16 outubro 2013

um cúmulo de sortazar

Aconteceu-me hoje um cúmulo de sortazar:

Cúmulo da sorte: ser convidada para assistir ao ensaio geral da Paixão Segundo São Mateus, no tal sítio que não deve ser nomeado.

Cúmulo do azar: ter de sair a meio para ir fazer um pequeno biscate de taxista.





Do que vi:

- Encenação de Peter Sellars - com bom ritmo e excelentes efeitos dramáticos. Aproveita muito bem as possibilidades da sala, desloca os músicos e os cantores pelo meio do público, dá realce aos instrumentos trazendo os músicos para o centro do palco no momento do seu solo. Nunca assisti a um Bach tão visual, numa encenação que, sem complexos nem tiques de vedetismo, se pôs ao serviço não apenas dos textos mas também dos instrumentos.

- Simon Rattle, 360º - está no meio do palco, virado ora para o coro da direita, ora para a orquestra da esquerda, ora para o coro infantil numa das galerias, ou então para o coro da esquerda, a seguir para a orquestra da direita - rodopia e dança e mima, mais delícia ainda que habitualmente.

- Mark Padmore - é o narrador, e ao mesmo tempo dá corpo a Jesus. Como é que o Peter Sellars se foi lembrar disto? Há cenas em que o barítono canta as deixas de Jesus, por trás da orquestra, e no meio do palco Mark Padmore faz a mímica deste correspondente àquele momento da história. É tudo muito bom, mas quando canta Da hub er an, sich zu verfluchen, em especial quando pousa a mão no ombro de um Pedro de rastos por ter acabado de negar Cristo três vezes, na parte do e chorou amargamente, é difícil aguentar a comoção.

- Camilla Tilling, será que aceitava casar comigo? Por mim, era logo. Tinham de a ver a dançar no palco, a cantar também com o corpo toda a sua alegria em Ich will Dir mein Herze schenken. E tinham de ver a cara enternecida de Simon Rattle quando ela se sentou ao colo de Jesus/Mark Padmore a oferecer-lhe o seu coração.

- Das duas, uma: ou a Magdalena Kozená cortou o cabelo, está com uma cara muito diferente, e mudou de voz, ou por algum motivo foi substituída. Vou investigar.

- Saí a seguir ao Erbarme Dich, com muita pena. Só aquele Erbarme Dich já me teria bastado para ganhar o dia, mas, que é que querem, uma pessoa vicia-se e depois é isto: nunca está satisfeita.

O Digital Concert Hall passa este concerto em directo no próximo sábado, às 6 da tarde de Portugal (7 na Alemanha). Por 9,90 euros podem comprar um acesso ao arquivo do DCH durante sete dias consecutivos. O que permite verem esta Paixão em directo, e nos outros dias irem ver a Camilla Tilling a cantar Lieder de Hugo Wolf (foi quando eu me apaixonei por ela) e a 2ª de Mahler, com a Bernarda Fink, que é muito simpática mas ainda não lhe vi os braços nus a dançar na Paixão segundo São Mateus.  


16 de Outubro - dia mundial da alimentação

15 outubro 2013

Amhrán na gCupán






Ó pra mim a traduzir irlandês, hehehe (que seria de mim sem o google?):

A canção da chávena
Laoibhse Ní Nualláin e cª.
600 participantes entre estudantes e colaboradores
Provavelmente foi um recorde mundial.

(Amhrán na gCupán
Laoibhse Ní Nualláin agus co. 
600 rannpháirtithe idir scolairí agus foireann 
Curiarracht dhomhanda - go bhfios dúinn)

Aqui está a letra em irlandês (mais lá em baixo encontram em inglês):

Tá an ticéad a'am don bhealach fada
Dhá bhuidéal uisce don turas
Is ba bhreá liom cara a bheith in éindí liom
Mé ag fágáil amárach, mbeidh tú liom?

Nuair 'tá mé imithe
Nuair 'tá mé imithe
Aireoidh tú uait mé 's gan mé ann
Aireoidh tú uait mé 's mo aoibh 
Aireoidh tú uait mé 'chuile
thaobh 
Ó, aireoidh tú uait mé 's gan mé ann

Tá an ticéad 'am don bhealach fada
Tá an saol mór ag fanacht liom
Measc na sléibhte, taobh na habhann
Ait a bhíonn an t-aer breá úr 
Beidh sé i bhfad níos deiseleat a stóir

Nuair 'tá mé imithe
Nuair 'tá mé imithe
Aireoidh tú uait mé 's gan mé ann
Aireoidh tú uait mé 's me ag caint
Aireoidh tú uait mé 's mé ag seinnt
Ó, aireoidh tú uait mé 's gan mé ann


I got my ticket for the long way run
Two bottle of whiskey for the way
And I sure would like some sweet company
And I'm leaving tomorrow, what'dya say

When I'm gone
When I'm gone
You're gonna miss me when I'm gone
You're gonna miss me by my hair
You're gonna miss me everywhere, oh
You're gonna miss me when I'm gone

I got my ticket for the long way run
The one with the prettiest of views
It's got mountains,
It's got river's
It's got sights to give you shivers
But it sure would be prettier with you

When I'm gone
When I'm gone
You're gonna miss me when I'm gone
You're gonna miss me by my walk
You're gonna miss me by my talk, oh
You're gonna miss me when I'm gone



"nós"

(foto)

Tenho uma amiga que dá aulas num bairro berlinense onde há muitos turcos e árabes. Um bairro onde vivem pessoas com tradições e valores bastante diferentes daquilo que se considera básico na Alemanha. Há dias, um professor que dá aulas de religião muçulmana na mesma escola dizia à minha amiga - e estava a falar a sério - que todas as mulheres devem usar hijab ou tchador, porque é sua obrigação esconderem o corpo de forma a não provocarem os homens. Este homem tem passaporte alemão, e é pago pelo Estado alemão para dar aulas numa escola pública, o que implica um compromisso com os valores fundamentais da sociedade alemã.
Em conversa com um grupo de alemães, a minha amiga dizia que lhe custa incluir num "nós, alemães" uma pessoa que tem valores tão anacrónicos para esta sociedade. Alguém retorquiu que também temos dificuldades em incluir os neonazis num "nós, alemães", e nem por isso lhes é retirada a nacionalidade.

Ando a pensar nisso, e uso hoje o blogue como folha de apontamentos:

Em que se deve basear a nacionalidade? Quem manda nos valores considerados normais num país? Um país deve exigir dos seus imigrantes a aceitação de valores considerados básicos? (chegada a este ponto, lembro a discussão sobre o exame para obter a nacionalidade alemã - um político dos Verdes comentou que as questões relativas aos homossexuais provavelmente fariam com que o Ratzinger chumbasse nesse exame...)

