15 setembro 2015

de que fogem eles?



Fogem de Zaatari, o campo de refugiados sírios na Jordânia, que já é a quarta "cidade" maior desse país. 

Fogem da fome:



Fogem da morte:




Na semana passada vi no noticiário da ZDF uma reportagem sobre as condições nos campos de refugiados no norte do Iraque. As tendas, o pó, a falta de perspectivas, um homem a gritar "mãe Merkel! Eu quero ir para a mãe Merkel!" e uma família que vendeu os últimos bens que tinha para pagar a alguém que leve um dos filhos deles, de 14 anos, para a Alemanha. Sabem que se ele conseguir chegar aqui não será mandado embora, por ser menor, e mais tarde talvez consiga chamar a família para vir viver com ele.

Um miúdo de 14 anos! Esta responsabilidade. A certeza das muitas dificuldades na travessia da Ásia Menor, do mar e da Europa. O risco de morrer nesta terrível desventura. Mostram imagens do adolescente no meio da família, e o repórter remata: "ele já não pode voltar atrás". Um miúdo de 14 anos.

Porque é que eu não lhe pago a passagem de avião e não o meto na minha casa? De algum modo sou como o fotógrafo que capta a imagem de uma criança a morrer de fome e um abutre por trás, à espera.

E nem me posso desculpar com o argumento de que é o que todos fazem. Este fim-de-semana estive com quatro alemães entre os 17 e os 24 anos. Mal comentei que estava a pensar meter cá em casa refugiados, desataram todos a dar-me informações sobre o que é preciso fazer e com quem eu devo falar. O miúdo de 17 anos trabalha como voluntário num centro de acolhimento e, apesar de morar num apartamento sem espaço suficiente, queria partilhar o seu próprio quarto com um refugiado.

Eles a trabalhar, e eu aqui a pôr imagens, e a dizer que é uma tragédia. Para o activismo de sofá ser completo, só me falta mesmo fazer um pin "Je suis Aylan"...


os humanos de Yann Arthus-Bertrand








Lembram-se do Home, do Yann Arthus-Bertrand? Passou da casa aos seus habitantes. Hão-de ser umas quatro horas de filme. A ver se no próximo fim-de-semana chove, já tinha aqui um programa bem catita. Copio do youtube:

What is it that makes us human? Is it that we love, that we fight ? That we laugh ? Cry ? Our curiosity ? The quest for discovery ? 

Driven by these questions, filmmaker and artist Yann Arthus-Bertrand spent three years collecting real-life stories from 2,000 women and men in 60 countries. Working with a dedicated team of translators, journalists and cameramen, Yann captures deeply personal and emotional accounts of topics that unite us all; struggles with poverty, war, homophobia, and the future of our planet mixed with moments of love and happiness.

Watch the 3 volumes of the film and experience #WhatMakesUsHUMAN.

The VOL.1 deals with the themes of love, women, work and poverty.
The VOL.2 deals with the themes of war, forgiving, homosexuality, family and life after death.
The VOL.3 deals with the themes of happiness, education, disability, immigration, corruption and the meaning of life.

If you want to discover more contents, go on http://g.co/humanthemovie


14 setembro 2015

hey tuga!

Encontrei estes cartazes no facebook. Maravilha!







"engana-me, que eu gosto", ou: "jornalistas" que aprenderam bem com Goebbels, e em 2015 o pessoal continua a cair que nem patinhos, mas depois dizem que os alemães é que são incapazes de aprender com a História...


Se tivesse tempo para isso, passava o resto do dia a dizer palavrões por causa desta notíciadesta. Belos pedaços de bosta. Inventam praticamente toda uma notícia a partir de alguns factos verdadeiros, muito bem misturados com a sua descontextualização e uma imaginação fértil ao serviço da causa de denegrir a imagem de um país. A estas horas, o Goebbels deve estar a babar no túmulo: "Bons alunos, sim senhor, brilhantes! Caramba, eu não teria conseguido fazer melhor!"

O título do Daily News:


Housed in a notorious concentration camp: Refugees who fled to Europe for a better life are living in former Nazi barracks at Buchenwald where thousands of slave-labourers died after being subjected to medical experiments 

  • 21 male asylum-seekers living on site of Buchenwald concentration camp
  • Men are waiting for the asylum-seeker applications to be returned to them 
  • 56,000 prisoners died at the camp between July 1937 and April 1945 
  • Angela Merkel welcomed thousands of migrants to Germany in last week  


Read more: http://www.dailymail.co.uk/news/article-3230670/Housed-notorious-concentration-camp-Refugees-fled-Europe-better-life-living-former-Nazi-barracks-Buchenwald-thousands-slave-labourers-died-subjected-medical-experiments.html#ixzz3li7Z1v8u
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Um disparate e uma manipulação, que já se espalhou pelas redes sociais como fogo em palha seca, acompanhado por comentários chocadíssimos. Ora bem: quem acha que os alemães eram capazes de instalar refugiados no campo de concentração de Buchenwald sem qualquer problema de consciência, devia fazer um exame muito atento aos seus próprios preconceitos.

Não há refugiados no campo de Buchenwald, nem pode haver, por muitos motivos. Desde já porque no campo de Buchenwald não haveria onde alojar refugiados - a não ser que desfizessem os museus para os converter em dormitórios. Só gente ignorante e mal intencionada seria capaz de imaginar que os alemães alguma vez fossem capazes de fechar os museus de Buchenwald para usar os edifícios para outros fins. Além disso, a própria direcção do memorial de Buchenwald criticou dura e publicamente a decisão do município de Schwerte (que fica a centenas de quilómetros de distância) de utilizar temporariamente um edifício histórico desse tipo para alojar refugiados.

O artigo do Daily News, pondo lado a lado dois refugiados no seu quarto e uma fotografia icónica do horror de Buchenwald, é simplesmente de vómito. E o Sputnik News cobre-se de ridículo ao sublinhar a notícia de refugiados-em-Buchenwald!-ai,-que-horror! com uma sugestão de um político berlinense (portanto: sem nada a ver com Buchenwald ou Dortmund) sobre alojar temporariamente os refugiados no antigo aeroporto de Tempelhof, para que não fiquem na rua enquanto se procura para eles um alojamento condigno.

Os factos:

Pouco antes do fim da guerra, foi criado perto de Dortmund um centro de alojamento para presos russos e polacos, capturados no seu país para fazerem trabalhos forçados na Alemanha. O seu trabalho era reparar locomotivas; ao longo dos dez meses em que funcionou, o número de prisioneiros alojados nessas barracas variou entre 100 e 700 prisioneiros. Não é Buchenwald, é uma das centenas de centros de trabalhos forçados geridos por Buchenwald. Não tem nada a ver com extermínio, nem com a ideia de matar as pessoas com trabalho - é obrigar pessoas dos países conquistados a fazer trabalho escravo. O que é um crime, obviamente, mas ainda está bastante longe do "campo que exterminou milhares de pessoas" e das "vítimas de experiências de medicina", como referem os artigos. No fim da guerra as barracas dos prisioneiros foram destruídas, e só restou o edifício dos guardas, que foi usado sucessivamente como jardim infantil, atelier de artistas e alojamento para os refugiados da guerra da Jugoslávia. Depois disso ficou vazio, e foi classificado como memorial, para que não se esqueça o horror nazi.

