13 fevereiro 2013

estranha coincidência


Num calendário de 2013, que já estava pronto desde Agosto de 2012, a folha de 10.02.2013 tinha um cartoon onde se via o Papa a ganhar o totoloto e a dizer "Santíssimo Caramba! Amanhã despeço-me!"

***

E por falar em totoloto: o diário berlinense Tagesspiegel dizia hoje que "se Ratzinger pedir uma boa reforma, com certeza que não lha negarão. Afinal de contas, os direitos dos seus livros são uma enorme ajuda para as contas deficitárias do Vaticano."


Berlinale 2013 - Mes Séances de Lutte



A nossa entrada no Friedrichstadt Palast coincidiu com a dos artistas. Vento e temperaturas negativas, nós dentro de casacos e gorros, a Sara Forrestier num vestido curto e sem costas. Brrrr. Parecia perdida e extraordinariamente frágil no meio do tapete vermelho e do frio, e escapou-se rapidamente para dentro do edifício.

Antes de começar o filme, o realizador Jacques Doillon avisou, na sua voz sossegada e envolvente: "Esta sala é demasiado grande para os meus filmes, eles não estão habituados a isto - espero que Mes Séances de Lutte não se assuste! Também espero que os actores, que neste filme aparecem em situações de grande intimidade, não fiquem assustados. Por isso vos peço: se gostarem do filme, contem a todos. Se não gostarem, não comentem nem com o vosso vizinho de cadeira."

Mes Séances de Lutte: "um surpreendente pas de deux", dizia o programa. Uma psicanálise que dá o corpo ao manifesto, e não apenas no divã, acrescentaria eu. Um filme inquietante, que nos leva a um interior em carne viva, onde a sede de amor se traduz em raiva funda e incapacidade para amar.
Apesar dos diálogos demasiado rápidos - ou os franceses são muito inteligentes e bem treinados para ouvirem dentro de si e responderem de rajada, ou então estamos perante teatro pouco convincente - é um belo exercício estético, muito bem filmado.

No final, o realizador foi de novo ao palco. Chamou os artistas - e eles foram, hesitantes: James Thiérrée com o braço sobre os ombros de uma Sara Forrestier completamente desfeita. Estava descalça, tinha um vestido leve, chorava. O público aplaudia com entusiasmo, ela dizia non-non-non, abanava a cabeça, limpava as lágrimas, cruzava os braços sobre o peito.
Desceram do palco, e nós parámos de bater palmas. Por respeito. 

Berlinale 2013 - The Spirit of '45



Vou começar este post pelo fim, por uma frase de Ken Loach durante o debate com o público:
"O problema foi que passámos da propriedade privada para a máquina burocrática estatal, mas o povo não entendeu que era ele o proprietário."
Esta frase não me sai da cabeça: se tivéssemos tido consciência de que os hospitais, os comboios, a energia e a água, as empresas nacionalizadas depois do 25 de Abril, se tivéssemos tido consciência de que tudo isso são bens nossos, ao nosso serviço e ao serviço do país, e não "deles" - teríamos então agido como proprietários, recusando assistir em silêncio cúmplice aos mil actos quotidianos de corrupção, desperdício e má gestão?
Se tivéssemos consciência de que aqueles bens eram nossos, e ao serviço do futuro do nosso país, será que a nossa história teria sido diferente?

***

The Spirit of '45 é um documentário a preto e branco que nos lembra de onde viemos (um exemplo chocante, ainda normal em meados do séc. XX: quatro e cinco irmãos a dormir juntos numa cama cheia de baratas, a passar fome, e a apanhar reguadas na escola por não terem os joelhos limpos), o que conquistámos e o que perdemos. Se dúvidas houvesse, as múltiplas vagas de aplausos ao longo do filme deixariam bem provado que toca um nervo muito sensível do nosso tempo.

O documentário é um alerta e uma tomada de posição política, com imagens que parecem decalcadas do nosso futuro (como a cara das pessoas que esperam na fila para a sopa dos pobres) ou dos nossos dias (como esta frase de um político trabalhista, durante a campanha eleitoral de 1945: "vender papéis e mexê-los de um lado para o outro não cria riqueza" - que foi entusiasticamente aplaudida naquele cinema).

