30 novembro 2015

procura-se: modelo

Ando há meses para contar sobre uma colónia de artistas berlinenses que se reúne num lugar mágico, perto da Polónia ("uma fortaleza medieval, com fosso de água, que foi modernizada no período barroco"), mas a vida real atrapalha-me muito esta aqui. Hei-de contar, e pôr fotos, não perdem pela demora. 
Para já, deixo estas, e um pedido: alguém conhece uma modelo que queira posar para este grupo durante um fim-de-semana em Junho, na zona de Viana do Castelo? De preferência com experiência em bailado.







29 novembro 2015

Pipi e Sócrates - um passeio filosófico pelo mundo de Astrid Lindgren



A propósito do 70º aniversário da Pipi, traduzo alguns trechos do livro "Pipi e Sócrates - um passeio filosófico pelo mundo de Astrid Lindgren", de Jørgen Gaare e Øystein Sjaastad (a partir do alemão, e em registo Speedy Gonzalez).

Do capítulo: Pirata e Senhora-Muito-Fina

* O Primeiro Elemento da Educação: Formação
(...)
Tanto dentro como fora da sala de aulas, a Pipi critica a pedagogia de aprender de cor. O confronto surge no momento em que os pais e as mães decidem que a Pipi tem de ir à escola como todas as outras crianças, para aprender a tabuada.
A polícia entra em campo para impor a ordem à Pipi e para lhe explicar a utilidade do saber. Testam os seus conhecimentos, perguntando-lhe qual é a capital de Portugal. A Pipi questiona a utilidade de acumular conhecimento factual aleatório, enquanto dá a resposta pedida fazendo o pino. Ao fim e ao cabo, já tinha estado em Lisboa. Um polícia tenta convencê-la, falando-lhe do prazer de saber muitas coisas. "Não se pode só pensar em ter prazer", responde a Pipi, e põe os pés no chão. Mas as coisas tornam-se mais sérias quando outro polícia lhe diz que não pense que só pode fazer o que lhe apetecer. A conversa sobre a utilidade e o prazer do saber não passa de uma má desculpa. O que a escola pretende é disciplinar e reprimir o prazer - é tudo.
(...)

* O Terceiro elemento da Educação: Formação do Coração
(...)
A Pipi é muito sensível às frases feitas - erradas ou vazias - do nosso quotidiano. Quando a professora a louva por não ter permitido que um homem maltratasse um cavalo:
"É para isso que estamos cá", continuou a professora. "Para sermos bons e simpáticos para as outras pessoas." (...)
"Hehe", disse a Pipi, "e as outras pessoas, para que é que estão cá?"
É preciso saber distinguir entre verdadeira compaixão e conversa barata sobre sacrifício. A Pipi mostra a sua profunda compaixão por crianças vítimas de abuso, um pássaro morto ou um cavalo maltratado, mas põe em causa a obrigação moral de sacrificar os seus interesses aos interesses alheios. Se ninguém formula os seus próprios interesses fundamentais, não podemos saber quais são os interesses dos que nos estão próximos. A exigência de sacrifício anula-se a si própria.


Do capítulo: Crítica do Bom Senso

(...) O saber estabelecido tem de ser sempre testado, caso contrário corre o risco de se tornar uma mentira. É também essa a opinião da Pipi, quando explica aos seus amigos que os hotentotes se deviam comportar como vem nos livros de geografia.
(...)
Na França e na Alemanha do Iluminismo, a razão era considerada uma força libertadora. (...) Durante a revolução francesa consagraram-se igrejas à verdadeira divindade, a razão, ao mesmo tempo que a guilhotina trabalhava. E assim se consegue uma definição sumária da razão: é a capacidade, aguçada como uma lâmina, de separar a cabeça do corpo!
(...)
(...)
(...)
Pipi fez parte dos movimentos hippie e Maio de 68 muito antes de estes se terem estabelecido.
(...)


