...é que sobra mais tempo para ouvir estes Nocturnes.
07 novembro 2015
histórias da Berlim que fala português (2)
Diz que o Rudolf Hess adorava bacalhau com natas e fados da Amália.
(Foi o que disse o português que cozinhou para ele, na prisão de Spandau.)
Ouçam: não se arranja em Portugal alguém que venha a Berlim entrevistar este pessoal (os que ainda não morreram, claro), ouvir as histórias de tanta gente que veio para cá mais ou menos na altura em que fizeram o muro? Era capaz de dar um livro espantoso.
(Foi o que disse o português que cozinhou para ele, na prisão de Spandau.)
Ouçam: não se arranja em Portugal alguém que venha a Berlim entrevistar este pessoal (os que ainda não morreram, claro), ouvir as histórias de tanta gente que veio para cá mais ou menos na altura em que fizeram o muro? Era capaz de dar um livro espantoso.
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Mensagem recebida de um amigo:
Por falar em cozinha, hoje faleceu em Berlim mais um português da velha guarda, o António Amaro, um excelente cozinheiro, abrimos juntos em 1978 a "Casa Algarvia" em Charlottenburg, foi o último cozinheiro na prisão em Spandau (onde estiveram todos os nazis condenados em Nürnberg), ele cozinhou para o Rudolf Hess até este ter morrido em 1987. Passámos bons tempos juntos, para teres uma ideia, as actrizes e actores do Schillertheater eram clientes quase diários da Casa Algarvia, chegavam por volta das 11 da noite e era uma festa até às tantas da manhã, autêntica boémia berlinense!
Por falar em cozinha, hoje faleceu em Berlim mais um português da velha guarda, o António Amaro, um excelente cozinheiro, abrimos juntos em 1978 a "Casa Algarvia" em Charlottenburg, foi o último cozinheiro na prisão em Spandau (onde estiveram todos os nazis condenados em Nürnberg), ele cozinhou para o Rudolf Hess até este ter morrido em 1987. Passámos bons tempos juntos, para teres uma ideia, as actrizes e actores do Schillertheater eram clientes quase diários da Casa Algarvia, chegavam por volta das 11 da noite e era uma festa até às tantas da manhã, autêntica boémia berlinense!
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06 novembro 2015
"ruínas" (2)
Em Maio de 2014 nasceu no Sul da Alemanha um coro de alemães e refugiados sírios, chamado "Refúgio". Traduzo as palavras de um dos cantores:
"Chamo-me Ahmed Osman, e sou de Homs, na Síria.
Estive meio ano na prisão, três anos em fuga, e estou agora na Alemanha com a minha mulher e os nossos três filhos.
Obrigado, alemães, por nos abraçarem e acolherem.
Temos uma mensagem para todo o mundo:
Basta de sangue! Acabem com as guerras!
"Janna" significa paraíso. A nossa canção sobre o paraíso fala das cidades belíssimas da Síria, de onde viemos, e agora estão reduzidas a ruínas.
Peço-vos, alemães: preservem a vossa Paz!"
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"ruína"
Sabem como é quando a gente se apaixona, e esquece tudo, e não há nada a fazer?
[abro uma pausa para todos darem os suspiros que quiserem]
[acabou a pausa]
Uma vez apaixonei-me por uma ruína. Uma casa com o ar lastimoso de quem arrastou durante décadas as chagas da guerra e foi vítima dos maus-tratos continuados do pragmatismo da RDA. Apaixonei-me por ela nas escadas sombrias, sujas e cheias de tralha, e não quis saber de racionalidades, nem dei ouvidos aos risos da família, que me perguntava "tu queres levar-nos à ruína?!"
Duzentos mil euros mais tarde descobrimos que a nossa ruína era uma vila arte-nova. As obras trouxeram-nos dois sustos (quer dizer, três, se contarmos também os custos): descobrimos umas traves com fungos, que nos obrigaram a esventrar uma parte da casa para fazer o saneamento completo, e ao levantar o forro do tecto junto ao telhado encontrámos um diabo vermelho, a rir-se sarcasticamente para nós com os seus olhos verdes. Eu pensava que não sou supersticiosa, mas confesso que nesse dia fui. Assustei-me, tive dúvidas sobre a minha paixão, quase me arrependi. Um ano mais tarde, um velhote de Weimar comentou, a rir, que era uso antigo esconder um diabo no telhado - "porque há sempre um diabo qualquer numa casa que se preze". Portanto: o que eu tinha deitado fora, cheia de nojo e medo, era um pequeno fantoche feito à mão no princípio do século XX. Bem feita, quem me mandou ser supersticiosa?
Foi também ele quem sugeriu que aquela casa teria sido construída pelo cunhado do Mahler, o judeu Arnold Rosé, que era primeiro violoncelista na Staatskapelle. Gostei da hipótese, e de imaginar que fiz uma cozinha enorme na sala onde, nos anos vinte, Mahler, a irmã e o cunhado teriam feito Hausmusik. Se calhar aquele fantasma triste que andava pelo sótão era o Arnold Rosé, que vinha pedir contas, mas nunca mas pediu. Ter-lhe-ia dito "amigo, desculpe, mas a cada um a sua arte", e servia-lhe uma fatia de bolo de chocolate, ainda morno. Ou então era o segundo dono da casa, já me esqueci do nome dele, o talhante que fornecia Buchenwald, e se embrulhou de tal modo em arranjinhos corruptos com o comandante Koch, que a SS se chateou e enforcou ambos. Também podia ser um dos descendentes do talhante, tentando recuperar a casa que os russos expropriaram. Às tantas, andavam todos lá pelo sótão, cada um pelas suas razões. Como será que os fantasmas fazem para se organizar, será que passam a eternidade pegados uns com os outros? "Chegue-se para lá, seu nazi!", "cala-te, judeu!", "vocês não discutam, que daqui a nada chega aí o comandante russo e trama-nos a todos". Também podia ser o fantasma do Stasi - a única explicação que tenho para todos os telefones que encontrei instalados na garagem é que na casa viveria um Stasi (ter-lhe-iam dado o apartamento do bel étage?) que passava os dias a escutar a vizinhança. Não sei se esse ainda é vivo, não sei se morreu e anda agora de escuta às portas de todos.
- Quantas histórias cabem numa ruína?
balade, ballade
Descemos o monte até à estrada no vale, atravessámos, subimos o monte em frente, passámos por caçadores ("Si vous entendez des sangliers qui parlent portugais, c'est nous !"), passámos uma quinta, subimos até ao cume, e descemos depois pela paisagem devastada. Descobrimos que o quadrado careca na encosta está cheio de tocos de antigos castanheiros. Deslizámos para o vale pelo leito seco de um ribeiro de montanha, atravessámos o outono glorioso da encosta da nossa casa.
"Flamboyant!", exclamavam os amigos.
Às vezes deixava-me ficar para trás, e largava a voz de encontro às cores.
"Flamboyant!", exclamavam os amigos.
Às vezes deixava-me ficar para trás, e largava a voz de encontro às cores.
05 novembro 2015
arriscas um pouco por mim? (2)
(foto do site Campact Blog)
Continuando a tradução deste site:
6. O que posso fazer em particular pelas crianças?7. Como é que posso ajudar a longo prazo?
8. Posso alojar refugiados na minha casa?
9. E quem é que ajuda os milhões de refugiados que não conseguem chegar cá?
6. O que posso fazer em particular pelas crianças?
Já falámos sobre dar brinquedos no ponto 3. Mas há muito mais para dar, além de objectos:
"As crianças refugiadas quase não têm espaço para brincar e se movimentarem", explica a Ajuda aos Refugiados da Diocese de Colónia.
Algumas ideias:
- Veja se (em conjunto com outros voluntários) pode oferecer tempo para brincar com as crianças no centro de refugiados.
- Talvez seja possível organizar uma cooperação com um centro desportivo vizinho?
- Talvez seja possível organizar uma cooperação com um centro desportivo vizinho?
- Organize pequenos passeios na vizinhança do centro de alojamento - a um parque, ao jardim zoológico, etc. (aqui tem um exemplo maravilhoso)
- Também seria possível pensar em convites para centros juvenis e, a um prazo mais longo, actividades de férias.
- Se as crianças refugiadas frequentam a escola, é muito importante dar-lhes ajuda para fazer os trabalhos de casa.
- Se as crianças refugiadas frequentam a escola, é muito importante dar-lhes ajuda para fazer os trabalhos de casa.
7. Como é que posso ajudar a longo prazo?
- Muitos grupos de voluntários tiveram bons resultados com o apoio por meio de apadrinhamento de refugiados.
Como diz a Associação de Bamberg "Amigo em vez de Estranho", que já organizou muitos apadrinhamentos: "Ao tornar-se padrinho, o voluntário (ou um grupo de voluntários) declara-se aberto para ser o interlocutor de um refugiado ou uma família de refugiados, e para o acompanhar de forma mais pessoal, por exemplo quando vai às repartições públicas ou aos médicos, quando procura um curso de alemão ou visita uma escola ou uma empresa para um estágio ou emprego, ou se precisa de móveis ou outros objectos para a casa, e ainda para o esclarecer sobre alguns costumes desta sociedade. Ou então, apenas para arranjar um local confortável e tomar um chá com essas pessoas, sinal de boas-vindas."
Como diz a Associação de Bamberg "Amigo em vez de Estranho", que já organizou muitos apadrinhamentos: "Ao tornar-se padrinho, o voluntário (ou um grupo de voluntários) declara-se aberto para ser o interlocutor de um refugiado ou uma família de refugiados, e para o acompanhar de forma mais pessoal, por exemplo quando vai às repartições públicas ou aos médicos, quando procura um curso de alemão ou visita uma escola ou uma empresa para um estágio ou emprego, ou se precisa de móveis ou outros objectos para a casa, e ainda para o esclarecer sobre alguns costumes desta sociedade. Ou então, apenas para arranjar um local confortável e tomar um chá com essas pessoas, sinal de boas-vindas."
Cada um vive a sua condição de padrinho de forma individual - dependendo das necessidades do refugiado e das possibilidades do voluntário.
- Para evitar conflitos entre funcionários públicos e voluntários, o Centro Internacional de Friedberg preparou uma lista de informações e tarefas para (futuros) padrinhos.
- Para organizar vínculos de apadrinhamento, dirija-se aos centros de voluntários na sua cidade, ao centro de alojamento de refugiados ou ao Conselho de Refugiados do seu Estado.
Entre os refugiados que chegam à Alemanha também há muitos menores não acompanhados. Em muitas localidades são necessárias pessoas dispostas a apadrinhar ou a tornar-se tutores destes menores.
- Encontra informações sobre este tema por exemplo no site do Conselho de Refugiados da Baixa-Saxónia.
- Se lhe parece que pode assumir esta tarefa, dirija-se ao Conselho de Refugiados do seu Estado, ou ao Centro local de Apoio à Criança.
8. Posso alojar refugiados na minha casa?
Em princípio, pode, e essa oferta seria realmente uma grande ajuda. A vida dos refugiados nos pavilhões de alojamento em massa é quase insuportável, além de estigmatizante. Mas os procedimentos burocráticos para acolher refugiados em casa não são muito fáceis, e o anfitrião deve reflectir cuidadosamente sobre alguns aspectos.
