16 maio 2013

ainda Weimar




No domingo de manhã estacionámos os carros junto a esta escultura (pareceu-nos um guarda muito atento) e fomos visitar a Römisches Haus - a residência de Verão do Grão-Duque, em parte desenhada por Goethe. Numa das suas viagens a Itália andou a juntar ideias para uma casinha catita, e o resultado foi este pastiche anacrónico (bem, naquele tempo não se chamava anacrónico, chamava-se classicista), no topo de um canyon,


com uma fantástica vista para o parque,





ainda que um pouco distorcida.

(foto de cjs, estimado leitor deste blogue)

Continuámos a maratona cultural. Weimar precisa de uns bons três ou quatro dias, mas nós tínhamos apenas o fim-de-semana. O Palácio - com uma bela colecção de Cranach, outra de arte sacra medieval,  o gabinete de curiosidades, uma pinacoteca espalhada pelos salões magníficos, e ainda peças do enxoval da Maria Pawlowna, filha do czar, que me fez pensar na ironia desse luxo usado como cenário de violações consentidas por razões de Estado, mas talvez esteja agora a cair no erro do anacronismo, como o Goethe (não sei se repararam, acabei de tentar içar-me ao pedestal dele, se não o consigo igualar no génio, ao menos nas fraquezas).



Entrámos na igreja do Herder com o seu tríptico de Cranach, e corremos para o mausoléu da família ducal, onde repousam também Goethe e "Schiller". Entre aspas, porque Schiller teve um funeral de escritor pobre, e quando se lembraram de o levar para perto dos outros agarraram nos ossos que encontraram, mas pelos vistos já nenhum era dele. Vai ser bonito, quando o Goethe ressuscitar, olhar para o Schiller e disser "eh, pá, a morte transfigurou-te muito, até pareces o meu cocheiro". O que, em Goethe, provavelmente será algo do género "ignorância deste mundo, inexperiência dos cânticos eternos / - que ilusão da verdade me abriu os olhos? /Que não vos reconheço, meu dilecto amigo / e em vez do admirável companheiro de altos voos / um comezinho parceiro da rasa estrada apenas vejo."

Deixámos Goethe, fomos a Buchenwald - isto é Weimar.





Ao fundo do campo, perto do edifício com a exposição dedicada às vítimas do campo de concentração reaberto pelos russos, há na floresta um enorme memorial: barras de metal entre as árvores, assinalando corpos  sem nome.



Numa clareira, os familiares das vítimas - que só após a queda do muro, em 1989, puderam entrar no campo que já fora fechado em 1950 - deixaram cruzes contra meio século de humilhação surda: "Fulano, inocente", "Fulano, reabilitado".







Parámos ainda na placa de metal com a nacionalidade das vítimas, permanentemente aquecida a 37º - a temperatura do corpo humano. Pousar a mão naquela superfície tépida, e ser tocado pelo horror do campo. As fotografias, a prisão, os fornos, os ganchos do crematório - tudo isso aconteceu a "eles", há muitas décadas. Mas aquela chapa devolve-me o "nós" e resgata-os da História para os misturar comigo: o calor do seu corpo vivo igual ao meu.

***

Antes do regresso a Berlim, passeámos ainda por Erfurt. A capital da Turíngia é uma cidade pouco conhecida, quase sem turistas. Merecia mais fama: uma cidade medieval muito bonita e bastante sossegada, cheia de História e com um extraordinário conjunto de igrejas, incluindo a do Mestre Eckhart, incluindo o mosteiro onde Martinho Lutero andou antes de resolver mudar de vida e enviar a humanidade rumo ao neoliberalismo. 
Uma boa maneira de acabar um domingo. Com chuva e sol, arco-íris e ponte medieval com uma rua dentro - dizem que é a mais longa da Europa, mas no grupo havia resistentes que diziam que a de Rialto, e que a Vecchio, ah, essas é que talicoisa! (uma pessoa mete-se com gente do Sul, e é isto, um dia destes ainda são capazes de afirmar que Atenas não foi descoberta pelos alemães...)






 ("aqui viveu Franz, o gato da ponte, de 1993 a 2010")
 


15 maio 2013

e agora fazíamos de conta que éramos estudantes da Bauhaus naqueles tempos tresloucados...



"A felicidade é fazer uma excursão", diz o Felicidário. Eles é que sabem, e nós fazemos:  no fim-de-semana passado houve excursão de portugueses a Weimar.

Gostei especialmente de andarmos a brincar à Bauhaus. Fomos para um dos ateliers do edifício histórico, e fizemos lanternas para o nosso cortejo nocturno, à semelhança do que aquele bando de malucos fazia, vai quase para 100 anos. Quase nos sentimos assim:




Mas a realidade foi um pouco mais prosaica:






O nosso guia bem tentou levar-nos longe, desenhando o candeeiro de Wagenfeld e a Haus am Horn para nos inspirar, mas aqui a artista resolveu fazer um lampião com pacotes de leite a imitar as casas de madeira do Lyonel Feininger, estas:


Depois houve jantarada à moda da Bauhaus em 1919:

("Salada de cebola: corta duas cebolas, e vários rabanetes em rodelas finas, e um nabo em palitos pequenos; junta duas colheres de amendoins moídos, algum óleo e sumo de limão; serve a salada em folhas de couve branca")


("Teig-Götter, no canto superior à direita: mistura uma chávena de farinha de trigo integral com algum sal e água fria, até teres uma massa com bastante consistência. Põe colheres dessa massa num tabuleiro quente e leva a assar rapidamente no forno. Se não tiveres forno, podes fazer numa frigideira de ferro, e é ainda mais fácil. Ao fim de algum tempo, vira o pão.")


