18 fevereiro 2013
Berlinale 2013 - Unter Menschen
Unter Menschen é um documentário sobre um projecto de recuperação de chimpanzés criados em condições atrozes, e ainda mais sobre os seres humanos: sobre as condições em que estes bichos viveram durante quinze anos, para serem usados como cobaias para uma vacina da sida; sobre a rede de corrupção que se estende entre os países exportadores de animais, os responsáveis nos governos e as empresas de investigação (e ninguém atire a primeira pedra, porque eu quero ver que político seria capaz de criar dificuldades a tal investigação, em nome das espécies protegidas e do respeito pelos animais); sobre o sentido de responsabilidade de algumas ajudantes do laboratório que detestavam trabalhar naquele lugar horroroso, mas ficaram - "se eu me for embora, eles ficam sem ninguém que ao menos lhes dê atenção, que fale com eles. Ficam completamente abandonados."
A investigação não deu resultados positivos, as experiências foram postas de lado. Em vez de matarem os bichos tornados "inúteis", construíram-lhes uma casa que fosse de algum modo uma reparação pelo que lhes tinha sido feito. As ajudantes de laboratório ficaram com eles, e foram preparando o difícil caminho para a sua ressocialização.
Estas mulheres são admiráveis: cuidam dos quarenta animais e do espaço em que vivem, emocionam-se de alegria ao imaginar que um dia eles poderão sair para o ar livre, filosofam sobre o significado e os limites dessa "reparação" (o que me lembrou a discussão sobre o cão Zico - a questão central não é o animal em si, mas o poder, a culpa e a responsabilidade dos humanos).
Na conversa com o público, Claus Strigel, um dos realizadores, contou que as tratadoras estavam convidadas para virem à Berlinale apresentar o filme, mas o novo empregador não deixou. Supõe-se que não gostou do modo como foi retratado no documentário (eu, no lugar dele, também não teria gostado: estava a contar com um bom golpe de marketing, e aparece apenas como alguém que se preocupa menos com os animais que com o negócio que eles podem proporcionar). De modo que as mulheres não puderam vir a Berlim, e nós a pensar que vivemos numa sociedade livre...
Alguém do público pediu ao realizador que lhes transmitisse a nossa gratidão e admiração, e a sala inteira aplaudiu.
A conversa continuou. Falaram dos poderosos interesses e do modo como qualquer resistência era torpedeada, da dificuldade em encontrar pessoas que quisessem testemunhar para o documentário, mesmo tantos anos depois do encerramento da empresa. Perguntaram: com que direito tratamos os animais deste modo? onde traçamos a fronteira?
Claus Strigel disse que depois daqueles meses de contacto com os chimpanzés a sua fronteira ficou muito mais apertada. Mas acrescentou uma questão inquietante: e se as experiências tivessem tido sucesso? Se o sofrimento destes animais tivesse permitido chegar à vacina tão desejada?
Saí de lá a pensar no preço da vida dos humanos. Valemos assim tanto que se justifica o vale tudo?
Berlinale 2013 - A Batalha de Tabatô
No caderno com o programa da Berlinale, A Batalha de Tabatô parecia um filmezeco com uma história sem interesse: pai e filha vão a caminho da aldeia, para o casamento desta, e o pai lembra uma batalha que ali aconteceu. Apesar de ser de um português, desarrisquei-o da minha lista.
Por sorte a Berlinda organizou um encontro com todos os participantes portugueses nesta Berlinale, no qual se tornou óbvio que o João Viana teria muito mais para oferecer que um filmezeco. De modo que comprei um bilhete, e foi das coisas melhores que fiz nesta Berlinale, porque começou aqui uma viagem: de um cinema na Potsdamer Platz para África, uma travessia por pontes desconhecidas para dentro de mim.
O filme conquista logo às primeiras imagens, às primeiras palavras -
Por sorte a Berlinda organizou um encontro com todos os participantes portugueses nesta Berlinale, no qual se tornou óbvio que o João Viana teria muito mais para oferecer que um filmezeco. De modo que comprei um bilhete, e foi das coisas melhores que fiz nesta Berlinale, porque começou aqui uma viagem: de um cinema na Potsdamer Platz para África, uma travessia por pontes desconhecidas para dentro de mim.
O filme conquista logo às primeiras imagens, às primeiras palavras -
Há 4500 anos, enquanto tu fazias a tua guerra, criámos a agricultura.
Há 2000 anos, enquanto tu fazias a tua guerra, criámos a boa governação dos reinos.
Há 1000 anos, enquanto tu fazias a tua guerra, criámos o chão do reggae e do jazz.
Hoje, perante a tua guerra, criaremos contigo a tua paz.
- e leva-nos para uma África que eu, ignorante me confesso, desconhecia inteiramente.
Um filme africano, disse-se no encontro da Berlinda. Vai crescendo de forma surpreendente, para culminar num final cheio de simbolismo, acrescento eu, e muito mais que isso, contou o João Viana após a apresentação: é o filme que as pessoas de Tabatô quiseram fazer, com uma mensagem que lhes é muito importante, e que querem passar na Guiné-Bissau, numa espécie de cinema itinerante.
Perante a sala cheia até ao último lugar, o realizador deixava serenamente transbordar o amor e o respeito que o ligam a África, e respondia com uma simplicidade desarmante às perguntas que lhe faziam ("casting? não houve casting - eles tiveram a ideia, decidiram quem fazia o quê, e pediram-me para os filmar").
(daqui)
A batalha - a minha ponte - de Tabatô, recebeu uma menção honrosa na categoria Melhor Primeiro Filme da Berlinale 2013. Nem que fosse o décimo ou o centésimo filme: mereceria na mesma todas as honras! Ou seja (e isto é um conselho para os amigos): não o percam.
(Nota mental: prafrentemente, devo ler a sinopse dos filmes no site da Berlinale, e não no caderno)
17 fevereiro 2013
Berlinale 2013 - Dial M for Murder
Dial M for Murder - a Warner Bros obrigou o Hitchcock a fazer este filme em „3-D Naturalvision“, e ele, coitado, fez. Segundo a wikipedia em alemão, quando ficou pronto a febre do 3D tinha passado, pelo que chegou à Europa em 2D. Em 1980 fez-se nova versão em 3D, que foi apresentada na „World 3D-Film Expo 2003“, em 2010 na ARTE, e agora nesta Berlinale.
Fui vê-lo com o Matthias - o seu primeiro Hitchcock. Passou o filme inteiro com cara de quem estava a apanhar um vírus com toda a força.
Este ano viu três filmes - "todos bons", comentou, muito satisfeito. Desconfio que no próximo festival é ele quem vai tratar de arranjar os programas, e que havemos de nos revezar na compra dos bilhetes.
Hoje encontrei a mãe de um amigo dele na Filarmonia. Contou-me (mães são terríveis!) que tinha dado o programa ao filho, mas ele nem o abriu. Entretanto apareceu o Matthias na escola com a sugestão de irem todos, e num instante se formou um grupo entusiasmado (não me digam que inadvertidamente fiz do meu filho uma quinta coluna na resistência daqueles adolescentes?).
No próximo ano, disse ela, bem combinadinho e com a ajuda da escola, ainda se arranjam bilhetes para o grupo a 2 ou 3 euros. Venham eles!
Berlinale 2013 - Grzeli Nateli Dgeebi
Grzeli Nateli Dgeebi, In Bloom.
Há filmes que deviam vir com guia for dummies. Este, que se passa na Geórgia após o desmembramento da União Soviética, por exemplo. Que guerra era aquela que eles faziam contra não-sei-qual-istão? Porquê o racionamento, a falta de electricidade? E a dança, o momento mais forte do filme: porque é que não avisaram antes que aquela é uma dança típica dos homens?
Mesmo sem guia, é um filme extraordinário. Esqueçam a Pipi das Meias Altas - Eka (a menina da direita, na fotografia) é um exemplo de beleza interior e consciência da sua razão com tal força que faz da Pipi uma menina de coro. Passem este filme nas escolas. Para que conste: "quem anda ao seu próprio ritmo, nunca é ultrapassado".
Aqui podem ver-se dois excertos (no primeiro, as miúdas cantam uma canção muito famosa na Geórgia nos anos 90, e que aparece três vezes no filme - por mim, punha-a em repeat) (infelizmente ainda não encontrei nenhum vídeo sem publicidade antes) (o que eu gostava era de encontrar o filme completo para vos mostrar aqui, porque este tocou-me mesmo).
16 fevereiro 2013
Berlinale 2013 - Inch'Allah
Inch'Allah - mais um daqueles filmes, sobre a vida na Palestina e em Israel, que não nos largam. Como Paradise Now, ou o Rock the Casbah (apresentado nesta Berlinale 2013): a estupidez da guerra, os contextos que transformam pessoas em monstros.
Conta-se a história de uma médica canadiana que vive entre israelitas e trabalha entre palestinianos, e todos os dias atravessa o muro, ao encontro de uma crescente solidão que acabará por obrigá-la a tomar posição por um dos lados.
No fim do filme, a realizadora e duas actrizes ficaram a conversar com o público. A actriz principal fala dos seus olhos como o elemento central do filme, e tem razão. Pelos olhos dela vamos avançando pelo beco sem saída dos dois povos, sentimos vontade de fugir - tal como ela, quando pede à mãe, pelo skype, que lhe mostre o rio da sua terra, no Canadá.
Contaram que o muro do filme foi construído na Jordânia, junto a um campo de refugiados, e depois levado para outro lado, para fazerem as cenas do lado israelita. Falaram do casting dos rapazinhos palestinianos: como se escolhe entre 400 miúdos? Simples: faz-se um concurso de cuspir...
Uma das cenas mais fortes do filme começa justamente com um diálogo de cuspidelas, que me fez pensar num confronto que tive há tempos em Portugal com ciganitas: elas foram malcriadas comigo, eu optei por continuar a tratá-las com delicadeza, mas elas foram aumentando a violência verbal. No filme, um rapazito cospe para o chão à frente da médica, em sinal de desprezo - e mais não conto. Mas é uma cena memorável. Inesquecível também a figura do rapazinho vestido de super-homem, o som da sua pedra a bater no muro.
