11 janeiro 2016

"mamas grandes"

Mais um artigo do Spiegel (era bom que viesse rapidamente um novo escândalo, mas desta vez passado em Portugal, para eu não atrasar mais a minha vida real com tantas traduções...)




(fonte: Spiegel)

O artigo começa assim:

Trata-se de uma folha de papel pequena e amarrotada, que se tornou um símbolo da crua violência sexual e da misoginia. Nele pode ler-se "quero foder", "mamas grandes" e "quero-te morta beijar". A seguir, as frases correspondentes em árabe. O papel foi encontrado ao deter Issam D., um jovem marroquino, e outro suspeito, na quinta-feira passada, perto da Estação Central de Colónia.

O canal Spiegel TV falou com esse suspeito, que vive num centro de refugiados perto de Colónia. Além do papel, os investigadores também encontraram, num telemóvel em sua posse, vídeos com cenas dos ataques às mulheres na noite da passagem de ano. Ela terá apenas 16 anos, e diz que encontrou o papel no chão. Também diz que nessa noite nem sequer estava em Colónia, e que às dez da noite já estava a dormir a sono solto. É verdade que os vídeos estavam no telemóvel que ele trazia consigo, mas o aparelho nem sequer é dele. "Eu não faço dessas coisas", diz.
A polícia já o conhece há algum tempo. A primeira vez foi em Julho de 2015, como carteirista. Outro refugiado residente nesse centro relatou que o Issam D. e os seus amigos são desagradavelmente conhecidos no centro por beberem, fumarem, tomarem drogas e não quererem ir para a escola.
Issam D. faz parte de um grupo de mais de 20 homens do norte de África que a polícia está a investigar devido ao que aconteceu em Colónia na passagem de ano.

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E agora vou mudar de assunto: "mamas grandes", "quero-te beijar" e "quero-te foder" (está tudo naquela folhinha) são alguns dos galanteios com que as mulheres são mimadas por desconhecidos nas ruas portuguesas. Para o Spiegel, isto é sinal da "crua violência sexual e da misoginia". 

- Oh, pá, Spiegel, por amor de Deus! "Mamas grandes"?! Isso é motivo para escândalo?! Só significa que os homens têm olhos para ver as maravilhas da Criação. E qual é o problema de se querer foder uma mulher bonita? Afinal de contas, os homens são como são, e esse impulso natural inscreve-se no instinto de preservação da espécie. Além disso, mulher honesta não tem ouvidos. Vá, juízo nessa cabecinha, e vamos tratar de problemas mais importantes e urgentes que estas tentativas um pouco desajeitadas de flirt.

Fica a informação para os portugueses que acham que o piropo é um elemento da nossa cultura que deve ser preservado, quiçá inscrito no património da UNESCO: para a sociedade alemã, este tipo de frases é um sinal de violência sexual e de misoginia. Portanto, peço aos portugueses residentes na Alemanha que tenham cuidado com esses impulsos culturais, porque do comportamento de alguns de vocês depende ficarmos todos com má fama. E não me apetecia nada ter de ir para uma manif de repúdio com um cartaz a pedir desculpa pelo comportamento dos meus compatriotas e a tentar provar que nós, os portugueses, não somos todos assim.

Bem sei que as minhas orações e os meus pensamentos deviam estar com as mulheres brancas que foram vítimas dessas hordas de bárbaros de pele escura, e que devia estar a fazer petições para fechar as fronteiras e expulsar toda essa gente para fora da Europa, em nome da segurança das nossas mulheres e da defesa do Ocidente cristão, nomeadamente dos seus valores (isto é puro cinismo, não façam uma leitura literal), mas não resisto a fazer mais um comentário: em Portugal há muito boa gente, inclusivamente mulheres (bom dia, Marias Ann Coulter, está tudo bem aí na coutada dos bons costumes?), que diz que as pessoas que querem criminalizar o piropo são histéricas feias, esganiçadas e/ou mal fodidas. 


domingo, 10.01.2016: novos ataques em Colónia

Esta manhã o Spiegel online relata novos casos de violência em Colónia.

Ontem à noite, hordas de homens violentos atacaram pessoas inocentes e indefesas nas ruas de Colónia. A polícia relata que por volta das 18:40 cerca de vinte homens atacaram seis pessoas perto da Estação Central. Duas das vítimas foram levadas para o hospital, e já receberam alta. Cerca de vinte minutos mais tarde, cinco homens atacaram e feriram ligeiramente uma pessoa.
Não se sabe ainda se há uma ligação entre os dois ataques.

O que o Spiegel revela logo à entrada, e eu revelo agora: as vítimas são paquistaneses, no primeiro caso, e um sírio, no segundo. Parece (vem num jornal de Colónia, mas a polícia ainda não confirmou essa informação) que alguns rocker, hooligans e seguranças de discotecas combinaram por facebook ir fazer uma "caça ao homem".

Por sorte, trata-se apenas de casos isolados, e completamente alheios ao discurso xenófobo que se tem instalado cada vez mais descaradamente no espaço público... É preciso não confundir as coisas, e não esquecer nunca que quando os "nossos" fazem isso são casos isolados, mas quando são "eles" a fazer é normal, porque o contexto cultural deles é assim mesmo...

(Antes que os wannabe Ann Coulter portugueses reajam: não, não estou a dizer que o que aconteceu a 31.12 e a 10.01 são coisas de igual dimensão, significado e alcance. Estou-me simplesmente a rir de quem acha que nós aqui é tudo boa gente, e eles lá são todos culturalmente programados para serem delinquentes no nosso mundo, e nem se apercebem que esse tipo de discurso alimenta surtos de violência como os de ontem à noite.)



10 janeiro 2016

"violência na noite da passagem de ano: o ministro da Justiça alemão admite que tenham sido ataques combinados ou planeados"

(Gostei muito de ler este artigo hoje, 10.01.2016, no Spiegel Online. Quem fala assim não é gago, e não se deixa levar pelo medo ou pelos desvarios populistas.)



Violência na noite da passagem de ano: o ministro da Justiça alemão admite que tenham sido ataques combinados ou planeados

Heiko Maas, ministro da Justiça: é preciso esclarecer urgentemente o que aconteceu

O ministro da Justiça suspeita que os ataques às mulheres na noite da passagem de ano terão sido organizados, tanto na região de Colónia como em toda a Alemanha. E adverte contra generalizações.

"O facto de se ter reunido uma horda desta dimensão a cometer estes crimes aponta para que tenha havido alguma espécie de planeamento. Ninguém me consegue convencer que não terá sido combinado ou preparado", disse Maas ao "Bild am Sonntag". "Temos de esclarecer rapidamente como foi possível ter-se chegado a estes actos abomináveis."

O ministro também não exclui a possibilidade de haver uma conexão entre os ataques a mulheres em várias cidades: "É preciso verificar todas as ligações cuidadosamente. Facilmente se admite que tenha sido marcada uma data e um evento onde se juntam muitas pessoas. O que teria então uma outra dimensão".

O Spiegel tem informações sobre os órgãos de segurança terem pistas que apontam para centenas de homens terem combinado encontrar-se na Estação Central de Colónia para perpetrar esses ataques. Essas pistas ainda estão a ser analisadas cuidadosamente. Este tipo de acção em ajuntamentos já é conhecido há anos no Norte de África, tendo começado no Egipto. A sua ocorrência durante tumultos na Praça Tahrir, no Cairo, provocou um choque no mundo inteiro.