Mas deixa também uma margem para desconfiança: onde está o contexto? onde estão as informações suplementares? porque é que o povo inglês, que - a crer no filme - beneficiou tanto desta nova concepção de Estado, rapidamente trocou os Labour pelos Tories, e abriu caminho ao neoliberalismo da Thatcher? Como é que se passa do "todos com todos, o objectivo é o bem-estar nacional" para o "cada um por si, o objectivo é o lucro"?

Um filme indispensável: para ver e debater.

Berlinale 2013 (8)

Ofereci-me para comprar bilhetes para o Matthias e os amigos irem ver alguns filmes da Berlinale no próximo fim-de-semana. Ele levou o programa para a escola, falou com os amigos, mandou-me este sms:

"Cinco bilhetes para (1) Tough Bond, (2) Capturing Dad, (3) Baby Blues"

Comprei-lhes o primeiro da lista, Tough Bond, sobre meninos da rua no Quénia.
Espreitei também os outros, e gostei de ver que tipo de filmes interessaram estes miúdos de 15 e 16 anos. No meu tempo - no meu grupo, aos 15 anos - não era nada assim.


12 fevereiro 2013

Berlinale 2013 - Gloria



O nosso jornal diário elogiava muito o filme Gloria ("momento alto da Berlinale", "a vez das mulheres", etc.) - o que me surpreendeu. Para mim, é um excelente filme de televisão, com uma boa história e uma formidável Paulina García. A sua personagem, Gloria, não nos deixará tão cedo - pela consciência da própria dignidade e pela auto-estima com que atravessa a solidão (mulheres vítimas de homens afectivamente preguiçosos e cobardes: uni-vos!).
Mas ainda não é "cinema". Ainda não é um Tabu, por exemplo.

três informações para portugueses que moram em Berlim

1.
Na próxima quinta-feira, 14 de Fevereiro, entre as 14:00 e as 16:00, vai haver um encontro para conversar com os participantes portugueses no Festival de Cinema.
Já estão confirmados os seguintes realizadores e produtores: Salomé Lamas (Terra de Ninguém), João Viana (A Batalha de Tabatô; Tabatô), Pedro Pinho e Leonor Noivo (Um Fim do Mundo) e Mariana Galvão.
O encontro realiza-se na Sala Simón Bolívar do Instituto Íbero-Americano de Berlim, e a entrada é gratuita.
Para mais informações: Berlinda.

Se tiverem tempo, era bom no fim irmos tomar um café com os portugueses recentemente chegados a Berlim e que se sentem um bocado isolados. Alguém alinha?


2.
Mensagem de Kuaaranii Berlin na página Portugeses em Berlim, no facebook:
A friend that does documentaries for RBB and Arte, is looking for greek, spanish, italian or portuguese young people with academic background who left their countries due to the crisis and arrived in Berlin in the last months and are working or learning german to be interviewed. From short interview to their day by day (preference if they have nothing against beeing filmed). If you are the one or you have friends that fit into this description, tell them to message me. :)

3.
PROCURA-SE PORTUGUÊS para um filme da Escola Superior de Cinema de Potsdam. A pessoa em questão deve ser do sexo masculino e ter entre 35 e 60 anos. Deve dizer umas (poucas) frases em alemão numa curta cena do filme, mas com sotaque português. O nível de alemão do candidato NÃO é importante! O trabalho é remunerado. Para mais informações, por favor enviar um email para: info@berlinda.org

Berlinale 2013 (7)



Ontem estive mesmo ao lado do Ken Loach, que estava a dar autógrafos. Ainda pensei pedir-lhe um, mas optei por não juntar ainda mais tralha com valor afectivo, e ficámos assim. Ainda bem, porque esta manhã o Fox fez duas vezes cocó e eu só tinha levado um saco, pelo que tive de usar as únicas coisas que tinha nos bolsos: bilhetes da Berlinale - Gloria e The Spirit of '45.
Se fosse de filmes maus não me tinha custado tanto.

(Olha, olha... acabei de inventar uma espécie de critério para avaliar filmes - um dia destes ainda crio o Fox Award) (bem, por hoje chega de palermices escatológicas)

e você, o que pensou quando soube que Bento XVI ia renunciar ao cargo?


Eu pensei: "Não me digam que este também fez batota nos trabalhos académicos?!"

(Pois não me admiraria nada se os caçadores de plágios lhe descobrissem lacunas graves na distinção entre fontes primárias e secundárias, e até gostava de ver os jornalistas a entrevistar o Espírito Santo: "Sente-Se roubado? Tenciona processá-lo?")

