12 março 2013

agora, a sério:

O texto que se segue foi copiado da Berlinda. Resumidamente, é isto: vamos fazer uma surpresa ao Cristóvão. No dia do seu aniversário, vamos levar-lhe inúmeros postais escritos para ele, chegados de todo o mundo. Para isso, mãos à obra - hoje.
O Cristóvão vai fazer 12 anos, adora futebol, é angolano, e está há meses num hospital alemão, longe da família e dos amigos.
No sábado passado fui visitá-lo. Falou-me das saudades da comida angolana ("mas entretanto habituei-me à de cá"), dos visitantes que entram no quarto dele e mudam o canal da tv ("eu mudei outra vez, a tia resmungou, foi chamar a enfermeira mas ela também ignorou a tia" - risos), das mentiras que lhe contaram num primeiro de Abril ("que grande susto me pregaram!"), da educadora amorosa que vem jogar às cartas e aos dados com ele. Mostrou-me os seus tesouros, que tirou do fundo do armário - os livros, os lápis, o caderno onde guarda o número do telemóvel da mãe. Tudo muito bem arrumado em duas caixas de cartão.



UM POSTAL, UM SORRISO

ESCREVA UM POSTAL DE PARABÉNS – E OFEREÇA A UMA CRIANÇA UM SORRISO NO SEU ANIVERSÁRIO!
Um gesto pode fazer a diferença… Escreva um postal de aniversário a uma criança angolana hospitalizada em Berlim – e ofereça-lhe um sorriso!
Ao longo de mais de 15 semanas a Berlinda Ação Social no âmbito da CAMPANHA TEMPO E LIVROS tem feito visitas continuadas e ininterruptas a crianças de língua portuguesa hospitalizadas em Berlim. Uma delas – o Cristóvão – vai fazer 12 anos no dia 1 de abril, e vai passá-los no hospital.
No dia do seu aniversário, queremos inundá-lo de cartões e postais de parabéns, votos de boas melhoras e incentivos pela sua coragem – ajude-nos a dar-lhe muitos sorrisos no seu primeiro aniversário longe da família!
Postal Cristóvão © Berlinda
O Cristóvão é angolano e está internado num hospital em Berlim há já vários meses. Sabe ler e escrever, é uma criança muito inteligente e atenta. Quando abre o seu sorriso, os corações dos voluntários iluminam-se com o exemplo de paciência e coragem dado por esta criança afastada por tanto tempo dos pais e da família.
No âmbito do Programa “TEMPO E LIVROS” da Berlinda Ação Social, o magazine Berlinda lança agora um apelo à comunidade de língua portuguesa em Berlim, na Alemanha e no mundo, para que cada um escreva um postal de parabéns ao Cristóvão. Queremos que ele saiba que NÃO está sozinho, e que se possa alegrar com a força de uma comunidade que o apoia – mesmo sem nunca o ter visto.
ESCREVA UM POSTAL DE PARABÉNS AO CRISTÓVÃO – E OFEREÇA-LHE UM SORRISO NO SEU ANIVERSÁRIO!
ENVIE-NOS UM POSTAL! Escrito em português, com votos de parabéns, boas melhoras, uma mensagem pessoal, um desenho, etc.
Também nos pode enviar um pequeno texto, uma carta, um desenho, uma fotografia, uma colagem… não há limites para a imaginação!
Ajude-nos a tornar o aniversário do Cristóvão num dia inesquecível!
Divulgue esta ideia – na sua família, entre os seus amigos, na escola, no emprego…
A BERLINDA AÇÃO SOCIAL – E O CRISTÓVÃO – AGRADECEM!
Endereço para envio dos postais/cartas:
BERLINDA.ORG
Berliner Allee 132
13088 Berlin
Deutschland
Nota: Os postais serão entregues pessoalmente no dia 1 de abril por toda a equipa dos voluntários da BERLINDA AÇÃO SOCIAL. Os postais devem portanto chegar à nossa redação até 6ª feira, dia 29 de março. Envie-nos as suas contribuições com tempo – todos agradecemos!

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haberemus papam


("haberemus", hihihi)

Não sei que me parece um conclave para escolher um novo Papa sem termos passado pelo choque da morte do anterior, e pelo seu pomposo funeral - faltam-me os ritos de passagem para a mesma ordem. É certo que gostei muito da humildade do gesto do Ratzinger: o abandono de um lugar para que alguém com mais saúde venha fazer o trabalho que é preciso ser feito - sinal de grande respeito pela enormidade e responsabilidade do cargo (deixemo-nos cá de gozos e metafísicas). Mas agora falta-me a onda de comoção e suspense que costuma acompanhar estes momentos. Não é bem um Papa que estão a escolher, é mais um CEO...
(veremos se sinto o mesmo quando, daqui a uns meses, a rainha da Holanda passar a coroa ao seu filho)

Mesmo assim, hoje só me lembro do filme Habemus Papam, e só me ocorre que aqueles 115 cardeais fechados na Capela Sistina estarão todos a rezar: "queira Deus que não me calhe a mim".
É bem verdade que certos filmes podem estragar as cabeças mais bem formadas...

quem vê caras...


(encontrado há séculos no blogue sem-se-ver)

11 março 2013

ora aqui está o tema certo para uma manhã de segunda-feira

Ultimamente o Matthias tem acordado bem disposto, e sai de casa fresco como uma alface. Apesar dos dias cinzentos, da neve, do frio. Ontem revelou-me o segredo: um app que pôs no seu i-pod, o sleep cycle, faz com que o despertador o acorde no momento em que o seu sono está mais leve.
Não sei como funciona para casais, mas para rapazes de 16 anos é fantástico (100% de resultados positivos no rapaz da minha amostra estatística).

(Não sei se repararam, isto é publicidade muito bem disfarçada e eficaz. Se alguém tiver um primo que tenha um cunhado que tenha uma vizinha que trabalhe na apple, agradecia que dessem lá uma palavrinha, a ver se me pagam o serviço.)