Do capítulo: Pipi e Sócrates

(...) Pipi liberta, tal como Sócrates - liberta as pessoas dos seus preconceitos e imagens enraizadas, do falso saber e das convenções. Sócrates procura as pessoas que deviam ter determinados conhecimentos, por virtude da sua profissão e do seu lugar na sociedade, e põe esse saber à prova. (...) Pipi procura figuras da autoridade - pais, professores, polícias, serviços de protecção da infância, as pessoas finas e as pessoas finíssimas - e mostra-lhes que o seu saber não tem fundamento, e pior ainda: que o seu poder não se baseia em ideais nobres, mas que se trata do poder pelo poder. O objectivo do poder é disciplinar, e o objectivo da disciplina é o poder.
(...)
Annika, a amiga da Pipi, não gosta muito de sopa de fruta. Vai debicando, enquanto a mãe insiste para que coma. A Pipi põe-se, aparentemente, do lado da mãe, revelando o absurdo da situação - e, simbolicamente, de toda a educação.

"É óbvio que tens de comer a tua rica sopa de fruta. Porque se não comeres a tua rica sopa de fruta não vais crescer nem ficar grande e forte. E se não ficares grande e forte, não podes forçar as crianças a comer a sua rica sopa de fruta. Não, Annika, assim não pode ser. Se todos pensassem como tu, neste país ia reinar a maior confusão nos hábitos de comer a sopa de fruta."
(...)
Sócrates e Pipi são acusados de provocar um caos terrível nos hábitos de comer a sopa de fruta no seu país. Da acusação de Sócrates constava que ele desrespeitava as leis, não acreditava nos Deuses do Estado e queria introduzir forças demoníacas. Além de corromper a juventude. E por isso se pedia para ele a pena de morte. Quando o livro da Pipi foi lançado no mercado sueco, em 1945, começou por ser bem recebido. Depois rebentou a tempestade. Cartas iradas de leitores diziam que a autora destruía a moral, a religião e a ordem social, e corrompia as crianças.


Astrid Lindgren



Na semana passada, mais precisamente a 26 de Novembro, fez 70 anos que o primeiro livro da Pipi das Meias Altas foi publicado.

Na nossa Enciclopédia (para quem não sabe, ver: "verbetes") a letra do dia era o L e a palavra "Astrid LINDGREN e Pippi LÅNGSTRUMP (aliás Pippilotta Viktualia Rullgardina Krusmynta Efraimsdotter Långstrump de seu nome completo)."
(só por esse nome já dá para suspirar: pobres tradutores da Astrid Lindgren!)

Da Astrid Lindgren, só tenho pena dos livros que não li na minha infância. Li mais tarde, na adolescência, e ainda mais tarde, aos meus filhos. Ainda agora me fazem pensar e desinstalam, porque o ambiente daqueles miúdos não tem nada a ver com o que foi normal na minha educação portuguesa. A liberdade e a independência que têm, e, mais surpreendente ainda, os seus pais não autoritários.
Por exemplo, a história da Lotta que rouba a bicicleta à vizinha, espeta-se numa roseira, e ninguém ralha com ela por ter roubado a bicicleta. Tivesse sido eu a escrever o livro...
Ou a mesma Lotta, que se zanga com a mãe e resolve fugir de casa. Vai viver para um barracão da vizinha (que a ajuda a decorar o seu novo quarto), e os pais vão conversar calmamente com ela, fazem uma ofensiva de charme, até ela ter pena deles, assim tristes e sozinhos, e decidir voltar para casa.
Também gosto imenso do Emílio (a Verbo tinha uma belíssima tradução - se os encontrarem nalgum alfarrabista, podem comprar, à confiança: Emílio dentro da terrina, Emílio e o porco sábio, Emílio faz das suas). O Emílio é um rapazinho que só faz asneiras, mas a Astrid Lindgren sabe explicar muito bem porque é que as asneiras lhe acontecem sem querer, dentro de uma lógica infantil irrefutável.
E a inevitável Pipi. O livro foi publicado praticamente na mesma altura que os Cinco, da Enid Blyton (primeiro desta colecção: 1942), e há décadas que diferença entre eles. Se os livros dos Cinco já dão "empowerment" às crianças, estas ainda vivem num mundo muito certinho, com muito respeito pela autoridade. A Pipi é liberdade pura, alegre anarquia.

Sobre a Pipi há um livro muito interessante: "Pipi e Sócrates - um passeio filosófico pelo mundo de Astrid Lindgren". Vou traduzir alguns trechos no próximo post.


27 novembro 2015

le nozze di Figaro



Como em Berlim há ópera quase todos os dias, e várias diferentes por mês, e como os meus dias não esticam, o mais das vezes deixo que as óperas aconteçam sem mim. Mas quando os amigos avisam, "olha o Joseph Calleja!", ou, mais recentemente, "olha a Dorothea Röschmann!" e "Doravante, os CD da Frau Röschmann ficarão junto aos da Callas e da Hunt Lieberson", vou.