Se ninguém pensa em tirar a nacionalidade alemã a um neonazi, porquê esse impulso para a recusar a um filho de imigrantes turcos, se ele assediar mulheres ou perseguir homossexuais, ou se for delinquente? Inversamente: se este Estado não tem problema nenhum em vigiar e proibir certas actividades dos neonazis, porquê tanto respeito por regras de outras culturas que vão contra princípios fundamentais desta sociedade?

(Lembro por exemplo a tragédia de uma miúda cujo destino estava inteiramente decidido pelos pais, e que pedia ajuda na escola - o único espaço de liberdade que lhe restava. Para não terem sarilhos com os pais, os professores aceitavam tudo o que estes impunham: a miúda não saía em passeios da escola nem participava nas aulas de desporto. Acabou casada à força com um desconhecido de uma aldeia da Turquia, debaixo das barbas dos professores alemães que preferiam não saber demasiado sobre o que estava a acontecer.)

Depois lembro-me do lamento de um turco: "tento integrar-me o mais possível mas, por mais que faça, não me aceitam". E os judeus, que se integraram de tal modo que até mudaram de religião, e nem assim conseguiram ser aceites. E não estou a falar só dos alemães, mas de todos os povos europeus que não pareceram muito incomodados quando assistiam às prisões e deportações de judeus.

Como é que se constrói o "nós"? Será que o "nós" é apenas um instrumento para construir a gaveta do "eles"?

(E depois, - eu a descobrir o ovo de Colombo com o atraso do costume - uma pessoa que põe a hipótese de negar a nacionalidade a alguém, devido a determinadas opiniões incompatíveis com os usos e valores do país, também corre o risco de estar a ter uma opinião incompatível com os valores do país.)

**

Falei da Alemanha. Como se traduz isso para o "nós" português? Honestamente: como estamos de ciganos? de imigrantes de Leste? de pessoas com pele escura?


14 outubro 2013

a cultura e o nosso tempo


L'argent, 1928 (fonte: Kino Arsenal)

Berlim está falida, mas para a cultura - considerada um elemento fundamental e estratégico desta cidade - ainda se vai arranjando dinheiro. Não apenas a cultura que atrai turistas ricos; também aquela que nos interpela e desperta para o nosso tempo.

Há alguns meses, a propósito do famoso livro de Stéphane Hessel, a Deutsche Oper organizou espectáculos com o título "Indignai-vos!", onde se dava exemplos de compositores que transformaram em música a sua indignação política.

Agora é a vez de, no âmbito do projecto de investigação "Culturas da Loucura", o cinema Arsenal apresentar uma série de filmes subordinados ao tema "Insânia Especulativa". Passo aqui o programa completo, chamando a atenção para o último filme desta série: O Banqueiro Anarquista!

Do programa: O Banqueiro Anarquista é um filme baseado na novela com o mesmo nome do poeta português Fernando Pessoa, escrita em 1922. A personagem principal de Pessoa foi inspirada por Alves dos Reis, o negociante que quase levou o Estado português à bancarrota, devido a uma fraude que arrasou a confiança na moeda nacional, o Escudo. O vídeo mostra o diálogo entre o banqueiro e o seu secretário num talkshow da TV. O diálogo original foi adaptado ao neoliberalismo contemporâneo e à crise de 2008.





Speculative Insanity. Between Economic Rationality and Media Imagination

The greater the risk, the greater the profit. This principle is above all based on the trading of financial derivatives. Increasing capital for its own sake is always speculative, given that it builds on confidence in future prices. If these prices fall sharply, the system collapses. Yet as in the most recent bank crises, the state springs to its defense and covers the losses. The stock exchange can thus be seen as the location of a speculative insanity of both an individual and collective nature, with the individual semantics of this institution and its actors representing different facets of the "magic of the modern financial world."
From its very beginning, film was the perfect medium for staging areas of mass society which resist a truly rational order and predictability, in which game-playing, lust and the imaginary interfere with trading.
This film series curated by Florian Wüst, a project by the Goethe Institute and the Institute for Cultural Studies at the Humboldt University of Berlin, examines the relationship between the stock exchange, money and cinema before the backdrop of the economic, social and technical developments of the 20th Century.

- 15.10.
Marcel L'Herbiers' monumental silent film L'ARGENT (1928) was hugely lavishly mounted for the time, an adaptation of the novel of the same name by Emile Zola in which the unscrupulous speculator and financier Saccard seeks to use all the powers at his disposal to increase the stock price of his bank.

- 22.10.
The short film program, which includes films by Zachary Formwalt, Hans Richter and Vermeir & Heiremans, moves from early photos of the London Stock Exchange to take in post-war automation processes all the way to contemporary increases in the value of luxury real estate due to art.
-- INFLATION Hans Richter D 1928 3‘
-- ROUND & ROUND Jam Handy Organization USA 1939 OF 6‘
-- DIE HEINZELMÄNNCHEN Gerhard Fieber BRD 1962 11‘
-- MALARIA: GELD-MONEY Brigitte Bühler & Dieter Hormel BRD 1983 4‘
-- IN PLACE OF CAPITAL Zachary Formwalt NL 2009 OF 24‘
-- THE GOOD LIFE (A GUIDED TOUR) Vermeir & Heiremans B 2009 OF 16‘


- 29.10.
Peter Krieg's three-part documentary DIE SEELE DES GELDES links a critical analysis of Third World Debt in the 1970s ands 80s to digressions about colonialism and money, religion and the psyche.


- 5.11.
-- DAS NEUE WERKZEUG Walter Koch BRD 1962 12‘
-- WELL DONE Thomas Imbach CH 1994 75‘


- 12.11.
-- NICHT OHNE RISIKO Harun Farocki D 2004 OmE 52‘
-- THE ANARCHIST BANKER Jan Peter Hammer D 2010 engl. OF 30‘


Alice Munro, pelo SNPC


O SNPC oferece um bom mapa para a caminhada que me levará até à Alice Munro. Copiei para aqui o texto. Ao qual acrescento este site, com alguns dos seus contos: Read 16 Short Stories From Nobel Prize-Winning Writer Alice Munro Free Online.

ADENDA - mais um link para um conto: The bear came over the mountain.
(Isto de dar o Nobel a uma escritora de contos é muito prático para a comunidade internética. Até me lembra quando deram o Nobel ao Krugman, e de repente desatámos todos a ler os seus escritos na internet, em vez de corrermos para uma livraria ou esperarmos que alguém nos trocasse tudo por miúdos.)