Em 2015, Schwerte, uma cidade de 45 mil habitantes e altamente endividada (60 milhões de euros), não tem meios para alojar os refugiados dignamente. As condições actuais são inaceitáveis (por exemplo: em Janeiro deste ano, quando esta decisão foi anunciada e logo muito criticada, havia um grupo de 18 pessoas com apenas um quarto de banho, e dezenas de homens alojados num dormitório comum sem qualquer privacidade). O antigo edifício dos guardas do campo de concentração apareceu como uma solução de recurso, tanto mais que já foi usado para outros fins. A reacção da sociedade alemã foi de forte repúdio, e houve - ou não estivéssemos nós na Alemanha! - um debate alargado. Os autarcas de Schwerte compreendem as críticas, mas insistem que não têm meios para fazer melhor. E que o maior problema destes refugiados não é serem alojados em edifícios que lembram um momento tenebroso da História alemã, mas serem confrontados com a xenofobia de alguns grupos. Entretanto, há algumas semanas chegaram mais 150 refugiados a essa cidade, que foram alojados num ginásio, onde um grupo de voluntários trabalhou dia e noite para montar as camas necessárias.

Digam vocês: se fossem refugiados e tivessem de escolher entre ficar num pavilhão desportivo com mais 150 pessoas, ou partilhar um quarto com apenas mais uma pessoa num edifício que durante 10 meses foi usado por guardas de um campo de trabalhos forçados (e depois disso como jardim infantil, atelier de artistas e centro de refugiados jugoslavos), o que é que preferiam?

E se fossem o presidente da Câmara de uma cidade altamente endividada: preferiam gastar o dinheiro que não têm na compra de contentores para alojar os refugiados sem beliscar a sensibilidade histórica de ninguém, ou dar-lhes o alojamento possível, e aulas de alemão e formação profissional, para eles conseguirem arranjar emprego o mais depressa possível?

E porque estou mesmo furiosa com esta manipulação, e com os comentários que hoje li no facebook por gente que gosta de acreditar que os alemães não são flor que se cheire, cá vai um desafio: sabem fazer melhor que os alemães? Então façam. Escrevam ao presidente da Câmara de Schwerte a pedir que envie para a vossa cidade os 21 refugiados instalados no tal campo. Ele terá todo o gosto em recorrer à vossa ajuda para resolver este problema que também o incomoda muito.

11 setembro 2015

merecer a sorte que temos




Verdade seja dita, nem todos os judeus que conseguiram escapar ao Holocausto eram pessoas maravilhosas e impecáveis. É preciso ser muito ingénuo, de uma ingenuidade a tocar a idiotia, para acreditar que uma pessoa que é vítima de algo só pode ser um everybody's darling.

Bem sei que os Evangelhos nos exortam a ver Jesus Cristo nos mais pobres mas, caramba, isso não é para ler literalmente. Os barcos e os comboios de refugiados não estão apinhados de clones de Jesus.

Com certeza que estas pessoas trazem os seus problemas, os seus hábitos culturais e os seus traumas. Vai ser necessário um longo trabalho de adaptação mútua e diálogo intercultural. Mas recusar ajudá-los por medo e por comodismo é algo que combina mal com este continente rico e baseado em ideais humanistas no qual nos calhou em sorte nascer.

Saibamos merecer essa sorte.
Mais ainda: saibamos trabalhar para que o nosso continente seja cada vez mais um lugar onde os ideais humanistas se misturam à História que construímos dia a dia.

**

A propósito, fui ao arquivo deste blogue buscar um texto que traduzi do diário de Ruth Andreas-Friedrich, uma jornalista que pertencia a um grupo de resistência em Berlim. Em 1939 esse grupo transportava para fora do país pertences dos judeus que fugiam sem poderem levar nada com eles. Esta página do seu diário refere uma dessas viagens ("Amanhã chegaremos a Paris. Finalmente poder falar sem ser em surdina. Sem ter de usar metáforas ou olhar em volta com medo.").

Paris, Domingo 16.07.1939

Durante todo o dia o vaivém no nosso quarto não pára. Amigos, conhecidos, amigos de amigos, conhecidos de conhecidos. Todos querem saber o que se passa na Alemanha, trocar impressões, receber saudações, aliviar a alma. Nem todos continuam como eram antes desta breve, ou longa, separação. É-me difícil falar com alguns deles. Porque é que começaram a pensar que somos simpatizantes dos nazis? Apenas porque regressaremos à Alemanha? Porque dizem agora "nós, judeus" quando antes diziam "nós, amigos"? Não éramos amigos quando os ajudámos a fugir do país? Hitler inventou a separação das raças, e eles próprios reforçam esse discurso quando se reconhecem naquela diferença. Algumas conversas deixam-me muito desanimada. Mas Andrik chama-me à razão. 
- Não caias também tu no erro de pensar que todos os judeus são anjinhos. Nem todos aqueles que os nazis transformaram em seus inimigos são amigos nossos. Um ou outro senhor Abraão, Isaac ou Jacob seria alegremente nazi, se o deixassem. 
- Mas, os emigrantes... 
- Não há "os" emigrantes. Há o amigo A que emigrou, a amiga B que emigrou. O problema central está nas generalizações. Todos os polacos são assim. Todos os franceses são assado. Todos os judeus têm de ser isto e aquilo. Avaliação do carácter segundo um esquema simplista, centenas de milhares numa única gaveta. Se não nos libertarmos desse hábito, nunca chegaremos a bom porto. Nem no que diz respeito ao diálogo entre os humanos, nem à tolerância. 
Vejo-me obrigada a dar-lhe razão. E já não exijo que "todos" os emigrantes partilhem os nossos pontos de vista.


desfazer o que se fez




No meio da praga de comentários xenófobos contra os refugiados apareceu-me o vídeo dos "refugiados a recusar comida por vir numa caixa com uma cruz vermelha", espalhado por aí a partir do site de um jornal. Entretanto o jornal já avisou que a notícia é errada, e que eles estão a protestar pelo modo como foram tratados e não devido à cruz que se vê na embalagem (aqui está a história completa), mas a mentira continua a espalhar-se e a encontrar pessoas que fazem questão de acreditar nela.

Agarrem-me, que se me deixassem mandar mandava que a pessoa que largou no mundo uma falsidade deste género (mesmo que involuntariamente) fosse obrigada a desfazer o engano em todos os sites onde houvesse ecos do que afirmou. E não seria apenas deixar um comentário entre milhares de comentários - seria a obrigação de insistir, insistir, insistir, até que ninguém tenha mais dúvidas sobre o facto de aquela notícia ser mentira.

Dito isto, espreitei os comentários de várias cópias deste vídeo no youtube. Neste caso, desfazer o que se fez é um trabalho de Sísifo. Por isso mesmo me parece que é imperioso responsabilizar seriamente as pessoas, para que elas pensem dez vezes antes de porem estas mentiras a jeito de caírem nas redes sociais.

Perguntarão: estás a ver bem o que queres fazer? Isso são anos de trabalho!
Bom, entre uma pessoa passar anos a desfazer o que fez num momento de irreflexão, e um grupo de pessoas ter de aguentar ao longo dos anos (ou até de várias gerações) as consequências de um discurso xenófobo do qual não tem qualquer culpa... entre estes dois casos, confesso que mon coeur ne balance pas. 


10 setembro 2015

preconceitos



Qual é o original, qual é a cópia?

Isto não é sobre a língua alemã. É sobretudo sobre manipulações e a nossa tendência para acreditar no que queremos.

Também podia ser sobre os refugiados que estão a acostar à Europa. Em Portugal há gente a morrer de medo, dizendo que são terríveis, terroristas, o diabo.

O diabo são os nossos preconceitos.


hoje, em Lisboa: lançamento do livro "Levante-se o réu", de Rui Cardoso Martinas




Se estivesse em Lisboa hoje, garanto que ia a este lançamento e tentava caçar um autógrafo à Vera Tavares, autora da capa fabulosa, e outro ao Rui Cardoso Martins. De caminho, tentaria dizer ao Rui Cardoso Martins que admiro a dignidade que mantém no meio daquele lamaçal. Este livro é uma travessia pelo mais sórdido de que somos capazes, e o escritor olha-o nos olhos sem medo nem rodeios. Às vezes até consegue ser divertido. Pelas entrelinhas, respiram os princípios éticos do autor, que nos permitem esta incursão no lodo humano sem ficarmos por lá desoladamente atolados.