Aqui encontra ajuda:
- "Receber refugiados em casa - como é que funciona?", da Pro Asyl
- Um pequeno "guia de boas maneiras" sobre o tema, no jornal taz [ando a pensar traduzir isto há um mês; tem frases maravilhosas, como "você não tem de provar nada a ninguém: não é boa ideia alojar refugiados num prédio onde vivem neonazis", ou "não há castings de refugiados, para os interessados escolherem os melhores". E avisa para as armadilhas da dependência e da gratidão imposta. - uma maravilha.]
- O site "bem-vindos, refugiados" ajuda a encontrar quartos, sobretudo em apartamentos partilhados, e a orientar-se nas questões práticas
- Se tem edifícios grandes que quer oferecer como alojamento para refugiados, deve dirigir-se à sua autarquia.
9. E quem é que ajuda os milhões de refugiados que não conseguem chegar cá?
Apesar de nas últimas semanas o nosso país estar sobrecarregado com a crise dos refugiados, a esmagadora maioria dos refugiados não conseguem chegar à Alemanha ou à Europa. Por exemplo, na Síria há mais de sete milhões de pessoas em fuga, e mais de quatro milhões foram acolhidos pelos países vizinhos: Jordânia, Líbano ou Turquia. Estes países suportam um esforço bem maior que a Alemanha, apesar de terem um poder económico bem mais reduzido. Ajude também os refugiados que não chegaram à Alemanha, e as organizações que os ajudam, tais como:
- Medico International
- A associação Adopt a Revolution apoia particularmente a resistência civil pacífica contra o regime Assad
- A associação Adopt a Revolution apoia particularmente a resistência civil pacífica contra o regime Assad
eu até podia ajudar os refugiados, mas não tenho tempo porque estou a preparar uma festa de Natal...
(fonte)
Ontem interrompi precipitadamente a tradução do guia para quem quer ajudar refugiados porque já estava atrasada para um encontro com o meu grupo de casais católicos. As reuniões são mensais, mas eu tenho andado a fazer gazeta por motivos vários. Ontem, imersa na tradução, pensei faltar de novo, mas acabei por ir - e aprendi imenso. Em pinceladas largas, um desenho de cores escuras:
1. Um dos casais esteve a falar do apoio que tem dado aos refugiados. Começou com um gesto muito simples: no regresso do trabalho, o J. parou no pavilhão da Messe de Berlim onde meteram mil refugiados. Perguntou se precisavam de ajuda, e agora passa lá todos os seus fins de tarde. Irrita-se com o caos, com a confusão de regulamentos contraditórios e incompreensíveis, com o mau funcionamento, com alguém que comande tudo aquilo com competência e distanciamento. Sente-se derrotado pelas condições: há algumas barreiras visuais, mas nenhuma barreira para os sons - o barulho de mil pessoas é permanente, dia e noite. Sente-se impotente perante a falta de perspectivas: aquelas pessoas nada mais fazem além de esperar, esperar três meses para serem recebidas numa repartição pública, esperar mais três meses para eventualmente poderem começar a procurar trabalho (que dificilmente encontrarão), esperar uma infinidade de tempo até que alguém tenha a coragem de lhes alugar uma casa. E terminou o seu relato dizendo, com um nó na garganta, que nunca imaginou ser possível zangar-se tanto com alguma coisa, ou comover-se tanto com a gratidão de desconhecidos.
2. A M. falou das aulas de alemão que começou a dar, e de como se sente tocada por aquela ânsia de aprender a língua deste país apesar da barulheira do pavilhão, da confusão de gente de todas as idades, das entradas e saídas do espaço mal fechado.
3. As cenas de violência surgem quotidianamente:
- Durante uma aula de alemão, um rapazinho enfia com toda a força o seu lápis na barriga de outro miúdo que está sossegado a ouvir. O agredido dá-lhe uma bofetada. A mãe do primeiro agressor bate no segundo. Nenhum deles fala uma língua ocidental. A professora chama a segurança do pavilhão.
- Para além da zona de dormitórios, há um espaço reservado para as crianças brincarem, e outro para sala de oração. É neste que os voluntários dão aulas de alemão. Um professor começa a reunir os alunos, na sua maioria mulheres e crianças. De repente aparece um homem que lhes dá uma descompustura irada em árabe. Amarfanhadas, as mulheres fazem-se pequenas. Alguém explica ao professor que o homem está furioso porque "não se descalçaram antes de entrar na mesquita". O professor diz que aquilo não é uma mesquita, é uma sala de oração para todas as confissões, e que é fundamental que as pessoas se habituem à ideia de que na Alemanha há espaço para todas as religiões.
Percebo o professor alemão, e percebo o homem zangado: ninguém devia andar calçado no local onde ele reza. E gostava de dizer isto às mulheres que se fizeram pequeninas: ergam a cabeça! ponham esse homem no seu lugar! neste país ninguém tem o direito de vos falar nesse tom.
4. Um rapaz conta que quer ir o mais depressa possível para Inglaterra. Os amigos que lá tem dizem-lhe, pela internet, que lhe arranjam alojamento e trabalho, mesmo sendo ilegal. Ficando em Berlim, vai perder pelo menos seis meses neste limbo de pavilhões e espera, espera, espera. Diz que em duas semanas chega lá, e então... Vão deixá-lo ir, claro que vão. Aquele pavilhão é um serviço de acolhimento, não é uma prisão.
5. Alguém teve a ideia peregrina de dar vouchers de 50 euros aos refugiados sem alojamento, para poderem dormir algures. E logo surgiram espertalhões que compram os vouchers aos refugiados por 20 euros, e vão depois cobrar 50 ao Estado. Mais grave ainda: como os vouchers dos sem-abrigo são de 20 euros, estes já não são aceites nos lugares onde costumavam dormir, porque os refugiados rendem mais.
Mero exemplo para mostrar que o ritmo dos acontecimentos não está a deixar espaço para o Estado tomar as decisões de cabeça fria.
6. Um dos refugiados registado no pavilhão não aguentou mais o ambiente, e arranjou casas onde o deixam ficar. Primeiro a casa dos meus amigos, enquanto eles faziam férias em Espanha. De momento está na casa de amigos deles, mas quando regressarem das férias ele não tem para onde ir. É cristão (a minha amiga já tinha desconfiado: viu que rezava discretamente antes de começar a comer), mas pediu para eles não revelarem esse segredo no pavilhão de refugiados.
Quando se foi embora, deixou no frigorífico dos meus amigos embalagens com data de validade vencida há anos. Haverá alguém que está a aproveitar as dificuldades financeiras dos refugiados (têm 4 euros por dia para comer) para lhes vender comida estragada?
7. O director de um centro de investigação universitário contou que reuniu com colegas e juristas para ver a possibilidade de oferecer estágios não remunerados a alguns refugiados, para eles estarem ocupados legalmente e se irem preparando para o mundo do trabalho alemão. Concluíram que a situação jurídica é muito complicada, e que o máximo que podem oferecer é tutorials. Também não é boa ideia mudar o enquadramento jurídico e abrir excepções para os refugiados: agora que - finalmente! - conseguiram impor o salário mínimo, não é boa ideia deixar abrir uma brecha legal para trabalho não remunerado.
8. Uma proposta: olhar de forma racional para os problemas e as oportunidades. Todos os refugiados têm direito a ser ajudados, e receberão ajuda. Mas os refugiados que têm formação e experiência profissional em áreas interessantes para a economia deviam ser imediatamente conduzidos para os locais onde são necessários, em vez de ficarem pelo menos seis meses à espera de regularizarem o processo.
9. Isto é só o princípio da crise europeia de refugiados. Se respeitarmos os tratados internacionais e acolhermos todos os refugiados de regiões em guerra, vão seguir-se muitos milhões. Não é só a Síria, são todas as regiões explosivas do continente.
Como fazer face a isto?
10. Como manter a identidade europeia? O que é isso, aliás? O que queremos conservar da nossa identidade, o que podemos deixar mudar? Que riscos corremos?
Alguém que esteve recentemente em Israel contou que todos aqueles com quem falava mostravam apreensão: "vocês sabem mesmo o que estão a fazer? vão ser invadidos por dentro!"
Eles devem saber bem do que falam: foi a partir de uma catástrofe humanitária que se instalaram na região onde vivia outro povo. Lembro o que conta Elias Chacour sobre a fatal reunião na sua aldeia natal, na Palestina dos anos 40, na qual foi decidido acolher generosamente os judeus que tinham sofrido tanto na Europa, e dar-lhes até as melhores divisões das suas casas. Algum tempo depois a aldeia foi evacuada, e assistiram de longe ao seu bombardeamento. Hoje em dia, nem o seu nome existe.
A história do nosso mundo é feita de vagas de migrações - será que estamos no limiar de uma nova vaga? Como nos posicionamos perante tal momento histórico? Fechar fronteiras é um disparate, uma ingenuidade. Se nem o muro da RDA era estanque!
11. E como estamos de meios financeiros? A população alemã também é móvel. Os nossos filhos procuram trabalho noutros países e continentes. Para alimentar uma família de refugiados em Leipzig, por exemplo, são necessárias duas famílias de rendimentos altos. Se estas famílias se deslocam para outro país, como será possível ajudar a de refugiados?
12. Dois livros:
- In the Sea There are Crocodiles: The True Story of Enaiatollah Akbari - a história de um rapazinho de 10 anos, afegão, que andou quatro anos até chegar à Europa.
- The Savage Continent: Europe in the Aftermath of World War II - livro que conta a situação catastrófica da Europa no fim da guerra
(Comentários dos alemães: só podia ter sido escrito por um inglês, porque nenhum alemão se atreveria a descrever assim o sofrimento que assolou este país. A crise de refugiados na Alemanha na segunda metade dos anos quarenta foi incomparavelmente maior que a de hoje, mas eram pessoas com o mesmo universo cultural e a mesma língua.)
---
Não consigo deixar de pensar nos refugiados amontoados num pavilhão aqui perto da minha casa.
Eu até podia ajudar alguns, mas não tenho tempo porque estou a preparar uma festa de Natal, e tenho o cão, e os meus vizinhos são judeus, e hoje está a chover...
a gente lá no facebook ri-se muito
Ontem fui à representação do Estado de Baden-Württemberg, e - por uma vez sem exemplo! - cheguei antes da hora. Enquanto os outros não chegavam, meti conversa com uma senhora que também lá estava à espera (estamos em Berlim, pode-se). Elogiei as peças de arte espalhadas pelo foyer, rimo-nos do Superman espetado de cabeça na parede, perguntei quem era o artista e ela respondeu que não sabia, porque também não trabalhava ali.
Pois não: daí a nada um dos chefes dos Verdes entrou, foi ter com ela, e subiram para uma reunião.
Decididamente: eu devia ver mais televisão, e estar mais atenta à cara das pessoas. Um dia destes esbarro com a Merkel no supermercado, e penso que é uma tia qualquer.
