Eh, pá! Não me digam que era preciso tirar bilhete para esta viagem?!
(Estou a ver que ando clandestina desde que nasci até hoje)
22 setembro 2015
21 setembro 2015
com a Síria no coração
1.
2.
"Prezados clientes, devido à chegada inesperada de vários autocarros com refugiados, muitos bébés e crianças pequenas, disponibilizámos esta noite a nossa mercadoria para as pessoas de apoio. Foi uma situação de emergência aguda. Já encomendámos nova mercadoria e esperamos pela Vossa compreensão.
Muito obrigado!"
4.
Um texto excelente de Renato Carreira, no blogue inÉPCIA:
10 razões para não querer refugiados sírios em Portugal
1- A primeira razão é religiosa. Muitos dos refugiados são muçulmanos. Alguns são cristãos, mas esses não contam porque os cristão são sempre pessoas bondosas e fáceis de acolher. Vejam-se os exemplos de Madre Teresa de Calcutá, Júlio Isidro ou Adolfo Hitler. Portugal é um país cristão e pretende continuar a sê-lo. Não podemos permitir que uma horda de maometanos nos entre por aqui dentro, instalando-se na nossa imensa provisão de igrejas vazias, convertendo-as em mesquitas (ou, pior ainda, em restaurantes de kebab) e ameaçando a instituição milenar do catolicismo não praticante que tanto nos orgulha.
2- A segunda razão é cromática. Uma boa parte dos refugiados sírios tem tons de pele acobreados, cabelos e olhos escuros. Estragariam a bonita uniformidade da pele alva, cabelos louros e olhos azuis do nórdico povo português. Porque a coerência étnica também é importante.
3- A terceira razão é política. Instalando-se em Portugal, será inevitável que alguns sírios adquiram a cidadania portuguesa com o passar dos anos, acabando por conquistar também o direito ao voto. É impossível prever o que esta gente, nada habituada a uma democracia verdadeira como a que existe por cá, fará com o seu voto. Sem cair no alarmismo, será até possível que comecem a alternar no poder partidos com provas dadas durante décadas de que até se preocupam com os interesses do país, mas só depois de satisfeitas as suas agendas próprias.
4- A quarta razão é académica. Alguns refugiados possuem estudos superiores. Não precisamos de mais gente com estudos em Portugal. Já somos suficientemente letrados. Quanto aos que não têm estudos, será melhor que se mantenham também à distância. Enchendo Portugal com analfabetos e semi-analfabetos vindos de longe, podemos correr o risco de ter a TVI como líder de audiências ou o Correio da Manhã como um dos jornais mais lidos.
5- A quinta razão é social. O sistema de segurança social está de plena saúde e, com o envelhecimento da população e a emigração dos jovens em grande número, não precisamos de gente em idade laboral e com filhos para tornar o sistema sustentável. Será divertido começarmos a receber pensões em conchinhas da praia.
6- A sexta razão é securitária. Existe o risco de virem terroristas infiltrados entre os refugiados. Não podemos permitir que entrem no nosso país. Sem o acolhimento de refugiados, os terroristas continuarão a não conseguir cruzar as nossas fronteiras. Recorde-se que a grande muralha vaporosa de cheiro a sardinha assada que cobre a fronteira aberta entre Portugal e Espanha se mantém intransponível.
7- A sétima razão é cultural. Os sírios têm uma cultura árabe, completamente diferente da nossa. Se os recebermos em Portugal, a identidade cultural portuguesa corre o risco de se perder. Quando dermos por isso, ter-nos-ão contagiado com os seus hábitos. Começaremos a ter almoços longos. A passar muito tempo em cafés. A batizar localidades com nomes começados por “al”. Defendamos o que é ser genuinamente português!
8- A oitava razão é tecnológica. Muitos refugiados foram vistos com smartphones e outros aparelhos tecnológicos caros, provando que não são assim tão miseráveis como dão a entender. Se há coisa que provam os três telemóveis que cada português usa em simultâneo é que a posse de engenhocas é sinal de prosperidade.
9- A nona razão é histórica. Os portugueses são um povo que nunca saiu do seu país. Ao longo da nossa história, ficámos sempre sossegados no nosso canto e nunca esperámos que nos aceitassem nos países dos outros. Por isso, não podem esperar agora que acolhamos quem quer que seja.
10- A décima razão é embaraçosa. Se acolhermos os sírios e tivermos de olhar para eles de vez em quando, seremos obrigados a recordar coisas desconfortáveis. Teremos de recordar, por exemplo, que uma grande parte da população portuguesa não é capaz de interpretar adequadamente o que vê na televisão e lê nos jornais, reagindo a uma movimentação de refugiados como se fosse uma “invasão” e usando como argumentos as ações do Estado Islâmico (precisamente a entidade de que os refugiados fogem), acorrendo em massa ao facebook para clamar contra as consequências graves de um suposto “choque cultural” como forma de camuflar o que é apenas xenofobia, ignorância e estupidez.
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(cliquem na imagem)
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Um texto excelente de Renato Carreira, no blogue inÉPCIA:
10 razões para não querer refugiados sírios em Portugal
1- A primeira razão é religiosa. Muitos dos refugiados são muçulmanos. Alguns são cristãos, mas esses não contam porque os cristão são sempre pessoas bondosas e fáceis de acolher. Vejam-se os exemplos de Madre Teresa de Calcutá, Júlio Isidro ou Adolfo Hitler. Portugal é um país cristão e pretende continuar a sê-lo. Não podemos permitir que uma horda de maometanos nos entre por aqui dentro, instalando-se na nossa imensa provisão de igrejas vazias, convertendo-as em mesquitas (ou, pior ainda, em restaurantes de kebab) e ameaçando a instituição milenar do catolicismo não praticante que tanto nos orgulha.
2- A segunda razão é cromática. Uma boa parte dos refugiados sírios tem tons de pele acobreados, cabelos e olhos escuros. Estragariam a bonita uniformidade da pele alva, cabelos louros e olhos azuis do nórdico povo português. Porque a coerência étnica também é importante.
3- A terceira razão é política. Instalando-se em Portugal, será inevitável que alguns sírios adquiram a cidadania portuguesa com o passar dos anos, acabando por conquistar também o direito ao voto. É impossível prever o que esta gente, nada habituada a uma democracia verdadeira como a que existe por cá, fará com o seu voto. Sem cair no alarmismo, será até possível que comecem a alternar no poder partidos com provas dadas durante décadas de que até se preocupam com os interesses do país, mas só depois de satisfeitas as suas agendas próprias.
4- A quarta razão é académica. Alguns refugiados possuem estudos superiores. Não precisamos de mais gente com estudos em Portugal. Já somos suficientemente letrados. Quanto aos que não têm estudos, será melhor que se mantenham também à distância. Enchendo Portugal com analfabetos e semi-analfabetos vindos de longe, podemos correr o risco de ter a TVI como líder de audiências ou o Correio da Manhã como um dos jornais mais lidos.
