01 outubro 2015

mandei-lhe uma carta...

Perante a crise de valores na Europa evidenciada de forma muito clara na maneira como está a tratar os refugiados, temos todos perguntado o que podemos fazer. Conheço pessoas que organizaram manifs de boas-vindas aos refugiados, sei dos gestos de generosidade na caravana que os portugueses enviaram, sei dos pais de família que se meteram num carro para ir buscar algumas dessas pessoas ao outro lado da Europa. Um amigo meu propõe que nos manifestemos também ao nível das ideias. Aqui fica a sua proposta: 

Enviar três cartas:
- uma dirigida à embaixadora da Hungria em Lisboa, protestando contra a política do seu governo perante os refugiados;
- uma carta ao primeiro-ministro de Portugal, pedindo para exigir a suspensão da Hungria como membro da UE; e pedindo que, enquanto líder do PSD, membro do PPE (partido onde se inclui o partido no poder na Hungria), peça a expulsão deste partido como membro do PPE;
- uma carta ao cardeal Erdo, arcebispo de Budapeste, pedindo que os bispos católicos sejam mais intervenientes na luta contra este governo.

Cada pessoa pode alterar o texto como entender - trata-se apenas de uma sugestão. Quem não for homem, ou português, ou católico (no caso da carta ao cardeal, que está em francês, seguida da tradução para português), convém mudar essas partes do texto. Os respectivos endereços de e-mail vêm imediatamente antes do texto. 

Se isto ajuda alguma coisa? Talvez ajude. Pelo menos na medida em que dá visibilidade a quem critica o que se está a passar e exige que a Europa saiba traduzir os valores em que diz basear-se para os gestos de acolhimento aos refugiados. O espaço público não pode ser dado de bandeja aos que negam a ajuda por medo da ameaça islâmica - e muito menos aos que vêem no aproveitamento desses medos uma oportunidade de ganhar espaço político. 


Eis as cartas:

A – Embaixada da Hungria


Ex.ma Senhora
Klara Breuer
Embaixadora da Hungria em Lisboa

Ex.ma Senhora Embaixadora

Como cidadão português e europeu, venho exprimir-lhe o meu vivo repúdio pela política do Governo que a Senhora representa e que contraria os tratados da União Europeia, bem como a Declaração Universal dos Direitos Humanos e os principais documentos europeus nessa matéria.

Na minha opinião, a Hungria já devia ter sido suspensa da União Europeia, pela violação sistemática das normas e dos valores básicos e consagrados nos Tratados da UE. Um Governo que manda disparar (mesmo que sejam balas de borracha) sobre pessoas indefesas não merece integrar uma comunidade que nasceu para defender a liberdade, os direitos humanos e o primado do direito.

É lamentável que o seu Governo esqueça que, em 1956, cerca de 200 mil húngaros fugiram do país e foram acolhidos na Áustria e na ex-Jugoslávia, porque queriam uma vida melhor – exactamente o mesmo que procuram agora os refugiados que chegam do Médio Oriente.

Não esqueço que, ao contrário do que faz o seu Governo – que nos lembra o pior do século XX europeu –, a Hungria acolheu, há vinte anos, milhares de pessoas em fuga da então Alemanha de Leste, permitindo a sua passagem para procurar refúgio em outros países.

Espero que o melhor da história da Hungria e dos seus valores venha em breve a vencer as pessoas sem humanidade que tomaram conta do seu país.

Com os meus cumprimentos,



B – Primeiro-ministro


Ex.mo Senhor
Dr. Pedro Passos Coelho
Primeiro-Ministro
Lisboa

Ex.mo Senhor Primeiro-Ministro

Com os meus cumprimentos, venho, enquanto cidadão português e europeu, lamentar o facto de o Senhor e o Governo português ainda não terem exigido a imediata suspensão da Hungria enquanto membro da União Europeia.

O Governo húngaro tem violado sistematicamente regras básicas dos Tratados da UE e dos valores que inspiraram a União. Não se percebe por isso que – ao contrário do que tem sucedido nos últimos tempos, quando estão em causa questões relativas às finanças, em que os governos da UE se apressam a ameaçar com medidas, cortes e expulsões – os comportamentos do Governo húngaro não mereçam mais do que declarações de circunstância e vagas condenações.

Devo acrescentar um outro profundo lamento: o de que o Senhor, enquanto presidente do PSD, que integra o Partido Popular Europeu ao lado da União Cívica Húngara (Fidesz, no Governo na Hungria), não tenha ainda exigido no interior do PPE, a imediata suspensão ou expulsão do partido húngaro do PPE.

Espero, por isso, que a sua atitude mude rapidamente e que Portugal passe a exigir a suspensão da Hungria como Estado-membro da UE. E espero vê-lo, enquanto presidente do PSD, a pedir a suspensão da Fidesz como partido-membro do PPE.

Com os meus cumprimentos,



C – Cardeal Erdo,  arcebispo de Budapeste


Mr. Card. Péter Erdő
Archevêque de Budapest

Éminence

Je suis portugais, citoyen européen et catholique. Et dans cette triple condition, j’ai vraiment honte de ce qui se passe en Europe en ce moment. Je suis particulièrement préoccupé par les actions de ces dernières semaines du gouvernement hongrois concernant la situation des réfugiés – personnes démunies qui ont échappée à la guerre, à  la violence et à la haine.

A nos frontières et d’une façon plus accentuée à la frontière de la Hongrie,  ces personnes sont  de nouveau confrontées à la violence et la haine. J’aimerais penser qu’un pays qui, en 1956, a vu 200 mil personnes passer en Autriche et dans d’autres pays voisins pour fuir la violence politique communiste, n’oublierait pas cette expérience si récente d’être accueilli. J’aimerais aussi penser qu’un pays qui, en 1989, a reçu des milliers d’allemands en fuite de l’Allemagne de l’Est, n’oublierait pas son passé de terre d'accueil.

Mais je me suis trompé. La patrie de Sainte Élisabeth de Hongrie, qui avait une attention privilégiée envers les plus pauvres (comme sont aujourd’hui les réfugiés) semble avoir oublié son héritage et effacé ce que la meilleure tradition chrétienne du pays l’appellerait à faire.

C’est pour ça que je vous écris, Éminence. J’ai lu le communiqué de la Conférence Episcopale de la Hongrie qui manifestait la volonté de suivre les propositions du Pape pour accueillir des réfugiés; mais j’ai lu aussi les propos de l’évêque Laszlo Kiss-Rigo (que je regrette beaucoup, en tant que chrétien), qui disait que les réfugiés viennent  "envahir" l’Europe. Et j’ai lu aussi un article de Reuters (http://www.reuters.com/article/2015/09/05/us-europe-migrants-hungary-divide-idUSKCN0R50F120150905), avec vos déclarations, selon lesquelles l’Église ne peut pas accueillir les réfugiés, car il s’agit de trafic humain. Si ces déclarations sont bien reproduites, Éminence, je me demande comment vous pouvez faire de telles déclarations et en même temps, remercier le Pape. Car le Pape dit exactement le contraire...

Je rappelle aussi votre présence à Lisbonne pour le Congrès de la Nouvelle Évangélisation. Je me demande si la nouvelle évangélisation (comme la "vieille") ne nous demande pas d’accueillir chaque personne, comme nous dit le texte de St. Mathieu 25.

L'essentiel, pour moi, en tant que chrétien, serait de voir les évêques de mon Église (même si d’un autre pays) a lutter par des moyens non-violents, mais aussi forts et publiquement, contre la dérive inhumaine du gouvernement hongrois, qui nous rappelle les heures les plus noires que l’Europe a vécu au XX.ème siècle.