Alice Munro, nascida em 1931, demonstra há décadas um talento imenso para aquela que é uma das artes mais difíceis para quem faz literatura: escrever contos. Contos completos, profundos, simplesmente maravilhosos. E é precisamente por ser «mestra das histórias breves contemporâneas» que os académicos de Estocolmo lhe atribuíram o Nobel da Literatura de 2013.
A enorme capacidade de escrita - no seu inconfundível inglês, essencial e poético, em que nem uma palavra é escolhida ao acaso - une-se nas suas histórias ao dom de um olhar acutilante e indagador. O resultado é a extraordinária capacidadede chegar ao cerne das histórias e da vida. Com uma atenção irresistível, com uma grande delicadeza, sinais de uma sólida inteligência.
Nascida em Wingham, no Ontário, Canadá, há 82 anos, Alice Munro começou a escrever durante a adolescência, mas só aos 37 anos conseguiu publicar o seu primeiro conjunto de contos, "Dance of the happy shades", que rapidamente suscitou o favor da crítica.
Nesse mesmo ano (1968) obtém o "Governor General's Award", o principal prémio literário canadiano, que vencerá mais duas vezes.
Ainda que a maior parte dos seus contos decorra nas pequenas cidades do sudoeste do Ontário, Murno é capaz de colher temas, estados de ânimo e tonalidades com um autêntico verniz de universalidade.
Mães, filhas, amantes, pais, amigas, irmãs e irmãos; adolescência e terceira idade; amores que nascem, explodem, queimam, amores que às vezes terminam e às vezes sobrevivem; esperanças laborais, lutas, sonhos, doenças, solidão e doença, gestação e aborto (o grito desesperado e brutal de "My mother's dream" é uma das páginas mais significativas da literatura que lida com a narração de uma interrupção da gravidez).
Entre todas as histórias, a sua obra-prima é talvez "The bear came over the mountain", um dos primeiros casos em que a literatura se envolveu com a doença de Alzheimer. E com os temas da identidade, perda e amor que ela coloca.
«Munro é apreciada pela sua arte subtil do conto, imbuída de um estilo claro e de realismo psicológico», descreveu o comité numa biografia da escritora.
«As suas histórias passam-se frequentemente em pequenas localidades, onde a luta por uma existência socialmente aceitável muitas vezes resulta em relações tensas e conflitos morais - problemas que resultam de diferenças geracionais e ambições de vida que colidem», continua.
«Os seus textos descrevem frequentemente "eventos do dia a dia, mas decisivos; verdadeiras epifanias que iluminam a história e deixam questões existenciais aparecer num relâmpago", sublinha a academia.
Entre os livros publicados em Portugal incluem-se "Amada vida" (2013),"O progresso do amor" (2011), "Demasiada felicidade" (2010), "O amor de uma boa mulher" (2008), e "Fugas", todos editados pela Relógio d'Água.
Em julho, Alice Munro declarou publicamente que não voltaria a escrever. Mas quando soube que tinha ganho o Nobel, afirmou que poderia mudar de ideias...

Giulia Galeotti
In L'Osservatore Romano
Com agências
© SNPC | 10.10.13

13 outubro 2013

Mariza 13.10.13

Antes mesmo de entrar, já a sua voz enchia a sala. Poderosa, portentosa. Avançou sem luz, silhueta elegante e altíssima, quase irreal. Depois apontaram-lhe os holofotes, e ela tomou conta do palco. Muito simpática, alegre, divertida. Completamente à vontade, a cantar e a dançar (depois de ver a Magdalena Kožená a cantar Mahler em cima de uns saltos de quase meio metro, pensei que já tinha visto tudo, mas não: a Mariza canta e dança em cima de saltos de meio metro!), a fazer brincadeiras com os músicos (chegou a parar a meio do fado, deu umas voltas pelo palco, em silêncio, e sorriu-nos com ar trocista e cúmplice, "adoro isto - eles estão à minha espera!"), a pôr o público alemão a cantar fado em português - uma entertainer nata. E uma cantora daquelas que não se esquece.




O público, encantado, passou o concerto inteiro a sorrir. Mas quando ela cantou Smile, no segundo encore, alguns choraram uma lagrimita.



Lá para o fim do concerto, a sala já aplaudia as canções de pé. No último fado, ela subiu por entre nós com o seu sorriso cativante, aumentando ainda mais a emoção dos portugueses quando cantou o refrão "ó gente da minha terra" ao fundo da sala. Depois despediu-se das pessoas junto ao corredor e na fila da frente, ouvi-a quando passou por nós: "obrigada!"
Foi-se embora. Apetecia-me agora saber quando volta, para começar a fazer risquinhos no calendário.

A Mariza e os seus músicos, a Mísia, a Maria João, o Mário Laginha, o Carlos Bica - tenho-os visto por aí, na Alemanha e nos EUA, e sinto sempre um orgulho parvo, só porque eles são portugueses como eu.
Não que sejam bem como eu - eles elevam a minha condição de portuguesa.
Devo-lhes muito.

(E à Mariza devo ainda mais isto: não cantou o Meu Fado - se já foi tão difícil com o Beijo de Saudade / Para levar ao mar e o mar à minha terra, sei lá o que me podia acontecer se ela cantasse o Meu Fado...)


12 outubro 2013

a banalidade da mediocridade

Poupo-vos à banalidade do chover no molhado no que diz respeito a este post da Maria Teixeira Alves no Corta-Fitas, sobre uma jornalista chamada Hannah Arendt, "que era filósofa também". O Domigos Farinha já brincou com graça sobre isso no Jugular, e mais vale rir com ele que chorar como me apetecia.   

Do post no Corta-Fitas aproveita-se a pergunta final, sobre a banalidade do bem. Estou tentada a responder que a banalidade do bem é o Estado Social.  

Adiante. O que me levou a escrever este post foi a frase "O tom monocórdico da língua germânica também deve ajudar a isso."
Monocórdica é a tua tia, pá. O que há de monocórdico nesta língua?

Conheço uma portuguesa, casada com um alemão, que um dia foi com a família a uma cidade distante, para visitar os sogros. Chegaram, instalaram-se, conversa puxa conversa e às tantas a sogra pergunta-lhe:
- Olha, diz-me cá: ouvi dizer que a língua portuguesa é muito feia. É verdade?
A portuguesa levantou-se, fez as malas, e saiu daquela casa com a sua família. Para não voltar nunca mais.


outono

A minha rua está assim.




Every leaf speaks bliss to me, 
Fluttering from the autumn tree. 