Maas disse ainda que vai verificar agora se é possível repatriar criminosos que pediram asilo à Alemanha. "Se não for possível, vamos fazer propostas. Temos de chamar estes delinquentes à responsabilidade, nomeadamente para proteger os refugiados inocentes. Ninguém deve estar acima do Direito e da Lei."

Defende uma vigilância mais alargada com vídeos em pontos nevrálgicos, e o reforço dos efectivos policiais. Adverte para que, devido aos acontecimentos na noite da passagem de ano, não se tirem conclusões sobre o respeito pela lei por parte dos imigrantes. "Parece-me uma temeridade que, a partir da origem de uma pessoa, se façam considerações sobre uma eventual maior ou menor tendência para a delinquência", diz o ministro. "Há levantamentos estatísticos entre os refugiados. Mostram que a taxa de criminalidade entre eles é tão alta como entre os alemães."
Afirma que é pura e simplesmente errado estabelecer uma relação entre os excessos de Colónia e a entrada dos refugiados: "é óbvio que no meio de mais de um milhão de pessoas também há alguns indivíduos delinquentes. Mas não temos qualquer indicação de que o número de crimes tenha aumentado de forma desproporcional devido a este afluxo. Esses preconceitos brutos não se confirmam."

Usar os excessos de Colónia como prova de que a integração falhou nem é adequado nem aplicável.

"Quem participou nestes actos é um criminoso, e como tal deve ser tratado. Usar estes crimes como prova de que é impossível integrar os estrangeiros que vivem no nosso país é um perfeito disparate."

"O contexto cultural nem justifica nem desculpa nada. Nem sequer como explicação seria aceitável. Todos os homens e todas as mulheres que vivem entre nós têm os mesmos direitos. Quem vive aqui tem de aceitar isso."

Maas acusa o AfD e o Pegida de quererem usar os acontecimentos de Colónia para fazer propaganda. Espera que a noite de passagem de ano não estrague o ambiente no país: "Na verdade, parecia que o AfD e o Pegida só estavam à espera de algo como isto. É a única maneira de explicar a maneira descarada como incitam a população com generalizações sobre todos os estrangeiros."

Não se pode abandonar o campo a "incendiários radicais": "também aqui precisamos de uma resposta forte do Estado de Direito."

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Acrescento um comentário meu, a propósito da acusação de não integração que fazem aos refugiados:
Estas pessoas chegam à Alemanha, são metidas onde calha, muitas delas estão alojadas às centenas em armazéns ou ginásios sem qualquer espécie de privacidade, demoram semanas até se conseguirem registar nos serviços, esperam seis meses num limbo absoluto sem saberem o que lhes vai acontecer. Sobrecarregada com estes refugiados que chegam aos milhares todos os dias, a Alemanha não tem como lhes oferecer melhores condições de vida, melhor alojamento, aulas regulares de alemão. Só ao fim de seis meses podem começar a trabalhar. Se forem aceites na Alemanha, podem procurar casa e trabalho. O problema é conseguir arranjar quem lhes alugue uma casa, quem lhes dê emprego.
Como é que pessoas a viver nestas condições se podem integrar?!
E é culpa delas se não se adaptam tão depressa à sociedade alemã como seria desejável?!

Penso nos meus vizinhos, e nos alemães que conheço. Tudo boa gente, classe média ou alta. Se nos metessem num armazém, sem privacidade, sem condições, sem comida ao nosso gosto, sem perspectivas, tenho a certeza que em menos de uma semana nos estalava o verniz a todos.

O que me surpreende é que os refugiados que aqui vivem há tantos meses nestas condições continuem tão pacatos. Acusá-los de não serem integráveis é um insulto e uma profunda injustiça perante as condições em que eles têm vivido e têm tentando adaptar-se.


"debate sobre as notícias relativas a Colónia - temos de falar sobre isso"

Traduzo (mais uma vez à pressa) mais um artigo do Spiegel online.
Desta vez sobre o modo como a comunicação social tratou os acontecimentos em Colónia, e as consequências do atraso nas notícias.




Debate sobre as notícias relativas a Colónia - temos de falar sobre isso


Andreas Borcholte
Spiegel Online - 9.01.2016

Lentos, falsos, tendenciosos? Além da polícia, também os meios de comunicação social estão a ser alvo de críticas após o que aconteceu em Colónia. As reacções fazem ondas cada vez mais altas - um problema de comunicação que tem consequências muito para além dos acontecimentos nessa passagem de ano. 

No fim desta semana de excitação sobre os acontecimentos em Colónia, o que vai ficar realmente na memória colectiva? Na pior das hipóteses, isto: na noite da passagem de ano, um sex-mob de mil homens do norte da África e árabes atirou-se a mulheres alemãs, molestou-as com ataques sexuais e violou-as. O estado actual da investigação não aponta para um cenário exactamente igual a este, mas é essa a imagem que muitas pessoas têm, nomeadamente o candidato à presidência dos EUA, Donald Trump, que na quarta-feira escreveu no twitter: "Germany is going through massive attacks to its people by the migrants allowed to enter the country. New Years Eve was a disaster. THINK!" Trump é um demagogo, um político populista, que não tem problema em ajustar a verdade aos seus interesses de conservador nacionalista.

Um jornalista não pode fazer muito contra isto, excepto oferecer esclarecimento com base em notícias sérias e fundadas em factos. Também não pode fazer muito contra grupos de interesses como o Pegida e partidos como o AfD ("Alternativa para a Alemanha"), a cujo programa de incitamento ao medo e ao ressentimento daria muito jeito se de facto em Colónia uma horda de refugiados bêbedos e lascivos se tivesse atirado a mulheres indefesas. Segundo as informações mais recentes, terá havido refugiados envolvidos nos ataques, mas mesmo uma semana depois ainda não está claro o que aconteceu realmente. Isso é, antes de mais, um problema da polícia de Colónia, que - aparentemente com dificuldades graves de organização e de pessoal - está há vários dias a tentar recuperar o controlo, após as falhas cometidas a 31 de Dezembro. Os resultados fazem-se esperar, o que não ajuda a aliviar o ânimo da sociedade alemã, neste momento tão emocional e de assustadora complexidade. Mas também a esse nível não podemos fazer muito. Excepto produzir notícias o mais possível baseadas em factos e confiar na maturidade de um público capaz de formar a sua própria opinião a partir da informação disponível proveniente, de tantas e tão variadas fontes.

Uma questão de posição

De momento discute-se acaloradamente em fóruns e nos social media, nos suplementos dos jornais e entre os políticos, se foi isso que aconteceu nos últimos dias. O "FAZ" acusa há muito tempo já os canais de televisão e rádio públicos de, no que diz respeito aos debates sobre a política dos refugiados, serem canais fiéis de propagação da política de boas vindas da Merkel; o meu colega Jan Fleischhauer chamou "jornalismo baby-sitter" a este tipo de noticiário pedagógico e tendencioso. Refere-se ao impulso de, para além de noticiar os factos actuais, querer incluir também uma grelha de leitura que se entende ser a correcta: o que é importante é não fazermos o jogo das pessoas de Direita que incitam ao ódio!
Tanto os media como o público estavam ansiosos por definir uma posição em relação ao que aconteceu em Colónia, e talvez tenham sido demasiado apressados. Os canais televisivos ARD e ZDF, por serem ainda os mais vistos, estão ainda mais sujeitos a estas críticas. Mas também jornais e media online como o Spiegel Online  são acusados de serem "imprensa mentirosa" desde que começou o debate sobre os refugiados: se o tema é sensível, diz-se que a nossa informação é muitas vezes conformista, desinformativa e paternalista. O que não é verdade. Nós pesquisamos, aprofundamos e analisamos as informações, e publicamos aquilo que temos a certeza que está correcto - por exemplo, depois de confirmar os dados com duas fontes independentes e de confiança. No caso de isso não ser possível, deixamos claro na notícia que não há inteira segurança sobre a veracidade do que é relatado.
No entanto, temos de levar essas críticas a sério. Mesmo quando a primeira reacção é a revolta, e a constante sujeição a comentários muitas vezes polémicos acabe por roubar a força ao mais robusto.