++
Contei a história no facebook, palavra puxa palavra acabei a contar daquela vez que me cruzei com a chanceler na Filarmonia mas não lhe sorri, porque se os meus amigos do facebook soubessem que sorri à Merkel ainda me desamigavam todos e eu ficava a falar sozinha.
(Por acaso - e esta é a única frase séria deste post -, quem teme as represálias dos amigos por fazer ou dizer algo, já é uma pessoa que está a falar sozinha, profundamente sozinha: nem consigo própria fala.)
E então um amigo ofereceu-me uma "selfie" desse momento histórico na Filarmonia:
Pois não: daí a nada um dos chefes dos Verdes entrou, foi ter com ela, e subiram para uma reunião.
Decididamente: eu devia ver mais televisão, e estar mais atenta à cara das pessoas. Um dia destes esbarro com a Merkel no supermercado, e penso que é uma tia qualquer.
++
Contei a história no facebook, palavra puxa palavra acabei a contar daquela vez que me cruzei com a chanceler na Filarmonia mas não lhe sorri, porque se os meus amigos do facebook soubessem que sorri à Merkel ainda me desamigavam todos e eu ficava a falar sozinha.
(Por acaso - e esta é a única frase séria deste post -, quem teme as represálias dos amigos por fazer ou dizer algo, já é uma pessoa que está a falar sozinha, profundamente sozinha: nem consigo própria fala.)
E então um amigo ofereceu-me uma "selfie" desse momento histórico na Filarmonia:
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04 novembro 2015
arriscas um pouco por mim? (1)
O Campact (organização alemã semelhante à MoveOn) criou um guia para as pessoas que querem ajudar refugiados. Achei o texto muito interessante, porque mostra como é que na sociedade alemã se está a lidar com esta questão, e por isso deixo aqui uma tradução feita muito à pressa (o que significa: não pensar duas vezes à procura da tradução mais exacta, cortar algumas frases, etc.)
Guia para as pessoas que querem ajudar refugiados
Queres ajudar refugiados mas não sabes nem onde nem como? Aqui encontras algumas indicações a respeito do tema "participação directa" - e informações úteis sobre o que fazer perante discursos de ódio contra os refugiados na internet.
Fazer alguma coisa... para os refugiados
1. Quero ajudar os refugiados - mas como?
2. Como encontro parceiros para esta tarefa?
3. O que posso dar?
4. Quero visitar refugiados e conhecê-los pessoalmente - é possível?
5. Na prática, de que tipo de apoio é que os refugiados precisam?
6. O que posso fazer em particular pelas crianças?
7. Como é que posso ajudar a longo prazo?
8. Posso alojar refugiados na minha casa?
9. E quem é que ajuda os milhões de refugiados que não conseguem chegar cá?
Fazer alguma coisa... contra preconceitos e racismo
10. Como posso criar um ambiente de boa vontade para com os refugiados?
11. O que posso fazer quando a extrema-direita faz uma manifestação na minha cidade?
12. E qual é a melhor maneira de reagir a discursos de ódio na internet?
1. Quero ajudar os refugiados - mas como?
Na Alemanha já há dezenas de milhares de voluntários a ajudar os refugiados. Há um número quase infinito de possibilidades de fazer alguma coisa. Mas organizações como a Pro Asyl aconselham a que as pessoas reflictam um pouco sobre as suas motivações e expectativas antes de começarem a agir:
"Analise quais são os seus interesses, os seus pontos fortes e as suas limitações: têm uma área especial de acção? Procura antes de mais o contacto intenso com uma família, ou prefere participar em acções que não o vinculem tanto?"
Portanto, a primeira pergunta é: quanto tempo tem realmente? Quanta paciência? Como diz a Pro Asyl:
"Não queira fazer mais do que o que consegue. Uma coisa é certa: não vai conseguir resolver todos os problemas dos "seus" refugiados."
* Mais sobre o tema: "Como é que se pode envolver na ajuda aos refugiados", da Pro Asyl (em alemão)
A organização católica Caritas também avisa:
"É importante reflectir sobre a sua motivação pessoal e as suas expectativas para evitar desapontamentos e uma carga de trabalhos incomportável."
* Mais sobre o tema: "O que é que posso fazer?", da Caritas (em alemão)
A organização evangélica Diakonie tem disponível na internet um conjunto de perguntas e propostas de reflexão: "Como é que posso participar na ajuda aos refugiados?".
A rede de boas-vindas - mapa interactivo com iniciativas em toda a Alemanha.
2. Como encontro parceiros para esta tarefa?
Em muitas cidades e comunidades já há iniciativas de ajuda aos refugiados. Muitas são de paróquias ou de organizações sociais como a Cruz Vermelha, etc., bem como associações desportivas - mas nas últimas semanas surgiram por todo o país grupos independentes e iniciativas de ajuda.
"Contacte iniciativas existentes e integre-se nelas, em vez de criar estruturas paralelas ou até concorrentes", aconselha Kai Diekelmann da Caritas de Colónia. (aqui, em alemão)
No nosso mapa interactivo encontra um grande número dessas iniciativas. Os Conselhos de Refugiados, que há em todos os Estados da RFA, são também um extraordinário agente de networking. Têm uma experiência de décadas na ajuda a refugiados, e de luta por um direito de asilo mais humano e contra o racismo.
- Aqui encontra a lista de Conselhos de Refugiados.
- Sugestão: telefone para uma instituição de beneficência e peça uma lista de grupos de apoio existentes.
Também pode procurar na internet, com "ajuda aos refugiados" e o nome da sua cidade. Ou pode procurar no nosso mapa interactivo. Se não houver nenhum grupo, crie um novo!
Algumas dicas para lançar uma iniciativa:
- Afixe anúncios nos quadros dos supermercados ou das lojas biológicas para tentar encontrar outros voluntários.
- Afixe uma lista de contactos para interessados nos eventos de apresentação de novos alojamentos de refugiados.
- Peça ao seu jornal local que publique um anúncio.
- Inscreva a sua iniciativa na nossa rede de boas-vindas.
A rede de boas-vindas - mapa interactivo com iniciativas em toda a Alemanha.
3. O que posso dar?
É difícil dizer o que é mais necessário. Muitas vezes são precisos sapatos e roupa - geralmente para homens (porque a maior parte dos refugiados que estão a chegar são homens) e em tamanhos pequenos (S e M). Também há muita falta de bilhetes de autocarro e comboio, bicicletas e carrinhos de bebé, sacos-cama, colchões de campismo, capas da chuva, etc.
Muitos refugiados gostariam de ter cartões de telemóvel ou cartões pré-pagos (por exemplo, de provedores internacionais como Lebara), para poderem contactar com os famíliares que ficaram no seu país, ou com outros refugiados. Não dê nunca coisas à sorte, convém sempre:
- perguntar nos centros de alojamento de refugiados ou noutros locais - grupos locais de apoio, o conselho de refugiados local, etc., sobre o que é que está a faltar de momento;
- entregue os bens doados no centro respectivo - os grupos não têm capacidade para os ir buscar à sua casa;
- muitas vezes, dar dinheiro é a melhor solução, por ser mais flexível. Os grupos sabem onde melhor aplicar o dinheiro, e além disso têm sempre custos a cobrir.
Dar roupa é importante, mas há um conjunto de princípios básicos: naturalmente só roupa lavada de fresco e separada por tamanhos, já que o trabalho de separar roupa nos centros é extremamente demorado. É melhor entregar as roupas em caixas, em vez de sacos de plástico, porque são mais fáceis de arrumar. Um conselho a quem quer dar brinquedos:
"Uma boneca bonita, um triciclo, e 20, 50, 100 crianças? Qualquer pessoa que tenha em casa "apenas" duas crianças sabe o que isto significa. Quem deve receber aquele presente maravilhoso? Melhor seria oferecer 10 livros de ilustração iguais, ou 5 garrafinhas de bolas de sabão."
Estas e outras sugestões encontram-se no blogue da Andrea Juchem, que é voluntária.
4. Quero visitar refugiados e conhecê-los pessoalmente - é possível?
O contacto pessoal é possível, naturalmente, mas é preciso ter em conta alguns aspectos:
"Muitos refugiados alegram-se com uma visita solidária, e têm uma atitude muito acolhedora. Pode ir falar com os refugiados", afirma a Pro Asyl. "Mas faça-o sempre de forma educada e respeitadora, porque mesmo um pavilhão de alojamento é um espaço privado dos refugiados. Não é raro que o único sítio para se sentar que um refugiado tem para oferecer é a sua cama."
Também por esse motivo é importante criar espaços onde as pessoas se possam encontrar.
"Talvez haja no local de alojamento uma sala comum, ou um pátio, onde as pessoas possam estar umas com as outras. Melhor ainda é um local de encontro na localidade: já há um "Café Refúgio" na associação de refugiados? Procure na cidade, na Igreja, em associações vizinhas possibilidades de usar um espaço de encontro. Convide refugiados para irem até lá, e se for preciso vá mesmo buscá-los ao centro de alojamento."
* Mais sobre o tema: "Como é que se pode envolver na ajuda aos refugiados", da Pro Asyl (em alemão)
Se a princípio se sentir um pouco embaraçado, é normal - a maior parte dos refugiados também se estarão a sentir assim.
"Particulamente no início do contacto, é aconselhável prever muito tempo para se começarem a conhecer", aconselham a Caristas e a Diakonie num brochura comum. "Ouça o que dizem, e faça apenas perguntas delicadas (não faça um interrogatório!). Para a maior parte dos refugiados, o mais importante é o sinal - novo, em muitos casos - de que alguém se interessa realmente por eles. Precisam de tempo para perder o medo e a insegurança - que muitas vezes nasceram de más experiências. Também precisam de tempo para trabalhar acontecimentos traumáticos. É possível que reajam à sua aproximação com uma atitude fechada e desconfiança - especialmente se se tratar de pessoas que foram perseguidas ou passaram por experiências muito traumatizantes. O melhor é aceitar estas reacções em vez de as encarar como uma atitude de rejeição."
* Mais sobre o tema: "O que é que posso fazer?", da Caritas (em alemão)
E ainda uma sugestão do Conselho de Refugiados de Baden-Württemberg:
"Não se esqueça disto: uma oferta de ajuda é uma oferta. Se alguém a recusar, terá com certeza motivos para isso. Vá ter com outra pessoa, que certamente se alegrará por ter a sua ajuda."
5. Na prática, de que tipo de apoio é que os refugiados precisam?
As possibilidades - e as necessidades - são quase ilimitadas. Pergunte directamente no centro de acolhimento de refugiados ou nos grupos de apoio. Algumas ideias:
- Coisas que nos parecem banais podem ser uma ajuda enorme num país novo: guie os refugiados nas vizinhanças do centro de alojamento, ou até à cidade mais próxima. Acompanhe-os na ida ao supermercado. Explique-lhes as regras para andar de transportes públicos. Responda às suas questões sobre problemas da vida quotidiana.
- Se tiver um carro, ofereça-lhes boleias. Muitas vezes os refugiados têm de ir aos serviços estatais ou ao médico, e podem ter dificuldades em fazê-lo com transportes públicos. Ou ofereça-se para levar voluntários ou caixas de doações.
- A ida aos serviços estatais é muitas vezes uma situação complicada para os refugiados - que não falam alemão, e em muitos casos viveram situações traumatizantes. O simples facto de ir com eles já pode ser uma grande ajuda, para reduzir os medos ou animar os funcionários públicos a serem mais simpáticos. Também é necessária ajuda para preencher formulários.
- Acesso à internet é algo essencial para os refugiados - para estarem em rede, para fazerem skype com familiares, para procurarem informações importantes. Um projecto muito importante é instalar cafés-internet nos centros de alojamento, com computadores para uso gratuito dos refugiados, ou colaborar com grupos "freifunk" para instalar Wifi.
- A língua é essencial para uma boa entrada na Alemanha, mas os refugiados não têm acesso fácil a cursos de alemão estatais, e não têm dinheiro para os cursos privados. Organize cursos, arranje material pedagógico, e preveja acompanhamento para as crianças enquanto os pais estão no curso.
Para a orientação no novo país, é muito útil ter "pastas de boas-vindas" com informações sobre a cidade, endereços úteis, dicas para o dia-a-dia. Alguns exemplos:
- um "reader" para Munique, feito por voluntários
- uma brochura de uma cidade, feita em dez línguas
- informações, também em árabe, feitas pelo governo da cidade de Berlim
Nos primeiros meses, os refugiados não estão autorizados a trabalhar - embora muitos o quisessem fazer. Sem ferir as leis, pode ajudar do seguinte modo:
- Perguntar em empresas locais se podem oferecer estágios ou a possibilidade de assistir ao trabalho - isto é permitido. Organize visitas a empresas ou universidades, de modo a que os refugiados tenham contacto com profissões e áreas de trabalho na Alemanha, e possam ficar com uma ideia mais realista do mundo do trabalho.
- Após alguns meses, normalmente os refugiados podem trabalhar. Para eles (e para os empregadores) há um bolsa de trabalho online especial.
Nas seguintes brochuras podem encontrar-se muitas outras ideias e informações básicas para o voluntariado:
- "Acompanhar e apoiar refugiados e pessoas que pedem asilo", da Caritas de Munique
- "Com os refugiados", da Cruz Vermelha Alemã
- "Acompanhar refugiados", da Caritas e da Diakonie em Baden-Württemberg
Ainda um aviso da Pro Asyl:
"Não se esqueça que as pessoas que pedem asilo não são apenas pessoas em estado de necessidade. São pessoas que, com a sua fuga, já deram provas de uma grande capacidade de iniciativa, e que têm muitas competências: em "tandem" de idiomas, as pessoas podem aprender a língua do outro. Deixe que lhe mostrem as especialidades culinárias. Olhe para os refugiados como indivíduos à sua altura."
[Publico sem rever. Ainda falta traduzir muito. Se notar que há interesse nesta tradução, amanhã continuo o trabalho.]
Guia para as pessoas que querem ajudar refugiados
Queres ajudar refugiados mas não sabes nem onde nem como? Aqui encontras algumas indicações a respeito do tema "participação directa" - e informações úteis sobre o que fazer perante discursos de ódio contra os refugiados na internet.
(foto do site Campact Blog)
1. Quero ajudar os refugiados - mas como?
2. Como encontro parceiros para esta tarefa?
3. O que posso dar?
4. Quero visitar refugiados e conhecê-los pessoalmente - é possível?
5. Na prática, de que tipo de apoio é que os refugiados precisam?
6. O que posso fazer em particular pelas crianças?
7. Como é que posso ajudar a longo prazo?
8. Posso alojar refugiados na minha casa?
9. E quem é que ajuda os milhões de refugiados que não conseguem chegar cá?
Fazer alguma coisa... contra preconceitos e racismo
10. Como posso criar um ambiente de boa vontade para com os refugiados?
11. O que posso fazer quando a extrema-direita faz uma manifestação na minha cidade?
12. E qual é a melhor maneira de reagir a discursos de ódio na internet?
1. Quero ajudar os refugiados - mas como?
Na Alemanha já há dezenas de milhares de voluntários a ajudar os refugiados. Há um número quase infinito de possibilidades de fazer alguma coisa. Mas organizações como a Pro Asyl aconselham a que as pessoas reflictam um pouco sobre as suas motivações e expectativas antes de começarem a agir:
"Analise quais são os seus interesses, os seus pontos fortes e as suas limitações: têm uma área especial de acção? Procura antes de mais o contacto intenso com uma família, ou prefere participar em acções que não o vinculem tanto?"
Portanto, a primeira pergunta é: quanto tempo tem realmente? Quanta paciência? Como diz a Pro Asyl:
"Não queira fazer mais do que o que consegue. Uma coisa é certa: não vai conseguir resolver todos os problemas dos "seus" refugiados."
* Mais sobre o tema: "Como é que se pode envolver na ajuda aos refugiados", da Pro Asyl (em alemão)
A organização católica Caritas também avisa:
"É importante reflectir sobre a sua motivação pessoal e as suas expectativas para evitar desapontamentos e uma carga de trabalhos incomportável."
* Mais sobre o tema: "O que é que posso fazer?", da Caritas (em alemão)
A organização evangélica Diakonie tem disponível na internet um conjunto de perguntas e propostas de reflexão: "Como é que posso participar na ajuda aos refugiados?".
A rede de boas-vindas - mapa interactivo com iniciativas em toda a Alemanha.
2. Como encontro parceiros para esta tarefa?
Em muitas cidades e comunidades já há iniciativas de ajuda aos refugiados. Muitas são de paróquias ou de organizações sociais como a Cruz Vermelha, etc., bem como associações desportivas - mas nas últimas semanas surgiram por todo o país grupos independentes e iniciativas de ajuda.
"Contacte iniciativas existentes e integre-se nelas, em vez de criar estruturas paralelas ou até concorrentes", aconselha Kai Diekelmann da Caritas de Colónia. (aqui, em alemão)
No nosso mapa interactivo encontra um grande número dessas iniciativas. Os Conselhos de Refugiados, que há em todos os Estados da RFA, são também um extraordinário agente de networking. Têm uma experiência de décadas na ajuda a refugiados, e de luta por um direito de asilo mais humano e contra o racismo.
- Aqui encontra a lista de Conselhos de Refugiados.
- Sugestão: telefone para uma instituição de beneficência e peça uma lista de grupos de apoio existentes.
Também pode procurar na internet, com "ajuda aos refugiados" e o nome da sua cidade. Ou pode procurar no nosso mapa interactivo. Se não houver nenhum grupo, crie um novo!
Algumas dicas para lançar uma iniciativa:
- Afixe anúncios nos quadros dos supermercados ou das lojas biológicas para tentar encontrar outros voluntários.
- Afixe uma lista de contactos para interessados nos eventos de apresentação de novos alojamentos de refugiados.
- Peça ao seu jornal local que publique um anúncio.
- Inscreva a sua iniciativa na nossa rede de boas-vindas.
A rede de boas-vindas - mapa interactivo com iniciativas em toda a Alemanha.
3. O que posso dar?
É difícil dizer o que é mais necessário. Muitas vezes são precisos sapatos e roupa - geralmente para homens (porque a maior parte dos refugiados que estão a chegar são homens) e em tamanhos pequenos (S e M). Também há muita falta de bilhetes de autocarro e comboio, bicicletas e carrinhos de bebé, sacos-cama, colchões de campismo, capas da chuva, etc.
Muitos refugiados gostariam de ter cartões de telemóvel ou cartões pré-pagos (por exemplo, de provedores internacionais como Lebara), para poderem contactar com os famíliares que ficaram no seu país, ou com outros refugiados. Não dê nunca coisas à sorte, convém sempre:
- perguntar nos centros de alojamento de refugiados ou noutros locais - grupos locais de apoio, o conselho de refugiados local, etc., sobre o que é que está a faltar de momento;
- entregue os bens doados no centro respectivo - os grupos não têm capacidade para os ir buscar à sua casa;
- muitas vezes, dar dinheiro é a melhor solução, por ser mais flexível. Os grupos sabem onde melhor aplicar o dinheiro, e além disso têm sempre custos a cobrir.
Dar roupa é importante, mas há um conjunto de princípios básicos: naturalmente só roupa lavada de fresco e separada por tamanhos, já que o trabalho de separar roupa nos centros é extremamente demorado. É melhor entregar as roupas em caixas, em vez de sacos de plástico, porque são mais fáceis de arrumar. Um conselho a quem quer dar brinquedos:
"Uma boneca bonita, um triciclo, e 20, 50, 100 crianças? Qualquer pessoa que tenha em casa "apenas" duas crianças sabe o que isto significa. Quem deve receber aquele presente maravilhoso? Melhor seria oferecer 10 livros de ilustração iguais, ou 5 garrafinhas de bolas de sabão."
Estas e outras sugestões encontram-se no blogue da Andrea Juchem, que é voluntária.
4. Quero visitar refugiados e conhecê-los pessoalmente - é possível?
O contacto pessoal é possível, naturalmente, mas é preciso ter em conta alguns aspectos:
"Muitos refugiados alegram-se com uma visita solidária, e têm uma atitude muito acolhedora. Pode ir falar com os refugiados", afirma a Pro Asyl. "Mas faça-o sempre de forma educada e respeitadora, porque mesmo um pavilhão de alojamento é um espaço privado dos refugiados. Não é raro que o único sítio para se sentar que um refugiado tem para oferecer é a sua cama."
Também por esse motivo é importante criar espaços onde as pessoas se possam encontrar.
"Talvez haja no local de alojamento uma sala comum, ou um pátio, onde as pessoas possam estar umas com as outras. Melhor ainda é um local de encontro na localidade: já há um "Café Refúgio" na associação de refugiados? Procure na cidade, na Igreja, em associações vizinhas possibilidades de usar um espaço de encontro. Convide refugiados para irem até lá, e se for preciso vá mesmo buscá-los ao centro de alojamento."
* Mais sobre o tema: "Como é que se pode envolver na ajuda aos refugiados", da Pro Asyl (em alemão)
Se a princípio se sentir um pouco embaraçado, é normal - a maior parte dos refugiados também se estarão a sentir assim.
"Particulamente no início do contacto, é aconselhável prever muito tempo para se começarem a conhecer", aconselham a Caristas e a Diakonie num brochura comum. "Ouça o que dizem, e faça apenas perguntas delicadas (não faça um interrogatório!). Para a maior parte dos refugiados, o mais importante é o sinal - novo, em muitos casos - de que alguém se interessa realmente por eles. Precisam de tempo para perder o medo e a insegurança - que muitas vezes nasceram de más experiências. Também precisam de tempo para trabalhar acontecimentos traumáticos. É possível que reajam à sua aproximação com uma atitude fechada e desconfiança - especialmente se se tratar de pessoas que foram perseguidas ou passaram por experiências muito traumatizantes. O melhor é aceitar estas reacções em vez de as encarar como uma atitude de rejeição."
* Mais sobre o tema: "O que é que posso fazer?", da Caritas (em alemão)
E ainda uma sugestão do Conselho de Refugiados de Baden-Württemberg:
"Não se esqueça disto: uma oferta de ajuda é uma oferta. Se alguém a recusar, terá com certeza motivos para isso. Vá ter com outra pessoa, que certamente se alegrará por ter a sua ajuda."
