. Não se pode dar tratamento igual ao que é diferente. Por muito prático que seja. E que se repita o aviso para todos os que trabalham na área de ajuda aos refugiados: é preciso ter muito cuidado, muita sensibilidade, e não esquecer nunca o permanente estado de necessidade em que vivem. A identificação, necessária para terem acesso a determinados apoios, tem de ser feita de outro modo. O Estado e as organizações que ajudam os refugiados não podem contribuir de modo algum para aumentar ainda mais a sua exposição, exclusão, e fragilidade. Os refugiados têm de ser ajudados e protegidos, e não servidos de bandeja à xenofobia que, infelizmente, existe em cada país.

(Mas confesso que não percebo a parte em que se queixam que os camionistas vêem as pulseiras e os insultam. Quem quer insultar refugiados, não precisa de uma pulseira para os identificar.)

(Já a outra parte da notícia, a "polémica à volta da cor vermelha com que se pintaram as portas das casas onde vivem requerentes de asilo em Middlesbrough", é um triste sinal de mau serviço de informação. Calhou de os refugiados terem sido alojados em casas devolutas da empresa Jomast, cujas portas são todas iguais e de cor vermelha - há vinte anos que são assim. Fazer disso um caso nacional e comparar imediatamente com as estrelas amarelas dos judeus é um triste sinal dos tempos de histeria que vivemos.)  


Enviado por: Helena Araújo às: 08:37 Sem comentários: Links para este post
Etiquetas: refugiados

28 janeiro 2016

Bethânia e Chico



Gosto de tudo. O público que sabe a canção de cor. O sorriso do Chico para o público que conhece a sua canção de cor. A energia da Bethânia. A interpretação maravilhosa da Bethânia. A cumplicidade e a amizade dos gigantes. Até gosto da roupa que escolheram a fazer pandã.

E fico a pensar: se tivesse de escolher um dos dois para levar para uma ilha deserta, qual escolhia?
Ai. Ai. Ai... o Chico que não me ouça, mas levava a Bethânia. Para além de cantar, interpreta. E estou capaz de apostar que os dias com ela iam ser mais animados. Enfim, ia faltar um pequeno detalhe (ou dois, contando com a cor dos olhos dos Chico), mas acredito que a ilha da Bethânia seria mais quente, viva e alegre.


Enviado por: Helena Araújo às: 14:06 1 comentário: Links para este post

dando agora a palavra ao Kofi Annan



No meio do caos retórico em que nos encontramos, a mensagem do Kofi Annan, que copio abaixo, é um contributo sereno, incisivo, justo e equilibrado.

(Também gostei de reconhecer nele algumas das ideias que tenho andado a defender, e de verificar que sabe criticar a Dinamarca e a Europa sem precisar de recorrer a palavras como "nazi", Holocausto" e "sombras da História".)


Kofi Annan
26/1 às 17:15 

I am worried by the new refugee law before the Danish Parliament today. It is in sharp contrast with Denmark’s humanitarian and social traditions, and highlights a worrying trend in European politics: An issue that should have helped Europe to rally together in solidarity to forge a common approach is regretfully having the opposite effect.

The threat to confiscate migrants’ valuables and to delay to three years the waiting period before they can be reunited with their families is not in the spirit of the European Convention on Human Rights, the UN Convention on the Rights of the Child, and the UN Refugee Convention, all of which Denmark is a party to.

The failure of the European Union to agree to a common migration policy is leading to a race to the bottom by member states. Attempting to push problems to one's neighbors is not a sustainable strategy. If the law before Parliament today in Denmark is passed, I fear to think what the next national response will be.

While European states have to address the legitimate concerns of their citizens regarding the historic influx of migrants since last year, they cannot do so at the expense of their values, ideals and international law. By doing so, they offer violent movements a victory they could never have won on their own.

I encourage the member states of the European Union to focus on forging the common migration policy the continent urgently needs.