08 setembro 2015

lá está a Merkel outra vez...



Cinco das dez melhores orquestras do mundo são alemãs.
Duas são em Berlim, e outras duas a menos de 200 km de Berlim.
Estou em crer que a culpa é da Merkel...

(Estou em crer que isto são muitos séculos a gostar e a investir na música, e muitos políticos - dos melhores aos piores, diga-se de passagem - a reconhecer a importância de ter orquestras excepcionais.)

(Bachtrack’s panel consisted of 16 critics across the world. Their nominations were submitted independently. 
They are: Tim Ashley (The Guardian, UK), Lazaro Azar (La Reforma, Mexico), Manuel Brug (Die Welt, Germany), Eleonore Büning (FAZ, Germany), Hugh Canning (The Sunday Times, UK), Arthur Dapieve (O Globo, Brazil), Manuel Drezner (El Espectador, Colombia), Harald Eggebrecht (Süddeutsche Zeitung, Germany), Neil Fisher (The Times, UK), Christian Merlin (Le Figaro, France), Martin Nyström (Dagens Nyheter, Sweden), Clive Paget (Limelight, Australia), Clément Rochefort (France Musique, France), Benjamin Rosado (El Mundo, Spain), Gonzalo Tello (El Comercio, Peru), Haruo Yamada (Japan) 
Each critic nominated their top ten orchestras and conductors, with a points system awarding 10 to their top choice, down to 1 for their tenth. 
Three North American critics abstained from voting on the basis they felt that had not seen enough of the world's top orchestras recently enough to cast their votes.)


06 setembro 2015

wake me up when september ends

No princípio da semana nadei no lago. Longamente, com a Christina. O Fox à espera na margem, e ela "só mais um bocadinho". Ficámos mais um bocadinho, porque estava perfeito. E nem sabíamos que era a nossa despedida do Verão.

Agora chove no nosso lago. É óbvio que o Verão acabou, mas resisto a meter o corpo em roupa quente. A continuar assim, vou passar muito frio até fins de Setembro, quando as cores nas árvores me acordarem para a realidade: o Verão acabou. 



 

 

05 setembro 2015

recolha do lixo




Isto é muito bom.
Adoro a voz feminina ao microfone, "pode entrar, pode entrar". Ah, dominatrix!
A pizza, essa, o que restar dela pode ir para a quinta das celebridades. "Pizza socratiana" é um nome artístico maravilha.
Já o rapaz, esteve mal: então ele não vê que a pizza está a arrefecer?
Entretanto, o homem da recolha do lixo que vá pondo as barbas de molho, porque também vai sobrar para ele: "O senhor leva aí lixo do Sócrates? Mostre lá o que tem. Aaah, garrafas de água - com gás ou sem gás? Pode abrir, pode abrir. Mostre lá aqui para a câmara."

(Quanto àquele microfone da rtp: está-se mesmo a ver que não tinha uma avó como a minha, que avisava sempre para termos cuidado com as más companhias.)

04 setembro 2015

a linguagem estética que vende

Ando há dois dias sem saber como explicar este sentimento de desconforto perante a perfeição das imagens da criança refugiada que morreu no mar.

É que parece publicidade. Até as cores: vermelho, azul, branco. Não fosse a posição da criança, e pareceria um anúncio de roupa de uma conhecida marca americana. Suspeito que, se a criança estivesse vestida com cores mais folclóricas (imaginem: castanho e bege, por exemplo, e roupas com ar de fora de moda), o impacto em nós não era o mesmo. Porque o que não nos falta é imagens das tragédias horrorosas que acontecem no Mediterrâneo, ou relatos de outras tragédias, como a do camião onde morreram sufocadas dezenas de pessoas. Mas, aparentemente, é esta imagem de um menino de pele branca, vestido de vermelho e azul, que "funciona".

Há vinte anos, a Benetton usava a estética da tragédia para publicitar a sua roupa (lembram-se do barco apinhado de albaneses?). Hoje, precisamos da estética dos anúncios para publicitar a tragédia.

Não quero com isto criticar a campanha em curso - especialmente se tiver efeitos positivos no despertar da nossa solidariedade. Mas confesso que me custa muito que seja preciso chegar a este ponto: escolher, de entre as milhentas imagens das tragédias, as que melhor traduzem a linguagem estética que vende.

**

Um pouco a propósito, transcrevo um texto da Fernanda Câncio:

FERNANDA CÂNCIO

Os nossos sentimentos

por FERNANDA CÂNCIOHoje

Se estas poderosas imagens de uma criança síria morta dada à costa não mudarem a atitude da Europa para com os refugiados, o que será preciso?" A pergunta é do jornal britânico The Independent, ontem. A foto é a do menino de T-shirt encarnada e calções escuros, de borco na praia. Olhos fechados, tranquilo como se dormisse: assim são, horrivelmente tranquilas, as fotos de que se encheu o Facebook nos últimos dias, à mistura com tiradas sobre "os políticos" e "a Europa" e "nós", raiva, lágrimas, juras, poemas, emoticons ou o silêncio de quem não encontra o que dizer. Crianças que flutuam num mar de verão, para sempre alheadas de todas as urgências, pavores, fomes, guerras, ódios, fronteiras.
O menino-símbolo tem direito a nome nos jornais: Aylan, 3 anos, sírio, a rir numa foto com o irmão Ghalib, de 5. Também Ghalib, informam--nos, como a mãe dos dois, morreu. Ainda no The Independent, um político trabalhista diz-nos: "Ninguém pode deixar de ser tocado por esta imagem de partir o coração."
Imagens. Não vimos as dos refugiados que morreram sufocados num camião - seriam demasiado terríveis para mostrar na TV e no FB, como o são as das crianças degoladas no último ano pelas hordas do "Estado Islâmico". Queremos os mortos da nossa indignação limpinhos, sem sangue, sem putrefação, para podermos partilhá-los sem pudor. Mas quantos afogados nas costas da Europa vimos nos últimos dez anos? Porque é que Aylan é diferente?
É a gota de água, dir-se-á - passe a ironia obscena de o dizer sobre um menino afogado. Ou, com menos lirismo: porque Aylan, com as suas roupinhas tão ocidentais e a sua pele tão branca, parece tanto uma criança "nossa" que não conseguimos remetê-lo para as inevitabilidades de horror que estamos dispostos a aceitar, sem sequer pensar nisso, naqueles lugares e gentes que entregámos à barbárie.
Seja lá por que for, de repente queremos salvar os Aylans, achamos insuportável que possam morrer assim a caminho de nós, no nosso caminho. De repente Aylan é problema nosso, uma criança nossa como não sentimos e continuaremos a não sentir todas as outras em tantas outras tragédias. De repente até que outra coisa, outra causa, outra imagem qualquer inunde a nossa sensibilidade de Facebook. Até porque o motivo pelo qual Aylan veio dar à nossa praia é demasiado complexo, demasiado difícil (quem tem solução para a Síria e o EI levante o braço), demasiado contraditório com a nossa visão de europeus que desesperam com a baixa natalidade mas não querem nem sonhar em compensá-la com não europeus. Até porque acolher e integrar os Aylans custa dinheiro - e não andámos nós, com denodo, a cortar apoios sociais e o valor das crianças no RSI? Até porque Aylan era provavelmente muçulmano - e temos medo do Islão, e motivos para isso. Até porque os "mandantes europeus" que invetivamos sabem tanto como nós o que fazer. E não sabem porque nós não sabemos - e não queremos, de verdade, saber. Até que.

aritmética simples


Wladimir Kaminer sobre a crise dos refugiados:

"A União Europeia é grande, rica e poderosa, mas tem a autoconfiança de uma criança que se perdeu numa praia desconhecida. Quinhentos milhões de pessoas não precisam de se mijar pelas pernas abaixo por causa de um milhão de refugiados. São quinhentos cidadãos europeus por cada pessoa que precisa de ajuda. Nós conseguimos fazer isso."