Junto mais alguma informação, que encontrei no site applay:


Sleep Cycle alarm Clock – Nada como uma boa noite de sono após um dia de trabalho intenso. E não existe treinamento físico bom sem um bom descanso, mas muitas vezes por mais que descansemos, parece que sempre acordemos cansados. Quando colocamos um despertador para nos acordar pela manhã, nem sempre acordamos dispostos, isso ocorre porque quando o despertador toca, estamos em sono profundo. Nosso sono possui fases, indo do estado acordado para sono leve, sono profundo, sono leve novamente e muitas vezes acordando novamente. Este ciclo se repete várias vezes durante a noite, e a melhor hora para acordar é justamente quando estamos em sono leve.
 
Pensando nisto, este aplicativo foi desenvolvido, monitorando o seu sono para tentar te acordar na melhor hora possível, dentro de uma janela de meia hora, sendo a hora limita, a hora que você definir no despertador. Para fazer funcionar é muito simples, basta colocar a hora que vai dormir e colocar o iPhone em um lugar estratégico do colchão, desta forma toda vez que você se mover na cama, o iPhone / iPod Touch detecta a intensidade do movimento pelo acelerômetro. Com base nestas informações, o aplicativo detecta em que fase do sono você está. Ele tenta te acordar quando você estiver em sono leve e o mais próximo possível da hora escolhida para acordar.
Por exemplo, se você pediu para acordar às 7 da manhã, mas às 6:48 o software detecta que você está em sono leve, mas caminhando para o sono profundo, ele te acorda imediatamente, desta forma você sempre acordará disposto. Caso você utilizasse um despertador comum, ele te acordaria às 7 e você teria bastante trabalho para conseguir levantar. O software foi desenvolvido com base em pesquisas e 1 ano de testes. Após sua noite de sono, você ainda pode acompanhar um gráfico mostrando como foi a noite, e ainda tem a opção de compartilhar via e-mail ou facebook.

"conheces estas música?"



Volta e meia a emissora de música clássica de Berlim põe música do cinema. Não gosto, mas vou ouvindo, tentando adivinhar qual é o filme - e acerto quase sempre. Pensava eu que sou um ás dessas andanças (dessas musicanças, dessas adivinhanças) quando o Matthias me fez ouvir este vídeo e perguntou: sabes de que filme é?

Para concluir: "que terrível falta de memória musical!"

E os leitores deste blogue: conhecem?
Aviso já que é de um filme que, se não viram, deviam ver.

10 março 2013

para o Mozart nasci um bocadinho tarde...

...mas pode ser que este miúdo dê uma voltinha pela Europa. Talvez daqui a uns anos, quem sabe.
Para já, vou fixar o nome: Tsung Tsung, ou talvez Andy Lee.

momentos do Fox

Há duas semanas tínhamos cá o Kevin. Quem perguntar "que Kevin?!" é dorminhoco.
Como precisava de preparar o show em Hannover, e tinha de carregar o equipamento pesadíssimo para o ginásio, o Fox e eu levámo-lo até lá. Era uma cave em Kreuzberg, um sítio engraçado: a porta sempre aberta, as pessoas entram, deixam ficar 5 euros na caixa, usam o espaço. Parece os parques de campismo nos EUA.


O Fox acompanhava atentamente as cambalhotas do seu amigo no trapézio, e ladrava nas partes mais difíceis. Nos intervalos, enchia-o de mimos. E vice-versa. (bem sei que as fotografias não estão nítidas, mas é o que o meu telemóvel conseguiu, e conseguiu o essencial, que é o que interessa)


No fim-de-semana passado aqueceu, e tivemos um céu tão azul que nos fez esquecer todos os dias de Inverno. O Fox espetava o nariz no ar, farejava farejava - "que é isto?", parecia perguntar. É a Primavera, Fox.
Fomos passear até ao lago aqui perto. O gelo começa a derreter, e os patos selvagens ocupavam o espaço da reconquista.





Se eu percebesse alguma coisa de fotografia, tinha conseguido apanhar a magia da luz fresca nas árvores ainda adormecidas de Inverno. Mas não sou. Fiquem com esta fotografia, e lembrem-se: felizes os que acreditam sem ver...
No meio dos meus exercícios de diletante, uma raposa maluca atravessou-se no caminho:


Há uma semana, o parque à volta do lago estava assim:


Esta noite nevou com força. A cidade está coberta por nova camada espessa de neve. Parece que afinal não era a Primavera, Fox.
Levei-o à rua, mas não fiz fotos porque é quase impossível apanhá-lo, todo em saltos e sprints, feliz da vida.

09 março 2013

Quaresma - sábado da terceira semana


«Uma igreja. Um pároco. Uma empresa de mudanças. A igreja já não é utilizada, sendo esvaziada de todas as decorações sacras, incluindo o grande crucifixo sobre o altar. Restam apenas os bancos num espaço vazio. O velho padre parece não conseguir resignar-se a este destino e o sacristão apercebe-se disso.
Mas, em pouco tempo, um grande grupo de clandestinos à procura de refúgio entra na igreja e, com os bancos e com cartões, instala aí uma pequena aldeia. O sacerdote vê a sua igreja ganhar de novo vida mas, de fora, os homens da Lei tornam-se ameaçadores.» 
(da sinopse)

"Aldeia de Cartão" é um olhar profundo sobre um pároco que redescobre o sentido do mistério e, em particular, as virtudes da caridade.

Plano B para a Humanidade



Hoje é sábado, temos tempo para atravessar com calma este espelho:

Plano B para a Humanidade

(nem sabem o que me apetecia roubar o post inteiro para aqui) (agarrem-me, que eu...) (a primeira foto já cá canta)

(obrigada, Luna - é, de facto, um grande post para o 8 de Março, e todos os outros dias)

08 março 2013

Berlinda de cara nova




Hoje entrei na Berlinda pela porta da frente, e gostei muito.
O layout levou uma grande volta, parece-me mais leve e acolhedor. Andei a passear pelas páginas, toda orgulhosa de encontrar lá o meu nome, toda satisfeita por falar português e morar nesta cidade.
Se estão curiosos, espreitem aqui.

***

Neste momento estão em destaque duas peças de que gostei muito: uma entrevista ao Wladimir Kaminer (literalmente: been there, done that!) (hihihi) e um roteiro da cidade pelo Gonçalo M. Tavares (idem) (idem).