Enviado por: Helena Araújo às: 11:09 Sem comentários: Links para este post

dando agora a palavra à Dinamarca

Recebi no facebook um texto onde se explica a posição da Dinamarca. Divulgo-o aqui, por me parecer bastante esclarecedor. Mas faço-o com uma ressalva, porque há nesta argumentação algo com que não posso concordar: um refugiado pobre é muitíssimo mais frágil que um dinamarquês pobre. O dinamarquês tem, apesar de tudo, uma história e uma rede social no seu país. Tem amarras. O refugiado não tem nada. Não basta dar-lhe casa, pão, educação e saúde. É preciso ter sensibilidade e empatia para perceber o estado de alienação absoluta em que se encontra.

(E uma segunda ressalva: o inglês parece aquele das cartas do advogado do nosso primo que morreu na Zâmbia e nos deixou uma herança de vários milhões, mas dá para entender o essencial.)

 «Well, because I read many unrelated to rush to accuse Denmark regulating voted to confiscate the money immigrants over EUR 1,200 to finance their stay in the country should be aware of all that:
-> Denmark has the same setting for all Danish citizens claiming / eligible for assistance from the state.
-> For example, when a Danish citizen wants to get unemployment benefits from the state (not by professional fund), the state wants to liquidate all assets that arthrizoun amount over 1200 euro.
-> So if you have deposits over 1200 euro, is not entitled to assistance from the state.
-> If you have a car, own house etc. NOT entitled to state aid.
-> The help goes only to whoever does not have anything over 1,200 euro as the purpose is to help really poor.
-> In this case, give them shelter (a small apartment), unemployment benefits, help for children, education for work etc.
-> The same applies to immigrants and refugees.
-> The setting passed essentially passes the conditions applicable for Danish citizens and refugees.
-> The money is not confiscated, they do not go to the Danish state, but EXCLUSIVELY used to finance the refugees who have neither the 1200 euros with them. One more thing:
-> The benefits gives refugees the Danish state include:
- Provision of housing (furnished apartment with heating, clothing and food)
- Providing comprehensive health care
- Living allowance equal to the basic unemployment benefit
- Child allowance
and many others which are the same as those offered by the State for all Danish citizens have no means to support themselves.
Please much then, before rush to play the stupid who believe that a country with a strong welfare state and widespread social sensitivities which for years receives immigrants from many Muslim and African countries, offering them equal opportunities and benefits as other citizens, suddenly went mad and became a massive neo-Nazi, show a little attention and learn better.»


Enviado por: Helena Araújo às: 09:27 4 comentários: Links para este post
Etiquetas: refugiados

27 janeiro 2016

ai que horror, esta semana o Holocausto é na Dinamarca...

Junto-me ao coro dos que criticam o parlamento dinamarquês por ter aprovado regras muito mais restritas para a entrada de refugiados no país, sem se incomodar ao menos em esconder que o faz para evitar que os refugiados continuem a entrar ao ritmo actual.

Sem sequer mencionar a cruel decisão de impedir durante 3 anos a reunião de membros da família, esta decisão de confiscar o dinheiro e os bens dos refugiados:
- é desumana e insensível em relação a essas pessoas que fogem para salvar a própria vida, têm de se instalar numa terra desconhecida e alheia, estão numa situação de extrema precaridade e não sentem qualquer espécie de segurança;
- é perigosa para os nossos Estados, porque representa uma cedência a um discurso egoísta e xenófobo, em vez de apelar para os valores que dizemos serem os europeus;
- é estúpida (e falo agora numa perspectiva muito egoísta e de mero bom senso) porque afasta do país os refugiados com mais posses, que são em princípio aqueles que têm uma profissão e um nível social que mais nos convêm. Com estas leis, a Dinamarca consegue uma triagem pela negativa: só atrai pessoas sem vínculos familiares, sem dinheiro e sem perspectivas. Mesmo correndo o risco de generalizações injustas: aqui está o retrato robot dos homens que fizeram os ataques em Colónia.

Dito isto, tenho de criticar também os que tão facilmente recorrem a palavras sonantes como "nazi" e "Holocausto". Isto não é o Holocausto, nem sequer o seu princípio, e o Parlamento dinamarquês não tem uma agenda nazi. Há diferenças substanciais entre o nazismo e um egoísmo nacional.
O uso abusivo e ignorante destas palavras esvazia-as, e é uma ofensa às vítimas do Holocausto e das outras perseguições perpetradas pelo regime nazi. Ao menos por ser hoje o 71º aniversário da libertação de Ausschwitz, sejamos capazes de medir melhor as palavras.