Fui ontem, para ouvir a Dorothea Röschmann. Tenho andado tão ocupada que nem espreitei o restante elenco. Qual não foi a surpresa ao ver a Anna Prohaska no papel de Susanna - fresca, segura, divertida, maravilhosa.

De todas, a melhor surpresa da noite foi Marianne Crebassa a fazer o Cherubino. Agarrem-me, que ainda vou acabar groupie da Marianne Crebassa. Já espreitei o calendário dela, e não está previsto mais nenhum concerto em Berlim. Contudo, a avaliar pela reacção do público (só para ela ouvi os gritos de "brava!", o entusiasmo revigorado no aplauso), tenho a certeza que voltará a estes palcos.

A encenação, de Jürgen Flimm, estava no ponto certo: a discrição que realçava as dores e angústias dos personagens e deixa a música respirar, o extraordinário sentido do cómico que pôs a sala a rir repetidamente (e nos fez sair a todos com um sorriso nos lábios), o bom humor das coreografias, e o sábio uso multidimensional do palco, trazendo os cantores para o corredor entre a orquestra e o público, ou pondo-os a cantar em planos elevados no palco.

E a Dorothea Röschmann? Excelente, sem dúvida - mas quando entrou em palco, eu já só tinha ouvidos para a Marianne Crebassa, porque sou uma senhora séria e não consigo apaixonar-me por duas mulheres na mesma noite.


26 novembro 2015

a airbnb/Berlim e os refugiados

Ontem estive num encontro organizado pela airbnb de Berlim: uma conversa entre pessoas do UNHCR e quem tem quartos disponíveis para alojar refugiados.
Contaram que, ultimamente, todos os dias entram na Alemanha entre 6.000 e 10.000 refugiados. Há uma enorme onda de boa-vontade para os acolher, mas estes números são tão absurdos que ninguém consegue juntar as pontas: de um lado há quartos disponíveis e gratuitos para eles, do outro lado há pessoas a dormir em tendas. E também há a desconfiança: muitos refugiados têm medo de ir com alguém que lhes diz (numa língua desconhecida) que a paróquia x tem quartos para os alojar naquela noite.
O pessoal da airbnb perguntou-nos o que é que a empresa pode fazer para ajudar. Ando cá a pensar umas coisas, mas preciso de as amadurecer. De facto, o que é desesperadamente necessário é haver quem seja capaz de juntar as pontas.
Entretanto, a airbnb faz uma coisa muito útil nos países do corredor de refugiados: oferece alojamento gratuito aos voluntários que vão para essa região prestar apoio.

(Isto não é um post de publicidade paga, mas achei curioso esta empresa desviar as pessoas que lhes garantem o ganha-pão para uma causa que lhes vai custar dinheiro - ou, explicando melhor: se eu optar por arrendar os meus quartos a refugiados, a airbnb vai deixar de ganhar comigo. Ontem explicaram a quem nos devemos dirigir e quanto é que podemos receber do Estado alemão para um arrendamento de dois meses a refugiados. E o chefe ainda perguntou: "como é que a airbnb pode ajudar?")


a esquerda já não é o que era

Ontem, no Parlamento alemão, na sessão habitual a que a Angela Merkel se submete para levar tareia dos deputados, falou-se dos refugiados. Um deputado dos Verdes criticou duramente o parceiro bávaro da coligação CDU-CSU devido ao modo como tratou a chanceler. E um deputado dos Linke recitou - no Parlamento! - frases do Sermão da Montanha.  

Vou ver se encontro bússolas de fabrico de finais de Novembro de 2015: desconfio que apontam o Sul.


25 novembro 2015

"mãe, sabes fazer um pénis?"

Aquele estranho momento de dejá-vu: nos anos oitenta, quando o Pedro Arroja regressou dos Estados Unidos com umas teorias hilariantes de neoliberalismo, a gente ria-se muito.
Agora aparece na televisão com este discurso criacionista, que ele diz ser racional, sublinhando ainda com "sou um professor universitário!"
A nossa sorte é que não há poderosos interesses económicos por trás desta nova teoria. Podemos rir.

[ Acrescento o comentário de um amigo, no facebook: " fiquei a saber que o Arroja tem um pénis feito por Deus (como é que nunca ninguém se lembrou desta frase de engate)" ]




24 novembro 2015

nota mental: tentar acordar por volta do momento em que saio da cama

O Inverno chegou, e está lindo. O dia amanheceu em tons de rosa glorioso nos retalhos de nuvens. Mesmo em camisa de dormir, abri a porta da varanda e tirei fotografias: o céu todo, as nuvens de cores magníficas por trás dos ramos nus das árvores, e depois aquele enquadramento de árvores e muito céu sem mostrar os telhados, para parecer que moro em África, tudo isso. Quando me pareceu que ia apanhar pneumonia nas pernas, fechei a porta, arranjei-me, levei o Fox ao lago.

As folhas de Outono estavam hirtas de frio e debruadas a gelo, a água tranquila reflectia o céu azul e o rosa pálido das nuvens, tudo banhado na luz crua do Inverno. Mais fotografias, mais e mais, eu toda satisfeita com a colheita do dia, o Fox pacientemente à espera.

E foi então que percebi que a máquina estava sem cartão.


20 novembro 2015

Paris e nós



Em Paris, na noite do 13 de Novembro, havia um homem a varrer o passeio da rua onde encontrei abrigo. Visto da segurança do apartamento no quarto andar, um homem a varrer um passeio parecia algo profundamente errado - e era, afinal, o pilar da normalidade.

Eram duas da manhã, estávamos em frente à televisão a consumir avidamente as notícias, e a amiga que nos recebeu desmontava algumas das frases à medida que iam surgindo. Por exemplo, se um nacionalista dizia que é impossível controlar mais de quatro mil extremistas em França, ela cortava: "oh, mais de metade deles já estão na cadeia, outros estão na Síria". Que não nos falhem a inteligência e a ética, mesmo sob uma ameaça de cúpida brutalidade.

Confesso que a inteligência me falhou bastante no momento em que soubemos que Paris estava a ser atacada, e tivemos de decidir se passávamos a noite no restaurante, tentávamos ir de carro para casa ou corríamos para casa de uma amiga. Entrei em modo automático. Por mais que me dissessem que as ruas estavam fechadas, e que ninguém sabia o que estava a acontecer em Paris, queria fazer a única coisa que conheço: entrar no carro e ir para casa.

Também me falhou a ética. Nos dez minutos que durou a caminhada até à nossa casa-abrigo, fui vítima desse medo que envenena o olhar: cada pessoa na rua era um inimigo potencial. Um simples carro parado com o semáforo verde fazia-nos fugir cheias de temor. Foi isso o pior que me aconteceu no dia 13 de Novembro em Paris: dez minutos inglórios de desconfiança e de blackout cerebral, eu transformada em rato a fugir de um perigo que nem estava ali.

O medo pode ser mais destruidor que o Daesh: este pode roubar a vida a uns quantos, mas o medo rouba a humanidade a muitos mais.

Na manhã do dia 14 as pessoas que vi na rua - as que levavam uma baguete para casa, as que passeavam o cão, o homem que lavava graffiti de uma fachada - pareceram-me tão individualistas como sempre. A habitual cara de poucos amigos: outro pilar de normalidade.

Não vimos televisão nem ouvimos rádio durante o fim-de-semana. Foram dias muito tranquilos. Talvez também por essa tranquilidade que vivíamos (em casa, nas lojas, nos cafés) tenha sentido com enorme estranheza a agitação no facebook, as pessoas a milhares de quilómetros de Paris que pareciam muito mais assustadas e chocadas que eu.
Nunca como nesses dias em Paris tive tanta consciência da artificialidade do facebook: fogo-fátuo.

No domingo voltámos ao centro de Paris. Esplanadas, claro, e nem sequer como acto de resistência. O dia estava lindo, apenas isso. É certo que tínhamos combinado evitar cafés em ruas movimentadas, mas rapidamente esquecemos os cuidados, e sentámo-nos onde apeteceu e calhou: almoçámos no passeio do Boulevard Saint Germain.

Bem sei que Paris é uma cidade que representa imenso para o mundo ocidental, e que nos sentimos especialmente tocados por este ataque a sítios que são, ou podiam facilmente ser, lugares da nossa geografia pessoal. Bem sei que Paris é - como foi Madrid, como foi Londres - um sinal assustador da nossa vulnerabilidade perante terroristas que já vivem entre nós. Mas sinto um triplo embaraço em chorar alto estes que me são tão desconhecidos como as vítimas da mesma violência na Síria e no Iraque. Embaraço porque, ao chorar com tanto alarde os que morreram em Paris, estamos a traçar uma linha entre "nós" e "eles", quando afinal todos são vítimas da mesma lógica de terror. Embaraço porque, em nome da nossa segurança, são mortos noutros países muitos civis sem culpa, a quem damos o vergonhoso nome de "danos colaterais" - como se (lá está!) a nossa vida valesse mais que a deles. Embaraço porque estamos a fazer o jogo do Daesh: eles querem ver-nos chorar, querem ver-nos tolhidos de medo. A onda de bleu blanc rouge que varreu o facebook deve dar-lhes um prazer imenso. É o feed back de que precisam para conhecerem o impacto da sua acção, para saberem que valeu a pena.

Não seria muito mais inteligente reduzir o ruído mediático e recusar o jogo do espectáculo que alimenta o terror e os nossos medos? Quanto do barulho à volta deste ataque é informação, quanto dele é manipulação, quanto é negócio? Que candura é a nossa, e em nome de quê escolhemos oferecer ao Daesh as cenas de consternação e medo que lhe dão mais força e material de propaganda?

Também me embaraça o que os muçulmanos têm andado a fazer para se demarcarem do terror do Daesh (e mais ainda: o que a nossa sociedade lhes tem pedido) e a nossa comoção perante essas manifestações. Então nós não sabemos distinguir entre muçulmano e terrorista?!
O hashtag #Wearemuslimsnotterrorists, apesar das suas boas intenções, põe a nu a ignorância e o preconceito do mundo ocidental. Porque exigimos dos muçulmanos que se demarquem do terrorismo, se não exigimos das pessoas de direita que se demarquem do ataque de Utøya, nem exigimos dos cristãos que se demarquem dos fanáticos que assassinam médicos que fazem abortos?

Este ataque mostra a nossa vulnerabilidade perante este inimigo, mas também a sede de protagonismo, o egoísmo e a ignorância que há em nós. Ainda temos de fazer algum caminho para nos tornarmos a Europa que pensamos ser.

Para mim, decidi que os dias continuarão iguais aos anteriores a 13 de Novembro. Não deixarei que o medo dos terroristas faça de mim uma semimorta em vida. É bastante provável que Berlim esteja entre os próximos alvos, mas nem essa suspeita me impedirá de viver a vida normalmente.
Enquanto estou viva, vivo.
Ivre de vie.









 







19 novembro 2015

entretanto, numa escola de Paris...

A Carla contou-me isto ontem, e eu esperei 24 horas para ela publicar, mas como não publica e diz que eu é que sou a cronista oficial, aqui vai:

O que aconteceu ontem na escola dos meus filhos foi hilariante, pensei que ia morrer de rir. Mas talvez fosse nervosismo. 
A J. contou a nossa experiência na rua, acrescentando pontos: que tínhamos ouvido o barulho das balas e depois fugimos. Um colega, queria tanto dizer qualquer coisa mais chocante, que disse que o pai foi morto. Conseguiu o respeito no recreio, até ao momento em que a mãe o foi buscar e desmentiu tudo. 
No recreio comentavam todos que foi super difícil fazer o minuto de silêncio, porque quando tinham finalmente conseguido concentrar-se já tinha acabado. Ah! E estavam todos a concentrar-se nos terroristas e não na homenagem aos mortos.

E o T. estava furioso, porque houve um jogo de futebol França-Alemanha e ele não sabia nada.


bananas!


CAVACO ELOGIA O TAMANHO E O SABOR DA BANANA DA MADEIRA

(mais: aqui)



Em 1990, fizeram uma exposição em Berlim que recuperava uma exposição anterior, comemorativa dos 40 anos do SED (o partido do regime da RDA), e lhe sobrepunha os cartazes das manifestações que levaram à queda do muro.
À medida que se avançava pela exposição do SED iam aparecendo cartazes críticos, cujo número aumentava de sala para sala. Lembro-me em especial de um, na sala dedicada ao sistema político: junto a uma fotografia onde se via os deputados a votarem de braço no ar, em uníssono, um cartaz dizia "onde todos pensam o mesmo, pensa-se pouco".
Na penúltima sala quase não se via o material da SED, encoberto por uma profusão de cartazes das manifestações.
Na última sala não havia cartazes. Sobre a exposição da SED via-se uma tela plástica na qual tinham pintado bananas: o fruto que faltava na RDA, por falta de divisas para o importar, e que, nos dias seguintes à queda do muro, foi oferecido às toneladas - e com lágrimas felizes e comovidas - às pessoas da RDA que visitavam a Alemanha ocidental.

Terminar uma exposição daquelas - sobre totalitarismo e propaganda, tensões e coragem para lutar pela democracia - com uma alegre explosão de bananas: e ainda dizem que os alemães não têm sentido de humor...

(Como é que era a tal frase? "A História repete-se como farsa.")


14 novembro 2015

Paris na manhã seguinte

Depois da tragédia, o regresso ao quotidiano: baguette fresca pela manhã.
Também fomos. Na padaria, o pão e os bolos alinhavam-se alegremente, nos seus tons quentes, como todos os dias. As pessoas esperavam a sua vez na fila, calmas, em silêncio, e com cara de quem não quer falar com desconhecidos. Não se trocavam olhares de empatia, comentários, nada.
As baguettes alinhadas davam-me uma sensação de consolo e segurança. Se me pedissem um símbolo da resistência aos ataques de ontem, era uma imagem daquelas baguettes, ou de um parisiense levando uma dessas pela rua.
Paris continua.

Claro que há conversas sobre encher a casa de comida, ou sobre as estações de metro que melhor seria evitar. Mas a cidade pareceu-me muito calma.

Em compensação, o facebook hoje causou-me estranheza. Que agitação!
Não me sinto tentada a embarcar na onda "Je suis Paris". Parece-me algo irreal, muito distante do que vivi. Além do mais, não precisamos de repetir uma evidência. "Paris" pode ser em todo o sítio: é contra nós todos, e estes ataques são relativamente fáceis de levar a cabo.

Perante esta certeza de que ninguém está seguro, que fazer? Por enquanto, ocorrem-me apenas duas ideias:
 - vamos ter de decidir se aceitamos que as polícias secretas devassem a nossa privacidade e desrespeitem os nossos direitos em nome da nossa segurança;
 - tenho de organizar melhor os meus pelouros (burocratices, projectos, coisas várias), para não dar demasiado trabalho a quem fica, caso seja apanhada numa tragédia destas.

Entretanto, espero que amanhã haja baguette fresca.









Paris.

Fomos à exposição do Picasso no Grand Palais e depois resolvemos ir jantar. A Carla escolheu a zona da Porte de St. Denis. No fim do jantar, o responsável do restaurante perguntou-nos onde é que moramos. Fizemos cara de estranheza, e ele explicou que Paris estava em estado de sítio, o exército estava na rua, as ruas estavam bloqueadas, e dificilmente poderíamos ir para casa. "Está a brincar connosco, não está?!"
Não. Iam fechar as portas do restaurante, e nós podíamos ficar lá a noite toda. Olhei para o telemóvel - o Joachim já tinha ligado duas vezes. Telefonei-lhe, e ele disse que o pior era ficar num restaurante, porque eles andam a atacar restaurantes. A Carla já estava a falar com uma amiga que mora perto do restaurante, e resolvemos ir para casa dela. As ruas estavam estranhas: metade das pessoas a andar rapidamente e com cara de caso, muitas paradas no passeio, a telefonar com ar preocupado, e outras sentadas calmamente nas esplanadas e nos cafés - provavelmente não sabiam de nada. Nós andávamos depressa, com medo de cada mota e cada carro que passava.
Estamos em segurança, num quarto andar, e deram-nos uma tisana para acalmar. Sentada junto à janela, sentia-me demasiado exposta. Agora estou sentada no chão. Apagámos a luz da sala.
Os terroristas atacaram muitos dos locais que a Carla gosta de frequentar. A amiga dela morava, até há pouco, numa das ruas atacadas.
Não nos aconteceu nada. Podia ter acontecido. E essa certeza faz-me sentir com mais crueza a tragédia que aconteceu aos outros. Estou a ouvir as notícias, mas só consigo pensar nas vítimas, e no sofrimento das suas famílias.



11 novembro 2015

Paris!

Se bem me lembro, já não ia a Paris há mais de dez anos. Da última vez foi no fim de um Verão. O Joachim regressou à Alemanha mais cedo, mas os miúdos e eu ficámos em Portugal até ao fim das férias escolares. Quando não dava para adiar mais, enchemos o carro de malas, livros, e milhentos suportes da saudade. Uma vez cheio até não poder mais, ainda despejámos para as dobras daquela tralha toda um saco de batatas que a vizinha tinha tirado do campo, e cebolas, e limões, e mais alguns livros, e zarpámos a caminho da Alemanha. Uma viagem memorável! Tínhamos três CDs - o do filme Chicago, um de Taizé e um do Augusto Canário (o Matthias tinha-o visto ao vivo nas festas da terra, e ficara muito impressionado; eu comprei logo um CD, porque sei que todos os caminhos vão dar a Roma, desde que falem português, e o rapaz até então tinha-se recusado a falar a língua da sua mãe). Lá íamos nós a intercalar as obscenidades à Irene de Gaia com "praise the Lord, my soul" e "he ran into my knife ten times", seguido de gargalhada velhaca, quando começámos a ver placas de Paris. "Por favor, mãe, nunca fomos a Paris!", pediram eles, e eu entrei na cidade com o carro enorme, o retrovisor atafulhado de tralha e batatas, e sem mapa. Demos várias voltas ao arco do triunfo porque eu pura e simplesmente não conseguia escapar da rotunda, entramos na praça Madeleine e eles aproveitaram o engarrafamento para sair e estudar a montra da Fauchon ("isto também é cultura!", disse-lhes), depois metemos pelo Louvre para ver a pirâmide, parámos em frente à Notre-Dame, saíram do carro para espreitar a torre Eiffel enquanto eu fiquei de guarda às batatas e às multas. Vimos o Eliseu uma boa porção de vezes, porque passava a vida a meter-se no nosso caminho, até que, finalmente, descobri como é que se fazia para regressar à auto-estrada para a Alemanha.

Paris está sempre ali, e muda pouco, penso eu - não é como Berlim, que se uma pessoa sai por um fim-de-semana, quando volta já reinventaram a cidade outra vez. De modo que nunca é o momento certo e inadiável para ir até à cidade das luzes, e assim vai a vida: em indecisão. Por sorte a airbnb veio em meu auxílio: ofereceu-me um bilhete para o Open de Paris, desbloqueou-me a incógnita da data certa.

Falei com a minha amiga, que dantes era parisiense e agora se ganhou para o mundo inteiro. Fizemos planos. "Queres um concerto de rock punk, ou uma esplanada no Marais?" Sempre que falo com ela é verão, até me esqueço que estamos em novembro e atiro: Marais! Num concerto de rock punk é difícil ouvir as milhentas histórias que quero saber dela.

E aqui estou eu, de novo sem mapa em Paris. Convencida que, depois destes dias, Paris nunca mais vai ser a mesma. Para mim, pelo menos.

--

Escrevi este texto no avião, e enquanto esperava a Carla. Depois disso tudo desatou a acontecer muito depressa e muito bem. Para já, estou ocupadíssima a tomar muito a peito cada momento nesta cidade. Depois, um dia destes, venho cá contar. Adianto apenas isto:

1.  A Filarmonia é prodigiosa (se aparecerem por aí imagens de uma senhora de vermelho e cara de embasbacada e de "dêem-me um beliscão porque suspeito que estou a sonhar", sou eu.

2. No café Shakespeare and Company, o meu olhar distraído fixou-se numa parisiense mesmo muito gira, que estava a trabalhar com um parisiense também jeitoso - estavam a discutir uns textos.
"Viste que a Nathalie Portman está aqui?", disse a Carla. Era a minha parisiense gira, e estava a preparar o próximo filme.
E é mesmo muito gira, esta minha parisiense.

3. Paris!
(Muito gostava eu de saber porque é que andei tantos anos a adiar esta visita.)


08 novembro 2015

gosto muito de te ver, leãozinho...




Bem sei que estou a confundir cães com raposas e leões - às vezes coisas tão simples como deambular entre o sol, as folhas secas e a água deixam-nos confusos de alegria. 


 

 


andou uma pessoa a levantar-se de madrugada e a sair para o frio dos Alpes para fotografar o sol a nascer...

...e depois regressa a casa, e enquanto tira o primeiro café da manhã na cozinha, ainda em pijama, é isto:





07 novembro 2015

colheita deste Outono (2)

À espera do sol, de novo.  




 

De extraordinário, só a reacção das vacas. Em vez de caminharem em direcção à luz do sol, como no dia anterior, vieram ao meu encontro. Uma delas tentava chegar tão perto que temi que apanhasse um choque da sebe eléctrica.






Neste nosso grupo de amigos já há um neto, outra vem a caminho.

Quando vi o meu neto pela primeira vez, foi um momento muito forte. Senti que já o conhecia, não era um estranho.
É preciso aprender novos lugares, procurar o lugar certo. Só peguei no bebé quando os pais mo puseram nos braços
.




Criámos uma rede de trocas no bairro. Em vez de perguntar às pessoas de que precisam, perguntamos-lhes o que podem dar. Temos agora pessoas com deficiências motoras a usar a sua cadeira de rodas eléctrica para fazer compras também para idosos, quando fazem para si.



Pai-nosso, que estais no céu (...)

- Não nos deixeis cair em tentação
- Ne nous soumets pas à la tentation
- Lead us not into temptation

Pelo modo como formulamos o pedido, parece que Deus, em português, é uma espécie de anjo da guarda que nos protege do mal, enquanto em francês e inglês lembra um tirano que usa as pessoas como joguetes à sua mercê.


No trabalho, há quem esteja numa perspectiva de serviço, quando outros estão numa perspectiva de poder. Como ultrapassar o sofrimento destas situações?
Servimos os outros, ou a imagem que temos de nós?





No regresso, sobrevoámos os Alpes muito nítidos contra o céu azul. 

 


colheita deste Outono (1)




Começámos o nosso encontro habitual de La Toussaint, na região de Isère, com um passeio a seguir ao almoço. Nem podia ser de outro modo: o dia oferecia-se com uma beleza quase irreal. 

Festejei o meu 60º aniversário em família, com uma caminhada até ao cume do Grand Paradis. Três dias: o casal, os filhos, o guia. Nas partes mais perigosas íamos presos uns aos outros - sentíamo-nos seguros: se um caísse no precipício, os outros agarravam-no.

No dia seguinte queria levantar-me cedo, mas a cama quente não deixava. Pensei "hoje o sol vai ter de se desenrascar para nascer sem a minha ajuda", e virei-me para o outro lado. Mas vi as nuvens densas pousadas no vale, levantei-me de um salto, e saí para a floresta.  



(Momento "Modas e outras Futilidades": muito satisfeita com as minhas novas galochas - são crocs, levíssimas.)


Nota mental: da próxima vez que não houver nuvens no céu, não vale a pena ir fotografar o nascer do sol. Falta-lhe teatralidade. Dorme-se mais uma horinha, enquanto o sol se vai espalhando alegremente pela paisagem, e só então vale a pena. 


  


Chegar ao cume do Grand Paradis e sentir que nos esperava e acolhia, teve algo de místico e fez-me sentir uma felicidade profunda. A subida mudou-nos: quando regressávamos a terra, os nossos filhos estavam muito mais atentos a cada um dos outros, saboreavam cada minuto daquele tempo conjunto. Ninguém tinha pressa de regressar



O filho de um dos nossos amigos quer casar com uma tunisina. Ela quer celebrar o casamento no seu país, o que implica que ele terá de se converter ao Islão. "É só uma formalidade", dizem. Mas como é possível alguém lembrar-se de exigir do companheiro uma mentira como base da formalização de uma vida a dois?




Noutro casal trava-se uma luta difícil contra a morte. E nem essa constante ameaça lhes impede a generosidade: acompanham dois miúdos de uma família com problemas, levam-nos de férias para a Provença, e noutra altura cumprem a promessa de os levar à sua casa de Paris. Ao entrar, os miúdos espantam-se: "ooooh, quadros nas paredes!"
É claro que os levam a passear longamente no Louvre.

Ne plus chercher le bien-être, mais le mieux-être.






Uma das nossas amigas começou a trabalhar como educadora de apoio a crianças da escola primária num bairro com problemas sociais graves.

O meu objectivo é fazer com que as crianças acreditem que não repetirão a vida desgraçada dos pais. Lutar contra o determinismo. Digo aos professores: alimentem a esperança destas crianças. Se não formos nós a fazer isto, ninguém o fará.