(foto)

11 fevereiro 2013

Berlinale 2013 (6)

Ver um filme que acaba à uma da manhã, ir para casa, fazer um post sobre o filme, responder a um ou outro e-mail, ir dormir. Levantar no dia seguinte às sete da manhã para ir comprar mais bilhetes. Ir ver mais filmes. E, pelo meio, a vida real - o trabalho, o supermercado e as refeições, a família, os amigos, brincar com o cão e levá-lo à rua. Dias muito intensos  - e visitados pela alegria.

Quando cheguei à fila da bilheteira, às oito da manhã, havia já dezenas de pessoas em pé à minha frente, e mais algumas espalhadas pela sala - as primeiras tinham vindo de madrugada, e esperaram fora do edifício, com neve e temperaturas negativas. Queriam bilhetes para o filme do Jude Law.
Olhei em volta, pensando numa maneira de me sentar sem perder o lugar na fila. Uma rapariga que estava sentada num dos cadeirões muito confortáveis do café, a dois metros da nossa fila, ofereceu-me o seu banquinho desdobrável. Agradeci, mas preferi ir buscar um cadeirão, muito mais agradável. Trouxe um para a minha vizinha, bastante mais velha que eu, e fui à mesa ao lado buscar outro para mim. Fiz a pergunta pro forma, "este cadeirão está vazio?" e a senhora sentada àquela mesa respondeu:
- De facto, está, mas não o pode levar.
- E porque não?
- Porque o lugar dele é aqui.
- Qual é a diferença entre estar aqui, ou a dois metros daqui?
Ela encolheu os ombros, embaraçada e vencida. Mais um choque cultural: cada povo tem comportamentos standard baseados em acordos tácitos, e não sabe como os defender dos invasores que têm outros standards.
Em menos de trinta segundos, outras pessoas da fila foram buscar todos os cadeirões ainda vazios. Ando a deseducar o povo alemão, é o que é.



10 fevereiro 2013

Berlinale 2013 - Shirley, visions of reality

(foto)

(foto)


Não é boa ideia ir ver este filme muito depois do jantar, tendo dormido menos de quatro horas na noite anterior. Eu que o diga. E não fui a única que bateu uma sonequinha - ou andam todos na mesma vida atribulada, ou então este filme devia ser vendido como tratamento para a insónia. Pelo menos para o tramento da insónia de filisteus como eu. 

Era a première mundial do filme, até estava presente uma ministra austríaca (palmas para a ministra). A produtora estava muito nervosa, porque aquele era o momento que culminava oito anos de trabalho, porque o écrã do cinema era descomunal (23,5 x 12,7m), e portanto enfim (palmas para a produtora).

O filme começou, eu comecei a lutar contra o sono, os dois espectadores à minha esquerda perderam rapidamente o combate. Os da fila atrás também. Eu dormia aqui e ali, mas só por uns momentos - quando acordava, ainda estava na mesma cena, apenas duas ou três frases à frente.

Quando chegou ao fim, as palmas tardaram. Não me parece que este vá ganhar o prémio do público.

Shirley - Visions of Reality tem um extraordinário trabalho de iluminação, reproduzindo tão bem a geometria dos quadros de Hopper que cheguei a pensar que teriam pintado as próprias sombras no cenário. O mobiliário, feito em papier maché (segundo me pareceu), acentua o carácter de quadro vivo. As cenas vão-se sucedendo, quadro após quadro, antecedidas pelo anúncio da data (sempre o dia 28 de Agosto de algum ano entre 1928 e 1963) e um noticiário radiofónico do dia.
Ao longo desses trinta anos, a actriz praticamente não envelhece - o que me fez sorrir, lembrando que a modelo de Hopper era a sua própria mulher, e nos seus quadros atravessa as décadas com um um corpo à margem do tempo.

Escolhi esse filme porque a ideia me pareceu muito boa e as fotografias eram apelativas. Uma vez lá dentro, arrependi-me: Hopper é um pintor da solidão e do inalcançável. Ao dar voz aos habitantes dos seus quadros, destrói-se a irremediável solidão que é a sua marca. Ao inventar-lhes uma história, banalizam-se.  

saltar etapas na carreira académica

A propósito deste texto do Ferreira Fernandes, no qual ele chama "prof. dr." à Annette Schavan, aqui ficam duas informações (e o comentário que não consigo calar) (hehehe) (depois quando chegar ao inferno não vou gostar, mas por enquanto vai-me sabendo bem...)