Je sais que beaucoup de chrétiens et de catholiques défient les lois autoritaires de ce gouvernement et sont dans la rue, pour aider de nombreux  réfugiés. Mais je souhaiterais aussi voir les évêques hongrois plus déterminés dans leur critique à ce gouvernement qui invoque le nom de Dieu pour mieux l’effacer de la place publique et de notre continent.

C’est à vous, Éminence, de choisir, en tant qu’archevêque de Esztergom-Budapest, d’être prophète ou de rester caché par la peur. Je crois qu'affronter ce pouvoir et ce gouvernement anti-chrétien c’est un devoir d’un pasteur.

Avec mes salutations,



(Z- carta ao cardeal em português)

Sou português, cidadão europeu e católico. E nesta tripla condição, tenho uma grande vergonha por aquilo que se passa neste momento na Europa. E estou particularmente preocupado pelas acções das últimas semanas do governo húngaro no que respeita à situação dos refugiados – pessoas sem nada que escaparam à guerra, à violência e ao ódio.

Nas nossas fronteiras, e de modo especial na fronteira da Hungria, estas pessoas são de novo confrontadas com a violência e o ódio. Gostaria de pensar que um país que, em 1956, viu 200 mil pessoas saírem para a Áustria e outros países vizinhos, fugindo da violência política comunista, não esqueceria esta experiência recente de ser acolhido. Gostaria de pensar também que um país que, em 1989, recebeu milhares de alemães em fuga da Alemanha de Leste, não esqueceria o seu passado de terra de acolhimento.

Afinal, enganei-me. A pátria de Santa Isabel da Hungria, que tinha uma atenção privilegiada para com os mais pobres (como são hoje os refugiados) parece ter esquecido a sua herança e apagado o que a melhor tradição cristã do país chamaria a fazer.

É por isso que lhe escrevo, Eminência. Li o comunicado da Conferência Episcopal Húngara que manifesta a vontade de seguir as propostas do Papa para acolher refugiados; mas li também as declarações do bispo Laszlo Kiss-Rigo (que lamento profundamente, enquanto cristão), que dizia que os refugiados vêm “invadir” a Europa. E li também uma notícia da Reuters (http://www.reuters.com/article/2015/09/05/us-europe-migrants-hungary-divide-idUSKCN0R50F120150905), com declarações suas, segundo as quais a Igreja não poderia acolher os refugiados, pois isso seria tráfico humano. Se as declarações estão bem reproduzidas, Eminência, pergunto-me como pode dizer isso e, ao mesmo tempo, agradecer o Papa. Porque o Papa diz exactamente o contrário….

Recordo também a sua participação, em Lisboa, no Congresso da Nova Evangelização. E pergunto-me se a nova evangelização (como a “velha”) não nos pede que acolhamos cada pessoa, como nos diz o texto de São Mateus, capítulo 25.

O essencial, para mim, enquanto cristão, seria ver os bispos da minha Igreja (mesmo que de um outro país) a lutar por meios não-violentos, mas também forte e publicamente, contra a deriva desumana do governo húngaro, que nos recorda as horas mais negras que a Europa viveu no século XX.

Sei que muitos cristãos e católicos desafiam as leis autoritárias desse governo e estão na rua, para ajudar numerosos refugiados. Mas gostaria de ver também os bispos húngaros mais determinados na sua crítica a este governo que invoca o nome de deus para melhor o apagar da praça pública e do nosso continente.

É a si, Eminência, que cabe escolher, enquanto arcebispo de Esztergom-Budapest, entre ser profeta ou ficar escondido pelo medo. Creio que afrontar o poder e este governo anti-cristão é o dever de m pastor.

Com os meus cumprimentos



30 setembro 2015

gigante (2)

Dantes recebia muitos e-mails com ofertas de produtos para ficar com um pénis gigante. Apaguei-os todos (menos o que oferecia uma erecção durante 48 horas, estou a ver se aprendo melhor inglês para ver se a dúvida era do produto ou da gramática). Pronto, apaguei-os todos e agora é pena, se ainda os tivesse podia pôr agora um aqui.

Em compensação tenho uma anedota de um homem que tinha um pénis gigante e foi ao médico...
(conto depois de as crianças estarem na cama)
Também há a outra do homem que tinha um pénis gigante e foi ao bruxo... (idem)
E também há a outra que, bom, esta não conto, aprendi-a aos 12 anos, é mesmo muito pateta.
Caramba, anedotas sobre este tema parece que é como areia na praia. Porque será?

(Também havia - e esta é mesmo verdade - a história daquele homem que estava com uma erecção há vários dias, e foi ao hospital. Não vos conto como é que a médica resolveu o problema, porque iam ficar cheios de pena do homem.) (Era uma médica alemã.) (Zimbas, aposto que já estão com os neurónios a mil, a tentar imaginar como é que uma médica alemã talicoisa.)


gigante (1)

A palavra mágica do dia, na nossa Enciclopédia Ilustrada, é "gigante".

Gigante.

Os meus 1,78 m, acrescentados muito a muito durante a infância e adolescência em Portugal, não me deram uma vida fácil.

Nos anos 70 chamavam-me girafa, escadote ambulante e, claro, gigante. Ou gigantone. Encolhia-me como podia, o inferno são os outros, já lá dizia o Sartre (será que também era alto? ou seria por causa dos olhos? na aldeia da minha avó havia um rapaz assim, chamavam-lhe o Mirónorte).

Eu bem dizia que era média, os outros é que eram pequenos. Não adiantava muito: os outros estavam em vasta maioria e, aparentemente, a pequenez da altura também se reflectia no cérebro. Riam-se de mim.

Já era suficientemente mau, mas é sempre possível ficar pior.

Os dias de chuva, por exemplo. Eu a passar pelo meio dos guarda-chuvas, e a água a escorrer deles com toda a pontaria directa ao meu pescoço.

As cozinhas com a sua altura standard, as dores de costas para lavar a louça, ou então lavar a louça de pernas escanchadas, o que parece mal numa senhora.

As camas de ferro na casa da minha avó, eu a dormir com os pés enfiados entre as varas da armação. Nem sei como é que nunca apanhei pneumonia nos pés!

As fotografias ao lado dos amigos, nas quais apareço toda torta com as costas em S, a tentar não ficar uma cabeça acima deles. Agora aprendi a dobrar os joelhos, de modo que fico na imagem com as pernas curtas, as saias pouco acima dos sapatos: pareço uma anã gigante.

Casei com um alemão. Um amigo meu, ao ver que ele é mais baixo que eu, comentou: "disso, também cá temos!"

A minha filha cresceu ainda mais alta e mais depressa que eu. Aos 13 anos disse-me que já lhe bastava, queria tomar alguma coisa para parar o crescimento. Fiquei cheia de dúvidas sobre possíveis efeitos colaterais, e não lhe dei. Ainda hoje não sei se fiz bem ou mal - em todo o caso, já é tarde. Os pais têm muitas vezes demasiado poder. E ninguém nos prepara para isso.


"the quick papyrus of social groupings"

"Saudação a Walt Whitman” / “Salutation to Walt Whitman” Álvaro de Campos por /by Patti Smith from Casa Fernando Pessoa on Vimeo.

Encontrei este vídeo num comentário, no mural de facebook do Carlito Azevedo.

Informação para os amigos: os textos do Carlito Azevedo e a caixa de comentários são um oásis no facebook. (De nada, de nada, ora essa, temos de ser uns para os outros.)