O que não está lá, mas eu conto aqui: no fim de um concerto do Carlos Bica, a meio da sua cervejinha no Yuma Bar, a Inês - essa simpática - a contar à frente do Gonçalo M. Tavares como era a cara que eu fiz durante a entrevista com o Kaminer. No dia em que a Berlinda abrir uma secção "Caras" estou perdida.

se fosse música...

"Cavaco Silva vai explicar em livro como atua um Presidente da República em tempos de crise."

Deve ser o livro mais pequeno do mundo. Para essa explicação, meia página chega - e é se deixar espaços grandes entre as letras.

Se fosse música, era esta:




e Deus criou o homem

Olhando para os vídeos que têm passado por este blogue nos últimos tempos,
tipo assim...

David Fray - Jason Bentley -  Joachim Gauck - Kevin Beverley - Philippe Jaroussky - Xavier de Maistre - Adam Benzwi - Simon Rattle - Joren Dawson - Wladimir Kaminer - e muitos mais

...ocorre-me que hoje podia começar um novo blogue, "e Deus criou o homem", para mostrar aos deslumbradinhos do E Deus criou a Mulher, neste Dia Internacional da Dita (não liguem, ando a treinar para polícia), que nós cá - as do chamado sexo fraco - apreciamos a embalagem, é certo, mas exigimos conteúdo. E de qualidade! Hehehe.

Hehehe.

***

...E depois não tinha nem um décimo das visitas do blogue do Miguel Marujo, e eu engolia os meus hehehe em seco.
(Mais uma fantástica ideia que não me custou nem meio neurónio, mas infelizmente se estatelou na parva da realidade. Muito gostava de saber porque é que ainda não me convidaram para assessora do Gaspar.)

07 março 2013

David Fray sobre Bach



(Se o vídeo não abrir, pode-se ver também aqui)

Da revista "Concerti" de Janeiro 2013:

Pergunta: Para o seu novo CD escolheu novamente um compositor alemão. Cá para nós: será que o mundo estava realmente a precisar de mais um CD de Bach?

Resposta: (risos) Boa pergunta! O mundo não precisa nem de mim, nem de um novo CD, nem de mais uma entrevista comigo. Contudo, para mim era uma necessidade gravar estas peças, ou melhor: ensaiá-las e tocá-las. Se este CD é uma necessidade para outras pessoas - isso não me diz respeito. Se tenho de gravar um novo CD, escolho a música que me é necessária. Como é o caso da música de Bach. Praticamente não se encontra noutras músicas tanta qualidade emocional e tal intensidade da Fé. Mas em Bach encontra-se também uma dança viva, uma parte rítmica arrebatadora. Este júbilo, de um lado, e a meditação, do outro, são para mim essenciais, e quero-os partilhar com o público. 

06 março 2013

diz que era um programa na rádio com o Nitin Sawhney...

Mas para mim é um caso sério: isto é lá voz de entrevistador que se largue à solta pela rádio? Isto é lá cara de entrevistador que se exiba sem temer um estremecimento social?
Razão tinha a minha avó: a tentação espreita onde menos se espera. Já vi o vídeo duas vezes, a tentar encontrar-lhe pés de bode, orelhas pontiagudas, coisas assim, mas não - está muito bem disfarçado, o diabo do homem.

(O Nitin Sawhney também tem muita graça, muita graça mesmo, mas se fosse simpático tinha escolhido canções só de um minuto, e dava respostas monossilábicas, para o entrevistador ter mais espaço) (mas como ninguém me deixa mandar...)

HD Showcase: Nitin Sawhney - KCRW




***

Obviamente, estes fenómenos não acontecem por acaso. Ó aqui:

MARK FISHER: How did you develop your radio voice? Was it something you practiced in the shower? 

JASON BENTLEY: I think it had to do with coming into public radio. The public radio environment for music is more often jazz and classical. It’s more of a patient delivery. It’s not like the “morning zoo” or exasperated with crazy voices. It’s more of a serious approach as a music fan that’s also passionate about they do. 
I think from an early age, I really had a fascination with the power of the voice. I remember reading the science fiction novel Dune. There were these characters known as the Bene Gesserit that could command people to do their bidding based on a particular inflection of their voice. I was also fascinated with the power of music. It was something that could bring people together and motivate them. For me, it was one of the deepest feelings of connection. 
I guess if you factor all that in, radio is the perfect medium for me [laughs].

(fonte)

não sabíamos de nada...

(foto)

Segundo um estudo americano recentemente divulgado, os nazis tiveram na Europa mais de 42.500 locais onde as pessoas eram tratadas de forma cruel e desumana - entre campos de concentração, guetos e locais de trabalho forçado, inclusivamente bordéis. Em termos numéricos, revela-se um fenómeno de muito maior dimensão do que até agora se pensava. Estes números provam que não era apenas "lá longe em Auschwitz" - a iniquidade entrelaçava-se com o quotidiano de todos os países ocupados. 

No site do Tagesschau lê-se: "Estavam em todo o lado", diz Dean, e o seu colega Megargee acrescenta: "Se não antes, agora é muito claro que a desculpa de muitos alemães, que não sabiam de nada, é uma mentira."

É nesta frase que penso ao ler o post da Rita Dantas sobre a amazon e as suas terríveis práticas laborais e de mercado - vale muito a pena ler, tanto o post como os comentários. Não me passa pela cabeça comparar as condições de trabalho da amazon, ou de outras empresas, ao que acontecia naqueles 42.500 centros dos nazis. Mas comparo a atitude das sociedades, a de então e a nossa: no fundo sabemos que o nosso quotidiano está entrelaçado com a injustiça, mas preferimos nem pensar nisso.  

Agora foi a amazon. Antes foi uma grande cadeia de vestuário, que trabalhava com uma fábrica que produzia em condições de escravatura. Soube-se que uma cadeia de drogarias alemã explorava os seus trabalhadores para lá do legalmente imaginável, que um discounter espiava os seus funcionários com câmaras escondidas. Ninguém ignora que para o café, o chá e o cacau chegarem ao nosso mercado a preços baratos, quem trabalha nas plantações vive em condições de extrema pobreza. Ou que as lindas flores que compramos por tuta-e-meia no Inverno são produzidas em África em condições insalubres. Ou que os frangos que compramos tão baratos são alimentados com soja produzida numa Amazónia depredada. Ou que todos esses animais cuja carne comemos são criados em condições abjectas.