Berlinale 2013 - Gold
Gold. Será que o mundo estava a precisar de um Western alemão feito em 2012?
Não me parece. Mas agora que o vi, sempre vos adianto que não tem cenas intermináveis de pancadaria, que os que têm de morrer morrem sem fazer fosquinhas, e que o caminho para o ouro do Canadá parece que nunca mais acaba.
15 fevereiro 2013
em vez de fiscais, participação pública
(foto)
Tenho um chuveiro fantástico, podem crer. Deviam fazer lá as reuniões de conselho de ministros, aposto que do duche saíam ideias melhores que as que saem daquela mesa.
Hoje, por exemplo, em menos de cinco minutos ocorreu-me isto:
Para pôr os portugueses a pagar o IVA de bom grado, e a verificar se é realmente entregue às Finanças, bastava dizer que a diferença entre o IVA pago em cada ano, e o que foi pago em 2012 (corrigido pela inflação) fica na região (concelho ou distrito) onde foi pago, para ser utilizado da maneira que o povo entender. Para isso,
1. Abre-se um concurso de ideias sobre o que fazer com o dinheiro (pagar as dívidas da região para se livrar dos malditos juros, comprar uma máquina XPTO para tratamento de cancro, fazer obras nos hospitais ou nas escolas x e y, baixar o preço dos transportes públicos, reactivar a linha de comboio regional fechada pela CP (passando a ser propriedade da autarquia), para pôr mais pessoal nas creches e nos lares de terceira idade autárquicos, fazer um centro de explicações e actividades culturais para crianças e jovens gratuito, etc.
2. Fazem-se reuniões para debater a importância de cada projecto.
3. Faz-se um referendo nessa região para escolher os projectos prioritários, com escolha múltipla.
4. Todos os anos publicam-se as contas do IVA, vê-se a diferença, e aplica-se o excedente nos projectos escolhidos.
Se as pessoas soubessem para onde vai o dinheiro, e que vai para os projectos que elas consideram importantes, não era preciso fiscais para nada.
(Estou em crer que esta ideia precisava de algumas afinações, mas a água e a energia estão caras, não deu para pensar muito mais - amanhã, depois do vosso duche, voltamos a falar disto)
Tenho um chuveiro fantástico, podem crer. Deviam fazer lá as reuniões de conselho de ministros, aposto que do duche saíam ideias melhores que as que saem daquela mesa.
Hoje, por exemplo, em menos de cinco minutos ocorreu-me isto:
Para pôr os portugueses a pagar o IVA de bom grado, e a verificar se é realmente entregue às Finanças, bastava dizer que a diferença entre o IVA pago em cada ano, e o que foi pago em 2012 (corrigido pela inflação) fica na região (concelho ou distrito) onde foi pago, para ser utilizado da maneira que o povo entender. Para isso,
1. Abre-se um concurso de ideias sobre o que fazer com o dinheiro (pagar as dívidas da região para se livrar dos malditos juros, comprar uma máquina XPTO para tratamento de cancro, fazer obras nos hospitais ou nas escolas x e y, baixar o preço dos transportes públicos, reactivar a linha de comboio regional fechada pela CP (passando a ser propriedade da autarquia), para pôr mais pessoal nas creches e nos lares de terceira idade autárquicos, fazer um centro de explicações e actividades culturais para crianças e jovens gratuito, etc.
2. Fazem-se reuniões para debater a importância de cada projecto.
3. Faz-se um referendo nessa região para escolher os projectos prioritários, com escolha múltipla.
4. Todos os anos publicam-se as contas do IVA, vê-se a diferença, e aplica-se o excedente nos projectos escolhidos.
Se as pessoas soubessem para onde vai o dinheiro, e que vai para os projectos que elas consideram importantes, não era preciso fiscais para nada.
(Estou em crer que esta ideia precisava de algumas afinações, mas a água e a energia estão caras, não deu para pensar muito mais - amanhã, depois do vosso duche, voltamos a falar disto)
14 fevereiro 2013
a revolução em combustão lenta
As notícias que me chegam de Portugal sobre controlos apertados à saída dos cafés, para verificar se os clientes pagaram com factura, não me surpreende nem choca: já há muito me habituei a guardar as facturas para não me habilitar a uma multa, quando estou na Itália - país onde se estima que a fuga aos impostos, entre pagamentos sem factura e rendimentos não declarados, ande anualmente pelos 120 mil milhões de euros.
Lorpa? A Elisa Lucinda é que sabe: "Dirão: Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba, e vou dizer: Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau.
Dirão: É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal.
Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!"
Também é uma proposta de revolução em combustão lenta, mas agrada-me muito mais: é um fogo que limpa.
Já os protestos que ouço em Portugal me surpreendem. Fazendo as contas muito por alto: 5 milhões de bicas vendidas todos os dias sem factura, a 50 cêntimos cada uma, com IVA de 23%, dá meio milhão de euros que em vez de entrarem nos cofres do Estado ficam nos bolsos dos donos do cafés. Note-se que nestes casos o estabelecimento cobra o dinheiro do imposto, mas não o entrega ao Estado.
De onde nos vem este ímpeto de Robin dos Bosques? Os cafés e restaurantes aos quais fazemos questão de oferecer o imposto devido ao Estado estão em tal situação de precariedade que o desvio se justifica? Por que motivo aceitamos que alguém nos cobre um imposto, e fique com ele em vez de o entregar ao Estado? Como podemos conciliar este acto voluntário de cumplicidade na fuga aos impostos com a crítica à redução do Estado Social?
Sim, eu sei: que esse dinheiro vai para os Bancos e as PPPs, que "eles" são todos uns corruptos, que esta fiscalização exacerbada é sintoma de totalitarismo. Que é uma forma de protesto.
Não há dúvida: para grandes males, pequenos remédios. Façamos a revolução em combustão lenta - ajudando o dono do café a guardar para si o IVA pago pelo cliente, acendendo fogos-fátuos no facebook e no twitter.
***
Ando a pensar vender um terreno, e na discussão do preço disseram que me dão o dinheiro na mão. Na altura não percebi qual era o interesse da coisa, mas uns meses mais tarde caiu a ficha: talvez seja para me facilitar o acto de protestar.
E agora, que me aconselham: "protesto", ou pago os impostos devidos?
Estava muito tentada a pagar os impostos, tudo certinho (isto são mais de 23 anos num campo de reeducação alemão...), mas confesso que me sinto um bocado lorpa.
Lorpa? A Elisa Lucinda é que sabe: "Dirão: Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba, e vou dizer: Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau.
Dirão: É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal.
Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!"
Também é uma proposta de revolução em combustão lenta, mas agrada-me muito mais: é um fogo que limpa.
Berlinale 2013 - Pardé
(neste vídeo é possível escolher entre alemão e francês)
Pardé ("Cortina Fechada"), o filme proibido, era provavelmente o mais esperado nesta Berlinale. Jafar Panahi está impedido de trabalhar durante vinte anos, mas resiste - e a comunidade do cinema não o esquece. Pelo contrário: dá-lhe um lugar de honra. O momento do filme em que ele entrou em cena foi comovente: a sala inteira aplaudiu arrebatada, em sincera homenagem. Kamboziya Partovi, o co-autor do filme, diria depois no palco que Panahi estava em espírito entre nós. Acrescentando, com um sorriso e os olhos húmidos: "gostaríamos que em breve o seu corpo se viesse unir ao espírito".
A actriz Maryam Moghadam vinha muito elegante, e lindíssima. Mostrava que, mesmo no mundo do cinema, uma mulher não precisa de exibir o corpo para impressionar. Tal como os filmes feitos naquela região, aliás: levam-nos onde querem, por vezes com uma intensidade avassaladora, sem precisarem de recorrer a imagens explícitas.
Pardé começa como um filme normal: um homem que esconde o seu cão do sistema que o quer matar, uma casa que é simultaneamente refúgio e prisão. Mas em breve tudo se complica, os perigos no exterior atingem e desmembram a narrativa no interior, por trás das cortinas fechadas. Deixamos de entender quem é actor e quem é realizador, quem manda na história do filme e na de si próprio. Às vezes a porta abre-se para deixar entrar um pouco de humanidade, na pessoa de vizinhos que ajudam e confortam. Mas o baixo contínuo de todo o filme permanece: opressão e medo.
Um filme complexo, como um lamento de dor e espanto, imperdível.
Inquietante, também: será uma despedida? Será que Jafar Panahi nos está a tentar dizer que não aguenta mais?
Nesta reportagem da ZDF (em arquivo até 12.03.2013) a partir de 1'39 podem-se ver algumas passagens do filme.
P.S. para os muito amigos que me procuram nas imagens da Berlinale: só por vossa causa, arranjei de me meter em frente à câmara nos últimos segundos da reportagem. (hehehe, não é qualquer um que consegue ser o emplastro do Jafar Panahi.)
13 fevereiro 2013
Berlinale 2013 (9)
Cheguei bastante cedo ao Berlinale Palast para ver o filme do Jafar Panahi, e deixei-me ficar pelo foyer, por trás do pódio dos fotógrafos que querem apanhar as pessoas a entrar.
Lá fora, o director da Berlinale, o Dieter Kosslick, dava o braço a uma mulher de longa cabeleira loira, bem aconchegada num casaco de peles. Depois deu-lhe um beijinho, ela sentou-se numa cadeira de rodas, e foi empurrada pelo edifício adentro. Por cima dela, num patamar das escadas, vinham sons de muita agitação. Ela olhou para cima, sorriu, acenava com ambos os braços. Depois continuou na minha direcção. Parou em frente a uma câmara de televisão, uma assistente compôs-lhe o cabelo. Sorriu para as câmaras e para as pessoas que lhe pediam autógrafos.