29 setembro 2015

ai!, estou a ver que vou ter de sair do armário


Começou em tom surdo, quase nem notei. Tinha acabado de fotografar o pôr-do-sol, e descobri que nas minhas costas nascia a lua. Apontei a máquina (a minha pobre máquina de bolso e de ir à guerra nos passeios com o Fox), e no momento em que disparei surgiu do nada um pássaro para abrilhantar a cena. Queria o pássaro dentro da lua, ainda fiquei por ali uns bons minutos na esperança que repetisse a gracinha. Só alguns dias mais tarde me lembrei desta foto e me dei conta de que - disparada ao acaso - me saiu muito melhor que a que tinha sonhado.




Depois, o eclipse da lua. A foto a preto foi feita às cinco da manhã. Meti-a no AutoKorrektur do Picture Manager do Office, e deu a segunda imagem. Estava lá, que eu bem a tinha visto. Como tantas vezes na vida, os outros é que não viam. Se os pastorinhos de Fátima tivessem Picture Manager, bem podiam ter evitado aquela ameaça de os meterem num caldeirão de azeite a ferver. Era só ligar o computador, e pronto, o senhor presidente da câmara ficava informado.



Ontem, estava eu ver o noticiário da noite, reparei que a lua me observava atentamente, diria quase com cara de stalker. Tirei duas fotografias, nunca se sabe quando serão úteis como prova de alguma coisa.

E esta manhã lá estava ela de novo, enorme e pálida, a espreitar o meu pequeno-almoço enquanto se escondia por trás da floresta. Fiquei tão perturbada que nem me lembrei de fotografar.

**

Esta fixação na lua não me parece normal. Será que tenho de sair do armário, e assumir que sou lobisomem? Lobimulher?

("Oh, não se preocupe, menina, isso cura-se.")

 

programa para hoje, em Lisboa




Se estivesse hoje em Lisboa, ia ouvir este olhar da psicologia sobre os brandos costumes que acreditamos serem nossos. E se calhar extorquia um autógrafo ao autor do livro.

(Ou vários, como daquela vez que apanhei a Herta Müller a jeito e levava cinco exemplares do mesmo livro. No verão passado apeteceu-me comprar este "Proibido" para oferecer a todos os meus amigos.)

(Por sorte não estou em Lisboa hoje, está-se mesmo a ver que me ia desgraçar de vez, mas os meus amigos iam gostar muito de mim.)

(Espero que o psicólogo se saia melhor que aquela que ouvi uma vez na Dussmann a falar dos medos dos alemães, e dos traumas não resolvidos da II GM, e a fazer o retrato psicológico do Schröder sem que ele lhe tivesse pedido, "o chanceler no fundo era um rapazinho a querer impressionar a mãe, que o criou sozinha com imensas dificuldades"...)


28 setembro 2015

eclipse


(trouxe a foto do Spiegel - vá-se lá saber porquê (!!!), de manhã, 
quando tentei ver as minhas, estava tudo preto)

O despertador tocou às cinco. Para ver a lua de sangue subimos ao terraço no telhado: o céu sem nuvens, aqui e ali uma estrela muito nítida, a lua com ferrugem. Tentámos aldrabar umas fotografias, fomos vencidos pelo frio, voltámos para a cama. Descobrimos que bastava subir a persiana do nosso quarto para ver a lua, deitados no quentinho. Verifiquei a cor, dormitei, abri um olho e estava em lua nova, dormitei, abri o outro olho e a mancha branca alastrava. Da última vez que controlei, já só tinha um pequeno naco escuro. Achei que a partir dali ela já se desenrascava sozinha, e voltei a adormecer. O pior foi levantar de manhã em trajes como direi, e ter a persiana subida.
Começámos o dia estourados. Que raio de ideia fazerem o eclipse da lua a esta hora! Não podiam fazer a uma hora mais confortável – ao almoço, por exemplo?

Como em 1999, no eclipse solar. Foi às dez da manhã, fiz gazeta ao trabalho e os miúdos ao jardim infantil, e fomos para um parque. Para lhes poupar os olhos, obriguei-os a ficar de costas para o sol. Em compensação não poupei a máquina fotográfica, que foi daquele eclipse directamente para os anjinhos. O dia estava enevoado, pelo que às vezes, quando as nuvens passavam em frente ao sol, deixava os miúdos darem uma espreitadela. Com os óculos de protecção, claro.

(Fico aqui a pensar se os eclipses também escondem a minha inteligência ou se, pelo contrário, evidenciam a falta dela...)

como acolher os refugiados?

Repasso um texto que escrevi para o blogue da associação Conceitos do Mundo.
(Podem espreitar a associação aqui, e o blogue aqui)





Estima-se que este ano entrarão na Alemanha mais de 800 mil refugiados. Como acolher dignamente todas essas pessoas?

Na semana passada falou-se muito da cidadezinha de Schwerte, estranhamente confundida com o campo de concentração de Buchenwald, que fez a opção de dividir os “seus” refugiados em grupos de vinte pessoas, no máximo, para evitar situações de gueto. Por falta de alojamento disponível, puseram um desses grupos na casa onde viviam os guardas de um campo de trabalhos forçados que funcionou durante 10 meses em 1944. Entretanto chegaram mais de 150 refugiados num dia só, e ficaram todos num pavilhão desportivo.

Esta cidade é um bom exemplo das dificuldades em ajudar de forma digna as pessoas que chegam repentinamente e em tão grande número. Tem havido protestos devido à atribuição de um número igual de refugiados a cada município, sem fazer contas à população de cada região nem às suas capacidades financeiras. Sugere-se que a distribuição das pessoas seja proporcional à população local, e as despesas sejam assumidas pelos fundos federais. Debate-se e decide-se a uma velocidade estonteante. 

Mas os problemas já estão aí, e as situações terão de ser corrigidas. Uma amiga contava-me recentemente que visitou uma aldeia da região de Erzgebirge, onde optaram por reabrir um antigo campo de férias dos Pioneiros para alojar cerca de 2500 refugiados. O problema é que a aldeia tem apenas 2400 habitantes. A vida na aldeia mudou completamente de um dia para o outro, e encheu-se de micro tragédias, como a da família que tinha marcado no notário a assinatura do contrato de venda da sua casa, e esta não se chegou a realizar porque o comprador já não quer comprar casa nenhuma naquele lugar. O que mais atormenta os antigos habitantes é o medo do que não compreendem, e sobretudo os surtos de violência entre os refugiados.

Não tenho ilusões: se metessem todas as pessoas da minha selecta rua berlinense num antigo campo de férias dos Pioneiros, e dessem um quarto a cada família, nem uma semana levaria para começarem conflitos graves entre todos. Aliás, basta ir aos hotéis all inclusive em regiões de pacotes turísticos baratos, e ver como os turistas europeus se atropelam no buffet para serem os primeiros a chegar aos camarões ou aos morangos…

Não vou criticar a decisão de reabrir o campo de férias dos Pioneiros, porque não tenho nenhuma solução melhor para resolver este problema neste preciso momento. Mas é óbvio que a integração dos refugiados exige uma distribuição muito mais cuidada. Se no seu total são 1% da população europeia, então não podem ser mais do que 1% (ou, digamos, 5%) da população de cada rua, aldeia, ou cidade. Não pode haver guetos. A propósito, ocorre-me agora uma antiga lei de Berlim, nos anos 60, quando os emigrantes começaram a chegar à cidade. Uma vez atingido o plafond de emigrantes estabelecido para cada bairro, não podia entrar mais nenhum. Uma portuguesa contou-me que, com a ajuda do padre, aldrabaram um bocadinho para ela conseguir ir morar com o marido.