Nós sabemos. Procuramos permanentemente os produtos mais baratos, mas no fundo sabemos que o preço desse barato só pode ser a cínica exploração das pessoas e da natureza. 
O que podemos fazer?

Por coincidência, o semanário Die Zeit tem esta semana na primeira página a pergunta: "De quanto é que as pessoas precisam? Crescimento económico sem fim não traz a felicidade - consumo sem fim também não. Então, o quê? Um olhar sobre um mundo com menos"

(foto)

Parece-me um caminho a explorar: comprar menos, e de mais qualidade, por um preço justo para as pessoas envolvidas na produção e distribuição, e com garantias de protecção do meio ambiente.

04 março 2013

"uma Alemanha europeia" (what can you do for Europe?)

(excerto do texto integral do discurso de Joachim Gauck sobre a Europa em 22.02.2013)



“Don’t ask what Europe can do for you but ask what you can do for Europe!” Although we all know that this is based on an even more famous quote, such an attitude would take us a giant step forward. The European Joachim Gauck – having asked himself what he wants in this situation – has listed his responses.
First, do not be indifferent! Brussels may be far away, but the issues which are negotiated and decided there concern all of us. We cannot be indifferent to how the EU influences norms which subsequently have an impact in our children’s bedrooms or on our tables. We cannot be indifferent to the yardsticks by which we measure the foreign, security, environment and development policies implemented on our behalf. We cannot be indifferent to how the EU deals with people who have to leave their countries for political reasons.
Second, do not be lazy! The European Union is complicated, it truly is, but it has to achieve very complicated things. It deserves citizens who are interested and keep themselves informed. It deserves more than a 43 per cent turnout at European Parliament elections. And it does not deserve to have Brussels made a scapegoat, especially not when national interests or national failures are to blame for any problems.
Third, recognize your ability to make a contribution! A better Europe will not emerge if we always believe that others should shoulder the responsibility. We have so many possibilities. Anyone who wants to initiate or prevent something can take advantage of the European Citizens’ Initiative. Anyone who wants to found or build something can apply for a grant. And anyone who wants to do good and get to know their neighbours can apply to join the European Voluntary Service. Everyone can find a good reason to say: Yes, I want Europe! Does anyone know this comment, this wish, better than you here in this room? Who knows it better?
I would like to thank so many people today, starting with the European Ambassadors with us here and European activists in the education field, academia and society, not to mention the fantastic teachers in bilingual nurseries in the euroregions. I would like to thank everyone who is helping to link up Europe in countless ways – economically, socially and culturally. I also very much want to thank our German politicians who have reconciled their national tasks with our European obligations. And my special thanks go to those who do not believe that solidarity simply means looking after the property of the propertied class.

"uma Alemanha europeia" (em que se funda a identidade europeia?)


(excerto do texto integral do discurso de Joachim Gauck sobre a Europa em 22.02.2013)


Europe does have a source of identity: an essentially timeless canon of values which unites us at two different levels, both in our profession of respect for them and in the action we take to uphold them. When we stand in the name of Europe, we do not stand around monuments that base the greatness of some on the defeat of others. We stand together for something: for peace and freedom, for democracy and the rule of law, for equality, human rights and solidarity.
All of these European values have not just been promised – they have been actually set down in treaties and enshrined in legislation. They form points of reference for our shared republican worldview, the basis of the idea that everyone has an equal right to participation in society and politics. Our European values create a space for our European res publica.
Our European community of values wants to be a space of freedom and tolerance. It penalizes fanatics and ideologists who stir people up against one another, incite them to violence or undermine our political foundations. It provides a space where peoples live together peacefully and no longer go to war against each other. The bloody reality of war – like the recent war in the Balkans, where European soldiers and civilian forces are still needed to keep the peace – must never be allowed to happen again.
It is often people who have come here from other continents who can most clearly see how much there is to be cherished in Europe. They know the poverty, wars, tyranny and injustice that exist in other parts of the world. They experience Europe as a place of prosperity and self-fulfilment – and, in many cases, as a place where they are protected, where they can live free from state censorship in the media and online; from torture and the death penalty; from child labour and violence against women; or from persecution for living in same-sex relationships.
Our European values are binding, and they bind us together. When European states occasionally violate European rules, they can be brought before European courts. There may still be cause, now and again, to accuse Europe or Germany of adopting an ambiguous approach to human or civil rights – but Europe guarantees that the public and the media will always be free to criticize and able to take the side of the persecuted or oppressed, especially in dictatorial or authoritarian states.
The European canon of values is not bound by national borders, and it is valid beyond all national, ethnic, cultural and religious differences. An illustrative example is provided by the Muslim people who live in Europe, who have become an integral part of our European society. European identity is not about excluding those who are different. Rather, European identity grows out of our deepening cooperation and the conviction of those who say we want to be part of this community because we share common values. More Europe means making diversity more genuinely part of our lives and allowing it to unite us.
All the things we have had to learn, and indeed continue to learn, about international relations to secure peace among our nations – these are also things we are having to keep learning within our societies in order to maintain a balance between increasingly different elements. As we have daily proof, we are still Europeans when we stay at home. In Germany, you will find restaurant owners from Italy, nurses from Spain and football players from Turkey. There are more and more people at universities and in companies, on the stage and in shops who have family roots in other countries and who, if they are religious, attend different places of worship from Protestant or Catholic Germans. We have had more Europe for a while now. Diversity has become part of everyday life in our society.