Enquanto gritamos "nazi!" e "Holocausto!" apontando o dedo aos dinamarqueses, podemos esquecer a nossa própria responsabilidade e culpa. A Dinamarca foi deixada sozinha com o seu problema. O país de 5,6 milhões de habitantes já tem 21.000 pedidos de asilo (site alemão), uma das maiores cargas per capita da Europa. A Grécia está a ser fortemente pressionada pela UE para impedir a chegada de mais refugiados. Perante uma tragédia desta dimensão, cada país é abandonado à sua sorte, e criticado pelos outros. Confesso que não sei o que mais me choca: se as medidas aprovadas pelo Parlamento dinamarquês, se a hipocrisia de quem critica a partir da posição confortável de habitante de um país que não se debate com este problema. Mais: será que já nos esquecemos todos da nossa própria História recente, nomeadamente quando a Europa não soube resolver o problema dos imigrantes africanos, deixando que continuassem a morrer no Mediterrâneo? A Europa não começou a morrer hoje na Dinamarca, já morre há vários anos em Lampedusa. E antes disso em Melilla. E nem aí se trata de uma deriva nazi e de um Holocausto: nenhum governo europeu quer deliberadamente "acabar com a raça aos pretos e/ou aos árabes". Os governos, e muitos de nós, só querem que eles continuem a morrer longe e não nos chateiem. Chamemos as coisas pelo seu nome: comodismo de ricos, desinteresse, egoísmo nacional. E estamos todos enterrados nisto até ao pescoço. Que ninguém se iluda apontando o dedo à Dinamarca.

A criação de opinião pública às vezes tem fenómenos curiosos. Nas redes sociais, o Canadá parece ser o país modelo no acolhimento aos refugiados. Até passam um vídeo bonitinho, no qual o novo primeiro-ministro dá as boas-vindas a um grupo de refugiados. Não dá para acreditar: o país que só recentemente aceitou subir para 50.000 o número de refugiados acolhidos até fins de 2016, que faz casting de refugiados (só famílias, mulheres e crianças; homens, só os perseguidos devido à sua orientação sexual - não sei se estão a ver o filme: se fosse a Dinamarca, provavelmente iriam dizer que até parece a selecção em Auschwitz), e que se permite atrasar - em pleno inverno! - a entrada dos refugiados porque, devido aos atentados em Paris, quer verificar muito bem a sua identidade previamente - este país é considerado o modelo. E a Dinamarca, que até agora teve as fronteiras escancaradas para quem precisa e não para quem lhe dá jeito, quando resolve pressionar os outros países da UE para que se cheguem à frente e façam também a sua parte, é acusada de deriva nazi. Pelos que não fazem a sua parte.  

Enviado por: Helena Araújo às: 21:42 2 comentários: Links para este post
Etiquetas: refugiados

política de refugiados: precisamos de regras!

A propósito do escândalo do confisco de bens dos refugiados, traduzo um artigo do semanário "Die Zeit". Às vezes dá jeito olhar para as questões com um horizonte um pouco mais alargado. Este artigo, publicado a 7.05.2015, mostra a velocidade a que a História está a acontecer (basta ver que, há apenas sete meses, os refugiados sírios ainda não eram sequer um tema) e inscreve este recente escândalo dinamarquês num quadro alargado de falta de comunicação, de egoísmo nacional, de cálculo cínico e de adiamento de soluções comum a toda a Europa. Muito antes de os dinamarqueses começarem a obrigar os refugiados a pagar as despesas que fazem, caso tenham meios para isso, já a Europa estava a falhar escandalosamente.


Precisamos de regras!

7. Mai 2015 DIE ZEIT Nr. 17/2015, 23. April 2015

Há quem diga que é desumano impor condições aos refugiados. Outros dizem que essa é a única solução razoável. Mas, digam lá: que regras podem ser essas?