Chouriço de sangue e paté da Turíngia - hmmmm.


Acrescentem isto ao Felicidário: a felicidade é uma mesa com enchidos da Turíngia, e alguns legumes frescos.

Depois do jantar partimos para a nossa aventura: atravessar o parque alumiados pelas nossas lanternas. As minhas casinhas do Feininger ficaram bem mais bonitas às escuras.


A felicidade é um bando de maduros a posar para uma fotografia, todos orgulhosos dos lampiões que fizeram. Uma festa.


***

Quando íamos a meio do parque - enorme, sem iluminação e deserto -, ouvimos ao longe vozes masculinas a cantar "Ich gehe mit meiner Laterne" (uma canção que os miúdos cantam nos cortejos do São Martinho, "eu vou com o meu lampião"). Não gostei nada do tom marcial e agressivo. Temi que fosse um bando de neonazis - que los hay, em regiões mais pobres los hay. Por sorte não aconteceu nada, e chegámos sãos e salvos (e um pouco molhados de chuva) à Haus am Horn.

Aos nossos colegas de 1919 aconteceu muito. Devido a mudanças políticas na Turíngia, a escola viu-se obrigada a mudar para Dessau já em 1924 e daí, devido à chegada dos nazis ao poder em 1931, foi para Berlim onde, apesar de se ter sujeitado a certos jogos de cintura menos honrosos, não conseguiu sobreviver. Em 1933 foi dissolvida - alunos e professores espalharam-se pelo mundo, salve-se quem puder.
Não havia lugar na Alemanha para um movimento "infiltrado por esquerdistas e judeus". Ao lado da Haus am Horn construíram imediatamente "casas como deve ser" - nada dessas coisas degeneradas. Mas nem assim conseguiram parar os ventos de mudança que a Bauhaus trouxera para o país.

to infinity, and beyond


Uma pessoa a pensar que isto já bateu no fundo, mas parece que não, parece que o Cavaco anda a preparar um doutoramento em estratigrafia, e tanto empenho põe nesta descida sucessiva de níveis que ainda vai escavar sozinho o caminho mais curto até à Austrália. Para logo a seguir, incansavelmente, continuar na mesma direcção, to infinity and beyond, cada vez mais longe do triste país que se lembrou de o eleger presidente.

(Para mim, residente na Alemanha e habituada a um controle apertado das sementes de ideias fascistóides, as escavações acabavam-se-lhe no dia em que chamou ao 10 de Junho "dia da raça". No próprio dia - nem sequer esperavam pelo dia seguinte. Mas somos um povo de brandos costumes, um povo que aguenta-aguenta. Aguentemos, pois.)

14 maio 2013

dia da mãe

No Schlossmuseum, em Weimar (colecção de arta sacra medieval iniciada, como não podia deixar de ser, por... um doce a quem adivinhar):





(Gosto muito deste S. Sebastião a espreitar por cima do ombro de Maria para ler o livro dela. Também não era preciso torturá-lo por causa disso, mas convenhamos que é feio e desagradável quando se põem assim a ler por cima do ombro dos outros.)


dizem que o passado é indispensável para ver melhor o presente...

...mas não sei se acredite.
Este fim-de-semana andei a fotografar o parque de Weimar através dos vidros dos edifícios barrocos, e o presente saiu-me muito distorcido.











Narciso é a tua tia, pá!

Para que conste, mais uma vez, que pode haver uma grande diferença entre a realidade e o que se vê.
(E também para lembrar que muitas vezes a culpa pode ser da tradutora - no caso: minha e assumidíssima, hehehe)

Nesta foto, o Fox não se estava a ver ao espelho e a citar pintores românticos. Estava à procura de paus para brincar.















E já que tomei o gosto à mistificação, cá vai mais uma:


It's a bird... it's a plane... it's Superfox!


(quando eu for grande e souber fotografar, as minhas fotografias não vão ter nem metade da piada...)

13 maio 2013

hei-de ir ver quem é o responsável pelo marketing deles, porque nunca se sabe, e se um dia precisar de um marketingueiro para mim, havia de ser este





Dear friends and fans,

We receive so much from the audience when on stage (applause, bras, eggs and tomatoes) that we decided to give something back today: knowledge. Very specific knowledge. German sausage knowledge. Because it's all about the Wurst (sausage, xiāngcháng, kiełbasa).

You might have encountered this problem: Frankfurter or Wiener? How to know which one to order? Easy. Just as German grammar. Follow the rules and memorize exceptions.

When in
Frankfurt, order Wiener.
When in
Vienna, order Frankfurter.

Now, let's turn towards exceptions: when in
Berlin, order Currywurst. When in Stuttgart, order Bratwurst. Actually, there's an exception to this exception: What you really should order in Stuttgart is Spätzle. Or a Mercedes.

... and that's about it. All you need to know. See? Easy. Follow the rules and memorize exceptions.