"uma Alemanha europeia" (o papel da Alemanha)

(excerto do texto integral do discurso de Joachim Gauck sobre a Europa em 22.02.2013)


I am concerned that Germany’s role in the European process is currently being regarded with scepticism and distrust in some countries. Yes, it is true that Germany has benefited greatly from the euro. It has made Germany strong. And Germany’s rise to become the largest economic power in the heart of the continent after reunification has aroused the fears of many people. I am shocked at how quickly perceptions became distorted, as if today’s Germany was continuing in the tradition of German great power politics, or even German crimes. It is not only populist parties which are even portraying the German Chancellor as the representative of a state which, just like in former times, supposedly wants to enforce a German Europe and oppress other peoples.
I want to assure all citizens of neighbouring countries that I cannot imagine any of Germany’s policymakers seeking to impose a German diktat. Until now, our society has proved to be rational and mature. In Germany – and I am grateful for this – no populist, nationalist party has won enough support among the population to gain any seats in the German Bundestag. It is my heartfelt conviction that in Germany more Europe does not mean a German Europe. For us, more Europe means a European Germany!
We do not want to intimidate others, nor force our ideas on them. However, we stand by our experience and would like to pass it on to others. Less than ten years ago, the world and indeed our own citizens regarded Germany as the sick man of Europe. Despite the severe domestic conflicts they provoked, the measures which led us out of the economic crisis then have been successful. At the same time, we know that there are different economic strategies and that there is more than one way to achieve our goal.
If any German politician has shown too little empathy for the situation of others or if rationality has sometimes come across as cold-heartedness or a know-it-all attitude, it was certainly the exception and not the rule. Perhaps it was due to the necessary discussion on the right way forward. However, if critical comments have been disdainful or even contemptuous in tone then that is not only morally reprehensible but also politically counterproductive. It makes the self-critical discourse which is already taking form in all crisis countries, at least among a minority of people, more difficult or even impossible. We in Germany should be aware that those who have confidence in their own arguments have no need to provoke or even humiliate their partners.
It is worth the effort for all 27 partners in our community to recall once more the pledges made when economic and monetary union was launched. This Union is based on the idea that rules are abided by and any breaches penalized. This Union is characterized by give and take. It should never be a one-way street for anyone. It is based on the principles of reciprocity, equal rights and equal obligations. More Europe must mean more reliability. Reliability and solidarity stand or fall with each other.
I firmly believe that if everyone in Europe remains committed to this principle then solidarity within Europe can even grow and, in the long term, reduce the great inequalities on our continent, thus helping to improve conditions where they need improving, where people see no future in their own countries but need to have one.

"uma Alemanha europeia" (o que já foi conquistado)

(excerto do texto integral do discurso de Joachim Gauck sobre a Europa em 22.02.2013)

I remain convinced, nonetheless, that even the failure of individual rescue measures would not call into question the European project as a whole. The advantages it has brought so far are too obvious. We can travel from the Neman to the Atlantic and from Finland to Sicily without at any point having to dig out a passport. We can use one and the same currency across much of Europe, and we buy Spanish shoes or Czech cars without paying extra customs charges. In many parts of Germany, we get treatment from Polish doctors – and we are grateful that they are here to help keep our health centres open. Our entrepreneurs are increasingly employing staff from all the EU’s member states, people who would often find no jobs, or have to work for far worse conditions, in their home countries. And some of our pensioners spend their retirement years on the Spanish coast or on the Baltic in Poland. In a very positive way, therefore, more Europe has become part of our everyday lives.
That is why the results of polls only seem contradictory at first glance. People may have been expressing more and more scepticism about the EU in recent years, but the majority remain convinced that the complex and increasingly globalized reality we live in calls for some supranational order. Coming together has brought major political and economic benefits to all of us in Europe.

(Era preciso alguém avisá-lo que essas vantagens da Europa são válidas na perspectiva alemã, mas vistas do lado dos países que atravessam crises existenciais, estas vantagens valem cada vez menos. Por outro lado, vê-se que este é um discurso para os alemães, para que vejam que a União Europeia lhes traz vantagens.)

(...)

You school pupils who are here today – I know that your very first pocket money was in euros; you are learning at least two foreign languages; your school trips go to Paris, London, Madrid, maybe Warsaw, Prague or Budapest; and when you finish school, there will be scholarships open to you from Erasmus, or vocational training funds from the Leonardo da Vinci Programme. You and your peers in Europe often learn alongside one another, not about one another. You party together too, at European music festivals and in the vibrant cities around Europe. No previous generation has had so much occasion to say, “We are Europe!” And you really do get to experience “more Europe” than any generation that has gone before.

(É um facto incontornável, e é um factor muito positivo na construção de uma Europa mais unida)

"uma Alemanha europeia" (impasses actuais)


(excerto do texto integral do discurso de Joachim Gauck sobre a Europa em 22.02.2013)


There has never been this much Europe. A lot of people, especially in Germany, currently have very different feelings about that when they, for example, open their morning newspapers. There we usually find Europe reduced to four letters – euro – and read about crisis. Time and again, the stories centre around summit diplomacy and rescue packages. It is disheartening. We read about difficult negotiations, and when we read about successes they are usually only partial successes. And time and again, the main theme is a sense of unease, even unmistakeable anger, which cannot be ignored. In some member states, people are afraid they are the ones footing the bill in this crisis. In others, there is growing fear of facing ever harsher austerity and falling into poverty. For many ordinary people in Europe, the balance between giving and receiving, between debt and liability, responsibility and a place at the table no longer seems fair.
Add to that the litany of criticism we have been hearing about for a long time: annoyance with so-called Brussels technocrats and their mania for regulation; complaints that decisions are not transparent enough; distrust of an impenetrably complex network of institutions; and, not least, resistance to the growing significance of the European Council and the dominant role of the Franco-German tandem.
Attractive though Europe is, the European Union leaves too many people feeling powerless and without a voice. I hear this and read it on almost a daily basis and can tell you: there are issues in Europe that need clearing up. When I see all the signs of people’s impatience, exhaustion and frustration, when I hear about polls showing a populace unsure about pursuing “more” Europe, it seems to me that we are pausing on a new threshold – unsure whether we should really stride out on the onward journey. There is more to this crisis than its economic dimension. It is also a crisis of confidence in Europe as a political project. This is not just a struggle for our currency; we are struggling with an internal quandary too.