(Alguém comentou no facebook: "façam um cartoon com 500 europeus a morrer de medo de um refugiado")

Europäische Union ist groß, reich und stark, hat aber Selbstbewusstsein eines kleinen Kindes, das sich am fremden Strand verlaufen hat. Eine halbe Milliarde Einwohnern muss nicht wegen einer Million Flüchtlingen in die Hose machen. Das ist 1 in-Not- Geratener pro 500 EU-Bürger. Das schaffen wir.

do Porto à conquista do universo (nas tardes de sábado, quando chovia)


Segundo o Expresso, o Espaço 1999 faz hoje 40 anos. 

Nesse tempo, lá em casa tínhamos uma nave espacial: era a mesa da sala. Abríamos o tampo, tapávamos o resto da mesa com mantas até ao chão, e prendíamos o desentupidor de borracha ao chão de madeira, para fazer de mudanças. Entrávamos na nossa nave pela abertura no tecto, e partíamos pelo universo de breu ao som do vrrrrrrmmmmm que o piloto fazia enquanto abanava as mudanças freneticamente. Regressávamos sempre a tempo de ver o Espaço 1999.


29 agosto 2015

"como vais?"

As cenas deste filme lembram-me uma anedota que se contava no verão de 1989 na Alemanha:

Duas pessoas da RDA cruzam-se na rua:
- Como vais?, pergunta um.
O outro chega mais perto, e segreda:
- Pela Hungria.

Há 26 anos era assim. A Hungria abriu a fronteira para a Áustria, e os alemães da RDA aproveitaram para fugir, deixando tudo para trás.

Agora a Hungria - melhor dizendo: a Europa, nós! - fecha a porta.
Ontem encontrei no Cinemagosto duas alemãs que trabalham como voluntárias no acolhimento dos refugiados que conseguem chegar a Berlim. Das conversas com elas, algo ficou muito claro: se não fizermos ouvir a nossa opinião por palavras e por gestos de solidariedade, nada vai mudar nesta nossa Europa.
Está nas nossas mãos.




27 agosto 2015

Cinemagosto, hoje!









Leio o anúncio do Cinemagosto no site de um dos melhores cinemas berlinenses, aqui (em alemão), e sinto-me feliz e incrivelmente orgulhosa: quatro dias de cinema português nos Hackesche Höfe, no coração de Berlim!

Ontem, uma amiga comentava comigo: "a vida é tão gira quando tudo é possível, não é?"
É, é! Mas, no caso do Cinemagosto, estão aqui muitos meses de trabalho intenso da Anabela Moutinho, curadora da mostra, e do Hannes Reiss, o outro imprescindível do nosso grupinho de três pessoas. Tudo é possível quando as pessoas certas trabalham muito para que o seu sonho se torne realidade.

O Cinemagosto começa hoje, às oito da noite, com "Esquece tudo o que te disse", de António Ferreira, e termina no domingo com uma homenagem a Manoel de Oliveira e o seu Vale Abraão.
No conjunto, serão 10 filmes em 8 sessões. Ficção, documentário e animação para o tema deste ano: um amor português. 


22 agosto 2015

sabem aquelas piadas do corrector automático?

Acabei de receber um sms de um homem que vai ficar uns dias no nosso quarto airbnb, e diz mais ou menos isto:

"Olá Helena,
segunda-feira é o dia. Chegaremos a Berlim a meio da tarde. Como é que costumas fazer para enfiar?"

Einstecken. Aposto que queriam dizen Einchecken (de "check-in").


20 agosto 2015

a banalidade do bem



Pensando bem, isto nem devia ser notícia no noticiário da televisão: na Baviera, um condutor de autocarro dá as boas-vindas aos 15 refugiados que leva a uma piscina: "Welcome to Germany, welcome to my country. Have a nice day!"

No noticiário da televisão, Klaus Kleber conta a cena, e emociona-se. Remata: "às vezes pode ser tão simples como isto".
(aqui, em alemão)

O caso já tem alguns dias, mas continuo a pensar nele. O que o condutor do autocarro fez não seria nada de especial se o nosso mundo fosse feito de empatia e respeito pelos outros. Mas o jornalista, mais do que ninguém, sabe que não é assim. Todos os dias há na Alemanha ataques físicos ou verbais muito graves contra os refugiados. E todos os dias há também gestos e frases de uma grande generosidade. Ainda bem que Klaus Kleber se engasgou um pouco ao referir um deles, o mais banal de todos - é sinal do poder redentor do Bem mais simples e banal. Gestos que estão ao alcance de qualquer um de nós, sem grande esforço e muito menos heroísmo.


agarrem-me, que arranjei mais um vício!

É oficial: tenho um novo vício. Leandro Karnal. Vejam o primeiro vídeo, nem chega a 2 minutos e vale muito a pena.

(mas atenção, que é como nos vícios: pode ser um caminho sem retorno!)









(e é mais bonito que o Varoufakis!)

(e tem um belo sentido de humor - por exemplo, no segundo vídeo, a partir de 21:00: "eu tenho a sensação que muitos espectadores estão casados comigo: não me escutam e não temos sexo")

(ou, também no segundo vídeo, um pouco mais à frente, quando conta que estava a ter uma reunião com alguém que atendia o telemóvel sempre que tocava: "tocou uma vez, ela atendeu, e eu pensei que devia ser algo importante; tocou segunda vez, ela atendeu, e eu pensei que devia ser ainda mais importante; tocou terceira vez, e era eu, dizendo que se ela preferia falar pelo telemóvel podíamos fazer a reunião assim")

(agora estou desconfiada: será que fui a última a saber? será que em Portugal já andam todos a falar dele, e ninguém me contou?) (não me digam que estou rodeada de amigos da onça?...)


ignorância atrevida

Ora aqui está um belo exemplo daquele grupinho de gente ignorante e muito convencida que - infelizmente - há em cada país.


Por volta de meio-dia, na esquina da Paulista com a rua Peixoto Gomide, Tânia parecia incomodada com a adesão abaixo da...
Posted by Jornalistas Livres on Domingo, 16 de agosto de 2015



Há tempos, uma pessoa brasileira com apelido alemão comentava assim, a propósito da notícia de um ataque com uma arma branca a uma mulher, num túnel para peões de numa boa zona residencial do Rio:

Sou a favor de exterminar com todos estes merdas , que não servem para nada ... 
Cade o pessoal que deu uma limpada na Candelária , heim???

"Exterminar", "todos estes merdas", "que não servem para nada" e "dar uma limpada": parece traduzido directamente da linguagem nazi para o português.

(E eu a imaginar filmes: o avô alemão, que em meados dos anos 40 do século passado foi recomeçar a vida na América do Sul, passando à descendência a sua herança ideológica...)

Fica a pergunta: como ensinar a estas pessoas as bases mais elementares do Estado de Direito?

Outra pergunta, deliberadamente provocatória: e se o direito de votar só fosse atribuído a quem conseguisse passar um exame com perguntas simples sobre os princípios básicos do Estado de Direito?

(Eis como acabei de me arriscar a ser a primeira pessoa a chumbar o teste, caso a minha sugestão fosse aprovada...)



19 agosto 2015

singing hands

De uma entrevista que ouvi na RBB Info Radio:

Laura Schwengber tinha doze anos quando o seu melhor amigo ficou doente e perdeu o ouvido e a visão. Inventaram uma espécia de fala (tocava-lhe a boca e era M de "mouth", tocava-lhe o nariz e era N de "nose") (a minha maldita costela do Porto perguntou logo o que é que ela tocava para a letra P) (a cabeça, claro, que é onde há piolhos) (o que é que vocês pensaram, hã?!). Adiante. Anos mais tarde, decidiu especializar-se em linguagem gestual. Ela estava cheia de dúvidas sobre o que devia estudar, e foi esse amigo que lhe chamou a atenção para algo que ela já fazia - e muito bem - desde pequena.

Um dia foi à discoteca com amigos surdos-mudos, e um deles perguntou-lhe como era a letra da canção que estava a passar, porque alguma coisa não fazia sentido: ele sentia a energia da música, muito agitada, mas os casalinhos estavam todos romanticamente abraçados. Ela começou a traduzir, o que provocou muitos boatos e gargalhadas nos restantes elementos do grupo, que a viam dizer ao amigo: "adoro-te, não consigo imaginar a minha vida sem ti, etc."

Foi assim que nasceu a ideia de fazer chegar as músicas mais perto dos surdos. No duche, a Laura começou a cantar em linguagem gestual. Daí passou para os palcos, e chegou a algo como o que se vê neste vídeo:




16 agosto 2015

santo subito - 10 anos



No dia 16 de Agosto de 2005, uma mulher tresloucada atacou o Frère Roger durante a oração da noite, no coração da sua comunidade de Taizé. Ele morreria pouco depois. Na Agencia Ecclesia, o António Marujo - que está em Taizé - relata o modo como a comunidade lembrou hoje o seu fundador.

Recupero o post que escrevi nessa altura (com ligeiras alterações):


Santo Subito


A Christina escreveu assim sobre o seu encontro com ele, há cerca de um mês:

Quando o Frère Roger se aproximou de nós, tinha um sorriso muito terno. Ao dar-me a benção, vi que o seu rosto estava cheio de amor, confiança e paz. Ao lado dele, senti-me muito bem. 

E o Matthias:

Hoje a Christina e eu estivemos junto do Frère Roger na oração do meio-dia. (...) Quando chegou a minha vez, sorrimos um para o outro, e ele fez-me o sinal da cruz na testa. Ele tinha rugas mas, apesar disso, tinha um ar cheio de amor. Eu tinha a sensação que este era o melhor momento da minha vida. Quando voltei para o meu lugar, senti uma espécie de alívio.


Do Frère Roger lembro sobretudo a imensa serenidade do sorriso.

Hoje, quero lembrar também que teve a coragem de ajudar fugitivos no tempo da ocupação alemã, e alemães no pós-guerra. Penso na sua comunidade, que procura estar entre os mais pobres deste mundo como sinal de esperança e solidariedade. Tenho presente o gesto de amizade, tão simples e espontâneo, ao tocar a mão do cardeal Ratzinger que lhe dava a comunhão, no funeral de João Paulo II. E vejo-o ainda a subir muito lentamente a nave da sua igreja, agarrando-se às túnicas de dois irmãos que praticamente o puxavam - apesar de envelhecido e esgotado, vinha rezar connosco.

Todas as semanas passam milhares de pessoas por Taizé. Nao conheço melhor espaço de evangelização, nem melhor evangelização que esta mensagem repetida até à exaustão:

Deus é amor.

Por exemplo este ano, em que escolheram o livro dos actos dos apóstolos para tema e nos falavam de um Deus que ama todos os homens, independentemente da sua religião:

Deus é amor.

Num tempo em que as religiões nos dividem, em Taizé dizem-nos que o nosso Deus ama todas as pessoas, sem distinções.

Muitas vezes imaginei que o Frère Roger devia ser o nosso primeiro santo ecuménico. E por isso:

Santo subito!

Durante a semana que passámos em Taizé, pensei em escrever-lhe a agradecer o muito que enriqueceu a minha vida ao oferecer-me um Deus tão libertador e luminoso - um Deus que nos faz sentir bem e com vontade de fazer o Bem. Não escrevi. Mas talvez algum dia possa dizer-lho, talvez na plenitude dessa luz que atravessava o seu sorriso.

uma bela ideia de negócio que se vai literalmente por água abaixo




Finalmente começou a chover. 
Logo agora que eu ia pôr uma placa à entrada do jardim a dizer assim:


Visite o autêntico Alentejo em Berlim! 
Entrada: 5 euros


"que mais irá me acontecer?"

A princesa Carolina do Mónaco agora inspira-se em mim para escolher as suas toilettes. Tenho provas:



(2013 - venda de roupa usada na Komische Oper em Berlim)





Ora então com licencinha, vou-me retirar para pensar como a devo inspirar para o próximo Baile da Rosa.  


15 agosto 2015

irreconhecível



Mais ou menos na altura em que eu nasci, um jovem americano, que muitos anos depois se tornaria meu amigo, resolveu apanhar boleia de um bacalhoeiro para ir visitar a Europa. A primeira paragem foi nos Açores, essas ilhas que imagino míticas, e ainda mais inteiras e castiças que a aldeia da minha avó nos anos 60: uma espécie de paraíso longe do mundo, encantadoras de pureza e inacessibilidade. Gostava muito de ter ido aos Açores nessa altura, e de preferência chegar num bacalhoeiro. Consolava-me pensar que as ilhas pararam no tempo, e que um dia...

...Agora o Aldi está a vender uma semana em São Miguel por 699 euros, já com o voo (e o comboio para chegar a Düsseldorf) incluído.

Adeus, ó Virgem do Atlântico...


porque hoje é sábado

(foto)

Fui dar a volta matinal com o Fox. Meia hora, dois ou três quilómetros pelas ruas do bairro. Vimos dois carros em movimento, e inúmeros ciclistas e joggers, além dos vizinhos a trabalhar no jardim. Depois tomei o pequeno-almoço com lentura, ao som deste concerto:



Sossego de pouca dura: hoje é dia de arranjar uma vítima que venha comigo de carro (de carro!...) distribuir flyers do Cinemagosto pela cidade toda. Mas, porque hoje é sábado, hei-de parar na Paz d'Alma a beber um cafézinho com a Ana e a comer uma das suas natas Berlin, e na Bekarei vou comprar uma broa portuguesa (ou talvez uma caixa cheia de bolos, daquelas "um de cada"), e agarrem-me que ainda vou perder o juízo no Restaurante Nau do Hotel Sana.

Assim de repente parece que este post descambou para um "post escrito em parceria com", e é mais ou menos verdade. Essas são algumas das empresas que apoiam generosamente o Cinemagosto, e sinto-me muito grata (apesar de não me chamar Cinemagosto, e andar nestas trapalhadas por carolice, e até agora só ter lucrado com isto a nata que a Ana me ofereceu, além de muitos jantares e cocktails no Hotel Pestana, mas isso é uma história mais comprida). E gosto imenso, mesmo imenso, do que fazem.

De modo que: olhem bem para mim antes de sair para o meu tour de flyers. Depois deste sábado, nunca me viram tão magra...


a importância dos mercados



"O teu döner é turco. A tua pizza é italiana. A tua democracia é grega. O teu café é brasileiro. Os teus filmes são americanos. O teu chá é asiático. A tua camisa é indiana. O teu combustível é árabe. Os teus electrodomésticos são chineses. Os teus números são árabes. As tuas letras são latinas.
 ...E queixas-te que o teu vizinho é imigrante?"

Ora, Karl Marx explica: o vizinho imigrante é gratuito, não foi validado pelo mercado...


14 agosto 2015

dias intermináveis de verão

Os miúdos da casa ao lado não sabem que fazer ao seu tempo. Sem infantário os dias arrastam-se, intermináveis. O Fox arranjou maneira de entrar no jardim deles, e ficaram felizes:
- Veio-nos visitar, não é? Também o podemos ir visitar?

Vieram visitar o Fox. Tocaram à campainha, perguntaram se podiam vir brincar na minha casa.
- Brincar a quê?
- Ao Spider-Man!
- Como é que se brinca?
- Temos uma pistola de laser e destruímos a tua casa toda!
- Olhem, agora tenho muito trabalho, não posso brincar ao Spider-Man. Daqui a bocado, depois da vossa sesta, toco à vossa porta e vamos passear todos com o Fox.

