De que falamos quando dizemos piropo?
Quando trabalhava na Market Street, em San Francisco, gostava muito de ouvir os piropos dos
homeless. Eu era a Carolina do Mónaco e eles o meu Karl Lagerfeld: experts de moda, exprimiam a sua admiração de forma educada e respeitadora.
Uma vez, durante uma espera de várias horas no aeroporto de Frankfurt, um desconhecido ofereceu-me uma rosa. Explicou que estava já há algum tempo a observar-me enquanto eu lia, e que a cena era tão bonita que não resistira. Depois foi-se embora.
Estes serão os pontos altos da minha carreira de piropos recebidos, mas não são casos únicos. Muitas foram já as frases de desconhecidos exprimindo estima -
frases fundadas no respeito entre iguais, acompanhadas por um sorriso caloroso. Também as digo, a homens e a mulheres, se me apetece e a situação o permite. Piropos bons, que dão satisfação tanto a quem oferece como a quem recebe.
De que falamos quando dizemos piropo?
No caminho para a escola, era certo como dois e dois serem quatro: um grunho qualquer havia de me rosnar "ah, boazona! fodia-te aqui já toda!" ou "que boa boquinha pró meu caralho" ou outra delicadeza semelhante. Nos dias piores vinham em grupo e riam-se muito, noutros chegavam mesmo a tocar-me. Que mal tem uma mão a roçar o meu braço? O mal suficiente para me deixar com vontade de lixar a pele até sair todo o asco.
Se quero criminalizar esta escória? Claro que não! Bastava-me que lhes cortassem os guizos a frio e os deixassem a esvair-se em sangue na sarjeta. Estou a brincar. Estou a dizer o ódio que lhes sentia naquele momento.
Anos mais tarde, em conversa com um amigo a propósito de um
ksssssss! que me fora ciciado demasiado perto do ouvido, ele achou que eu estava a exagerar. Mas depois foi conversar com a sua mulher, que atravessara a adolescência com copa C, e ficou inteirado. E chocado. Nem durante a gravidez a respeitaram, e muito menos com um recém-nascido ao colo. O marido não se dera conta de nada disso.
A nossa sociedade não repara no que fazem às raparigas mal o seu corpo começa a ganhar formas de mulher. E prefere ignorar que, no espaço público, as mulheres são repetidamente sujeitas a frases humilhantes e intimidatórias. Diz que são piropos, fazem parte do folclore nacional, dão mais colorido à rua - e quem não gostar, que se defenda.
Por estes dias o Bloco de Esquerda
propõe um debate sobre este tema, que infelizmente nasceu inquinado por dois equívocos:
- a TSF pôs a palavra "criminalização" no título da notícia, apesar de não serem essas as intenções do BE (segundo li algures).
- a palavra-chave usada é "piropo", que tem as costas larguíssimas e se presta a muitos mal-entendidos.
Por esses motivos o debate, que seria bem necessário, está a ser chutado para canto pelas habituais manobras de diversão: que mal tem um piropo? que mal tem dizer a uma mulher que está bonita? agora já se vai preso só por olhar? e uma mulher é um ser tão frágil que precise de ser protegido dessa maneira?
Parece-me muito curioso que se tenha escolhido a palavra "piropo" e não "assédio no espaço público", por exemplo. Admito que com isso se pretenda chamar a atenção para a maleabilidade do conceito e a maleabilidade do respeito pelas mulheres, aqui na nossa coutada do macho latino, bem como alertar para o facto de que o uso desta palavra de ar tão inócuo, tão "brandos costumes", acaba por eufemizar, encobrir e desculpabilizar uma realidade inaceitável.
Uma escolha com riscos, como bem prova o rumo equivocado que a discussão está a tomar.
Este momento do debate lembra-me um episódio acontecido há quarenta anos numa escola berlinense. Um professor completamente tarado castigava os alunos, rapazes adolescentes, com palmadas no rabo. Negociava: vestido, dez palmadas; nu, apenas cinco. Depois punha-lhes creme nas nádegas, para aliviar a dor. O pai de um desses alunos tirou o filho da escola e enviou uma carta ao director dizendo que não concordava com os métodos pedagógicos do professor. Ele bem sabia que alguma coisa estava profundamente errada, mas faltava-lhe a palavra certa para designar o fenómeno, porque ainda não se começara a tematizar o problema da pedofilia nas escolas. Existia, mas ainda não lhe tinham dado o nome exacto.
Era bom que começássemos a olhar para esta problema com olhos de ver, e procurássemos a palavra certa para o designar.
Pergunto-me porque é que algumas pessoas (por cuja seriedade na discussão de ideias tenho, e mantenho, o maior apreço) estão a bagatelizar e a ridicularizar este tema, perguntando "que mal tem fazer um elogio a uma desconhecida?" como se fizessem questão de ignorar que o que está em causa são atitudes de intimidação das mulheres.
Mais: a que propósito se tenta deslocar a questão para um eventual problema que as mulheres terão com o seu próprio corpo, ou para os guetos ideológicos (serão marxistas compulsivas...), e sabe-se lá que mais?
Também não percebo porque é que, em nome do feminismo, se afirma que este é um problema que cada mulher saberá resolver, e que fazer dele tema de debate chega a ser ofensivo para as mulheres. Equiparo estes ataques aos das frases racistas e homofóbicas - porque é que não havia de ser um problema tematizado pela sociedade? E alguém se lembraria de dizer que uma frase racista largada na rua contra uma pessoa de pele escura é um problema que aquela pessoa tem de saber resolver sozinha, ou ignorando, ou metendo o agressor na ordem, nem que seja com uma bofetada? Vá, não brinquem comigo.
Duas notas finais:
- Antes de o BE trazer este assunto à baila, já a Rita Dantas o tinha referido. Recomendo a leitura
deste post e dos respectivos comentários.
- A foto no princípio deste post foi tirada deste
site, e acompanha um texto bastante interessante, do qual retirei uma parte. Dito assim, em inglês, fica claro como água.
Basically, with every rude comment or leering stare, the harasser is saying this: “I have the right to say what I want and do what I please here, and you just have to deal with it.” He is saying, “your body is mine to look at and to comment on without your consent.” And he is saying, “you’re going to like this attention I’m giving you, you should like this attention I’m giving you, and if you don’t, there’s something wrong with you, not me. You’re too uptight, too frigid, too whatever. Your reaction is the problem, not my behavior.”
Victims of street harassment are often made to feel like they have no right to be upset, like they should just shut up and take it when people speak to them like that. But we need to fight back against that notion and call it out for what it is – a large, steaming pile of bullshit. I’m asking you (all of you – men, women, gay people, straight people, ALL people) to do this: take street harassment seriously. Don’t harass people, don’t let other people be harassed, and don’t let yourself be harassed. Stand up, fight back, and make a difference.
Our streets and our world will be much better for it.