You wonder why we're telling you this? In preparation for your IGUDESMAN & JOO concert visit to FRANKFURT (May 26), BERLIN (June 5), VIENNA (June 9), and STUTTGART (June 25)! When in Rzeszow, Poland, you might not get a Wurst, but you will get a premiere: IGUDESMAN & JOO for the first time in Poland (May 24)!

See you there!

P.S.: Watch our latest YouTube video for a different version of how to settle upcoming Wurst issues. With special thanks to Chisayo Lewis for her hand-made crafty craft creation of Igudesman & Joo.

IGUDESMAN & JOO in Germany and Austria - May/June 2013
Click the links below for TICKETS or scroll down for more information

***

E tem mais:

In love with Hamburg:


A treinar para os concertos no Liechenstein e na Suíça:

Narciso


Esta manhã, no Lietzensee.

10 maio 2013

IKB 49






Ontem andei por aí a passear com um grupo de empresários franceses que trouxeram a sua própria especialista em arte moderna e contemporânea para lhes abrir os olhos na Neue Nationalgalerie. Ela é uma guia excepcional, tanto que eu estava capaz de pagar para a ouvir. Mas tenho sorte: quando ela vem a Berlim convida-me para fazer parte do grupo, e além de não me fazerem pagar, ainda me levam com eles para os excelentes restaurantes que frequentam.

Ontem, ela dividiu-nos em quatro pequenos grupos, para deixar cada um em frente a um quadro. O primeiro ficou num Picasso, o segundo num Warhol, o terceiro já gemeu bastante por lhe ter calhado um Rothko em vários vermelhos, e o último grupo, o meu, continuou a avançar com a guia em direcção ao seu destino. Quando começou a ser evidente o que nos calharia, eles desataram a implorar com vozes apavoradas: "Pas le bleu! Paaas le bleeeeuuuu!"
Ela foi implacável. Deixou-nos em frente a um quadro de Yves Klein, semelhante a esse aí em cima, e ordem para responder às seguintes perguntas:
- qual é o tema deste quadro?
- qual é o seu tom? (cínico, irónico, divertido, crítico, positivo, negativo, etc.)
- a que público se destina?

Hoje há mais, no Hamburger Bahnhof, o museu de arte contemporânea. Mal posso esperar.

***

- E então, Heleninha, qual é a resposta a essas perguntas?
- Ora, ora, deixem-me cá. Quer-me parecer que preciso de mais quatro ou cinco visitas guiadas ao mesmo quadro para começar a entender o seu profundo significado.

cognome: o pateta


(foto)

Voltaire, o Mata Hari versus Frederico, o pateta:

(texto original aqui, em alemão)

Voltaire visitou Berlim várias vezes entre 1740 e 1743. A sua estadia de Junho a Novembro de 1743, entre as duas guerras da Silésia, revestiu-se de especial importância. Em 1741 a questão da sucessão do trono dos Habsburgos opôs a França, a Espanha e a Prússia à Áustria, Grã-Bretanha e aos Países Baixos, e conduziu a um confronto armado que durou até 1748 - a guerra da sucessão austríaca. No entanto, no Verão de 1942, Frederico celebrou um acordo de paz separado com Maria Teresa, que lhe permitiu ganhar a Silésia, enquanto os aliados franceses suportavam pressões crescentes das tropas britânicas. A missão de Voltaire era averiguar quais eram as intenções de Frederico. Esperava-se que pudesse aproveitar a sua amizade com o imperador da Prússia para obter essas informações. Voltaire aceitou esse jogo, porque calculava que, se a sua missão fosse coroada de sucesso, ganharia o reconhecimento da corte francesa.

Aparentemente, Frederico ter-se-á dado conta disso, porque mandou espiar a correspondência de Voltaire, e usou os seus conhecimentos sobre as artimanhas dos franceses para o atrair com crescente firmeza. As suas ofertas de casa, pagamento e posto eram extremamente tentadoras. Mas um poema satírico sobre Luís XV, que ele próprio escreveu e mandou esconder num relatório de Voltaire, era de tal modo desajeitado, que em Versalhes se tornou evidente o que estava a acontecer em Berlim. Voltaire rejeitou os avanços de Frederico, e voltou para França.

cognome: o grande

(foto - site em inglês)

Frederico, o grande mandou fazer em Potsdam um palácio para encher o olho ao povo. Enfim, não seria propriamente para o povo-povo, mas estava aberto ao público e destinava-se a mostrar que o imperador da Prússia também sabia criar cenários como Versalhes. O caminho para os aposentos do rei passava propositadamente pelos inúmeros salões, fazendo os visitantes atravessar a sala com lustres de cristal de quartzo (a exposição Friederisiko, comemorando os 300 anos do imperador, tinha etiquetas com o preço das coisas, algo como "cada um destes pingentes custava o equivalente a um ano de trabalho de um agricultor"), apreciar os quadros famosos copiados dos museus de Dresden (para que conste que um verdadeiro imperador não espolia os conquistados - antes manda fazer cópia das obras famosas, para exibir no seu palácio a prova de que é magnânimo), admirar os finíssimos móveis franceses lado a lado com outros feitos por artesãos de Potsdam.

Tudo nesse palácio era criação de um personagem. A exposição explicava não apenas o uso do espaço como encenação de um poder e de um modo de estar no poder, mas inclusivamente alguns dos artifícios da criação de um mito, nomeadamente a multiplicação de telas com o retrato idealizado do imperador. Para que conste que os especialistas em criar uma imagem aos políticos já andam a acumular experiência há mais de três séculos. E já nessa altura faziam um excelente trabalho.