Foram-se embora. Daí a 5 minutos estavam a tocar outra vez à campainha, com um sorriso rasgado:
- Já dormimos, e já acordámos! Já podemos sair com o Fox.


(Lembro-me tão bem do tempo em que tinha a idade deles e certos dias de verão me pareciam intermináveis e insuportáveis!)


algumas conclusões rápidas sobre a batalha de Aljubarrota


Batalha de Aljubarrota, 14 de Agosto de 1385


Se olharem com cuidado para o desenho, verão que na altura já se degolavam pessoas em frente dos media (nomeadamente: o senhor que estava a pintar a cena). E nem sequer eram de outra religião.

Os portugueses ganharam esta batalha porque não respeitaram as regras de combate daquela época. Se a Convenção de Genebra sabe disto, e se temos de pagar a multa com juros, estamos tramados.

Os espanhóis perceberam a tramóia, e iam passar ao largo, mas aí os portugueses começaram a dizer coisas sobre as mães deles (provavelmente disseram que elas seriam "máquinas de fazer espanhóis") e os hermanitos, pois claro, catrapumbas para dentro da técnica do quadrado. Tivesse o pobre do Zidane estudado um pouco mais de história, e não caía na mesma - desta vez armada pelo espertalhão do Materazzi, 621 anos depois.

A padeira de Aljubarrota foi quem inspirou o conto de Hänsel und Gretl, sabem, aquela história dos mais fracos que meteram o inimigo no forno do pão, e tal.

Estou em crer que aquela coisa que se diz de as portuguesas terem bigode terá sido uma espécie de expressão idiomática posta a circular pelos espanhóis, só por causa da padeira, e por eles serem uns maus perdedores cheios de ressentimento.

Tivéssemos nós perdido a batalha de Aljubarrota há 630 anos, e em vez de resgate tínhamos uma espécie de ajuda ao sector bancário. Além de termos o D. Felipe em vez do D. Duarte.
E eu não tinha perdido a minha infância em viagens intermináveis para ir comprar caramelos a Tui.

A culpa é da Nossa Senhora, que andou a dizer coisas ao ouvido do Nuno Álvares Pereira. Depois - 617 anos depois - arrependeu-se e para compensar parou a maré negra da Galiza antes de esta chegar a Portugal.
 

12 agosto 2015

o verdadeiro luxo

O verdadeiro luxo é isto: três semanas de férias quase sem internet.
Aaaah.

(Estou de volta: a mala saqueada no meio da sala, e eu no facebook e a correr atrás dos emails em atraso.)


23 julho 2015

proibido ser



Quero mais. Não se admite fazer um livro que acaba mal uma pessoa começa a ler. Então que é isto, este fim abrupto, agora que estava a saber tão bem (e sabe bem desde a primeira frase)? Mais cem páginas de proibições, isso é que era. Raixparta o Estado Novo, que nem isso fez bem feito.

O livro do António Costa Santos é feito daquela inteligência mordaz que consegue combinar leveza e profundidade, seriedade e humor no ponto certo para tornar a informação um acto de prazerosa leitura.

Já isso bastava para ser um livro excelente. No meu caso, trouxe um ganho acrescido: entendi finalmente uma frase muito estranha que uma vez um padre me disse, a propósito da minha mãe, que ele conhecera no início dos anos sessenta. "A sua mãe era um bocado leviana", disse-me ele em jeito de confidência desconfortável. "Leviana", como eu entendo essa palavra, não era, sei-o bem. O livro do António Costa Santos foi-me revelando, capítulo a capítulo, as "leviandades" dessa mulher (e o poder opressor dos costumes, desde logo evidentes nas palavras com que catalogava): na missa, sentava-se ao lado do marido, em vez de ficar no lugar das mulheres, e esquecia-se muitas vezes de cobrir a cabeça com o véu; as pernas sem collants no verão, e dentro de calças no inverno (tinha uma fato lindo de pré-mamã, de calças e capa - era lindo, mas era a única grávida da cidade que andava de calças); as intermináveis cervejas que bebia com uma amiga no café da aldeia da minha avó: a mesa delas no meio de uma clareira espaçosa sobre o chão coberto de serrim, os meus irmãos e eu a apanhar barrigadas de tremoços e a deitar as cascas para o chão, para cima das escarradelas dos homens à nossa volta, nas outras mesas só havia homens; os cursos de verão em Paris, deixando os filhos com o marido ou os avós; o curso superior tirado em regime de acumulação com o trabalho e a maternidade; a teimosia da atitude, o "que mal tem?", o "e qual é o problema?" Em suma: leviana, porque afirmava a sua liberdade de forma inegável - não em debates ou revoltas, mas da maneira mais perniciosa para a época: sendo.  

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Um dos documentos mais hilariantes do livro é a lista de multas para certos comportamentos contra a moral e a ordem pública. "A mão naquilo", "aquilo na mão", "aquilo naquilo". Confesso que precisei de ler duas vezes para perceber que "aquilo" não era sempre a mesma coisa, e que "aquilo por trás daquilo" não havia de ser uma referência aos livros proibidos, arrumados em segunda linha nas estantes.
A falta que as aulas de educação sexual fazem a um legislador! Se as tivesse frequentado, saberia articular-se de forma mais clara, de modo a não deixar os agentes da ordem pública (e a mim) perplexos a tentar decifrar charadas. Ao menos, que escrevesse: aquilo na mão, a mão naquila, aquilo naquila, aquilo naqueloutro. Sim, que chamar "aquilo" a "aqueloutro" revela um profundo desconhecimento das leis da natureza, tão ao gosto dos defensores da moral. Esses legisladores haviam de ser pouco perversos, haviam.


22 julho 2015

primeiro dia


Diz que isto é um blogue, diz que é um diário, e por isso tenho andado a pensar descrever o meu primeiro dia de férias, mas hesito, porque não sei a quem interessaria saber que o despertador tocou justamente no momento mais aflitivo do meu sonho de não ter acordado a tempo, quando já estava a perder o táxi e o avião. Eram cinco da manhã. Notei a aliança na mão direita, sinal de que tinha de me lembrar de alguma coisa. Não me lembrei, pelo que optei por achar que talvez fosse o impermeável. Às cinco e quinze estava dentro do táxi, depois de o Fox ter incomodado o condutor, que era muçulmano (como seria a minha vida num país no qual as cobras fossem animais domésticos, e viessem velozmente ao meu encontro para eu lhes fazer festinhas?). Em Bruxelas estava frio e chovia. Saí do aeroporto para levar o Fox à casa de banho, e por sorte encontrei um naco de verde que lhe serviu de urban jungle, meia hora de gozo a escavar túneis em busca de ratos, e eu ali à chuva, bendito impermeável que trouxe de casa. Voltei a entrar no aeroporto, a passar no controle de segurança (é muito engraçado ver os sorrisos dos seguranças quando o Fox passa o detector de metal no seu passo de trote) e comprei trufas belgas para todos os que me aconselharam que roupa levar para esta viagem, excepto para quem me disse que não precisava de um casaquinho de inverno (já disse que em Bruxelas estava frio?), e foi então que me lembrei porque é que tinha posto a aliança na mão direita: sacos térmicos para levar as trufas! Quer-me parecer que este ano os meus amigos vão receber pequenas porções de fondant de chocolat.
O avião sobrevoou o Porto. Descobri que, vista de cima, a Ribeira não é nada espectacular, é apenas um conjunto de telhados iguais aos que se alargam por toda a cidade. Mas a verdade é que nenhum telhado é igual, cada um abriga histórias diferentes. Muitos deles abrigam histórias minhas, e procurei-os. Entrei no Porto com o coração alvoroçado de recordações boas.
Fui levar as malas a casa, visitar a vizinha. Contou-me da morte súbita de uma senhora com quem eu costumava estar na praia. Ela com uma doença crónica grave, foi regar o jardim e pouco depois encontraram-na morta, talvez o coração. Foi no momento em que a irmã chegada da França estava a descarregar o carro antes de ir ter com ela para lhe contar a grande surpresa: que ia ficar em Portugal para a acompanhar nesta última fase da caminhada. Não deixes para amanhã a alegria que podes dar hoje.
Fui a Viana, no Natário as bolas de Berlim estavam a sair ainda mornas. Na praça da República li num cartaz que os sobreviventes do Buena Vista Social Club vão passar por lá, e ali mesmo troquei as voltas aos meus planos e comprei bilhetes para o próximo sábado. Fui à Bertrand e comprei o Proibido, do António Costa Santos, O Mundo de S. J. Perelman, da colecção do RAP na Tinta da China, e a Granta que dizem que desta vez falhou com brio. Quase comprava também todos os poemas do Ruy Belo, todos os do Herberto Helder, mas decidi que já tinha a minha porção de alegrias para um primeiro dia de férias.
Passei de novo pela casa da vizinha, e ofereceram-me pataniscas de bacalhau e ovos do campo (ah, estas pataniscas feitas com bacalhau do campo!) e depois fui buscar a Christina que vinha no avião da noite, e quase chorou ao saber que vamos ver a Omara Portuondo no próximo sábado. O Fox fez-lhe imensa festa, mas depois ficou inquieto, e olhava para fora do carro com ar de onde estão os outros? onde estão os outros?
Este ano não podem vir, Fox. E que tristes vão ficar ao saber do nosso concerto, e das bolas de Berlim ainda mornas, da buganvília densíssima de flores na janela da cozinha, da brisa que passa agora por este post enquanto escrevo sob a ramada prenhe de uvas, no cantinho da internet ao fundo do quintal.
Um post que não interessa a ninguém, mas diz que isto é um blogue, um diário.  


