11 novembro 2013
9 de Novembro de 2013 - 75 anos (5)
Velas e flores junto a cada Stolperstein: uma homenagem da cidade e dos vizinhos aos judeus que da nossa rua foram levados para os campos de concentração.
Esta fotografia, tirada com o telemóvel pousado no passeio, realça as pedras - geladas, irregulares e duras - às quais entregámos o nome desta gente, e faz-me sentir, de uma forma nova, o desamparo deles.
9 de Novembro de 2013 - 75 anos (4)
(foto: Río Wang)
No Poemas del Río Wang falaram do 9 de Novembro 1938/2013 em Berlim. O post escrito em inglês, muito bom, pode ser lido aqui.
Acrescento apenas que o nome actualmente utilizado não é nem Kristallnacht (noite dos cristais, um eufemismo cínico), nem Pogromnacht (noite do pogrom) ou Novemberpogrome (pogroms de Novembro). Tendo em conta que um pogrom é uma erupção popular espontânea de violência, e estes ataques aos judeus foram perpetrados por pessoas que cumpriam disciplinadamente ordens, o nome certo é Reichspogromnacht: um pogrom organizado pelo Reich.
(Há tempos contei aqui o modo como este ataque decorreu, usando um texto de Erich Kästner)
9 de Novembro de 2013 - 75 anos (3)
Artigo que escrevi há tempos para a Berlinda:
Stolpersteine no meu bairro
As Stolpersteine, pedras no caminho, são um fenómeno já muito conhecido em Berlim. Mas quem as põe no passeio, quem decide que nomes serão lembrados e que pessoas ficarão para sempre esquecidas na vala comum, no fumo anónimo?
No meu bairro, Charlottenburg, os habitantes de uma rua juntaram-se para lembrar todos os vizinhos que há setenta anos foram arrancados dessas casas para serem atirados à morte. Por iniciativa de um casal, que criou a conta bancária e espalhou cartazes pelos prédios, juntou-se o dinheiro suficiente para as trinta e cinco placas que a rua reclamava. As pessoas responderam de forma muito positiva, passados dois meses fez-se a encomenda ao artista.
Um rabino, um músico, um poeta e os pedreiros juntaram-se aos vizinhos para prestar homenagem. Foram lidos poemas de Paul Celan, foi tocada música de Klezmer, foram lidos os nomes das vítimas, foi entoado o Kadish.
O rabino fez um discurso comovente. Pediu à pessoas que se chegassem mais perto uns dos outros, lembrou uma frase de Amos Oz: “o que muda é o passado”. Quem diria que hoje estaríamos lado a lado, judeus e não judeus, unidos pelo sofrimento daqueles que se consideravam alemães, que eram alemães? Não são os grandes gestos do governo alemão que contam, dizia ele, mas estes gestos das pessoas, que mostram como o sofrimento está vivo nas consciências e como o passado vai continuar a ser mudado pelas gerações vindouras.
Leu um poema de Zelda Schneersohn Mishkovsky:
(…)
Jeder Mensch hat einen Namen
den ihm die Sternbilder gaben
Und seine Nachbarn
(...)
(...)
Cada pessoa tem um nome
Que lhe foi dado pelas constelações
E pelos seus vizinhos
(...)
"Cada pessoa tem um nome", de Zelda Schneersohn Mishkovsky.
Podemos perguntar-nos se faz ainda sentido, setenta anos depois, relembrar esse passado. O rabino foi claro: não o estamos a lembrar, estamos a transformá-lo. Cada pessoa tem um nome, cada pessoa merece que o seu nome lhe seja devolvido pelos vizinhos. Por aqueles que põem as suas próprias mãos na História.
Stolpersteine no meu bairro
As Stolpersteine, pedras no caminho, são um fenómeno já muito conhecido em Berlim. Mas quem as põe no passeio, quem decide que nomes serão lembrados e que pessoas ficarão para sempre esquecidas na vala comum, no fumo anónimo?
No meu bairro, Charlottenburg, os habitantes de uma rua juntaram-se para lembrar todos os vizinhos que há setenta anos foram arrancados dessas casas para serem atirados à morte. Por iniciativa de um casal, que criou a conta bancária e espalhou cartazes pelos prédios, juntou-se o dinheiro suficiente para as trinta e cinco placas que a rua reclamava. As pessoas responderam de forma muito positiva, passados dois meses fez-se a encomenda ao artista.
Um rabino, um músico, um poeta e os pedreiros juntaram-se aos vizinhos para prestar homenagem. Foram lidos poemas de Paul Celan, foi tocada música de Klezmer, foram lidos os nomes das vítimas, foi entoado o Kadish.