A minha amiga falou com alguns refugiados que encontrou na rua ou no autocarro, nessa aldeia da região de Erzgebirge. Contaram-lhe as suas dificuldades para conseguirem chegar aqui, os problemas actuais, nomeadamente os desentendimentos dentro do seu próprio grupo, que está muito longe de ser homogéneo. Queixaram-se dos “penetras” de outros países – iranianos e iraquianos que compram um passaporte sírio por 500 euros e aproveitam a oportunidade para emigrar para a Europa. Eu já ia comentar “ah, isso não se faz!”, mas o meu vizinho irlandês começou a dizer, em tom pensativo, “ah, o Irão e o Iraque…” – um amigo dele, iraniano residente no Reino Unido, foi visitar a família ao Irão e foi preso por se ter convertido ao cristianismo. Quando o libertaram, um mês mais tarde, vinha sem dentes.

As tragédias do mundo estão a bater insistentemente à nossa porta, e é cada vez mais difícil fazer de conta que não vemos. Contudo, não podemos ser ingénuos. Os gestos de solidariedade que esta situação exige à Europa têm de ser inteligentes e realistas. O mundo não é a preto e branco. Os refugiados que aqui chegam não são uma versão moderna de um cavalo de Tróia recheado de fundamentalistas muçulmanos, mas também não são os “pobrezinhos agradecidos, honrados e submissos” que tanto jeito nos dava. São indivíduos com as suas idiossincrasias e a sua história pessoal, como qualquer um de nós.

Não vale a pena discutir se os queremos cá ou não. Eles já estão cá, e há muitos mais a caminho. Um fluxo imparável de pessoas desesperadas, que vêem na Europa a sua última hipótese de conseguir voltar a ter uma vida. Quando a Angela Merkel escancarou as fronteiras alemãs para acolher os refugiados, avisou imediatamente que a integração destas pessoas era um desígnio nacional. Para além do tecto, alimentação, vestuário e acesso aos cuidados de saúde que lhes serão dados, é preciso um esforço enorme das sociedades para que quem entra agora na Europa se venha a sentir europeu. Há que arregaçar as mangas e começar a trabalhar com entusiasmo e incansavelmente para fazer da nossa Europa um lugar onde todos se sintam bem. É esse o maior desafio: integrar estes novos membros da sociedade num “nós” europeu. Que será certamente diferente do que é hoje – mas está hoje nas nossas mãos fazer com que seja o melhor possível.


27 setembro 2015

as folhas do outono nos nenúfares do verão




Durante o verão, era por aqui que entrava na água para atravessar o lago a nado. Hoje ainda hesitei, mas deixei que o comodismo vencesse. Não me apeteceu voltar a casa para vestir o fato de banho, e fiz de conta que estava frio. Quando começar a ficar outra vez com o esqueleto enferrujado, bem me vou arrepender das desculpas que inventei para não nadar aqui todos os dias. 

Por falar em comodismo, o seu oposto: há dias alguém largou uma perna junto à margem, e misturou-se com os outros na água. 
Viva a alegria da vida!

 


maratona de Berlim 2015, ou: coitadinha da Nike


(foto: Bild)

Longe vão os tempos em que fazíamos uma spaghetti-party na véspera da maratona, nos levantávamos de madrugada para ir de S-Bahn para o centro da cidade, e dividíamos trabalhos (uns corriam a direito, outros corriam de um lado para o outro como maluquinhos para os aplaudir em vários locais diferentes do percurso). Longe vão até os tempos de irmos calmamente ver e aplaudir o pessoal a passar na Olivaer Platz, bem perto da nossa casa.

Estamos velhos. Hoje vimos o fim da maratona na televisão. Tentávamos adivinhar o ponto do percurso pelas lojas que se viam ao lado. Descobrimos que vista do ar, a pique, a cidade está belíssima de Outono. E a cada passo víamos imagens do campeão a correr, e estranhávamos os estranhos adereços nos sapatos. Que era aquilo, que era aquilo? Que ideia mais louca, correr com uns sapatos enfeitados daquela maneira!

Vimo-lo passar a porta de Brandeburgo (foi nessa parte que o Joachim sentiu saudades dos dias em que corria a maratona) e a atravessar a meta, e foi então que explicaram: as palmilhas tinham-se soltado, e foram saindo por trás do pé. Para não perder tempo, ele continuou a correr. Cheio de dores.

Coitadinha da Nike. Pergunto-me que é que vai fazer para descalçar esta bota... 


26 setembro 2015

projecto de vida


Quando desço para o lago nos passeios matinais, costumo escolher o caminho que leva à clareira dos juncos, onde flutuam pequenos troncos esquecidos e surpresas várias.

Esta manhã encontrei sobre um deles uma tartaruga grande. Tinha o pescoço todo esticado para cima, tentando guardar o sol em cada milímetro da pele. Maravilhosa composição de tons de verde e luz, e o puro gozo animal. Baixei-me para pousar a tralha que tinha na mão (era o passeio do Fox, não queiram saber pormenores), e enquanto procurava a máquina fotográfica para apanhar aquela cena de splendour in the green, comecei a cantar "navegar é preciso".

Ela saltou imediatamente para a água e desapareceu. Agora estou sem saber se não gosta do Caetano Veloso, ou se tem um problema com o Fernando Pessoa, ou se ficou ofendida pelo que entendeu como crítica ao seu projecto de vida.


25 setembro 2015

a RTP a servir antigermanismo em horário nobre

A notícia já tem dois dias. Ontem comentei lá, mas hoje, curiosamente, todos os comentários tinham desaparecido. (Deixo-os de novo, no fim do post, para o caso de alguém os ter apagado sem querer, e os querer recuperar.)



Alemanha aloja refugiados em antigos campos de concentração
Mundo








Podem ver o filme seguindo o link acima.

A peça tem dois minutos e trinta e oito segundos. O primeiro minuto é para relatar os horrores que os refugiados passam para chegar à Alemanha. O tempo restante não é para contar como é que a Alemanha faz para alojar várias centenas de milhares de refugiados num ano só. Em vez disso, manipula imagens para tornar escandalosa uma notícia sem grande importância sobre o alojamento de 50 pessoas. Começa por contar que os refugiados preferem que os filhos fiquem com eles num baldio, à chuva e ao frio durante toda a noite, a aceitar serem separados das crianças (...onde é que eu já vi isto, uma cena de separarem os homens das mulheres e das crianças à saída de um comboio?) e passa imediatamente para imagens das torres de vigia de um campo de concentração nazi. Mais óbvio, é difícil. E é muito triste que se use a tragédia dos refugiados para produzir esta peça que reforça os sentimentos de antigermanismo.

Não me pagam para isto, e não sou eu quem usa o título de jornalista, mas aqui vai alguma informação sobre este escândalo de estarem a meter "muitos refugiados num dos símbolos dos dias mais negros da Europa".

- O campo de concentração de Dachau tinha a área dos prisioneiros (que é hoje um memorial e centro de informação), a área dos SS, que era assumidamente uma terrível escola de crueldade (depois da guerra foi ocupada pelos soldados americanos, e desde 1972 está a ser usada por um corpo de Polícia bávaro, a Bereitschaftspolizei), e o Kräutergarten, uma exploração agrícola experimental, com alguns edifícios administrativos e de estufas. O trabalho no campo era muito duro e feito sem máquinas, em permanente sujeição ao sadismo e à prepotência dos SS. Dentro dos edifícios, as condições de trabalho eram menos brutais.
Em Dachau fizeram-se experiências médicas tão terríveis quanto diletantes, que provocaram a morte de centenas de prisioneiros em condições de enorme sofrimento. Mas a principal causa do elevado número de mortes naquele campo foram as epidemias que alastravam entre os prisioneiros, vivendo sem condições mínimas de higiene e saúde, e extremamente enfraquecidos pela má alimentação e o esgotamento físico.