19 julho 2015

se nos próximos dias eu andar muito calada

É sinal que me estou a encher de rissóis na Padaria Ribeiro, e de bolas de Berlim no Natário, e de pastéis de Belém na Autêntica Fábrica, e o mais da culinária da saudade que me apetecer, e estou calada porque não é bonito falar com a boca cheia.

Se depois, lá para Agosto, virem alguém com um ar muito feliz a rebolar em vez de andar, sou eu.


a ver se as redes socias servem para alguma coisa que me adiante à minha vida

Digam agora, ou... 

Que roupa devo meter na mala para passar as próximas 3 semanas em Portugal?
(Minho, Douro, Alentejo, Lisboa)


(...ou dêem-me um vale para compras num outlet qualquer se as coisas correrem mal e eu andar de camisolas de gola alta na praia, ou a tiritar de frio - como já aconteceu várias vezes - por ter feito as malas para um verão berlinense, e sair-me um sei-lá-quê-que-deu-ao-verão-português)


18 julho 2015

tinha uma pedra



Gosto muito da música do poema em italiano, gosto muito da interpretação no alemão.
A pedra é mais pedra quando é uma piedra - em espanhol.
E o poema - tenho a certeza - foi escrito em tupi. Foi escrito em tupi. Este poema foi, só pode ter sido, escrito em tupi.


Esclarecimento que acompanha o filme, no youtube:

Para marcar os 40 anos do poema "No meio do caminho", Carlos Drummond de Andrade publicou, em 1967, o livro Uma pedra no meio do caminho -- Biografia de um poema, no qual reuniu uma ampla seleção com o que foi dito sobre os famosos versos. O Instituto Moreira Salles lançou em 2010 uma nova edição do livro concebido pelo próprio Drummond, ampliada pelo também poeta Eucanaã Ferraz. Por ocasião do lançamento, o IMS produziu um vídeo com a leitura de "No meio do caminho" em vários idiomas. 
Leituras por: 
Eucanaã Ferraz (português) 
Matthew Shirts (inglês) 
Yael Steiner (hebráico) 
Heloisa Jahn (dinamarquês) 
Jean-Claude Bernardet (francês) 
Pieter Tjabbes (holandês) 
Davi Arrigucci Jr. (italiano) 
Paulo Schiller e Mariana Schiller (húngaro) 
Jana Binder (alemão) 
Sidney Calheiros (latim) 
Laura Hosiasson (espanhol) 
Carlos Papa (tupi)


17 julho 2015

levante-se a autora!




Olhem-me para esta capa!

(se me deixassem mandar, a Tinta da China vendia também as capas sem livro, só para emoldurar)

(se me deixassem mandar - e se houvesse dinheiro para isso - fazia um museu das mais notáveis capas que se vão da lei da Morte libertando, e tal, e esta era uma delas)

(alguém podia tratar disso, por uma questão de elevamento cultural do país, e também porque tenho um livro assinado pela Vera Tavares, autora desta capa, e ia subir de valor - como as acções nos bons velhos tempos do fim do século)

(por acaso tinha graça, em vez de dar a tola especulativa nas acções das empresas, dar nas obras dos artistas - a Arte passava a ser mais considerada, e as empresas podiam funcionar em paz e racionalidade económica, em vez de viverem para fazer bonito na Bolsa) (espera, já deu a tola especulativa nas obras de certos artistas) (mas havia de dar nas obras de mais, para o capital deixar as empresas em paz) (talvez, se fizessem mais museus...) (como ia dizendo, e portanto: se me deixassem mandar...)


a formiga e a cigarra



Este ano o Cinemagosto teve mais uma ideia genial (cof cof cof) (estes pólenes...): alargar a mostra de cinema português também a outras artes, dando mais visibilidade a artistas portugueses residentes em Berlim. Falámos com o cinema, que gostou da ideia, e depois convidámos a Maria Leonardo, que é fotógrafa. Estava tudo a correr muito bem, quando o cinema disse que afinal não ia poder dispor do espaço previsto para a exposição de fotografia.

Somos portugueses, não nos atrapalhamos com tão pouco: imediatamente arranjámos soluções alternativas, e decidimos explorar a possibilidade de associar ainda mais os dois hotéis de cadeias portuguesas em Berlim a este evento, fazendo neles a exposição. O Hotel Pestana recebeu-nos no próprio dia em que pedimos, com o director hoteleiro, o director financeiro e os técnicos que nos responderam imediatamente a todas as questões de ordem prática. O Hotel Sana recebeu-nos logo a seguir - apesar de ser encerramento do mês e estar cheio de trabalho, o director financeiro atendeu-nos com imensa gentileza e paciência, e respondeu a todas as perguntas.
De modo que ao fim do dia eu estava numa de "agarrem-me, que ainda vou dizer bem do sistema capitalista..."

Ora bem: aquela história da cigarra e da formiga está muito mal contada. O que eu vi na semana passada foi formigas extremamente atarefadas a arranjar tempo para parar e falar com as cigarras, em atitude disponível e generosa, e a ajudar a resolver o problema sem mais demoras. As cigarras, por sua vez, trabalham que até parecem formigas - o Hannes Reiss e a Anabela Moutinho que o digam (e a Maria Leonardo, na parte que diz respeito à exposição de fotografia, mas isso é assunto para outro post).

Já eu, que tenho andado a formigar noutras lutas, no Cinemagosto sinto-me um pouco como o outro que só cá veio ver a bola. Mas digo-vos que está a ser um jogo fantástico.


(roubei aquela fotografia descaradamente do mural de facebook da Maria Leonardo)


16 julho 2015

buscar a música nas coisas




Inspiração para música com pássaros em fios eléctricos não é nada, comparado com o que eu fazia com os meus irmãos quando éramos miúdos: tocávamos a lista telefónica!

Muito fácil: 1 era dó, 2 era ré, e por aí adiante. O espaço entre os grupos de números era uma pausa. Uma vez definidas as regras básicas, era só abrir a lista telefónica à sorte, escolher um nome, por exempo, "Silva, António" e ver como era a música que o António Silva tinha para nos dar.