Primeira informação: a Annette Schavan não é "prof. dr.", é (era) apenas "doktor". Em Portugal, a licenciatura basta para chegar ao "dr.". Na Alemanha, o título "doktor" é conquistado com um trabalho de investigação (Promovierung) feito ao longo da licenciatura ou no fim dela. A Annette Schavan fez esse trabalho segundo um regime existente na altura, que permitia aos melhores alunos (e apenas a esses) trocar o exame final do curso por um trabalho de investigação e a consequente publicação. Ao ver anulado o trabalho (e o título), perdeu também a licenciatura.

Segunda informação: a hierarquia de títulos académicos na Alemanha é assim:
- Doktor (acima do "dr." português, mas não "professor" - nem sequer dá direito a ser docente nas Universidades)
- Dr. habil. (depois da "Habilitation")
- Privatdozent
- Prof. Dr.

Em suma: o Ferreira Fernandes saltou três etapas da carreira académica. O que não devia ser motivo de admiração: num país onde o Relvas é licenciado.

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Adenda em 11.02.12: na sequência de comentários de amigos que entendem muito mais disto que eu, fiz algumas correcções a este post.

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Nova adenda: acabei de descobrir que no próprio gabinete ministerial consta como "Prof. Dr. Annette Schavan".
As minhas desculpas ao Ferreira Fernandes.

(talvez fosse boa ideia eu apagar este post e ir mazé comprar bilhetes para a Berlinale...)

09 fevereiro 2013

Berlinale 2013 - Terra de Ninguém


(fotos)


Não sei para que me deu este ano, que tenho andado a ir à Berlinale apanhar tareias consecutivas.
Ontem em Gaza, hoje nas recordações escabrosas de um habitante da Terra de Ninguém.

Durante o filme, pensei muito num amigo de família, entretanto falecido, que tinha estado nos Comandos: tinha frequentemente pesadelos, e nunca contou o que acontecera na guerra. Lembrei-me da actriz palestiniana de Rock the Casbah: "na guerra, todos perdem". Quis muito ver a cara que a Salomé Lamas estaria a fazer enquanto o entrevistado contava aquelas atrocidades (para quando um "Terra de Ninguém - o outro lado"?)


A sala estava praticamente cheia, o público deixou-se ficar para a conversa com a realizadora e o produtor.

A Salomé Lamas falou da cadeira como o assento do réu, ou do condenado à morte. Curioso: quando a vi pela primeira vez, pensei num trono. E continuo a concordar comigo: aquele homem é o rei  e senhor da sua terra, e aquela cadeira é o centro do seu poder.


***

O homem que fala português, que conheci na primeira das esperas para comprar bilhetes e se sentou ao meu lado na Maison de la Radio, esta manhã estava de novo na fila, e hoje à tarde estava sentado duas filas à minha frente. No fim, reparei que deixou cair as protecções auriculares dos seus head-phones. Ainda pensei levá-las comigo, porque o mais provável é continuar e encontrá-lo várias vezes por dia. Mas preferi deixá-las no balcão dos perdidos e achados.


Annette Schavan já não é ministra - inúmeros alemães estão inconsoláveis


A 5 de Fevereiro a Universidade anunciou a intenção de retirar o título académico à ministra da Educação. Esta estava em viagem à África do Sul. O assunto foi adiado até sexta-feira, dia 8, data em que regressaria a Berlim e falaria com a chanceler. Hoje, dia 9 de Fevereiro, demitiu-se.

Ora bem: isto não se faz ao povo alemão!
O Carnaval está aí à porta, os carros dos cortejos já estão preparados, idem para as máscaras e os textos da paródia.
Não podiam ter esperado ao menos até quarta-feira de cinzas? Tinham mesmo de resolver a questão em quatro dias, era assim tão impensável esperar uma semanita?

(foto)

ADENDA: Compare-se a entrada "Annette Schavan" na wikipedia em português e em alemão. É extraordinário.

Berlinale 2013 - Rock the Casbah



Ao fim de cinco minutos, já eu me perguntava: "como é que arranjaste - logo tu, que andas há séculos a evitar o Soldado Ryan! - como é que arranjaste de te vir meter no horror de Gaza?!"