5. Na prática, de que tipo de apoio é que os refugiados precisam?
As possibilidades - e as necessidades - são quase ilimitadas. Pergunte directamente no centro de acolhimento de refugiados ou nos grupos de apoio. Algumas ideias:
- Coisas que nos parecem banais podem ser uma ajuda enorme num país novo: guie os refugiados nas vizinhanças do centro de alojamento, ou até à cidade mais próxima. Acompanhe-os na ida ao supermercado. Explique-lhes as regras para andar de transportes públicos. Responda às suas questões sobre problemas da vida quotidiana.
- Se tiver um carro, ofereça-lhes boleias. Muitas vezes os refugiados têm de ir aos serviços estatais ou ao médico, e podem ter dificuldades em fazê-lo com transportes públicos. Ou ofereça-se para levar voluntários ou caixas de doações.
- A ida aos serviços estatais é muitas vezes uma situação complicada para os refugiados - que não falam alemão, e em muitos casos viveram situações traumatizantes. O simples facto de ir com eles já pode ser uma grande ajuda, para reduzir os medos ou animar os funcionários públicos a serem mais simpáticos. Também é necessária ajuda para preencher formulários.
- Acesso à internet é algo essencial para os refugiados - para estarem em rede, para fazerem skype com familiares, para procurarem informações importantes. Um projecto muito importante é instalar cafés-internet nos centros de alojamento, com computadores para uso gratuito dos refugiados, ou colaborar com grupos "freifunk" para instalar Wifi.
- A língua é essencial para uma boa entrada na Alemanha, mas os refugiados não têm acesso fácil a cursos de alemão estatais, e não têm dinheiro para os cursos privados. Organize cursos, arranje material pedagógico, e preveja acompanhamento para as crianças enquanto os pais estão no curso.
Para a orientação no novo país, é muito útil ter "pastas de boas-vindas" com informações sobre a cidade, endereços úteis, dicas para o dia-a-dia. Alguns exemplos:
- um "reader" para Munique, feito por voluntários
- uma brochura de uma cidade, feita em dez línguas
- informações, também em árabe, feitas pelo governo da cidade de Berlim
Nos primeiros meses, os refugiados não estão autorizados a trabalhar - embora muitos o quisessem fazer. Sem ferir as leis, pode ajudar do seguinte modo:
- Perguntar em empresas locais se podem oferecer estágios ou a possibilidade de assistir ao trabalho - isto é permitido. Organize visitas a empresas ou universidades, de modo a que os refugiados tenham contacto com profissões e áreas de trabalho na Alemanha, e possam ficar com uma ideia mais realista do mundo do trabalho.
- Após alguns meses, normalmente os refugiados podem trabalhar. Para eles (e para os empregadores) há um bolsa de trabalho online especial.
Nas seguintes brochuras podem encontrar-se muitas outras ideias e informações básicas para o voluntariado:
- "Acompanhar e apoiar refugiados e pessoas que pedem asilo", da Caritas de Munique
- "Com os refugiados", da Cruz Vermelha Alemã
- "Acompanhar refugiados", da Caritas e da Diakonie em Baden-Württemberg
Ainda um aviso da Pro Asyl:
"Não se esqueça que as pessoas que pedem asilo não são apenas pessoas em estado de necessidade. São pessoas que, com a sua fuga, já deram provas de uma grande capacidade de iniciativa, e que têm muitas competências: em "tandem" de idiomas, as pessoas podem aprender a língua do outro. Deixe que lhe mostrem as especialidades culinárias. Olhe para os refugiados como indivíduos à sua altura."
[Publico sem rever. Ainda falta traduzir muito. Se notar que há interesse nesta tradução, amanhã continuo o trabalho.]
03 novembro 2015
o que deixaremos aos nossos filhos
Há alguns anos fizeram obras numa igreja medieval de Nuremberga, a Santa Clara. Projecto de luxo, casamento perfeito entre a arquitectura moderna, a arte, a técnica e a espiritualidade (fica na rua principal, não muito longe da estação de caminho de ferro - um sítio para entrar, sentar-se, e respirar).
O problema foi que alguns sectores mais conservadores da cidade não concordaram com a modernização, o dinheiro não correu como devia ter corrido, e acabou por faltar para os vidros das janelas laterais.
Alguns amigos juntaram-se e ajudaram a comprar os vidros. Nós ríamo-nos com eles: "mostrem lá, qual é a janela que vão dar de herança aos vossos filhos?"
É mesmo isso: que vamos dar de herança aos nossos filhos?
Luz. Tenho um amigo que se gaba de já ter comprado 1 mm² de luz. Pode-se comprar aqui.
(para os mais apressados: conta do Grupo dos Amigos do Museu Nacional de Arte Antiga (GAMNAA) no Banco Millennium bcp / NIB 0033-0000-45468532333-05 / IBAN PT50-0033-0000-45468532333-05 / BIC/SWIFT BCOMPTPL.)
Música. Hoje, o António Costa Santos contava isto no facebook:
Um puto que eu conheço bem e adora música diz-me "vou só ali ao Multibanco" e eu, que sei que ele anda sempre sem cheta, pergunto "fazer o quê?", disposto a passar-lhe uns euros para comprar uma merenda ou um rissol, uma cerveja. O puto responde que vai "transferir 3 euros para o Conservatório, é pouco, mas nem dinheiro têm para pagar a água e eu fiz lá exames à pala, sinto-me na obrigação". Calo-me, copio o NIB e vou ao banco na Net, transferir pouco mais que ele, também estou teso, mas qualquer coisa, cheio de vergonha do Estado e do estado a que chegámos.
NIB 0781 0112 0112 0012 6492 6
A solidariedade é sempre algo positivo, mas isto são peditórios a mais. Sinal indubitável de um Estado a falhar. Caso para perguntar que é feito com os impostos que pagamos. Contando com os impostos sobre o salário, os descontos (do trabalhador e do empregador) e os impostos ao consumo, suspeito que o Estado ficará com um montante equivalente a 120% do dinheiro que nos chega às mãos (contas feitas de cabeça em cima do joelho - agradeço que me informem sobre o valor correcto).
Que saibamos deixar aos nossos filhos como herança - para além da luz, da música e da consciência solidária - um espírito de crítica e exigência em relação aos gastos do Estado.
O problema foi que alguns sectores mais conservadores da cidade não concordaram com a modernização, o dinheiro não correu como devia ter corrido, e acabou por faltar para os vidros das janelas laterais.
Alguns amigos juntaram-se e ajudaram a comprar os vidros. Nós ríamo-nos com eles: "mostrem lá, qual é a janela que vão dar de herança aos vossos filhos?"
É mesmo isso: que vamos dar de herança aos nossos filhos?
Luz. Tenho um amigo que se gaba de já ter comprado 1 mm² de luz. Pode-se comprar aqui.
(para os mais apressados: conta do Grupo dos Amigos do Museu Nacional de Arte Antiga (GAMNAA) no Banco Millennium bcp / NIB 0033-0000-45468532333-05 / IBAN PT50-0033-0000-45468532333-05 / BIC/SWIFT BCOMPTPL.)
Música. Hoje, o António Costa Santos contava isto no facebook:
Um puto que eu conheço bem e adora música diz-me "vou só ali ao Multibanco" e eu, que sei que ele anda sempre sem cheta, pergunto "fazer o quê?", disposto a passar-lhe uns euros para comprar uma merenda ou um rissol, uma cerveja. O puto responde que vai "transferir 3 euros para o Conservatório, é pouco, mas nem dinheiro têm para pagar a água e eu fiz lá exames à pala, sinto-me na obrigação". Calo-me, copio o NIB e vou ao banco na Net, transferir pouco mais que ele, também estou teso, mas qualquer coisa, cheio de vergonha do Estado e do estado a que chegámos.
NIB 0781 0112 0112 0012 6492 6
A solidariedade é sempre algo positivo, mas isto são peditórios a mais. Sinal indubitável de um Estado a falhar. Caso para perguntar que é feito com os impostos que pagamos. Contando com os impostos sobre o salário, os descontos (do trabalhador e do empregador) e os impostos ao consumo, suspeito que o Estado ficará com um montante equivalente a 120% do dinheiro que nos chega às mãos (contas feitas de cabeça em cima do joelho - agradeço que me informem sobre o valor correcto).
Que saibamos deixar aos nossos filhos como herança - para além da luz, da música e da consciência solidária - um espírito de crítica e exigência em relação aos gastos do Estado.
02 novembro 2015
"mão"
Tinha 15 anos, e andava de férias em Andaluzia. Perto de um monumento importante em Sevilha, uma cigana veio ter comigo. Espetou-me um cravo vermelho na mão, recusei. Insistiu que era um presente, eu não queria, ela não o aceitava de volta. Segurei o cravo a contragosto, ela agarrou-me a outra mão, queria lê-la. Recusei, forçou, leu atabalhoadamente: que ia ter muitos filhos, viajar muito, ser rica. Depois pediu dinheiro. Disse-lhe que não tinha, devolvi-lhe o cravo. Ficou zangada, furiosa. Encolhi os ombros. Ela é que me quis ler a mão, eu não pedi.
E afinal? Rica, como tanta gente do primeiro mundo. Viagens, q.b. - ainda agora estou encalhada no aeroporto de Munique, o avião tem uma hora de atraso. Filhos, dois infinitos deles.
Devia ter pago à cigana: a partir da palma indecifrável que é a da minha mão, deu-me palavras para classificar o que depois aconteceu.
A verdade é que tenho a pele das mãos muito seca. Na semana passada fui ao consulado fazer o cartão do cidadão, e a máquina não me apanhava as impressões digitais. Por um triz não existia. O funcionário recuperou-me para o sistema: sugeriu que esfregasse os dedos no nariz, e a máquina lá conseguiu desenhar, a custo, as curvas de nível de altos e baixos só meus.
E afinal? Rica, como tanta gente do primeiro mundo. Viagens, q.b. - ainda agora estou encalhada no aeroporto de Munique, o avião tem uma hora de atraso. Filhos, dois infinitos deles.
Devia ter pago à cigana: a partir da palma indecifrável que é a da minha mão, deu-me palavras para classificar o que depois aconteceu.
A verdade é que tenho a pele das mãos muito seca. Na semana passada fui ao consulado fazer o cartão do cidadão, e a máquina não me apanhava as impressões digitais. Por um triz não existia. O funcionário recuperou-me para o sistema: sugeriu que esfregasse os dedos no nariz, e a máquina lá conseguiu desenhar, a custo, as curvas de nível de altos e baixos só meus.
29 outubro 2015
"jóia"
Em escala em Bruxelas, a caminho de Lyon, depois de uma noite de menos de quatro horas (como é que os to-dos fazem para se juntarem todos na véspera das saídas?), hoje estava decidida a não participar nos trabalhos da nossa Enciclopédia, mas quando vi qual era a palavra...
Ora bem: o que tem de ser tem muita força, noutro dia dormirei.