Se não gostávamos, dávamos um jeitinho às regras: o 1 passava a ser dó sustenido, o 2 podia ser ré bemol ou sustenido, como nos parecesse melhor.

Moral da história: regras maleáveis é meio caminho andado para pôr os números a soar como a gente gosta...

ínclita geração




Estou aqui a pensar que sorte tem esta mulher, quando os filhos a vão visitar e resolvem cantar um bocadinho.

(Será que o Chico vai querer ser adoptado por mim?)


15 julho 2015

hoje o filme era outro

Hoje passei pelo embaixador da Islândia, que estava junto ao seu carro a conversar com o motorista. Disseram-me bom dia com ar simpático. Distraí-me, e quase ia escorregando nas papas de flor de tília que a chuva tem espalhado nos passeios.
Mas não caí, infelizmente. Pelo que eles continuaram a combinar a vida deles, e eu fui à minha.

Gosto muito mais de filmes assim, que do de ontem, no qual os guarda-costas me fizeram sentir intrusa, indesejada e insegura no próprio bairro onde moro.

(Imagino como se sentirão os palestinianos em Israel!)


14 julho 2015

os alemães e a Grécia (resultados de uma sondagem de ontem)

Resultados de uma sondagem realizada ontem pelo canal de TV da ARD:


A Grécia deve permanecer na zona euro?
sim / não
Fevereiro / início de Julho / 13.7.15



Satisfeito com a condução das negociações por Schäuble (64%) e Merkel (62%)

(permitam-me um comentário: estes dois negociaram alegadamente a favor do que é importante para proteger os interesses dos alemães, etc. etc., e entre os alemães encontram-se 36% e 38% de ingratos que não sabem reconhecer o que se faz por eles) 
(já não se fazem nazis como antigamente...)



A Alemanha tem vantagens ou desvantagem por pertencer à UE:
-- mais vantagens - 37
-- mais desvantagens - 17 
-- vantagens = desvantagens - 43
(variação: comparando com valores no princípio de Julho)



3º pacote de ajuda: continuar a dar ajuda financeira à Grécia é
-- correto - 52
-- incorreto - 44



Grécia: as medidas de austeridade e reforma são
-- adequadas - 57
-- insuficientes - 22
-- excessivas - 13



Confia no governo grego para fazer as reformas?
-- sim - 18
-- não - 78


eu se calhar ando a ver demasiados filmes...

Se calhar ando a ver demasiados filmes, mas estou em crer que desta vez não é alucinação.

No passeio matinal com o Fox, cruzei-me com três homens que não me chamaram a atenção (o que mais há por aqui é grupos de homens na rua, e além disso não olho para homens na rua) (quer dizer, tem dias, mas têm de valer a pena, o que não era o caso) mas acabei por reparar neles pela maneira como se comportavam. Dois iam à frente. Um deles, o que tinha cabelo comprido aos caracóis, olhava para as casas, o outro, com carequinha sexy tipo Varoufakis, olhava para os lados, e o que ia atrás, também ccstV, olhava em todas as direcções. Os dois ccstV tinham uns botões estranhos na lapela. Estavam a ser seguidos por um carro tipo grande preto, conduzido lentamente por um gajo que ia a falar para - juro que vi com estes que a terra hade comer ("hade" ou "háde"? lá tenho eu de ir consultar outra vez o acordo ortográfico) - como ia dizendo, eram seguidos por um carro conduzido por um homem que ia a falar para a sua caneta.

O Fox parou, para ler atentamente um jornal qualquer numa esquina, e eu parei também, olhando para o quadro para tentar perceber porque é que o dos caracóis parou a olhar atentamente para a casa de pessoas que conheço, e também para poder contar aqui. O ccstV olhou para mim com ar ameaçador. Quase lhe ia fazendo uma cara tipo "isto é um país livre e posso olhar para onde me apetecer" mas depois lembrei-me daquele pai benfiquista em Guimarães que também achava que estava num país livre e podia dar água ao filho onde lhe apetecesse, e apontei na direcção do Fox, que continuava a ler o jornal, chamei-o, e apressei-me para longe dali.

Muitos passos depois atrevi-me a olhar para trás, e não havia vestígios deles. Esfreguei várias vezes os olhos, e a rua continuava deserta. Se calhar ando a ver demasiados filmes...

A verdade é que tudo isto existe, tudo isto é triste - e muitas vezes ignoramos que é uma parte da nossa realidade.

(Se pedirem com jeitinho conto também a história de um conhecido meu que uma vez andou a investigar uma estranha morte por afogamento, e daí a pouco estava a chegar demasiado perto de simpáticos concidadãos que a seu tempo foram treinados pela Stasi para eliminar pessoas parecendo morte acidental ou por doença.) (Ou daquela vez no Rio de Janeiro, que deixámos os miúdos em Santa Teresa a dormir descansadíssimos, depois do jantar, e resolvemos ir à Mangueira pelo caminho mais curto, que era pela selva junto a uma favela, e daí a nada estávamos a ser parados por gajos que se diziam polícias à paisana e nos apontavam metralhadoras - e era na zona do precipício para onde às vezes caem carros..., como me disseram mais tarde) (Também há a história - digamos que a li numa revista - da pessoa que trabalhava em sistemas de segurança e mais não digo, que um dia calhou de estar a falar com um reformado da legião estrangeira, que lhe falou com toda a naturalidade do modo como resolviam os problemas que os incomodavam, e que a única coisa chata era esconder o corpo.) (O que me faz pensar que aquele tipo do Terra de Ninguém, da Salomé Lamas, se calhar...)

(foto)


13 julho 2015

xenofobia




Esta manhã, depois de uma curta incursão no facebook, fiquei com ganas de "agarrem-me, que ainda vou desamigar toda a gente que me aparecer pela frente a fazer um discurso xenófobo sobre os alemães!"

Tenham juízo: aprendam alemão e passem a falar com conhecimento de causa. Não há paciência para esta mistura de preconceito, ignorância, xenofobia e arrogância. Quem fala dos alemães como imperialistas e nazis, tipo "está-lhes na massa do sangue" e "era de esperar - lá estão eles outra vez! duas guerras não lhes chegaram!", não se apercebe de duas coisas: está a reproduzir o pensamento e a retórica dos nazis, mudando simplesmente o nome do inimigo, e está a evidenciar a sua ignorância sobre o que é a sociedade alemã hoje em dia.


(Tirei a fotografia de um fórum do Süddeutsche Zeitung. É pena as pessoas que passam por aqui não entenderem alemão, porque o que "os alemães" lá escrevem é extremamente interessante - tanto pelo conteúdo como pela forma. A que não será alheio o facto de ser um espaço moderado, e com regras claras para participação: só se publicam textos que acrescentem algo ao que já foi dito; não se publicam textos injuriosos para outras pessoas, grupos ou povos; não se publicam textos escritos em mau alemão, etc.)


12 julho 2015

"os nossos lindos euros alemães"




Dois humoristas alemães criticam com este filme(*) o modo como a Grécia é perseguida na comunicação social. Cada frase que dizem vem acompanhada do nome do jornal onde apareceu. Claro que o Bild ganha de longe aos outros. O filme é de sexta-feira, e já se tornou viral.

(Agora fico à espera de um vídeo semelhante feito por humoristas portugueses a satirizar os nossos compatriotas que, em nome da defesa da Europa, chamam nazis aos alemães...)

(Sim, adivinharam: esta manhã dei uma olhadela pelo facebook: a Europa a arder, e o pessoal a resolver o problema de uma penada dizendo que a culpa é dos alemães, esses nazis. Vá lá que ao menos desta vez a culpa não é do Sócrates.)


(*) O vídeo tem legendas em inglês - se não aparecem, é possível serem activadas