Emily Brontë


11 outubro 2013

dia bom

Em Setembro fui a Lisboa, para uma reunião. Correu bem, yeessse!, e fui espalhar a alegria para a colecção Calouste Gulbenkian, que uma pessoa gosta de se rodear de bons amigos quando está feliz. Por incrível que pareça, quando chego aos impressionistas acontece sempre alguma coisa que me obriga a sair. Geralmente, fecha o museu. Mas desta vez era a V. (ando há dez anos à espera do momento para escrever isto: "a minha amiga inicial-ponto" - foi hoje!) a combinar um almoço comigo. 
O Rossio na Betesga na Calçada do Combro: enquanto esperávamos pelos outros convivas do almoço, fui com a V. experimentar fatos de banho na que parece ser a melhor loja de Lisboa para essas coisas. Não ponho o nome, porque não sei e além disso ainda iam desconfiar que estava a fazer publicidade encapotada. Mas nem precisam de publicidade: a loja é tão conhecida que já todas as outras portuguesas com um corpo de dimensões normais como o meu tinham passado lá antes. Nada feito - e ainda bem, porque poupei um dinheirão e não me custou nada dizer adeus àqueles biquínis para anoréxicas. Depois fomos almoçar comida deliciosa (porque é que ainda ninguém me tinha avisado que na Calçada do Combro há restaurantes assim?) e depois eles foram trabalhar e eu, que já tinha produzido a produtividade toda logo pela manhã, aproveitei para ir espreitar o Convento dos Cardaes. Uma amiga minha passa a vida a dizer que aquele convento é o non plus ultra da cidade, e eu fui verificar. Com a sorte que tenho, ela por acaso nesse dia estava lá. Passámos a tarde a conversar, a pôr balões nas figuras da arte sacra, e a maravilhar-nos em conjunto.
Há lá coisa melhor do que ter alguém com quem se maravilhar?

(As fotografias são fraquinhas - foram feitas com um telemóvel do Jurássico. Mas o Convento dos Cardaes merece mesmo uma longa visita.)





Já se sabe que um convento é um convento é um convento, mas eu não ia preparada para tanta tranquilidade no coração de Lisboa.







As freiras recebiam a comunhão por esta porta dupla, que separa a igreja da área de cativeiro. Ai, parece-me que não se chama cativeiro. Recolhimento? Vou ter de voltar lá, e perguntar. E apreciar de novo aquela profusão de anjinhos no pedestal da Virgem. Ou este aqui em baixo, a ajudar Jesus a dar os primeiros passos sem o andarilho. Só para apreciar o seu ar aflito já vale bem a pena visitar o convento.




O São José a trabalhar enquanto ouve música servida por um i-pod da época
(quem não tem gato, caça com cão...)



Pilatos: E eu que só cá vim para ver a bola...
Jesus: Por uns momentos pareceu-me que ainda ia conseguir uma solução de compromisso com o meu Pai, mas pelos vistos isto está a correr mal.
Soldado: Decidam-se mazé, que estou a ver que nem este morre nem a gente almoça.







Um São José emancipado - cena de uma surpreendente modernidade.



"Nossa Senhora acabada de sair do cabeleireiro."



O que separa o mundo do espaço reservado do convento?
- Chinoiseries. Chinesices:



Santa Ana (balão com bolinhas, porque só está a pensar ): Esta miúda lê tão devagar que ainda se arrisca a passar mais de um milénio a ser representada na pintura com um livro a cair-lhe da mão.
Maria (balão também com bolinhas) : Se virasses o livro na minha direcção é que eras esperta, mãe.



- Ó pai, achas que o Benfica tem hipótese de ganhar o campeonato?
- Nem que fosses tu o treinador, meu filho!



A Boa Morte. A ver se quando for a minha vez me lembro de compor aquela cara. Nem é bem por mim, é por quem cá fica: é reconfortante.




Guardar tudo numa imagem: a beleza do local, o sol, a amizade.
E sair para a rua: Setembro em Lisboa.





os prémios Nobel em 2013



A ver se me entendo: o da Medicina foi para a Alemanha (ou pensam que só em Portugal se contam estas coisas assim?), o da Física foi para Teologia, o da Química foi para Informática, o da Literatura para uma como-é-possível-eu-ter-chegado-a-esta-idade-sem--conhecer-esta-escritora?, e o da Paz foi para um grupo de opositores de armas químicas - o que tem a sua graça, tendo em conta que o Alfred Nobel inventou a dinamite e ganhou o seu dinheiro com armas.
Agora só falta entregar o da Economia à Merkel: para insistir nas suas políticas de estabilização do Euro, ela deve saber alguma coisa de Economia que mais ninguém no mundo sabe...

apostas (2)




A aposta de hoje é fácil de ganhar.
Pobre Malala - deve ter todos os fotógrafos do mundo à porta da sua casa.


10 outubro 2013

Édith Piaf


Impressionante: a Édith Piaf parece que já nasceu com cara de non je ne regrette rien.
Faz hoje 50 anos que morreu. Umas semanas depois matariam o Kennedy.

No entretanto, nascia eu - vou acrescentar a Édith Piaf ao meu currículo de Calamity Jane... 






apostas


Coisa estranha: daqui a três horas anunciam o prémio Nobel da Literatura, e ainda não há sinal de fotógrafos à porta da minha casa.

(Isto sou eu a imaginar o alvoroço de redacções, jornalistas e fotógrafos, que hoje arriscam tempo e dinheiro nos escritores como quem aposta em cavalos de corrida.)

(Sim, no meu prédio mora um escritor.)


09 outubro 2013

quando a Europa salva os bancos, quem paga?

Uma amiga comentou no meu post "se eu quisesse visitar os meus impostos, ia a Frankfurt am Main", avisando que o documentário ali recomendado também existe com legendas em português. Aqui está ele, e repito a recomendação - vale muito a pena ver.
(Obrigadíssima, Mar!)

to Russia with love - como se fosse Natal: o vídeo do concerto




Recomendo vivamente - em especial The angels of Sorrow, de Giya Kancheli (première mundial); a curtíssima canção de embalar do Pärt; a ária de Lenski, por Pahud. E o Sebastian Koch, ah, o Sebastian Koch. E a Martha Argerich, sempre.
Pensando melhor: recomendo vivamente todo o concerto.
(Já sei onde vou passar os próximos dias.)
(Só lamento terem tirado as peças nas quais aparecia o Barenboim. Aquela Prayer era muito bonita. E um dos encores, a quatro mãos com a Martha Argerich, pois claro.)

Programa:

Poem reading
Herta Müller, laureate of the Nobel Prize for Literature

Mieczyslaw Weinberg
Sinfonietta number 2, Op. 74 , Part 3: Adagio
Orchestra "Kremerata Baltica"

Johann Sebastian Bach
Suite for cello solo number 2 in D Minor BWV 1008 Part 2: Allemande
Nicholas Altshtedt

Sofia Gubaidulina
"Seven Last Words of Christ, not the Cross" for cello, accordion and strings, Part 3: "... Verily I say unto thee, To day shalt thou be with Me in Paradise"
Nicholas Altshtedt , Elsbeth Moser , the orchestra " Kremerata Baltica"

Arvo Pärt
"Estonian Lullaby" for choir and string orchestra
Children's Choir "Shchedrik" orchestra "Kremerata Baltica" , Nikoloz Rachveli (conductor)

Giya Kancheli
"Angels of sorrow" -- dedicated to the 50th anniversary of Mikhail Khodorkovsky
Gidon Kremer, Giedre Dirvanauskayte, a children's choir "Shchedrik" orchestra "Kremerata Baltica", Nikoloz Rachveli (conductor)

[ Sergei Rachmaninoff , Fritz Kreisler
«Prayer» for violin and piano ] 

Anna Politkovskaya
So what have I done that makes me so vile? 
Martina Gedeck, actress

Sergei Prokofiev
Piano Sonata № 7, Op. 83, Part 3: Precipitato
Khatia Buniatishvili

Pyotr Tchaikovsky
Lensky's aria from the opera "Eugene Onegin" (a variation of Guy Braunstein for Flute and Piano)
Emmanuel Pahud, Khatia Buniatishvili

Mikhail Khodorkovsky
Excerpts from the closing speech at Moscow's Khamovnichesky District Court (November 2, 2010)
Sebastian Koch, actor
Dmitri Shostakovich

Concerto for Piano and String Orchestra number 1, op.35 (the soloist trumpet), Part 4: Allegro con brio
Martha Argerich, Sergei Nakariakov, the orchestra "Kremerata Baltica"

Leonid Desjatnikov
Music from the film "Target", Part 1: Vivaldi, January, Part 3: Changes, Part 5: Foxtrot
Gidon Kremer, Martha Argerich, Sergei Nakariakov, the orchestra "Kremerata Baltica"

era uma vez uma crítica literária muito promissora...



Diz o Eduardo Pitta que nos círculos bem informados de Estocolmo se especula que Daniel Kehlmann estará entre os cinco autores da shortlist para a escolha do Nobel da Literatura deste ano. Das duas, uma: ou aquele post é uma ironia (dava-me jeito acreditar que sim, por motivos que agora não interessam), ou eu nunca vou ser uma famosa crítica literária. É que gosto muito do Daniel Kehlmann, mas nunca me lembraria de o sugerir para um Nobel - justamente porque (ai gulp, agora é que me vou desgraçar para todo o sempre!) gosto muito do que ele escreve. E isso não me acontece com todos os Nobel da Literatura (pronto! desgracei-me.)

("Gosto muito do que ele escreve" é como quem diz: ri a bom rir com A Medida do Mundo e gostei muito das situações e da trama em Fama - uma Novela em Nove Episódios.)




08 outubro 2013

to Russia with love - Herta Müller


(o Speedy Gonzalez a traduzir poemas da Herta Müller... quão baixo se pode descer?)


ARTISTAS

para Michail Chodorkowski


O nosso soberano
tinha mãos excelentes
bordadas a branco
e um cravo vermelho natural
como uma flor olho-de-sangue no chapéu e
um botão chamou
o cuco cantou o
hino no caldo entornado e quem
o ofendia apanhava muitos
anos frios por traição

Herta Müller





to Russia with love - Elfriede Jelinek


Três jovens mulheres, Pussy Riot, pronunciaram-se contra o seu presidente Putin, numa igreja! Tentaram mobilizar contra ele a mãe de Deus - contra quem blasfemaram? Contra Deus ou contra Putin? Ou são eles equiparáveis? Quem ofende Putin, ofende Deus? A sua mãe? A Igreja? A Rússia? Putin é a Rússia??

Elfriede Jelinek

to Russia with love - um concerto para a defesa dos direitos humanos na Rússia



Concerto na Kammermusiksaal em Berlim, a 7 de Outubro de 2013 (link em inglês): sete anos após a morte da Anna Politkowskaja - assassinada no dia dos anos do Putin, como lembrou a Herta Müller -, no mês em que Chodorkowski cumpre dez anos de prisão política.
Músicos e actores excelentes, numa sessão em que a beleza interpelou o horror. As peças musicais eram lindíssimas, e foram interpretadas como se espera de alguns dos melhores músicos do mundo. Melhor ainda, contudo, foram as palavras: um texto de Anna Politkowskaja, encontrado no computador dela após o seu assassinato, e as alegações finais de Chodorkowski no julgamento, em 2 de Novembro de 2010. (E, de novo, um pequeno detalhe: os actores que leram os seus textos foram Martina Gedeck e Sebastian Koch - que representaram duas vítimas de um sistema totalitarista no filme "a Vida dos Outros")

A sessão começou com Herta Müller: o corpo de uma extraordinária fragilidade, a prosa directa e simples contra o totalitarismo. Por quem sabe do que fala. 
Na primeira parte do concerto, a música ecoou a tristeza e o sobressalto: 

- Mieczylaw Weinberg: Sinfonieta nº 2, op. 74, para orquestra de cordas e tímpanos, 3º andamento.
Passagem sem pausa, muito bem conseguida, para:

- Johann Sebastian Bach, suite para violoncelo solo nº 2, 2º andamento: Allemande, interpretada por Nicolas Altstaedt (este homem não toca música: medita-a.)


- Sofia Gubaidulina, "Últimas sete palavras", 3º andamento: "Em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso", com Elsbeth Moser no acordeão. Gubaidulina não é a minha compositora favorita, mas trouxe para esta cerimónia uma inquietação muito apropriada. 



- Arvo Pärt, canção de embalar estónia, pelo coro infantil Shchedryk. As miúdas cantavam num pianissimo sublime, e encantaram de tal modo que o público até se esqueceu de tossir.
(a canção começa a 1:55, mas vale a pena ver este filme todo: Sounds and Silence)



- Gyha Kancheli, "The angels of sorrow", dedicado a Michail Chodorkowski no seu 50º aniversário, première. Nas vozes etéreas do coro infantil Shchedryk: inesquecível.
Nas suas palavras: "As diversas e repetidas formas de crueldade e violência não me podem deixar indiferente. São elas talvez o motivo pelo qual a minha música está tão cheia de tristeza e dor.
As vítimas inocentes são as crianças que foram assassinadas em Utoya, os que morrem em incontáveis ataques de fanáticos religiosos, os jornalistas que foram mortos por terem exprimido a sua opinião, os refugiados que guerras imperialistas expulsam do seu país, e os condenados por tribunais com base em falsas acusações. 

A minha tomada de posição sobre a prisão de Michail Chodokowski começou por ter origem numa simples simpatia, e cresceu para se transformar em profunda admiração por esta extraordinária personalidade, e pela força do seu espírito. Por esse motivo dediquei a minha composição a um homem que celebrou o seu 50º aniversário atrás das grades. 
No contexto dos meios a meu dispor para me exprimir, foi minha intenção ligar as vozes de crianças inocentes a uma estrutura melódica simples, para mostrar a minha admiração pela força do espírito humano - esta força indomável, que levanta o espírito acima de qualquer regime imoral."  

"The angels of sorrow" - recomendo vivamente. Como ontem foi a apresentação mundial, demorará algum tempo a aparecer por aí. Neste link há um vídeo onde, logo no princípio, se ouve um bocadinho da peça. E também do Nicolas Altstaedt, e da Elsbeth Moser.