5- A quinta razão é social. O sistema de segurança social está de plena saúde e, com o envelhecimento da população e a emigração dos jovens em grande número, não precisamos de gente em idade laboral e com filhos para tornar o sistema sustentável. Será divertido começarmos a receber pensões em conchinhas da praia.
6- A sexta razão é securitária. Existe o risco de virem terroristas infiltrados entre os refugiados. Não podemos permitir que entrem no nosso país. Sem o acolhimento de refugiados, os terroristas continuarão a não conseguir cruzar as nossas fronteiras. Recorde-se que a grande muralha vaporosa de cheiro a sardinha assada que cobre a fronteira aberta entre Portugal e Espanha se mantém intransponível.
7- A sétima razão é cultural. Os sírios têm uma cultura árabe, completamente diferente da nossa. Se os recebermos em Portugal, a identidade cultural portuguesa corre o risco de se perder. Quando dermos por isso, ter-nos-ão contagiado com os seus hábitos. Começaremos a ter almoços longos. A passar muito tempo em cafés. A batizar localidades com nomes começados por “al”. Defendamos o que é ser genuinamente português!
8- A oitava razão é tecnológica. Muitos refugiados foram vistos com smartphones e outros aparelhos tecnológicos caros, provando que não são assim tão miseráveis como dão a entender. Se há coisa que provam os três telemóveis que cada português usa em simultâneo é que a posse de engenhocas é sinal de prosperidade.
9- A nona razão é histórica. Os portugueses são um povo que nunca saiu do seu país. Ao longo da nossa história, ficámos sempre sossegados no nosso canto e nunca esperámos que nos aceitassem nos países dos outros. Por isso, não podem esperar agora que acolhamos quem quer que seja.
10- A décima razão é embaraçosa. Se acolhermos os sírios e tivermos de olhar para eles de vez em quando, seremos obrigados a recordar coisas desconfortáveis. Teremos de recordar, por exemplo, que uma grande parte da população portuguesa não é capaz de interpretar adequadamente o que vê na televisão e lê nos jornais, reagindo a uma movimentação de refugiados como se fosse uma “invasão” e usando como argumentos as ações do Estado Islâmico (precisamente a entidade de que os refugiados fogem), acorrendo em massa ao facebook para clamar contra as consequências graves de um suposto “choque cultural” como forma de camuflar o que é apenas xenofobia, ignorância e estupidez.
20 setembro 2015
Cinemagosto 2015
A nossa mostra de cinema português em Berlim, o Cinemagosto 2015, decorreu no último fim-de-semana de Agosto - já vai quase há um mês. Esta semana desmontaremos a exposição da Maria Leonardo, e depois começamos a sonhar o Cinemagosto 2016.
Durante quatro dias Portugal exibiu-se em Berlim, e tinha muito para mostrar: o excelente cinema português, a nossa Anabela Moutinho a apresentar cada filme, falando também do seu autor e das suas circunstâncias; as folhas distribuídas à entrada na sala, informando e convidando a uma análise crítica; a homenagem ao Manoel de Oliveira (finalmente entendi!) (se não fosse o Cinemagosto, o que seria de mim...); a festa portuguesa no foyer do cinema, os pastéis de nata, o presunto e o queijo, o pão e o vinho; os DVD de filmes portugueses.
Pessoalmente, ganhei imenso. Ganhei as horas com os voluntários que nos ajudam a montar as bancas e a vender, ganhei os risos com eles e a sua generosidade ("queres ver este filme? vai lá, vai lá, eu fico a tomar conta de tudo!"). Ganhei um almoço muito divertido com a Dorte Schneider e o Markus Lenz. Ganhei as conversas com um público simpático e interessado. Ganhei as conversas com os nossos patrocinadores, o seu entusiasmo e apoio à nossa causa ("decidimos dar-vos mais do que combinámos porque o que fazem tem imenso valor!" - onde é que estão os meus lenços de papel, que se desmaterializam sempre que preciso deles?). E tive a sorte de conseguir ver cinco filmes - ao contrário do ano passado, que me correu muito mal: então uma pessoa quer reduzir a sua insularidade e trata de arranjar um grupo de malucos para trazer cinema português a Berlim (isto é teoria liberal pura e dura: se cada um perseguir o seu interesse egoísta, o mundo fica melhor...) e acaba a ver apenas dois?! Algo está podre nessa teoria liberal... Bom, como ia dizendo: vi metade dos filmes da mostra, gostei muito de todos. E especialmente do Fleurette, do Sérgio Tréfaut. Um documentário absolutamente tocante - mesmo que tivesse sido o único, já teria bastado para me dar por muitíssimo satisfeita com o meu Cinemagosto 2015. Olhem aqui o trailer (espero que os vossos lenços de papel não se desmaterializem como os meus):
Esta semana encerra-se o Cinemagosto 2015 com o fecho da exposição fotográfica. Olho para o que fizemos e sinto um orgulho enorme por ser parte deste grupo de pessoas, sinto-me grata pelo apoio de todos e feliz por saber que queremos continuar.
Durante quatro dias Portugal exibiu-se em Berlim, e tinha muito para mostrar: o excelente cinema português, a nossa Anabela Moutinho a apresentar cada filme, falando também do seu autor e das suas circunstâncias; as folhas distribuídas à entrada na sala, informando e convidando a uma análise crítica; a homenagem ao Manoel de Oliveira (finalmente entendi!) (se não fosse o Cinemagosto, o que seria de mim...); a festa portuguesa no foyer do cinema, os pastéis de nata, o presunto e o queijo, o pão e o vinho; os DVD de filmes portugueses.
Pessoalmente, ganhei imenso. Ganhei as horas com os voluntários que nos ajudam a montar as bancas e a vender, ganhei os risos com eles e a sua generosidade ("queres ver este filme? vai lá, vai lá, eu fico a tomar conta de tudo!"). Ganhei um almoço muito divertido com a Dorte Schneider e o Markus Lenz. Ganhei as conversas com um público simpático e interessado. Ganhei as conversas com os nossos patrocinadores, o seu entusiasmo e apoio à nossa causa ("decidimos dar-vos mais do que combinámos porque o que fazem tem imenso valor!" - onde é que estão os meus lenços de papel, que se desmaterializam sempre que preciso deles?). E tive a sorte de conseguir ver cinco filmes - ao contrário do ano passado, que me correu muito mal: então uma pessoa quer reduzir a sua insularidade e trata de arranjar um grupo de malucos para trazer cinema português a Berlim (isto é teoria liberal pura e dura: se cada um perseguir o seu interesse egoísta, o mundo fica melhor...) e acaba a ver apenas dois?! Algo está podre nessa teoria liberal... Bom, como ia dizendo: vi metade dos filmes da mostra, gostei muito de todos. E especialmente do Fleurette, do Sérgio Tréfaut. Um documentário absolutamente tocante - mesmo que tivesse sido o único, já teria bastado para me dar por muitíssimo satisfeita com o meu Cinemagosto 2015. Olhem aqui o trailer (espero que os vossos lenços de papel não se desmaterializem como os meus):
Esta semana encerra-se o Cinemagosto 2015 com o fecho da exposição fotográfica. Olho para o que fizemos e sinto um orgulho enorme por ser parte deste grupo de pessoas, sinto-me grata pelo apoio de todos e feliz por saber que queremos continuar.
geometria matinal, teoria geral do tempo, dores de cabeça
Luz da manhã, o Fox ensaia alguns passos no mundo da geometria.