Frentes endurecidas

Devido aos acontecimentos da noite da passagem de ano, a frente entre os media e o público endureceu ainda mais. Um dos possíveis motivos é a situação de partida deste caso, especialmente difícil: o facto é que a polícia de Colónia, por motivos que ainda não se puderam apurar, não relatou imediatamente qualquer facto de carácter excepcional, pelo que, durante o fim-de-semana seguinte, a notícia não foi muito além dos media regionais. Só depois da conferência de imprensa da polícia, na segunda-feira, é que os media supra-regionais se começaram a agitar - o que também se explica, muito simplesmente, pelo facto de só nesse dia a maior parte das redacções ter voltado a trabalhar com todo o pessoal, depois dos feriados de Natal e ano novo.
Mas quando chegaram ao gabinete, na segunda-feira, os jornalistas encontraram as caixas de correio dos leitores e as caixas de comentários a abarrotar com perguntas iradas e acusações de que estavam a desvalorizar propositadamente o que aconteceu em Colónia por haver refugiados envolvidos, um grupo que se entende estar a ser protegido de modo especial pelos media.
Nessa altura as informações e as possibilidades de investigar eram ainda muito escassas, o que aumentou ainda mais a pressão e a sugestão de estarmos demasiado atrasados com estas notícias. Essa impotência esteve na origem de incidentes disparatados como a pergunta no facebook da redacção do noticiário da ZDF sobre como é que o utilizador queria receber as notícias.
O fenómeno evoluiu a uma velocidade louca para algo desnorteado, alarmista, tocando os princípios e a ordem estatal. Multiplicaram-se os news-updates, e surgiram cada vez mais informações a partir da investigação e dos comunicados de imprensa.

Não há um pacto de silêncio

Por essa altura, a explosão de noticiários chamou os políticos ao palco da maior parte dos canais informativos importantes. Estes, com os seus discursos em parte cuidadosos, em parte exagerados, contribuíram para aquecer ainda mais o que já estava fervilhante. O ministro da Justiça, Heiko Maas, falou de "uma nova dimensão" do crime organizado, e até a chanceler se sentiu obrigada, na terça-feira, a fazer declarações sobre os acontecimentos de Colónia, apesar de ainda haver inúmeras questões em aberto sobre os factos concretos. Ela exigiu "uma resposta dura do Estado de Direito", talvez também a pensar no encontro tradicional do CSU que teria lugar em breve - para dar de si uma imagem de menos tolerância e de mais conservadorismo como deve ser. Os social-cristãos afinaram a sua voz pela do AfD e Pegida, ou pela dos media de agenda conservadora, como o Compact, postulando a existência de um pacto de silêncio no jornalsimo.
O que é um disparate, tendo em conta a rapidez e abundância das notícias na imprensa regional de Colónia, da agência noticiosa dpa e do serviço online do WDR, e não contribui para o diálogo entre os que advogam a "imprensa mentirosa" e os jornalistas que - no turbilhão cada vez mais agitado e confuso das opiniões, dos posts, dos tweets e das declarações dos vários indivíduos e grupos de interesses - tentam manter a neutralidade e a prudência. Compreende-se que os leitores reajam com repúdio e raiva  perante media que se entendem e comportam como se tivessem a prerrogativa da interpretação. Este comportamento mudaria o papel dos jornalistas, de mediadores e intérpretes para "baby-sitters" e até propagandistas. Os inúmeros relatórios informativos, reportagens, e muitas vezes também comentários inteligentes e controversos (também houve alguns irritantes e desajeitados) dos últimos dias nos diversos media nacionais mostram que, felizmente, não foi esse o caso. Mesmo se se tem a impressão que uma maioria de pessoas, que criticam nos fóruns e em mensagens, de momento têm outra opinião.        
Pode-se fazer alguma coisa contra isso? Temos de aguentar, do mesmo modo que temos de aguentar um contador de rábulas como o Donald Trump? Claro que temos. Temos de noticiar sobre os ataques de Trump, por mais nojentos que sejam, do mesmo modo que temos de noticiar sobre os crimes de Colónia, independentemente de quem os cometeu.


a "rape culture" não foi levada para a Alemanha - sempre esteve lá

Mais uma tradução - apressadíssima - de um texto publicado há 3 dias na Alemanha (não concordo inteiramente com tudo, mas achei muito informativo):


A "rape culture" não foi levada para a Alemanha - sempre esteve lá

Stefanie Lohaus e Anne Wizorek
6.01.2016

Por estes dias, qualquer pessoa minimamente sensibilizada para a questão da violência sexualizada fica surpreendida - quando não enfurecida. Olhar para a violência na Estação Central de Colónia como se fosse um caso particular, uma excepção que caiu do exterior sobre a "boa Alemanha", é pelo menos tão prejudicial às vítimas desta violência como a utilização do termo "abordagem dançante" para os ataques: uma palavra que menoriza, banaliza e dá um cunho exótico à violência sexualizada e ao roubo.

[avisei que a tradução era apressada - quem souber, proponha outra tradução para "antanzen": um homem aproxima-se de uma mulher fazendo de conta que quer dançar com ela, para a distrair do roubo perpetrado por um cúmplice, ou para chegar suficientemente perto para poder ele próprio roubar os pertences dessa mulher]

Repentinamente, todos os media começaram a falar de Rape Culture - referindo-se à Rape Culture noutros países, como a Tunísia ou a Índia, uma vez que os suspeitos conhecidos pela polícia têm um aspecto de árabe, ou do norte de África, ou seja: não eram homens brancos. O sindicato da polícia anuncia que será difícil atribuir crimes concretos a agressores concretos. Não há a certeza de se conseguir, no caso dos ataques de Colónia, um único julgamento.
Não surpreende que a sociedade e as suas instituições não estejam em condições de proteger as vítimas de violência, e de chamar os atacantes à responsabilidade. E não se pode dizer que esta incapacidade resulta do facto de até agora não se conhecer na Alemanha violência sexualizada. A Rape Culture está há muito instalada neste país. Esta expressão descreve sociedades nas quais a violência sexualizada e as violações existem e são em grande parte toleradas.
Nos eventos com grandes multidões, como a Oktoberfest e o carnaval, repetem-se os ataques contra mulheres e até as violações: "O curto trajecto em direcção à casa de banho torna-se um corredor de assalto. Em trinta metros: três abraços de desconhecidos embriagados, duas palmadas no rabo, a saia levantada e cerveja propositadamente atirada para o decote." escreveram Karoline Beisel e Beate Wild em 2011 no " Süddeutschen ZeitungContinuando: "Se as mulheres reagem, chamam-lhes "puta", ou pior." Em média, contam-se cerca de 10 queixas por violações em cada Oktoberfest. Mas suspeita-se que o número real chegue aos 200.

Cenas como estas, insultos como "puta", os apalpões no metro apinhado, as perseguições até à porta de casa, as violações por parte de amigos e familiares, ou uma polícia que não quer acreditar em nada do que é descrito: tudo isso são experiências que foram partilhadas na acção #Aufschrei [grito]. E qual foi a reacção da direita conservadora? "Oh, é apenas meia dúzia de homens cujas tentativas de flirt foram mal entendidas; as mulheres, em vez de fazer estas fitas, deviam aceitar isso como galanteio. Ao fim e ao cabo, elas é que têm a culpa, se andam na rua vestidas daquela maneira."
No entanto, #Aufschrei não foi uma reacção ao artigo "Piadas Masculinas" da revista Stern . E não foi de modo algum um shit storm contra o ministro Rainer Brüderle.

[Contexto: na véspera de um encontro muito importante do seu partido, uma jornalista abordou-o no bar, para falar de política. Ele estava mais interessado na pessoa dela. Ao saber que era de Munique, comentou que ela tinha bem com que encher um Dirndl, e olhou-lhe descaradamente para o peito. A história tem mais alguns detalhes, mas já dá para ter uma ideia.]

 #Aufschrei foi uma campanha ad hoc na qual as vítimas revelaram as suas experiências ligadas a sexismo quotidiano e violência sexualizada. Um levantamento, para finalmente podermos falar sobre todas estas questões que habitualmente são tratadas como em tabu e até consideradas normais. Os testemunhos na primeira pessoa estão desde há muito disponíveis na internet. Quem hoje em dia continua a afirmar que #Aufschrei foi um mero ataque a Brüderle está pelo menos mal informado, e quer simplesmente reduzir o activismo feminista à narrativa de emancipadas excitadas e histéricas que se irritam muito com "bocas parvas no bar" mas ignoram ataques em massa. Na realidade, as críticas contínuas dos feministas são sobre não se falar de sexismo tanto quanto é necessário, sobre a violência sexualizada continuar a ser um fenómeno quotidiano, e sobre um problema como este, que afecta toda a sociedade, não ser discutido - e muito menos ter soluções identificadas.

Agora, pessoas como Jens-"as-mulheres-tomam-a-pílula-do-dia-seguinte-como-se-fossem-Smarties"-Spahn, Rainer Wendt (chefe do sindicato da polícia) e Birgit-"então-fechem-a-blusa"-Kelle vêm perguntar porque é que os acontecimentos em Colónia não provocaram um "grito" (Aufschrei). A pergunta devia ser: para onde é que estas pessoas estão a olhar com essa sua visão tão limitada do mundo? Estes acontecimentos estão na ordem do dia do debate público, inúmeras pessoas exprimem a sua solidariedade para com as vítimas e fazem votos de que os culpados tenham a pena devida.
Que muitas dessas pessoas só tenham tomado conhecimento da dimensão da tragédia no princípio da semana resulta do atraso na passagem para os media nacionais, e também de um certo abrandamento na propagação das notícias nos social media durante o período de férias - facto não desprezável. Usar isto para acusar de indiferença justamente as pessoas que se empenham desde há anos na luta contra o sexismo e a violência sexualizada é uma insinuação pérfida - mas isso não é novidade para os próprios protagonistas.


As realidades na Alemanha

Os testemunhos recolhidos em #Aufschrei coincidem com as estatísticas sobre a situação na Alemanha. O estudo „Lebenssituation, Sicherheit und Gesundheit von Frauen in Deutschland", com resultados das entrevistas realizadas em 2004 a 10.000 mulheres, mostra que 13% das mulheres residentes na Alemanha foram vítimas de violência sexualizada relevante do ponto de vista do Direito Penal. O escândalo: apenas 8% dos casos foram levados à polícia. Se se retirarem as mulheres que fazem várias queixas, esse número reduz-se para 5%. O que resulta no inacreditável número de 95% de mulheres que silenciaram o facto de terem sido vítimas de violência sexualizada, na Alemanha. Os ataques não são revelados - e portanto não se tornam visíveis.
Isto não acontece por acaso. As vítimas de ataques à autodeterminação sexual correm um grande risco pessoal ao apresentar queixa: podem ser acusadas de estar a mentir. Em 87% dos processos não há condenação do acusado. No entanto, os media descrevem longamente e com todos os detalhes as queixas que se revelam ser falsas, embora estas tenham um peso marginal no conjunto das queixas - variam entre 1% e 9%, segundo as estatísticas e o país; na Alemanha estima-se um valor entre 3% e 5%.
Um motivo para a baixa percentagem de condenações por crimes deste género é o § 177 do Código de Direito Penal, que faz depender a condenação conforme o comportamento da vítima. Para que o atacante seja condenado, a vítima tem de provar que resistiu à violência. Uma regra absurda, baseada em inúmeros mitos sobre a violência sexualizada. Como consequência, o bloqueio devido ao estado de choque, que é uma reacção muito natural à violência, conduz à não condenação do atacante. Imagine-se que a condenação de um larápio seria analisado em função de a pessoa assaltada se ter defendido convenientemente: "lamento, não apertaste a tua carteira com força, a culpa é tua". A sugestão da presidente da Câmara de Colónia, sobre as mulheres se manterem a um braço de distância dos homens durante os festejos de Carnaval, também vai na mesma direcção.

Esta regra, e sobretudo o seu surgimento, faz parte de uma Rape Culture, de uma determinada ideia sobre como ocorre a violência e a violação, sobre o que é o sexo, sobre o comportamento "correcto" da vítima. E são regras como estas que dão segurança aos atacantes. Nestes casos é absolutamente indiferente qual a cor da sua pele ou a sua religião. No que diz respeito ao que aconteceu em Colónia, veremos se as agressões sexuais poderão ser seguidas do mesmo modo que o roubo de objectos: até ao momento 90 mulheres apresentaram queixa, segundo o Zeit Online em 75% dos casos trata-se de delitos sexuais. Em dois casos trata-se concretamente de uma violação.


O que é preciso fazer

É preciso notar isto: a violência sexualizada é uma questão que atinge todas as classes sociais, que acontece a qualquer hora do dia, em qualquer lugar, e pode atingir todos os sexos. Mas na maior parte do caso atinge mulheres. Não se trata de relativizar os horrores que aconteceram em Colónia e noutras cidades na noite de passagem de ano. Antes de mais espera-se que as vítimas recebam a ajuda necessária para conseguirem ultrapassar o trauma do que aconteceu naquela noite.

Ao falar sobre o que aconteceu ali, temos de o fazer no contexto global da Rape Culture. O que implica, entre outros, a crítica à inacreditável redacção das notícias, onde se fala de "bandos sexuais", "ataques sexuais" ou "mob sexual". A violência sexualizada nunca tem a ver com sexo. Aquelas designações escondem o aspecto do poder que está sempre ligado a ataques de cariz sexual. Do mesmo modo, estamos perante jornalismo irresponsável quando se publicam números que não correspondem aos factos, e que alimentam a Pegida e Cª.

Em todo o caso, o debate da acção #Aufschrei nunca chegou ao fim. Agora temos a oportunidade de o retomar, para finalmente falar do modo como sexismo e violência sexualizada estão ligados - e o que a sociedade pode fazer contra isso. Importante é que olhemos para isto como um problema global da sociedade, em vez de fazermos de conta que se trata de um problema ligado a grupos específicos, nomeadamente o de homens muçulmanos.

Ninguém nega que os homens descendentes de imigrantes ou os de religião muçulmana também cometem este tipo de crimes. Mas fazer de conta que eles são os únicos a cometê-los e que até estarão "programados" para isso devido ao seu contexto cultural, enquanto para os mesmos crimes se encontra todo o tipo de desculpas e desvalorizações se forem cometidos por alemães biológicos brancos, é um comportamento de ódio racista - e não resolve o nosso problema. Melhor seria que neste debate se desse finalmente espaço para ouvir a voz de homens muçulmanos que se empenham na luta pela igualdade. Instrumentalizar os direitos das mulheres e o feminismo ao serviço do racismo não pode nunca ter o consenso do debate de género na Alemanha - venha essa instrumentalização da nova Direita, ou de círculos internos do feminismo (looking at you, Alice Schwarzer).

Mas quais podem ser agora as soluções? Mais do que nunca precisamos do "gender mainstreaming" que por exemplo o AfD ["Alternativa para a Alemanha"] e consortes difamam como desperdício de dinheiro. Nomeadamente a introdução de uma pedagogia atenta às questões de género. Quando hoje em dia assistimos num infantário a cenas em que uma menina não se pode queixar por um menino lhe ter batido, recebendo como resposta "ele gosta de ti e não o sabe mostrar de outro modo", fica evidente que os estereótipos de género muito prejudiciais começam a ser formados desde tenra idade.

Também é urgente reforçar as estruturas daqueles que se ocupam da violência sexualizada em centros de apoio, serviços telefónicos de emergência e casas refúgio para mulheres. Muitas destas pessoas trabalham com poucos meios financeiros, frequentemente em regime de voluntariado, sempre pressionadas para justificar o seu trabalho e confrontadas com a acusação estereotipada de serem histéricas que odeiam homens. Se alguma coisa positiva pode resultar desta história, que seja uma maior reconhecimento deste trabalho, e mais apoio financeiro, que é necessário com urgência. Do mesmo modo que são necessários mais lugares de terapia, e mais facilmente acessíveis.    

Uma outra questão é a necessidade de sensibilizar mais a polícia para o problema da violência sexualizada, por exemplo e em particular para os ataques durante grandes eventos como o carnaval ou a Oktoberfest. Também é preciso reformar o §177, sobre agressão sexual e violação. A convenção do Conselho da Europa para a prevenção e o combate à violência contra as mulheres e a violência doméstica („Verhütung und Bekämpfung von Gewalt gegen Frauen und häusliche Gewalt") entrou em vigor a 1.08.2014. A Alemanha não a pôde ratificar porque ainda tem défices no procedimento penal, bem como na protecção e na indemnização à vítima. Por exemplo: ter dito "não" não é suficiente para reconhecer que houve violação. Uma situação inaceitável.

O que o debate suscitado pelos acontecimentos de Colónia tem evidenciado mais: a Alemanha tem um problema claro de sexismo e de racismo. Ambos estão profundamente implantados, e não foram de modo algum "importados". Está nas nossas mãos, como sociedade. não alimentar a discriminação e a violência. Temos de nos afastar de uma cultura do "Tu também queres!" para uma cultura do "Também queres?"
Sair de uma Rape Culture para chegar a uma cultura que celebra a cooperação consensual em situação de igualdade e com respeito pelos limites. E isto é válido para todas as pessoas, porque qualquer ataque sexual é um ataque a mais - independentemente de quem o comete.


09 janeiro 2016

"sim, faz parte do gangue"

Maria João Marques, a partilhar um texto meu no facebook:
"Este texto também é tão nojento que nem sei o que diga. Uma criatura que arranca os cabelos por causa do piropo (sim, faz parte do gangue), depois fica calada quando há agressões sexuais numa escala nunca vista e, quando fala, é para se indignar com a instrumentalização das violações e das agressões sexuais."


Confesso que fico sempre perplexa perante mulheres que parece que gostam de ouvir "ó boa, estavas bem era na minha cama" (hoje resolvi pegar levezinho) e que entendem que às suas filhas adolescentes só faz bem serem sujeitas a abundantes ritos de iniciação sexual na rua, a caminho da escola, por parte de desconhecidos.


08 janeiro 2016

críticas feministas às reacções da sociedade aos ataques em Colónia

Sintetizo (em tradução apressadíssima) dois artigos publicados recentemente na Alemanha:

1. Parem de fazer de conta que tudo isto é novo!

Steffi Dobmeier, Hamburger Abendblatt

Depois dos acontecimentos da passagem de ano, a violência contra as mulheres está a ser instrumentalizada. Além de ser insuportável, desvia-nos do assunto. 

Resumo:
- De repente, desatam todos a falar da violência sexual como se tivesse sido inventada na noite da passagem de ano. Como se nunca tivesse havido protestos antes.
- Todos os dias há casos de mulheres importunadas, apalpadas, gozadas. Em todas as cidades, e não apenas na passagem de ano. Às vezes basta um "pára com isso!", outras vezes, infelizmente, não é suficiente.
- A violência sexual existe mas é ignorada. Só quando dá jeito à linha de argumentação dos "cidadãos preocupados" é que se torna importante?
- Os culpados são grandes ou pequenos, novos ou velhos, isolados ou em grupo, de Potsdam ou Munique, Praga, Londres ou Istambul. Não importa a sua origem. Todos eles são idiotas, cabrões, machistas sem respeito. Usar a sua origem ou cultura para justificar ou para os atacar humilha ainda mais as mulheres, porque transforma estes ataques naquilo que não são: uma questão política.
- Uma mulher que é importunada deste modo não quer saber qual é a dimensão política desse acto. Não quer saber qual a língua, a religião ou a nacionalidade do agressor - quer que a deixe em paz, e que responda pelos seus actos. O que não quer, de certeza, é ser transformada no motivo de um debate político, ou tomar parte nele. E nem mencionemos os bons conselhos que lhe queiram dar.
- Não queremos manter uma determinada distância em relação a desconhecidos, usar calças em vez de vestidos, evitar o bâton vermelho se nos apetecer usá-lo. Queremos fazer parte de uma multidão, festejar, dançar. Queremos tocar homens, e ser tocadas sem ter um ataque de histeria, queremos poder flirtar e dizer não.
- Um mob gigantesco como o de Colónia, no qual aparentemente houve um vazio jurídico e os direitos das mulheres foram espezinhados, representa de facto uma nova dimensão. Independentemente de se tratar, como aparentemente terá sido, de um bando de carteiristas que usa este método para roubar pessoas, e que terá evoluído para uma horda incontrolável de agressores sexuais.
- Pode ser que haja algo novo nos acontecimentos de Colónia. O que não é novo é que as mulheres são, de facto, vítimas de avanços desagradáveis por parte dos homens, e de violência sexual. Para falar deste assunto, não é necessário esperar por um número elevado de refugiados, uma sociedade desconcertada e políticos desgastados.



2. A essência da questão

Margarete Stokowski, Spiegel Online

A histeria racista na sequência dos ataques em várias cidades alemãs prejudica as vítimas porque impede um verdadeiro debate sobre a violência sexual.

- É tão nojento. O debate sobre os imigrantes muçulmanos atingiu um novo ponto alto de histeria.
- As vítimas destes ataques não importam. Servem apenas para descrições chocantes sobre roupa interior rasgada e dedos metidos em orifícios corporais, e para os "cidadãos preocupados" e os nobres cavaleiros se armarem em protectores das mulheres.
- Fala-se em repatriamento dos refugiados, embora não se conheça ainda a nacionalidade dos culpados. E esta ainda é a parte relativamente séria do debate.
- De forma simplificada, os culpados já não são indivíduos isolados, mas tornaram-se uma massa difusa de estrangeiros tarados, descrito com vocábulos relativos a animais: "atiram-se em matilha às mulheres", "uma turba da região árabe/norte-africana". No twitter fala-se em "primatas" e "macacos".
- A narrativa racista "homem preto viola mulher branca" entrou em força.
- A essência da questão é a ideia de que o estrangeiro se asselvajou - se é que não foi sempre selvagem - e toma para si aquilo que outros sempre quiseram: mulheres e i-phones.
- Quem lembra que a violência sexual não foi trazida para a Alemanha pelos refugiados é acusado de querer desvalorizar o que aconteceu em Colónia. Feministas que escrevem há anos e décadas sobre esta forma de violência são acusadas de querer mudar de assunto para proteger os culpados de Colónia - o que é absurdo e mostra como o debate descarrilou. Como se alguém gritasse "a cozinha está a arder!" e outro dissesse "a sala também!", para o primeiro perguntar "ah, então não queres chamar os bombeiros?"
- Perguntam-me porque é que, sendo feminista, não escrevo nada sobre estes ataques. A verdade é que devia ter havido um debate sobre violência sexual depois de cada maldita Oktoberfest, depois de cada Carnaval e depois de cada milha festiva dos mundiais de futebol. Mas não houve. Porque ninguém se quer incomodar com este assunto desagradável, e reconhecer a dimensão do fenómeno. Num estudo europeu, 55% das mulheres revelaram ter sido vítimas de importunação sexual.
- É óbvio que temos de falar sobre as relações de género nos países árabes e do norte de África. Mas isso não chega. Esta discussão não pode ser objecto de outsorcing, e transferida para os estrangeiros. Claro que isso desculpabiliza. Mas mesmo que todos os homens com origem estrangeira fossem expulsos da Alemanha, continuaria a haver violência sexual em grande escala: importunações, abuso, violação. Grande parte destes casos ocorre no círculo de relações da vítima: o culpado é o parceiro, o ex-parceiro, o vizinho, o colega, o professor.
- Agora que chegam notícias de Colónia de que terão sido estrangeiros, insinua-se que é por isso que a rede feminista está tão silenciosa. Ou se culpa a mulher por ter sido vítima de violência sexual, ou se identifica "o estrangeiro" para ter um culpado.
- Os "cidadãos preocupados" transformam-se em nobres cavaleiros que têm de proteger as "nossas" - ou seja: as "deles" - damas. O bom alemão quer guardar as suas mulheres para abusar delas ele próprio. E fá-lo com empenho. Sobre isso, há estudos que podem ser lidos.
- No fundo, depois dos acontecimentos de Colónia cada um diz o que já dizia antes, mas agora diz mais alto: quem antes já queria repatriar os refugiados, agora quer repatriá-los com mais rapidez e dureza; quem antes já queria mais controle, agora quer ainda mais controle.
- O facto de não se falar da violência sexual torna evidente que ninguém está preocupado em proteger as vítimas e evitar novos ataques.
- É necessário uma mudança radical no modo como nos posicionamos em relação à violência sexual. Desvalorizar e tolerar este fenómeno também faz parte da cultura alemã. As mudanças implicam: colmatar as lacunas na Lei, de modo a abranger todos os actos sexuais realizados contra a vontade de uma pessoa; fazer sugestões de comportamento a potenciais agressores, e não apenas às potenciais vítimas; mais gabinetes de apoio; acesso mais fácil a acompanhamento psicológico de vítimas deste tipo de violência; casas-refúgio para mulheres vítimas de violência doméstica. Alguns passos seriam muito fáceis, e até gratuitos: já seria uma grande ajuda se os media deixassem de chamar "escândalos sexuais" a casos de violência.
- Na realidade, as vítimas dos ataques de Colónia vão ser agora usadas para preencher o primeiro grande escândalo do ano. No fim, serão esquecidas. Continuará a existir violência sexual na Alemanha, mas o tema estará ultrapassado. Por isso, talvez fosse preferível nem falar disto.


uma análise do que aconteceu em Colónia na passagem de ano

Trago do mural de facebook da Helena Ferro de Gouveia:

1. Vi os vídeos, li tudo o que a imprensa alemã e a polícia publicaram, ouvi as declarações da chanceler e demais políticos.
Os ataques de Colónia, Hamburgo, Estugarda e Frankfurt suscitaram-me diversas questões. O que aconteceu ainda tem contornos por definir e a investigação decorre, há porém alguns factos sobre os quais importa reflectir.

2. Há aqui uma questão de género: a da violência e abuso sobre a mulher que é mais frequente e tolerada do que a sociedade alemã gosta e costuma admitir.
Quando um homem agride uma mulher comete um crime, isso é claro e indiscutível e a justiça funciona bem na Alemanha.
Existe todavia uma violência que não deixa hematomas: a que desqualifica o apalpão nas nádegas, ou a "esfrega". Colónia (mas também Hamburgo e Frankfurt) é uma cidade onde o abuso se desculpa sob a capa do "liberalismo".
Ouvi o depoimento de uma jovem de 15 anos que chorava copiosamente depois de ter sido abusada, se dirigiu à polícia que se encontrava na praça em frente à Hauptbahnhof e ouviu como resposta "não podemos fazer nada". Foi acompanhada ao interior da estação por dois universitários.
Aliás, a polícia esteve mal, muito mal. Embora tenham reconhecido o "caos" e uma situação da "qual poderiam ter resultado mortos" (citações do protocolo policial), não houve uma intervenção "musculada" comum noutras ocasiões. As queixas foram desvalorizadas, mesmo a duma agente. Só quando o número se avolumou tocaram os alarmes.
Igual lógica de desqualificação seguem as declarações ignóbeis da presidente da Câmara de Colónia que sustentam que as mulheres são responsáveis pela violência que sofreram porque não estariam à distância de "um braço" dos homens. (*)
Pior é passar pelo Facebook e ler quem ponha em causa as (pelo menos duas) violações ocorridas com a argumentação "estava muito frio e elas tinham muita roupa além disso estava muita gente na rua". Há provas forenses das violações. Mas, mesmo que não as houvesse, na noite de Ano Novo, mesmo com frio, muitas mulheres vestem vestidos com sobretudos por cima ( não andam de fato de esqui) e há vários lugares recônditos na praça onde é possível consumar uma violação.

3. Entre os atacantes há segundo o GdP (sindicato da polícia) homens do norte de África, de países árabes e refugiados sírios. Reuniram-se na praça frente à estação para procurarem "prazer sexual" e realizaram-no usando um método comum na cultura árabe. Quem se recorda das violações da praça Tahir no Egipto? É o mesmo método: cercar a vítima e atirá-la de um lado para o outro.
As chefias da polícia de Colónia tentaram abafar este dado, foram todavia desmentidas por vários agentes no terreno que confirmam terem identificado vários refugiados e terem sido vítimas desrespeito à autoridade e até mesmo violência esporádica. Um dos refugiados terá dito "a chanceler convidou-me" e terá rasgado a identificação em frente aos agentes.
Entre as palavras das chefias policiais e a dos agentes no terreno vão mundos. Interessa clarificar porquê ( a minha tese é a da incompetência e rivalidades internas entre a polícia federal e a local e claro a proverbial negligência da "italiana" Colónia)
A comprovar-se tudo isto há que rever a política de deportação, punir exemplarmente os envolvidos, mas sobretido apostar no explicar das regras de um Estado de Direito ( entre elas o respeito pela mulher e o seu corpo) aos 1,1 milhões de refugiados que chegaram à Alemanha até ao momento. Importa ressalvar que falamos em cerca de 16 atacantes identificados ( número que poderá chegar aos 30 ou quarenta) em 1,1 milhões.
Não punir exemplarmente os envolvidos é dar terreno arável ao extremismo de direita e a movimentos xenófobos. Isso diz respeito não apenas aos refugiados mas todos os estrangeiros (incluindo portugueses ) residentes na Alemanha.

4. Os media só tiveram a percepção da dimensão do sucedido após a conferência da polícia de Colónia que teve lugar 4 de Janeiro. Não houve nenhuma tentativa de "silenciar" os acontecimentos.

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(*) Só uma pequena nota de discórdia em relação a este ponto: parece-me que a presidente da Cãmara não estava a dizer que as mulheres são responsáveis pela violência, estaria apenas a responder (muito erradamente, diga-se de passagem) a uma pergunta do género "como é que as mulheres se podem defender?"
Em vez de dizer claramente que não compete às mulheres ter determinados comportamentos, cabe aos homens evitar o comportamento agressivo, ela caiu na asneira de fazer uma sugestão de mero bom senso, que para mais não serve para nada numa situação como aquela. É certo que eu também faço sugestões deste género à minha filha, e ela fica furiosa, porque diz que tem o direito de andar nas ruas que quiser à hora que lhe apetecer. E tem razão. São mulheres como ela que pressionam para que o nosso mundo mude para melhor. E à presidente da Câmara de Colónia compete fazer tudo para que estas mulheres possam andar na rua em segurança, sem precisarem de se guardarem em relação aos homens a distância de um braço - ou sequer a de um pontapé.


07 janeiro 2016

a propósito dos acontecimentos em Colónia na noite de passagem de ano (3)

(foto)


Ainda não se sabe quem esteve envolvido nos ataques em Colónia, mas alguns políticos já estão a fazer o gostinho à direita nacionalista. Como o secretário-geral do CSU, Andreas Scheuer, que exige o repatriamento imediato de refugiados que importunarem mulheres: "é inaceitável que à noite, nas ruas e praças das cidades alemãs, as mulheres sejam vítimas de violência sexual e de roubo por parte de jovens imigrantes". Afirma que se trata de um tipo novo e repulsivo de violência, e que "se os refugiados ou as pessoas que pedem asilo cometem estes ataques, trata-se de um abuso da hospitalidade, o que só pode ter como consequência o fim imediato da sua estadia na Alemanha". Fala em tolerância zero para este novo tipo de violência sexual: "na nossa sociedade há regras claras, que todos têm de respeitar, não apenas os que já cá vivem, mas também os que estão a chegar". Continua: "o respeito pelas mulheres é um valor fundamental da nossa sociedade, e por isso faço um apelo aos media para que não silenciem os crimes mas que, pelo contrário, os noticiem com clareza e transparência". Afirma ainda que a discussão sobre a distância de segurança a manter não faz sentido, porque não são as pessoas que aqui vivem que têm de se adaptar a quem chega, é quem chega que tem de aceitar as regras aqui vigentes.

Em suma: não se sabe quem foi, não se sabe se há realmente refugiados envolvidos, mas Andreas Scheuer já vai adiantando o que se deve fazer aos refugiados caso se descubra que foram eles...

Claudia Roth (Verdes) tem uma posição muito crítica em relação a este tipo de aproveitamento político, e chama a atenção para o risco das generalizações: "Não podemos dizer que isto é típico do norte da África, ou típico dos refugiados. Estamos perante um caso de violência masculina e estamos perante a tentativa de usar essa situação - a noite da passagem de ano - como se houvesse um vazio jurídico."

Nos jornais multiplicam-se os textos de opinião criticando duramente este caso chocante de violência sexual, mas simultaneamente alertando para o risco do reforço de preconceitos, e para a traição às vítimas que resulta do aproveitamento deste crime para servir determinados preconceitos e ideologias políticas.

Andreas Scheuer tem razão quando diz que os valores fundamentais desta sociedade são indiscutíveis, mas o vínculo que estabelece entre os refugiados e o que aconteceu em Colónia é oportunista - pelo menos até se provar que os atacantes eram refugiados.

Além disso, a questão dos valores essenciais a transmitir aos estrangeiros é muito delicada. Desde já, porque se parte de uma determinada imagem generalizada e negativa das pessoas que entram no país. Depois, porque há o risco de querer transformar os estrangeiros em alemães exemplares, sem que se saiba o que isso é. Cada alemão é um caso, goza de uma grande margem para diversidade e até para desrespeitar certos limites, sem ter sobre si uma espada de Dâmocles pronta a arrancá-lo daqui para o enviar para outro país. Os estrangeiros, esses, têm de ser exemplares. E se não forem...

Sempre que ouço falar em obrigar os estrangeiros a aceitar os valores desta sociedade, recordo um comentário sobre Ratzinger e o teste para poder receber a nacionalidade alemã: chumbava na parte relativa aos homossexuais. Também penso nos momentos de humilhação que passei, por quererem fazer de mim uma boa alemã. O "isso aqui não se faz" a propósito de tudo e de nada, ou as duras críticas às minhas escolhas sobre maternidade e profissão. Ser mãe e trabalhar é algo naturalíssimo em Portugal, mas não o era há vinte anos na Alemanha. Eu optei por continuar a trabalhar apesar de não precisar do dinheiro, deixando os meus filhos "abandonados numa instituição onde eram educados sabe-se lá por quem". Devia ter sido repatriada? Bem sei que há uma diferença enorme entre uma mulher ser vítima de violência sexual, e uma criança ser vítima de desleixo parental continuado... ahem, quer dizer... talvez seja melhor não insistir neste exemplo...

Aceito, obviamente, a necessidade de ensinar os valores fundamentais do país, mas assusta-me o potencial para o exercício da prepotência e da humilhação, e a posição de permanente assimetria em relação aos estrangeiros, tornando-os cidadãos de segunda classe que só são aceites de modo condicional.


a propósito dos acontecimentos em Colónia na noite de passagem de ano (2)

No site do jornal Die Welt fala-se da distância equivalente ao "comprimento de um braço" que a presidente da Câmara de Colónia aconselhou que as mulheres guardassem em relação a desconhecidos. A notícia inclui um filme, que pode ser visto aqui.
Um resumo:

O narrador começa por perguntar-se sarcasticamente se as mulheres vítimas de abuso sexual na passagem de ano em Colónia não terão sabido respeitar as regras de comportamento propostas por Henriette Hegel, a presidente da Câmara ("as mulheres podem manter uma certa distância, equivalente ao comprimento de um braço, ou seja, não procurar, elas próprias, a proximidade de pessoas que não conhecem e com as quais não têm uma boa relação de confiança").
Esta frase suscita uma onda de escárnio na internet: a distância de um braço como outfit aconselhado para as próximas festas, o braço como unidade de medida para a burrice política, ou pura e simplesmente a incredulidade perante a ingenuidade desta pessoa.
Para animar ainda mais, um jornalista pergunta, em tom provocador, se não será melhor que as mulheres vão de burca para as festas.
Uma jovem entrevistada na rua comenta: "Penso que uma mulher tem o direito de se movimentar livremente, tal e qual como os homens". Outra acrescenta: "É um desaforo dizer-nos como é que nos devemos comportar, porque neste caso as vítimas somos nós. Deviam falar com os homens, e não com as mulheres". Manuela Schwesig, da SPD, ministra da Família, é muito clara: "Os tempos em que nós, as mulheres, não podíamos andar à vontade na rua, ou não devíamos usar mini-saia, acabaram. Não vamos recomeçar o debate sobre o que é que as mulheres devem fazer para evitar estas situações. O que está em causa é o comportamento desses homens."
A presidente da Câmara protesta: a sua frase foi retirada do contexto.

A onda de escárnio não vai parar tão depressa. Aqui ficam algumas reacções no twitter, enquanto esperamos para ver as reacções a esta expressão no próximo Carnaval de Colónia.





 

(fonte: twitter, via n-tv)


Parece-me que o faux pas da presidente da Câmara teve a vantagem de tirar um instantâneo ao país: desde a clareza das frases das jovens entrevistadas à clareza na reacção de outros políticos, não há margem para qualquer dúvida sobre quem é o criminoso e quem é a vítima.
Isto, no que toca à violência sobre as mulheres.
No que diz respeito aos preconceitos, já o caso muda de figura. Tema para o próximo post.


a propósito dos acontecimentos em Colónia na noite de passagem de ano


(fonte: Spiegel)

Um bocadinho de lenha para a fogueira: vi um vídeo dos incidentes em Colónia, e estava capaz de apostar que alguns daqueles assobios eram portugueses. Já ouvi muita daquela música ao passar junto a obras...

(Era mesmo só para dizer que a distância que vai dos "outros" - os horrorosos, os ignóbeis, os "vai prá tua terra, seu reles imundo!" - ao "nós" pode ser ínfima.) (Não me vou dar ao trabalho de comparar a diferença nas reacções de certas pessoas à criminalização do "piropo" e ao que aconteceu em Colónia, mas era um exercício com a sua graça.)

Nesta notícia do Spiegel há um vídeo que mostra que não podem ser "mil atacantes". Também tem cenas de pânico com pessoas a fugir de foguetes lançados contra elas, e ouve-se a "música" que acompanha os ataques às mulheres (é na parte onde se lê "60 Anzeigen wegen Sexualdelikten"). Ouçam a música, e digam lá: isto é mesmo só coisa lá desses gajos árabes e do longínquo norte de África?


06 janeiro 2016

neve

A ver se me lembro de da próxima vez não me queixar de ter um Natal muito quente, e assim.
Hoje já fui limpar a neve três vezes.

Em compensação, o nosso raposo pequeno anda feliz.







Pierre Boulez

Há alguns anos vivi - mais que ouvi - as Notations de Pierre Boulez, dirigidas por ele na Filarmonia de Berlim. Estava sentada nos bancos do coro, mesmo por trás da orquestra, o que foi uma sorte porque quase cheguei ao lado de dentro dessa música. Além disso, a Notations II tem um impressionante swing na percussão, e acontecia a meio metro de mim.

No dia em que anunciaram a morte do Pierre Boulez não me vou armar que o conhecia desde a mais tenra idade e que sempre tomei os pequenos-almoços ao som da sua música. Mas guardo desse concerto uma recordação grata. E outra, divertida: os instrumentos em que parte da sua peça foi tocada.




05 janeiro 2016

adeus, Texas


(foto tirada da notícia do Spiegel, aqui, em alemão)

Não é que o Texas estivesse propriamente na minha lista de lugares a visitar antes de morrer, mas agora está claramente na minha lista de lugares a evitar a todo o custo.
Para Faroeste, bastaram-me os livrinhos que os meus irmãos compravam no alfarrabista, e eu lia na cama aos domingos de chuva (sempre iguais: os bons e os maus, o revolver no coldre, o tiro entre os olhos, o corpo a retesar-se no ar e a cair para trás, o sangue a sair da boca, o pistoleiro bom a abraçar a mocinha pela cintura estreita para lhe pespegar um beijo no fim do livro), enquanto desbastava pacotes de bolacha Maria.
Entretanto aprendi umas coisitas. Nomeadamente que toda a gente tem a mania que o seu é que é o lado dos bons, e que a desgraçada da mocinha acaba por ser beijada não pelo melhor, mas pelo mais rápido no gatilho.
Adeus, Texas. Não tenho o menor interesse em visitar uma terra onde as pessoas andam de coldre e revolver à cintura.



04 janeiro 2016

pensava uma pessoa que já tinha fotografado todas as variações do seu lago... (2)











   





pensava uma pessoa que já tinha fotografado todas as variações do seu lago...

Pensava uma pessoa que já tinha fotografado todas as variações do seu lago, mas foi passear com o cão (numa altura em que a temperatura em Berlim caiu abruptamente uns vinte graus centígrados) e deu com o lago a fazer estas cenas:







 









feels like


A seguir ao Natal li algures que no Pólo Norte as temperaturas estavam quase 50 graus acima do habitual. Imaginei que o equador se teria mudado para uns andares mais acima, imaginei os ursos polares a dançar lambanda, mas não é bem isso. Foi "apenas" que em Dezembro se mediram no Pólo Norte temperaturas positivas, até aos 10º, quando o habitual nesta época é 30 ou 40 graus negativos.

Pouco depois Berlim arrefeceu repentinamente. Desconfio que o Pólo Norte se tenha mudado para cá. 

Antes disso tivemos o Natal mais quente de sempre em Berlim. As minhas roseiras e árvores de fruto já estavam a puxar folhinhas novas, quando de repente caiu sobre elas este frio inóspito. Enquanto embrulho a figueira numa capa protectora, penso como farão os agricultores para proteger as colheitas da próxima época.

Diz ali que os 11 graus negativos de Berlim feel like 19 negativos. 
É mais feels like começar a temer que venham por aí grandes crises de fome à escala planetária.  


03 janeiro 2016

calendário

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Treize à la douzaine, que é como quem diz: a vida depois da vida.





01 janeiro 2016

ano novo, vida



Há quem procure o seu caminho no rasto das estrelas, esta tartaruguinha deixa estrelas no seu rasto.

A imagem (que roubei do perfil de facebook de uma amiga) parece-me apropriada para este primeiro dia do ano: apenas um dia mais - um passo mais, apenas. Vida.

Este ano não larguei em lado nenhum votos de boas festas, boas entradas, bom tudo. Não enviei mensagens a ninguém. Não agradeci todas as que recebi.

Mesmo correndo o risco de ofender alguns amigos (especialmente os que se deram ao trabalho de me escrever), diria que as minhas boas festas foram estas que passei longe da internet, e sobretudo da barulheira do "feliz Natal!", "festas felizes!", "bom ano novo!"

Se me deixassem mandar, ficava tudo como está, e cada um faça como lhe apetecer. Pessoalmente, o que me apetece é continuar a fazer o que já faço: entrar em cada dia como num mundo a inventar, tentar estar inteira nos encontros quotidianos. Falhar, recomeçar, avançar.
Qual é a forma das pegadas que deixo?