"uma Alemanha europeia" (a dívida alemã)


(excerto do texto integral do discurso de Joachim Gauck sobre a Europa em 22.02.2013)


Ladies and gentlemen,
deep in our hearts, we Germans in particular know that there is something which ties us to Europe in a special way.
After all, it was from our country that the attempts to destroy everything European, all universal values were unleashed. Despite everything that happened, the Allies granted our country support and solidarity straight after the war. We were spared what could so easily have followed our hubris: an existence as a disowned outcast outside the family of nations.
Instead, we were invited, received and welcomed – something which seems especially unexpected and wonderful from today’s viewpoint. We became partners!
We had the fortunate experience of learning to respect ourselves and being respected by others when we wanted to be “not above and not below other peoples”. We have committed ourselves to Europe. Indeed, we have pledged ourselves to Europe.
Today we renew this pledge.
We will pause to consider before crossing the threshold, we will rethink the situation. Then armed with new ideas and good reasons, we will renew confidence, strengthen our commit¬ment and continue to build what we have been building – Europe.


"uma Alemanha europeia" (comunicação social como "ágora" europeia)

(excerto do texto integral do discurso de Joachim Gauck sobre a Europa em 22.02.2013)


Today we need an extended model. Perhaps our media could produce an innovation to foster more Europe, perhaps like an ARTE channel for everyone, a multichannel linked to the Internet for at least 27 states – for 28 states of course – for young and old, for onliners and offliners, for pro-Europeans and eurosceptics. It would have to do more than broadcast the Eurovision Song Contest or European detective series. For example, it would have to broadcast reports on the founders of companies in Poland, young unemployed people in Spain or family policies in Denmark. It would have to organize discussions which bring home to us the sensibilities of our neighbours and help us to understand why they may regard the same event in a very different light. And on the grand political stage, the doors would then open after a crisis summit and the cameras would show everyone at the negotiating table, not just one face.
With or without such a TV channel, we need an agora. It would disseminate knowledge, help to develop a European civic spirit and also act as a corrective when national media adopt a nationalistic approach and report on neighbouring countries without sensitivity or real knowledge, thus encouraging prejudices. I know that many media companies have already attempted to create a European public space by reporting on other countries, by focusing on Europe and by putting into practice many good ideas. I know that. But let us see more of this – more reports on and more communication with Europe!
We are talking here about communication. I do not regard communication as a side aspect of the political process. Rather, providing adequate information on issues and problems is politics itself. Politics which expects the participants in the agora to be responsible and does not discount them as subservient, disinterested and ignorant.



(Este ponto podia ser um interessante desafio para alguns dos jornalistas portugueses que têm sido afastados das redacções e televisões.)


"uma Alemanha europeia" (o inglês como língua franca)

(excerto do texto integral do discurso de Joachim Gauck sobre a Europa em 22.02.2013)


It seems to me that one of the main problems we have in building a more integrated European community is the inadequate communication within Europe. And by that I mean in the everyday life of people – or peoples – rather than at the diplomatic level. To this day, it is often the case that each one of the 27 member nations interprets the same European treaties in its own way. Media coverage is almost exclusively dominated by national considerations. Knowledge about neighbouring countries is still scanty – with the exception of a comparatively small group of students, business people, intellectuals and artists.
To date, Europe does not have a single European public space which could be compared to what we regard as a public sphere at national level. First of all we lack a lingua franca. There are 23 official languages in Europe, plus countless other languages and dialects. A German who does not also speak English or French will find it difficult to communicate with someone from Portugal, or from Lithuania or Hungary. It is true to say that young people are growing up with English as the lingua franca. However, I feel that we should not simply let things take their course when it comes to linguistic integration. For more Europe means multilingualism not only for the elites but also for ever larger sections of the population, for ever more people, ultimately for everyone! I am convinced that feeling at home in one’s native language and its magic and being able to speak enough English to get by in all situations and at all ages can exist alongside each other in Europe.
A common language would make it easier to realize my wish for Europe’s future – a European agora, a common forum for discussion to enable us to live together in a democratic order. This agora would be even more wide-ranging than the one pupils perhaps know from the history books. In Ancient Greece, it was a central meeting-place, a place for ceremonial gatherings and a court at the same time, a place for public discussion where efforts focused on creating a well-ordered society.


"uma Alemanha europeia" (apelo ao Reino Unido)

(excerto do texto integral do discurso de Joachim Gauck sobre a Europa em 22.02.2013)

Dear people of England, Wales, Scotland and Northern Ireland, dear new citizens of Britain! We would like you to stay with us! We need your experience as the oldest parliamentary democracy, we value your traditions but we also need your pragmatism and your courage! During the Second World War, your efforts helped to save our Europe – and it is also your Europe. Let us continue to engage in discussion on how to move towards the European res publica, and perhaps even argue about it, for we will only be able to master future challenges if we work together. More Europe cannot mean a Europe without you!

"Mais Europa não significa uma Europa alemã, mas uma Alemanha europeia" (1)



O presidente da República Federal da Alemanha fez a 22 de Fevereiro um discurso sobre a Europa que foi muito debatido (texto integral aqui, em inglês).
Boa parte do discurso são tretas improdutivas de História e Filosofia (olá, Camilo Lourenço, como vai? aqui está um lindo dia de sol, e já não era sem tempo, que o inverno tem sido pesadote) - o percurso percorrido, a identidade europeia e a sua articulação com as identidades nacionais e regionais, os impasses actuais. Refere alguns equívocos - tanto internos como externos - em relação ao papel da Alemanha, e aponta alguns caminhos.
A comunicação social deu largo eco ao discurso, sublinhando especialmente a frase que é título deste post. A opinião geral é que foi um bom discurso, muito oportuno neste momento, e que, embora não tenha ousado ir muito longe na definição das perspectivas (o que, aliás, não compete a um presidente da República alemão), é um discurso que prepara a terra da qual nascerão árvores europeias (como escrevia Daniel Brössler no Süddeutsche Zeitung).

No site da Embaixada da RFA no Brasil explica-se um pouco o contexto deste discurso:

O Presidente da Alemanha, Joachim Gauck, discursou sobre as perspectivas europeias nesta sexta-feira (22.02) durante a cerimônia de abertura do Fórum Bellevue. 

