20 abril 2013

Messi, mais para lá que para cá




Uma das surpresas que a Christina preparou para a nossa viagem foi um jogo de qualificação para o campeonato mundial de futebol. Um Bolívia-Argentina, que é como quem diz: Messi!
Aconteceu em La Paz, num estádio a 3.637 m de altitude, que é como quem diz: coitadinho do Messi!

Fomos buscar os bilhetes a uma agência de viagens, e a senhora perguntou-nos se tínhamos equipamento a preceito. Claro que sim!, respondemos, e exibimos todos satisfeitos as t-shirts da equipa boliviana que a Christina nos dera. Ela insistiu que tínhamos de as vestir logo ali, ensinou-nos a dizer bo-bo-bo  li-li-li  via-via-via  viva-Bolivia!, fez fotografias da nossa figura e fartou-se de rir.

Saímos já todos equipados, e tentámos aproveitar as poucas horas que tínhamos, antes de começar o jogo, para ir conhecer a cidade. As pessoas que passavam por nós riam-se muito, espetavam o polegar para cima, diziam "viva Bolivia!" - nós sorríamos.



A igreja de São Francisco estava a fechar para o intervalo do almoço, mas o guarda olhou para nós e perguntou "é mesmo só para entrar e sair, não é?"
"É! é!", respondemos nós, e entrámos todos satisfeitos, mas vimos a igreja tão a correr que nem me lembro de nada para contar.
Felizmente a fachada da igreja não fecha para almoço. Fascinante: feita por pedreiros indígenas, mistura ao barroco dos espanhóis vários símbolos que nada têm a ver com a cultura europeia. Bela confusão vai por ali!



Subimos devagarinho pela Calle Sanjinés, e numa esquina encantei-me por uma casa com varandas de madeira que me fizeram parar, de tão belas. A família protestou: "despacha-te, que temos pouco tempo e queremos ver o Museu Nacional de Etnografia e Folclore!" Fiz umas fotografias rápidas, e continuámos a subir.



Duas esquinas acima demo-nos conta de que o museu que queríamos ver era a casa com as belas varandas. Voltámos para trás, e uns 30 m de altitude mais abaixo (La Paz é assim) descobri que me tinha esquecido de reparar na fachada da Igreja Santo Domingo e nos seus pumas a decorar as colunas. Logo ali tirámos a conclusão: La Paz precisa de muito mais que um par de horas. É para ser vista e saboreada com calma. Infelizmente, nós não tínhamos tanto tempo disponível.

Melhor dizendo: não tínhamos tempo nenhum! O museu fechava daí a vinte minutos. A senhora da caixa telefonou à chefe, pedindo autorização para nos deixar entrar de graça. O Joachim comentou "quem é que na Alemanha faria uma coisa destas?", mas eu por essa altura já desconfiava que uma família de gringos vestidos com as t-shirts verdes da selecção boliviana era o segredo do sucesso.
O museu fica num edifício colonial muito bonito, e tem uma enorme colecção de máscaras tradicionais. Também explica muito bem a evolução das culturas e dos modos de vida nas várias regiões da Bolívia. Precisa de muito mais que uma hora para ser bem visto - e nós vimos tudo a correr em meia hora. Um empregado veio chamar-nos a atenção para o atraso, com toda a delicadeza e simpatia. Talvez fosse boa ideia mandar alguns guardas de museus alemães fazer um pequeno estágio em La Paz. É que com simpatia consegue-se o mesmo efeito, mas todos continuam bem-dispostos.










Faltavam ainda duas horas e meia para o início do jogo. Queríamos muito ir à Calle Andes comprar uma máscara semelhante às que mostravam no museu, mas primeiro era preciso ir ao banco fazer uma transferência. Nunca vi: sem contar o tempo de espera na fila, fazer uma transferência demorou uma hora. De modo que não houve nem máscaras nem almoço - compramos empanadas de galinha na rua, e corremos para o estádio.