Para os mais curiosos: entrem neste site onde há fotografias da exposição. Verão as tais etiquetas junto a alguns objectos, os famosos lustres, alguns dos móveis plagiados, e a biblioteca do imperador - o tal que se correspondia com Voltaire, que pedia ao génio que o visitasse, convencido de que a presença deste faria de Berlim uma nova Atenas, e de si próprio um "roi philosophe". Naqueles tempos, era importante que os poderosos se tornassem filósofos, ou que os filósofos tivessem cátedra no poder. Naqueles tempos.

Na exposição, o que mais me impressionou foi a sala onde se expunham os móveis e relógios franceses, as cópias feitas pelos artesãos prussianos, e as peças resultantes de uma evolução do gosto e do saber destes. Reparei especialmente no júbilo de Frederico, o grande, exclamando que os seus artesãos eram capazes de fazer objectos tão bons ou ainda melhores que os comprados em Paris. Para o imperador, a importação de bens de luxo era apenas uma etapa de um programa mais vasto: formar artesãos capazes de competir em qualidade com os franceses, criar um novo sector de actividade mais moderno e de "alta tecnologia". Daí o imenso orgulho de Frederico, o grande, ao constatar que os móveis e relógios feitos pelos seus artesãos em nada ficavam a dever aos dos franceses.

Não pude deixar de comparar esta atitude à dos reis portugueses: usavam o dinheiro das Índias, das Áfricas e dos Brasis para comprar do melhor que havia em todo o mundo. E mais nada. De cada vez que Portugal se via inundado de dinheiro, as manufacturas nacionais entravam em crise porque o pessoal preferia o luxo ao que era nacional e ainda não tão bom.

Se um merece o cognome "o grande" (hoje seria "o japonês"...), outros que eu cá sei mereceriam ser chamados "o novo-rico", "o deslumbradinho", "o perdulário".

***

Muito agradecia que se multiplicassem os comentários do género "ó Helena, estás muito enganada" e "o nosso rei dom fulano usou o ouro do Brasil para criar oficinas reais para copiar isto e aquilo, e era só lá que se abastecia", etc.

08 maio 2013

um simpático alemão que por aí anda esteve a ler este blogue e diz que encontrou nele muito sexo


Para restaurar a moralidade, daqui para a frente só vou pôr fotografias de flores e árvores.
(Ele há gente com uma imaginação feérica, bailhamedeus)


 

 

Saul Bass

Hoje, o google homenageia Saul Bass desta forma:



(Não, até há cinco minutos não fazia a menor ideia de quem era o Saul Bass, apesar de conhecer tanto da sua obra. Viva o google, por estas e por outras, viva.)

07 maio 2013

meditação

Pequeno intervalinho nas conversas sérias.
Este filme demora mais de sete minutos, e vale muito a pena vê-lo devagar, como uma forma de meditação.
Para os que só têm tempo para uma meditação turbo, sugiro que vejam o princípio, um pouco do meio, e não percam o fim. Por esta ordem, hehehe.

Miyoko Shida:

a corrupção do sul


UM PONTO É TUDO

Está-nos no sangue, a corrupção

por FERREIRA FERNANDESHoje


Primo, mulher ou filho, a relação familiar pode variar, mas a etimologia de nepotismo é como a prova do algodão: a origem da palavra é "nipote", que em italiano quer dizer sobrinho. O nepotismo é de país do Sul, evidentemente. Cola-se-nos aos costumes, a todos PIGS - tugas, macarronis, coños e outros comedores de iogurte com pepino picado -, gente mediterrânica que começa a corrupção logo lá em casa. Sabem como termina a Carta de Pêro Vaz de Caminha ao Rei, depois do achamento do Brasil? A pedir um favor para o genro! E depois não queremos os alemães a dar-nos lições... Agora, mais uma região europeia do Sul, palco de nepotismo. Há 15 dias, o líder parlamentar de um partido do Governo demitiu-se do cargo, depois de se saber que empregava a mulher como sua secretária há 23 anos, com salário mensal de 5500 euros pago pelo Parlamento. Na semana passada, o presidente da comissão parlamentar de Finanças, do mesmo partido, também se demitiu: tinha há dez anos como assalariados, pagos pelo Parlamento, a mulher e os dois filhos. Estes, quando começaram a mamar dos dinheiros públicos, tinham 13 e 14 anos. Apesar de se terem demitido dos cargos de direção, os dois políticos continuam deputados. No Sul pode haver muito défice, mas não de falta de vergonha. Ah, já me esquecia, a região europeia de que falo é a Baviera, no Sul da Alemanha. E os deputados, Georg Schmid e Georg Winter, são da CSU, da coligação de Angela Merkel.

(aqui)



É revoltante.
Ferreira Fernandes fala do que não sabe para fazer uma gracinha que os papalvos portugueses paparão com gosto, mas só aumenta o fosso de desentendimento entre os dois países.
Já lá vou aos factos. Antes disso, dois apontamentos:

- É triste ver alguém a passar para a escala Portugal/Alemanha o mesmo jogo de autojustificação que em Portugal se faz e mina o país: "eles lá em cima são todos uns corruptos", diz a pessoa lá em baixo, e assim se justifica para ir roubando o Estado à medida das suas possibilidades, porque ela própria decidiu que essa é a ordem natural das coisas. Não estou a dizer que o Ferreira Fernandes rouba, estou a dizer que este jogo do "eles lá em cima não têm nada que nos dar lições sobre corrupção porque fazem o mesmo" é muito perigoso.