Jóias. Como qualquer minhota que se preze, também eu herdei o meu quinhão de jóias das avós. O ouro da família: cordão e fio, alfinete de libras, brincos, contas de Viana.
A minha avó guardava as suas jóias numa gaveta da mesa da sala de jantar, fechadas à chave. Também herdei essa mesa, e surpreendi-me com a sua fragilidade. Qualquer martelada bem dada arrombaria a gaveta, libertaria as jóias guardadas. Tanta gente entrou e saiu pelas portas daquela casa, sempre abertas, e nunca ninguém se lembrou de rebentar a fechadura pueril. Não era a chave que protegia as jóias das minhas avós - era o respeito que a família merecia e que cada visitante se merecia a si próprio.
Muitos anos mais tarde, comprámos uma ruína em Weimar, fizemos obras, e mudámos para a casa nova quando ainda havia pintores a fazer os últimos trabalhos. Todas as tardes lhes servia um café e bolachinhas na melhor varanda, na melhor louça (a culpa é daquela história do Lavrador da Arada que vinha num livro da escola primária: condicionou-me). Um deles, no caminho entre a varanda e o trabalho, roubou-me a carteira. Achei que a teria posto noutro sítio, não desconfiei. Nem sequer me lembrei que o Joachim se tinha queixado que na véspera lhe tinha desaparecido o desodorizante e o perfume. O dia chegou ao fim, os homens foram para casa, eu tive um pressentimento e fui ver a caixa das jóias: vazia!
O primeiro instante foi de choque, o segundo foi de alívio. Pensei: agora já posso ir para férias descansada, nunca mais vou ter medo que me roubem o ouro.
Algumas semanas mais tarde, na Romaria da Senhora da Agonia, vi as minhas jóias mil vezes ao peito de outras mulheres, e senti que não tinha perdido nada. Continuavam no mundo, algures. Só não estavam na minha caixa.
[Esta minha mania de não me deixar vencer pela adversidade ainda vai acabar mal. Estou mesmo a imaginar a cena: daqui a muitos anos, a Ceifeira a olhar-me com os seus olhos cruéis, e eu:
- Calha bem que me leves o corpo, já me andava a estorvar um bocadinho.
Ela a rir-se, malvada:
- Ha ha ha! Eu levo tudo, corpo e espírito!
- Pensas tu!, direi eu escarninha. Não sabes o que está do outro lado, ainda não morreste!
Ressabiada, vira-me as costas. Rejeitada dentro do corpo há muito divorciado de mim, pensarei então que afinal há um tempo para tudo, um tempo para viver e um tempo para morrer, e que até nem é má ideia deixar-me ir completamente, largar enfim os erros que acumulei ao longo da vida e me continuam a incomodar. Uma libertação. Apresso-me a chamá-la, digo-lhe que estava a brincar, peço-lhe que não se amofine.
- Queres, então?
- Quero, pois!
- Amigas para sempre?
- Para sempre.
E lá vou eu desta para melhor, convencida que vou feliz.]
Ora bem: o que tem de ser tem muita força, noutro dia dormirei.
Jóias. Como qualquer minhota que se preze, também eu herdei o meu quinhão de jóias das avós. O ouro da família: cordão e fio, alfinete de libras, brincos, contas de Viana.
A minha avó guardava as suas jóias numa gaveta da mesa da sala de jantar, fechadas à chave. Também herdei essa mesa, e surpreendi-me com a sua fragilidade. Qualquer martelada bem dada arrombaria a gaveta, libertaria as jóias guardadas. Tanta gente entrou e saiu pelas portas daquela casa, sempre abertas, e nunca ninguém se lembrou de rebentar a fechadura pueril. Não era a chave que protegia as jóias das minhas avós - era o respeito que a família merecia e que cada visitante se merecia a si próprio.
Muitos anos mais tarde, comprámos uma ruína em Weimar, fizemos obras, e mudámos para a casa nova quando ainda havia pintores a fazer os últimos trabalhos. Todas as tardes lhes servia um café e bolachinhas na melhor varanda, na melhor louça (a culpa é daquela história do Lavrador da Arada que vinha num livro da escola primária: condicionou-me). Um deles, no caminho entre a varanda e o trabalho, roubou-me a carteira. Achei que a teria posto noutro sítio, não desconfiei. Nem sequer me lembrei que o Joachim se tinha queixado que na véspera lhe tinha desaparecido o desodorizante e o perfume. O dia chegou ao fim, os homens foram para casa, eu tive um pressentimento e fui ver a caixa das jóias: vazia!
O primeiro instante foi de choque, o segundo foi de alívio. Pensei: agora já posso ir para férias descansada, nunca mais vou ter medo que me roubem o ouro.
Algumas semanas mais tarde, na Romaria da Senhora da Agonia, vi as minhas jóias mil vezes ao peito de outras mulheres, e senti que não tinha perdido nada. Continuavam no mundo, algures. Só não estavam na minha caixa.
[Esta minha mania de não me deixar vencer pela adversidade ainda vai acabar mal. Estou mesmo a imaginar a cena: daqui a muitos anos, a Ceifeira a olhar-me com os seus olhos cruéis, e eu:
- Calha bem que me leves o corpo, já me andava a estorvar um bocadinho.
Ela a rir-se, malvada:
- Ha ha ha! Eu levo tudo, corpo e espírito!
- Pensas tu!, direi eu escarninha. Não sabes o que está do outro lado, ainda não morreste!
Ressabiada, vira-me as costas. Rejeitada dentro do corpo há muito divorciado de mim, pensarei então que afinal há um tempo para tudo, um tempo para viver e um tempo para morrer, e que até nem é má ideia deixar-me ir completamente, largar enfim os erros que acumulei ao longo da vida e me continuam a incomodar. Uma libertação. Apresso-me a chamá-la, digo-lhe que estava a brincar, peço-lhe que não se amofine.
- Queres, então?
- Quero, pois!
- Amigas para sempre?
- Para sempre.
E lá vou eu desta para melhor, convencida que vou feliz.]
28 outubro 2015
subir à montanha
No ano passado repeti um post que escrevi em 2011. E aqui está ele de novo, só para dizer por onde vou andar nos próximos dias. Os amigos já avisaram que o tempo está lindíssimo, e podemos dar longos passeios.
(Repetido todos os anos, como um ritual, este meu post já parece o filme "dinner for one", que passa na televisão alemã várias vezes no dia 31 de Dezembro.)
(Repetido todos os anos, como um ritual, este meu post já parece o filme "dinner for one", que passa na televisão alemã várias vezes no dia 31 de Dezembro.)
dias de magia (2)
Primeiro dia
Chegar. No aeroporto, a enorme surpresa e a alegria de sermos recebidos por uma amiga que julgávamos em Portugal. Em casa, queijo e vinho pela noite adentro, conversas e risos.
E o olhar dos amigos: atento e perscrutador, procurando-me até ao fundo dos olhos - como fazia o meu pai, para concluir "pareces bem, cachopa".
Estou bem. Rodeada de gente que busca o chão dos meus olhos, estou o melhor possível.
Segundo dia
Amigos oferecem-se para trocar de quarto connosco - recebemos deles a floresta, as estrelas que nos entram pela janela.
Conversamos sobre as nossas vidas, as nossas angústias e alegrias. Falamo-nos e ouvimo-nos com confiança e atitude de profunda aceitação.
Aller en profondeur pour toucher l'universel.
Lá fora, a paisagem em tranquila transformação. A luz desliza pelas árvores, ilumina por dentro pedaços de amarelo e laranja. Não faço fotografias, não me quero perder da conversa. Uma mãe conta como diz o amor através da comida. Como, ao fim do dia, acolhe com aromas de bolo no forno essa filha que anda perdida em muito sofrimento. Como inventa um perfeito equilíbrio nas tartes de legumes para os filhos comerem no intervalo das aulas: pedaços de ternura na sacola.
Ce n'est pas le bout du tunnel, c'est aujourd'hui.
Depois do jantar, a música: uma canção de Clarika na voz de uma amiga e na sua guitarra (e que linda mensagem). George Brassens, les Croquants. Estamos na França, temos cinquenta anos e tanto que nos une.
Terceiro dia
Acordo cedo, agasalho-me à pressa e saio de máquina fotográfica na mão. Atravesso a floresta rapidamente, inquieta dos ruídos da noite (e se me aparece agora uma enormejavalia com javalizinhos?), inquieta de chegar demasiado tarde ao espectáculo da madrugada. Chego a tempo. O céu está tomado por uma poderosa carga de nuvens, o sol vai escalando os montes a custo, arde em pequenas nuvens tresmalhadas, mostra-se por uns minutos, encanta-me as árvores e o caminho da floresta com a sua luz rasa e dourada, e esconde-se de novo.
Ao pequeno-almoço:
- O que é um egoísta?
- É alguém que não pensa em mim.
- É alguém que não pensa em mim.
Mostro as fotografias, toda orgulhosa. O Joachim sugere "amanhã, podias experimentar a preto e branco".
"Amanhã?! Pensas que vai haver amanhã?"
Olho pela janela enorme, e não vejo paisagem, mas vida: árvores, pássaros, insectos. Vida intensa e densa, respiração.
Notre seule chance c'est l'ésprit de remise en question.
Quarto dia
Ao pequeno-almoço duas amigas, professoras, falam do trabalho com os alunos pequeninos. Como fazê-los tomar consciência do seu corpo? "O que se passa agora mesmo no teu corpo?" "A respiração!" "E o que é preciso para respirar?" "Reflectir!" "A sério?!", e a digestão, o coração que bate, "Tudo isso no meu corpo? tanta coisa!" O yoga infantil, a aprendizagem do corpo como caixa-de-ressonância, a aprendizagem do grupo na improvisação da música e na busca de um ritmo comum. Ouço-as, deliciada: a escola como local de prazer, de missão humanitária, de entrega com alegria.
À hora do lanche o nevoeiro abre, liberta a encosta verde do monte.
"Oh, que calma vai caindo".
Prier c'est d'abord cesser de faire autre chose.
Quand on demande à Dieu, la première réponse c'est la paix - même si le problème n'est pas résolu.
Depois do jantar, o jogo: sentados numa roda de cadeiras, temos de mudar de lugar permanentemente, tentando impedir que o que está de pé consiga sentar-se numa cadeira momentaneamente vazia. Temos cinquenta anos, dores de costas, e rimos e caímos das cadeiras, e damos connosco sentados nos joelhos dos outros, uma e outra vez, dizemos brejeiros que ça c'est angoissant.
Quinto dia
Levanto-me cedo. Saio para a floresta, já sem medo dos bichos da noite. O céu está limpo, hoje as nuvens estão pousadas no vale. O sol virá mais tarde, sinos de aldeias longínquas anunciam-no já, e eu espero: os pés encharcados do orvalho da floresta, as mãos geladas, o coração sereno, comovida de beleza.
Será que nos lembramos do que acontece de bom ao longo do nosso dia? Uma proposta: anotar diariamente cinco momentos bons. Mudar a perspectiva: do derrotismo para a consciência do bem que habita a minha vida.
No meio da fragilidade, perder o medo. Há um caminho de vida para mim - não um caminho de fuga às dificuldades, mas de acolher a minha vida, dizer-lhe "sim!" - não tenho outra vida senão esta que me foi dado viver neste dia. E é neste dia que posso acolher o "sim!" de Deus.
Criar sistemas anti-rotina: não estamos condenados a repetir. Podemos começar sempre.
S.Paulo: "sois filhos, e não escravos".
Antes da partida, trocamos informações.
Filmes: Et maintenant, on va où?; Habemus Papam; También la lluvia; We want sex equality; Louise-Michel; Poulet aux prunes; Lantana; El secreto de sus ojos; Le gamin au vélo; A separation; La Guerre est déclarée.
Livros: Pietro De Paoli; L'origine de la violence; Olivier Le Gendre (Confession d'un cardinal); Maurice Bellet (Minuscule traité acide de spiritualité); Madeleine Delbrêl (La joie de croire); Deux petits pas sur le sable mouillé; Une femme fuyant l’annonce.
Terminou. Continua. Germina em nós.
todos diferentes, todos iguais
Ontem, em Berlim, vi um grupo de refugiados. Era uma família grande, estavam sentados num banco da estação de Friedrichsstrasse. Os miúdos apontaram para o Fox, muito contentes. Não parei porque ia carregadíssima e cheia de pressa, mas gostei daquele ar de normalidade: uma família sentada num banco à espera de um comboio, e as crianças entusiasmadas com um cão que passa. Gosto de sermos tão iguais.
Uma amiga contou-me como se apercebe da presença de refugiados: quando vê vários rapazes ou homens em grupo pela rua, andando devagar como se não tivessem um objectivo, ou quando demoram imenso tempo nos corredores do supermercado, tentando perceber os artigos expostos. Iguais a mim: é a figura que faço nos supermercados dos outros países.
Na semana passada estive em Erding, na Baviera. Contaram-me que prepararam parte de um aeroporto militar para acolher os refugiados que diariamente chegam em grande número a essa região. Os meus amigos foram ver as instalações, e ficaram com a sensação que tudo estava a ser organizado por pessoas com muita experiência e competência. Em meia dúzia de dias improvisaram quartos com capacidade para seis pessoas, mais as casas de banho e cozinhas. Até fizeram um caminho de peões ao longo da estrada, para as pessoas poderem ir ao centro da cidade sem correrem o risco de serem atropeladas. Tentam criar grupos por nacionalidade, etnia e religião, tentam alojar as famílias em divisões próximas. Cada pessoa que chega recebe um lugar, um conjunto de objectos de higiene individual, roupa de cama e toalhas. A comida é toda vegetariana, para evitar conflitos com hábitos alimentares. As questões logísticas parecem estar entregues a pessoas competentes, e saber isso permite acalmar um pouco os ânimos.
No entanto, os alemães com quem falei sentem-se inseguros. As mulheres, em especial, têm agora mais medo de sair à rua, fazer jogging na floresta, ir a certas ruas da cidade. As ruas estão diferentes, com aqueles bandos de homens ou rapazes parados, a olhar. Pobres refugiados: muito antes de sequer começarem a pensar em fazer alguma maldade, já despertam desconfiança. E não é por questões de preconceito, é simplesmente porque nas ruas alemãs não é costume haver grupos de homens parados, a ver quem passa. As ruas estão diferentes, e as pessoas não se sabem orientar no mundo que já não é bem o seu. Para baixar o nível de desconfiança, bastava informar os refugiados sobre o mal-estar que certos comportamento provocam - de facto, melhor seria dar-lhes a possibilidade de se ocuparem em algo útil e que lhes desse satisfação, misturá-los com a população alemã.
Para os refugiados que estão no aeroporto militar de Erding, é difícil avançar com projectos de ocupação do imenso tempo livre, porque se trata apenas de um alojamento temporário. Mal se arranje uma cidade que possa acolher aquelas pessoas, os autocarros levarão este grupo para a sua nova morada, os quartos serão limpos, o armazém encher-se-á com novas resmas de roupa de cama e produtos de higiene pessoal, e tudo ficará a postos para acolher os próximos refugiados que chegam do sul.
Mesmo assim, alguns conseguem ficar. Falaram-me de uma pensão, um sítio tão desagradável que nunca tinha clientes, cujo dono está a receber uma fortuna para alojar menores de idade. Os rapazes são visitados diariamente por assistentes sociais que tentam resolver os seus problemas e ajudar a fazer as compras no supermercado. A princípio, os assistentes sociais cozinhavam, mas os miúdos não comiam. Era impossível cozinhar ao agrado de todos. Parece que de momento a base da alimentação deles é tostas. Uma dessas assistentes contou que a maior parte dos miúdos são boa gente, mas há alguns mais rufias, que conseguem dar cabo do ambiente. Fico a imaginar aquela pensão de quartos velhos e sem conforto, os jovens sem o enquadramento de uma família que os escore e proteja, os assistentes sociais sem sequer falar as línguas deles.
Parece uma tarefa impossível, e o desalento faz o seu caminho: em que é que nos fomos meter?
Mas há pessoas como a Adriana Costa Santos, que foi para Bruxelas ajudar os refugiados, fala com eles, e conta as suas história no blogue "Chegada à paz". Leiam, leiam. Ela vai ao encontro das pessoas por trás dos seus problemas, desmonta o desconhecido e as desconfianças, e mostra que a proximidade é possível. O post de hoje comoveu-me. Refugiados, europeus? Seres humanos que se encontram na palavra e na escuta.
Contado pela Adriana, parece simples.
Uma amiga contou-me como se apercebe da presença de refugiados: quando vê vários rapazes ou homens em grupo pela rua, andando devagar como se não tivessem um objectivo, ou quando demoram imenso tempo nos corredores do supermercado, tentando perceber os artigos expostos. Iguais a mim: é a figura que faço nos supermercados dos outros países.
Na semana passada estive em Erding, na Baviera. Contaram-me que prepararam parte de um aeroporto militar para acolher os refugiados que diariamente chegam em grande número a essa região. Os meus amigos foram ver as instalações, e ficaram com a sensação que tudo estava a ser organizado por pessoas com muita experiência e competência. Em meia dúzia de dias improvisaram quartos com capacidade para seis pessoas, mais as casas de banho e cozinhas. Até fizeram um caminho de peões ao longo da estrada, para as pessoas poderem ir ao centro da cidade sem correrem o risco de serem atropeladas. Tentam criar grupos por nacionalidade, etnia e religião, tentam alojar as famílias em divisões próximas. Cada pessoa que chega recebe um lugar, um conjunto de objectos de higiene individual, roupa de cama e toalhas. A comida é toda vegetariana, para evitar conflitos com hábitos alimentares. As questões logísticas parecem estar entregues a pessoas competentes, e saber isso permite acalmar um pouco os ânimos.
No entanto, os alemães com quem falei sentem-se inseguros. As mulheres, em especial, têm agora mais medo de sair à rua, fazer jogging na floresta, ir a certas ruas da cidade. As ruas estão diferentes, com aqueles bandos de homens ou rapazes parados, a olhar. Pobres refugiados: muito antes de sequer começarem a pensar em fazer alguma maldade, já despertam desconfiança. E não é por questões de preconceito, é simplesmente porque nas ruas alemãs não é costume haver grupos de homens parados, a ver quem passa. As ruas estão diferentes, e as pessoas não se sabem orientar no mundo que já não é bem o seu. Para baixar o nível de desconfiança, bastava informar os refugiados sobre o mal-estar que certos comportamento provocam - de facto, melhor seria dar-lhes a possibilidade de se ocuparem em algo útil e que lhes desse satisfação, misturá-los com a população alemã.
Para os refugiados que estão no aeroporto militar de Erding, é difícil avançar com projectos de ocupação do imenso tempo livre, porque se trata apenas de um alojamento temporário. Mal se arranje uma cidade que possa acolher aquelas pessoas, os autocarros levarão este grupo para a sua nova morada, os quartos serão limpos, o armazém encher-se-á com novas resmas de roupa de cama e produtos de higiene pessoal, e tudo ficará a postos para acolher os próximos refugiados que chegam do sul.
Mesmo assim, alguns conseguem ficar. Falaram-me de uma pensão, um sítio tão desagradável que nunca tinha clientes, cujo dono está a receber uma fortuna para alojar menores de idade. Os rapazes são visitados diariamente por assistentes sociais que tentam resolver os seus problemas e ajudar a fazer as compras no supermercado. A princípio, os assistentes sociais cozinhavam, mas os miúdos não comiam. Era impossível cozinhar ao agrado de todos. Parece que de momento a base da alimentação deles é tostas. Uma dessas assistentes contou que a maior parte dos miúdos são boa gente, mas há alguns mais rufias, que conseguem dar cabo do ambiente. Fico a imaginar aquela pensão de quartos velhos e sem conforto, os jovens sem o enquadramento de uma família que os escore e proteja, os assistentes sociais sem sequer falar as línguas deles.
Parece uma tarefa impossível, e o desalento faz o seu caminho: em que é que nos fomos meter?
Mas há pessoas como a Adriana Costa Santos, que foi para Bruxelas ajudar os refugiados, fala com eles, e conta as suas história no blogue "Chegada à paz". Leiam, leiam. Ela vai ao encontro das pessoas por trás dos seus problemas, desmonta o desconhecido e as desconfianças, e mostra que a proximidade é possível. O post de hoje comoveu-me. Refugiados, europeus? Seres humanos que se encontram na palavra e na escuta.
Contado pela Adriana, parece simples.
um pouco da RDA
Uma amiga nossa, da região de Leipzig, vendeu a quinta onde passou toda a sua vida. Deu-se conta de que aquela propriedade começara a ser uma prisão, e que dá um trabalho para o qual ela já não tem nem força nem saúde.
No sábado passado combinou com um casal vizinho grelharem umas salsichas no pátio, enquanto queimavam a última tralha. Mas de repente o pátio começou a encher-se com outros vizinhos, amigos, família. Todos com cestos carregados de comidas e bebidas para um piquenique. Nós, que somos os seus novos vizinhos, também fomos.
Por entre salsichas e copos de vinho, os amigos contavam das muitas festas que ali fizeram na altura do Natal, improvisando decorações e jogos com o que havia, de volta de uma fogueira enorme. Os olhos deles brilhavam ao lembrar o gigantesco calendário de advento pendurado na porta do palheiro, as várias camadas de casacos que vestiam para suportar o frio. A nossa amiga também falou dessas festas, e do quanto significavam para eles, no tempo da RDA.
"A comunidade era o mais importante na vida", dizia ela. "A comunidade era tudo para nós", sublinhava.
De volta da fogueira, a sua pequena comunidade despedia-se dela e de mais um bocadinho da RDA que foi a deles e que morria nessa noite.
No sábado passado combinou com um casal vizinho grelharem umas salsichas no pátio, enquanto queimavam a última tralha. Mas de repente o pátio começou a encher-se com outros vizinhos, amigos, família. Todos com cestos carregados de comidas e bebidas para um piquenique. Nós, que somos os seus novos vizinhos, também fomos.