Ainda outro dia esperava ansiosa que a alameda de jasmim junto ao lago florisse, e já o Outono se anuncia. Se a minha vida continua a este ritmo, daqui a nada é o Natal de 2017. Talvez fosse boa ideia começar a pensar nos presentes.
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da minha vida vê-se um lago,
fox news
19 setembro 2015
como se estivesse morto em vida
"Deixámos Damasco pouco depois do início da guerra na Síria. Vivíamos no bairro curdo de Rukn al-Din e eu trabalhava como barbeiro. A situação na cidade tornou cada mais perigosa. Decidimos partir para Kobane onde a minha mulher e eu trabalhávamos na agricultura. Tentei a minha sorte em Istambul numa fábrica têxtil. Doze horas por dia eram passadas na fábrica e à noite dormia numa cave que o dono da fábrica fechava do lado de fora. O salário enviava-o para Kobane para a minha a família. Foi assim durante três anos até o Estado Islâmico ter tomado Kobane em 2014. Com Rehan, a minha mulher, Galib e Aylan, os meus filhos, e milhares de outros habitantes fugimos. Pela primeira vez a minha mulher disse: "temos de abandonar a Síria", antes recusara sempre. Viemos para Istambul onde procurei um trabalho na construção civil. Carregava 200 sacos de cimento escadas acima, onze horas por dia. O nosso quarto custava 400 liras turcas por mês. Durante 5 meses a minha irmã, que vive há 25 anos no Canadá, pagou-nos a renda. Pedimos asilo ao Canadá, mas este foi-nos recusado, escolhemos então ir para a Alemanha onde o meu irmão vive, em Heidelberg, num centro de refugiados. Tentamos ir por terra, mas a polícia turca deteve-nos na fronteira com a Bulgária. A única opção que nos estava era o mar. A minha irmã deu-me os 4 mil euros que entreguei aos traficantes turcos e sírios. No nosso barco a motor iam 13 pessoas e parecia ser seguro. O capitão disse: "a viagem dura apenas dez minutos". Podíamos ver Kos. A água estava calma, mas poucos minutos depois tudo se alterou. Veio uma onda e virou o barco, era de noite e não via a minha mulher e os meus filhos. Mas ouvi a minha mulher, as suas últimas palavras foram: "Abu Galib, pai de Galib, cuida das crianças". Não as consegui segurar. Agarrei-me ao barco. Um dos que iam comigo conseguiu alcançar a costa e chamou a polícia. Passei a noite numa cela e no dia seguinte pediram-me para identificar a minha família. A minha amada mulher Rehan, Aylan, o menino que sorria sempre, e Galib que nunca parava quieto. Enterrei a minha família em Kobane e vivo na casa destruída do meu sogro. Não há infra-estrutura, há pó por todo o lado, os corpos dos mortos continuam debaixo das ruínas. O cheiro é insuportável e os insectos picam-nos à noite. Não há medicamentos, não há leite para as crianças, não há quase água. Nunca mais deixarei Kobane, quero estar perto da minha família, mesmo que a única coisa que tenha deles seja roupa. É como estar morto em vida".
(obrigada, Helena Ferro de Gouveia)
(obrigada, Spiegel)
visto de cima, o meu jardim quase parece um quadro do Mondrian
Esta manhã a minha vizinha trouxe-me um carrinho de mão cheio de flores para o meu jardim. Fui-lhe devolver o carrinho com a terra que se soltou (que a terra é cara, eu bem sei a como vendiam o m2 nesta rua) e ela deu-me mais um torrão de margaridas. Veio comigo, para ver como as outras já estavam bonitas no canteiro, e depois fomos a casa dela buscar uns catálogos de trepadeiras. A seguir ela veio ver as clematites que plantei ontem. De tanto andarmos ó pra trás e ó prá frente, ainda vamos fazer sulcos no passeio.
À tarde fui comprar uma figueira. Uma figueira em Berlim: é o que vos digo, nesta cidade há malucos para tudo. Daqui a vinte anos logo direi se resultou ou não. Caí na asneira de perguntar ao senhor do horto o que pensava de fazer uma sebe ao longo da rua com árvores de fruta em coluna (será que é este o nome certo, em Portugal?), e zimbas: saí de lá com cinco delas: pera-nashi, maçãs vermelhas, damascos, diospireiro ("portugiesisch"! - tinha de comprar, claro!), e uma que eu pensei que era de nêsperas (e fiquei toda contente) mas é nespereira-europeia, o que não é nada a mesma coisa, de modo que amanhã vou lá tentar trocar por abrunhos.
Na próxima semana tenho de encomendar uns belos metros cúbicos de boa terra para substituir o solo arenoso de Brandeburgo, depois faço a tal sebe com árvores de frutas variadas com 1 m de diâmetro e 2 m de altura. E daqui a vinte anos voltamos a falar, e eu conto se foi boa ideia.
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viver no campo
17 setembro 2015
quando a praxe se transforma em crime
Hoje apareceu um comentário que escreveram num post que escrevi há tempos, a criticar a praxe.
Penso que merece mais visibilidade. Se isto é mesmo verdade, era preciso ir a correr ao tal supermercado buscar as gravações da câmara de segurança (de certeza que têm uma, não é?) e pôr a polícia atrás desses criminosos.
Isto:
Ainda nem completou um mês de que sou caloira numa faculdade da Universidade do Porto. Com grandes planos de pertencer as atividades académicas como a praxe, deparo-me com uma realidade diferente. Enquanto caloiro, não me é dificil compreender como em certas situações somos capazes de silenciar a nossa voz numa tentativade adaptação neste ambiente novo. Certas práticas na praxe são ofensivas e até mesmo, aquilo a considero, uma prática de bullying que é socialmente aceite. Os caloiros, neste esforço de integração, não tem a completa noção naquilo em que se estão a meter e quando querem sair acabam por ser excluídos e julgados, o que os leva a não o fazerem. Hoje, fiquei sensibilizada para esta situação. Uma colega testumunhou algo que me mostra o quanto grave a aceitação destas atividades pode ser. Por medo de falar, vou ser a voz do sucedido.
Por volta das duas da tarde do dia de hoje, no Porto, a minha colega foi a um pequeno supermecado, ao mini-preço, e vê vários estudantes académicos vestidos de traje, os tais "doutores", com caloiros, que vestem camisolas vermelhas. Estes entram e uma rapariga trajada pede a chave da casa de banho. Após uns 10 minutos, algo chama a atenção á minha colega: Reparou que o tal grupo de estudantes, cerca de 20, estavam dentro da pequena casa de banho e apesar de terem pedido a chave para trancar a porta, estava um "doutor" a vigiar a porta. Enquanto isto, o supermecado encontra-se vazio, unicamente a tal testemunha, uma rapariga do estabelecimento que se havia ausentado e os estudantes académicos em questão. Apercebe-se de uns gritos, que pareciam de uma rapariga, saídos da casa de banho. Nisto, o rapaz que estava a vigiar a porta abre a porta com a chave que tinha e pergunta aos restantes se já estava resolvido o assunto. Assim, o grande grupo sai da casa de banho juntamente com dois caloiros com a cara desfigurada: Um rapaz com os olhos negros e a sangrar da boca e uma rapariga que, ainda que não em tão mau estado, a chorar imenso. Esta é dirijida por um "doutor" trajado que, de forma a silenciá-la, lhe diz "Ou paras de chorar ou vais piorar as coisas para o teu lado... Pensa bem". Á ida embora, ouve-se algo como "Vamos embora que já estamos a dar nas vistas... E isto que sirva de exemplo para os outros", dirigindo-se então áqueles que consideram seus inferiores.
Ainda que sem mais provas suficientes do que a palavra de uma testemunha, sinto esta necessidade de reportar. Estas práticas devem ser paradas e unicamente quando souberem fazer justiça áquelas que são verdadeiramente tradições académicas é que deverão ser permitidas. Por medo, vemos pessoas a ser sujeitadas a situações destas e ao ficarmos calados ao observar situações destas estamos simplesmente a ajudar a preservação da violência.
Cláudia Catarina
Penso que merece mais visibilidade. Se isto é mesmo verdade, era preciso ir a correr ao tal supermercado buscar as gravações da câmara de segurança (de certeza que têm uma, não é?) e pôr a polícia atrás desses criminosos.
Isto:
Ainda nem completou um mês de que sou caloira numa faculdade da Universidade do Porto. Com grandes planos de pertencer as atividades académicas como a praxe, deparo-me com uma realidade diferente. Enquanto caloiro, não me é dificil compreender como em certas situações somos capazes de silenciar a nossa voz numa tentativade adaptação neste ambiente novo. Certas práticas na praxe são ofensivas e até mesmo, aquilo a considero, uma prática de bullying que é socialmente aceite. Os caloiros, neste esforço de integração, não tem a completa noção naquilo em que se estão a meter e quando querem sair acabam por ser excluídos e julgados, o que os leva a não o fazerem. Hoje, fiquei sensibilizada para esta situação. Uma colega testumunhou algo que me mostra o quanto grave a aceitação destas atividades pode ser. Por medo de falar, vou ser a voz do sucedido.
Por volta das duas da tarde do dia de hoje, no Porto, a minha colega foi a um pequeno supermecado, ao mini-preço, e vê vários estudantes académicos vestidos de traje, os tais "doutores", com caloiros, que vestem camisolas vermelhas. Estes entram e uma rapariga trajada pede a chave da casa de banho. Após uns 10 minutos, algo chama a atenção á minha colega: Reparou que o tal grupo de estudantes, cerca de 20, estavam dentro da pequena casa de banho e apesar de terem pedido a chave para trancar a porta, estava um "doutor" a vigiar a porta. Enquanto isto, o supermecado encontra-se vazio, unicamente a tal testemunha, uma rapariga do estabelecimento que se havia ausentado e os estudantes académicos em questão. Apercebe-se de uns gritos, que pareciam de uma rapariga, saídos da casa de banho. Nisto, o rapaz que estava a vigiar a porta abre a porta com a chave que tinha e pergunta aos restantes se já estava resolvido o assunto. Assim, o grande grupo sai da casa de banho juntamente com dois caloiros com a cara desfigurada: Um rapaz com os olhos negros e a sangrar da boca e uma rapariga que, ainda que não em tão mau estado, a chorar imenso. Esta é dirijida por um "doutor" trajado que, de forma a silenciá-la, lhe diz "Ou paras de chorar ou vais piorar as coisas para o teu lado... Pensa bem". Á ida embora, ouve-se algo como "Vamos embora que já estamos a dar nas vistas... E isto que sirva de exemplo para os outros", dirigindo-se então áqueles que consideram seus inferiores.
Ainda que sem mais provas suficientes do que a palavra de uma testemunha, sinto esta necessidade de reportar. Estas práticas devem ser paradas e unicamente quando souberem fazer justiça áquelas que são verdadeiramente tradições académicas é que deverão ser permitidas. Por medo, vemos pessoas a ser sujeitadas a situações destas e ao ficarmos calados ao observar situações destas estamos simplesmente a ajudar a preservação da violência.
Cláudia Catarina
viver no campo
O dia amanheceu com efeitos especiais, e a garantir chuva da grossa.
Mas afinal apenas chuviscou um pouco, e desde então parece Agosto. Já nem no céu alemão se pode confiar? A culpa deve ser dos muçulmanos, ouvi dizer por aí que onde se instalam mudam tudo...
Tanto melhor: enfiei os pés nas galochas e fui para trás da casa plantar vinha virgem. São 22 pés, ainda só plantei sete e já estou com as costas num oito. Mas agora cheguei à parte fácil. O Fox parece que quando for grande quer ser engenheiro de obras públicas, tem andado a treinar a escavação de túneis. Já tem uma boa dúzia de buracos profundos, e a terra está solta, sem ervas. Meu rico Fox!
De galochas e vestido florido, até me sinto uma camponesa soviética. Só me faltam os músculos, o ar sadio, e as canções.
E lá vou eu outra vez para as grandes conquistas do proletariado e da vinha virgem.
(Enquanto cavava ocorreu-me que na Europa há segundas residências em número suficiente para alojar todos os desalojados do mundo: diz que são 60 milhões, e tenho a certeza que na Europa há muito mais que isso em casas que ficam vazias praticamente o ano inteiro. Acho que vou devolver aquelas galochas, andam-me a dar ideias perigosas...) (ai, se calhar a culpa não é das galochas, vai-se a ver e às tantas é dos muçulmanos...)
(Enquanto cavava ocorreu-me que na Europa há segundas residências em número suficiente para alojar todos os desalojados do mundo: diz que são 60 milhões, e tenho a certeza que na Europa há muito mais que isso em casas que ficam vazias praticamente o ano inteiro. Acho que vou devolver aquelas galochas, andam-me a dar ideias perigosas...) (ai, se calhar a culpa não é das galochas, vai-se a ver e às tantas é dos muçulmanos...)
16 setembro 2015
ajudavas?
1. "Ai, mas não são. Não confundas. Esse barco está cheio de terroristas que nos vêm roubar o nosso rico trabalho."
(não precisamos aqui de terroristas para nada, nós próprios fazemos muito bem o trabalho de rebentar com os ideais europeus)
2. "Se ajudava? Depende. Se fossem ciganos... ou se fossem esses preguiçosos que vivem à custa do Estado... ou se fossem drógados... ou se fossem esses jovens imprestáveis que escrevem pode-mos..."
(Portugal está cheio de portugueses que precisam de ajuda. Infelizmente até têm servido bem para treinar a insensibilidade e a capacidade de arranjar boas desculpas para não fazer nada. Se nem os "nossos" ajudamos, a que propósito iríamos ajudar os de outros países, outra cor de pele, outra religião?)
(a fotografia veio do mural de facebook do autor dos cartazes "hey tuga!")
(quem for lá espreitar os comentários em posts deste género vai ficar com uma bela ideia do nosso rico Portugal)
(se me permitem o humor negro: e se fossem ESSES portugueses, já ajudavas?...)
15 setembro 2015
de que fogem eles?
Fogem de Zaatari, o campo de refugiados sírios na Jordânia, que já é a quarta "cidade" maior desse país.
Fogem da fome:
Fogem da morte:
Na semana passada vi no noticiário da ZDF uma reportagem sobre as condições nos campos de refugiados no norte do Iraque. As tendas, o pó, a falta de perspectivas, um homem a gritar "mãe Merkel! Eu quero ir para a mãe Merkel!" e uma família que vendeu os últimos bens que tinha para pagar a alguém que leve um dos filhos deles, de 14 anos, para a Alemanha. Sabem que se ele conseguir chegar aqui não será mandado embora, por ser menor, e mais tarde talvez consiga chamar a família para vir viver com ele.
Um miúdo de 14 anos! Esta responsabilidade. A certeza das muitas dificuldades na travessia da Ásia Menor, do mar e da Europa. O risco de morrer nesta terrível desventura. Mostram imagens do adolescente no meio da família, e o repórter remata: "ele já não pode voltar atrás". Um miúdo de 14 anos.
Porque é que eu não lhe pago a passagem de avião e não o meto na minha casa? De algum modo sou como o fotógrafo que capta a imagem de uma criança a morrer de fome e um abutre por trás, à espera.
E nem me posso desculpar com o argumento de que é o que todos fazem. Este fim-de-semana estive com quatro alemães entre os 17 e os 24 anos. Mal comentei que estava a pensar meter cá em casa refugiados, desataram todos a dar-me informações sobre o que é preciso fazer e com quem eu devo falar. O miúdo de 17 anos trabalha como voluntário num centro de acolhimento e, apesar de morar num apartamento sem espaço suficiente, queria partilhar o seu próprio quarto com um refugiado.Eles a trabalhar, e eu aqui a pôr imagens, e a dizer que é uma tragédia. Para o activismo de sofá ser completo, só me falta mesmo fazer um pin "Je suis Aylan"...
os humanos de Yann Arthus-Bertrand
Lembram-se do Home, do Yann Arthus-Bertrand? Passou da casa aos seus habitantes. Hão-de ser umas quatro horas de filme. A ver se no próximo fim-de-semana chove, já tinha aqui um programa bem catita. Copio do youtube:
What is it that makes us human? Is it that we love, that we fight ? That we laugh ? Cry ? Our curiosity ? The quest for discovery ?
Driven by these questions, filmmaker and artist Yann Arthus-Bertrand spent three years collecting real-life stories from 2,000 women and men in 60 countries. Working with a dedicated team of translators, journalists and cameramen, Yann captures deeply personal and emotional accounts of topics that unite us all; struggles with poverty, war, homophobia, and the future of our planet mixed with moments of love and happiness.
Watch the 3 volumes of the film and experience #WhatMakesUsHUMAN.
The VOL.1 deals with the themes of love, women, work and poverty.
The VOL.2 deals with the themes of war, forgiving, homosexuality, family and life after death.
The VOL.3 deals with the themes of happiness, education, disability, immigration, corruption and the meaning of life.
If you want to discover more contents, go on http://g.co/humanthemovie
14 setembro 2015
"engana-me, que eu gosto", ou: "jornalistas" que aprenderam bem com Goebbels, e em 2015 o pessoal continua a cair que nem patinhos, mas depois dizem que os alemães é que são incapazes de aprender com a História...
(fonte)
Se tivesse tempo para isso, passava o resto do dia a dizer palavrões por causa desta notícia e desta. Belos pedaços de bosta. Inventam praticamente toda uma notícia a partir de alguns factos verdadeiros, muito bem misturados com a sua descontextualização e uma imaginação fértil ao serviço da causa de denegrir a imagem de um país. A estas horas, o Goebbels deve estar a babar no túmulo: "Bons alunos, sim senhor, brilhantes! Caramba, eu não teria conseguido fazer melhor!"
O título do Daily News:
Housed in a notorious concentration camp: Refugees who fled to Europe for a better life are living in former Nazi barracks at Buchenwald where thousands of slave-labourers died after being subjected to medical experiments
- 21 male asylum-seekers living on site of Buchenwald concentration camp
- Men are waiting for the asylum-seeker applications to be returned to them
- 56,000 prisoners died at the camp between July 1937 and April 1945
- Angela Merkel welcomed thousands of migrants to Germany in last week
PUBLISHED: 11:33 GMT, 11 September 2015 | UPDATED: 00:34 GMT, 14 September 2015
Read more: http://www.dailymail.co.uk/news/article-3230670/Housed-notorious-concentration-camp-Refugees-fled-Europe-better-life-living-former-Nazi-barracks-Buchenwald-thousands-slave-labourers-died-subjected-medical-experiments.html#ixzz3li7Z1v8u
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Um disparate e uma manipulação, que já se espalhou pelas redes sociais como fogo em palha seca, acompanhado por comentários chocadíssimos. Ora bem: quem acha que os alemães eram capazes de instalar refugiados no campo de concentração de Buchenwald sem qualquer problema de consciência, devia fazer um exame muito atento aos seus próprios preconceitos.
Não há refugiados no campo de Buchenwald, nem pode haver, por muitos motivos. Desde já porque no campo de Buchenwald não haveria onde alojar refugiados - a não ser que desfizessem os museus para os converter em dormitórios. Só gente ignorante e mal intencionada seria capaz de imaginar que os alemães alguma vez fossem capazes de fechar os museus de Buchenwald para usar os edifícios para outros fins. Além disso, a própria direcção do memorial de Buchenwald criticou dura e publicamente a decisão do município de Schwerte (que fica a centenas de quilómetros de distância) de utilizar temporariamente um edifício histórico desse tipo para alojar refugiados.
O artigo do Daily News, pondo lado a lado dois refugiados no seu quarto e uma fotografia icónica do horror de Buchenwald, é simplesmente de vómito. E o Sputnik News cobre-se de ridículo ao sublinhar a notícia de refugiados-em-Buchenwald!-ai,-que-horror! com uma sugestão de um político berlinense (portanto: sem nada a ver com Buchenwald ou Dortmund) sobre alojar temporariamente os refugiados no antigo aeroporto de Tempelhof, para que não fiquem na rua enquanto se procura para eles um alojamento condigno.
Os factos:
Pouco antes do fim da guerra, foi criado perto de Dortmund um centro de alojamento para presos russos e polacos, capturados no seu país para fazerem trabalhos forçados na Alemanha. O seu trabalho era reparar locomotivas; ao longo dos dez meses em que funcionou, o número de prisioneiros alojados nessas barracas variou entre 100 e 700 prisioneiros. Não é Buchenwald, é uma das centenas de centros de trabalhos forçados geridos por Buchenwald. Não tem nada a ver com extermínio, nem com a ideia de matar as pessoas com trabalho - é obrigar pessoas dos países conquistados a fazer trabalho escravo. O que é um crime, obviamente, mas ainda está bastante longe do "campo que exterminou milhares de pessoas" e das "vítimas de experiências de medicina", como referem os artigos. No fim da guerra as barracas dos prisioneiros foram destruídas, e só restou o edifício dos guardas, que foi usado sucessivamente como jardim infantil, atelier de artistas e alojamento para os refugiados da guerra da Jugoslávia. Depois disso ficou vazio, e foi classificado como memorial, para que não se esqueça o horror nazi.
Em 2015, Schwerte, uma cidade de 45 mil habitantes e altamente endividada (60 milhões de euros), não tem meios para alojar os refugiados dignamente. As condições actuais são inaceitáveis (por exemplo: em Janeiro deste ano, quando esta decisão foi anunciada e logo muito criticada, havia um grupo de 18 pessoas com apenas um quarto de banho, e dezenas de homens alojados num dormitório comum sem qualquer privacidade). O antigo edifício dos guardas do campo de concentração apareceu como uma solução de recurso, tanto mais que já foi usado para outros fins. A reacção da sociedade alemã foi de forte repúdio, e houve - ou não estivéssemos nós na Alemanha! - um debate alargado. Os autarcas de Schwerte compreendem as críticas, mas insistem que não têm meios para fazer melhor. E que o maior problema destes refugiados não é serem alojados em edifícios que lembram um momento tenebroso da História alemã, mas serem confrontados com a xenofobia de alguns grupos. Entretanto, há algumas semanas chegaram mais 150 refugiados a essa cidade, que foram alojados num ginásio, onde um grupo de voluntários trabalhou dia e noite para montar as camas necessárias.
E se fossem o presidente da Câmara de uma cidade altamente endividada: preferiam gastar o dinheiro que não têm na compra de contentores para alojar os refugiados sem beliscar a sensibilidade histórica de ninguém, ou dar-lhes o alojamento possível, e aulas de alemão e formação profissional, para eles conseguirem arranjar emprego o mais depressa possível?
E porque estou mesmo furiosa com esta manipulação, e com os comentários que hoje li no facebook por gente que gosta de acreditar que os alemães não são flor que se cheire, cá vai um desafio: sabem fazer melhor que os alemães? Então façam. Escrevam ao presidente da Câmara de Schwerte a pedir que envie para a vossa cidade os 21 refugiados instalados no tal campo. Ele terá todo o gosto em recorrer à vossa ajuda para resolver este problema que também o incomoda muito.
11 setembro 2015
merecer a sorte que temos
Verdade seja dita, nem todos os judeus que conseguiram escapar ao Holocausto eram pessoas maravilhosas e impecáveis. É preciso ser muito ingénuo, de uma ingenuidade a tocar a idiotia, para acreditar que uma pessoa que é vítima de algo só pode ser um everybody's darling.
Bem sei que os Evangelhos nos exortam a ver Jesus Cristo nos mais pobres mas, caramba, isso não é para ler literalmente. Os barcos e os comboios de refugiados não estão apinhados de clones de Jesus.
Com certeza que estas pessoas trazem os seus problemas, os seus hábitos culturais e os seus traumas. Vai ser necessário um longo trabalho de adaptação mútua e diálogo intercultural. Mas recusar ajudá-los por medo e por comodismo é algo que combina mal com este continente rico e baseado em ideais humanistas no qual nos calhou em sorte nascer.
Saibamos merecer essa sorte.
Mais ainda: saibamos trabalhar para que o nosso continente seja cada vez mais um lugar onde os ideais humanistas se misturam à História que construímos dia a dia.
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A propósito, fui ao arquivo deste blogue buscar um texto que traduzi do diário de Ruth Andreas-Friedrich, uma jornalista que pertencia a um grupo de resistência em Berlim. Em 1939 esse grupo transportava para fora do país pertences dos judeus que fugiam sem poderem levar nada com eles. Esta página do seu diário refere uma dessas viagens ("Amanhã chegaremos a Paris. Finalmente poder falar sem ser em surdina. Sem ter de usar metáforas ou olhar em volta com medo.").
Paris, Domingo 16.07.1939
Durante todo o dia o vaivém no nosso quarto não pára. Amigos, conhecidos, amigos de amigos, conhecidos de conhecidos. Todos querem saber o que se passa na Alemanha, trocar impressões, receber saudações, aliviar a alma. Nem todos continuam como eram antes desta breve, ou longa, separação. É-me difícil falar com alguns deles. Porque é que começaram a pensar que somos simpatizantes dos nazis? Apenas porque regressaremos à Alemanha? Porque dizem agora "nós, judeus" quando antes diziam "nós, amigos"? Não éramos amigos quando os ajudámos a fugir do país? Hitler inventou a separação das raças, e eles próprios reforçam esse discurso quando se reconhecem naquela diferença. Algumas conversas deixam-me muito desanimada. Mas Andrik chama-me à razão.
- Não caias também tu no erro de pensar que todos os judeus são anjinhos. Nem todos aqueles que os nazis transformaram em seus inimigos são amigos nossos. Um ou outro senhor Abraão, Isaac ou Jacob seria alegremente nazi, se o deixassem.
- Mas, os emigrantes...
- Não há "os" emigrantes. Há o amigo A que emigrou, a amiga B que emigrou. O problema central está nas generalizações. Todos os polacos são assim. Todos os franceses são assado. Todos os judeus têm de ser isto e aquilo. Avaliação do carácter segundo um esquema simplista, centenas de milhares numa única gaveta. Se não nos libertarmos desse hábito, nunca chegaremos a bom porto. Nem no que diz respeito ao diálogo entre os humanos, nem à tolerância.
Vejo-me obrigada a dar-lhe razão. E já não exijo que "todos" os emigrantes partilhem os nossos pontos de vista.
desfazer o que se fez
No meio da praga de comentários xenófobos contra os refugiados apareceu-me o vídeo dos "refugiados a recusar comida por vir numa caixa com uma cruz vermelha", espalhado por aí a partir do site de um jornal. Entretanto o jornal já avisou que a notícia é errada, e que eles estão a protestar pelo modo como foram tratados e não devido à cruz que se vê na embalagem (aqui está a história completa), mas a mentira continua a espalhar-se e a encontrar pessoas que fazem questão de acreditar nela.
Agarrem-me, que se me deixassem mandar mandava que a pessoa que largou no mundo uma falsidade deste género (mesmo que involuntariamente) fosse obrigada a desfazer o engano em todos os sites onde houvesse ecos do que afirmou. E não seria apenas deixar um comentário entre milhares de comentários - seria a obrigação de insistir, insistir, insistir, até que ninguém tenha mais dúvidas sobre o facto de aquela notícia ser mentira.
Dito isto, espreitei os comentários de várias cópias deste vídeo no youtube. Neste caso, desfazer o que se fez é um trabalho de Sísifo. Por isso mesmo me parece que é imperioso responsabilizar seriamente as pessoas, para que elas pensem dez vezes antes de porem estas mentiras a jeito de caírem nas redes sociais.
Perguntarão: estás a ver bem o que queres fazer? Isso são anos de trabalho!
Bom, entre uma pessoa passar anos a desfazer o que fez num momento de irreflexão, e um grupo de pessoas ter de aguentar ao longo dos anos (ou até de várias gerações) as consequências de um discurso xenófobo do qual não tem qualquer culpa... entre estes dois casos, confesso que mon coeur ne balance pas.
10 setembro 2015
preconceitos
Qual é o original, qual é a cópia?
Isto não é sobre a língua alemã. É sobretudo sobre manipulações e a nossa tendência para acreditar no que queremos.
Também podia ser sobre os refugiados que estão a acostar à Europa. Em Portugal há gente a morrer de medo, dizendo que são terríveis, terroristas, o diabo.
O diabo são os nossos preconceitos.
hoje, em Lisboa: lançamento do livro "Levante-se o réu", de Rui Cardoso Martinas
Se estivesse em Lisboa hoje, garanto que ia a este lançamento e tentava caçar um autógrafo à Vera Tavares, autora da capa fabulosa, e outro ao Rui Cardoso Martins. De caminho, tentaria dizer ao Rui Cardoso Martins que admiro a dignidade que mantém no meio daquele lamaçal. Este livro é uma travessia pelo mais sórdido de que somos capazes, e o escritor olha-o nos olhos sem medo nem rodeios. Às vezes até consegue ser divertido. Pelas entrelinhas, respiram os princípios éticos do autor, que nos permitem esta incursão no lodo humano sem ficarmos por lá desoladamente atolados.
08 setembro 2015
lá está a Merkel outra vez...
Cinco das dez melhores orquestras do mundo são alemãs.
Duas são em Berlim, e outras duas a menos de 200 km de Berlim.
Estou em crer que a culpa é da Merkel...
(Estou em crer que isto são muitos séculos a gostar e a investir na música, e muitos políticos - dos melhores aos piores, diga-se de passagem - a reconhecer a importância de ter orquestras excepcionais.)
(Bachtrack’s panel consisted of 16 critics across the world. Their nominations were submitted independently.
They are: Tim Ashley (The Guardian, UK), Lazaro Azar (La Reforma, Mexico), Manuel Brug (Die Welt, Germany), Eleonore Büning (FAZ, Germany), Hugh Canning (The Sunday Times, UK), Arthur Dapieve (O Globo, Brazil), Manuel Drezner (El Espectador, Colombia), Harald Eggebrecht (Süddeutsche Zeitung, Germany), Neil Fisher (The Times, UK), Christian Merlin (Le Figaro, France), Martin Nyström (Dagens Nyheter, Sweden), Clive Paget (Limelight, Australia), Clément Rochefort (France Musique, France), Benjamin Rosado (El Mundo, Spain), Gonzalo Tello (El Comercio, Peru), Haruo Yamada (Japan)
Each critic nominated their top ten orchestras and conductors, with a points system awarding 10 to their top choice, down to 1 for their tenth.
Three North American critics abstained from voting on the basis they felt that had not seen enough of the world's top orchestras recently enough to cast their votes.)
06 setembro 2015
wake me up when september ends
No princípio da semana nadei no lago. Longamente, com a Christina. O Fox à espera na margem, e ela "só mais um bocadinho". Ficámos mais um bocadinho, porque estava perfeito. E nem sabíamos que era a nossa despedida do Verão.
Agora chove no nosso lago. É óbvio que o Verão acabou, mas resisto a meter o corpo em roupa quente. A continuar assim, vou passar muito frio até fins de Setembro, quando as cores nas árvores me acordarem para a realidade: o Verão acabou.
Agora chove no nosso lago. É óbvio que o Verão acabou, mas resisto a meter o corpo em roupa quente. A continuar assim, vou passar muito frio até fins de Setembro, quando as cores nas árvores me acordarem para a realidade: o Verão acabou.
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da minha vida vê-se um lago
05 setembro 2015
recolha do lixo
Isto é muito bom.
Adoro a voz feminina ao microfone, "pode entrar, pode entrar". Ah, dominatrix!
A pizza, essa, o que restar dela pode ir para a quinta das celebridades. "Pizza socratiana" é um nome artístico maravilha.
Já o rapaz, esteve mal: então ele não vê que a pizza está a arrefecer?
Entretanto, o homem da recolha do lixo que vá pondo as barbas de molho, porque também vai sobrar para ele: "O senhor leva aí lixo do Sócrates? Mostre lá o que tem. Aaah, garrafas de água - com gás ou sem gás? Pode abrir, pode abrir. Mostre lá aqui para a câmara."
(Quanto àquele microfone da rtp: está-se mesmo a ver que não tinha uma avó como a minha, que avisava sempre para termos cuidado com as más companhias.)
04 setembro 2015
a linguagem estética que vende
Ando há dois dias sem saber como explicar este sentimento de desconforto perante a perfeição das imagens da criança refugiada que morreu no mar.
É que parece publicidade. Até as cores: vermelho, azul, branco. Não fosse a posição da criança, e pareceria um anúncio de roupa de uma conhecida marca americana. Suspeito que, se a criança estivesse vestida com cores mais folclóricas (imaginem: castanho e bege, por exemplo, e roupas com ar de fora de moda), o impacto em nós não era o mesmo. Porque o que não nos falta é imagens das tragédias horrorosas que acontecem no Mediterrâneo, ou relatos de outras tragédias, como a do camião onde morreram sufocadas dezenas de pessoas. Mas, aparentemente, é esta imagem de um menino de pele branca, vestido de vermelho e azul, que "funciona".
Há vinte anos, a Benetton usava a estética da tragédia para publicitar a sua roupa (lembram-se do barco apinhado de albaneses?). Hoje, precisamos da estética dos anúncios para publicitar a tragédia.
Não quero com isto criticar a campanha em curso - especialmente se tiver efeitos positivos no despertar da nossa solidariedade. Mas confesso que me custa muito que seja preciso chegar a este ponto: escolher, de entre as milhentas imagens das tragédias, as que melhor traduzem a linguagem estética que vende.
**
Um pouco a propósito, transcrevo um texto da Fernanda Câncio:

É que parece publicidade. Até as cores: vermelho, azul, branco. Não fosse a posição da criança, e pareceria um anúncio de roupa de uma conhecida marca americana. Suspeito que, se a criança estivesse vestida com cores mais folclóricas (imaginem: castanho e bege, por exemplo, e roupas com ar de fora de moda), o impacto em nós não era o mesmo. Porque o que não nos falta é imagens das tragédias horrorosas que acontecem no Mediterrâneo, ou relatos de outras tragédias, como a do camião onde morreram sufocadas dezenas de pessoas. Mas, aparentemente, é esta imagem de um menino de pele branca, vestido de vermelho e azul, que "funciona".
Há vinte anos, a Benetton usava a estética da tragédia para publicitar a sua roupa (lembram-se do barco apinhado de albaneses?). Hoje, precisamos da estética dos anúncios para publicitar a tragédia.
Não quero com isto criticar a campanha em curso - especialmente se tiver efeitos positivos no despertar da nossa solidariedade. Mas confesso que me custa muito que seja preciso chegar a este ponto: escolher, de entre as milhentas imagens das tragédias, as que melhor traduzem a linguagem estética que vende.
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Um pouco a propósito, transcrevo um texto da Fernanda Câncio:

Os nossos sentimentos
por FERNANDA CÂNCIOHoje
Se estas poderosas imagens de uma criança síria morta dada à costa não mudarem a atitude da Europa para com os refugiados, o que será preciso?" A pergunta é do jornal britânico The Independent, ontem. A foto é a do menino de T-shirt encarnada e calções escuros, de borco na praia. Olhos fechados, tranquilo como se dormisse: assim são, horrivelmente tranquilas, as fotos de que se encheu o Facebook nos últimos dias, à mistura com tiradas sobre "os políticos" e "a Europa" e "nós", raiva, lágrimas, juras, poemas, emoticons ou o silêncio de quem não encontra o que dizer. Crianças que flutuam num mar de verão, para sempre alheadas de todas as urgências, pavores, fomes, guerras, ódios, fronteiras.
O menino-símbolo tem direito a nome nos jornais: Aylan, 3 anos, sírio, a rir numa foto com o irmão Ghalib, de 5. Também Ghalib, informam--nos, como a mãe dos dois, morreu. Ainda no The Independent, um político trabalhista diz-nos: "Ninguém pode deixar de ser tocado por esta imagem de partir o coração."
Imagens. Não vimos as dos refugiados que morreram sufocados num camião - seriam demasiado terríveis para mostrar na TV e no FB, como o são as das crianças degoladas no último ano pelas hordas do "Estado Islâmico". Queremos os mortos da nossa indignação limpinhos, sem sangue, sem putrefação, para podermos partilhá-los sem pudor. Mas quantos afogados nas costas da Europa vimos nos últimos dez anos? Porque é que Aylan é diferente?
É a gota de água, dir-se-á - passe a ironia obscena de o dizer sobre um menino afogado. Ou, com menos lirismo: porque Aylan, com as suas roupinhas tão ocidentais e a sua pele tão branca, parece tanto uma criança "nossa" que não conseguimos remetê-lo para as inevitabilidades de horror que estamos dispostos a aceitar, sem sequer pensar nisso, naqueles lugares e gentes que entregámos à barbárie.
Seja lá por que for, de repente queremos salvar os Aylans, achamos insuportável que possam morrer assim a caminho de nós, no nosso caminho. De repente Aylan é problema nosso, uma criança nossa como não sentimos e continuaremos a não sentir todas as outras em tantas outras tragédias. De repente até que outra coisa, outra causa, outra imagem qualquer inunde a nossa sensibilidade de Facebook. Até porque o motivo pelo qual Aylan veio dar à nossa praia é demasiado complexo, demasiado difícil (quem tem solução para a Síria e o EI levante o braço), demasiado contraditório com a nossa visão de europeus que desesperam com a baixa natalidade mas não querem nem sonhar em compensá-la com não europeus. Até porque acolher e integrar os Aylans custa dinheiro - e não andámos nós, com denodo, a cortar apoios sociais e o valor das crianças no RSI? Até porque Aylan era provavelmente muçulmano - e temos medo do Islão, e motivos para isso. Até porque os "mandantes europeus" que invetivamos sabem tanto como nós o que fazer. E não sabem porque nós não sabemos - e não queremos, de verdade, saber. Até que.
aritmética simples
Wladimir Kaminer sobre a crise dos refugiados:
"A União Europeia é grande, rica e poderosa, mas tem a autoconfiança de uma criança que se perdeu numa praia desconhecida. Quinhentos milhões de pessoas não precisam de se mijar pelas pernas abaixo por causa de um milhão de refugiados. São quinhentos cidadãos europeus por cada pessoa que precisa de ajuda. Nós conseguimos fazer isso."
(Alguém comentou no facebook: "façam um cartoon com 500 europeus a morrer de medo de um refugiado")
Europäische Union ist groß, reich und stark, hat aber Selbstbewusstsein eines kleinen Kindes, das sich am fremden Strand verlaufen hat. Eine halbe Milliarde Einwohnern muss nicht wegen einer Million Flüchtlingen in die Hose machen. Das ist 1 in-Not- Geratener pro 500 EU-Bürger. Das schaffen wir.
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refugiados,
Wladimir Kaminer
do Porto à conquista do universo (nas tardes de sábado, quando chovia)
Segundo o Expresso, o Espaço 1999 faz hoje 40 anos.
Nesse tempo, lá em casa tínhamos uma nave espacial: era a mesa da sala. Abríamos o tampo, tapávamos o resto da mesa com mantas até ao chão, e prendíamos o desentupidor de borracha ao chão de madeira, para fazer de mudanças. Entrávamos na nossa nave pela abertura no tecto, e partíamos pelo universo de breu ao som do vrrrrrrmmmmm que o piloto fazia enquanto abanava as mudanças freneticamente.
Regressávamos sempre a tempo de ver o Espaço 1999.
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