- A que propósito vem a referência à Angela Merkel na última frase? A chanceler pouco pode fazer no caso de Georg Schmid e Georg Winter - há muito que a Alemanha rejeita políticos à maneira do santinho de Santa Comba Dão.


Se o Ferreira Fernandes resistisse ao impulso de fazer gracinhas com o que não sabe, e se informasse melhor, em vez de aproveitar a própria ignorância neste assunto para escrever alarvidades que alimentam o ressentimento, veria que a grande diferença entre um sul e o outro é que no sul alemão:

- O escândalo começou com um livro ("Como os políticos bávaros saqueiam o Estado") que saiu em meados de Abril (deste ano). Na mesma semana o Parlamento publicou uma lista de deputados que empregavam cônjuges, filhos, pais ou irmãos (17 em 187). No dia seguinte, 20 de Abril, lê-se num jornal que não há nada de ilegal nesse procedimento (a proibição de contratos com familiares de primeiro grau só vigora em contratos a partir de 2000) mas Seehofer - aparentemente apanhado de surpresa - imediatamente aconselhou todos a despedirem o mais depressa possível os familiares que estiverem nesta situação.

- Se há palavra de ordem que se repete de momento na comunicação social, a propósito deste escândalo, é "exige-se transparência". É dita pelos políticos com os cargos mais altos, Seehofer à frente.

- Duas semanas depois de se ter descoberto o escândalo já é bastante provável que a carreira política dos dois deputados mencionados por Ferreira Fernandes tenha acabado.
O caso Georg Schmid: o Merkur-Online informava em notícia de 29.04 que é muito provável que Georg Schmid perca o seu mandato, porque apesar de ter pedido desculpa a pressão do seu círculo eleitoral é muito grande. A 1 de Maio já se noticiava que ele não se recandidatará a um lugar no Parlamento. Além disso, o Ministério Público pediu que lhe seja levantada a imunidade parlamentar, porque parece que cometeu ilegalidades no contrato de trabalho da sua mulher. Provavelmente nos próximos dias deixará de ser deputado.
O caso Georg Winter: no seu site como deputado da Baviera esclarece que tem um parecer jurídico afirmando que não houve nada de ilegal nos minijobs dos seus filhos adolescentes; que o Parlamento tem outra opinião, pelo que a questão ainda está em aberto; que já devolveu todo o dinheiro pago aos seus filhos; e pede desculpa pela falta de sensibilidade com que agiu. Ontem, o Süddeutsche Zeitung noticiava que está a ser investigada a ilegalidade do emprego de menores naquele tipo de trabalho, e que aumenta a pressão para que ele deixe o lugar de deputado. Se bem conheço a Alemanha, até ao fim desta semana já terá saído.

- A presidente do Parlamento Bávaro está a pressionar para que a questão do emprego de familiares seja esclarecida o mais depressa possível, e que as leis sejam mudadas imediatamente para não haver qualquer possibilidade de se repetir casos destes. Também quer que ainda antes do fim da legislatura se mudem as regras desse Parlamento regional, para que passe a haver mais transparência na realização dos contratos, à semelhança do que acontece no Parlamento Federal. Faço aqui um desenho para o Ferreira Fernandes: a presidente desse Parlamento do Sul da Alemanha quer copiar o que a Alemanha Federal já faz, e quer fazê-lo quanto antes.

- O Parlamento está a fazer um levantamento exaustivo de todos os contratos de trabalho desde 2000 - altura em que se proibiu a contratação de familiares próximos.

- Já está a ser preparada uma lei que proíbe a contratação de irmãos dos políticos (para cônjuges e filhos já é proibido nos contratos celebrados depois de 2000).

- Os políticos já assumiram os erros cometidos e pediram desculpa publicamente; o livro falava dos políticos da CSU, mas os outros partidos também estão a passar a situação dos seus deputados a pente fino; uma política dos Verdes, envolvida num caso semelhante, já veio reconhecer em público que foi um erro, e que nem tudo o que é permitido legalmente é correcto do ponto de vista político.

É este o ponto da situação. Lembro que o escândalo rebentou há menos de três semanas, que de um modo geral não se trata de uma ilegalidade mas de um comportamento que levanta suspeitas de nepotismo, e que o Ministério Público já anda no encalço dos deputados que cometeram ilegalidades.

Perante estes factos, o Ferreira Fernandes quer concluir que afinal os bávaros são tão corruptos como os portugueses. E que era o que faltava a Alemanha pensar que podia dar lições a Portugal. Por acaso nesse ponto tem razão: um povo que gosta de papar crónicas como estas não recebe lições de ninguém, prefere persistir nos mesmos erros, e errar cada vez melhor.

***

Finalmente: as pessoas saberão o que andam a fazer? Alguém já pensou como é que os alemães reagiriam se este artigo fosse traduzido e publicado na Alemanha?
Nem estou a falar de ser necessário construir e manter as pontes entre os países, estou a falar de um fenómeno tão simples como este: o destino turístico "Portugal" é apenas uma página nos catálogos de férias alemães. Filmes como o do Marcelo Rebelo de Sousa e textos como este do Ferreira Fernandes fazem com que os alemães sintam que não são bem-vindos no nosso país. Vira a página, marca férias na Turquia, na Hungria, na Croácia.
(Ai, a liberdade de expressão, e tal. Pois. Neste caso convinha usá-la combinada com informações sólidas - em vez de abusar dela para atirar óleo para o fogo. Porque se é para nos queimarmos, que seja pela verdade.)