Por entre salsichas e copos de vinho, os amigos contavam das muitas festas que ali fizeram na altura do Natal, improvisando decorações e jogos com o que havia, de volta de uma fogueira enorme. Os olhos deles brilhavam ao lembrar o gigantesco calendário de advento pendurado na porta do palheiro, as várias camadas de casacos que vestiam para suportar o frio. A nossa amiga também falou dessas festas, e do quanto significavam para eles, no tempo da RDA.
"A comunidade era o mais importante na vida", dizia ela. "A comunidade era tudo para nós", sublinhava.
De volta da fogueira, a sua pequena comunidade despedia-se dela e de mais um bocadinho da RDA que foi a deles e que morria nessa noite.
"ironia"
Das ironias, a minha favorita é a auto-ironia. E a que mais odeio é a ironia usada como desculpa por esses que, para se esquivarem à enormidade que disseram, mandam para canto: "oh, era ironia - não me digas que não percebeste?!"
Uma saída de emergência que já me deu muito jeito em tempos idos, quando dizia enormidades sem dar conta ("em tempos idos", diz ela, hahaha), e os amigos perguntavam, perplexos: "isso é ironia, não é?" Eu respondia muito depressa "é, é!", mudava logo de conversa, e ia lamber as feridas da minha auto-estima para um cantinho discreto.
Entretanto, à medida que vou indo para velha, percebo que o desafio é saber morrer de pé. Ou sentada, no meu caso: à maneira dos kamikaze.
(Já disse hoje que adoro a auto-ironia?)
Uma saída de emergência que já me deu muito jeito em tempos idos, quando dizia enormidades sem dar conta ("em tempos idos", diz ela, hahaha), e os amigos perguntavam, perplexos: "isso é ironia, não é?" Eu respondia muito depressa "é, é!", mudava logo de conversa, e ia lamber as feridas da minha auto-estima para um cantinho discreto.
Entretanto, à medida que vou indo para velha, percebo que o desafio é saber morrer de pé. Ou sentada, no meu caso: à maneira dos kamikaze.
(Já disse hoje que adoro a auto-ironia?)
27 outubro 2015
um pouco de metajornalismo por dia, não sabe o bem que lhe fazia...
A propósito do post de ontem (o "44" e a "ex-namorada de Sócrates"), devo confessar que não sou melhor que os outros, apenas vivo numa sociedade que já viu até onde se pode descer quando se baixa a guarda, e por isso treina muito melhor cada cidadão para se manter alerta.
Se me deixassem mandar (hehehe), usava parte do telejornal para fazer metajornalismo. Bastava deixar de transmitir aquelas partes do autocarro dos jogadores de futebol e do "como é que se sentiu?", e já se ganhava espaço para ter uma pequena mesa redonda de gente do jornalismo, da sociologia e da filosofia (ou outros ramos dessas formações "improdutivas e inúteis") a analisar uma determinada notícia do ponto de vista dos valores subjacentes ou ausentes. Sem dizer o nome do autor da notícia, nem sequer o meio de comunicação onde apareceu - falar apenas de conteúdos.
(opá, opá, só de imaginar um programa desses, uma conversinha de palavras claras, simples e incisivas em horário nobre, já estou a babar)
Se me deixassem mandar (hehehe), usava parte do telejornal para fazer metajornalismo. Bastava deixar de transmitir aquelas partes do autocarro dos jogadores de futebol e do "como é que se sentiu?", e já se ganhava espaço para ter uma pequena mesa redonda de gente do jornalismo, da sociologia e da filosofia (ou outros ramos dessas formações "improdutivas e inúteis") a analisar uma determinada notícia do ponto de vista dos valores subjacentes ou ausentes. Sem dizer o nome do autor da notícia, nem sequer o meio de comunicação onde apareceu - falar apenas de conteúdos.
(opá, opá, só de imaginar um programa desses, uma conversinha de palavras claras, simples e incisivas em horário nobre, já estou a babar)
26 outubro 2015
o "44" e a "ex-namorada de Sócrates"
Ando há meses com vontade de dizer isto, e vai ser hoje: trocar o nome de uma pessoa por um número é uma estratégia para ferir deliberadamente a dignidade humana. Em termos simbólicos, chamar "44" ao José Sócrates não é muito diferente de lhe tatuar esse número no braço. Em termos simbólicos, repito. Durante meses, uma certa comunicação social usou e abusou dessa estratégia e não foi impedida, por quem de direito, de introduzir nos nossos costumes uma prática de raiz ideológica nazi.
Andamos iludidos, pensando que ser nazi é um problema "genético" que só assiste aos alemães (este "genético", ou o também muito usado "está-lhes na massa do sangue", vai beber à mesma ideologia, aliás). Os portugueses não correm o risco de ter deslizes desses, afinal de contas são um povo de brandos costumes. Brandas areias movediças onde nos vamos alegremente afundando.
Entretanto, à boleia da operação Marquês, o cerco à jornalista Fernanda Câncio aperta-se cada vez mais. Trocam-lhe o nome pela designação "ex-namorada" - o que, não sendo um número, é na mesma um ataque à sua alteridade e dignidade - e envolvem-na numa rede de insinuações torpes com base em coisa nenhuma. A mais recente que vi incluía-a na "teia de dinheiro de Sócrates". Será que tinha contas secretas, levou, trouxe, recebeu dinheiro? Não. Para o Correio da Manhã, para fazer parte da "teia de dinheiro de Sócrates" basta ter-lhe telefonado, e a uma das arguidas do processo.
Tudo isto seria ridículo se não ferisse irremediavelmente o bom nome de uma pessoa, e se não fosse mais um golpe no mínimo de decência que se exige a uma sociedade civilizada.
A "teia" do Correio da Manhã atinge muitas outras pessoas, mas falo apenas do que conheço. E o que conheço é uma jornalista cujos valores, capacidade de análise e de exposição admiro imenso, e que parece estar a ser vítima de pessoas dispostas a denegrir a sua imagem. Pergunto: com que objectivos?
Dei apenas dois exemplos. Não são únicos, infelizmente.
Há que estar alerta, porque na nossa comunicação social proliferam chouricinhos de pus que espalham o seu veneno em função de interesses que só eles próprios saberão, e envenenam-nos a todos, arrastando a pouco e pouco o nosso sentido de decência para um estado vegetativo.
Andamos iludidos, pensando que ser nazi é um problema "genético" que só assiste aos alemães (este "genético", ou o também muito usado "está-lhes na massa do sangue", vai beber à mesma ideologia, aliás). Os portugueses não correm o risco de ter deslizes desses, afinal de contas são um povo de brandos costumes. Brandas areias movediças onde nos vamos alegremente afundando.
Entretanto, à boleia da operação Marquês, o cerco à jornalista Fernanda Câncio aperta-se cada vez mais. Trocam-lhe o nome pela designação "ex-namorada" - o que, não sendo um número, é na mesma um ataque à sua alteridade e dignidade - e envolvem-na numa rede de insinuações torpes com base em coisa nenhuma. A mais recente que vi incluía-a na "teia de dinheiro de Sócrates". Será que tinha contas secretas, levou, trouxe, recebeu dinheiro? Não. Para o Correio da Manhã, para fazer parte da "teia de dinheiro de Sócrates" basta ter-lhe telefonado, e a uma das arguidas do processo.
Tudo isto seria ridículo se não ferisse irremediavelmente o bom nome de uma pessoa, e se não fosse mais um golpe no mínimo de decência que se exige a uma sociedade civilizada.
A "teia" do Correio da Manhã atinge muitas outras pessoas, mas falo apenas do que conheço. E o que conheço é uma jornalista cujos valores, capacidade de análise e de exposição admiro imenso, e que parece estar a ser vítima de pessoas dispostas a denegrir a sua imagem. Pergunto: com que objectivos?
Dei apenas dois exemplos. Não são únicos, infelizmente.
Há que estar alerta, porque na nossa comunicação social proliferam chouricinhos de pus que espalham o seu veneno em função de interesses que só eles próprios saberão, e envenenam-nos a todos, arrastando a pouco e pouco o nosso sentido de decência para um estado vegetativo.
25 outubro 2015
"fantasma"
A minha irmã herdou a casa da avó, e foi para lá viver com a família. À hora das refeições, quando estavam todos sentados à mesa, o esquentador do gás disparava sozinho, e o meu cunhado dizia:
- Pede à tua avó que nos deixe comer sossegados.
A minha irmã adorava aquela avó, suspeito que a ideia da sua presença lhe seria muito grata. Eu é que não gostava nada da história que contavam para nos consolar, de que quem morria ia para o céu e ficava de lá a olhar por nós. "Mesmo quando vou à casa de banho?", pensava eu, incomodada. Não me dava jeito nenhum ter avós e tios mortos que podiam não respeitar a minha privacidade.
Depois admiram-se que as pessoas se afastem da religião.
Muitos anos mais tarde, o filho de uma amiga nossa, que passou um mês connosco e dormia num quarto junto à entrada do sótão, contou-me que viu um fantasma parado à sua porta, a olhar com um ar triste. Mas ele já sabia o que fazer com fantasmas, e pô-lo a andar. Volta e meia o fantasma regressava, e ele mandava-o de volta pelo mesmo caminho.
Fiquei curiosa, e passei a deixar a porta do quarto aberta, mas nunca vi o fantasma - o meu quarto era no rés-do-chão, talvez ele não gostasse dos andares mais terra-a-terra. Ou então talvez eu adormecesse cedo demais (é cá um mau hábito que tenho, tinham de me ter visto ontem a cabecear ao volante entre Leipzig e Berlim, e ainda nem eram 10 da noite...), e o fantasma passava a noite à porta do meu quarto a ver-me ressonar a sono solto. Não admira que tivesse um ar triste e desolado: isto não é vida!
- Pede à tua avó que nos deixe comer sossegados.
A minha irmã adorava aquela avó, suspeito que a ideia da sua presença lhe seria muito grata. Eu é que não gostava nada da história que contavam para nos consolar, de que quem morria ia para o céu e ficava de lá a olhar por nós. "Mesmo quando vou à casa de banho?", pensava eu, incomodada. Não me dava jeito nenhum ter avós e tios mortos que podiam não respeitar a minha privacidade.
Depois admiram-se que as pessoas se afastem da religião.
Muitos anos mais tarde, o filho de uma amiga nossa, que passou um mês connosco e dormia num quarto junto à entrada do sótão, contou-me que viu um fantasma parado à sua porta, a olhar com um ar triste. Mas ele já sabia o que fazer com fantasmas, e pô-lo a andar. Volta e meia o fantasma regressava, e ele mandava-o de volta pelo mesmo caminho.
Fiquei curiosa, e passei a deixar a porta do quarto aberta, mas nunca vi o fantasma - o meu quarto era no rés-do-chão, talvez ele não gostasse dos andares mais terra-a-terra. Ou então talvez eu adormecesse cedo demais (é cá um mau hábito que tenho, tinham de me ter visto ontem a cabecear ao volante entre Leipzig e Berlim, e ainda nem eram 10 da noite...), e o fantasma passava a noite à porta do meu quarto a ver-me ressonar a sono solto. Não admira que tivesse um ar triste e desolado: isto não é vida!
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