Depois da pausa foi lido um poema de Herta Müller - "Artistas", dedicado a Michail Chodorkowski - e as alegações finais deste no julgamento em Novembro de 2010, que explicam bem a admiração de Gyha Kancheli.

- Sergei Rachmaninov, Fritz Kreisler, "Prayer" para violino e piano, com Daniel Barenboim e Gidon Kremer. Trata-se de um arranjo para violino da famosa melodia do concerto nº 2 para piano, de Rachmaninov, e tocado por aqueles dois músicos revelava uma essência nova nas frases que conheço de cor. Infelizmente não encontrei nenhum vídeo que chegue perto do que ontem ouvi - os que ouço são demasiado dramáticos, pesados, exagerados. Chega a ser doloroso ouvir, depois da leveza tão intensamente rica de Barenboim e Kremer!

Depois disso, o tom na sala mudou. Peças mais rítmicas, quase diria alegres. Excepto a ária de Lensky de Eugénio Onegin, de Tschaikowski, tocada por Emmanuel Pahud e Khatia Buniatishvili: mais uma história de desdobramento da essência.

Com a entrada de Martha Argerich, a sala foi ao rubro.
Começou por tocar o 4º andamento do concerto nº 1 para piano, orquestra de cordas e trompete, de Shostakowitsch (no vídeo, com Shostakowitsch ao piano, estão o 3º e o 4º movimentos).



Com certeza que ninguém está à espera que eu escreva uma crítica sobre a Martha Argerich, de modo que complemento o que todos sabem com um detalhe sem importância: ela sentada ao piano, abanando a cabeça ao som da música que o trompetista fazia, como se fosse professora e ele o aluno dilecto.

Continuou com música de Leonid Desyatnikov para o filme "Target", de Zeldovich. E terminou com um encore de Argerich e Barenboim, lado a lado, a quatro mãos.

Momentos inesquecíveis de música. Mas esse foi apenas o meio encontrado por Gidon Kremer e os seus amigos para nos alertar: o que não podemos realmente esquecer é que na Rússia há gente a ser assassinada ou posta na prisão por estorvar os interesses do regime.





a insularidade ataca de novo: parece que no Palácio de Cristal vai vir charters de livros até fins de outubro, e eu aqui



Do youtube:

Esta é a história de uma cidade que acordou com uma surpresa: à porta de infantários, bibliotecas, lojas, cafés e padarias, no Metro e mesmo em paragens dos STCP estavam pequenas torres de livros para todas as idades!

Trata-se de um presente da Calendário de Letras, que organiza o Porto Book Stock Fair durante o mês de Outubro, entregue pela calada da noite. No total, foram distribuídos mais de 2 mil livros, com uma etiqueta especial: "Este é dado... Os outros também."

A acção-surpresa, que decorreu durante a noite de 3 para 4 de Outubro, com o apoio da Cedofeita Viva, foi um projecto do Bairro dos Livros e teve por objectivo divulgar o arranque do maior festival de livros do Porto, que oferece mais de 500 mil livros com descontos até 80%, no Palácio de Cristal.

Agora a malta do Bairro dos Livros e os meninos da Cedofeita Viva acham que são uns "book gangsters". 

4 Outubro, 2013
Porto



07 outubro 2013

obrigadinha, Putin!

Obrigadinha, Putin. Por tua causa, um grupo extraordinário de artistas vai-se juntar hoje num concerto de beneficência: "To Russia, with love", a favor dos direitos humanos na Rússia.

Martha Argerich e Daniel Barenboim, Gidon Kremer e Emmanuel Pahud, entre outros.
Espero que aproveite muito aos homossexuais russos e às Pussy Riot, para eu não parecer a Susaninha da Mafalda: a babar por causa daquelas iguarias que servem nos chás de caridade para conseguir fundos para comprar farinha e arroz para os pobres...




(este vídeo consegue ser tão horroroso como a música é sublime)



06 outubro 2013

"Hannah Arendt - o seu pensamento mudou o mundo"



Um bom filme: pelo bom cinema, pela abordagem histórica, pelo elogio da liberdade de pensamento, por nos mostrar - como se fosse fácil! - o processo de pensar, e ainda por este curioso detalhe: Lotte, a assistente de Hannah Arendt, é representada por Julia Jentsch, que há anos ficou famosa com o filme Sophie Scholl. 

Um bocadinho de mim passou o filme todo a sorrir para a ideia da Sophie Scholl a trabalhar com a Hannah Arendt, em Nova Iorque. 




será possível rir em Gaza?


A primeira gargalhada da manhã foi para a capa do DVD de When Pigs have Wings. Um porco em Gaza: ora aqui temos, finalmente, judeus e árabes do mesmo lado da barricada. 
Li as críticas na Amazon, vi o trailer, ri ainda mais.


Agarrem-me, que eu compro. Alguém sabe se a Amazon já começou a tratar os empregados como deve ser? 

05 outubro 2013

"se eu quisesse visitar os meus impostos, ia a Frankfurt am Main"

A propósito da montra de uma agência de viagens em Karlsruhe, onde estava escrito "vá visitar os seus impostos - Itália, Espanha, Irlanda, Portugal, Grécia" (de que falei no post anterior), tenho andado à procura de reacções na Alemanha. Encontrei um debate no Google+ com as palermices do costume e também um número felizmente alto de pessoas que tentaram debater com seriedade e sentido de justiça. Uma delas resumia, lapidarmente:
"Se eu quisesse visitar os meus impostos, ia a Frankfurt am Main."

Entre os comentadores alemães encontrei alguns comentários tipo Bild ("é isso mesmo!", "assim é que é!", "no fim os lorpas dos alemães é que pagam"), outros que criticam liminarmente o cartaz e este tipo de polémicas baratas e contraproducentes, porque espalham mentiras que destroem a Europa, um que conclui que a agência de viagens só pode ser gerida por leitores do Bild, outro que responde que não basta classificar as pessoas em categorias tipo "leitor do Bild", e que para mudar alguma coisa é preciso "trazer os leitores do Bild para o nosso barco", informando-os e dando-lhes a conhecer as partes do puzzle que os políticos não estão a querer revelar: que estão a aplicar o dinheiro dos contribuintes alemães no salvamento dos bancos estrangeiros que devem dinheiro aos bancos alemães.
Um dos melhores comentários: "Pergunto-me seriamente se os alemães se dão conta de que os milhares de milhões são distribuídos entre os bancos e as "elites", em vez de ir para esses países. Este bashing da Europa do Sul é estúpido e perigoso. Parece haver realmente um interesse em lançar os europeus uns contra os outros, e nós estamos a cair como uns patinhos. É assustador pensar no que está a acontecer neste momento." 

No mesmo debate referiram um documentário de Harald Schumann, jornalista de investigação num diário berlinense, de Fevereiro de 2013: "Segredo de Estado - o Salvamento dos Bancos"

Em alemão:



Em francês:



São 52 minutos que valem bem a pena.

Comentário do site Deutsche Wirtschafts Nachrichten a este filme:

"Este documentário não traz grandes surpresas aos leitores habituais do Deutschen Wirtschafts Nachrichten. Contudo, recomenda-se ver o filme, porque mostra que quantidades enormes de dinheiro dos contribuintes foram simplesmente dirigidas para o sistema bancário. Para onde - ninguém sabe, nem quer saber.
(...)
O que não é dito no filme: é óbvio que os políticos passaram todo o tempo a dizer aos bancos que precisavam de dinheiro - cada vez mais dinheiro! - para cumprir as promessas eleitorais (de quatro em quatro anos) ou para financiar projectos políticos monstruosamente grandes (UE e Euro). Há algum exagero na atribuição unilateral da culpa aos bancos. Milhões de europeus receberam este dinheiro porque se entregaram gratamente à ilusão de que as dívidas são o melhor dos investimentos.
O filme também não conta que a política ficou sujeita a chantagem devido a estas práticas de endividamento. Se os bancos se recusarem a comprar títulos da dívida pública, e então o Bond Market se desmoronar, o jogo acaba. É esse o motivo principal para o salvamento dos bancos ser um segredo de Estado: os políticos teriam de reconhecer que andaram a atirar pela janela o dinheiro dos outros (dos contribuintes).
É isto que acabará por ser mostrado: os bancos receberam com gosto a bola que lhes atiraram. Lucro, tiveram todos - os Estados, os fundos de pensões, os pequenos proprietários de imobiliário. Este segredo de Estado sobre o salvamento dos bancos é necessário porque a política espera conseguir chegar às próximas eleições sem ter de dar más notícias aos reformados, que são em número cada vez maior.
O preço total deste jogo vai ser pago pela próxima geração - e no mundo inteiro. Mas, bem vistas as coisas, isto também já não é segredo para ninguém."


04 outubro 2013

"vá visitar os seus impostos - Itália, Espanha, Irlanda, Portugal, Grécia"

Diário de uma Azubi (aluna do ensino dual na Alemanha)


[Nota: os mais apressados podem saltar logo para Julho 2012]


Agosto 2011

Olá! Chamo-me Jessica Vas e tenho 17 anos.
Trabalho desde 01.08.2011 na Agência de Viagens FIRST em Karlsruhe, e estou a fazer uma formação como agente de turismo.
Os primeiros dias foram sossegados.. até que de repente começou a aquecer. A princípio não foi nada fácil apresentar-me correctamente ao telefone e falar correctamente com os clientes. Mas entretanto isso já acontece naturalmente. :)
A meio do mês comecei a aprender a trabalhar com o sistema de reservas. Também pude começar a ter os primeiros contactos com os clientes.
Estou cheia de curiosidade sobre o que me espera, e toda contente com as novas tarefas e os desafios que vou ter.


Setembro 2011

Olá a todos!
Os dois primeiros meses já passaram, e já tenho as minhas primeiras impressões.
Estou fascinada com a quantidade de experiências diferentes que são possíveis numa agência de viagens..
Em todo o caso, uma pessoa nunca se aborrece ;-)
Aconteceu este mês.. depois da conversa com o cliente, a primeira reserva que fiz sozinha, os primeiros clientes só meus.. Responsabilidade!.. ai.. Mas todos eles regressaram das férias, contentes e de boa saúde!
Também já tive o primeiro seminário de formação TUI. Entre outros, aprendemos muito sobre a Croácia, as Canárias e Rodes, mas também nos conhecemos uns aos outros. Os trabalhos de grupo foram giros, e terminámos o dia com um shopping tour em Mannheim.. que o primeiro salário tem de ser gasto de alguma maneira.. ;-)


Outubro 2011

Este mês também foi tudo menos chato.. entre as minhas muito merecidas férias e a escola, trabalhei muito aqui na agência. Fiz muitos aconselhamentos e reservas, e aprendi imenso. Acordem-me durante a noite, posso sussurrar imediatamente um pedido de cruzeiro e venham de lá os marinheiros. Ao mesmo tempo, tive muito que carregar.. uma grande parte dos catálogos de Verão foram entregues. *suspiro* Também como futura agente de turismo tenho de trabalhar como um estivador.. ;-)
Djini tornou-se a minha melhor amiga.. quem é a Djini? Venham à agência de viagens, tenho todo o gosto em mostrar.
Além disso, este mês não tivemos nenhuma umbrella campaign, e pudemos, em vez disso, dar largas à nossa fantasia..  e fizemos uma festa na montra. Alegre, amarelo-canário e com um enorme sorriso TUI na montra.
Ah, e os papéis da minha viagem a Paris, a 2.11.11, também já chegaram - mas isso conto em Novembro :)

(...)


Junho 2012

Junho chegou ao fim, o Verão chegou.. yippieeh.. ou algo do género. Não se pode dizer que isto seja realmente Verão. Mas foi-o na Tunísia, regressei bronzeada como prometi e muito descansada. As férias valeram mesmo a pena!
A visita a Düsseldorf também foi um sucesso! Vimos muitas coisas, divertimo-nos muito, comemos muito. :-D  Além disso, estava a acontecer o Christopher Street Day.. é realmente uma experiência! Foi um fantástico fim-de-semana de Pentecostes!
Mas também trabalhei em Junho ;-)    Fiz muitas reservas e quase me assusto com a quantidade de coisas que já consigo fazer sozinha. Uma pessoa começa a dar-se conta, devagarinho, de que o primeiro ano de formação está a chegar ao fim.. Incrível.
Da minha parte, é tudo. Desejo a todos um mês cheio de sol, e no fim do mês conto o que Julho teve para oferecer!


Julho 2012



O meu primeiro ano de escola e trabalho prático chegou ao fim, os diplomas já estão prontos e as férias acenam-me.. yes! Mal posso acreditar.. porque até o Verão conseguiu chegar a nós (pelo menos esta semana) :-)
Este foi um mês especial, porque nos deixaram decorar sozinhos a montra da agência de viagens. :D  a nossa equipa foi particularmente criativa, e arranjou de colar no vidro, em letras enormes cor-de-rosa, "VÁ VISITAR OS SEUS IMPOSTOS! - Itália, Espanha, Irlanda, Portugal, Grécia". De facto.. quem colou tudo fomos nós. (e que trabalheira!) Logo a seguir, começou a agitação.. aparecemos no facebook, na internet, clientes vieram falar connosco... Agora sei o que é guerilla marketing, e o que representa, porque uma simples montra pode excitar e provocar os ânimos..