Eu e futebol é mais ou menos como daquela vez que passaram um filme ocidental numa aldeia indígena da Amazónia, e as pessoas dessa comunidade viam coisas completamente diferentes daquelas em que os ocidentais costumam reparar. Perdi o único golo marcado pela Argentina porque estava nesse momento a olhar para o Matthias e a sugerir-lhe não sei quê para proteger a cabeça do sol. O Joachim contou depois que o Di María precisou de máscara de oxigénio, mas eu não vi nada. Quando não olhava para o sol na cabeça do Matthias, e o gelado com um ar muito estranho na sua mão (cinco dias depois ainda andava cheio de dores de barriga) estava a olhar para o nº 10, ansiosa por ver o Fenómeno em acção.
O Fenómeno, contudo, espetava a cabeça entre os joelhos e deixava-se estar. Às vezes corria um pouco, chegou mesmo a tentar meter um golo - contei quatro vezes. Fintava quatro adversários ao mesmo tempo, passava por eles como Jesus passou por Maria, chegava à baliza e então pousava a bola no colo do guarda-redes (o Joachim diz que não era bem assim, mas a mim foi o que me pareceu). O guarda-redes metia a bola debaixo do sovaco e vinha dar umas palmadinhas amigáveis nas costas do Messi, como os pais americanos que dizem "good job" aos filhos só por eles terem tentado.
Gostei muito de ver aquele fair play entre adversários. Mas algo me diz que se o Messi estivesse a jogar três quilómetros mais abaixo, o guarda-redes boliviano não seria tão amoroso com ele.
Se ficar mais um bocadinho neste tema ainda invento uma teoria de correlação entre altitude e atitude. O melhor é andar para a frente.
O guarda-redes era chileno. Chamava-se Hijo de Puta, e saía do campo protegido por uma muralha de polícias de choque. Corajoso, o homem - atrever-se a assumir aquele papel poucos dias depois do Dia do Mar, o dia em que se lembra que o Chile roubou o mar à Bolívia (parece que os apanharam a festejar o Carnaval, e zimbas, passa para cá este bocadinho de país, e os bolivianos pensaram que seria gracinha de Entrudo, e quando foram para reagir já era tarde).
No final foi 1-1, muito melhor que da outra vez, quando a Bolívia deu 6-1 à Argentina. Mas ainda não foi desta que o Messi conseguiu marcar um golo àquela altitude.





Depois do jogo foi uma enorme confusão para arranjar um táxi que nos levasse para o outro lado da cidade (eles diziam que não tinham autorização para ir tão longe, mas o que nos pareceu foi que era mais um problema de vontade). Finalmente encontrámos um simpático que disse que sim, que não havia problema nenhum, e de caminho ainda nos levou ao miradouro Killi Killi. O caminho para lá foi assustador, porque o motor do carro tinha pouca potência e as ruas são do mais íngreme que se possa imaginar. O condutor subia aquelas rampas intermináveis às curvas (imaginem a Lombard Street de San Francisco, mas sem flores, e a subir) e numa das vezes chegou a descer em marcha atrás para ganhar lanço, subir a rua, fazer uma curva apertada e entrar noutra rua ainda mais íngreme. Mas valeu a pena: chegámos a uma plataforma sobre a cidade iluminada para a noite, e sobre ela uma gloriosa lua cheia.
La Paz tem uma diferença de 1000 m de altitude entre o ponto mais alto e o mais baixo da cidade. O altiplano, a 4000 m, termina abruptamente nas encostas de um enorme caldeirão, e por aí se despencam cascatas de casas simples, em tijolo sem reboco, que preenchem a paisagem numa uniformidade harmoniosa - e surpreendente: como é que eles fazem para segurar as casas àquela lage inclinada?




O dia terminou com mais uma corrida pela rua das feiticeiras, mesmo ao lado do nosso hotel. O Joachim queria comprar um chapéu de cholita, a Christina procurava imagens da Pachamama para enviar às amigas alemãs, eu entretive-me a ver pós para tudo (havia um que punha a mulher a mandar no homem, mas o Joachim não me deixou comprar) e um vinho Oporto para oferecer à Pachamama (não sei se ela apreciaria aquele vinho Oporto...) e o Matthias protestava porque não lhe apetecia ir jantar à peña onde tínhamos reservado mesa. 






O meu guia dizia que do mesmo modo que no Rio se vai à Lapa ver samba, em La Paz se vai a uma peña. Devia ter-me lembrado que eu na Lapa vou ver chorinho, e que o samba é na Mangueira - e que portanto aquela peña só podia correr mal. Era um lugar para turistas, e para nosso azar havia apenas mais uma mesa ocupada. De modo que todo o show das danças era para nós e as duas asiáticas da mesa ao lado. No fim de cada dança eles queriam dançar connosco, o Joachim não sabia como dizer que não, lá ia saltitar para o palco, ainda com a sua t-shirt da equipa nacional boliviana, e daí a nada regressava com cara de Messi ao chegar à baliza: mais para lá que para cá.

Mas comemos bife de lama - parecia borracha. Dias mais tarde, junto às ruínas de Tiahuanaco, comeríamos carne de lama, tenra e deliciosa, chegando à conclusão que provavelmente o primeiro bicho tinha levado uma vida muito stressada. Lama da cidade, lama do campo.

Saímos do restaurante antes do fim do show, deixando as duas asiáticas sem ter quem as revezasse quando os dançarinos faziam questão de vir buscar o público para ir fazer tristes figuras no palco.
Voltámos para o hotel pelas ruas tranquilas do centro antigo.



Daí a meia dúzia de horas partíamos para Rurrenabaque.

18 abril 2013

algumas reacções à proposta do Soros sobre a Alemanha aceitar eurobonds ou então sair do euro

Recentemente falou-se muito em Portugal sobre a proposta do George Soros para salvar o euro: ou a Alemanha aceita eurobonds, ou então sai do euro.
Na Alemanha não se falou tanto como em Portugal, mas houve mesmo assim algumas reacções. Das que vi, passo aqui uma síntese. Dou-me ao trabalho de traduzir isto para mostrar um reverso da medalha (nomeadamente a desconfiança em relação a aceitar juros iguais para todos sem poder controlar a taxa de endividamento de cada país, e o temor de que a Alemanha se meta numa aventura que os seus contribuintes não poderão pagar), e para dar visibilidade ao tipo de pressões - perfeitamente legítimas, diga-se de passagem - a que a Angela Merkel está sujeita.
Claro que se pode contradizer e criticar esta postura - eu deixo-a aqui apenas a título informativo.