Rock the Casbah é aquilo que tinha de ser: um retrato cru das situações absurdas criadas por aquela guerra. Com um ou outro toque de humor (parece que os não israelitas não se dão conta de praticamente nenhuma das piadas), com um ou outro rasgo de humanidade. Um filme atravessado pela violência e pelo ódio, que termina como começou: num beco sem saída.

No fim, o palco encheu-se: realizador, produtor, vários actores. Gente bem-disposta, bastante à vontade. O realizador quis contar um momento das filmagens: quando, no fim de uma cena particularmente violenta, em que miúdos palestinianos atiravam pedras aos soldados, ele gritou "corta!", os miúdos palestinianos vieram pedir desculpa aos actores israelitas.
À pergunta sobre as suas motivações para fazer este filme, respondeu: "Venho de uma família muito da esquerda. Depois de ter feito os meus dois anos de serviço militar, quando voltei a casa a minha mãe referia-se a mim como "vocês, os animais". Quis mostrar-lhe como era a nossa vida, com que tipo de situações nos víamos confrontados." No fim, pensei perguntar-lhe se a mãe dele tinha ficado satisfeita, mas preferi ficar calada.
Ele próprio está muito satisfeito, porque o filme tem dado muito que falar, e tanto os palestinianos como os israelitas sentem que não representa condignamente as suas razões.
A actriz palestiniana acrescentou: era importante fazer este filme para mostrar que na guerra em curso ninguém vence.
Alguém do público comentou: "é uma pena que vocês ("you") não estejam no governo israelita" e o actor que tinha naquele momento o microfone retorquiu: "quem, eu?" - e pôs-se logo com pose de estadista. Todos riram.
Em resposta à sugestão do apresentador, se não queria passar o filme em Gaza, o realizador até ficou gago. "Em Gaza?!", como quem diz "você está maluco?!" Acrescenta que gostaria muito, mas que é impossível, por todos os motivos, e mais este: no filme, os soldados israelitas adoptam um cão, a quem põem o nome "Arafat" - em Gaza, isso seria motivo para serem linchados.

Saímos da sala misturados com eles. Para o Matthias, era a primeira vez que saía de uma sala de cinema ao lado dos actores do filme que tinha acabado de ver. Estava um bocadinho impressionado. Deixou-se convencer a ir pedir autógrafos, mas escolheu apenas o seu actor preferido, um dos actores secundários. O actor ficou surpreendido, e foi - obviamente - muito simpático.

Depois viemos para casa - já passava da uma da manhã.

08 fevereiro 2013

Berlinale 2013 - La Maison de la Radio



Apaixonei-me na primeira cena - uma veterana explica a um estagiário o que é que não funciona no trabalho que ele preparou - e dali para a frente, quase não parei de sorrir. Volta e meia a sala inteira ria, eu também. E depois recomeçava a sorrir.

Às vezes perde o ritmo, mas é uma delícia de um documentário sobre o amor à rádio, e aos profissionais que a fazem, e à competência e inteligência com que a fazem.

***

Como o mundo é muito grande, e a Berlinale apresenta mais de 400 filmes, quem estava sentado ao meu lado, naquele cinema com centenas de lugares, era o homem que falava um bocadinho de português, com quem tinha passado duas horas na fila para a caixa três dias atrás.

***

Fixei estes nomes:

- Maia Vidal



- Antonio Placer



(escolhi os vídeos a toda a velocidade, porque já estou outra vez atrasada: agora mesmo um jantar com ex-diplomatas na China, e a seguir outro filme)


07 fevereiro 2013

Berlinale 2013 (5)



Esta manhã estava descansadamente a tomar o pequeno-almoço, pensando que às dez compraria na internet The Spirit of '45 e mainada, quando dei uma olhadela para a minha agenda desta semana: "ai! Gloria! O filme chileno de que se está a falar tanto!" O dia de ficar descansadinha em casa era amanhã, hoje era para ir a toda a velocidade para a fila dos bilhetes.
Duche a correr, vestir a correr, passear o Fox devagar, correr para a bilheteira mais próxima da minha casa (há três em Berlim). Cheguei lá às oito e meia, havia quase 60 pessoas à minha frente.
Sentei-me no chão a ler um livro chamado "101 arménios famosos" (ninguém sabe, mas um dia ainda hei-de ir ao "quem quer ser milionário", e já me estou a preparar para as perguntas do milhão). