14 janeiro 2016

histórias de Berlim: um centro de formação para mulheres refugiadas



Esta semana estive num centro de formação de mulheres refugiadas, que funciona nas instalações de uma paróquia católica.

A responsável começou por contar o historial de serviço social da paróquia, nomeadamente no acolhimento e apoio a pessoas sem-abrigo, e o momento em que se aperceberam da situação dramática das pessoas que pedem asilo à Alemanha e ficam num autêntico limbo social, enquanto o sistema não decide se podem ficar ou se têm de partir. Foi há quatro anos. Um grupo de voluntárias dessa paróquia juntou-se para sonhar uma solução, e para rezar pedindo uma inspiração. Tempos depois, aconteceu de uma senhora ir falar com elas, para saber pormenores do projecto e das necessidades financeiras. Mal preparada, a actual responsável atirou uma quantia, praticamente às cegas. A senhora deu o dobro. Era a herança que recebera de um filho que morreu, e que ela queria aplicar no serviço aos mais frágeis desta sociedade. Esse dinheiro permitiu financiar os dois primeiros anos do centro de formação. Tentaram continuar com apoio estatal, mas infelizmente as instalações não cumprem os requisitos mínimos dos regulamentos alemães (detalhes como o tamanho ou a altura das mesas, a largura dos corredores, etc.), pelo que não pode ter financiamento do Estado. Desesperada, pediu ajuda a paróquias berlinenses com mais dinheiro, e recebeu-a. O centro de formação dá agora aulas a cerca de 100 mulheres, e as mulheres do primeiro grupo que recebeu aulas já estão todas bem integradas na sociedade alemã, têm trabalho e vivem numa casa com um contrato de arrendamento normal (um problema gravíssimo dos refugiados). Em 2015, quando começou a enorme vaga de refugiados, o centro já tinha alguns anos de experiência, e uma rede de voluntários e instituições a funcionar. O movimento de solidariedade que desde então anima a sociedade alemã, levando as pessoas a dar coisas e o seu próprio trabalho ou espaço para ajudar os refugiados, encontrou neste grupo um interlocutor válido, e mais voluntários vieram juntar-se ao projecto. Muitos deles são ateus ou de outras religiões, mas não se importam nada de trabalhar num centro católico. A única coisa que lhes interessa é que ali existe uma estrutura que funciona de forma organizada.

O trabalho aumentou imenso, mas a responsável do projecto sente-me mais calma do que nunca. Na sua voz de sereno entusiasmo, diz-nos: este é um momento histórico, um tempo em que vemos com muita clareza que está nas nossas mãos fazer do nosso mundo um lugar melhor, e vemos que isso é possível. O seu grupo está bem preparado e tem uma rede sólida de apoio. O trabalho dá resultados muito positivos. Além disso, sente que recebe dos refugiados muito mais do que lhes dá. Ganhou uma nova família, e sente-me grata e comovida por isso.

Retive algumas das histórias que contou, e frases simples que revelam os valores que a movem:

- O casal que veio da Somália. Na travessia da Europa, a mulher teve dois abortos. O primeiro, por ter sido vítima de violência em Itália ("não foi em África, não foi na travessia do mediterrâneo - foi na nossa Europa!"), o segundo ao chegar a Berlim. O centro arranjou um hospital que a operasse. Terceira gravidez, anunciada com alegria na paróquia. Um aborto espontâneo na véspera de Natal, e a responsável do centro a visitar o casal no hospital, no dia 25 de Dezembro. Ia triste, preparada para o pior, procurando palavras de consolo, e deu com eles sentados no quarto, a ver um filme de índios. Ao notar o seu desconcerto, sorriram-lhe, e explicaram que o filho deles repousava em paz na mão de Deus.
Perguntou-nos: "É preciso virem muçulmanos da Somália darem-nos uma lição de Fé tão simples?!"
A mulher continuou a frequentar o curso, o marido vinha todas as semanas limpar as escadas dos edifícios paroquiais, sem pedir dinheiro. Aos protestos do pessoal do centro, respondia "vocês são a minha família, e a gente tem de ajudar a família". Entretanto nasceu o filho tão almejado, e ele aceitou a proibição de limpar as escadas, porque esse tempo é mais bem ocupado em casa, a tratar do filho.
"E dizem por aí que esta gente é impossível de integrar", rematava a responsável.

- A mulher na sala de convívio, com a tv ligada num noticiário onde se falava da rota dos Balcãs como a mais perigosa de todas, que de repente começa a contar: "É, sim. Foi terrível. Eu não perdi o meu filho, mas vi outras, caídas na berma da estrada, as saias cheias de sangue. Não podíamos parar, continuávamos, elas ficavam lá. Olha, passas-me o açúcar?"
Que se diz a uma mulher que viveu acontecimentos tão traumáticos? Como reagir no momento em que ela revela um pouco do inferno das suas recordações? Quererá conversar? Precisa de um abraço? Que fazer com estes que são tão diferentes dos nossos pais e avós (que se recusavam a falar connosco sobre o que viveram na guerra, e não nos ensinaram a falar sobre situações traumáticas)?
Perguntas que todos se fazem nesse centro. Felizmente têm apoio exterior de profissionais, fazem cursos de formação para poder responder a estas e muitas outras situações. Sem essa rede de apoio, não conseguiriam fazer o trabalho e manter o equilíbrio emocional.

- Temos de saber ensinar de forma positiva. Não podemos dizer "isso aqui não se faz!"
Para mudar alguma coisa é preciso saber ouvir, entender e explicar.

- Também nós precisamos de quem nos explique algumas coisas, e ela fá-lo. Refere, por exemplo, aquilo que na sociedade alemã é vista como um problema: os apartamentos que são alugados a uma família de 4 pessoas, e onde ao fim de alguns dias se amontoam já 15 ou 20. Diz que essas pessoas vêm de culturas que têm outra ligação com o espaço, estão habituadas a partilhar espaços reduzidos, de modo a acolher toda a família. Não se estão a rir de nós e das nossas regras. Para nós, é difícil entender isso, mas para eles é normal.

- A maior parte das pessoas que ajudam no trabalho com os refugiados são jovens. Vêm com entusiasmo e sentido de responsabilidade. Parece que encontram neste serviço um sentido para a sua vida.

- Faz questão de ter uma escola só para mulheres. Numa primeira fase, elas precisam de ter um acompanhamento especial, e só quando se sentirem seguras se pode passar para uma nova fase do processo de integração.

- Uma vez apareceu lá uma mulher de burca. Houve um movimento generalizado de protesto: as alemãs, porque a burca nega valores fundamentais desta sociedade; algumas muçulmanas, porque repudiam essa escolha; e ainda várias mulheres que estavam profundamente traumatizadas por terem sido vítimas de fundamentalistas islâmicos. A mulher tirou a burca, mas a tensão entre elas continuou. Mesmo sem burca, as outras mulheres não conseguiam suportar a sua presença. Foi reconduzida para outro centro de formação.
A responsável tem um ar doce e compreensivo, mas não tem dúvidas em afastar quem não sabe aproveitar a oferta, ou quem não respeita certos valores. Conta a história de um pequeno-almoço organizado para homens (alemães) sem-abrigo. Era verão, e as adolescentes que andavam a servir os cafés vinham com roupas muito frescas. Um dos sem-abrigo não tirava os olhos de cobiça de uma das miúdas (pela descrição, teria um top extremamente curto), e já ia levantar a mão para lhe tocar quando foi posto no seu lugar pela responsável: "nesta casa não se permitem mirones, e muito menos assédio; se não sabe controlar os seus impulsos vai ter de ir para outro sítio". Mas também pediu à miúda que da próxima vez que viesse participar num evento com homens sem-abrigo trouxesse uma t-shirt que lhe cobrisse o tronco.

- Os problemas maiores que  prevê são de habitação (arranjar alojamento digno para todos) e de trabalho. Os refugiados que conhece do centro consideram que é indigno viver da caridade alheia, fazem questão de trabalhar. A entrada na Alemanha de tantas pessoas com esta ânsia de arranjar emprego vai provocar tensões graves no mercado de trabalho.

- Um dos problemas das mulheres que frequentam o curso de integração são os transportes. Elas vêm de todos os cantos da cidade, porque se sentem bem acompanhadas naquele centro, mas precisam de bilhetes para os transportes públicos. Se forem apanhadas num autocarro sem bilhete, correm o risco de serem enviadas para outro Estado, e recomeçar tudo de novo: registo, pedido de ajuda, processo de adaptação. O centro gasta quase 2000 euros por ano em transportes para as suas alunas.

- O sonho dela é fazer uma escola bem maior. Mil alunos. Mas não é uma escola onde os refugiados vão apenas receber. Também devem dar, ensinar aos alemães aquilo que sabem: cozinha árabe, artesanato, profissões técnicas. Entre os refugiados afegãos há muitos pastores e homens que sabem algo realmente especial: como montar um burro. Parece que não é nada fácil, mas eles podem ensinar. Nós rimo-nos - saber montar um burro não é propriamente algo fundamental para a vida em Berlim. Mas teria a sua graça levar lá os nossos miúdos a aprender com um homem das montanhas afegãs como é que se anda de burro.
Falamos do que seria necessário para essa escola. Ela já tem quem lhe dê o dinheiro para comprar o edifício, e nós ficamos de o procurar. Talvez, talvez. Ela abre-se um pouco mais, avisa que vai fazer um testemunho pessoal de Fé, e diz: acredito que quando Deus se sente entusiasmado por uma coisa, as soluções aparecem.

No fim, pede um impulso bíblico para a oração com que encerrará o encontro, e um de nós tira à sorte um papelinho de um saco. É do Livro do Apocalipse, 21: 1.

"E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe."

Parece que Deus anda mesmo entusiasmado com isto.


13 janeiro 2016

estudar para os exames

Já queria ter mencionado antes esta crónica do João Miguel Tavares no Público, na qual ele explica ao ministro da Educação que fez mal em acabar com os exames porque as famílias já se tinham organizado para eles, e pelos vistos esse seria o elemento central dos 9 meses lectivos.

Queria ter escrito, mas meteram-se aquelas traduções dos media alemães pelo meio, e uma coisa e outra, e agora o ministro antecipou-se-me, afirmando que “o modelo anterior, dos exames, não estava só errado, era acima de tudo nocivo: treinar para os exames é pernicioso e nocivo. As mudanças agora introduzidas estão cimentadas em estudos nacionais e internacionais, que já estavam feitos e que nos dizem claramente isso, que os exames só devem ser aplicados numa fase mais avançada da aprendizagem”. Acrescenta que “é urgente restituir à escola a sua função principal, que é a de ensinar e criar soluções para que se possa aprender melhor”. Ora, “a escola estava-se a moldar ao processo dos exames, ao treinar para os testes, o que resulta num empobrecimento” da aprendizagem. Era preciso, acrescentou, “intervir para devolver a normalidade às escolas e dar aos professores uma indicação clara de que podem dedicar-se à atividade principal, que é a da aprendizagem”.
(texto tirado desta notícia no Sol)

Não sei que me parece pior: se é um ministro da Educação ter de explicar algo tão evidente no ano da graça de 2016, ou se, nessa mesma época da nossa civilização, um pai achar bem uma situação como esta (e agora passo a citar a crónica do João Miguel Tavares): "Um ano de exames e de fim de ciclo é sempre um ano diferente, e trabalha-se para isso durante nove meses. Para uma criança empenhada na escola, o ano lectivo que está a frequentar não é, como para um adulto licenciado, apenas um de entre 15 anos de estudo – é a vida dela, toda, inteira, naquele momento."

Uma criança a frequentar a escola durante nove meses com o objectivo de trabalhar para o exame do fim do ano lectivo?!
E um ano com exame é a vida toda da criança, inteira, naquele momento?!

Vejo que os meus filhos escaparam de boa. Andaram num sistema de ensino que não vê as coisas assim. A professora da primeira classe de um deles comentou uma vez comigo: "estes miúdos têm uma sede enorme de aprender. Cabe aos professores responder a essa sede, e manter viva essa vontade de aprender cada vez mais." O resultado estava à vista: gostavam tanto de ir à escola que até doentes, com febre, me suplicavam que os deixasse ir. Nenhum deles organizava a sua vida em função do exame - excepto no caso do "Abi", no fim do secundário. Mas aprenderam a trabalhar com seriedade e gosto. Por exemplo, nos milhentos trabalhos de pesquisa e apresentação de resultados perante a turma, que começaram a fazer logo aos seis anos. Trabalhos em cuja preparação eles se empenhavam imenso para os fazer o melhor que conseguiam, e com perguntas e avaliações feitas pelos colegas: "gostei muito, especialmente da introdução" ou "penso que te perdeste um pouco em pormenores" ou "gostava que tivesses falado mais sobre esta questão concreta". Aqui estão dois elementos que não há nos exames: o aluno a estudar de forma autónoma, preparando algo para apresentar em público, e os colegas que, ao criticar, desenvolvem também critérios de qualidade para o seu próprio trabalho. Em vez de aprender para as perguntas de um exame, cheio de medo de falhar, e sem receber um feed back detalhado sobre a qualidade do seu trabalho e o que pode melhorar.

Nas escolas que os meus filhos frequentaram, as provas de aferição não eram um exame para o qual eles trabalhavam ao longo de 9 meses, eram algo de que os pais nem se apercebiam. Os alunos viviam isso sem qualquer drama. Afinal de contas, era apenas o ministério que queria ficar com uma ideia de como é que as coisas estavam a correr às escolas. Nunca me revelaram o resultado da avaliação das provas dos meus filhos. E para quê, afinal? Não eram os meus filhos que estavam a ser avaliados, era o funcionamento daquele sistema de ensino.

A propósito deste tema, perguntaram há tempos à Catarina Martins se quereria ser operada por um cirurgião que em vez de testado na escola tenha sido feliz na escola. Ora bem: qual é a dúvida?

Perguntem-me se quero ser tratada por um médico que na escola primária trabalhou nove meses para o exame, ou um que todos os meses tinha de escolher um tema, estudá-lo e apresentá-lo aos colegas de turma - além da estudar as matérias normais do programa.

Perguntem-me se quero ser tratada por um médico que enquanto aluno trabalhava para os exames durante nove meses, ou por um que gostava de ir à escola porque lhe dava imenso prazer aprender (sublinhe-se a palavra "aprender"), e que, além do gozo de aprender, também arranjava tempo para fazer desporto, estar com amigos, ler livros de BD, tocar numa banda de garagem.

Perguntem-me se quero ser tratada por um médico que se formou com 18 valores mas não fez mais nada durante o tempo universitário a não ser preparar-se para os exames, ou por um médico que se formou com 10 valores (ou seja: que fez prova de um conjunto de conhecimentos considerado suficiente), mas enquanto estudante fazia voluntariado num hospital de pobres no terceiro mundo.

Aprender não tem de ser um exercício fundado no medo do exame.
E muitas vezes o exame é a pior maneira de tentar aferir o saber e as competências do aluno.

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Adenda, a propósito de um comentário: um estudante de medicina que nas férias vai fazer voluntariado no terceiro mundo é uma pessoa que revela um enorme amor ao ser humano e à profissão que escolheu. E passar umas temporadas num hospital do terceiro mundo dá muita maturidade. Tudo isto são qualidades que me agradam muito num médico.
Obviamente, trata-se de uma experiência de formação extra-curricular, que se soma à formação normal a que todos os outros estudantes de medicina (a parte teórica e a parte prática) têm acesso.


a propósito de uma notícia do Expresso sobre o que acontece em Colónia



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Colónia está irreconhecível desde os ataques da noite de passagem de ano: foram apresentadas 553 queixas, 54% das quais reportam “abusos sexuais”. Há refugiados entre os acusados e ainda ninguém sabe ao certo o que se passou e quantas mulheres foram atacadas. Manifestações de direita, contramanifestações, hooligans e neonazis ajustam contas, espalhando a inquietação. Com o maior carnaval da Europa à porta, a cidade tem pouco tempo para (se) convencer que a vida pode voltar ao normal.

Irreconhecível? A impressão que eu tenho é que a cidade continua igual ao que era. Uma amiga, que mora na região, confirma: tudo igual, só há é mais polícia nas ruas.

"Manifestações de direita, contramanifestações, hooligans e neonazis ajustam contas": contem-me algo de novo! Já vi disso há mais de um ano, quando passei um fim-de-semana nessa cidade. E se fosse em Berlim, tinha grandes probabilidades de ter os meus filhos directamente envolvidos - na parte do contra, entenda-se. O relato dos confrontos em Colónia neste sábado, entre Pegida e neonazis de um lado, o contras do outro, e a polícia no meio, é igual a relatos de cenas idênticas em inúmeras cidades alemãs desde que o Pegida nasceu.

Os manifestantes do protesto Pegida, entre os quais se contam muitos hooligans e neonazis, gritam palavras de ordem na cara da polícia. “Onde, onde, onde estavam na passagem de ano?”, “nós somos o povo”, “Angela Merkel, a puta dos refugiados” 
(Ofensas à Angela Merkel: contem-me algo de novo. Já se esqueceram do cartaz exibido há meses, noutra cidade, onde se via uma forca para a chanceler?)
ou ainda “fora os porcos salafistas”. A poucos metros de distância, separados por uma centena de polícias de choque com cães, esgrimem os contra manifestantes da aliança Colónia contra a Direita: “Fora os nazis”. Sente-se o perigo de nova escalada de violência na praça da estação de Colónia no sábado à noite.

O que é realmente espantoso: uma semana depois dos acontecimentos chocantes da passagem de ano, há 1300 pessoas que se dão ao trabalho de sair à rua para não a entregar de mão beijada aos Pegida e neonazis (eram 1700) que querem aproveitar o choque para conquistar terreno no espaço público.

Se fosse eu a escrever um artigo sobre o que acontece em Colónia neste momento, era por aí que começava: apesar do choque e do medo, de o país não ter ainda percebido o que aconteceu, do jeito que estes ataques dão para reforçar o acalorado discurso xenófobo que uma certa direita está a soltar no espaço público - apesar de tudo isso, ainda há grupos numerosos de cidadãos que saem à rua para impedir que esta seja tomada pelos "cidadãos preocupados" que têm medo da invasão islâmica e fazem um discurso anti-refugiados. Sim: se eu escrevesse um texto sobre Colónia uma semana depois, era por aí que começava, e não pelos neonazis.

E se fosse eu a traduzir este artigo para português, em vez de traduzir o "auf der Kippe" da capa da revista Der Spiegel para "a um passo do abismo", tinha escrito "em risco de perder o equilíbrio" - o que daria uma luz diferente às frases que se seguem, porque são todas exemplos de perda de um equilíbrio e de uma certa serenidade que a Alemanha até agora tinha conseguido manter.

Como dizia o outro: calma, não é o fim do mundo. A Alemanha não está à beira do abismo. Está apenas a pensar - e nisso, honra lhe seja feita, tem muitos e muito bons pensadores - como se quer reorganizar para continuar a ser ela própria. Não é um país a ferro e fogo. A vida continua normalmente - mesmo em Colónia.

Se não for cancelado por ameaça séria de atentado terrorista, o Carnaval de Colónia vai sair, e vai correr bem, porque agora todos estão muito mais atentos aos riscos, e todos estarão preparados para reagir - tanto a polícia como a população (um exemplo: até agora, o apalpanço não era notícia; hoje, o caderno regional do nosso jornal diário conta na primeira página que a polícia prendeu dois paquistaneses que ontem foram observados a abraçar mulheres junto à Porta de Brandeburgo, "tendo um deles tocado uma mulher na perna, contra a vontade dela").
Estou muito curiosa para ver os carros satíricos do desfile: como irão tratar os acontecimentos recentes?

O artigo era sobre Colónia, mas não resisto a um comentário sobre o que mudou em Berlim: aparentemente, nada. Ontem estive em Neuköln, um bairro berlinense relativamente pobre, onde há muitos árabes e turcos, e onde os refugiados "desaparecem", ou seja, encontram abrigo informal à margem da organização estatal - arranjam quem lhes dê abrigo, para não continuarem a dormir amontoados em armazéns ou ginásios. O ambiente estava tão calmo como sempre. Mesmo sabendo que também há lá gangs árabes (que exploram os refugiados ou tentam levá-los para a sua rede de crime) andei tranquilamente naquelas ruas. Jantei por lá com oito amigos alemães, provenientes de todos os cantos da cidade e com profissões muito diversas, e ninguém tinha vontade de falar sobre Colónia. Parece que estão todos placidamente à espera de um momento em que a poeira pouse e tudo se torne mais claro.

das duas, três:

Das duas, três: ou é uma animação muito bem feita, ou a culpa é do aquecimento climático, ou isto é um sinal do fim do mundo, ou anda aqui dedo do Sócrates.





12 janeiro 2016

mais notícias frescas da Alemanha

(foto)

Tenho andado a traduzir para este blogue textos publicados em alemão, e sei que há em Portugal muitas pessoas que estão agradecidas por poderem ver um pouco mais do que se passa na Alemanha. Contudo, tenho algumas dúvidas sobre isto, porque dou uma perspectiva instantânea e parcial do que se passa. Obviamente que todas estas questões são muito mais complexas, e que a tradução de meia dúzia de textos não dá uma visão equilibrada do conjunto.
Mesmo correndo o risco de voltar a afunilar o olhar dos leitores deste blogue, traduzo nova peça de jornalismo. Desta vez é do noticiário Tagesthemen, ARD, 11.01.2015. Podem ver aqui.

O que se segue é em parte tradução literal, em parte resumo daquela peça do noticiário (desculpem, mas não tenho tempo para assinalar o que é o quê):

Uma semana depois de termos tomado conhecimento dos ataques a mulheres em Colónia, nota-se uma mudança visível na Alemanha. Ainda não sabemos muito sobre os atacantes, entre os quais havia refugiados, nem sabemos se se tratou de um ataque organizado. Contudo, cresce a preocupação de que os sentimentos de solidariedade para com as pessoas que nos pedem asilo percam a força. Talvez isso se deva à perda de confiança na polícia que se seguiu aos acontecimentos de Colónia. Talvez se deva à sensação de haver no país lugares à margem da lei, como a estação central de Colónia, ou praças noutras cidades. Entretanto já há grupos de cidadãos que entendem que têm o direito de tomar a questão nas suas próprias mãos, e proteger-se de imigrantes potencialmente violentos.

Vídeo, 01:03: Patrulhas no centro de Düsseldorf. Cidadãos preocupados criaram uma espécie de exército de protecção civil. Nas cidades de Nordhein-Westfallen, grupos de pessoas começaram a organizar-se via internet, porque já não confiam na polícia. Querem mostrar-se nas ruas. O organizador do grupo "Düsseldorf está atenta", Tophig Hamid, diz que não se trata só das mulheres, trata-se da segurança de tudo - "tudo o que pode ser atacado, tudo o que vai ser atacado". A imagem da polícia sofreu danos desde a noite da passagem de ano, mas os polícias também têm as suas reservas perante esta iniciativa dos cidadãos. Para mostrar que as pessoas se podem sentir seguras em Colónia, há agora um reforço de mais de cem polícias para a patrulha das ruas. Um responsável da polícia diz que vão ter muitos mais agentes distribuídos pelo maior número possível de locais, para poderem observar e intervir caso necessário, e mostrar aos grupos violentos que não se podem apropriar do Direito. "No entanto", continua a narradora do vídeo, "isso nem sempre se verifica. Na noite passada houve novos ataques em Colónia, desta vez contra estrangeiros, e cometidos por rockers e hooligans. Para a polícia, muito está em jogo. Trata-se de conseguir a confiança da população. E não ajuda muito o facto de Ralf Jäger, o ministro do Interior em Nordrein-Westfallen, empurrar a culpa para a polícia municipal." O ministro afirma que os agentes no local deram tudo por tudo mas não pediram reforços, e critica que tenham dado a impressão de querer esconder alguma coisa, ao contrário do que se aconteceu. A narradora continua: poucos polícias, muitos atacantes. Todos os relatórios da polícia sobre a noite da passagem de ano apontam para esse problema. Pessoas da organização policial revelam que cada agente já acumulou entre 200 e 500 horas extraordinárias. Willi Russ, da União de Funcionários Públicos, fala de uma situação catastrófica, que resulta da política dos últimos anos de "poupar até rebentar", e que é preciso corrigir urgentemente. O ministro federal do Interior prometeu mais 4000 postos só na área da segurança, pois reconheceu que se está perante uma situação limite. Diz ele: "A polícia está sobrecarregada na Federação e nos Estados, pelo que é necessário garantir reforços. Mas note-se que há muitas cidades que não estão na situação de Colónia. Convém não generalizar e dar a entender que por todo o país a polícia está incapaz de responder adequadamente." No entanto, é mesmo isso que pensam as pessoas em Düsseldorf - caso contrário, não andariam a patrulhar as ruas, denominando-se a si próprias "apoio à polícia". Um deles diz que se mostram presentes, nos casos em que não há polícia por perto entram eles em acção, se as coisas piorarem chamam a polícia, e ajudam as vítimas. A partir de agora, querem fazer patrulhas regulares.
(fim deste vídeo)

O ministro do Interior de Nordrhein-Westfallen não é o único que acusa a polícia. Mas não será que uma polícia bem organizada mereceria uma política melhor? Esta exige agora que criminosos que pediram asilo à Alemanha sejam metidos em aviões e enviados o mais depressa possível para o país de origem. Pergunta-se: isso acaso é possível? Novo vídeo, sobre reacções demasiado rápidas a exigir leis e penas mais duras, muitas vezes à margem dos ensinamentos que a experiência já permitiu ganhar.

Vídeo, 04:43: Refugiados em Berlim. Muitos deles vêm de sociedades dominadas pelos homens. Um conceito chave na sua cultura: honra. Qual o seu significado? A organização Heroes tem experiência neste campo. Luta contra a opressão em nome da honra. Ylmaz Atmaca faz sensibilização nas escolas. O conceito de honra é frequentemente muito importante para os filhos dos imigrantes, especialmente quando é o exemplo que recebem em casa. "O rapaz tem de ser permanentemente masculino, forte, não pode desviar o olhar, tem de mostrar músculos, falar com voz grave. Quem não for capaz de se mostrar assim, está em maus lençóis." O narrador prossegue: os Heroes querem resolver os conflitos na escola. Por isso, analisam com os alunos esses esquemas rígidos que eles recebem. Frequentemente leva anos até se conseguirem resultados. Os políticos da coligação governamental não querem esperar tanto tempo. Dizem que as coisas têm de mudar depressa, mas dizem-no de modo vago. Thomas Strobl (CDU/CSU): "Vamos endurecer e ajustar em toda a medida do possível as regras de repatriamento." Os deputados da CDU, sob pressão, falam em evitar registos múltiplos de refugiados, em gravar impressões digitais. São mudanças que estavam há muito planeadas, e agora vão entrar em vigor a toda a velocidade. Um político do CDU/CSU fala em aprovar ainda esta semana a lei relativa à gestão de dados, a que se deve seguir imediatamente a revisão das leis sobre o asilo. No SPD parece haver pouco tempo para falar uns com os outros - as declarações são contraditórias (dão o exemplo de uns dizerem que os refugiados têm de ficar no local onde foram registados, e uma horas depois outro dizer que devem poder movimentar-se livremente para regiões onde haja trabalho para eles). A oposição (Verdes) pede calma no debate, e que em vez de multiplicar sugestões se aplique o que já foi decidido. Narrador: os refugiados, e em particular os que vêm de culturas patriarcais, precisam de indicações claras. Mas, como diz Ylmaz Atmaca, o excesso de propostas provenientes do governo já não o impressionam: "tenho a sensação que a Política, a nossa Política, reage demasiado depressa e com demasiada força. O que dá um sinal de impotência." A organização Heroes quer agora trabalhar também com os refugiados, ajudá-los a entender a Alemanha, esta terra nova e desconhecida para eles.
(fim deste vídeo)

07:47: Que devemos pensar destas exigências de leis mais restritas? Perguntas a um especialista em Direito:
- Se mudarem as leis de asilo, é realmente possível repatriar mais rapidamente os refugiados que tiverem comportamentos criminosos?
- Do ponto de vista jurídico, é possível facilitar as condições para um repatriamento. Aliás, já é permitido o repatriamento com base em crimes com penas muito baixas. Mas há limites para esse repatriamento. Antes de mais, a Alemanha não pode repatriar uma pessoa que corre risco de vida ou de ser torturada no seu país. É uma questão de Direitos Humanos. Nesse caso, as pessoas têm de cumprir aqui a sua pena. Em segundo lugar, muitas vezes há dificuldades de ordem prática, tais como o país de origem recusar-se a passar novo passaporte a uma pessoa sem documentos, recusando-se assim a recebê-la de volta. Problemas destes são muito mais frequentes do que se pensa.    

- Mas, partindo do princípio que isso seria possível, bastaria mudar as leis para conseguir expulsar os atacantes de Colónia?
- Um repatriamento, independentemente da leveza das condições estabelecidas por lei, pressupõe um julgamento e uma condenação. Mesmo antes de se falar em repatriamento, já vejo num caso tão caótico como o de Colónia um problema (que com certeza não agradará às vítimas): é praticamente impossível provar em tribunal que determinada pessoa cometeu determinado delito. Grupos de atacantes, pouca polícia presente: como provar em tribunal quem fez o quê? Além disso, mesmo que se mudem as leis no que respeita às agressões sexuais, isso só terá consequências para o futuro, não pode ser aplicado aos atacantes de Colónia.  

09:49 Comentário sobre as novas regras para expulsão do país, pelo jornalista Reinhard Borgmann, do RBB:

"Agora é que se lembraram de acelerar para fazer leis mais restritas, os políticos da coligação. Os da CDU querem recusar os processos de pedido de asilo aos refugiados delinquentes, nem que tenham sido condenados apenas com pena suspensa. Também Sigmar Gabriel, da SPD, reage a partir da longínqua Cuba, exigindo que os criminosos cumpram a pena no seu país de origem. Sugestões que sugerem uma reacção forte, mas não servem para nada. Pois já hoje em dia é praticamente impossível repatriar refugiados que foram condenados a prisão. A situação nesse país não o permite, ou o país recusa-se a aceitar essa pessoa de volta. No Estado de Berlim, no ano passado, houve 2500 processos de investigação, e apenas 5 repatriamentos. Já seria suficiente se se pudesse pôr em prática as leis actuais. Por exemplo, tratar como delito os incumprimentos da lei relativa à permanência de estrangeiros, não facilitar na identificação das pessoas, identificá-las realmente, aumentar os efectivos policiais na rua. Temos de chamar à responsabilidade todos os que no governo desde há anos vêm fazendo política de poupanças drásticas à custa dos sistemas de segurança e de justiça. Mas também temos de chamar à responsabilidade os media, pois nem todos os repatriamentos são sinónimo de atentado aos Direitos Humanos. A resposta correcta a Colónia não são novas leis para os estrangeiros. Correcto seria focar-se nos deveres elementares do Estado. Como está escrito no artigo 1 da Constituição: "A dignidade humana é intangível. Respeitá-la e protegê-la é obrigação de todo o poder público." Isto é válido para as mulheres de Colónia, do mesmo modo que para os refugiados.

O noticiário passa para o tema seguinte: "Para nos lembrar do que é que os refugiados estão a fugir, basta olhar para a cara destas mulheres que estão há 3 meses sem ligação ao resto do mundo, e não sabem como matar a fome"  (foto de mulheres em Madaya).

Continua - com o mapa da Síria, uma coluna de camiões a chegar a Madaya com comida, medicamentos e cobertores, e a informação que há outras cidades nas mesmas condições, mas cercadas por outras forças.

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Benditos noticiários alemães! Num momento em que o país é completamente apanhado de surpresa e as reacções são muito acaloradas, o noticiário televisivo informa de forma simples e concisa não apenas sobre o que está a acontecer, mas também sobre o enquadramento legal das soluções apontadas. O Estado de Direito, sempre.
E ainda mostra um exemplo de uma organização que faz um trabalho de muito valor no terreno - o que me dá esperança e segurança.

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A foto é desta notícia no site Focus, sobre a crítica ao surgimento de grupos de segurança organizados por civis. Mais um artigo muito interessante, sobre os perigos desta nova tendência, os riscos, a sua condição ilegal (o Estado tem o monopólio da força, a polícia é responsável pela segurança pública, ninguém pode fazer justiça pelas suas próprias mãos), os riscos (muitos destes grupos são organizados por elementos da extrema direita). Diz que já há grupos de cidadãos a ajudar a polícia, mas são casos perfeitamente controlados, com formação adequada e trabalhando realmente em colaboração com a polícia.

Também podia contar que ontem houve desacatos graves em Leipzig, com 250 hooligans de extrema direita a deitar fogo a carros, partir montras, atacar polícias. Parece que queriam invadir um território dos "autónomos de esquerda". Batalhas campais destas, com a extrema direita a lutar contra a extrema esquerda para decidir a quem pertence um território (nem que seja um bar), já as conheço desde há mais de 10 anos, quando vivia na Turíngia.

Podia contar isso e muito mais, mas de facto os jornais portugueses deviam era arranjar um correspondente na Alemanha que lhes fizesse este trabalho.
(Ah, já existe?! Então vá: tentem todos fazer o trabalho de informar correctamente.)

11 janeiro 2016

"mamas grandes"

Mais um artigo do Spiegel (era bom que viesse rapidamente um novo escândalo, mas desta vez passado em Portugal, para eu não atrasar mais a minha vida real com tantas traduções...)




(fonte: Spiegel)

O artigo começa assim:

Trata-se de uma folha de papel pequena e amarrotada, que se tornou um símbolo da crua violência sexual e da misoginia. Nele pode ler-se "quero foder", "mamas grandes" e "quero-te morta beijar". A seguir, as frases correspondentes em árabe. O papel foi encontrado ao deter Issam D., um jovem marroquino, e outro suspeito, na quinta-feira passada, perto da Estação Central de Colónia.

O canal Spiegel TV falou com esse suspeito, que vive num centro de refugiados perto de Colónia. Além do papel, os investigadores também encontraram, num telemóvel em sua posse, vídeos com cenas dos ataques às mulheres na noite da passagem de ano. Ela terá apenas 16 anos, e diz que encontrou o papel no chão. Também diz que nessa noite nem sequer estava em Colónia, e que às dez da noite já estava a dormir a sono solto. É verdade que os vídeos estavam no telemóvel que ele trazia consigo, mas o aparelho nem sequer é dele. "Eu não faço dessas coisas", diz.
A polícia já o conhece há algum tempo. A primeira vez foi em Julho de 2015, como carteirista. Outro refugiado residente nesse centro relatou que o Issam D. e os seus amigos são desagradavelmente conhecidos no centro por beberem, fumarem, tomarem drogas e não quererem ir para a escola.
Issam D. faz parte de um grupo de mais de 20 homens do norte de África que a polícia está a investigar devido ao que aconteceu em Colónia na passagem de ano.

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E agora vou mudar de assunto: "mamas grandes", "quero-te beijar" e "quero-te foder" (está tudo naquela folhinha) são alguns dos galanteios com que as mulheres são mimadas por desconhecidos nas ruas portuguesas. Para o Spiegel, isto é sinal da "crua violência sexual e da misoginia". 

- Oh, pá, Spiegel, por amor de Deus! "Mamas grandes"?! Isso é motivo para escândalo?! Só significa que os homens têm olhos para ver as maravilhas da Criação. E qual é o problema de se querer foder uma mulher bonita? Afinal de contas, os homens são como são, e esse impulso natural inscreve-se no instinto de preservação da espécie. Além disso, mulher honesta não tem ouvidos. Vá, juízo nessa cabecinha, e vamos tratar de problemas mais importantes e urgentes que estas tentativas um pouco desajeitadas de flirt.

Fica a informação para os portugueses que acham que o piropo é um elemento da nossa cultura que deve ser preservado, quiçá inscrito no património da UNESCO: para a sociedade alemã, este tipo de frases é um sinal de violência sexual e de misoginia. Portanto, peço aos portugueses residentes na Alemanha que tenham cuidado com esses impulsos culturais, porque do comportamento de alguns de vocês depende ficarmos todos com má fama. E não me apetecia nada ter de ir para uma manif de repúdio com um cartaz a pedir desculpa pelo comportamento dos meus compatriotas e a tentar provar que nós, os portugueses, não somos todos assim.

Bem sei que as minhas orações e os meus pensamentos deviam estar com as mulheres brancas que foram vítimas dessas hordas de bárbaros de pele escura, e que devia estar a fazer petições para fechar as fronteiras e expulsar toda essa gente para fora da Europa, em nome da segurança das nossas mulheres e da defesa do Ocidente cristão, nomeadamente dos seus valores (isto é puro cinismo, não façam uma leitura literal), mas não resisto a fazer mais um comentário: em Portugal há muito boa gente, inclusivamente mulheres (bom dia, Marias Ann Coulter, está tudo bem aí na coutada dos bons costumes?), que diz que as pessoas que querem criminalizar o piropo são histéricas feias, esganiçadas e/ou mal fodidas. 


domingo, 10.01.2016: novos ataques em Colónia

Esta manhã o Spiegel online relata novos casos de violência em Colónia.

Ontem à noite, hordas de homens violentos atacaram pessoas inocentes e indefesas nas ruas de Colónia. A polícia relata que por volta das 18:40 cerca de vinte homens atacaram seis pessoas perto da Estação Central. Duas das vítimas foram levadas para o hospital, e já receberam alta. Cerca de vinte minutos mais tarde, cinco homens atacaram e feriram ligeiramente uma pessoa.
Não se sabe ainda se há uma ligação entre os dois ataques.

O que o Spiegel revela logo à entrada, e eu revelo agora: as vítimas são paquistaneses, no primeiro caso, e um sírio, no segundo. Parece (vem num jornal de Colónia, mas a polícia ainda não confirmou essa informação) que alguns rocker, hooligans e seguranças de discotecas combinaram por facebook ir fazer uma "caça ao homem".

Por sorte, trata-se apenas de casos isolados, e completamente alheios ao discurso xenófobo que se tem instalado cada vez mais descaradamente no espaço público... É preciso não confundir as coisas, e não esquecer nunca que quando os "nossos" fazem isso são casos isolados, mas quando são "eles" a fazer é normal, porque o contexto cultural deles é assim mesmo...

(Antes que os wannabe Ann Coulter portugueses reajam: não, não estou a dizer que o que aconteceu a 31.12 e a 10.01 são coisas de igual dimensão, significado e alcance. Estou-me simplesmente a rir de quem acha que nós aqui é tudo boa gente, e eles lá são todos culturalmente programados para serem delinquentes no nosso mundo, e nem se apercebem que esse tipo de discurso alimenta surtos de violência como os de ontem à noite.)



10 janeiro 2016

"violência na noite da passagem de ano: o ministro da Justiça alemão admite que tenham sido ataques combinados ou planeados"

(Gostei muito de ler este artigo hoje, 10.01.2016, no Spiegel Online. Quem fala assim não é gago, e não se deixa levar pelo medo ou pelos desvarios populistas.)



Violência na noite da passagem de ano: o ministro da Justiça alemão admite que tenham sido ataques combinados ou planeados

Heiko Maas, ministro da Justiça: é preciso esclarecer urgentemente o que aconteceu

O ministro da Justiça suspeita que os ataques às mulheres na noite da passagem de ano terão sido organizados, tanto na região de Colónia como em toda a Alemanha. E adverte contra generalizações.

"O facto de se ter reunido uma horda desta dimensão a cometer estes crimes aponta para que tenha havido alguma espécie de planeamento. Ninguém me consegue convencer que não terá sido combinado ou preparado", disse Maas ao "Bild am Sonntag". "Temos de esclarecer rapidamente como foi possível ter-se chegado a estes actos abomináveis."

O ministro também não exclui a possibilidade de haver uma conexão entre os ataques a mulheres em várias cidades: "É preciso verificar todas as ligações cuidadosamente. Facilmente se admite que tenha sido marcada uma data e um evento onde se juntam muitas pessoas. O que teria então uma outra dimensão".

O Spiegel tem informações sobre os órgãos de segurança terem pistas que apontam para centenas de homens terem combinado encontrar-se na Estação Central de Colónia para perpetrar esses ataques. Essas pistas ainda estão a ser analisadas cuidadosamente. Este tipo de acção em ajuntamentos já é conhecido há anos no Norte de África, tendo começado no Egipto. A sua ocorrência durante tumultos na Praça Tahrir, no Cairo, provocou um choque no mundo inteiro.

Maas disse ainda que vai verificar agora se é possível repatriar criminosos que pediram asilo à Alemanha. "Se não for possível, vamos fazer propostas. Temos de chamar estes delinquentes à responsabilidade, nomeadamente para proteger os refugiados inocentes. Ninguém deve estar acima do Direito e da Lei."

Defende uma vigilância mais alargada com vídeos em pontos nevrálgicos, e o reforço dos efectivos policiais. Adverte para que, devido aos acontecimentos na noite da passagem de ano, não se tirem conclusões sobre o respeito pela lei por parte dos imigrantes. "Parece-me uma temeridade que, a partir da origem de uma pessoa, se façam considerações sobre uma eventual maior ou menor tendência para a delinquência", diz o ministro. "Há levantamentos estatísticos entre os refugiados. Mostram que a taxa de criminalidade entre eles é tão alta como entre os alemães."
Afirma que é pura e simplesmente errado estabelecer uma relação entre os excessos de Colónia e a entrada dos refugiados: "é óbvio que no meio de mais de um milhão de pessoas também há alguns indivíduos delinquentes. Mas não temos qualquer indicação de que o número de crimes tenha aumentado de forma desproporcional devido a este afluxo. Esses preconceitos brutos não se confirmam."

Usar os excessos de Colónia como prova de que a integração falhou nem é adequado nem aplicável.

"Quem participou nestes actos é um criminoso, e como tal deve ser tratado. Usar estes crimes como prova de que é impossível integrar os estrangeiros que vivem no nosso país é um perfeito disparate."

"O contexto cultural nem justifica nem desculpa nada. Nem sequer como explicação seria aceitável. Todos os homens e todas as mulheres que vivem entre nós têm os mesmos direitos. Quem vive aqui tem de aceitar isso."

Maas acusa o AfD e o Pegida de quererem usar os acontecimentos de Colónia para fazer propaganda. Espera que a noite de passagem de ano não estrague o ambiente no país: "Na verdade, parecia que o AfD e o Pegida só estavam à espera de algo como isto. É a única maneira de explicar a maneira descarada como incitam a população com generalizações sobre todos os estrangeiros."

Não se pode abandonar o campo a "incendiários radicais": "também aqui precisamos de uma resposta forte do Estado de Direito."

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Acrescento um comentário meu, a propósito da acusação de não integração que fazem aos refugiados:
Estas pessoas chegam à Alemanha, são metidas onde calha, muitas delas estão alojadas às centenas em armazéns ou ginásios sem qualquer espécie de privacidade, demoram semanas até se conseguirem registar nos serviços, esperam seis meses num limbo absoluto sem saberem o que lhes vai acontecer. Sobrecarregada com estes refugiados que chegam aos milhares todos os dias, a Alemanha não tem como lhes oferecer melhores condições de vida, melhor alojamento, aulas regulares de alemão. Só ao fim de seis meses podem começar a trabalhar. Se forem aceites na Alemanha, podem procurar casa e trabalho. O problema é conseguir arranjar quem lhes alugue uma casa, quem lhes dê emprego.
Como é que pessoas a viver nestas condições se podem integrar?!
E é culpa delas se não se adaptam tão depressa à sociedade alemã como seria desejável?!

Penso nos meus vizinhos, e nos alemães que conheço. Tudo boa gente, classe média ou alta. Se nos metessem num armazém, sem privacidade, sem condições, sem comida ao nosso gosto, sem perspectivas, tenho a certeza que em menos de uma semana nos estalava o verniz a todos.

O que me surpreende é que os refugiados que aqui vivem há tantos meses nestas condições continuem tão pacatos. Acusá-los de não serem integráveis é um insulto e uma profunda injustiça perante as condições em que eles têm vivido e têm tentando adaptar-se.


"debate sobre as notícias relativas a Colónia - temos de falar sobre isso"

Traduzo (mais uma vez à pressa) mais um artigo do Spiegel online.
Desta vez sobre o modo como a comunicação social tratou os acontecimentos em Colónia, e as consequências do atraso nas notícias.




Debate sobre as notícias relativas a Colónia - temos de falar sobre isso


Andreas Borcholte
Spiegel Online - 9.01.2016

Lentos, falsos, tendenciosos? Além da polícia, também os meios de comunicação social estão a ser alvo de críticas após o que aconteceu em Colónia. As reacções fazem ondas cada vez mais altas - um problema de comunicação que tem consequências muito para além dos acontecimentos nessa passagem de ano. 

No fim desta semana de excitação sobre os acontecimentos em Colónia, o que vai ficar realmente na memória colectiva? Na pior das hipóteses, isto: na noite da passagem de ano, um sex-mob de mil homens do norte da África e árabes atirou-se a mulheres alemãs, molestou-as com ataques sexuais e violou-as. O estado actual da investigação não aponta para um cenário exactamente igual a este, mas é essa a imagem que muitas pessoas têm, nomeadamente o candidato à presidência dos EUA, Donald Trump, que na quarta-feira escreveu no twitter: "Germany is going through massive attacks to its people by the migrants allowed to enter the country. New Years Eve was a disaster. THINK!" Trump é um demagogo, um político populista, que não tem problema em ajustar a verdade aos seus interesses de conservador nacionalista.

Um jornalista não pode fazer muito contra isto, excepto oferecer esclarecimento com base em notícias sérias e fundadas em factos. Também não pode fazer muito contra grupos de interesses como o Pegida e partidos como o AfD ("Alternativa para a Alemanha"), a cujo programa de incitamento ao medo e ao ressentimento daria muito jeito se de facto em Colónia uma horda de refugiados bêbedos e lascivos se tivesse atirado a mulheres indefesas. Segundo as informações mais recentes, terá havido refugiados envolvidos nos ataques, mas mesmo uma semana depois ainda não está claro o que aconteceu realmente. Isso é, antes de mais, um problema da polícia de Colónia, que - aparentemente com dificuldades graves de organização e de pessoal - está há vários dias a tentar recuperar o controlo, após as falhas cometidas a 31 de Dezembro. Os resultados fazem-se esperar, o que não ajuda a aliviar o ânimo da sociedade alemã, neste momento tão emocional e de assustadora complexidade. Mas também a esse nível não podemos fazer muito. Excepto produzir notícias o mais possível baseadas em factos e confiar na maturidade de um público capaz de formar a sua própria opinião a partir da informação disponível proveniente, de tantas e tão variadas fontes.

Uma questão de posição

De momento discute-se acaloradamente em fóruns e nos social media, nos suplementos dos jornais e entre os políticos, se foi isso que aconteceu nos últimos dias. O "FAZ" acusa há muito tempo já os canais de televisão e rádio públicos de, no que diz respeito aos debates sobre a política dos refugiados, serem canais fiéis de propagação da política de boas vindas da Merkel; o meu colega Jan Fleischhauer chamou "jornalismo baby-sitter" a este tipo de noticiário pedagógico e tendencioso. Refere-se ao impulso de, para além de noticiar os factos actuais, querer incluir também uma grelha de leitura que se entende ser a correcta: o que é importante é não fazermos o jogo das pessoas de Direita que incitam ao ódio!
Tanto os media como o público estavam ansiosos por definir uma posição em relação ao que aconteceu em Colónia, e talvez tenham sido demasiado apressados. Os canais televisivos ARD e ZDF, por serem ainda os mais vistos, estão ainda mais sujeitos a estas críticas. Mas também jornais e media online como o Spiegel Online  são acusados de serem "imprensa mentirosa" desde que começou o debate sobre os refugiados: se o tema é sensível, diz-se que a nossa informação é muitas vezes conformista, desinformativa e paternalista. O que não é verdade. Nós pesquisamos, aprofundamos e analisamos as informações, e publicamos aquilo que temos a certeza que está correcto - por exemplo, depois de confirmar os dados com duas fontes independentes e de confiança. No caso de isso não ser possível, deixamos claro na notícia que não há inteira segurança sobre a veracidade do que é relatado.
No entanto, temos de levar essas críticas a sério. Mesmo quando a primeira reacção é a revolta, e a constante sujeição a comentários muitas vezes polémicos acabe por roubar a força ao mais robusto.

Frentes endurecidas

Devido aos acontecimentos da noite da passagem de ano, a frente entre os media e o público endureceu ainda mais. Um dos possíveis motivos é a situação de partida deste caso, especialmente difícil: o facto é que a polícia de Colónia, por motivos que ainda não se puderam apurar, não relatou imediatamente qualquer facto de carácter excepcional, pelo que, durante o fim-de-semana seguinte, a notícia não foi muito além dos media regionais. Só depois da conferência de imprensa da polícia, na segunda-feira, é que os media supra-regionais se começaram a agitar - o que também se explica, muito simplesmente, pelo facto de só nesse dia a maior parte das redacções ter voltado a trabalhar com todo o pessoal, depois dos feriados de Natal e ano novo.
Mas quando chegaram ao gabinete, na segunda-feira, os jornalistas encontraram as caixas de correio dos leitores e as caixas de comentários a abarrotar com perguntas iradas e acusações de que estavam a desvalorizar propositadamente o que aconteceu em Colónia por haver refugiados envolvidos, um grupo que se entende estar a ser protegido de modo especial pelos media.
Nessa altura as informações e as possibilidades de investigar eram ainda muito escassas, o que aumentou ainda mais a pressão e a sugestão de estarmos demasiado atrasados com estas notícias. Essa impotência esteve na origem de incidentes disparatados como a pergunta no facebook da redacção do noticiário da ZDF sobre como é que o utilizador queria receber as notícias.
O fenómeno evoluiu a uma velocidade louca para algo desnorteado, alarmista, tocando os princípios e a ordem estatal. Multiplicaram-se os news-updates, e surgiram cada vez mais informações a partir da investigação e dos comunicados de imprensa.

Não há um pacto de silêncio

Por essa altura, a explosão de noticiários chamou os políticos ao palco da maior parte dos canais informativos importantes. Estes, com os seus discursos em parte cuidadosos, em parte exagerados, contribuíram para aquecer ainda mais o que já estava fervilhante. O ministro da Justiça, Heiko Maas, falou de "uma nova dimensão" do crime organizado, e até a chanceler se sentiu obrigada, na terça-feira, a fazer declarações sobre os acontecimentos de Colónia, apesar de ainda haver inúmeras questões em aberto sobre os factos concretos. Ela exigiu "uma resposta dura do Estado de Direito", talvez também a pensar no encontro tradicional do CSU que teria lugar em breve - para dar de si uma imagem de menos tolerância e de mais conservadorismo como deve ser. Os social-cristãos afinaram a sua voz pela do AfD e Pegida, ou pela dos media de agenda conservadora, como o Compact, postulando a existência de um pacto de silêncio no jornalsimo.
O que é um disparate, tendo em conta a rapidez e abundância das notícias na imprensa regional de Colónia, da agência noticiosa dpa e do serviço online do WDR, e não contribui para o diálogo entre os que advogam a "imprensa mentirosa" e os jornalistas que - no turbilhão cada vez mais agitado e confuso das opiniões, dos posts, dos tweets e das declarações dos vários indivíduos e grupos de interesses - tentam manter a neutralidade e a prudência. Compreende-se que os leitores reajam com repúdio e raiva  perante media que se entendem e comportam como se tivessem a prerrogativa da interpretação. Este comportamento mudaria o papel dos jornalistas, de mediadores e intérpretes para "baby-sitters" e até propagandistas. Os inúmeros relatórios informativos, reportagens, e muitas vezes também comentários inteligentes e controversos (também houve alguns irritantes e desajeitados) dos últimos dias nos diversos media nacionais mostram que, felizmente, não foi esse o caso. Mesmo se se tem a impressão que uma maioria de pessoas, que criticam nos fóruns e em mensagens, de momento têm outra opinião.        
Pode-se fazer alguma coisa contra isso? Temos de aguentar, do mesmo modo que temos de aguentar um contador de rábulas como o Donald Trump? Claro que temos. Temos de noticiar sobre os ataques de Trump, por mais nojentos que sejam, do mesmo modo que temos de noticiar sobre os crimes de Colónia, independentemente de quem os cometeu.


a "rape culture" não foi levada para a Alemanha - sempre esteve lá

Mais uma tradução - apressadíssima - de um texto publicado há 3 dias na Alemanha (não concordo inteiramente com tudo, mas achei muito informativo):


A "rape culture" não foi levada para a Alemanha - sempre esteve lá

Stefanie Lohaus e Anne Wizorek
6.01.2016

Por estes dias, qualquer pessoa minimamente sensibilizada para a questão da violência sexualizada fica surpreendida - quando não enfurecida. Olhar para a violência na Estação Central de Colónia como se fosse um caso particular, uma excepção que caiu do exterior sobre a "boa Alemanha", é pelo menos tão prejudicial às vítimas desta violência como a utilização do termo "abordagem dançante" para os ataques: uma palavra que menoriza, banaliza e dá um cunho exótico à violência sexualizada e ao roubo.

[avisei que a tradução era apressada - quem souber, proponha outra tradução para "antanzen": um homem aproxima-se de uma mulher fazendo de conta que quer dançar com ela, para a distrair do roubo perpetrado por um cúmplice, ou para chegar suficientemente perto para poder ele próprio roubar os pertences dessa mulher]

Repentinamente, todos os media começaram a falar de Rape Culture - referindo-se à Rape Culture noutros países, como a Tunísia ou a Índia, uma vez que os suspeitos conhecidos pela polícia têm um aspecto de árabe, ou do norte de África, ou seja: não eram homens brancos. O sindicato da polícia anuncia que será difícil atribuir crimes concretos a agressores concretos. Não há a certeza de se conseguir, no caso dos ataques de Colónia, um único julgamento.
Não surpreende que a sociedade e as suas instituições não estejam em condições de proteger as vítimas de violência, e de chamar os atacantes à responsabilidade. E não se pode dizer que esta incapacidade resulta do facto de até agora não se conhecer na Alemanha violência sexualizada. A Rape Culture está há muito instalada neste país. Esta expressão descreve sociedades nas quais a violência sexualizada e as violações existem e são em grande parte toleradas.
Nos eventos com grandes multidões, como a Oktoberfest e o carnaval, repetem-se os ataques contra mulheres e até as violações: "O curto trajecto em direcção à casa de banho torna-se um corredor de assalto. Em trinta metros: três abraços de desconhecidos embriagados, duas palmadas no rabo, a saia levantada e cerveja propositadamente atirada para o decote." escreveram Karoline Beisel e Beate Wild em 2011 no " Süddeutschen ZeitungContinuando: "Se as mulheres reagem, chamam-lhes "puta", ou pior." Em média, contam-se cerca de 10 queixas por violações em cada Oktoberfest. Mas suspeita-se que o número real chegue aos 200.

Cenas como estas, insultos como "puta", os apalpões no metro apinhado, as perseguições até à porta de casa, as violações por parte de amigos e familiares, ou uma polícia que não quer acreditar em nada do que é descrito: tudo isso são experiências que foram partilhadas na acção #Aufschrei [grito]. E qual foi a reacção da direita conservadora? "Oh, é apenas meia dúzia de homens cujas tentativas de flirt foram mal entendidas; as mulheres, em vez de fazer estas fitas, deviam aceitar isso como galanteio. Ao fim e ao cabo, elas é que têm a culpa, se andam na rua vestidas daquela maneira."
No entanto, #Aufschrei não foi uma reacção ao artigo "Piadas Masculinas" da revista Stern . E não foi de modo algum um shit storm contra o ministro Rainer Brüderle.

[Contexto: na véspera de um encontro muito importante do seu partido, uma jornalista abordou-o no bar, para falar de política. Ele estava mais interessado na pessoa dela. Ao saber que era de Munique, comentou que ela tinha bem com que encher um Dirndl, e olhou-lhe descaradamente para o peito. A história tem mais alguns detalhes, mas já dá para ter uma ideia.]

 #Aufschrei foi uma campanha ad hoc na qual as vítimas revelaram as suas experiências ligadas a sexismo quotidiano e violência sexualizada. Um levantamento, para finalmente podermos falar sobre todas estas questões que habitualmente são tratadas como em tabu e até consideradas normais. Os testemunhos na primeira pessoa estão desde há muito disponíveis na internet. Quem hoje em dia continua a afirmar que #Aufschrei foi um mero ataque a Brüderle está pelo menos mal informado, e quer simplesmente reduzir o activismo feminista à narrativa de emancipadas excitadas e histéricas que se irritam muito com "bocas parvas no bar" mas ignoram ataques em massa. Na realidade, as críticas contínuas dos feministas são sobre não se falar de sexismo tanto quanto é necessário, sobre a violência sexualizada continuar a ser um fenómeno quotidiano, e sobre um problema como este, que afecta toda a sociedade, não ser discutido - e muito menos ter soluções identificadas.

Agora, pessoas como Jens-"as-mulheres-tomam-a-pílula-do-dia-seguinte-como-se-fossem-Smarties"-Spahn, Rainer Wendt (chefe do sindicato da polícia) e Birgit-"então-fechem-a-blusa"-Kelle vêm perguntar porque é que os acontecimentos em Colónia não provocaram um "grito" (Aufschrei). A pergunta devia ser: para onde é que estas pessoas estão a olhar com essa sua visão tão limitada do mundo? Estes acontecimentos estão na ordem do dia do debate público, inúmeras pessoas exprimem a sua solidariedade para com as vítimas e fazem votos de que os culpados tenham a pena devida.
Que muitas dessas pessoas só tenham tomado conhecimento da dimensão da tragédia no princípio da semana resulta do atraso na passagem para os media nacionais, e também de um certo abrandamento na propagação das notícias nos social media durante o período de férias - facto não desprezável. Usar isto para acusar de indiferença justamente as pessoas que se empenham desde há anos na luta contra o sexismo e a violência sexualizada é uma insinuação pérfida - mas isso não é novidade para os próprios protagonistas.


As realidades na Alemanha

Os testemunhos recolhidos em #Aufschrei coincidem com as estatísticas sobre a situação na Alemanha. O estudo „Lebenssituation, Sicherheit und Gesundheit von Frauen in Deutschland", com resultados das entrevistas realizadas em 2004 a 10.000 mulheres, mostra que 13% das mulheres residentes na Alemanha foram vítimas de violência sexualizada relevante do ponto de vista do Direito Penal. O escândalo: apenas 8% dos casos foram levados à polícia. Se se retirarem as mulheres que fazem várias queixas, esse número reduz-se para 5%. O que resulta no inacreditável número de 95% de mulheres que silenciaram o facto de terem sido vítimas de violência sexualizada, na Alemanha. Os ataques não são revelados - e portanto não se tornam visíveis.
Isto não acontece por acaso. As vítimas de ataques à autodeterminação sexual correm um grande risco pessoal ao apresentar queixa: podem ser acusadas de estar a mentir. Em 87% dos processos não há condenação do acusado. No entanto, os media descrevem longamente e com todos os detalhes as queixas que se revelam ser falsas, embora estas tenham um peso marginal no conjunto das queixas - variam entre 1% e 9%, segundo as estatísticas e o país; na Alemanha estima-se um valor entre 3% e 5%.
Um motivo para a baixa percentagem de condenações por crimes deste género é o § 177 do Código de Direito Penal, que faz depender a condenação conforme o comportamento da vítima. Para que o atacante seja condenado, a vítima tem de provar que resistiu à violência. Uma regra absurda, baseada em inúmeros mitos sobre a violência sexualizada. Como consequência, o bloqueio devido ao estado de choque, que é uma reacção muito natural à violência, conduz à não condenação do atacante. Imagine-se que a condenação de um larápio seria analisado em função de a pessoa assaltada se ter defendido convenientemente: "lamento, não apertaste a tua carteira com força, a culpa é tua". A sugestão da presidente da Câmara de Colónia, sobre as mulheres se manterem a um braço de distância dos homens durante os festejos de Carnaval, também vai na mesma direcção.

Esta regra, e sobretudo o seu surgimento, faz parte de uma Rape Culture, de uma determinada ideia sobre como ocorre a violência e a violação, sobre o que é o sexo, sobre o comportamento "correcto" da vítima. E são regras como estas que dão segurança aos atacantes. Nestes casos é absolutamente indiferente qual a cor da sua pele ou a sua religião. No que diz respeito ao que aconteceu em Colónia, veremos se as agressões sexuais poderão ser seguidas do mesmo modo que o roubo de objectos: até ao momento 90 mulheres apresentaram queixa, segundo o Zeit Online em 75% dos casos trata-se de delitos sexuais. Em dois casos trata-se concretamente de uma violação.


O que é preciso fazer

É preciso notar isto: a violência sexualizada é uma questão que atinge todas as classes sociais, que acontece a qualquer hora do dia, em qualquer lugar, e pode atingir todos os sexos. Mas na maior parte do caso atinge mulheres. Não se trata de relativizar os horrores que aconteceram em Colónia e noutras cidades na noite de passagem de ano. Antes de mais espera-se que as vítimas recebam a ajuda necessária para conseguirem ultrapassar o trauma do que aconteceu naquela noite.

Ao falar sobre o que aconteceu ali, temos de o fazer no contexto global da Rape Culture. O que implica, entre outros, a crítica à inacreditável redacção das notícias, onde se fala de "bandos sexuais", "ataques sexuais" ou "mob sexual". A violência sexualizada nunca tem a ver com sexo. Aquelas designações escondem o aspecto do poder que está sempre ligado a ataques de cariz sexual. Do mesmo modo, estamos perante jornalismo irresponsável quando se publicam números que não correspondem aos factos, e que alimentam a Pegida e Cª.

Em todo o caso, o debate da acção #Aufschrei nunca chegou ao fim. Agora temos a oportunidade de o retomar, para finalmente falar do modo como sexismo e violência sexualizada estão ligados - e o que a sociedade pode fazer contra isso. Importante é que olhemos para isto como um problema global da sociedade, em vez de fazermos de conta que se trata de um problema ligado a grupos específicos, nomeadamente o de homens muçulmanos.

Ninguém nega que os homens descendentes de imigrantes ou os de religião muçulmana também cometem este tipo de crimes. Mas fazer de conta que eles são os únicos a cometê-los e que até estarão "programados" para isso devido ao seu contexto cultural, enquanto para os mesmos crimes se encontra todo o tipo de desculpas e desvalorizações se forem cometidos por alemães biológicos brancos, é um comportamento de ódio racista - e não resolve o nosso problema. Melhor seria que neste debate se desse finalmente espaço para ouvir a voz de homens muçulmanos que se empenham na luta pela igualdade. Instrumentalizar os direitos das mulheres e o feminismo ao serviço do racismo não pode nunca ter o consenso do debate de género na Alemanha - venha essa instrumentalização da nova Direita, ou de círculos internos do feminismo (looking at you, Alice Schwarzer).

Mas quais podem ser agora as soluções? Mais do que nunca precisamos do "gender mainstreaming" que por exemplo o AfD ["Alternativa para a Alemanha"] e consortes difamam como desperdício de dinheiro. Nomeadamente a introdução de uma pedagogia atenta às questões de género. Quando hoje em dia assistimos num infantário a cenas em que uma menina não se pode queixar por um menino lhe ter batido, recebendo como resposta "ele gosta de ti e não o sabe mostrar de outro modo", fica evidente que os estereótipos de género muito prejudiciais começam a ser formados desde tenra idade.

Também é urgente reforçar as estruturas daqueles que se ocupam da violência sexualizada em centros de apoio, serviços telefónicos de emergência e casas refúgio para mulheres. Muitas destas pessoas trabalham com poucos meios financeiros, frequentemente em regime de voluntariado, sempre pressionadas para justificar o seu trabalho e confrontadas com a acusação estereotipada de serem histéricas que odeiam homens. Se alguma coisa positiva pode resultar desta história, que seja uma maior reconhecimento deste trabalho, e mais apoio financeiro, que é necessário com urgência. Do mesmo modo que são necessários mais lugares de terapia, e mais facilmente acessíveis.    

Uma outra questão é a necessidade de sensibilizar mais a polícia para o problema da violência sexualizada, por exemplo e em particular para os ataques durante grandes eventos como o carnaval ou a Oktoberfest. Também é preciso reformar o §177, sobre agressão sexual e violação. A convenção do Conselho da Europa para a prevenção e o combate à violência contra as mulheres e a violência doméstica („Verhütung und Bekämpfung von Gewalt gegen Frauen und häusliche Gewalt") entrou em vigor a 1.08.2014. A Alemanha não a pôde ratificar porque ainda tem défices no procedimento penal, bem como na protecção e na indemnização à vítima. Por exemplo: ter dito "não" não é suficiente para reconhecer que houve violação. Uma situação inaceitável.

O que o debate suscitado pelos acontecimentos de Colónia tem evidenciado mais: a Alemanha tem um problema claro de sexismo e de racismo. Ambos estão profundamente implantados, e não foram de modo algum "importados". Está nas nossas mãos, como sociedade. não alimentar a discriminação e a violência. Temos de nos afastar de uma cultura do "Tu também queres!" para uma cultura do "Também queres?"
Sair de uma Rape Culture para chegar a uma cultura que celebra a cooperação consensual em situação de igualdade e com respeito pelos limites. E isto é válido para todas as pessoas, porque qualquer ataque sexual é um ataque a mais - independentemente de quem o comete.


09 janeiro 2016

"sim, faz parte do gangue"

Maria João Marques, a partilhar um texto meu no facebook:
"Este texto também é tão nojento que nem sei o que diga. Uma criatura que arranca os cabelos por causa do piropo (sim, faz parte do gangue), depois fica calada quando há agressões sexuais numa escala nunca vista e, quando fala, é para se indignar com a instrumentalização das violações e das agressões sexuais."


Confesso que fico sempre perplexa perante mulheres que parece que gostam de ouvir "ó boa, estavas bem era na minha cama" (hoje resolvi pegar levezinho) e que entendem que às suas filhas adolescentes só faz bem serem sujeitas a abundantes ritos de iniciação sexual na rua, a caminho da escola, por parte de desconhecidos.


08 janeiro 2016

críticas feministas às reacções da sociedade aos ataques em Colónia

Sintetizo (em tradução apressadíssima) dois artigos publicados recentemente na Alemanha:

1. Parem de fazer de conta que tudo isto é novo!

Steffi Dobmeier, Hamburger Abendblatt

Depois dos acontecimentos da passagem de ano, a violência contra as mulheres está a ser instrumentalizada. Além de ser insuportável, desvia-nos do assunto. 

Resumo:
- De repente, desatam todos a falar da violência sexual como se tivesse sido inventada na noite da passagem de ano. Como se nunca tivesse havido protestos antes.
- Todos os dias há casos de mulheres importunadas, apalpadas, gozadas. Em todas as cidades, e não apenas na passagem de ano. Às vezes basta um "pára com isso!", outras vezes, infelizmente, não é suficiente.
- A violência sexual existe mas é ignorada. Só quando dá jeito à linha de argumentação dos "cidadãos preocupados" é que se torna importante?
- Os culpados são grandes ou pequenos, novos ou velhos, isolados ou em grupo, de Potsdam ou Munique, Praga, Londres ou Istambul. Não importa a sua origem. Todos eles são idiotas, cabrões, machistas sem respeito. Usar a sua origem ou cultura para justificar ou para os atacar humilha ainda mais as mulheres, porque transforma estes ataques naquilo que não são: uma questão política.
- Uma mulher que é importunada deste modo não quer saber qual é a dimensão política desse acto. Não quer saber qual a língua, a religião ou a nacionalidade do agressor - quer que a deixe em paz, e que responda pelos seus actos. O que não quer, de certeza, é ser transformada no motivo de um debate político, ou tomar parte nele. E nem mencionemos os bons conselhos que lhe queiram dar.
- Não queremos manter uma determinada distância em relação a desconhecidos, usar calças em vez de vestidos, evitar o bâton vermelho se nos apetecer usá-lo. Queremos fazer parte de uma multidão, festejar, dançar. Queremos tocar homens, e ser tocadas sem ter um ataque de histeria, queremos poder flirtar e dizer não.
- Um mob gigantesco como o de Colónia, no qual aparentemente houve um vazio jurídico e os direitos das mulheres foram espezinhados, representa de facto uma nova dimensão. Independentemente de se tratar, como aparentemente terá sido, de um bando de carteiristas que usa este método para roubar pessoas, e que terá evoluído para uma horda incontrolável de agressores sexuais.
- Pode ser que haja algo novo nos acontecimentos de Colónia. O que não é novo é que as mulheres são, de facto, vítimas de avanços desagradáveis por parte dos homens, e de violência sexual. Para falar deste assunto, não é necessário esperar por um número elevado de refugiados, uma sociedade desconcertada e políticos desgastados.



2. A essência da questão

Margarete Stokowski, Spiegel Online

A histeria racista na sequência dos ataques em várias cidades alemãs prejudica as vítimas porque impede um verdadeiro debate sobre a violência sexual.

- É tão nojento. O debate sobre os imigrantes muçulmanos atingiu um novo ponto alto de histeria.
- As vítimas destes ataques não importam. Servem apenas para descrições chocantes sobre roupa interior rasgada e dedos metidos em orifícios corporais, e para os "cidadãos preocupados" e os nobres cavaleiros se armarem em protectores das mulheres.
- Fala-se em repatriamento dos refugiados, embora não se conheça ainda a nacionalidade dos culpados. E esta ainda é a parte relativamente séria do debate.
- De forma simplificada, os culpados já não são indivíduos isolados, mas tornaram-se uma massa difusa de estrangeiros tarados, descrito com vocábulos relativos a animais: "atiram-se em matilha às mulheres", "uma turba da região árabe/norte-africana". No twitter fala-se em "primatas" e "macacos".
- A narrativa racista "homem preto viola mulher branca" entrou em força.
- A essência da questão é a ideia de que o estrangeiro se asselvajou - se é que não foi sempre selvagem - e toma para si aquilo que outros sempre quiseram: mulheres e i-phones.
- Quem lembra que a violência sexual não foi trazida para a Alemanha pelos refugiados é acusado de querer desvalorizar o que aconteceu em Colónia. Feministas que escrevem há anos e décadas sobre esta forma de violência são acusadas de querer mudar de assunto para proteger os culpados de Colónia - o que é absurdo e mostra como o debate descarrilou. Como se alguém gritasse "a cozinha está a arder!" e outro dissesse "a sala também!", para o primeiro perguntar "ah, então não queres chamar os bombeiros?"
- Perguntam-me porque é que, sendo feminista, não escrevo nada sobre estes ataques. A verdade é que devia ter havido um debate sobre violência sexual depois de cada maldita Oktoberfest, depois de cada Carnaval e depois de cada milha festiva dos mundiais de futebol. Mas não houve. Porque ninguém se quer incomodar com este assunto desagradável, e reconhecer a dimensão do fenómeno. Num estudo europeu, 55% das mulheres revelaram ter sido vítimas de importunação sexual.
- É óbvio que temos de falar sobre as relações de género nos países árabes e do norte de África. Mas isso não chega. Esta discussão não pode ser objecto de outsorcing, e transferida para os estrangeiros. Claro que isso desculpabiliza. Mas mesmo que todos os homens com origem estrangeira fossem expulsos da Alemanha, continuaria a haver violência sexual em grande escala: importunações, abuso, violação. Grande parte destes casos ocorre no círculo de relações da vítima: o culpado é o parceiro, o ex-parceiro, o vizinho, o colega, o professor.
- Agora que chegam notícias de Colónia de que terão sido estrangeiros, insinua-se que é por isso que a rede feminista está tão silenciosa. Ou se culpa a mulher por ter sido vítima de violência sexual, ou se identifica "o estrangeiro" para ter um culpado.
- Os "cidadãos preocupados" transformam-se em nobres cavaleiros que têm de proteger as "nossas" - ou seja: as "deles" - damas. O bom alemão quer guardar as suas mulheres para abusar delas ele próprio. E fá-lo com empenho. Sobre isso, há estudos que podem ser lidos.
- No fundo, depois dos acontecimentos de Colónia cada um diz o que já dizia antes, mas agora diz mais alto: quem antes já queria repatriar os refugiados, agora quer repatriá-los com mais rapidez e dureza; quem antes já queria mais controle, agora quer ainda mais controle.
- O facto de não se falar da violência sexual torna evidente que ninguém está preocupado em proteger as vítimas e evitar novos ataques.
- É necessário uma mudança radical no modo como nos posicionamos em relação à violência sexual. Desvalorizar e tolerar este fenómeno também faz parte da cultura alemã. As mudanças implicam: colmatar as lacunas na Lei, de modo a abranger todos os actos sexuais realizados contra a vontade de uma pessoa; fazer sugestões de comportamento a potenciais agressores, e não apenas às potenciais vítimas; mais gabinetes de apoio; acesso mais fácil a acompanhamento psicológico de vítimas deste tipo de violência; casas-refúgio para mulheres vítimas de violência doméstica. Alguns passos seriam muito fáceis, e até gratuitos: já seria uma grande ajuda se os media deixassem de chamar "escândalos sexuais" a casos de violência.
- Na realidade, as vítimas dos ataques de Colónia vão ser agora usadas para preencher o primeiro grande escândalo do ano. No fim, serão esquecidas. Continuará a existir violência sexual na Alemanha, mas o tema estará ultrapassado. Por isso, talvez fosse preferível nem falar disto.


uma análise do que aconteceu em Colónia na passagem de ano

Trago do mural de facebook da Helena Ferro de Gouveia:

1. Vi os vídeos, li tudo o que a imprensa alemã e a polícia publicaram, ouvi as declarações da chanceler e demais políticos.
Os ataques de Colónia, Hamburgo, Estugarda e Frankfurt suscitaram-me diversas questões. O que aconteceu ainda tem contornos por definir e a investigação decorre, há porém alguns factos sobre os quais importa reflectir.

2. Há aqui uma questão de género: a da violência e abuso sobre a mulher que é mais frequente e tolerada do que a sociedade alemã gosta e costuma admitir.
Quando um homem agride uma mulher comete um crime, isso é claro e indiscutível e a justiça funciona bem na Alemanha.
Existe todavia uma violência que não deixa hematomas: a que desqualifica o apalpão nas nádegas, ou a "esfrega". Colónia (mas também Hamburgo e Frankfurt) é uma cidade onde o abuso se desculpa sob a capa do "liberalismo".
Ouvi o depoimento de uma jovem de 15 anos que chorava copiosamente depois de ter sido abusada, se dirigiu à polícia que se encontrava na praça em frente à Hauptbahnhof e ouviu como resposta "não podemos fazer nada". Foi acompanhada ao interior da estação por dois universitários.
Aliás, a polícia esteve mal, muito mal. Embora tenham reconhecido o "caos" e uma situação da "qual poderiam ter resultado mortos" (citações do protocolo policial), não houve uma intervenção "musculada" comum noutras ocasiões. As queixas foram desvalorizadas, mesmo a duma agente. Só quando o número se avolumou tocaram os alarmes.
Igual lógica de desqualificação seguem as declarações ignóbeis da presidente da Câmara de Colónia que sustentam que as mulheres são responsáveis pela violência que sofreram porque não estariam à distância de "um braço" dos homens. (*)
Pior é passar pelo Facebook e ler quem ponha em causa as (pelo menos duas) violações ocorridas com a argumentação "estava muito frio e elas tinham muita roupa além disso estava muita gente na rua". Há provas forenses das violações. Mas, mesmo que não as houvesse, na noite de Ano Novo, mesmo com frio, muitas mulheres vestem vestidos com sobretudos por cima ( não andam de fato de esqui) e há vários lugares recônditos na praça onde é possível consumar uma violação.

3. Entre os atacantes há segundo o GdP (sindicato da polícia) homens do norte de África, de países árabes e refugiados sírios. Reuniram-se na praça frente à estação para procurarem "prazer sexual" e realizaram-no usando um método comum na cultura árabe. Quem se recorda das violações da praça Tahir no Egipto? É o mesmo método: cercar a vítima e atirá-la de um lado para o outro.
As chefias da polícia de Colónia tentaram abafar este dado, foram todavia desmentidas por vários agentes no terreno que confirmam terem identificado vários refugiados e terem sido vítimas desrespeito à autoridade e até mesmo violência esporádica. Um dos refugiados terá dito "a chanceler convidou-me" e terá rasgado a identificação em frente aos agentes.
Entre as palavras das chefias policiais e a dos agentes no terreno vão mundos. Interessa clarificar porquê ( a minha tese é a da incompetência e rivalidades internas entre a polícia federal e a local e claro a proverbial negligência da "italiana" Colónia)
A comprovar-se tudo isto há que rever a política de deportação, punir exemplarmente os envolvidos, mas sobretido apostar no explicar das regras de um Estado de Direito ( entre elas o respeito pela mulher e o seu corpo) aos 1,1 milhões de refugiados que chegaram à Alemanha até ao momento. Importa ressalvar que falamos em cerca de 16 atacantes identificados ( número que poderá chegar aos 30 ou quarenta) em 1,1 milhões.
Não punir exemplarmente os envolvidos é dar terreno arável ao extremismo de direita e a movimentos xenófobos. Isso diz respeito não apenas aos refugiados mas todos os estrangeiros (incluindo portugueses ) residentes na Alemanha.

4. Os media só tiveram a percepção da dimensão do sucedido após a conferência da polícia de Colónia que teve lugar 4 de Janeiro. Não houve nenhuma tentativa de "silenciar" os acontecimentos.

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(*) Só uma pequena nota de discórdia em relação a este ponto: parece-me que a presidente da Cãmara não estava a dizer que as mulheres são responsáveis pela violência, estaria apenas a responder (muito erradamente, diga-se de passagem) a uma pergunta do género "como é que as mulheres se podem defender?"
Em vez de dizer claramente que não compete às mulheres ter determinados comportamentos, cabe aos homens evitar o comportamento agressivo, ela caiu na asneira de fazer uma sugestão de mero bom senso, que para mais não serve para nada numa situação como aquela. É certo que eu também faço sugestões deste género à minha filha, e ela fica furiosa, porque diz que tem o direito de andar nas ruas que quiser à hora que lhe apetecer. E tem razão. São mulheres como ela que pressionam para que o nosso mundo mude para melhor. E à presidente da Câmara de Colónia compete fazer tudo para que estas mulheres possam andar na rua em segurança, sem precisarem de se guardarem em relação aos homens a distância de um braço - ou sequer a de um pontapé.


07 janeiro 2016

a propósito dos acontecimentos em Colónia na noite de passagem de ano (3)

(foto)


Ainda não se sabe quem esteve envolvido nos ataques em Colónia, mas alguns políticos já estão a fazer o gostinho à direita nacionalista. Como o secretário-geral do CSU, Andreas Scheuer, que exige o repatriamento imediato de refugiados que importunarem mulheres: "é inaceitável que à noite, nas ruas e praças das cidades alemãs, as mulheres sejam vítimas de violência sexual e de roubo por parte de jovens imigrantes". Afirma que se trata de um tipo novo e repulsivo de violência, e que "se os refugiados ou as pessoas que pedem asilo cometem estes ataques, trata-se de um abuso da hospitalidade, o que só pode ter como consequência o fim imediato da sua estadia na Alemanha". Fala em tolerância zero para este novo tipo de violência sexual: "na nossa sociedade há regras claras, que todos têm de respeitar, não apenas os que já cá vivem, mas também os que estão a chegar". Continua: "o respeito pelas mulheres é um valor fundamental da nossa sociedade, e por isso faço um apelo aos media para que não silenciem os crimes mas que, pelo contrário, os noticiem com clareza e transparência". Afirma ainda que a discussão sobre a distância de segurança a manter não faz sentido, porque não são as pessoas que aqui vivem que têm de se adaptar a quem chega, é quem chega que tem de aceitar as regras aqui vigentes.

Em suma: não se sabe quem foi, não se sabe se há realmente refugiados envolvidos, mas Andreas Scheuer já vai adiantando o que se deve fazer aos refugiados caso se descubra que foram eles...

Claudia Roth (Verdes) tem uma posição muito crítica em relação a este tipo de aproveitamento político, e chama a atenção para o risco das generalizações: "Não podemos dizer que isto é típico do norte da África, ou típico dos refugiados. Estamos perante um caso de violência masculina e estamos perante a tentativa de usar essa situação - a noite da passagem de ano - como se houvesse um vazio jurídico."

Nos jornais multiplicam-se os textos de opinião criticando duramente este caso chocante de violência sexual, mas simultaneamente alertando para o risco do reforço de preconceitos, e para a traição às vítimas que resulta do aproveitamento deste crime para servir determinados preconceitos e ideologias políticas.

Andreas Scheuer tem razão quando diz que os valores fundamentais desta sociedade são indiscutíveis, mas o vínculo que estabelece entre os refugiados e o que aconteceu em Colónia é oportunista - pelo menos até se provar que os atacantes eram refugiados.

Além disso, a questão dos valores essenciais a transmitir aos estrangeiros é muito delicada. Desde já, porque se parte de uma determinada imagem generalizada e negativa das pessoas que entram no país. Depois, porque há o risco de querer transformar os estrangeiros em alemães exemplares, sem que se saiba o que isso é. Cada alemão é um caso, goza de uma grande margem para diversidade e até para desrespeitar certos limites, sem ter sobre si uma espada de Dâmocles pronta a arrancá-lo daqui para o enviar para outro país. Os estrangeiros, esses, têm de ser exemplares. E se não forem...

Sempre que ouço falar em obrigar os estrangeiros a aceitar os valores desta sociedade, recordo um comentário sobre Ratzinger e o teste para poder receber a nacionalidade alemã: chumbava na parte relativa aos homossexuais. Também penso nos momentos de humilhação que passei, por quererem fazer de mim uma boa alemã. O "isso aqui não se faz" a propósito de tudo e de nada, ou as duras críticas às minhas escolhas sobre maternidade e profissão. Ser mãe e trabalhar é algo naturalíssimo em Portugal, mas não o era há vinte anos na Alemanha. Eu optei por continuar a trabalhar apesar de não precisar do dinheiro, deixando os meus filhos "abandonados numa instituição onde eram educados sabe-se lá por quem". Devia ter sido repatriada? Bem sei que há uma diferença enorme entre uma mulher ser vítima de violência sexual, e uma criança ser vítima de desleixo parental continuado... ahem, quer dizer... talvez seja melhor não insistir neste exemplo...

Aceito, obviamente, a necessidade de ensinar os valores fundamentais do país, mas assusta-me o potencial para o exercício da prepotência e da humilhação, e a posição de permanente assimetria em relação aos estrangeiros, tornando-os cidadãos de segunda classe que só são aceites de modo condicional.


a propósito dos acontecimentos em Colónia na noite de passagem de ano (2)

No site do jornal Die Welt fala-se da distância equivalente ao "comprimento de um braço" que a presidente da Câmara de Colónia aconselhou que as mulheres guardassem em relação a desconhecidos. A notícia inclui um filme, que pode ser visto aqui.
Um resumo:

O narrador começa por perguntar-se sarcasticamente se as mulheres vítimas de abuso sexual na passagem de ano em Colónia não terão sabido respeitar as regras de comportamento propostas por Henriette Hegel, a presidente da Câmara ("as mulheres podem manter uma certa distância, equivalente ao comprimento de um braço, ou seja, não procurar, elas próprias, a proximidade de pessoas que não conhecem e com as quais não têm uma boa relação de confiança").
Esta frase suscita uma onda de escárnio na internet: a distância de um braço como outfit aconselhado para as próximas festas, o braço como unidade de medida para a burrice política, ou pura e simplesmente a incredulidade perante a ingenuidade desta pessoa.
Para animar ainda mais, um jornalista pergunta, em tom provocador, se não será melhor que as mulheres vão de burca para as festas.
Uma jovem entrevistada na rua comenta: "Penso que uma mulher tem o direito de se movimentar livremente, tal e qual como os homens". Outra acrescenta: "É um desaforo dizer-nos como é que nos devemos comportar, porque neste caso as vítimas somos nós. Deviam falar com os homens, e não com as mulheres". Manuela Schwesig, da SPD, ministra da Família, é muito clara: "Os tempos em que nós, as mulheres, não podíamos andar à vontade na rua, ou não devíamos usar mini-saia, acabaram. Não vamos recomeçar o debate sobre o que é que as mulheres devem fazer para evitar estas situações. O que está em causa é o comportamento desses homens."
A presidente da Câmara protesta: a sua frase foi retirada do contexto.

A onda de escárnio não vai parar tão depressa. Aqui ficam algumas reacções no twitter, enquanto esperamos para ver as reacções a esta expressão no próximo Carnaval de Colónia.





 

(fonte: twitter, via n-tv)


Parece-me que o faux pas da presidente da Câmara teve a vantagem de tirar um instantâneo ao país: desde a clareza das frases das jovens entrevistadas à clareza na reacção de outros políticos, não há margem para qualquer dúvida sobre quem é o criminoso e quem é a vítima.
Isto, no que toca à violência sobre as mulheres.
No que diz respeito aos preconceitos, já o caso muda de figura. Tema para o próximo post.