"Existe uma necessidade de justificação na Europa, devido aos sinais de impaciência, exaustão e frustração entre os cidadãos ", disse Gauck ao mencionar que entende as atuais críticas feitas à União Europeia (UE). 

O Fórum Bellevue promoverá através de fóruns, simpósios e palestras uma série de debates sobre importantes temas sociais. Além disso, estudantes de todo o país foram convidados a participar do evento e poderão debater com Gauck sobre diversos assuntos relativos a perspectiva europeia.
Em um desses encontros o Presidente deverá conversar com os seus convidados sobre a iniciativa “Eu quero Europa”, um projeto conjunto de 11 fundações alemãs sob seu patrocínio, que tem como objetivo chamar a atenção para a Europa, mas sem falar de crise ou problemas, concentrando-se nos benefícios que a ideia de uma Europa Unida e forte trouxe e trará para todos os cidadãos e Estados-Membros.

03 março 2013

a manifestação do 2 de Março vista da Alemanha



Obrigada pela ajuda, Paulo.

(as legendas são uma gracinha do Speedy Gonzalez)


***

Adenda, a propósito de um comentário no facebook: penso que a frase "apesar da austeridade, a economia vai retrair-se fortemente também este ano" não é sinal de alguma cegueira germano-centrada, mas uma crítica ao que está a acontecer na Europa: apesar de "o bom aluno" ter cumprido à risca o programa da troika para resolver os seus problemas, os problemas afinal estão a ficar cada vez maiores e sem fim à vista.

o mundo segundo Tippi



Conhecia a Tippi de livros com belas fotografias nas quais se via a menina a interagir com animais selvagens. Este filme vai muito mais longe: 54 minutos de tranquila sabedoria.
Ao quarto minuto, por exemplo: quando ela explica o que é preciso para se fazer amiga de um leopardo.

(Agarrem-me, que daqui a nada começo a acreditar no Bom Selvagem)

02 março 2013

o Lukánikos de Berlim


Por ser pateta, meti o carro por um túnel que me levou para o outro lado da cidade.
Quando finalmente chegámos à Embaixada, só lá encontrámos este cartaz.

Calculei que os manifestantes estivessem dentro do edifício, a falar com os representantes do governo português. Esperámos uns quinze minutos, mas a conversa parece que estava demorada, por isso fomos embora.

"a esperança que não fica à espera"


Quem pode ser no mundo tão quieto
Que o não movem nem o clamor do dia
Nem a cólera dos homens desabitados
Nem o diamante da noite que se estilhaça e voa
Nem a ira, o grito ininterrupto e suspenso
Que golpeia aqueles a quem a voz cegaram
Quem pode ser no mundo tão quieto
Que o não mova o próprio mundo nele.

Manuel Gusmão, para a manifestação de 2 de Março de 2013

a primavera portuguesa



Levei algum tempo a perceber porque é que o Grândola que têm andado a cantar por aí me comove. Até que me lembrei do poema da Sophia: "o dia inicial inteiro e limpo".
Cantar o Grândola hoje como um povo que faz reset, para voltar ao fundamental.

E se - à força de Grândolas, apupos e manifestações - este governo cair: o que se segue? Vira o disco e toca o mesmo? Assistiremos a ainda mais implosão da Democracia? Ou há aqui sementes de mudança para melhor? Penso que os protestos são fundamentais, mas precisamos de mais do que isso. Daqui a nada a nossa Democracia tem 40 anos - já ninguém pode dizer que ainda é jovem, e que estamos a aprender, e que precisamos de mais tempo.

No blogue A Areia dos Dias, a Manuela Silva fala dos motivos para protestar, dos princípios que têm de voltar a estar no centro das preocupações do Governo e da União Europeia, e de exemplos de participação possível:
Auditoria Cidadã à Dívida (veja-se aqui o Relatório Preliminar)
- Congresso Democrático das Alternativas
- Rede Economia com Futuro

Vamos hoje para a rua.
Depois, associemo-nos a estes movimentos, ou a outros - não importa. Fundamental é despertarmos, participarmos, não nos deixarmos derrotar pelo tamanho da tarefa - e não deixarmos para amanhã o que temos de mudar hoje.

Na semana da morte de Stéphane Hessel, lembremos o seu apelo: engagez-vous. A nossa Primavera começa hoje, com o esforço de cada um de nós.

Março em Berlim



Em Berlim, vai ser às 17 horas em frente à Embaixada de Portugal - Zimmerstrasse, 56.
Até já.

***

Ah, quase me ia esquecendo da senha:

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade

01 março 2013

"era uma vez dois japoneses, um chamava-se Manel e o outro Joaquim"

(foto)


Uma blogger muito conhecida entregou-se ao prazer de criticar as roupinhas dos Óscares - um exercício de destilar fel à custa dos outros, que pelos vistos é muito apreciado.
Se bem percebi, o método é assim: vai-se pelas fotografias a eito, quase nem se repara no nome da pessoa, muito menos na sua história pessoal, e se se arranja algo por onde pegar, pega-se. A fotografias tantas a blogger, seguindo a mesma metodologia, criticou com a maldade habitual a roupa de uma miúda. Mal publicou o post avisaram-na que tinha ido longe de mais (embora aqui as opiniões se dividam), porque a miúda está a lutar contra o cancro. Ela apagou logo o post e pediu desculpa.
Por sorte, um bando de gente preocupada com os sentimentos da outra mocinha (a vítima), conseguiu recuperar o texto apagado e reproduzi-lo por todos os lados, criticando a falta de sensibilidade da blogger. E como se sentem muito ultrajados por esta maneira de tratar uma jovem que se encontra numa situação de grande fragilidade, lançam-se numa muito variada e intensa perseguição a uma mulher grávida.

E depois acham que os brasileiros é que talicoisa quando se põem a inventar anedotas de português.

***

Vivendo e aprendendo: estas histórias reforçam a minha convicção de que temos de aprender a andar na net com fairness. Seria um espaço muito mais agradável e digno se todos nós soubéssemos perguntar, antes de carregar na tecla "publicar":
- Isto que estou a escrever - seria capaz de dizer o mesmo directamente a essa pessoa, na sua cara?
ou
- Se esta pessoa fosse minha amiga, escrevia isto da mesma forma?