- Quem é?, perguntou a senhora ao meu lado.
- Quem é?, perguntei eu a um homem que acabara de receber um autógrafo.
- A Anita Ekberg, do Dolce Vita!, respondeu-me.
A Anita Ekberg. O empurrador da cadeira parou junto às câmaras, mas ela resolveu ir andando, pé ante pé, sentada. Passou por mim com um ar divertido, rimos.
O homem reparou na fuga, largou a correr, tomou o comando. E lá foram eles.
Tenho andado nesta Berlinale sem máquina fotográfica, só com o meu telemóvel pré-histórico, e todos os dias me arrependo. Mas não aprendo.
Berlinale 2013 - Workers
Workers, de Jose Luis Valle, mostra cenas da banalidade da injustiça em certas situações laborais. Desenha com precisão e algum vagar o absurdo da vida de meia dúzia de trabalhadores dependentes da insensibilidade dos patrões, e descreve com artes de comédia negra a sua luta contra a prepotência dos poderosos.
Saí do cinema sentindo-me próxima desta gente, e admirando a sua humilde resiliência e tenacidade.
estranha coincidência
Num calendário de 2013, que já estava pronto desde Agosto de 2012, a folha de 10.02.2013 tinha um cartoon onde se via o Papa a ganhar o totoloto e a dizer "Santíssimo Caramba! Amanhã despeço-me!"
***
E por falar em totoloto: o diário berlinense Tagesspiegel dizia hoje que "se Ratzinger pedir uma boa reforma, com certeza que não lha negarão. Afinal de contas, os direitos dos seus livros são uma enorme ajuda para as contas deficitárias do Vaticano."
Berlinale 2013 - Mes Séances de Lutte
A nossa entrada no Friedrichstadt Palast coincidiu com a dos artistas. Vento e temperaturas negativas, nós dentro de casacos e gorros, a Sara Forrestier num vestido curto e sem costas. Brrrr. Parecia perdida e extraordinariamente frágil no meio do tapete vermelho e do frio, e escapou-se rapidamente para dentro do edifício.
Antes de começar o filme, o realizador Jacques Doillon avisou, na sua voz sossegada e envolvente: "Esta sala é demasiado grande para os meus filmes, eles não estão habituados a isto - espero que Mes Séances de Lutte não se assuste! Também espero que os actores, que neste filme aparecem em situações de grande intimidade, não fiquem assustados. Por isso vos peço: se gostarem do filme, contem a todos. Se não gostarem, não comentem nem com o vosso vizinho de cadeira."
Mes Séances de Lutte: "um surpreendente pas de deux", dizia o programa. Uma psicanálise que dá o corpo ao manifesto, e não apenas no divã, acrescentaria eu. Um filme inquietante, que nos leva a um interior em carne viva, onde a sede de amor se traduz em raiva funda e incapacidade para amar.
Apesar dos diálogos demasiado rápidos - ou os franceses são muito inteligentes e bem treinados para ouvirem dentro de si e responderem de rajada, ou então estamos perante teatro pouco convincente - é um belo exercício estético, muito bem filmado.
No final, o realizador foi de novo ao palco. Chamou os artistas - e eles foram, hesitantes: James Thiérrée com o braço sobre os ombros de uma Sara Forrestier completamente desfeita. Estava descalça, tinha um vestido leve, chorava. O público aplaudia com entusiasmo, ela dizia non-non-non, abanava a cabeça, limpava as lágrimas, cruzava os braços sobre o peito.
Desceram do palco, e nós parámos de bater palmas. Por respeito.
Desceram do palco, e nós parámos de bater palmas. Por respeito.
Berlinale 2013 - The Spirit of '45
Vou começar este post pelo fim, por uma frase de Ken Loach durante o debate com o público:
"O problema foi que passámos da propriedade privada para a máquina burocrática estatal, mas o povo não entendeu que era ele o proprietário."
Esta frase não me sai da cabeça: se tivéssemos tido consciência de que os hospitais, os comboios, a energia e a água, as empresas nacionalizadas depois do 25 de Abril, se tivéssemos tido consciência de que tudo isso são bens nossos, ao nosso serviço e ao serviço do país, e não "deles" - teríamos então agido como proprietários, recusando assistir em silêncio cúmplice aos mil actos quotidianos de corrupção, desperdício e má gestão?
Se tivéssemos consciência de que aqueles bens eram nossos, e ao serviço do futuro do nosso país, será que a nossa história teria sido diferente?
***
The Spirit of '45 é um documentário a preto e branco que nos lembra de onde viemos (um exemplo chocante, ainda normal em meados do séc. XX: quatro e cinco irmãos a dormir juntos numa cama cheia de baratas, a passar fome, e a apanhar reguadas na escola por não terem os joelhos limpos), o que conquistámos e o que perdemos. Se dúvidas houvesse, as múltiplas vagas de aplausos ao longo do filme deixariam bem provado que toca um nervo muito sensível do nosso tempo.
O documentário é um alerta e uma tomada de posição política, com imagens que parecem decalcadas do nosso futuro (como a cara das pessoas que esperam na fila para a sopa dos pobres) ou dos nossos dias (como esta frase de um político trabalhista, durante a campanha eleitoral de 1945: "vender papéis e mexê-los de um lado para o outro não cria riqueza" - que foi entusiasticamente aplaudida naquele cinema).
Mas deixa também uma margem para desconfiança: onde está o contexto? onde estão as informações suplementares? porque é que o povo inglês, que - a crer no filme - beneficiou tanto desta nova concepção de Estado, rapidamente trocou os Labour pelos Tories, e abriu caminho ao neoliberalismo da Thatcher? Como é que se passa do "todos com todos, o objectivo é o bem-estar nacional" para o "cada um por si, o objectivo é o lucro"?
Um filme indispensável: para ver e debater.
Berlinale 2013 (8)
Ofereci-me para comprar bilhetes para o Matthias e os amigos irem ver alguns filmes da Berlinale no próximo fim-de-semana. Ele levou o programa para a escola, falou com os amigos, mandou-me este sms:
"Cinco bilhetes para (1) Tough Bond, (2) Capturing Dad, (3) Baby Blues"
Comprei-lhes o primeiro da lista, Tough Bond, sobre meninos da rua no Quénia.
Espreitei também os outros, e gostei de ver que tipo de filmes interessaram estes miúdos de 15 e 16 anos. No meu tempo - no meu grupo, aos 15 anos - não era nada assim.
"Cinco bilhetes para (1) Tough Bond, (2) Capturing Dad, (3) Baby Blues"
Comprei-lhes o primeiro da lista, Tough Bond, sobre meninos da rua no Quénia.
Espreitei também os outros, e gostei de ver que tipo de filmes interessaram estes miúdos de 15 e 16 anos. No meu tempo - no meu grupo, aos 15 anos - não era nada assim.
12 fevereiro 2013
Berlinale 2013 - Gloria
O nosso jornal diário elogiava muito o filme Gloria ("momento alto da Berlinale", "a vez das mulheres", etc.) - o que me surpreendeu. Para mim, é um excelente filme de televisão, com uma boa história e uma formidável Paulina García. A sua personagem, Gloria, não nos deixará tão cedo - pela consciência da própria dignidade e pela auto-estima com que atravessa a solidão (mulheres vítimas de homens afectivamente preguiçosos e cobardes: uni-vos!).
Mas ainda não é "cinema". Ainda não é um Tabu, por exemplo.
três informações para portugueses que moram em Berlim
1.
Na próxima quinta-feira, 14 de Fevereiro, entre as 14:00 e as 16:00, vai haver um encontro para conversar com os participantes portugueses no Festival de Cinema.
Já estão confirmados os seguintes realizadores e produtores: Salomé Lamas (Terra de Ninguém), João Viana (A Batalha de Tabatô; Tabatô), Pedro Pinho e Leonor Noivo (Um Fim do Mundo) e Mariana Galvão.
O encontro realiza-se na Sala Simón Bolívar do Instituto Íbero-Americano de Berlim, e a entrada é gratuita.
Para mais informações: Berlinda.
Se tiverem tempo, era bom no fim irmos tomar um café com os portugueses recentemente chegados a Berlim e que se sentem um bocado isolados. Alguém alinha?
2.
Mensagem de Kuaaranii Berlin na página Portugeses em Berlim, no facebook:
A friend that does documentaries for RBB and Arte, is looking for greek, spanish, italian or portuguese young people with academic background who left their countries due to the crisis and arrived in Berlin in the last months and are working or learning german to be interviewed. From short interview to their day by day (preference if they have nothing against beeing filmed). If you are the one or you have friends that fit into this description, tell them to message me. :)
3.
PROCURA-SE PORTUGUÊS para um filme da Escola Superior de Cinema de Potsdam. A pessoa em questão deve ser do sexo masculino e ter entre 35 e 60 anos. Deve dizer umas (poucas) frases em alemão numa curta cena do filme, mas com sotaque português. O nível de alemão do candidato NÃO é importante! O trabalho é remunerado. Para mais informações, por favor enviar um email para: info@berlinda.org
Na próxima quinta-feira, 14 de Fevereiro, entre as 14:00 e as 16:00, vai haver um encontro para conversar com os participantes portugueses no Festival de Cinema.
Já estão confirmados os seguintes realizadores e produtores: Salomé Lamas (Terra de Ninguém), João Viana (A Batalha de Tabatô; Tabatô), Pedro Pinho e Leonor Noivo (Um Fim do Mundo) e Mariana Galvão.
O encontro realiza-se na Sala Simón Bolívar do Instituto Íbero-Americano de Berlim, e a entrada é gratuita.
Para mais informações: Berlinda.
Se tiverem tempo, era bom no fim irmos tomar um café com os portugueses recentemente chegados a Berlim e que se sentem um bocado isolados. Alguém alinha?
2.