06 maio 2013

perdão?


Neste filme, o que mais me impressionou não foi o modo como uma comunidade transforma um acusado em acossado. Os riscos de uma acusação deste tipo não são novidade para ninguém, nem o é o potencial de destruição que podem ter educadores de infância (por exemplo) predispostos a imaginar o pior. Não esqueço uma reportagem, que li há anos, sobre famílias destruídas devido a meia dúzia de palavras que a criança largou no infantário. Depois do pai preso, do divórcio, dos meses sem poder ver os filhos, e de se chegar afinal à conclusão que a acusação não tinha razão de ser, um triste dano colateral: a criança passa a questionar todos os gestos de ternura do pai - "tu não podes fazer isso!"
A inocência infantil destruída pelo próprio esforço de a tentar proteger.
(E contudo: fazer o quê? Como ignorar o que pode ser um pedido de ajuda velado, quando sabemos que as crianças raramente ousam mais que o silêncio quando são alvo de abuso sexual?)

Em todo o caso: não foi isso que mais me impressionou, embora esteja muito bem construído. O que mais me impressionou, melhor dizendo: incomodou, foi a capacidade de perdão que existe neste filme.

Não digo mais, para não revelar o que não devo. Apenas isto: como é possível perdoar actos tão graves? Como é possível recuperar a confiança em alguém que se comportou daquele modo?

autoridade e crescimento

Post roubado por inteiro ao blog Tribo de Jacob:




Autoridade e crescimento

Autoridade vem de augere, que quer dizer fazer crescer. Ter autoridade não é ser uma pessoa repressora. A repressão é uma deformação da autoridade que, no seu correto exercício, implica criar um espaço para que a pessoa possa crescer. Alguém com autoridade é alguém capaz de criar um espaço de crescimento.

Jorge Bergoglio no livro-entrevista de Francesca Ambrogetti e Sergio Rubin, "Papa Francisco, Conversas com Jorge Bergoglio", Paulinas, pág, 68

***

Fiquei na dúvida: ele está a falar do governo português, dos pais que acham que dar lambadas nas criancinhas é uma boa maneira de as preparar para a vida, ou de quê?

05 maio 2013

“how many jobs must be done to dance”


Ontem o Joachim desafiou-me para irmos a uma performance em Kreuzberg. Da última vez que aceitei um desafio desses acabei num prédio meio em ruínas nos confins de Prenzlauer Berg, numa sala com cobertores por todo o chão e homens seminus embrulhados em panos brancos a fazer massagens ao público. Nada más, as massagens. Depois mulheres ainda mais seminuas, e sem panos brancos, começaram a contar histórias bizarras da vida delas. Eu é que não as conto aqui, porque pode ser que este blogue seja lido por menores. Ontem estava cansada e cheia de trabalho urgente para fazer e com pouca vontade de dar outra vez com uma sala cheia de sabe-se lá o quê no chão e sabe-se lá que massagens e sabe-se lá que histórias, mas lembrei-me de todas as vezes que o Joachim aceita os desafios que lhe faço, tantos concertos a que ele já foi apesar de estar cansado e ter imenso trabalho, e pensei que temos de ser uns para os outros, e fui.

Ainda bem: foi um dos espectáculos mais memoráveis que vi recentemente (tirando os concertos, claro).

Era o Jobs. Beta 1.0, do Grupo Oito, com coreografia do Ricardo de Paula, que eles apresentam assim:

Jobs is the first Beta version of a meeting of individuals, bodies who have the affinity of movement and who gather through the “Get Physical Process”, to then answer the question: “how many jobs must be done to dance”.
Dance is the main reason.
Dance is work.
Is dance sustainable?

Performer:
Ana Jordão, Caroline Alves, Katalin Szücs, Laura Alonso, Miro Wallner, Natalie Riedelsheimer, Olga Ramirez Oferil, Ricardo de Paula, Roberto de Bueno Aires, Zé de Paiva



Vi-o como uma chamada de atenção para o sentido do que fazemos: a diferença entre trabalhar e ganhar dinheiro, entre viver e consumir ("fazemos coisas que odiamos para comprar coisas de que não precisamos"). Um tema muito bem tratado, muito bem dançado, com boa música e vídeos pertinentes. Um prazer enorme para os olhos e a inteligência. Vou estar mais atenta a este Grupo Oito.

04 maio 2013

"precisamos de um sistema monetário europeu"

(Mais uma tradução do Speedy Gonzalez - nomeadamente, na parte em que traduzi "reale Aufwertung" e "reale Abwärtung" por aumento e redução do valor real: não tenho a certeza que seja este o vocabulário usado por economistas. Mas hoje é sábado, e o sol fantástico mesmo aqui ao lado no beiral da janela desperta o Speedy Gonzalez que há em mim.)  