- A seguir à guerra, a exploração agrícola continuou a funcionar até 1949, ano em que foi fechada por não ser rentável. A cidade de Dachau comprou os terrenos em 1957, e construiu neles uma zona industrial. Os antigos edifícios ligados à exploração agrícola, que ficam na fronteira da cidade, para lá da zona industrial, foram deixados ao abandono ou utilizados para outros fins. Na altura, ninguém pensou em fazer também ali um memorial. Os pavilhões do instituto de ensino e investigação foram entregues a uma empresa que os modificou imenso, e os edifícios administrativos foram aproveitados para alojar pessoas sem-abrigo. Em 2013 a autarquia decidiu fazer obras nesses edifícios para os aumentar, de modo a poder alojar os refugiados cujo pedido para ficar na Alemanha tinha sido aprovado, e que por esse motivo tinham de sair do centro de refugiados que ainda estão à espera de regularizar a sua situação, mas não conseguiam encontrar ninguém disposto a alugar-lhes uma casa.
(para mais informações: aqui, em alemão)

- Foi nesse edifício (já usado para outras pessoas sem-abrigo) que alojaram cerca de 50 refugiados com autorização para viver na Alemanha. Não encontrei nenhuma notícia nos jornais alemães informando que se trata dos refugiados que estão a chegar agora. Pergunto-me se esta notícia da RTP confundiu refugiados que já têm autorização de residência na Alemanha com os novos refugiados sírios, ou se confundiu Dachau com uma das suas 160 extensões, por exemplo com um campo de trabalho na região de Augsburg, onde durante uns tempos se pôs a hipótese de usar esse tipo de instalações, ideia que foi posta de parte na sequência de um aceso debate.

- O processo de recuperação da área e dos edifícios abandonados da exploração agrícola de Dachau, para fazer um memorial, é muito recente. Durante décadas estiveram votados ao abandono, e só há poucos anos é que se começou a lembrar a importância daquele lugar para o trabalho da memória histórica. Como de costume faltam os meios financeiros, e há o problema premente de os edifícios serem necessários para alojar pessoas em situação de necessidade.

- Do que vou vendo sobre os memoriais dos campos de concentração, dou-me conta de que a zona dos prisioneiros é intocável, mas as zonas dos serviços de segurança e administração podem ser destinadas a outros usos. Nas casernas dos SS em Buchenwald, por exemplo, há agora uma espécie de albergue da juventude para quem queira ficar uns dias a estudar o campo. Espero que a RTP não faça nova peça noticiosa alarmando-nos para o facto de no campo de concentração de Buchenwald estarem "retidos jovens de todas as nacionalidades" durante "longos períodos"! Ou de terem transformado o campo de concentração num hotel!

- A região de Dachau, que tem cerca de 130 mil habitantes, está a contar receber este ano entre 1800 e 1900 refugiados. (Quantos refugiados é que Portugal vai receber ao todo, este ano?)


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Os comentários, que desapareceram misteriosamente da página da RTP, eram estes:

Helena Araújo • há um dia
Qual é a intenção desta notícia? Com que objectivo escolheram este título? Porque é que escolheram estas imagens, que associamos ao horror nazi, em vez de filmarem os edifícios concretos onde alojaram alguns refugiados (que, diga-se de passagem, se sentem muito melhor ali que nas tendas ou nos pavilhões desportivos onde vivem centenas de pessoas sem a menor privacidade)?
Só em 2015, a Alemanha terá de acolher entre oitocentos mil e um milhão de refugiados. As autarquias estão a trabalhar no absoluto limite das capacidades e forças para receber essas pessoas. As imagens de centenas de pessoas a viver juntas e sem qualquer privacidade em pavilhões desportivos são de partir o coração. Outras há que vivem em tendas - e os dias já começaram a arrefecer. Onde alojar todas estas pessoas?
São estes os factos: num edifício ligado ao campo de concentração de Dachau, que já era morada de pessoas sem-abrigo e que queriam transformar num centro internacional de estudos, foram instalados cerca de 50 refugiados (note-se que este mês já houve alturas em que chegavam diariamente 10.000 pessoas a Munique), enquanto se tenta arranjar uma casa decente para eles. Os factos são esses, mas a RTP produz uma sequência de imagens que dá a sensação que os refugiados vêm aos milhares directamente da Síria para os campos do terror nazi. Tenham vergonha!

Ana ->  Helena Araújo • há um dia
E o campo já acolheu refugiados alemães... se fossem ao site do campo de concentração tem lá um link onde explicam isso! Também não entendo porque é que em entrevista à sra. do Museu não mencionaram isso... Mais uma vez manipula-se as pessoas sem informação para o bem e para o mal...
Ricardo Martins -> Helena Araújo • há um dia
O objectivo é informar. Não se vai mascarar a realidade para ficar bem. Esta é a realidade, esta é a noticia.

Helena Araújo -> Ricardo Martins • há um dia
Ricardo Martins, se o objectivo fosse informar, mostravam imagens do edifício onde estão alojados 50 refugiados, em vez de pôr imagens de uma torre nazi e uma cerca eléctrica e sobrepor imagens actuais e imagens de arquivo que nos fazem imediatamente pensar nos transportes para Auschwitz. Se o objectivo fosse informar, entrevistavam esses refugiados para saber o que pensam do facto de estarem num edifício ligado ao campo de Dachau, e davam a palavra à autarquia para explicar o motivo daquela decisão. Se o objectivo fosse informar, o título era "Alemanha com dificuldades graves para alojar os refugiados que estão a chegar em grande número".
(E, já agora, aprendiam a pronunciar "Dachau" correctamente. Mas isso é mesmo só um detalhe.)

André Capela -> Helena Araújo • há 21 horas
O sr jornalista explicou bem, as imagens são as verdadeiras como poderá confirmar pelo testemunho da sra alemã.... E pronunciaremos direito Dachau quando eles souberem dizer Lisboa por ex...

Alexandra Patricia -> Helena Araújo • há 15 horas
Mas o incrível é que quando instalaram chuveiros refrescantes para os visitantes em Auschwitz, numa semana de intenso calor, toda a gente reclamou e disse sentir-se em choque porque relembrava uma era de horror que marcou o mundo... e agora não lembra?

− HC • há um dia
Muito bem comentado pela Helena e Ana, parabéns, por causa desses comentários já nem necessito de dar a minha achega para corrigir esta extremamente tendenciosa notícia.

Ricardo Martins • há um dia
E achava eu que o cúmulo do humor negro era o Aeroporto Francisco Sá Carneiro.


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Para o caso de o filme também vir a ser inadvertidamente apagado, deixo aqui um resumo. Diz que é uma peça jornalística...


0'00 - Barco de refugiados no Mediterrâneo. Refugiado conta os horrores que tem passado. Voz off fala sobre o naufrágio do barco onde ele ia.
0'40 - O relato continua. Os refugiados chegam à Croácia. Um refugiado diz que quer encontrar paz, liberdade, direitos humanos, etc.
0'58 - Voz off: "esperam por respeito e paz, mas não esperavam pela reacção húngara" [imagens do muro que está a ser construído na fronteira de Hungria] (...) "O percurso ainda se faz por lá, mas todos correm, mesmo exaustos, quando sentem que estão a chegar à Áustria.
1'19 - "São melhor recebidos, mas já sentem o fim do Verão [imagens da multidão de refugiados à chuva num descampado]. Um austríaco diz que tentam levar as crianças para um sítio abrigado, mas os pais não se querem separar dos filhos.
1'44 - [imagens de uma torre de um campo de concentração nazi] Voz off: "Enquanto aguardam pelos processos de asilo, há muitos refugiados que estão a ser colocados num dos símbolos dos dias mais negros da Europa: Dachau, o primeiro campo de concentração alemão. [imagem de uma criança a correr para dentro de um edifício antigo]
1'55 - Entrevista à directora do memorial de Dachau: "Os edifícios pertenciam à antiga plantação, ao jardim das ervas aromáticas, que era um dos piores locais de trabalho forçado no campo de concentração de Dachau, onde os judeus e os prisioneiros religiosos trabalhavam para tornar o solo arável, e onde plantavam ervas medicinais."
2'19 - Voz off: "Era a zona mais temida do campo onde morreram mais de 41 mil pessoas." [fotografías históricas das barracas e de prisioneiros a serem torturados com o "Pfahlhängen"; a seguir um filme antigo de uma multidão em marcha carregando os seus pertences, imediatamente seguido da mesma cena com refugiados actuais, que estão a sair de um comboio para um descampado] "O peso histórico local causou controvérsia, mas faz parte dos problemas que a Alemanha enfrenta com a chegada de centenas de milhares de refugiados. Tensões e fantasmas europeus num continente longe de perceber como pode resolver esta crise."


24 setembro 2015

mais uma "notícia" escandalosa sobre a Alemanha



Antes do escândalo dos refugiados-levados-para-os-campos-de-concentração-nazis houve um outro escândalo que envolveu a Alemanha, também forjado, mas desta vez com o objectivo de denegrir a imagem dos refugiados. Por sorte há escândalos para alimentar preconceitos de todas as espécies - vai por aqui um self-service que só visto.
É certo que um artigo que começa com

German Girls Must Cover Arms and Legs to Appease Syrian “Refugees”

So many nonwhite invaders from the Middle East have entered Germany over the past few months that a school headmaster in Bavaria has been forced to ask female pupils to cover up their arms and legs—for their own protection against local Syrian “refugees.”

não devia ir muito longe, mas foi. Muitas pessoas acreditaram, e lá me vieram perguntar se era mesmo verdade.

A quem ouviu falar desta história e ficou mesmo a pensar que as pobres rapariguinhas alemãs não tarda nada estão a usar burka, aqui vai a tradução da parte da carta enviada aos pais, pela escola que disponibilizou um ginásio para acolher provisoriamente refugiados:

Qual é o comportamento adequado em relação aos refugiados? 

Os cidadãos sírios são na sua maioria muçulmanos e falam árabe. Os refugiados estão formados pela sua própria cultura. 
Tendo em conta que a nossa escola fica mesmo ao lado do centro de refugiados, o uso de vestuário discreto devia ser adequado para evitar discrepâncias. Tops ou blusas transparentes, calções curtos ou mini-saias podem levar a mal-entendidos.
Deve-se evitar ao máximo observar os refugiados despudoradamente, bem como tirar fotografias - por favor, respeitem a dignidade das pessoas. 

Comentários de desprezo ou racistas não podem de modo algum ser tolerados. 
Por favor tenham em conta que os refugiados sírios estão a fugir da guerra, e alguns deles estão traumatizados. Devemos tratá-los com respeito, e oferecer-lhes apoio, pois todas as crianças e todas as pessoas merecem ter um futuro.


Tão simples como isto: entender o contexto dessas pessoas, e respeitá-las.
Claro que podemos agora questionar se os refugiados têm algum direito de vir cá para a nossa terra e trazer as manias e os tiques deles. Ter o direito, se calhar não têm, mas também não nos caem os parentes na lama se tivermos algum cuidado para evitar mal-entendidos e para que eles se sintam bem entre nós.

Esta questão do vestuário na escola está longe de ser pacífica na Alemanha, e não se coloca apenas devido à presença de refugiados sírios. Já há vários anos que algumas escolas tentam uniformizar parcialmente o vestuário dos alunos, de forma a evitar exageros e competições (e parece que o ambiente entre os alunos melhora substancialmente); por seu lado, este ano houve duas escolas que foram muito faladas por terem imposto certas regras de vestuário - e não foi devido à proximidade de refugiados. A revista Focus conta que numa escola de Hamburgo o conselho de representantes de professores, pais e alunos emitiu um dress code que proibia mostrar "peito, barriga, roupa interior/cuecas, demasiada coxa", por uma questão de respeito e tolerância mútuos. E uma outra escola, no sul da Alemanha, proibiu hot pants, e empresta t-shirts para esconder as roupas menos púdicas. A carta que a escola enviou aos pais e uma dessas t-shirts já foram parar à Casa da História, em Bona. E assim vai a vida...


23 setembro 2015

zoo

Como se não tivesse o suficiente com que me entreter, agora participo numa enciclopédia um bocadinho maluca no facebook. Decidi que vou copiar para o blogue alguns dos textos que lá escrevo (sobretudo por causa de uma amiga minha que se recusa a ir para o facebook, e já se queixou que o blogue tem andado abandonado - olá, L.!) e aqui vai o primeiro.

A palavra de hoje era "zoo".

Estou aqui a pensar se conto daquela vez que fui ao zoo e na aldeia dos gorilas vi o gorilão a agarrar num gorilinha que passava perto e zimbas, cá vai disto, enquanto ao longe as gorilas adultas observavam a cena por cima do ombro, com o corpo virado a 3/4 e cara de "é a vida". Nunca mais me vou esquecer da cara de "é a vida" daquelas fêmeas. Desconfio que também a faço.

Os miúdos visitantes não perceberam, os seus pais - especialmente os homens - não conseguiam reprimir os gritos de surpresa, interesse e, temo dizê-lo, entusiasmo. Não sei que deu nos bichos do jardim zoológico nesse dia, que um pouco mais à frente um canguru começou a masturbar-se virado para nós (e aquela coisa de crescerem pêlos nas mãos é verdade: tinha as patas peludas que só visto!). Depois curvou-se para a frente e fez um autobroche. Mas por essa altura já as mães tinham agarrado nos carrinhos de bebé e fugido aos gritos histéricos, "oh my gosh! oh my gosh!" (eu não fugi, estava a olhar para a cena para depois poder contar aqui com todo o detalhe, o meu interesse era meramente jornalístico).

Foi no jardim zoológico de San Francisco. Nós comprávamos o cartão anual de família da Coyote Point Recreation Area, que custava uma ninharia e dava acesso gratuito ao zoo de SF e a uma série de museus da Bay Area. De modo que íamos passear muitas vezes para o zoo ao fim do dia, depois da escola. Mas só nesse dia é que deu a louca aos bichos. A mim, deu uma louca quando vi o crocodilo albino a mexer as patas, aquelas patinhas claras e rechonchudas, parecia mesmo um bebé. Por sorte, entre ele e eu havia uma grade que me protegia de mim própria e do impulso de lhe fazer uma festinha.

Também fomos ao zoo uma vez depois do anoitecer. Havia uma sessão especial para os patrocinadores, e o grupo de capoeira da Christina foi actuar. Entrei como mãe, e o Matthias como irmão, vimos toda aquela gente fina (tenho quase a certeza que vi a DeDe Halcyon-Day!) e todas as serventias com que os tratavam. Nós éramos meros figurantes funcionais, de status ligeiramente superior ao dos animais que foram buscar às jaulas para serem apalpados pelos VIPinhos. À saída, os miúdos pediram um dos sacos com os presentes para as crianças, mas fizeram-lhes saber que eram só para os filhos dos ricos. Os meus devem ter feito cara de "isto é vida?!" de tal modo que uma voluntária teve pena deles e deu um saco a cada um, enquanto resmungava com as outras. Estava cheio de porcarias caras que não servem para nada.