Mensagem de Kuaaranii Berlin na página Portugeses em Berlim, no facebook:
A friend that does documentaries for RBB and Arte, is looking for greek, spanish, italian or portuguese young people with academic background who left their countries due to the crisis and arrived in Berlin in the last months and are working or learning german to be interviewed. From short interview to their day by day (preference if they have nothing against beeing filmed). If you are the one or you have friends that fit into this description, tell them to message me. :)
3.
PROCURA-SE PORTUGUÊS para um filme da Escola Superior de Cinema de Potsdam. A pessoa em questão deve ser do sexo masculino e ter entre 35 e 60 anos. Deve dizer umas (poucas) frases em alemão numa curta cena do filme, mas com sotaque português. O nível de alemão do candidato NÃO é importante! O trabalho é remunerado. Para mais informações, por favor enviar um email para: info@berlinda.org
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Berlinale 2013 (7)
Ontem estive mesmo ao lado do Ken Loach, que estava a dar autógrafos. Ainda pensei pedir-lhe um, mas optei por não juntar ainda mais tralha com valor afectivo, e ficámos assim. Ainda bem, porque esta manhã o Fox fez duas vezes cocó e eu só tinha levado um saco, pelo que tive de usar as únicas coisas que tinha nos bolsos: bilhetes da Berlinale - Gloria e The Spirit of '45.
Se fosse de filmes maus não me tinha custado tanto.
(Olha, olha... acabei de inventar uma espécie de critério para avaliar filmes - um dia destes ainda crio o Fox Award) (bem, por hoje chega de palermices escatológicas)
e você, o que pensou quando soube que Bento XVI ia renunciar ao cargo?
Eu pensei: "Não me digam que este também fez batota nos trabalhos académicos?!"
(Pois não me admiraria nada se os caçadores de plágios lhe descobrissem lacunas graves na distinção entre fontes primárias e secundárias, e até gostava de ver os jornalistas a entrevistar o Espírito Santo: "Sente-Se roubado? Tenciona processá-lo?")
(foto)
11 fevereiro 2013
Berlinale 2013 (6)
Ver um filme que acaba à uma da manhã, ir para casa, fazer um post sobre o filme, responder a um ou outro e-mail, ir dormir. Levantar no dia seguinte às sete da manhã para ir comprar mais bilhetes. Ir ver mais filmes. E, pelo meio, a vida real - o trabalho, o supermercado e as refeições, a família, os amigos, brincar com o cão e levá-lo à rua. Dias muito intensos - e visitados pela alegria.
Quando cheguei à fila da bilheteira, às oito da manhã, havia já dezenas de pessoas em pé à minha frente, e mais algumas espalhadas pela sala - as primeiras tinham vindo de madrugada, e esperaram fora do edifício, com neve e temperaturas negativas. Queriam bilhetes para o filme do Jude Law.
Olhei em volta, pensando numa maneira de me sentar sem perder o lugar na fila. Uma rapariga que estava sentada num dos cadeirões muito confortáveis do café, a dois metros da nossa fila, ofereceu-me o seu banquinho desdobrável. Agradeci, mas preferi ir buscar um cadeirão, muito mais agradável. Trouxe um para a minha vizinha, bastante mais velha que eu, e fui à mesa ao lado buscar outro para mim. Fiz a pergunta pro forma, "este cadeirão está vazio?" e a senhora sentada àquela mesa respondeu:
- De facto, está, mas não o pode levar.
- E porque não?
- Porque o lugar dele é aqui.
- Qual é a diferença entre estar aqui, ou a dois metros daqui?
Ela encolheu os ombros, embaraçada e vencida. Mais um choque cultural: cada povo tem comportamentos standard baseados em acordos tácitos, e não sabe como os defender dos invasores que têm outros standards.
Em menos de trinta segundos, outras pessoas da fila foram buscar todos os cadeirões ainda vazios. Ando a deseducar o povo alemão, é o que é.
Quando cheguei à fila da bilheteira, às oito da manhã, havia já dezenas de pessoas em pé à minha frente, e mais algumas espalhadas pela sala - as primeiras tinham vindo de madrugada, e esperaram fora do edifício, com neve e temperaturas negativas. Queriam bilhetes para o filme do Jude Law.
Olhei em volta, pensando numa maneira de me sentar sem perder o lugar na fila. Uma rapariga que estava sentada num dos cadeirões muito confortáveis do café, a dois metros da nossa fila, ofereceu-me o seu banquinho desdobrável. Agradeci, mas preferi ir buscar um cadeirão, muito mais agradável. Trouxe um para a minha vizinha, bastante mais velha que eu, e fui à mesa ao lado buscar outro para mim. Fiz a pergunta pro forma, "este cadeirão está vazio?" e a senhora sentada àquela mesa respondeu:
- De facto, está, mas não o pode levar.
- E porque não?
- Porque o lugar dele é aqui.
- Qual é a diferença entre estar aqui, ou a dois metros daqui?
Ela encolheu os ombros, embaraçada e vencida. Mais um choque cultural: cada povo tem comportamentos standard baseados em acordos tácitos, e não sabe como os defender dos invasores que têm outros standards.
Em menos de trinta segundos, outras pessoas da fila foram buscar todos os cadeirões ainda vazios. Ando a deseducar o povo alemão, é o que é.
10 fevereiro 2013
Berlinale 2013 - Shirley, visions of reality
(foto)
(foto)
Não é boa ideia ir ver este filme muito depois do jantar, tendo dormido menos de quatro horas na noite anterior. Eu que o diga. E não fui a única que bateu uma sonequinha - ou andam todos na mesma vida atribulada, ou então este filme devia ser vendido como tratamento para a insónia. Pelo menos para o tramento da insónia de filisteus como eu.
Era a première mundial do filme, até estava presente uma ministra austríaca (palmas para a ministra). A produtora estava muito nervosa, porque aquele era o momento que culminava oito anos de trabalho, porque o écrã do cinema era descomunal (23,5 x 12,7m), e portanto enfim (palmas para a produtora).
O filme começou, eu comecei a lutar contra o sono, os dois espectadores à minha esquerda perderam rapidamente o combate. Os da fila atrás também. Eu dormia aqui e ali, mas só por uns momentos - quando acordava, ainda estava na mesma cena, apenas duas ou três frases à frente.
Quando chegou ao fim, as palmas tardaram. Não me parece que este vá ganhar o prémio do público.
Shirley - Visions of Reality tem um extraordinário trabalho de iluminação, reproduzindo tão bem a geometria dos quadros de Hopper que cheguei a pensar que teriam pintado as próprias sombras no cenário. O mobiliário, feito em papier maché (segundo me pareceu), acentua o carácter de quadro vivo. As cenas vão-se sucedendo, quadro após quadro, antecedidas pelo anúncio da data (sempre o dia 28 de Agosto de algum ano entre 1928 e 1963) e um noticiário radiofónico do dia.
Ao longo desses trinta anos, a actriz praticamente não envelhece - o que me fez sorrir, lembrando que a modelo de Hopper era a sua própria mulher, e nos seus quadros atravessa as décadas com um um corpo à margem do tempo.
Escolhi esse filme porque a ideia me pareceu muito boa e as fotografias eram apelativas. Uma vez lá dentro, arrependi-me: Hopper é um pintor da solidão e do inalcançável. Ao dar voz aos habitantes dos seus quadros, destrói-se a irremediável solidão que é a sua marca. Ao inventar-lhes uma história, banalizam-se.
O filme começou, eu comecei a lutar contra o sono, os dois espectadores à minha esquerda perderam rapidamente o combate. Os da fila atrás também. Eu dormia aqui e ali, mas só por uns momentos - quando acordava, ainda estava na mesma cena, apenas duas ou três frases à frente.
Quando chegou ao fim, as palmas tardaram. Não me parece que este vá ganhar o prémio do público.
Shirley - Visions of Reality tem um extraordinário trabalho de iluminação, reproduzindo tão bem a geometria dos quadros de Hopper que cheguei a pensar que teriam pintado as próprias sombras no cenário. O mobiliário, feito em papier maché (segundo me pareceu), acentua o carácter de quadro vivo. As cenas vão-se sucedendo, quadro após quadro, antecedidas pelo anúncio da data (sempre o dia 28 de Agosto de algum ano entre 1928 e 1963) e um noticiário radiofónico do dia.
Ao longo desses trinta anos, a actriz praticamente não envelhece - o que me fez sorrir, lembrando que a modelo de Hopper era a sua própria mulher, e nos seus quadros atravessa as décadas com um um corpo à margem do tempo.
Escolhi esse filme porque a ideia me pareceu muito boa e as fotografias eram apelativas. Uma vez lá dentro, arrependi-me: Hopper é um pintor da solidão e do inalcançável. Ao dar voz aos habitantes dos seus quadros, destrói-se a irremediável solidão que é a sua marca. Ao inventar-lhes uma história, banalizam-se.
saltar etapas na carreira académica
A propósito deste texto do Ferreira Fernandes, no qual ele chama "prof. dr." à Annette Schavan, aqui ficam duas informações (e o comentário que não consigo calar) (hehehe) (depois quando chegar ao inferno não vou gostar, mas por enquanto vai-me sabendo bem...)
Primeira informação: a Annette Schavan não é "prof. dr.", é (era) apenas "doktor". Em Portugal, a licenciatura basta para chegar ao "dr.". Na Alemanha, o título "doktor" é conquistado com um trabalho de investigação (Promovierung) feito ao longo da licenciatura ou no fim dela. A Annette Schavan fez esse trabalho segundo um regime existente na altura, que permitia aos melhores alunos (e apenas a esses) trocar o exame final do curso por um trabalho de investigação e a consequente publicação. Ao ver anulado o trabalho (e o título), perdeu também a licenciatura.
Segunda informação: a hierarquia de títulos académicos na Alemanha é assim:
- Doktor (acima do "dr." português, mas não "professor" - nem sequer dá direito a ser docente nas Universidades)
- Dr. habil. (depois da "Habilitation")
- Privatdozent
- Prof. Dr.