O rabino fez um discurso comovente. Pediu à pessoas que se chegassem mais perto uns dos outros, lembrou uma frase de Amos Oz: “o que muda é o passado”. Quem diria que hoje estaríamos lado a lado, judeus e não judeus, unidos pelo sofrimento daqueles que se consideravam alemães, que eram alemães? Não são os grandes gestos do governo alemão que contam, dizia ele, mas estes gestos das pessoas, que mostram como o sofrimento está vivo nas consciências e como o passado vai continuar a ser mudado pelas gerações vindouras.
Leu um poema de Zelda Schneersohn Mishkovsky:
(…)
Jeder Mensch hat einen Namen
den ihm die Sternbilder gaben
Und seine Nachbarn
(...)
(...)
Cada pessoa tem um nome
Que lhe foi dado pelas constelações
E pelos seus vizinhos
(...)
"Cada pessoa tem um nome", de Zelda Schneersohn Mishkovsky.
Podemos perguntar-nos se faz ainda sentido, setenta anos depois, relembrar esse passado. O rabino foi claro: não o estamos a lembrar, estamos a transformá-lo. Cada pessoa tem um nome, cada pessoa merece que o seu nome lhe seja devolvido pelos vizinhos. Por aqueles que põem as suas próprias mãos na História.
10 novembro 2013
amizade
De hoje a uma semana faço 50 anos. Estamos a preparar uma festinha, e hoje os amigos desataram a telefonar: a que mora no Lago Constança e traz todas as coisas para a decoração da sala ("há aqui umas estufas de rosas com flores lindíssimas por um preço inacreditável!" - lá vai ela atravessar a Alemanha com um balde cheio de rosas, e água, e tudo) (e o Joachim, suábio incorrigível, a pensar encomendar-lhe mais um baldinho com cinquenta, hehehe, a minha vida às vezes dava um filme muito divertido), a casada com um músico peruano ("queres um pequeno concerto de música andina?"), os milhentos "que querem que levemos para comer?", "a sala tem um piano?", e por aí fora.
Algo me diz que vamos dar a volta ao mundo em Neukölln - dos Andes à Rússia, passando pelo caldo verde e pela música clássica - e já estou cheia de pena de todos os amigos de Portugal que não convidei, apenas porque não os queria obrigar a olhar para o abismo da sua conta bancária.
Uma festa destas, em que eu arranjo a sala e os amigos trazem a comida, a decoração, o programa cultural e a animação, é um daqueles momentos em que sinto com limpidez e alegria a sorte de ter amigos assim - amigos que são escoras.
A canção do vídeo vem num novo CD do Wladimir Kaminer e do seu amigo Yuri: "as canções favoritas dos condutores de táxi" - o meu novo vício. A ver se a tocam lá, essa e as outras da Russendisko, e ainda algumas das músicas portuguesas que estão no CD que uma amiga portuguesa ofereceu ao Kaminer em Lisboa. Para também ela, de algum modo, estar connosco. Porque a única coisa que me custa, nessa festa, é a impossibilidade de juntar nela todos os amigos - os que moram na Alemanha e os que moram em Portugal. A vida de uma estrangeirada tem destas dores.
9 de Novembro de 2013 - 75 anos (2)
O KaDeWe, os armazéns mais famosos de Berlim, já está preparado para o Natal.
Por estes dias, contudo, basta virar a esquina para passar directamente da encenação do luxo para a crueza da História:
9 de Novembro de 2013 - 75 anos (1)
Ontem à noite, quando passeava o Fox, encontrei os passeios do meu bairro cheios de velas e flores, para lembrar os vizinhos que, do meio de nós, foram enviados para os campos de concentração.
09 novembro 2013
onde está o Fox? (2)
O Fox de passeio entre a casa em que vivemos e a que estamos a construir, junto a este parque:
(fotografado - infelizmente - com o telemóvel jurássico)
Etiquetas:
casa de imigrante,
fox news
08 novembro 2013
"Camus and The Stranger"
Um documentário da BBC, que encontrei no facebook e guardo aqui, para poder rever mais tarde (para mais, com música do Satie!):
ADENDA (comentário da leitora Mar):
Há outros excertos desse documentário disponíveis. Como nem sempre surgem nas sugestões do youtube quando se vê uma das partes, deixo os links:
Camus vs Sartre http://www.youtube.com/watch?v=_iW74PnBIGo
Camus and the Fall http://www.youtube.com/watch?v=ZQCsSuj3LgA
Camus and the French Resistance: http://www.youtube.com/watch?v=x7dHEm-zs68
Camus, The Nobel Prize & Algerian War http://www.youtube.com/watch?v=Sz2dTyDfNAw
Camus' Death & Lovers http://www.youtube.com/watch?v=gkOCJp0m7b8
ADENDA (comentário da leitora Mar):
Há outros excertos desse documentário disponíveis. Como nem sempre surgem nas sugestões do youtube quando se vê uma das partes, deixo os links:
Camus vs Sartre http://www.youtube.com/watch?v=_iW74PnBIGo
Camus and the Fall http://www.youtube.com/watch?v=ZQCsSuj3LgA
Camus and the French Resistance: http://www.youtube.com/watch?v=x7dHEm-zs68
Camus, The Nobel Prize & Algerian War http://www.youtube.com/watch?v=Sz2dTyDfNAw
Camus' Death & Lovers http://www.youtube.com/watch?v=gkOCJp0m7b8
@9Nov38
75 anos depois da Reichspogromnacht, um grupo de estudantes de História tomou a iniciativa de enviar tweets contando passo a passo o que aconteceu. Traduzo directa e apressadamente do site:
Sobre @9Nov38
Na Alemanha, entre os dias 7 e 13 de Novembro de 1938 - período a que se chamou Reichsprogromnacht -, foram mortas ou levadas a cometer suicídio cerca de 400 pessoas de religião judaica. A posteriori, estes acontecimentos acabariam por ser vistos como um momento de cisão, quando se passou da discriminação dos judeus à sua perseguição sistemática, que culminou no Holocausto.