O zoo de San Francisco deve ser dos menos maus que conheço. Esse, e o Wilhelmina em Estugarda. Fui lá há quase vinte anos, quando a Christina era bebé, e tinham acabado de fazer obras para alargar imenso o espaço dos ursos. Menos mau, menos mau. O de Berlim não tem tanto espaço, mas eles tentam fazer o melhor possível (enfim, o melhor possível era fechar os zoos). Estivemos lá uma vez, para ver a aldeia dos hipopótamos quando a refizeram. Tem uma parte de aquário, e quando a água não está turva o espectáculo é extraordinário: debaixo da água, os hipopótamos têm a graciosidade de bailarinas. Agora me lembro que em Berlim há dois zoos: o de Berlim Ocidental e o de Berlim Oriental. A guerra fria também se fez desta competição entre equipamentos urbanos de prestígio.

Em San Francisco não havia dois zoos, mas havia um grupo de bisontes num espaço amplo do Golden Gate Park - outra das nossas paragens favoritas, depois da escola. Uma vez vimos um bisonte morrer. Ele deitado, a tremer, e nós pasmados a olhar para ele. Os miúdos perguntaram o que era aquilo, e eu devo ter respondido algo como "é a vida..." No dia seguinte havia marcas no chão, de ter sido arrastado para um camião, o que tornou tudo mais fácil: a ordem tinha sido reposta.

Os filhos cresceram, nunca mais voltei a um zoo. Apesar das tantas vezes que os visitei, não gosto. Com mais ou menos espaço, é uma prisão para animais que deviam viver em liberdade.

- E então, porque entraste neles, Heleninha?
- Mais ou menos pelo mesmo motivo que me leva a comprar carne para comer, sabendo muito bem as condições terríveis em que esses animais são criados. Quem não tiver telhados de vidro que atire a primeira pedra.


22 setembro 2015

rotas




O cimento do passeio para exercício de regras auto-impostas: pisar apenas os quadrados inteiros, ou seguir o percurso das brechas, ou nunca pisar plantas ou pastilhas elásticas (ou cocó de cão, ça va sans dire) - tudo era pretexto para inventar rotas e andar aos ziguezagues e aos saltinhos na rua.

Inventar rotas pelas rachas no chão da cozinha: os continentes, ilhas e ligações marítimas do meu mapa-múndi. Enquanto esperava que o leite fervesse, contava as voltas ao mundo e à mesa no meio da cozinha. Não sei como é que o leite fazia para começar a subir quando eu estava a caminho dos antípodas, bem me apressava aos saltos do Japão para a China e desta para a Austrália, atravessar o Índico e subir a costa africana e chegar ao fogão. Mal chegava a casa, tinha de ir à pia buscar um esfregão para limpar tudo. É muito difícil ter sete anos, uma imaginação imparável, uma absoluta incapacidade de voltar atrás quando se vai de partida para mais uma circum-navegação, e a responsabilidade de preparar o pequeno-almoço da família.


to anywhere

Eh, pá! Não me digam que era preciso tirar bilhete para esta viagem?!

(Estou a ver que ando clandestina desde que nasci até hoje)


21 setembro 2015

com a Síria no coração

1.





2.


(cliquem na imagem)



3. 


"Prezados clientes, devido à chegada inesperada de vários autocarros com refugiados, muitos bébés e crianças pequenas, disponibilizámos esta noite a nossa mercadoria para as pessoas de apoio. Foi uma situação de emergência aguda. Já encomendámos nova mercadoria e esperamos pela Vossa compreensão. Muito obrigado!"



4.





5.

Um texto excelente de Renato Carreira, no blogue inÉPCIA:



10 razões para não querer refugiados sírios em Portugal

1- A primeira razão é religiosa. Muitos dos refugiados são muçulmanos. Alguns são cristãos, mas esses não contam porque os cristão são sempre pessoas bondosas e fáceis de acolher. Vejam-se os exemplos de Madre Teresa de Calcutá, Júlio Isidro ou Adolfo Hitler. Portugal é um país cristão e pretende continuar a sê-lo. Não podemos permitir que uma horda de maometanos nos entre por aqui dentro, instalando-se na nossa imensa provisão de igrejas vazias, convertendo-as em mesquitas (ou, pior ainda, em restaurantes de kebab) e ameaçando a instituição milenar do catolicismo não praticante que tanto nos orgulha.

2- A segunda razão é cromática. Uma boa parte dos refugiados sírios tem tons de pele acobreados, cabelos e olhos escuros. Estragariam a bonita uniformidade da pele alva, cabelos louros e olhos azuis do nórdico povo português. Porque a coerência étnica também é importante.

3- A terceira razão é política. Instalando-se em Portugal, será inevitável que alguns sírios adquiram a cidadania portuguesa com o passar dos anos, acabando por conquistar também o direito ao voto. É impossível prever o que esta gente, nada habituada a uma democracia verdadeira como a que existe por cá, fará com o seu voto. Sem cair no alarmismo, será até possível que comecem a alternar no poder partidos com provas dadas durante décadas de que até se preocupam com os interesses do país, mas só depois de satisfeitas as suas agendas próprias.

4- A quarta razão é académica. Alguns refugiados possuem estudos superiores. Não precisamos de mais gente com estudos em Portugal. Já somos suficientemente letrados. Quanto aos que não têm estudos, será melhor que se mantenham também à distância. Enchendo Portugal com analfabetos e semi-analfabetos vindos de longe, podemos correr o risco de ter a TVI como líder de audiências ou o Correio da Manhã como um dos jornais mais lidos.

5- A quinta razão é social. O sistema de segurança social está de plena saúde e, com o envelhecimento da população e a emigração dos jovens em grande número, não precisamos de gente em idade laboral e com filhos para tornar o sistema sustentável. Será divertido começarmos a receber pensões em conchinhas da praia.

6- A sexta razão é securitária. Existe o risco de virem terroristas infiltrados entre os refugiados. Não podemos permitir que entrem no nosso país. Sem o acolhimento de refugiados, os terroristas continuarão a não conseguir cruzar as nossas fronteiras. Recorde-se que a grande muralha vaporosa de cheiro a sardinha assada que cobre a fronteira aberta entre Portugal e Espanha se mantém intransponível.

7- A sétima razão é cultural. Os sírios têm uma cultura árabe, completamente diferente da nossa. Se os recebermos em Portugal, a identidade cultural portuguesa corre o risco de se perder. Quando dermos por isso, ter-nos-ão contagiado com os seus hábitos. Começaremos a ter almoços longos. A passar muito tempo em cafés. A batizar localidades com nomes começados por “al”. Defendamos o que é ser genuinamente português!

8- A oitava razão é tecnológica. Muitos refugiados foram vistos com smartphones e outros aparelhos tecnológicos caros, provando que não são assim tão miseráveis como dão a entender. Se há coisa que provam os três telemóveis que cada português usa em simultâneo é que a posse de engenhocas é sinal de prosperidade.

9- A nona razão é histórica. Os portugueses são um povo que nunca saiu do seu país. Ao longo da nossa história, ficámos sempre sossegados no nosso canto e nunca esperámos que nos aceitassem nos países dos outros. Por isso, não podem esperar agora que acolhamos quem quer que seja.

10- A décima razão é embaraçosa. Se acolhermos os sírios e tivermos de olhar para eles de vez em quando, seremos obrigados a recordar coisas desconfortáveis. Teremos de recordar, por exemplo, que uma grande parte da população portuguesa não é capaz de interpretar adequadamente o que vê na televisão e lê nos jornais, reagindo a uma movimentação de refugiados como se fosse uma “invasão” e usando como argumentos as ações do Estado Islâmico (precisamente a entidade de que os refugiados fogem), acorrendo em massa ao facebook para clamar contra as consequências graves de um suposto “choque cultural” como forma de camuflar o que é apenas xenofobia, ignorância e estupidez.


20 setembro 2015

Cinemagosto 2015

A nossa mostra de cinema português em Berlim, o Cinemagosto 2015, decorreu no último fim-de-semana de Agosto - já vai quase há um mês. Esta semana desmontaremos a exposição da Maria Leonardo, e depois começamos a sonhar o Cinemagosto 2016.

Durante quatro dias Portugal exibiu-se em Berlim, e tinha muito para mostrar: o excelente cinema português, a nossa Anabela Moutinho a apresentar cada filme, falando também do seu autor e das suas circunstâncias; as folhas distribuídas à entrada na sala, informando e convidando a uma análise crítica; a homenagem ao Manoel de Oliveira (finalmente entendi!) (se não fosse o Cinemagosto, o que seria de mim...); a festa portuguesa no foyer do cinema, os pastéis de nata, o presunto e o queijo, o pão e o vinho; os DVD de filmes portugueses.

Pessoalmente, ganhei imenso. Ganhei as horas com os voluntários que nos ajudam a montar as bancas e a vender, ganhei os risos com eles e a sua generosidade ("queres ver este filme? vai lá, vai lá, eu fico a tomar conta de tudo!"). Ganhei um almoço muito divertido com a Dorte Schneider e o Markus Lenz. Ganhei as conversas com um público simpático e interessado. Ganhei as conversas com os nossos patrocinadores, o seu entusiasmo e apoio à nossa causa ("decidimos dar-vos mais do que combinámos porque o que fazem tem imenso valor!" - onde é que estão os meus lenços de papel, que se desmaterializam sempre que preciso deles?). E tive a sorte de conseguir ver cinco filmes - ao contrário do ano passado, que me correu muito mal: então uma pessoa quer reduzir a sua insularidade e trata de arranjar um grupo de malucos para trazer cinema português a Berlim (isto é teoria liberal pura e dura: se cada um perseguir o seu interesse egoísta, o mundo fica melhor...) e acaba a ver apenas dois?! Algo está podre nessa teoria liberal... Bom, como ia dizendo: vi metade dos filmes da mostra, gostei muito de todos. E especialmente do Fleurette, do Sérgio Tréfaut. Um documentário absolutamente tocante - mesmo que tivesse sido o único, já teria bastado para me dar por muitíssimo satisfeita com o meu Cinemagosto 2015. Olhem aqui o trailer (espero que os vossos lenços de papel não se desmaterializem como os meus):




Esta semana encerra-se o Cinemagosto 2015 com o fecho da exposição fotográfica. Olho para o que fizemos e sinto um orgulho enorme por ser parte deste grupo de pessoas, sinto-me grata pelo apoio de todos e feliz por saber que queremos continuar.






  




geometria matinal, teoria geral do tempo, dores de cabeça




Luz da manhã, o Fox ensaia alguns passos no mundo da geometria. 

Ainda outro dia esperava ansiosa que a alameda de jasmim junto ao lago florisse, e já o Outono se anuncia. Se a minha vida continua a este ritmo, daqui a nada é o Natal de 2017. Talvez fosse boa ideia começar a pensar nos presentes.




guia de orientação sobre como ter acesso aos documentos sobre o TTIP




Tradução a partir deste texto:



19 setembro 2015

como se estivesse morto em vida



Testemunho de Abdullah Kurdi, pai de Aylan Kurdi:

"Deixámos Damasco pouco depois do início da guerra na Síria. Vivíamos no bairro curdo de Rukn al-Din e eu trabalhava como barbeiro. A situação na cidade tornou cada mais perigosa. Decidimos partir para Kobane onde a minha mulher e eu trabalhávamos na agricultura. Tentei a minha sorte em Istambul numa fábrica têxtil. Doze horas por dia eram passadas na fábrica e à noite dormia numa cave que o dono da fábrica fechava do lado de fora. O salário enviava-o para Kobane para a minha a família. Foi assim durante três anos até o Estado Islâmico ter tomado Kobane em 2014. Com Rehan, a minha mulher, Galib e Aylan, os meus filhos, e milhares de outros habitantes fugimos. Pela primeira vez a minha mulher disse: "temos de abandonar a Síria", antes recusara sempre. Viemos para Istambul onde procurei um trabalho na construção civil. Carregava 200 sacos de cimento escadas acima, onze horas por dia. O nosso quarto custava 400 liras turcas por mês. Durante 5 meses a minha irmã, que vive há 25 anos no Canadá, pagou-nos a renda. Pedimos asilo ao Canadá, mas este foi-nos recusado, escolhemos então ir para a Alemanha onde o meu irmão vive, em Heidelberg, num centro de refugiados. Tentamos ir por terra, mas a polícia turca deteve-nos na fronteira com a Bulgária. A única opção que nos estava era o mar. A minha irmã deu-me os 4 mil euros que entreguei aos traficantes turcos e sírios. No nosso barco a motor iam 13 pessoas e parecia ser seguro. O capitão disse: "a viagem dura apenas dez minutos". Podíamos ver Kos. A água estava calma, mas poucos minutos depois tudo se alterou. Veio uma onda e virou o barco, era de noite e não via a minha mulher e os meus filhos. Mas ouvi a minha mulher, as suas últimas palavras foram: "Abu Galib, pai de Galib, cuida das crianças". Não as consegui segurar. Agarrei-me ao barco. Um dos que iam comigo conseguiu alcançar a costa e chamou a polícia. Passei a noite numa cela e no dia seguinte pediram-me para identificar a minha família. A minha amada mulher Rehan, Aylan, o menino que sorria sempre, e Galib que nunca parava quieto. Enterrei a minha família em Kobane e vivo na casa destruída do meu sogro. Não há infra-estrutura, há pó por todo o lado, os corpos dos mortos continuam debaixo das ruínas. O cheiro é insuportável e os insectos picam-nos à noite. Não há medicamentos, não há leite para as crianças, não há quase água. Nunca mais deixarei Kobane, quero estar perto da minha família, mesmo que a única coisa que tenha deles seja roupa. É como estar morto em vida".


(obrigada, Helena Ferro de Gouveia)
(obrigada, Spiegel)


visto de cima, o meu jardim quase parece um quadro do Mondrian







Esta manhã a minha vizinha trouxe-me um carrinho de mão cheio de flores para o meu jardim. Fui-lhe devolver o carrinho com a terra que se soltou (que a terra é cara, eu bem sei a como vendiam o m2 nesta rua) e ela deu-me mais um torrão de margaridas. Veio comigo, para ver como as outras já estavam bonitas no canteiro, e depois fomos a casa dela buscar uns catálogos de trepadeiras. A seguir ela veio ver as clematites que plantei ontem. De tanto andarmos ó pra trás e ó prá frente, ainda vamos fazer sulcos no passeio.

À tarde fui comprar uma figueira. Uma figueira em Berlim: é o que vos digo, nesta cidade há malucos para tudo. Daqui a vinte anos logo direi se resultou ou não. Caí na asneira de perguntar ao senhor do horto o que pensava de fazer uma sebe ao longo da rua com árvores de fruta em coluna (será que é este o nome certo, em Portugal?), e zimbas: saí de lá com cinco delas: pera-nashi, maçãs vermelhas, damascos, diospireiro ("portugiesisch"! - tinha de comprar, claro!), e uma que eu pensei que era de nêsperas (e fiquei toda contente) mas é nespereira-europeia, o que não é nada a mesma coisa, de modo que amanhã vou lá tentar trocar por abrunhos.

Na próxima semana tenho de encomendar uns belos metros cúbicos de boa terra para substituir o solo arenoso de Brandeburgo, depois faço a tal sebe com árvores de frutas variadas com 1 m de diâmetro e 2 m de altura. E daqui a vinte anos voltamos a falar, e eu conto se foi boa ideia.