(meras aproximações simplificadas ao princípio "a dignidade humana é inviolável")

28 fevereiro 2013

na hora da despedida


Não direi que Bento XVI tem mais encanto na hora da despedida, mas o seu gesto de se despedir tocou-me. Não é qualquer um que percebe as próprias limitações e é capaz de deixar o lugar vazio para que outro faça o que tem de ser feito.

Bento XVI, o humilde.

vida de cão

Vou pela rua com o Fox, e de repente começo a reparar no que digo:

"iiih, cocó, que porcaria, tira daí o focinho!"
"não, isso é um jardim, não podes fazer chichi"
"iiiih, cocó, não!"
"anda cá"
"pára"
"não lambas isso, é chichi!"
"vamos atravessar a rua depressa! hop! hop!"
"iiiih, cocó, anda-te embora"
"aí não!"
"que porcaria, chichi, não se lambe!"
"iiiih, cocó, vamos!"
"chichi aí não, as pessoas não gostam"
"aí também não"
"aqui"
"pára"
"anda"

Quinze minutos assim - a volta ao quarteirão. Se calhar é a isto que chamam vida de cão.
E pensava eu que o estava a educar, para se tornar um cão civilizado e que não incomode as outras pessoas.

Depois pensei: se gravassem as conversas entre pais e filhos pequenos no espaço público, seria muito diferente? No conjunto de tudo o que dizemos aos nossos filhos pequeninos ao longo do dia, qual é a percentagem de frases que são ordens (anda cá, vai ali, come, despacha-te, veste, tira, põe, faz, cala-te, fala mais baixo, espera, vai tomar banho, não deites sabão nos olhos, está quieto, vai brincar no teu quarto que eu agora estou ocupada) e proibições ("não!"), qual é a percentagem de frases elogiosas? Qual é a percentagem de conversas sobre o que os interessa, nas quais eles são realmente ouvidos?

a Democracia em chamas

(foto)

Foi há oitenta anos que o incêndio de um edifício acelerou a História.
Do muito material existente sobre este momento, escolhi este filme de 4 minutos com imagens históricas, cuja tradução (rápida, com cortes e anotações) se segue. 
(se me disserem como passar isto para o youtube, eu ponho as legendas)

Na noite de 27 para 28 de Fevereiro de 1933, alguém deitou fogo ao edifício do Reichstag, o Parlamento alemão. As chamas não destruíram apenas o edifício com mais de 60 m de altura, mas também o símbolo mais importante da Democracia alemã, que o Kaiser Wilhelm I mandara construir em 1884. O incêndio dá-se quatro semanas após a chegada ao poder de um novo personagem: Adolf Hitler. Depois de meses de árdua disputa do poder, o presidente Hindenburg acaba por nomeá-lo chanceler. [O Parlamento é dissolvido e] Hitler espera que as eleições de 5 de Março resultem no reforço da sua posição.
O povo alemão está esgotado e desmoralizado. A depressão económica e os longos anos de disputas políticas atingiram-no profundamente. Hitler promete renovação e resolução de todos os problemas económicos. Aliou-se ao sectores mais conservadores - os chefes do exército e os representantes do sector financeiro acreditam que com um governo nacional-socialista será possível restaurar a sua antiga grandeza e acabar definitivamente com os movimentos políticos da esquerda. 

Sobre o Parlamento, Hitler terá dito que se trata de um "antro de Nathan" que é necessário destruir rapidamente [nota: não consigo entender o texto com toda a certeza, e não encontrei outras citações na internet, mas parece-me que se refere a Nathan, o sábio, personagem humanista e tolerante de uma peça de teatro de Lessing, proibida pelos nazis]. Agora que o edifício está a arder, o recém-nomeado chanceler aparece no local do crime no papel de um horrorizado guardião da calma e da ordem. Goebbels e Göring também estão presentes. 
Göring grita: "Isto é a revolução comunista!", no que é secundado pelos outros políticos. Um historiador comentaria mais tarde "o modo sinistro como os mais importantes dirigentes nazis estavam subjugados pela sua própria propaganda anticomunista". O chefe da Polícia, manda prender um jovem holandês que parecia completamente desnorteado. Chama-se Martinus van der Lubbe, é pedreiro, pertence a um grupo anarquista de esquerda, e será decapitado após um curto processo, no qual confessa que é o autor do incêndio. Nunca se saberá toda a verdade sobre este caso. Os opositores políticos acusam a SA de, com o conhecimento de Göring, ter incendiado o edifício entrando nele por um túnel - mas também eles foram incapazes de apresentar provas da acusação. 

Facto é que o incêndio do Reichstag permitiu aos nazis neutralizar os comunistas antes das eleições de 5 de Março, e reforçar o autoritarismo da governação por recurso a medidas legais. Dão início a uma campanha brutal, com confrontos nos quais morrem muitos comunistas, e são presos os seus dirigentes, tais como Dimitrov (que acabará por ser libertado, por falta de provas).
Este acontecimento permite que Hitler dê o passo decisivo para a sua ditadura sem limites. Pressionado pelos acontecimentos, o velho presidente Hindenburg assina no próprio dia 28 de Fevereiro o Decreto de Emergência para Protecção do Povo e do Estado, que suspende os direitos fundamentais da antiga Constituição: os direitos de protestar, de controlar e de se associar [nota: noutra fonte encontro: liberdade de expressão, liberdade da imprensa, liberdade individual, liberdade de associação, sigilo postal] e permite perseguições, confiscos e censura. Os alemães terão de esperar doze sangrentos anos para começarem a regressar à Democracia. 

***

Curiosamente, ao ver as imagens do Reichstag em chamas lembrei-me do 11 de Setembro. Outro incêndio que acelerou a História. Junto um cartoon, com cujo texto não concordo inteiramente, mas que é importante para nos lembrar que isto não são meras "histórias antigas lá desses alemães". É fundamental conhecermos bem a História, para não nos deixarmos embrulhar nas mesmas armadilhas dos poderosos. 

(foto)