Acrescento ainda que, por absoluta falta de tempo, não vou poder acompanhar a discussão nos comentários.


1. Os comentários dos leitores nos artigos de jornais online:
"Olha, olha, a raposa a dizer como é que se deve guardar o galinheiro. O Soros propõe aquilo que lhe permite ganhar mais dinheiro."
"Eurobonds, com regras muito bem definidas e que os Estados respeitarão? Really? Como as de Maastricht?..."
"Aha, com que então chegámos a esta situação por culpa da Alemanha, e só a Alemanha pode resolver o problema. Mas que prático para todos os outros países, que assim não têm de fazer nada."


2. Um comentador da revista Focus, Jörg Rohman, explicou porque é contra os eurobonds(o que se segue está entre a síntese e a tradução)
Eurobonds não são a solução. Pelo contrário, aumentariam as tensões na união monetária. Se as dívidas se tornam comunitárias, cria-se uma taxa única na zona euro. Para os Estados em crise a dívida fica mais barata, para a Alemanha fica muito mais cara. No espaço de uma década, para este país, podia representar custos acrescidos num valor a tender para o bilião de euros. Um valor que o contribuinte alemão terá de pagar.
Soros tem razão quando afirma que as economias dos países do Sul  voltariam a crescer - no entanto, só por pouco tempo. Soros está a esquecer um outro desenvolvimento: sem a pressão dos juros e da necessidade de fazer reformas com origem nos mercados, os Estados podem continuar a endividar-se como entenderem. E acreditar em declarações informais de intenções de reforma por parte dos países em crise é uma ingenuidade. Pelo contrário: assistiríamos à repetição do mesmo jogo que vimos no início da união monetária: ao estabelecer uma taxa de juro semelhante para todos os países, deu-se origem a desenvolvimentos errados e ao aumento desenfreado da dívida. O aparente desafogo económico desencadeado pelos eurobonds acabaria por revelar-se insustentável - e a factura a pagar seria ainda maior.
A nova onda de dívidas seria provavelmente diluída de forma "socialmente aceitável" por meio da inflação. Nos países do Sul, onde as poupanças privadas estão aplicadas em bens imóveis, isso representaria até um ganho. Na Alemanha, onde só 42% da população tem habitação própria e 2/3 das poupanças privadas estão em depósitos bancários, a inflação representaria uma perda importante para a maioria da população. Um cenário destes é contra os interesses da Alemanha.
Por outro lado, Soros esquece-se que o BCE já deu início a um tratamento comunitário das dívidas. Desde a iniciativa de Draghi, no verão de 2012, os custos de refinanciamento da Espanha e da Itália baixaram muito.

Quanto à saída da Alemanha do euro: que investidor continuaria a confiar no euro, com a Grécia dentro e a Alemanha fora?  (bom, não foi assim que ele disse, mas a ideia era mais ou menos essa - e se acham que isto é racismo e sei lá o quê, digam lá se estavam dispostos a comprar títulos da dívida grega com a mesma taxa dos da dívida alemã...)

Na realidade, a maior parte dos Estados com problemas entraram para o euro sem terem uma economia competitiva, e ainda não conseguiram alterar essa situação. Por isso, ou fazem reformas estruturais, ou saem da união monetária e tentam tornar-se competitivos por recurso à desvalorização monetária.
Os eurobonds seriam para eles um caminho errado, e a longo prazo iriam desestabilizar ainda mais a união monetária.


3. Em entrevista ao Spiegel, o economista Holger Schmieding também critica Soros: (o que se segue está entre a síntese e a tradução)
Resumidamente:
- Porquê mudar agora? A abordagem  actual está a resultar, a crise do euro diminuiu significativamente nos últimos meses.
- O perigo de contaminação está muito mais baixo. Isso é o mais importante. Num ponto, Soros tem razão: se o parlamento alemão aceitasse os eurobonds, os problemas de financiamento dos países em crise desapareciam imediatamente. Mas tal decisão teria efeitos de incentivo fatais. Outros países poderiam pedir emprestado com uma garantia do contribuinte alemão, sem grande controle por parte deste. Isso só pode acabar mal, e o parlamento alemão não pode aprovar tal coisa.
- Se os eurobonds tivessem regras muito estritas, como Soros sugere, não ficariam muito diferentes dos actuais programas para salvar o euro. Os países do Norte da Europa não aceitariam eurobonds sem esse apertadíssimo controle. Os próprios mercados desconfiariam de eurobonds sem controle, o que só por si poderia provocar nova crise.
- Os países em crise têm de estar mais atentos às reformas na área do trabalho e dos mercados financeiros, em vez de insistir tanto no aumento imediato e drástico dos impostos. No caso da Grécia, por exemplo, foi demasiado duro.
- A situação vai melhorar nos próximos meses. As exportações desses países estão a aumentar; o mercado interno ainda está muito condicionado pelas medidas de austeridade, mas já se começa a ver a luz ao fundo do túnel.