Em suma: o Ferreira Fernandes saltou três etapas da carreira académica. O que não devia ser motivo de admiração: num país onde o Relvas é licenciado.
***
Adenda em 11.02.12: na sequência de comentários de amigos que entendem muito mais disto que eu, fiz algumas correcções a este post.
***
Nova adenda: acabei de descobrir que no próprio gabinete ministerial consta como "Prof. Dr. Annette Schavan".
As minhas desculpas ao Ferreira Fernandes.
(talvez fosse boa ideia eu apagar este post e ir mazé comprar bilhetes para a Berlinale...)
Primeira informação: a Annette Schavan não é "prof. dr.", é (era) apenas "doktor". Em Portugal, a licenciatura basta para chegar ao "dr.". Na Alemanha, o título "doktor" é conquistado com um trabalho de investigação (Promovierung) feito ao longo da licenciatura ou no fim dela. A Annette Schavan fez esse trabalho segundo um regime existente na altura, que permitia aos melhores alunos (e apenas a esses) trocar o exame final do curso por um trabalho de investigação e a consequente publicação. Ao ver anulado o trabalho (e o título), perdeu também a licenciatura.
Segunda informação: a hierarquia de títulos académicos na Alemanha é assim:
- Doktor (acima do "dr." português, mas não "professor" - nem sequer dá direito a ser docente nas Universidades)
- Dr. habil. (depois da "Habilitation")
- Privatdozent
- Prof. Dr.
Em suma: o Ferreira Fernandes saltou três etapas da carreira académica. O que não devia ser motivo de admiração: num país onde o Relvas é licenciado.
***
Adenda em 11.02.12: na sequência de comentários de amigos que entendem muito mais disto que eu, fiz algumas correcções a este post.
***
Nova adenda: acabei de descobrir que no próprio gabinete ministerial consta como "Prof. Dr. Annette Schavan".
As minhas desculpas ao Ferreira Fernandes.
(talvez fosse boa ideia eu apagar este post e ir mazé comprar bilhetes para a Berlinale...)
09 fevereiro 2013
Berlinale 2013 - Terra de Ninguém
(fotos)
Não sei para que me deu este ano, que tenho andado a ir à Berlinale apanhar tareias consecutivas.
Ontem em Gaza, hoje nas recordações escabrosas de um habitante da Terra de Ninguém.
Durante o filme, pensei muito num amigo de família, entretanto falecido, que tinha estado nos Comandos: tinha frequentemente pesadelos, e nunca contou o que acontecera na guerra. Lembrei-me da actriz palestiniana de Rock the Casbah: "na guerra, todos perdem". Quis muito ver a cara que a Salomé Lamas estaria a fazer enquanto o entrevistado contava aquelas atrocidades (para quando um "Terra de Ninguém - o outro lado"?)
A sala estava praticamente cheia, o público deixou-se ficar para a conversa com a realizadora e o produtor.
A Salomé Lamas falou da cadeira como o assento do réu, ou do condenado à morte. Curioso: quando a vi pela primeira vez, pensei num trono. E continuo a concordar comigo: aquele homem é o rei e senhor da sua terra, e aquela cadeira é o centro do seu poder.
***
O homem que fala português, que conheci na primeira das esperas para comprar bilhetes e se sentou ao meu lado na Maison de la Radio, esta manhã estava de novo na fila, e hoje à tarde estava sentado duas filas à minha frente. No fim, reparei que deixou cair as protecções auriculares dos seus head-phones. Ainda pensei levá-las comigo, porque o mais provável é continuar e encontrá-lo várias vezes por dia. Mas preferi deixá-las no balcão dos perdidos e achados.
Annette Schavan já não é ministra - inúmeros alemães estão inconsoláveis
A 5 de Fevereiro a Universidade anunciou a intenção de retirar o título académico à ministra da Educação. Esta estava em viagem à África do Sul. O assunto foi adiado até sexta-feira, dia 8, data em que regressaria a Berlim e falaria com a chanceler. Hoje, dia 9 de Fevereiro, demitiu-se.
Ora bem: isto não se faz ao povo alemão!
O Carnaval está aí à porta, os carros dos cortejos já estão preparados, idem para as máscaras e os textos da paródia.
Não podiam ter esperado ao menos até quarta-feira de cinzas? Tinham mesmo de resolver a questão em quatro dias, era assim tão impensável esperar uma semanita?
(foto)
ADENDA: Compare-se a entrada "Annette Schavan" na wikipedia em português e em alemão. É extraordinário.
Berlinale 2013 - Rock the Casbah
Ao fim de cinco minutos, já eu me perguntava: "como é que arranjaste - logo tu, que andas há séculos a evitar o Soldado Ryan! - como é que arranjaste de te vir meter no horror de Gaza?!"
Rock the Casbah é aquilo que tinha de ser: um retrato cru das situações absurdas criadas por aquela guerra. Com um ou outro toque de humor (parece que os não israelitas não se dão conta de praticamente nenhuma das piadas), com um ou outro rasgo de humanidade. Um filme atravessado pela violência e pelo ódio, que termina como começou: num beco sem saída.
No fim, o palco encheu-se: realizador, produtor, vários actores. Gente bem-disposta, bastante à vontade. O realizador quis contar um momento das filmagens: quando, no fim de uma cena particularmente violenta, em que miúdos palestinianos atiravam pedras aos soldados, ele gritou "corta!", os miúdos palestinianos vieram pedir desculpa aos actores israelitas.
À pergunta sobre as suas motivações para fazer este filme, respondeu: "Venho de uma família muito da esquerda. Depois de ter feito os meus dois anos de serviço militar, quando voltei a casa a minha mãe referia-se a mim como "vocês, os animais". Quis mostrar-lhe como era a nossa vida, com que tipo de situações nos víamos confrontados." No fim, pensei perguntar-lhe se a mãe dele tinha ficado satisfeita, mas preferi ficar calada.
Ele próprio está muito satisfeito, porque o filme tem dado muito que falar, e tanto os palestinianos como os israelitas sentem que não representa condignamente as suas razões.
A actriz palestiniana acrescentou: era importante fazer este filme para mostrar que na guerra em curso ninguém vence.
Alguém do público comentou: "é uma pena que vocês ("you") não estejam no governo israelita" e o actor que tinha naquele momento o microfone retorquiu: "quem, eu?" - e pôs-se logo com pose de estadista. Todos riram.
Em resposta à sugestão do apresentador, se não queria passar o filme em Gaza, o realizador até ficou gago. "Em Gaza?!", como quem diz "você está maluco?!" Acrescenta que gostaria muito, mas que é impossível, por todos os motivos, e mais este: no filme, os soldados israelitas adoptam um cão, a quem põem o nome "Arafat" - em Gaza, isso seria motivo para serem linchados.
Saímos da sala misturados com eles. Para o Matthias, era a primeira vez que saía de uma sala de cinema ao lado dos actores do filme que tinha acabado de ver. Estava um bocadinho impressionado. Deixou-se convencer a ir pedir autógrafos, mas escolheu apenas o seu actor preferido, um dos actores secundários. O actor ficou surpreendido, e foi - obviamente - muito simpático.
Depois viemos para casa - já passava da uma da manhã.
08 fevereiro 2013
Berlinale 2013 - La Maison de la Radio
Apaixonei-me na primeira cena - uma veterana explica a um estagiário o que é que não funciona no trabalho que ele preparou - e dali para a frente, quase não parei de sorrir. Volta e meia a sala inteira ria, eu também. E depois recomeçava a sorrir.
Às vezes perde o ritmo, mas é uma delícia de um documentário sobre o amor à rádio, e aos profissionais que a fazem, e à competência e inteligência com que a fazem.
***
Como o mundo é muito grande, e a Berlinale apresenta mais de 400 filmes, quem estava sentado ao meu lado, naquele cinema com centenas de lugares, era o homem que falava um bocadinho de português, com quem tinha passado duas horas na fila para a caixa três dias atrás.
***
Fixei estes nomes:
- Maia Vidal
- Antonio Placer
(escolhi os vídeos a toda a velocidade, porque já estou outra vez atrasada: agora mesmo um jantar com ex-diplomatas na China, e a seguir outro filme)
07 fevereiro 2013
Berlinale 2013 (5)
Esta manhã estava descansadamente a tomar o pequeno-almoço, pensando que às dez compraria na internet The Spirit of '45 e mainada, quando dei uma olhadela para a minha agenda desta semana: "ai! Gloria! O filme chileno de que se está a falar tanto!" O dia de ficar descansadinha em casa era amanhã, hoje era para ir a toda a velocidade para a fila dos bilhetes.
Duche a correr, vestir a correr, passear o Fox devagar, correr para a bilheteira mais próxima da minha casa (há três em Berlim). Cheguei lá às oito e meia, havia quase 60 pessoas à minha frente.
Sentei-me no chão a ler um livro chamado "101 arménios famosos" (ninguém sabe, mas um dia ainda hei-de ir ao "quem quer ser milionário", e já me estou a preparar para as perguntas do milhão). Talvez tenha visto mal, ainda vou verificar de novo, mas parece-me que o livro é mais "cem arménios famosos e uma arménia famosa" - uma cantora. Em milhares de anos de história só uma mulher se conseguiu evidenciar? Muito estranho. Não sei se tire conclusões sobre o povo, se sobre o autor do livro.
Pouco antes das dez da manhã um dos responsáveis daquele núcleo da Berlinale saltou para cima de uma mesa. Às primeiras palavras com o seu vozeirão, quente e seguro, extinguiu-se a barulheira na sala. "Por favor, digam-nos o número do filme que querem ver", dizia ele, "quem o número indica, crises de nervos nos evita" - a sala toda em gargalhadas. Também explicou o mais importante: que se podia pagar com cartão, e que cada pessoa só podia comprar dois bilhetes por filme.