Queremos usar o Twitter para relatar e integrar os factos. Mais do que lembrar, pretendemos também expor e aclarar - ou seja: transmitir História. Passados 75 anos, publicamos em formato "tempo real": no dia e na hora em que os factos se deram. O que escrevemos no dia 9 de Novembro de 2013, aconteceu no dia 9 de Novembro de 1938. Não nos vamos ater ao talento narrativo de terceiros, nem formar a História em função do que queremos dizer com ela. Em vez disso, seguiremos as fontes e os dados actuais da investigação.
No final do projecto @9Nov38 será aqui publicado um pequeno banco de dados com as referências bibliográficas de cada tweet. O nosso objectivo é conseguir um compromisso entre a simplicidade dos tweets e o trabalho científico.
07 novembro 2013
"o Humphrey Bogart da filosofia"
Albert Camus faria hoje cem anos se tivesse apanhado o comboio para o qual até já tinha comprado bilhete, em vez de aceitar aquela boleia fatídica que o levou aos 46 anos. Bem sei que se não fosse com este "se" teria ido com outro, mas este veio particularmente cedo.
Há pouco ouvi na rádio chamarem-lhe o Humphrey Bogart da filosofia. Depois fizeram umas citações, contaram umas historietas e tal, mas essa parte deixo aos jornais e a quem sabe. Eu fico-me pelo fait divers: Humphrey Bogart, hihihi.
(O jornal Die Welt tem hoje uma entrevista com a filha dele. Deixo aqui o link, mas - desculpem! - não traduzo)
06 novembro 2013
pequeno delírio matinal, ou: será que aquilo branco que puseram no meu café era mesmo só açúcar?
(fonte)
A propósito das minhas fotos em Potsdam, o jj. amarante referiu, no Imagens com Texto, este Escher, que uma das cenas que captei lhe lembrou.
A vida virtual está-me a correr bem: além de duas grandes damas do facebook ontem terem feito suas as minhas palavras (sim, isso mesmo: "faço minhas as palavras da Helena"!), ainda tenho o jj. amarante a pôr textos nas minhas imagens. Por este andar, um dia destes sou convidada para o governo - e já não era o primeiro avatar que chegava lá.
(Depois, para a vida virtual não me começar a correr mal, digo que faço o trabalhinho que quiserem, mas pelo salário mínimo - aposto que os amigos do facebook vão gostar muito, e nem sequer me vão chatear quando disser maluquices como "era preciso ninguém comer durante mais de um ano para pagar a dívida", ou quando chegar atrasada às recepções, ou assim.) (Só não conto a ninguém que mantenho a morada de Berlim, e recebo ajudas de custo para alegadamente ir fazer todos os dias o jantarinho à família.)
(Alto! Há ali uma sequência lógica completamente errada! Ser convidada para o governo não é um facto positivo na linha de "concordarem comigo no facebook" e "ser citada no Imagens com Texto".) (Helena Araújo: zero a Lógica. Volte cá em Setembro.)
(Bem me pareceu que aquele açúcar tinha um sabor esquisito.)
05 novembro 2013
Caminhada (1)
Céu carregado sobre a Grande Chartreuse. Às vezes as nuvens abriam um atalho para o sol, eu tentava fotografias - fascinada pela abundância de telhados e torres. Demos um passeio pelo prado verde e pelo meio do Outono. Fizemos um piquenique e conversámos sentadas num tronco enorme. No meio do caminho encontrámos uma pequena poça de água com o céu dentro. Não entrei no museu do mosteiro: daquele lugar, queria levar apenas as cores, os cheiros no ar fresco, a tranquila alegria de estar.
Le grand silence.
Le grand silence.
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