17 abril 2013

às vezes até me dá vontade de ser minha amiga

Por exemplo: agora mesmo. Estou a organizar para os meus amigos uma visita a Weimar em português, no fim-de-semana de 11 e 12 de Maio. Para além do óbvio (Goethe, Goethe, Goethe, Anna-Amalia, Schiller, Liszt, Goethe, Herder, Goethe, Lucas Cranach, Goethe, Wieland, Maria Pawlowna, Goethe, Thomas Mann, Hitler, Semprun, Buchenwald e Erfurt - espero não me ter esquecido de nenhum Goethe) estou a preparar com um grupo da Bauhaus um programa especial: vamos fazer de conta que éramos os estudantes que por volta de 1919 aderiram ao movimento Bauhaus. 



1919 - foram tempos extraordinários: a guerra tinha chegado ao fim, a monarquia caíra, o país temia a guerra civil, e a pequena cidade de Weimar foi invadida por políticos da capital que ali vinham desenhar uma nova Constituição, e por estudantes malucos, inclusivamente "raparigas com o cabelo tão curto como as saias!", que de manhã iam para o parque (concebido pelo - adivinharam! - Goethe) orar seminus a um deus desconhecido, e ao cair da noite o atravessavam alegremente, a caminho das suas festas, alumiados por lanternas que eles próprios tinham feito.

(Paul Klee, daqui)

(Lyonel Feininger, daqui)

(Oskar Schlemmer, daqui)

E nós? Além de fazermos o circuito habitual da Bauhaus - o museu com os primeiros objectos criados pelos estudantes, os gráficos das aulas e os quadros dos seus professores (Klee, Kandinsky, Schlemmer, Feininger, Muche, Itten, Moholy-Nagy, etc.), o edifício da escola feito por Van de Velde e o gabinete de Walter Gropius, a parte das oficinas com a sua escadaria decorada por Oskar Schlemmer e a primeira casa construída pelo movimento, em 1923, e que ainda hoje é mais moderna que muitas que por aí se fazem, além de fazermos isso tudo, vamos sentar-nos calmamente num atelier desses antigos estudantes para fazer lanternas como eles, que nos iluminarão o passeio pelo parque do Goethe depois do anoitecer. E terminaremos com uma ceia num pavilhão que os primeiros professores da escola de belas-artes mandaram construir para fazerem retratos da natureza sem se molharem - lá ajeitavam a vaquinha e as ovelhinhas e mais os bichos que calhasse, lá montavam o cavalete, e cá vai disto: pintar a natureza viva por partes, primeiro os bichos e depois a paisagem à volta nos dias mais secos. Claro que tudo isto foi antes de o Gropius aparecer em cena, e mais aquele maluco do Itten que inventou o curso básico e punha os estudantes a fazer ginástica em trajes menores no parque desenhado por Goethe, e mais os outros todos que decidiram fazer um movimento novo, como no tempo das catedrais, quando os pedreiros e carpinteiros se entendiam como artistas a contribuir para a criação de uma belíssima obra de arte.

Em suma: já estou com pena de todas as pessoas que não podem participar. E aqui lanço um repto para os comentadores predilectos deste blogue: alguém quer vir?

15 abril 2013

novas regras europeias para o resgate dos bancos

Procurei em Portugal notícias das propostas feitas em Dublin, na sexta-feira passada, sobre o funcionamento e o resgate dos bancos europeus, mas só encontrei esta tradução da Deutsche Welle para o Brasil. Aqui está o link:


Retiro uma parte do texto, sobre medidas propostas para salvar os bancos em dificuldades:

Segundo ele, quanto mais rapidamente a liquidação bancária for uniformizada nos Estados da UE, melhor. "A aprovação rápida das leis é necessária para tornar claro, desde o início, o procedimento comum de liquidação de bancos na Europa. Essa estrutura deverá regulamentar desde logo o bail in e a participação dos investidores." 
O termo bail in designa a participação dos acionistas e dos correntistas na liquidação de um banco. Como vários ministros de Finanças, Asmussen é a favor de que os primeiros a assumirem o ônus da falência sejam os proprietários, através de suas ações; depois, os grandes investidores com contas acima de 100 mil euros, seguidos por um fundo de garantia conjunto dos bancos, de financiamento privado e pelo país-membro em questão; só por fim deve ser onerado o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) – ou seja, o contribuinte da UE. 
No entanto, essa hierarquia de responsabilidade ainda é controvertida. "Importante é que os investidores conheçam de antemão as regras do jogo", sublinhou Asmussen. Essas regras devem estar estabelecidas já em 2015, e não somente em 2018, insistiu.