Terça-feira, 30 de Abril de 2013

PRECISAMOS DE UM SISTEMA MONETÁRIO EUROPEU


A pressão sobre a política europeia da chanceler alemã tem vindo a crescer. Depois de Barroso, o presidente da Comissão Europeia, foi a vez de Enrico Letta - o político que o presidente italiano Napolitano escolheu para formar governo - rejeitar a política de austeridade de Merkel, porque conduz ao desastre. Há muito que os políticos europeus não sabem como resolver o problema. A situação económica piora de mês para mês, e o nível de desemprego atinge proporções tais que começa a pôr em causa as estruturas democráticas. 

Os alemães ainda não se deram conta de que, mais tarde ou mais cedo, a miséria económica levará os europeus do Sul, incluindo os franceses, a defender-se da hegemonia alemã. Em particular o dumping salarial alemão, que constituiu desde o início da união monetária uma violação do espírito dos tratados, provoca problemas. Merkel despertará do seu sono self-righteous quando os países europeus que estão a passar dificuldades devido ao dumping salarial alemão se unirem, para forçar uma viragem na crise que seja feita à custa da economia de exportação alemã. 

A moeda única teria podido durar se os Estados envolvidos tivessem políticas salariais concertadas, baseadas na produtividade. Por acreditar que esta coordenação salarial seria possível, nos anos 90 pronunciei-me a favor do Euro. Mas as instituições de coordenação, em especial o diálogo macroeconómico, foram minadas pelos governantes. Fomos enganados pela esperança de que a introdução do Euro exigiria lucidez económica a todas as partes envolvidas. Presentemente, o sistema saiu dos eixos. Segundo Hans-Werner Sinn (em texto recente no Handelsblatt), para tentar recuperar uma competitividade aproximadamente equilibrada, os países como a Grécia, Portugal ou a Espanha teriam de se tornar entre 20% e 30% mais baratos que a média europeia, e a Alemanha 20% mais cara.  

Contudo, os anos mais recentes têm mostrado que não é possível levar a cabo tal política. Um aumento de valor real por meio do aumento dos salários, como seria necessário na Alemanha, seria inviabilizado pelas associações de empresários alemães e pelo bloco neoliberal de partidos que lhe obedecem (CDU/CSU, SPD, FDP e Verdes). No Sul da Europa, e até na França, uma redução do valor real por meio da redução dos salários, feito à custa de cortes nos rendimentos num valor entre os 20% e os 30%, conduz à catástrofe - como já estamos a ver na Espanha, na Grécia e em Portugal. 

Se não é possível aumentar ou reduzir o valor real por este modo, então será necessário desistir da moeda única e regressar a um sistema que, tal como o que antecedeu a união monetária, permita valorizações e desvalorizações. Trata-se, essencialmente, de tornar possível a valorização e a desvalorização de modo controlado, no quadro de um regime de câmbio definido pela UE. Numa primeira fase será ainda inevitável proceder ao controle dos movimentos de capitais, para regular os fluxos de capital. A Europa já deu este primeiro passo no Chipre. 

Na fase de transição teremos de ajudar os países a manter a sua moeda, que com certeza perderá valor. A intervenção do BCE permitirá evitar uma queda abrupta.

Uma condição indispensável para o bom funcionamento de um sistema monetário europeu é a reorganização do sector financeiro à imagem das Caixas de Poupança, e a sua severa regulação. É preciso acabar com os "casinos".

A passagem para este sistema, que permite valorizações e desvalorizações controladas, devia ser feita em etapas. Na Grécia e no Chipre podia ter-se começado. Neste processo, temos de ter em conta a experiência já adquirida no âmbito da serpente monetária europeia, bem como do sistema monetário europeu.

03 maio 2013

poderes especiais





Ontem, por volta das cinco da tarde, combinámos cá em casa que em meados de Maio passaremos alguns dias em Amesterdão. Menos de meia dúzia de horas depois o Benfica vencia ao não sei quê, e chegava à final em Amesterdão, em meados de Maio.

Nós temos poderes, é o que vos digo.

E, simpáticos como somos, até os pomos à disposição de quem precisar: da próxima vez que uma equipa portuguesa estiver numa semifinal, os seus fãs fazem uma vaquinha para nós irmos passar uns dias na cidade onde é a final, e essa equipa ganha. Estamos disponíveis para ir a qualquer país que seja preciso.
Para que conste que nós

Os poderosos


só para vermos os portugueses felizes não olhamos a sacrifícios.

(Andei a procurar fotos nos nossos arquivos de Amesterdão, e não encontrei nenhuma de jeito para pôr aqui. Isto de só fotografar o que é estranho - lojas chinesas em prédios do séc. XVI, ou sex shops, mas estas fotos ainda por cima estão tremidas porque era bater e fugir - ou o que nos é especial mas não interessa nada neste blogue - os miúdos a fazer palhaçadas nos restaurantes dos museus - chega-se ao fim e é isto: não se arranja uma imagem que calhe bem para ilustrar o post)

02 maio 2013

Yuja Wang

Vem a Berlim no dia 13 de Maio.
A minha Nossa Senhora que me perdoe, mas se ela trouxer este vestido vermelho agarrem-me que ainda me dá para começar a repensar a minha orientação sexual...



(o show começa a 2:45)

airline safety rules

Há anos que deixei de ouvir o que os assistentes de voo dizem antes de o avião descolar. Vejo onde é o próximo EXIT e já está. Mas da próxima vou reparar, porque parece que entretanto as coisas mudaram radicalmente, e tenho de me pôr a par do state of the art.