Calou-se, desceu da mesa. As pessoas que tinham chegado por volta das quatro da manhã e se tinham espalhado pelos sofás da sala vieram para os seus lugares em frente às caixas. Toc toc toc, sobe o pano. O rapaz ao meu lado comentou, muito aflito, que vinha para comprar dez bilhetes para Naked Opera, e que não sabia que havia esse limite. Ofereci-me para lhe comprar dois. O nome do filme não me era estranho - vi-o no programa, imaginei que seria sobre as modernas encenações de ópera, e ignorei-o. Afinal não é nada disso. O rapaz estava a comprar bilhetes para um grupo de amigos, porque a realizadora morara durante uns tempos no apartamento comunitário deles. Ontem, uma pessoa na fila era amiga da actriz, outra era amiga do operador de câmara do mesmo filme; hoje era este que tinha partilhado a casa com a realizadora: pergunto-me se os filmes deste festival são todos feitos em Berlim...
À nossa frente havia um grupo muito animado. Estavam ali desde as seis da manhã, sei lá quantos litros de café já teriam emborcado. Uma das senhoras conhecia o rapaz do Naked Opera, começou-lhe a contar que tinha tirado três dias de férias para a Berlinale, e que vinha todos os dias bem cedo para comprar bilhetes, que era cansativo mas "cult", que o grupinho das madrugadas já se conhecia... Disse ainda que entre as sete e as oito não aparece ninguém, e pôs-me a fazer contas de cabeça: no sábado e no domingo, ou vou mesmo às seis e meia da manhã, ou então também posso aparecer só às oito. Ai a tentação.
As caixas abriram. Naked Opera ficou imediatamente em amarelo, e nós a trinta minutos da caixa. Disse ao vizinho que mais valia ele ir pedir aos primeiros da fila que lhe comprassem esses bilhetes. Ele começou a recolher o dinheiro que já espalhara nas redondezas, e foi levá-lo mais à frente. A fila ia avançando, e o meu vizinho fartou-se de carregar o saco e o casaco naquelas intermináveis filas em S. Deixou-os no chão. Daí a nada começaram a chegar os da frente, "tenho aqui os seus dois bilhetes", "oh, obrigado!". Até que uma disse "Já só havia um", e ele ficou pasmado, a olhar para os sete que lhe tinham arranjado. Ao fim de uns minutos perguntei-lhe se queria comprar mais bilhetes, e ele:
- Não, só queria estes.
- Então o que é que está a fazer aqui?
- Pois é...
Guardou os bilhetes no bolso, despediu-se, foi-se embora.
- Não se esqueça do seu saco, gritou-lhe a mulher ao meu lado. Ele voltou atrás, e apanhou o saco.
- E do casaco, acrescentei eu. Ele apanhou o casaco. Por acaso agora pergunto-me se se terá lembrado de ir recolher o dinheiro do último par de bilhetes.
As pessoas começaram a falar sobre os filmes que queriam ver. "O Casablanca e o russo", dizia alguém. "Eu é mesmo só o indonésio", respondia outro. E controlavam: "ainda está verde, parece que vamos ter sorte."
Finalmente chegou a minha vez. Gloria, há muito em amarelo. Disse o número, a vendedora olhou para o computador, engoliu em seco... mas afinal ainda havia bilhetes. Caramba, se eu lhe disse o número, porque é que ela quase me ia provocando uma crise de nervos? O cuidado com o estado de ansiedade das pessoas devia ser recíproco.
- E quais são os outros números?, perguntou.
Olhei para a minha folha.
- Era só este, obrigada.
Senti-me frustrada. Correria, e duas horas na fila, para dois míseros bilhetes?
Tenho de falar com os amigos, para comprar também para eles. Duas horas para um único filme é uma produtividade muito reduzida.
Ao chegar a casa tinha uma newsletter a informar que o Dial M for Murder, do Hitchcock, vem com uma novidade: 3D. A Grace Kelly em 3D?! Lá vou eu rever a minha tabela.
contagem decrescente
Tal como o Público conta hoje, Angela Merkel mantém "total confiança" na ministra alemã da Educação, após esta ter perdido o título académico de doutoramento (recebido há 33 anos) devido a plágio.
Ontem, no noticiário da ZDF das 21:45, o tema foi tratado de uma forma que me surpreendeu tanto, que me dei ao trabalho de traduzir para aqui (já sabem: raaapido, raaapido).
O apresentador Claus Kleber começou assim:
"Boa noite. Se há 33 anos Annette Schavan, num assomo de loucura, tivesse matado o seu orientador de tese, em vez de fazer batota com citações, esse crime, entretanto, já teria prescrito. O crime de não pôr aspas em citações não prescreve nunca. Pode-se discutir se é justo, mas é a Lei. Um pequeno pé-de-página: a comparação com o homicídio não é da minha autoria - tem surgido muitas vezes no actual debate. A ministra da Educação vai perder duas letras, D e R, tal como foi decidido pela sua Universidade. Annette Schavan vai recorrer aos tribunais, mas com poucas hipóteses de ganhar, segundo dizem alguns juristas com experiência nestas áreas, porque os tribunais não costumam decidir contra o parecer das universidades. Levanta-se a questão de saber se a ministra, até agora muito apreciada por todos, ainda é politicamente viável. Em Berlim, o debate está cada vez mais aceso."
A seguir, passam uma curtíssima reportagem de Annette Schavan durante a sua viagem à África do Sul. Dizem que a ministra se sente atingida em cheio, e que vai lutar pelo seu lugar e sobretudo pelo seu bom-nome. A sua breve declaração às câmaras de TV: "Não aceito a decisão da Universidade, vou recorrer aos tribunais. Dado encontrar-me em conflito jurídico com essa Universidade, peço que compreendam que não farei mais declarações sobre o assunto. Muito obrigada"
No filme pergunta-se: depois destas acusações de plágio, será que a representante suprema da Educação e da Ciência no nosso país ainda pode manter esse posto?
Aparece então a imagem do porta-voz da Chancelaria, que afirma que a chanceler tem "toda a confiança" na ministra, a qual tem feito um excelente trabalho, e que após o regresso desta da viagem à África do Sul terão a oportunidade de conversar calmamente sobre o assunto. Comentário do jornalista: "Isto soa a recuo organizado. Merkel já deixou cair Röntgen, zu Guttenberg e Wulff depois de lhes ter oferecido o seu apoio. A ministra e a chanceler são amigas, mas Merkel é também pragmática, e vai deixá-la cair se se der conta que o caso lhe pode sair caro nas eleições que se aproximam."
Falam ainda da reacção bastante discreta de outros ministros, e lembram que, no caso zu Guttenberg, Annette Schavan não foi nada discreta. Na altura, a ministra atingiu-o profundamente com a frase "não consigo esconder que me sinto envergonhada". Pouco depois ele demitia-se, e toda a Alemanha viu imagens do sorrisinho que Merkel e Schavan trocaram quando a chanceler recebeu por sms a notícia da sua demissão (na imagem acima, fonte: Bild). A CSU, o partido da coligação ao qual Guttenberg pertence, não lhe perdoou essas atitudes.
A reportagem continua: Schavan gosta de falar em rendimento, excelência e elite. Como é que uma pessoa acusada de aldrabar poderá continuar a falar nestes termos? Tornou-se o flanco descoberto do seu partido, num difícil ano de eleições. A oposição já começou a afiar as facas. Andrea Nahles, dos socialistas, exige a sua demissão por já não poder ser um modelo. [Um dia antes, Sigmar Gabriel, presidente do SPD, tinha dito, como reacção à notícia da decisão da Universidade, que lamentava imenso, porque "todos temos a maior consideração pelo trabalho e pela competência de Annette Schavan", ou algo parecido. Gostei de ver.]
Annette Schavan pode recorrer da decisão, mas o tempo da Justiça é muito mais lento que o tempo da Política. A decisão sobre o seu cargo está adiada apenas até sexta-feira, dia em que ela regressa de África.
O noticiário prossegue com uma entrevista a Bernhard Kemper, que fala em nome dos cientistas alemães. As respostas dele são as óbvias, mas as perguntas com que Claus Kleber lhe interrompe o discurso são impressionantes:
- Parece-lhe que era mesmo inevitável retirar-lhe o título?
- Perguntando de outro modo: teria sido possível evitar?
- Podemos pensar que a Universidade também tem culpa, porque era obrigação do orientador da tese dar-se conta que a doutoranda estava a copiar descaradamente uma grande quantidade de textos. Como pode a Universidade julgar, se também falhou?
- Para os cientistas alemães é completamente impensável que uma ministra, cuja competência tem sido largamente apreciada, se mantenha no cargo devido a um erro que cometeu há mais de trinta anos?
- Trinta anos de trabalho com tanto sucesso justamente na área da Ciência e da Investigação não deviam valer mais do que isso? Parece-lhe que os actuais doutorandos vão sofrer dores de alma por saber que a ministra cometeu esses erros nessa fase da sua vida?
A câmara passa para o repórter em Berlim: os membros do governo mantêm-se em silêncio, para respeitar Annette Schavan e para não dar ainda mais que falar. Mas também nenhum abre a boca para afirmar que ela deve continuar no lugar. Lembra ainda que a "inteira confiança" da chanceler vale pouco: zu Guttenberg também tinha a sua "inteira confiança" pouco antes de se ver obrigado a demitir-se. No fim, serão pesados os interesses, e será tomada uma decisão. Berlim está a ganhar algum tempo, esperando pelo fim da viagem à África do Sul, mas mal a ministra regresse haverá uma conversa com a chanceler e a decisão será tomada.
**
Estava capaz de apostar que o caso não se arrasta sequer até Sábado. E tenho pena. Compreendo que tenha de ser, mas a Alemanha vai perder uma excelente ministra.
Já não é a primeira vez: há alguns anos, perdeu uma excelente representante das Igrejas Protestantes, que ia a conduzir embriagada. Nessa altura, as pessoas chegaram a ir para a igreja rezar para que ela não se demitisse.
Isto é um país engraçado.
06 fevereiro 2013
mais alguém se comoveu com a abertura do Super Bowl 2013...
...quando os alunos da Sandy Hook Elementary School Newtown cantaram "America the Beautiful"? E quando a eles se juntou Jennifer Hudson, que em 2008 perdeu a mãe, o irmão e o sobrinho - mortos a tiro pelo ex-cunhado?
A Alicia Keys também esteve excelente. Mas foi apenas excelente, não foi tocante.
E já que estou a falar do Super Bowl 2013, ora façam favor:
A Alicia Keys também esteve excelente. Mas foi apenas excelente, não foi tocante.
E já que estou a falar do Super Bowl 2013, ora façam favor:
Berlinale 2013 (4)
(foto)
Os bilhetes para o Terra de Ninguém já cá cantam, ufff.
Mas é claro que os lugares para a estreia de Gold, o western alemão com a Nina Hoss, esgotaram muito antes de eu começar a ver o branco do olho do senhor da caixa. Adiante.
Também arranjei bilhetes para Shirley - Visions of Reality, e Mes Seances de Lutte, sem saber bem o que nos espera. Veremos. Literalmente.
Esta manhã as pessoas da fila estavam muito conversadoras. Havia a senhora de certa idade que só queria comprar um bilhete para um filme, e era porque uma amiga dela aparecia nele. Mesmo atrás dela um rapaz comentou que tinha participado na produção, que também queria ver esse. A mulher que chegou logo a seguir a mim, uma jovem muito elegante, ia tentar ver o filme russo e precisava de quem lhe comprasse um terceiro bilhete. Disse-lhe que também tinha pensado ver esse, mas estava ainda em dúvida, e perguntei porque é que ela o achava interessante. Ela respondeu com um sorriso "porque sou russa". Ah, bom. O homem atrás dela falava português (só o suficiente para se armar um bocadinho). A mulher à minha frente era filha de um grego e uma inglesa. Pouco antes da abertura das caixas, às dez da manhã, um do funcionários veio falar com o jovem que tinha participado no tal filme, e este deu-lhe vinte euros. Nós começámos todos a rir, o funcionário disse com uma piscadela de olhos "era dinheiro que ele me devia" e nós respondemos que também lhe queríamos dever dinheiro, eu cá até estava disposta a dever-lhe cinquenta euros. Galhofa geral. A senhora de casaco claro afligia-se toda ao telefone "então a première não é às duas da tarde?", perguntava ela, e eu a deduzir que estava a confundir (como eu, quando era nova) o P de Presse com première. Desligou o telemóvel, expliquei-lhe. A russa começou a temer que não houvesse bilhetes para o Dolgaya-coiso quando chegasse a vez dela. Falámos de outras possibilidades. O homem que falava português ouviu-me dizer "Shirley" e meteu-se na conversa, perguntou se já conhecíamos o Cinestar Event, onde esse filme vai passar, disse que deve ter o maior ecrã de Berlim a seguir ao Friedrichsstadt Palast, mas este ainda tem o palco à frente. Ah, muito me conta. Disse que esse filme tem mais de vinte anos, e que já viu alguns episódios. Para intelectuais, confirmou. Pois, que isto é a Berlinale!, acrescentou. Agora vejo que se enganou um pouco: o filme é de 2012. A anglo-helénica (será assim que se diz?) estava interessada no Rock the Casbah, que eu vou ver na sexta-feira. Falámos um bocadinho de Israel e da Palestina, ela dizia que a indústria do armamento ganha tanto dinheiro com aquele conflito, que ele não vai acabar nunca. Eu não iria tão longe - estava apenas a pensar que este é mais um daqueles filmes em que se percebem os dois lados, se percebem as razões dos dois lados, mas a realidade é que as pessoas continuam a morrer, e é na morte que recebem a razão absoluta, que de nada lhes aproveita. E nós continuamos a ver estes filmes e a sofrer com eles.
Estávamos cada vez mais perto da caixa. No ecrã, havia já muitos filmes com vermelho e amarelo. Ai. A russa combinou comigo um plano B, caso o Dolgoya-coiso de Sábado esgotasse. O filme da amiga da actriz esgotou, e ela desapareceu da cena. A grega pediu-me que lhe comprasse mais um bilhete. O homem dos filmes intelectuais enfiou o nariz no programa. Eu apercebi-me - pouco antes de saltar para a caixa - que o filme polaco "W imie", sobre um padre que pelos vistos esconde de si próprio que tem tendências homossexuais, ainda tinha bilhetes para o sábado de manhã. Compro? Não compro? Felizmente lembrei-me a tempo que no sábado de manhã vou estar na fila a tentar comprar bilhetes para o Pardé, do Jafar Panahi. É que nem pensar em perder esse!
Depois fomos cada um para a sua caixa, a grega-inglesa passou por mim e segredou "aquele que te pedi já está esgotado, adeus!", a russa pagou-me os bilhetes que comprei para ela e agradeceu dez vezes, e fomos à vida.
Amanhã há mais.
Heleninha tenta uma incursão na área "blogger da moda"
PS, só para a minha Penélope: muito obrigada! Espero que tenhas ficado satisfeita com o resultado. Eu gosto tanto, que o Matthias começa a duvidar da minha sanidade mental: "mãe, porque é que estás de gorro ao computador?"
05 fevereiro 2013
Berlinale 2013 (3)
Telefono a uma amiga, trocamos informações sobre os filmes. O Night Train to Lisbon, com o Jeremy Irons, já está esgotado. Só há uma hipótese: a première, que começam a vender no domingo. Combinamos que no Domingo vamos às sete da manhã (pois...) para a caixa, discutimos ainda se é melhor na Potsdamer Platz (pode-se esperar no quentinho) ou na Haus der Berliner Festspiele (sabe-se lá a que horas abrem!). Decidimos que, se queremos mesmo os bilhetes, vai ter de ser ao frio, para estarmos entre os primeiros a chegar às caixas quando elas abrirem, às dez. Na Potsdamer Platz vai haver inclusivamente gente a dormir lá a noite toda, as filas vão ser muito maiores.
E quando está tudo muito bem combinado, e eu sei o que vou fazer no próximo Domingo entre as, digamos, sete e as onze da madrugada, recebo uma mensagem: acabei de receber dois bilhetes para a matinée de Domingo na Konzerhaus, com o Xavier de Maistre, que transformou o concerto de Haydn para piano e orquestra num concerto de Haydn para harpa e orquestra. Que é para os levantar às dez da manhã, no centro da cidade. E que os bilhetes incluem pequeno-almoço ao som de música de Mozart.
Esta cidade não podia viver em modo ceteris paribus? Quando há Berlinale, o resto devia parar.
É que não dou vazão.
E quando está tudo muito bem combinado, e eu sei o que vou fazer no próximo Domingo entre as, digamos, sete e as onze da madrugada, recebo uma mensagem: acabei de receber dois bilhetes para a matinée de Domingo na Konzerhaus, com o Xavier de Maistre, que transformou o concerto de Haydn para piano e orquestra num concerto de Haydn para harpa e orquestra. Que é para os levantar às dez da manhã, no centro da cidade. E que os bilhetes incluem pequeno-almoço ao som de música de Mozart.
Esta cidade não podia viver em modo ceteris paribus? Quando há Berlinale, o resto devia parar.
É que não dou vazão.
Berlinale 2013 (2)
Já cá cantam os primeiros bilhetinhos:
1. La Maison de la Radio, entre outras coisas porque tenho saudades da Rita.
Ao meter os filmes no calendário, o segundo susto: ai! nessa noite tenho um jantar para comemorar o ano novo chinês! Um grupinho de antigos diplomatas alemães na China, e eu. Por sorte começa às sete da tarde, e o filme é só às dez e meia. O pior que pode acontecer é eu ter de dizer "ó senhor embaixador, se quiser a minha sobremesa pode ficar com ela, excelência, que eu agora tenho de me pôr a andar". A minha vida dava um filme. Cómico.
3. Don Jon's Addiction.
Faz-me pensar no Shame, mas provavelmente não passa de um mero Embarrassment.
1. La Maison de la Radio, entre outras coisas porque tenho saudades da Rita.
2. Rock the Casbah, pensando que estava a comprar Inch'Allah. O stress daquela fila em frente à caixa, eu a ver os filmes da minha lista a desaparecerem um após o outro (também ninguém me manda querer ir a todas as premières no palácio da Berlinale, vá), a tentar gerir as três revistas que me dão as informações necessárias, "se este filme não dá, então vou antes àquele, ai, aquele também está esgotado, deixa cá ver, então..."
Em todo o caso, não é grave: afinal de contas, queria ir ver os dois.
Em todo o caso, não é grave: afinal de contas, queria ir ver os dois.
Ao meter os filmes no calendário, o segundo susto: ai! nessa noite tenho um jantar para comemorar o ano novo chinês! Um grupinho de antigos diplomatas alemães na China, e eu. Por sorte começa às sete da tarde, e o filme é só às dez e meia. O pior que pode acontecer é eu ter de dizer "ó senhor embaixador, se quiser a minha sobremesa pode ficar com ela, excelência, que eu agora tenho de me pôr a andar". A minha vida dava um filme. Cómico.
3. Don Jon's Addiction.
Faz-me pensar no Shame, mas provavelmente não passa de um mero Embarrassment.
04 fevereiro 2013
Berlinale 2013
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Berlinale 2013 |
Já comecei com quatro dias de atraso: só hoje, ao fim da tarde, fui buscar o programa que já estava disponível desde sexta-feira passada. Tem cem páginas só de informações sobre os filmes. Leio e vou anotando no segundo caderno, o que tem "apenas" trinta páginas com o programa repartido pelos dez dias e os cinemas.
A Berlinale acaba a 17 de Fevereiro, mas algo me diz que só terei terminado este trabalho lá para princípios de Março. E é se me despachar.
Rosa Parks - 1 de Dezembro de 1955
A Joana Lopes conta:
Rosa Parks nasceu em 4 de Fevereiro de 1913 e morreu em 2005. Ficará para sempre como um dos símbolos do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, juntamente com Martin Luther King, e ficou famosa por ter recusado ceder o seu lugar no autocarro a um branco, no dia 1 de Dezembro de 1955. Foi então presa mas, em poucos dias, os negros de Montgomery organizaram um boicote à discriminação nos autocarros, que durou um ano, e ganharam a batalha. Até aí, eram obrigados a ocupar os lugares traseiros e a cedê-los aos brancos se o autocarro enchia.
Em 1955 era já praticamente o meu tempo - nasci oito anos depois. Mas parece-me um tempo tão remoto!
Ou talvez não...
1. Há meia dúzia de semanas, um amigo meu, mestiço, tentou a noite berlinense. Foi-lhe recusada a entrada em cinco bares consecutivos. Eram três amigos: um branco, um preto, um mestiço - todos com curso universitário e bons empregos, bem vestidos. Para não haver dúvidas, no quinto bar o branco do trio foi à frente, e não houve problema. Mas quando disse "ah, aqueles dois também estão comigo" a porta fechou-se outra vez.
O nosso amigo comentava: "se fosse na província... mas em Berlim?!"
Eu acrescento: é muito triste ele já ter aceitado que na província tem de se sujeitar a estas humilhações, e é muito triste eu ter explicitado que os três têm bons empregos - como se o que se esperasse de um preto é que tivesse um mau emprego e um estilo que não prestigia um bar.
2. Uma amiga contou-me que durante uns tempos usou como fotografia no facebook a imagem de uma artista africana. O tom daqueles que não a conheciam pessoalmente mudou logo. Começaram a tratá-la de forma bruta, arrogante e desrespeitosa.
Rosa sat...
"Rosa sat, so Martin could walk
Martin walked so Barack could run
Barack ran so all our children could fly"
Rosa Parks faria hoje 100 anos.
pode alguém ser quem não é?
O Filipe Nunes Vicente passou este vídeo no Declínio e Queda, com as perguntas:
O que achas? Perdoar ou não?
Este vídeo incomoda-me, porque me parece artificial: "pode alguém ser quem não é?"
Resumidamente: o assassino entra na igreja para deixar uma coroa de flores junto aos caixões daqueles que matou (hipocrisia, ou arrependimento?) e a miúda que assistiu ao brutal assassínio dos pais resolve perdoar e oferecer um abraço ao assassino porque "talvez tenha levado muita pancada em criança" e "Deus não quer que matemos, porque todos somos seus filhos".
Que ela não o mate, ou aos seus filhos, ainda entendo. Mas de onde vêm este perdão e este abraço?
O perdão é a resposta a um profundo arrependimento, ou um acto unilateral?
Qual é a ideia de fazer um filme destes? Parece-me que transforma o "ama o teu próximo como a ti próprio" num "ama o teu próximo e desama-te a ti próprio" - o catolicismo como apelo à abnegação, à negação de si próprio; o bom cristão como alguém que sublima a "fome e sede de Justiça", transformando-as neste perdão automático para todas as pessoas e todos os crimes.
Isto é um caminho de salvação, ou uma alienação?
***
Voltando ao terreno da realidade: será que este assassino se vai deixar converter pelo gesto da órfã, ou vai agarrar nela e metê-la no bordel da esquina?
Como responder a este convite ao amor infinito dos filhos de Deus com gestos de obreiros da Paz, e não de lorpas conformados?
03 fevereiro 2013
outras maneiras de estar na cultura
Esta manhã fomos à Komische Oper comprar roupa de espectáculos passados, e esta tarde fomos ao mesmo teatro assistir à ópera Aufstieg und Fall der Stadt Mahagony, com texto de Brecht e música de Weill.
Dei comigo a olhar para os vestidos e a pensar: qual deles compraria?
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viver em Berlim
era só para tirar uma fotografia para o facebook...
Esta manhã levantámo-nos cedinho e fomos para a Komische Oper, que estava a vender roupas de espectáculos passados numa sala do foyer, e a servir bons pequenos-almoços na outra.
O Joachim queria uma roupa de pirata, e eu fui com ele como conselheira de moda (por estas e por outras, às vezes penso que devia ter um blogue...) e por causa do pequeno-almoço.
Num dos cabides, um grupo de vestidos chamava a atenção de todos, mas ninguém pensava comprar. Nem eu, que só vesti um por brincadeira, para fazer uma foto para o facebook. Eu com ele vestido, o Joachim a fotografar, nós os dois a rir do disparate. Depois eu com um casaco cheio de cobras por cima do corpinho nu, e mais risota.
À volta do Joachim fez-se um ajuntamento, parecia uma conferência de imprensa: imensas máquinas fotográficas viradas a mim, e uns repórteres de um jornal berlinense a pedir-me uma pequena entrevista. Para fazerem uma fotografia para o jornal pediram-me que fosse para o meio do foyer, e eu fui, sempre a rir, porque - dentro do vestido e sem me ver ao espelho - não me dava inteiramente conta da figura que estava a fazer. Foi então que, ao passar em frente às escadas onde uma enorme fila de pessoas esperavam a sua vez para entrar, vi pela primeira vez o olhar cobiçoso e despudorado dos homens perante uma mulher transformada em objecto. Não foi bonito.
Não comprei o vestido, mas devia ter comprado: armada com ele, e com uma máquina fotográfica escondida, podia fazer um magnífico álbum de retratos da miséria estampada no rosto humano. Os homens saberão a triste figura que fazem quando se esquecem que por trás de um corpo há uma pessoa que os vê?
**
A Komische Oper também me podia dar uma comissão pela publicidade: quando experimentei o vestido ainda não tinham vendido nenhum. Quando o fui devolver, já só sobravam dois.
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viver em Berlim
02 fevereiro 2013
quantos golpes é que a Democracia aguenta, aguenta?
No dia 30 de Janeiro de 2013, quando fazia 80 anos que Hitler tinha chegado ao poder, um dos noticiários alemães (penso que foi o Heute, o noticiário de meia hora, às 21:45) falava do fim da Democracia da República de Weimar, o período nazi e o longo caminho para a Democracia, a partir de 1945. A seguir, passou imagens das demonstrações e da violência em Atenas, e perguntou: será a Democracia alemã estável? Será que a nossa Democracia resistirá, em caso de recessão e pobreza? Ou podemos vir a assistir a cenas como estas nas nossas ruas?
Mesmo em tempo de vacas gordas, nas regiões menos ricas deste país já há uma percentagem demasiado alta de eleitores de extrema-direita e extrema-esquerda.
Por seu lado, em Portugal, neste tempo de vacas magras, multiplicam-se os desabafos do género "não há ninguém que lhe dê um tiro?"
É indispensável que todos - os que fazem jogatanas partidárias, os que aparecem a largar opiniões nos meios de comunicação social, os que aparecem nos cafés ou no facebook a sugerir métodos sui generis de participar na coisa pública - que todos nós tenhamos bem presente que o nosso rumo é a construção de uma Democracia estável e saudável, e que não podemos nunca perdê-lo de vista. Mesmo se somos desempregados a desabafar no facebook, mesmo se somos famosos e ricos, mesmo se nos sentimos cheios de razão e inimputáveis.
(foto)
01 fevereiro 2013
para ver amanhã (Sábado) o concerto do Dudamel e do Lang Lang na Filarmónica de Berlim
Muito fácil: vão para o Digital Concert Hall (a partir das zero horas de Sábado, ou seja, imediatamente), e escrevam DUDAMEL79X na caixa do "voucher code". Os primeiros mil a inscrever-se (agora são os primeiros 999, que eu já lá estive) podem ver gratuitamente o concerto em directo (às 19 horas em Portugal), e durante as 48 horas seguintes à activação do código também podem espreitar os concertos do arquivo. O voucher é válido apenas para este fim-de-semana.
BERLINER PHILHARMONIKER
GUSTAVO DUDAMEL Conductor
LANG LANG Piano
Samuel Barber
Adagio for Strings
Béla Bartók
Piano Concerto No. 2
Richard Strauss
Don Juan
Richard Strauss
Till Eulenspiegel's Merry Pranks
boas maneiras
Ninguém me disse como é que neste séc. XXI se faz quando um homem e uma mulher se aproximam ao mesmo tempo de uma porta, de modo que ontem fui ao meu jantar de VIPs muito atrapalhada, tratando de não ter nenhum homem por perto quando tinha de passar de uma sala para a outra.
Tudo acabou em bem, sem qualquer percalço, entrei sozinha e saí com mulheres, ufff!
Se tivesse reino, há dias em que estaria capaz de o trocar por uma ilha deserta e sem portas. Quer dizer: se não tivesse portas já não precisava de ser deserta.
Ou então, trocava o meu reino pelo Begijnhof.
Bom, esqueçam - tenho de pensar um bocadinho melhor nisso tudo.
O jantar foi no Hotel Pestana Tiergarten. O que se segue não é publicidade paga (antes fosse...), é apenas surpresa e gratidão.
Era um Jantar de Perdição, no qual se falava do famoso livro do Camilo Castelo Branco, e se comiam comidas afrodisíacas. Até avisaram que ainda havia quartos disponíveis, ah, os malandros não dão ponto sem nó.
Olhei para a ementa, e apanhei um susto: sopa com amêndoas torradas, risoto com castanhas de caju, mousse de chocolate com noz. Não posso comer nada disso. De modo que pedi ao empregado de mesa que ao menos não deitassem as amêndoas na minha sopa. Eu tiraria depois as castanhas de caju do arroz (encomendando a minha alma, pelo sim pelo não), e da sobremesa só comeria o ananás com coco. Daí a nada chegou a minha sopa sem amêndoa, quando estava à espera do risoto-seja-o-que-Deus-quiser ele apareceu-me com um risoto sem castanhas de caju (o que significa que foi feito exclusivamente para mim), em vez da mousse veio um iogurte com frutos do bosque.
Boas maneiras é isto. Hotel Pestana Tiergarten forever!
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