Portanto: o caso do Chipre foi um ensaio e, como dizia há tempos um jornalista alemão, num texto que traduzi, marcou o início da fase 4 na crise do euro. Depois da fase 1 (austeridade), da fase 2 (haircut) e da fase 3 (garantias do BCE), vem agora o envolvimento do próprio banco em questão. De futuro, quando um banco estiver em situação de falência, o dinheiro é dado como perdido por esta ordem:
- accionistas do banco
- investidores do banco
- depósitos acima de 100 mil euros
- fundo de garantia nacional
- fundos de estabilização do euro

Conclusão: quando me sair o euromilhões, devo criar várias contas em bancos diferentes, até um máximo de 100 mil euros por conta.
Quanto ao mais, não tenho grandes problemas - entre aumentar ainda mais as dificuldades dos contribuintes e reduzir o Estado Social para safar os bancos, ou envolver os responsáveis (accionistas e investidores) e também os beneficiários directos (depositantes), parece-me uma escolha fácil. Pelo menos enquanto não me acontecer o euromilhões.

Fosse esta a maneira de resolver os problemas à época em que o BPN entrou em situação de falência, e muito sofrimento se teria evitado aos portugueses.

(Quanto mais olho para as medidas propostas, mais me parece que o attac anda a mandar cartinhas à Comissão Europeia.)

1 000 000 000 000


Escrevi o número por extenso, a ver se lhe percebo a dimensão. Diz que a Europa é lesada anualmente em 1 000 000 000 000 Euros por fuga aos impostos.
Ora 1 000 000 000 000 Euros pagava largamente o resgate grego, o irlandês, o cipriota, o português e o "isto não é um resgate" espanhol. E ainda sobravam uns trocos para dar à Itália e à Eslovénia.
Só com os impostos que não são pagos num único ano.

Depois de resolver esses problemas, o que não seria possível fazer com 1 000 000 000 000 Euros por ano?

***

A notícia onde li isto, e que falava também de um esforço europeu sério para acabar com paraísos fiscais, referia a colaboração do Luxemburgo e a resistência da Áustria, terminava com uma história muito divertida: às vezes é o próprio legislador que cria a possibilidade de fuga aos impostos em larga escala, como no caso da isenção de impostos para o trabalho nocturno e ao fim-de-semana, criada para atrair investimento à antiga região da RDA  - os jogadores de futebol esfregaram as mãos de contentes.
Mas por pouco tempo, claro. Mal descobriu o erro, o governo tratou de criar um limite salarial para a isenção.

14 abril 2013

no reino das piranhas



Manhã do terceiro dia na Pampa. Pois lá entrámos de novo no barco, pois lá nos pusemos de novo a caminho, rumo a nova aventura. Levávamos anzóis para pescar piranhas, que o Feizar tinha preparado.
Numa curva larga do rio, o Einar fez um sinal ao Matthias e este atirou-se à água. Estavam combinados: se houvesse golfinhos, o Matthias podia dar uns mergulhitos. Todos os outros lhe seguiram o exemplo, menos eu, que pensara que não precisava de fato-de-banho para ir pescar piranhas, e o tinha deixado em casa.
Gostei desta maneira muito leve de gerir o tempo: não há programas marcados, faz-se o que apetece.
Parece que a coisa tem nome, e é "férias".

Seguimos depois para a parte do rio onde há piranhas. Antes, o Einar apresentou-nos o Pepe, o caimão de uma lodge perto da nossa. Um caimãozão de mais de quatro metros, com uma bocarra com mais de cem quando a abre a sério.




Depois de apreciar devidamente o Pepe, que em menos de nada devorou uma galinha que a cozinheira da lodge nos tinha dado, sentámo-nos no barco, cada um com o seu fio de pesca, num braço do rio junto a um cais, à sombra de árvores enormes. Os macacos vieram ver o que fazíamos.




E que fazíamos nós? De linha na mão, conversávamos com o Einar e ríamos alto. Pescadores de água doce...

O Einar contou de visitas que organiza à selva, à comunidade dele. Uma aldeia pequena, com umas oitenta pessoas. Diz que se desce aquele rio cerca de duas horas, e se faz uma caminhada de três horas pelo meio da selva. É preciso ter cuidado com certos perigos, diz ele, por exemplo com o puma. Se aparecer um puma, ele está preparado: tem uma seta com um veneno que o mata logo ali. E nós podemos estar descansados: antes de o puma tocar num dos seus turistas, vai ter de o matar a ele.
Ora aqui está um interessante dilema, pensei eu. Se o Einar se deixar matar para proteger um turista, deixa o grupo todo à mercê da selva. Não seria melhor dar esse turista ao puma, para poder salvar os outros? Perguntei-lhe.
Ora bem: índios da Amazónia não são dados a grandes dilemas filosóficos. Para ele não há dilema nenhum - a primeira coisa que faz é ensinar toda a gente a sobreviver na selva, caso ele lhes falte.

Depois falámos das piranhas. Queríamos saber se é mesmo verdade que as piranhas podem matar uma pessoa, e ele afirmou, peremptório: podem devorar uma vaca inteira em menos de cinco minutos. Mostrou-nos uma cicatriz no dedo, à volta da cabeça do polegar. "Uma vez", disse ele, "pesquei uma piranha e resolvi reaproveitar o anzol. Quando me preparava para lho tirar da boca, ela espetou os dentes e quase me decapitava o polegar. Pus a carne na posição normal, improvisei uma ligadura, tratei com uma planta que conheço da selva, e safei o dedo. É disto que elas são capazes."

Comecei a falar mais alto, a ver se espantava alguma piranha que quisesse aparecer por ali. Tinha graça, tinha, nós pescadores diletantes a pescar um bicho daqueles para dentro do nosso barco cheio de pés nus...

Regressámos pela última vez à lodge, àquele cais com cadeirões e redes onde tínhamos passado horas tão boas.



O gato estava estendido no seu posto habitual, ao sol. Cinquenta centímetros acima dos caimões e das piranhas. Estes espaços partilhados com o perigo de vida faziam-me uma certa confusão, até me ter lembrado dos carros que percorrem velozmente as nossas cidades. Nós também vivemos a meio metro de uma morte possível, e também aprendemos a conviver com isso.


Regressámos da pescaria de mãos a abanar, mas as cozinheiras tinham um plano B, e deram-nos um óptimo almoço. Depois fizemos apressadamente as malas para partir. Não sei que é que a Christina e o Joachim disseram na cozinha, que ouvi gargalhadas enormes no dormitório onde fazia um último controle. Saímos daquele sítio mágico com os últimos ecos do riso, e a voz alegre das cozinheiras "a Christina, hahaha, a Christina...".

Foram mais de duas horas de barco e três de jipe para regressar a Rurrenabaque. No caminho de barco encontrámos os animais do costume: aves-do-paraíso, macacos, tartarugas enormes, papagaios...
Durante a viagem de jipe encontrámos fundos sulcos na lama, agora terra seca, que tornaram a viagem ainda mais desconfortável. E uma família de capivaras.


Rurrenabaque é a tal cidade com meia dúzia de habitantes que nos pareceu insuportavelmente buliçosa, após três dias de tanto sossego. O nosso hotel ficava mesmo em frente ao início do parque nacional do Madidi, do lado de lá do rio Beni. Do nosso lado havia uma piscina e um relvado - uma paisagem muito estranha no meio da selva. Será que um dia se lembram de fazer lá um campo de golfe? E será que dava para o arquitecto fazer uma piscina com cores mais adequadas ao local?


Era sexta-feira santa. Os cafés e restaurantes não serviam álcool por motivos religiosos. Em compensação, não tinham qualquer problema em servir carne. Devem ter feito gazeta à catequese nessa parte do programa, imagino. Por sorte, encontrámos um restaurante que servia mojito disfarçado de refresco, como no tempo da Lei Seca. Vá lá que não o serviram em chávenas de chá.


No dia seguinte partíamos ao meio-dia. Eu ainda queria aproveitar a manhã para fazer uma pequena incursão na selva, no parque nacional Madidi, mas a família opôs-se: os rapazes queriam dar uns mergulhos na piscina, a Christina queria ir fazer compras. Se me deixassem mandar... talvez tivesse sido uma manhã engraçada, mas seria sobretudo um stress. Melhor assim.

o amor à literatura infantil finalmente desenganado, aquela ideia feita de que o melhor do mundo são as crianças, e tal



A Pólo Norte falou destes livros da Majora, e lembrei-me logo de "A Grande Barrela", que eu adorava quando tinha seis anos. Lembrei-me também dos livros da Anita - o meu preferido era o Anita Dona de Casa. Desconfio que a minha vocação era ser uma perfeita mulher-a-dias, mas não me soube cumprir.

Há tempos comprei alguns dessa colecção, que a Majora reeditou. É bem verdade que não se deve voltar aos lugares onde se foi feliz: como foi possível eu alguma vez ter gostado daquilo?!

Tive esses livrinhos da Majora. Todos. Por amor à literatura, roubava caramelos espanhóis do aparador da nossa sala para trocar por moedas que uma amiga minha roubava da colecção do pai dela, e tratava logo de investir esse capital na cultura. Desconfio que a minha vocação era ser um perfeito mecenas, mas não me soube cumprir.

Comprar livrinhos com moedas roubadas à colecção paterna?! Comparado com isto, os meus filhos foram sempre meninos de coro. Mas os livros infantis deles eram contos de Tolstoi e assim, se calhar isso explica alguma coisa. Que criança de seis anos se ia lembrar de usar moedas roubadas para comprar um livro de Tolstoi?

Pelo que também se pode concluir que a literatura infantil de pouca qualidade pode potenciar a criminalidade de menores.

12 abril 2013

e cá vamos nós de novo...

Ainda o Poiares Maduro não começou a aquecer a cadeira, quanto mais a mostrar serviço, e já tem as redes sociais e os blogues  a ridicularizar e a pegar por todas as pontas possíveis e sobretudo imaginárias, chegando a insinuar que quem larga uma carreira brilhante para se vir meter neste governo lá terá os seus motivos, e não serão os melhores.

Não conheço o Poiares Maduro. Mas conheço de há muito, e com cada vez mais asco, estes movimentos de dúvida metódica e escárnio generalizado que arrasam tudo à sua passagem.

Não é só o Passos Coelho que anda a destruir o país. Há por aí muita gente que também gosta de dar o seu contributo para o mesmo fim - embora lhe dê outros nomes, claro, claro.

no reino dos golfinhos cor-de-rosa



Se bem percebi, é assim: onde há golfinhos cor-de-rosa pode-se entrar na água, porque aí não há piranhas nem caimões. De modo que saíamos no barco já com os fatos de banho a postos, e procurávamos atentamente sinais de golfinhos. Sinais discretos, que os bichos gostam pouco de se exibir: um ligeiro assomar de golfinho à superfície da água, um ou dois segundos apenas, já cá não está quem se mostrou. Por conta dessa discrição, tenho centenas de fotografias de mera agitação das águas. E são as que fiz quando já tinha muita experiência - as primeiras duzentas, essas, nem agitação mostram. É que entre dizer "ooooh! um golfinho!", pôr a máquina a jeito e disparar, já o rio teve tempo de voltar à habitual placidez. Como é que os fotógrafos acidentais faziam no tempo das fotografias de papel?

aqui vemos três golfinhos a brincar às escondidas com as máquinas fotográficas

junto ao cais em Santa Rosa: aqui vemos um golfinho a pensar se revela mais ou se já chega, e escusam de criticar a fotografia por estar torta - não se esqueçam que eu estava num barco, e tudo acontecia tão depressa que nem tinha tempo para dizer "oooh! ali!", quanto mais para alinhar o horizonte


Eu tentava fotografar, os outros atiravam-se logo à água e daí a nada estavam aos gritos "passou por mim!" e "tocou-me!" e "está ali!"
Uns brincalhões, os golfinhos. Parece que adivinham para onde o nadador está a olhar, e passam-lhe por trás, a curtíssima distância. Ou vêm ter connosco debaixo da água, sem que os possamos ver.

Desisti de fotografar os bichos e saltei para a água tépida e verde. Daí a nada, os meus pés começaram a bater em algo simultaneamente macio e compacto. Podia ser uma rocha coberta com algas - mas era uma rocha que vinha sempre ao meu encontro. Muito simpático, o golfinho, muito sociável.
No entanto, confesso que é uma sensação estranha, quase angustiante, tocar repetidamente com os pés num golfinho que não se vê.

lá vai o grupo alegremente pelo rio fora, atirando uma garrafa de plástico vazia para tentar atrair os golfinhos

 lá vem um golfinho outra vez

lá vai ele de novo
(para poderem ver melhor, cliquem na imagem)
(podia pôr aqui dezenas de fotografias deste tipo...)
(sim, eu sei, ficamos assim e não se fala mais nisso)

No reino dos golfinhos cor-de-rosa, o melhor - o melhor de tudo -, era dois irmãos a matar as saudades que tinham um do outro.


(Dois dias mais tarde, o Einar lembrou-se de avisar que as piranhas vão aonde cheiram sangue, e que as mulheres "com o problema do período" nem com golfinhos estão seguras. Obrigadinha, obrigadinha - essa informação veio muito atempadamente para um grupo onde havia quatro mulheres...)

e se eu, em vez de falar do que não sei, desse a palavra ao Vítor?



Um apontamento sobre a Bolívia na Travessa do Fala-Só.
Quem sabe, sabe. Quem não sabe, anda por lá toda contentinha, e nem lhe ocorre reparar nos fios de electricidade, nem nada.

11 abril 2013

como se me faltassem motivos para ir a concertos à Filarmonia...

Algo me diz que agora é que não devia perder um único: depois de o Simon Rattle ter anunciado a sua saída, os concertos com maestros convidados mais parecem provas de apresentação (nesta orquestra, são os músicos que escolhem o maestro). O Dudamel, por exemplo, apareceu como um maestro maduro, seguro e um tanto contido, muito longe daquele jovem enérgico e impetuoso a que nos tinha habituado.

No sábado é a vez do Paavo Järvi. Aqui está uma pequena amostra.


Verdade seja dita, também não devia perder os do Simon Rattle, enquanto o temos por aqui. Todos os seus concertos, e nos lugares por trás da orquestra, para encher os olhos daquele belo dançar.  

***

Agora só preciso de saber quais são os bancos que ainda não faliram, para ir assaltar um desses. Ou talvez fosse melhor ideia tornar-me mulher-a-dias e tratar de fazer a cama dos patrões muito conscienciosamente...

no reino da anaconda

De Rurrenabaque até Santa Rosa foram três longas horas num jipe por uma coisa lamacenta à qual não sei se posso chamar estrada. Num estado tão miserável que chegámos a ver um condutor de camião metido na lama até à barriga, tentando encontrar o sítio menos profundo para passar com o seu camião.
Mais à frente veríamos um camião atolado, e vários outros parados à espera, enquanto os seus condutores bebiam pacientemente mate.
Foi uma viagem muito desconfortável, mas nós íamos como quem vai para a romaria, todos alegres e cheios de expectativas, e pelo menos não íamos sentados de lado, como os turistas noutros jipes que vimos (sim, pior é sempre possível - e saber isso, às vezes, até nos consola).