Pelo meio dessa confusão, também vendemos viagens como tudo, com a chuva que tem estado não é de admirar que todos queiram fugir! Também já é possível reservar viagens para o Inverno, e muitos clientes tratam de reservar agora os melhores lugares ao sol durante a estação mais fria.
Mas por agora está calor, eu vou desaparecer para as minhas duas semanas de férias, e desejo a todos um verão bem quente!
E se tiverem muito calor na rua, entrem na nossa agência, que tem ar condicionado.. também lhes podemos arranjar umas boas férias ;-D

***

Entretanto a miúda já está a chegar ao fim da formação. Em Junho foi eleita para o conselho de representantes dos Azubi. A última entrada no blogue foi em Julho de 2013.

Ela não diz muito sobre as reacções ao cartaz, nem se o tiraram logo ou deixaram ficar mais tempo. Um ano mais tarde, já nem se deve lembrar das letras enormes cor-de-rosa que colou na montra da agência - mas a fotografia chegou agora a Portugal, e deu origem ao habitual coro de protestos contra os nazis do costume.

O cartaz é parvo. Tão parvo como as bocas tipo "os alemães são nazis de pai e mãe". Será que em termos de palermice nos podemos considerar quites, ou vale realmente a pena esmiuçar o caso do cartaz feito por uma miúda que nem sabe a diferença entre ponto final e reticências?


serviço público - para portugueses que se querem instalar em Berlim



Para quem chegou agora a Berlim, ou está a pensar mudar-se, uma lista de sites úteis:

- Portugueses em Berlim - mailing list no google groups. As pessoas inscrevem-se, e passam a receber as mensagens de informações e pedidos de ajuda que outros portugueses residentes em Berlim enviam. (Atenção: quando se responde a uma mensagem, a resposta é automaticamente enviada a todas as pessoas da lista. Por causa disso já me envergonhei nem sei quantas vezes.)
Também tem uma página no facebook: Portugueses em Berlim.

- Clube das trocas - Berlim: grupo no facebook, que começou por ser um clube de trocas, e agora é sobretudo um espaço de entreajuda.

- Berlinda: publicação online dedicada à interacção cultural entre Berlim e o mundo de língua portuguesa. Gosto especialmente do Cartaz, com imensas informações sobre eventos de portugueses, brasileiros, moçambicanos, etc.
Também tem uma página no facebook (Berlinda) e uma newsletter que envia directamente as novidades por e-mail.

- Berlinda Acção Social (ou: Ação Social - a Berlinda respeita o AO): site com imensas informações de todo o tipo (desde procura de casa, até médicos e advogados que falam português), e um grupo de voluntários que tentam ajudar nos casos mais difíceis.

- Página no facebook da Embaixada de Portugal em Berlim.

- Expatriates in Berlin - grupo internacional no facebook, posts em inglês.

- As perguntas "onde é que se pode comprar bacalhau e sumol?" e "onde é que vocês vão ver o jogo amanhã?" são um bocado mais difíceis de responder num post, porque a cidade é muito grande e os cafés, restaurantes e lojas portugueses estão espalhados por aí. Mais vale perguntarem directamente num dos grupos do facebook, ou na mailing list.


[Post em actualização permanente]

03 outubro 2013

a gaiola dourada



O Lourenço Cordeiro é que me entende - é que foi isto, tal e qual, o que pensei quando saí da sala do cinema. Tal e qual, mas faltavam-me as palavras para o dizer. Obrigada, Lourenço.

Isto, assim:

A Gaiola Dourada comove-nos porque faz uma coisa rara: convoca um olhar terno sobre a portugalidade mais epidérmica, namorando o lugar-comum com inteligência e delicadeza. Não é um olhar sobre a emigração portuguesa que transforme o nosso, e há muitos pontos-chave da trama que ficam mal resolvidos (com essa agravante-mor de fazer duas referências ao Benfica desfasadas no tempo em 6 anos), coisas que perdoamos sem esforço. Porque o que Rúben Alves faz com A Gaiola Dourada é lembrar os portugueses das razões pelas quais gostamos tanto de Portugal. O que, feito nos dias que correm, é uma proeza espantosa.

02 outubro 2013

greve das orquestras alemãs


Ontem de manhã os filarmónicos interromperam um ensaio com Reinhard Goebel, um maestro que se estreia agora com a orquestra (será que é mais um dos concorrentes?), e foram fazer uma pequena manif para a rua. Com acompanhamento musical, claro, ou não fossem eles os filarmónicos. E que peça melhor podiam ter escolhido, senão o solo da trompeta de Fidélio que anuncia a chegada do ministro que vem salvar a situação?




O discurso, traduzido muito à pressa, foi assim:
Esta manhã, cerca de 100 orquestras nacionais e regionais estão em greve. A Filarmónica de Berlim participa nesta acção, porque também se sente co-responsável pelo futuro das orquestras na Alemanha. Cerca de 25% das orquestras profissionais do mundo inteiro são alemãs - algumas delas têm mais de 500 anos. Do ponto de vista da concentração, diversidade e tradição, o panorama das orquestras alemãs é ímpar. Durante quanto tempo ainda? Pensamos que é preciso pôr um fim à política de poupança nas orquestras e nos músicos. Este nosso património cultural, único em todo o mundo, está seriamente em risco. Só nos últimos vinte anos, desapareceram 37 das 168 orquestras existentes. Foram destruídos milhares de postos de trabalho para jovens músicos. O encerramento e a fusão deixou apenas 131 orquestras, e muitas destas vêem a sua existência ou a sua dimensão ameaçadas. Em Schwerin, Chemnitz, Eisenach, Halle, Dessau [n.T.: cidades da antiga RDA], mas também em Baden-Baden e Freiburg [n.T.: cidades de um dos Estados mais ricos da Alemanha]. Tem de voltar a haver financiamentos satisfatórios para o teatro e as orquestras na Alemanha. Se a base das orquestras alemãs continua a desmoronar-se, também as orquestras mais famosas devem temer pelo seu futuro. O nosso protesto solidário e público dirige-se contra esta situação, ao lado de todas as orquestras alemãs de música clássica. Em coro com os nossos colegas, os membros da Orquestra Filarmónica de Berlim dizem: "basta!". Esta é a nossa exigência a todos os políticos com responsabilidades nesta área: manter a nossa paisagem de orquestras com as suas características únicas!

***

À hora do almoço passei pelos bastidores, e recolhi um dos cartazes. Estou  a pensar vendê-lo a quem der mais. É muito bonito, plastificado, e provavelmente vem com as impressões digitais de algum músico famoso, e a vibrar ainda bocadinhos das notas de Mozart e Bach, que é o que eles estiveram a ensaiar antes da manif. Então, temos negócio?
(Não é para mim, é para ajudar a orquestra - quer dizer, para ajudar a pagar os bilhetes que lhes comprei...)