(roubado com toda a desfaçatez de "where's my sammich")

Airline Safety Rules


Airline Safety Rules

eh, lá! alguém se zangou muito com o adolescente lá de casa...


01 maio 2013

e assim como quem não quer a coisa, dou comigo a pensar que preferia o Willem-Alexander ao Cavaco...


A Democracia funda-se na confiança mútua. Confiança dos cidadãos no Estado. Um Estado assente no Direito e na Lei, e que oferece perspectivas. Mas também confiança do Estado nos seus cidadãos. Cidadãos que conhecem a sua própria responsabilidade na contribuição para o interesse comum, e que se oferecem mutuamente apoio. Todos os detentores de cargos públicos, sejam eles eleitos ou nomeados, devem cumprir a sua parte para garantir esta confiança. Só assim se mantém a Democracia. 
(aqui, em alemão)  

Isto está mau. Se uma frase tão trivial já desperta em mim a cobiça pela galinha da vizinha, isto está mau. 

Etchmiadzin



Disseram-nos que era o "Vaticano da Arménia", e fomos ver: no dia 24 de Abril, na celebração com o Catholicos, em memória das vítimas do genocídio arménio.

Durante a cerimónia lembrei-me muito do que um amigo nosso, búlgaro, diz dos católicos: que não temos ritos, que as nossas missas são muito secas. São, sim - comparado com o que lá vi, são muito secas. Várias vezes as pessoas tocaram o chão com os dedos antes de se benzerem; o coro não se limitava a cantar maravilhosamente, também vivia da encenação; vi um homem que passava as costas dos dedos nos quadros com imagens religiosas e os beijava, para depois se benzer; algumas pessoas quase se deitavam sobre um rico exemplar da bíblia, para o beijar devotamente; ou um cortejo a meio da celebração, levando a cruz para ser beijada pelas pessoas.
(Vejo agora, ao escrever, que estas celebrações são muito beijoqueiras)

Também me lembrei muitas vezes da figura que fiz ao ver o jogo Bolívia-Argentina, e de nem me dar conta do que estava a acontecer no campo. É muito triste ser ignorante: bem tentava ver tudo, mas arranjei de estar sempre no lugar errado - se eles fechavam a cortina no altar (sim, fecharam duas vezes, correndo cortinas diferentes - soube depois que há momentos, como a consagração, por exemplo, que o povo não deve ver, e por isso acontecem à cortina fechada) eu estava fora da igreja; se faziam uma procissão à volta de um altar central, eu estava a olhar para o coro; se olhava para o Catholicos no altar, era afinal no coro que estava a acontecer o momento mais forte. Mais ainda: quem era o Catholicos? Pensava eu que era o de mitra à maneira dos bispos católicos, mas no final as pessoas iam era beijar a mão do discretinho que estava vestido de preto. Um googleanço rápido esclareceu-me todas as dúvidas, menos esta: como será que o Marco Pólo se desenrascou na China, sem acesso à internet?

Fiz algumas fotografias. E mais uma vez me dei conta da delicadeza deste povo: em plena celebração, chegavam-se para o lado para eu ter espaço para fotografar. Fosse na Alemanha, e corriam comigo para fora da igreja.





Bispo Artak Tigranian

Catholicos Karekin II



A homilia (será que se chama homilia?) do bispo Artak Tigranian reforçava o que aprendi durante essa semana: os arménios não se rendem. No meio do maior horror, não se entregam ao desalento.
Our history of black pages, tragedies, havoc and destruction, captivity and exile, migration and massacre have never burdened us with the shadow of the death, as we have managed to keep our spirits light and radiant with optimistic visions, as we were and will be a nation devoted to life and light. (aqui)

keep up the good work

Mesmo a propósito do 1º de Maio: um filme contra a "religião do trabalho".




For the modern human being work means more than just making a living: work is self-affirmation and a social link. For some it’s like an addiction and just as important as oxygen. It even gives answers to the former religious questions of human existence: Who amI? What is the meaning of my life? And what am I leaving behind after death?
Answer: Work and the success of it!
This satirical and essayistic docu-fiction undertakes a journey to the roots of our religion called ‘work'. Where are the beginnings of this undisputed faith and belief? Why is it so difficult for us nowadays to leave this ‘road’? And who are the gate keepers and profiteurs of this deep belief in work?!
This cinematic journey wants to show new perspectives, visions and alternatives for the working society here and worldwide. So KEEP UP THE GOOD WORK is an essayistic, philosophical and also investigative film about work, its history and its myth. (daqui)



Os vídeos são em alemão. E eu, muito no espírito do filme, hoje não me dou ao trabalho de os traduzir.





(Está bem, está bem, traduzo bocadinhos: um realizador de Colónia fez um documentário a propor que se trabalhe menos. Quer acabar com a moral do trabalho - ou diminui-la, pelo menos. A nossa sociedade é a mais produtiva de sempre, mas as pessoas estão esgotadas como nunca. Parece que o Martinho Lutero tem alguma culpa no cartório: reduziu os feriados de 156 para 2 (nota da tradutora, que não consigo evitar, hehehe: se estão bem lembrados, a Angela Merkel é protestante).
Esta "religião do trabalho" está intimamente ligada ao capitalismo.
O teste do leito da morte: quem é que, ao morrer, pensa "devia ter ficado mais tempo no escritório"? Ninguém!
Etc.)