Passávamos por pequenas aldeias de casas com telhado de folha de palmeira. Volta e meia tínhamos de parar para pagar portagem. Pensei-me na Idade Média.

Almoçámos em Santa Rosa e depois entrámos - com malas, mochilas, comida, bebida e garrafas de gás - numa canoa comprida, que nos levaria às nossas cabanas lacustres, numa viagem de duas horas no rio Yacuma.

O dia chegava ao fim.

O nosso guia meteu o barco por um canal estreito aberto entre a vegetação que nascia da água, e anunciou: "vamos ver o pôr-do-sol no reino da anaconda!"




Como não consigo escolher entre estas duas fotografias, cá vão ambas:



Ficámos por ali a ver, a tirar fotografias e a conversar. Um entardecer doce, não tão espectacular como o nascer do sol que veríamos dois dias mais tarde. A anaconda deixou-se ficar onde estava, por sorte não houve comissão de recepção nem nada. Ufff.

Depois continuámos caminho. Ainda parámos para ver um casal de gabirus - o macho estava a chocar os ovos, a fêmea ia buscar comida. O guia explicou que mais tarde, quando os gabiruzinhos saem do ovo, trocam papéis: o pai vai buscar a comida e a fêmea fica a tomar conta dos filhos. Os pinguins imperador também dividem o trabalho da reprodução equitativamente. Se até as aves - consta que não têm um cérebro muito desenvolvido - podem, porque é que nós complicamos tanto?


Mais à frente parámos de novo para ver uma enorme família de macaquinhos. O Einar atraiu alguns deles com bananas, e fê-los passear nas nossas costas.


A seguir, tirou cervejas frescas de uma caixa térmica e distribuiu por todos. Antes de começar a beber, vertemos um pouco da sua cerveja no rio, "para a Pachamama": devolver à deusa mãe-terra um pouco daquilo que dela recebemos. É um símbolo bonito, mas não podemos repetir em casa: o tapete da nossa sala ia ficar bonito...

No dia seguinte saímos em busca da anaconda. Parte da viagem em barco, por entre margens de estranha vegetação: incansáveis heras cobriam todos os arbustos e árvores, criando esculturas verdes de contornos arredondados.



Parte da viagem em barco, e parte dela a pé, pelo meio da selva alagada. Tínhamos galochas cheias de buracos. "Não se preocupem com os buracos, as galochas não são para proteger da água, mas das cobras", disse o Einar. Ah, bom, fiquei logo muito mais descansada.
O rapaz inglês do nosso grupo, que andava a dar a volta ao mundo e já tinha feito a Ásia, não encontrou galochas para o tamanho dos pés dele. Em vez de ficar no barco, foi descalço. Descalço, com água lamacenta até aos joelhos, sem saber onde punha os pés. Disse todo descontraído que fizera o mesmo na Ásia, sem problemas. "Será que os pais sabem o que os filhos deles andam a fazer por esse mundo fora?", perguntei eu. "Se soubesses o que eu já fiz...", respondeu a Christina - e eu fiquei outra vez descansadíssima. O Joachim meteu-a logo na ordem: "da próxima vez, Christina, antes de fazeres uma coisa perigosa telefonas à mãe a pedir autorização". "Sim, pai, com certeza, sempre", foi a resposta. O Matthias riu-se.
E se eu os leiloasse todos?




A primeira paragem foi numa clareira apertada, onde o Einar tinha descoberto um bicho da preguiça. Como é possível descobrir um bicho da preguiça àquela distância? Com as nossas máquinas no máximo do zoom, o mais que conseguimos apanhar foi as suas garras.


O Einar estava todo orgulhoso. Sorria, dizia "isto é que são uns olhos de águia!"
Mais tarde, resolvi brincar com ele. Disse-lhe que o bicho da preguiça só anda dez centímetros por ano, pelo que basta decorar em que árvore está e daí para a frente não custa nada. Ficou em estado de choque. Moral da história: não tentes gracejar com um índio do Amazonas, por muitas piadas que ele próprio faça, Heleninha.

O bicho da preguiça desapareceu, e o Einar também. Nós continuámos com o grupo do Feisar, que ia abrindo caminho com uma catana. Mostrou-nos um papa-formigas a dormir no tronco de uma árvore - e eu, que tinha calças claras, não cheguei a ajoelhar-me na lama o suficiente para ver o bicho, mas fiz de conta que tinha visto, até disse "wow" e "ooooh" e "tão giro!". Vimos alguns pássaros e macacos, mas cobra nenhuma. E muito menos a anaconda. O Einar voltou passado algum tempo, todo desconsolado por não a ter conseguido encontrar.
Voltei para o barco com o coração muito apertado de desapontamento, até me apetecia cantar.

Uma última fotografia: de uma inglesa do outro grupo que andava por lá, lindamente arranjada, até parecia que estava a fazer um filme. Só não percebi porque é que o nosso destemido inglês mudou de barco e grupo depois dessa aventura.