Um trabalho de Michael Thumann, Martin Klingst, Gero von Randow e Ulrich Ladurner
(em tradução apressadíssima)


Regras que substituem a brutalidade pela previsibilidade

Michael Thumann e Martin Klingst

Estabelecer regras para pessoas que correm risco de vida parece insensível, burocrático, alemão na sua forma mais desagradável. Mas não se iludam: já há regras. De momento são estabelecidas por autocratas brutais, por criminosos e pelo mercado. De momento, conseguem chegar à Europa os que têm dinheiro suficiente para a passagem. Os que pura e simplesmente têm mais força. Ou os que estão dispostos a vender o corpo, como trabalhadores escravos ou como prostitutas. É uma autêntica selecção darwiniana: survival of the fittest.

Se propomos regras, isso não significa que queremos deixar tudo como está. Tem de haver uma missão de salvamento no Mediterrâneo organizada pela UE. Tem de haver uma distribuição diferente dos refugiados no interior da UE. Tem de ser possível que as pessoas peçam asilo numa Embaixada europeia, e não só depois de porem o pé em solo europeu. Tem de haver outras formas, formas legais, para as pessoas entrarem na Europa, sem ser o recurso ao sistema de asilo que está a rebentar pelas costuras. A Europa podia, por exemplo, ter um contingente de vistos de trabalho, eventualmente para um período limitado. Para que não seja a necessidade a ditar as regras. Quem tiver a possibilidade de se inscrever para vir para a Europa, não se verá obrigado a pôr-se nas mãos de um gang de traficantes.
Devido à sua História, a Alemanha tem alguma dificuldade em recusar a entrada a pessoas que precisam de ajuda. Isso faz com que aceitemos muitos mais refugiados que outros países, sem ousarmos exprimir abertamente os nossos interesses. Que estão ligados à regulação, e não às pessoas que pedem asilo.
Países como a Austrália e o Canadá não têm tantos problemas com isso. O Canadá aceita no máximo 30.000 pessoas por ano, no âmbito do auxílio humanitário, e a Austrália já se fechou radicalmente há um ano à entrada de qualquer refugiado. Mas ambos os países procuram com muito mais empenho que a Alemanha atrair tanto mão-de-obra qualificada como investidores estrangeiros. Nos dois países, a entrada de emigrantes é regulada por um sistema de pontos que reflecte as necessidades do mercado de trabalho, e é definido com o contributo das empresas, regiões e províncias. De momento, dois terços das pessoas que entram no Canadá fazem-no para trabalhar, um quarto corresponde a familiares de pessoas que já residem no país, e os restantes devem-se a motivos humanitários. Entre nós, acontece o oposto.
Isso não faz do Canadá e da Austrália um modelo para a Alemanha. Ninguém diz que nesse país tudo se processa com perfeição, e há diferenças históricas, sociais e geográficas que não se podem iludir. Mas torna claro que é razoável e possível abrir novas vias para entrada de imigrantes, para além do conceito delimitado de asilo político.


Como se fosse possível controlar as vagas migratórias!
 
Gero von Randow

É surpreendente que alguém use o Canadá como exemplo. Nesse país, os emigrantes que têm entrada prioritária são os que podem exibir uma oferta de trabalho. Uma regra que traz consigo vários problemas: produz um mercado de falsas ofertas de trabalho; discrimina pessoas com nomes que pareçam árabes ou africanos (essas pessoas têm muitas dificuldades em arranjar quem lhes ofereça um trabalho); e as pessoas que concorrem estão na total dependência do seu empregador. Quem não pode recorrer a esta express entry é examinado com base em critérios económicos. O que leva a que, por exemplo, uma família com um filho autista não seja aceite, porque ia custar demasiado ao sistema de saúde. É isso que vocês querem?
Além disso, nem sequer se pode falar de entradas controladas no Canadá. Segundo variadas estimativas, vivem no Canadá entre 100.000 e 500.000 pessoas sem autorização de residência. Sendo de salientar o aumento das entradas pela fronteira com os EUA - pessoas que fogem deste país com regras ainda mais rigorosas. A fronteira é um viveiro de bandos de traficantes. Para conseguir entrar no Canadá, há quem atravesse o Niágara a nado, ou se deite em cima das carruagens de comboio. Muitas pessoas morrem nessa passagem. E há até quem consiga entrar no país atravessando o Atlântico e o Pacífico.
Se nem o Canadá consegue controlar as suas fronteiras desenhadas de forma tão simples, como hão-de os europeus controlar as deles, de geografia tão mais complexa? Na Austrália, que está protegida pelo Oceano Índico, o preço do controlo do fluxo de imigrantes não desejados é a manutenção de cerca de 2.500 pessoas presas em campos na costa ou em ilhas longínquas.
As fronteiras não são sebes de jardins. Haverá controlo mais rígido que o de Calais e Dover, no Canal da Mancha? Antes de entrar no túnel, os camiões são minuciosamente examinados, com detectores de todo o tipo; os comboios e os barcos são inspeccionados. Mesmo assim, os emigrantes chegam aos milhares a Calais, na esperança de conseguir atravessar para a Grã-Bretanha. Também eles pagam muito dinheiro aos bandos que ali se instalaram. Algumas centenas conseguem. Os outros morrem.


A verdade é que a Europa está a utilizar as mortes como elemento dissuasor

Ulrich Ladurner

Ninguém sabe mais sobre as mortes dos refugiados que Giusi Nicoli, a autarca de Lampedusa. Entretanto, qualquer europeu conhece o nome da ilha minúscula, com 22 km2: Lampedusa, o buraco da agulha para entrar na Europa.
Giusi Nicolini tem uma outra ideia da ilha onde nasceu: "somos uma espécie de bóia no mar. Quem aqui chega pode repousar um pouco antes de seguir viagem. Mas não somos um posto fronteiriço. Não temos meios para isso." E continua: "Sabe, os media falam sobre a migração como se fosse uma catástrofe. No entanto, é um processo normal. As pessoas saem do seu país quando as condições são demasiado difíceis. Por isso, os media não deviam falar da emigração como se fosse algo algo sensacional, mas como algo normal."
Os naufrágios ao largo de Lampedusa têm posto esta mulher nas páginas da imprensa mundial. Ela defendeu com entusiasmo aquilo em que acredita, falou com grande empatia sobre os barcos de refugiados, visitou um campo de acolhimento, consolou e deu alento, tentou dar uma outra imagem de Lampedusa.
Em Novembro de 2012, recentemente eleita para o cargo, publicou uma carta aberta que descreve as consequências daquilo a que - do seu ponto de vista, eufemisticamente - se chama "a política de imigração europeia":

"Sou a nova presidente das ilhas Lampedusa e Linosa. Fui eleita em Maio. Até ao dia 3 de Novembro já me foram apresentados 21 cadáveres. Estas pessoas morreram afogadas quando tentavam chegar a Lampedusa. Isto é insuportável para mim, e significa dificuldades e dores imensas para Lampedusa. Tivemos de pedir a outras regiões ajuda para conseguir enterrar dignamente onze mortos. Já não tínhamos espaço no nosso cemitério para estes desgraçados. Vamos aumentar o cemitério, mas pergunto: que tamanho deve ter o cemitério da nossa ilha?
Não consigo compreender como tamanha tragédia é aceite como normal. Como podemos esquecer no nosso dia-a-dia que, por exemplo, no sábado passado morreram onze pessoas, entre as quais crianças, na viagem que devia significar para eles o princípio de uma vida nova? Foi possível salvar 76, mas naquele barco havia 115 pessoas. O número de mortos é sempre superior ao número de corpos que o mar nos devolve.
Continuo convencida de que a política de imigração europeia aceita estes mortos como preço necessário para secar o fluxo de imigrantes, e talvez veja os mortos como meio dissuasor. Mas, se para estas pessoas, a viagem de barco era a única possibilidade de esperança, então a Europa tem de sentir a sua vergonha e indignidade (...) É preciso que todos saibam que Lampedusa, os seus habitantes e todos os que ajudam nas operações de salvamento respeitam a dignidade dos refugiados. São eles que conferem dignidade ao nosso país e à Europa."  



Enviado por: Helena Araújo às: 18:12 Sem comentários: Links para este post
Etiquetas: refugiados

uma pessoa põe-se a falar da dificuldade que é para um emigrante ter de fazer centenas de quilómetros para ir votar, mas depois recebe uma mensagem assim e sente-se envergonhada

Numa conversa de facebook sobre o voto dos emigrantes falava-se de parte da alta taxa de abstenção ser devida, eventualmente, a terem cartão de cidadão emitido em Portugal, o que os registaria automaticamente numa mesa de voto no país, e falava-se também sobre as dificuldades para ir votar ao consulado, especialmente depois de terem fechado uns quantos para contenção de custos. Dizia eu que muitos emigrantes são obrigados a tirar um dia de férias para se irem inscrever no consulado, e a ida ao consulado implica para muitos deles uma viagem de centenas de quilómetros.

E foi então que recebi esta mensagem:

"Olá Helena, sou uma seguidora e estava seguir uma conversa num post onde não posso comentar.
Voto na Irlanda porque me registei aqui, o meu cartão de cidadão continua igualinho (tirado em Portugal).
Sim, tirei um dia de férias para me registar, mas...a democracia vale isso. É uma desculpa parva. No sábado, eu e o meu marido fizemos 400 km para votar porque o voto tem de ser na Embaixada (para o parlamento foi pelo correio). Sei de um amigo que fez igual na Croácia para poder votar (mas tb sei de amigos que não quiseram saber). Difícil fazer generalizações sobre o voto dos expats, que foram assim e assado. Vejo as mesmas tendências nos que ficaram em Portugal, cada caso é um caso..."

(sublinhado meu)

Ia sugerir que se desse uma medalha do 10 de Junho a esta portuguesa, mas desta vez não me apetece brincar com coisas tão sérias. A que baixíssimo patamar da Democracia já descemos, para eu sentir este impulso genuíno de dar uma medalha do 10 de Junho a uma pessoa, só porque foi votar?


Enviado por: Helena Araújo às: 10:17 4 comentários: Links para este post

26 janeiro 2016

o desejado

A neve que durante os últimos dias cobriu Berlim (tanta, que só no domingo tive de limpar três vezes o passeio) esvaiu-se, como por milagre, quando o Matthias começou a atravessar o Atlântico na direcção da Europa.
À hora a que ele chegou a casa, estava assim:






Agarrem-me, que eu ainda tiro conclusões...

---

Viemos para casa com os amigos do Matthias. Bom, se querem saber tudo: o Joachim voltou para o trabalho de carro, os amigos levaram o rapaz na van em que fizeram a viagem a Portugal (é que não se poupam a nada: regressar de um ano na Costa Rica para logo ali reviver o passado na VW mítica!) Ainda tinham um lugar disponível. Como não consegui resistir aos olhinhos que a Christina me fez, fui de metro, a comer os croissants de chocolate que levava para o Matthias, e me esqueci de lhe dar. Cheguei a casa antes deles. Almoçaram todos o chili con carne que as saudades do rapaz tinham encomendado. Ficaram por ali a jogar e a rir até serem horas de jantar, jantaram, e depois foram-se embora (agradecendo muito as três refeições que lhe dei - a brincar a brincar, estamos no fim do mês, e eles moram todos num apartamento partilhado; ao fim do mês, sentem uma necessidade compulsiva de ir a casa dos pais). O Matthias acompanhou-os ao metro, e aproveitou para fazer a última volta do dia com o Fox.

Ah, o Fox! No caminho para o aeroporto, disse à Christina que tínhamos dez minutos para educar o cão, para não se perceber o laxismo que foi este ano inteiro. Tentámos com muito esforço, mas sem êxito. Ao fim de meia dúzia de passos na rua, pelo modo como reagiu à sua voz de autoridade, o Matthias percebeu logo que o Fox passou um ano sem saber o que isso é.

O pateta do nosso raposinho está feliz, e muito calmo. Parece-me que se pôs com dono. 





Enviado por: Helena Araújo às: 08:39 1 comentário: Links para este post
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