De Rurrenabaque até Santa Rosa foram três longas horas num jipe por uma coisa lamacenta à qual não sei se posso chamar estrada. Num estado tão miserável que chegámos a ver um condutor de camião metido na lama até à barriga, tentando encontrar o sítio menos profundo para passar com o seu camião.
Mais à frente veríamos um camião atolado, e vários outros parados à espera, enquanto os seus condutores bebiam pacientemente mate.
Foi uma viagem muito desconfortável, mas nós íamos como quem vai para a romaria, todos alegres e cheios de expectativas, e pelo menos não íamos sentados de lado, como os turistas noutros jipes que vimos (sim, pior é sempre possível - e saber isso, às vezes, até nos consola).
Passávamos por pequenas aldeias de casas com telhado de folha de palmeira. Volta e meia tínhamos de parar para pagar portagem. Pensei-me na Idade Média.
Almoçámos em Santa Rosa e depois entrámos - com malas, mochilas, comida, bebida e garrafas de gás - numa canoa comprida, que nos levaria às nossas cabanas lacustres, numa viagem de duas horas no rio Yacuma.
O dia chegava ao fim.
O nosso guia meteu o barco por um canal estreito aberto entre a vegetação que nascia da água, e anunciou: "vamos ver o pôr-do-sol no reino da anaconda!"
Como não consigo escolher entre estas duas fotografias, cá vão ambas:
Ficámos por ali a ver, a tirar fotografias e a conversar. Um entardecer doce, não tão espectacular como o nascer do sol que veríamos dois dias mais tarde. A anaconda deixou-se ficar onde estava, por sorte não houve comissão de recepção nem nada. Ufff.
Depois continuámos caminho. Ainda parámos para ver um casal de gabirus - o macho estava a chocar os ovos, a fêmea ia buscar comida. O guia explicou que mais tarde, quando os gabiruzinhos saem do ovo, trocam papéis: o pai vai buscar a comida e a fêmea fica a tomar conta dos filhos. Os pinguins imperador também dividem o trabalho da reprodução equitativamente. Se até as aves - consta que não têm um cérebro muito desenvolvido - podem, porque é que nós complicamos tanto?
Mais à frente parámos de novo para ver uma enorme família de macaquinhos. O Einar atraiu alguns deles com bananas, e fê-los passear nas nossas costas.
A seguir, tirou cervejas frescas de uma caixa térmica e distribuiu por todos. Antes de começar a beber, vertemos um pouco da sua cerveja no rio, "para a Pachamama": devolver à deusa mãe-terra um pouco daquilo que dela recebemos. É um símbolo bonito, mas não podemos repetir em casa: o tapete da nossa sala ia ficar bonito...
No dia seguinte saímos em busca da anaconda. Parte da viagem em barco, por entre margens de estranha vegetação: incansáveis heras cobriam todos os arbustos e árvores, criando esculturas verdes de contornos arredondados.
Parte da viagem em barco, e parte dela a pé, pelo meio da selva alagada. Tínhamos galochas cheias de buracos. "Não se preocupem com os buracos, as galochas não são para proteger da água, mas das cobras", disse o Einar. Ah, bom, fiquei logo muito mais descansada.
O rapaz inglês do nosso grupo, que andava a dar a volta ao mundo e já tinha feito a Ásia, não encontrou galochas para o tamanho dos pés dele. Em vez de ficar no barco, foi descalço. Descalço, com água lamacenta até aos joelhos, sem saber onde punha os pés. Disse todo descontraído que fizera o mesmo na Ásia, sem problemas. "Será que os pais sabem o que os filhos deles andam a fazer por esse mundo fora?", perguntei eu. "Se soubesses o que eu já fiz...", respondeu a Christina - e eu fiquei outra vez descansadíssima. O Joachim meteu-a logo na ordem: "da próxima vez, Christina, antes de fazeres uma coisa perigosa telefonas à mãe a pedir autorização". "Sim, pai, com certeza, sempre", foi a resposta. O Matthias riu-se.
E se eu os leiloasse todos?
A primeira paragem foi numa clareira apertada, onde o Einar tinha descoberto um bicho da preguiça. Como é possível descobrir um bicho da preguiça àquela distância? Com as nossas máquinas no máximo do zoom, o mais que conseguimos apanhar foi as suas garras.
O Einar estava todo orgulhoso. Sorria, dizia "isto é que são uns olhos de águia!"
Mais tarde, resolvi brincar com ele. Disse-lhe que o bicho da preguiça só anda dez centímetros por ano, pelo que basta decorar em que árvore está e daí para a frente não custa nada. Ficou em estado de choque. Moral da história: não tentes gracejar com um índio do Amazonas, por muitas piadas que ele próprio faça, Heleninha.
O bicho da preguiça desapareceu, e o Einar também. Nós continuámos com o grupo do Feisar, que ia abrindo caminho com uma catana. Mostrou-nos um papa-formigas a dormir no tronco de uma árvore - e eu, que tinha calças claras, não cheguei a ajoelhar-me na lama o suficiente para ver o bicho, mas fiz de conta que tinha visto, até disse "wow" e "ooooh" e "tão giro!". Vimos alguns pássaros e macacos, mas cobra nenhuma. E muito menos a anaconda. O Einar voltou passado algum tempo, todo desconsolado por não a ter conseguido encontrar.
Voltei para o barco com o coração muito apertado de desapontamento, até me apetecia cantar.
Uma última fotografia: de uma inglesa do outro grupo que andava por lá, lindamente arranjada, até parecia que estava a fazer um filme. Só não percebi porque é que o nosso destemido inglês mudou de barco e grupo depois dessa aventura.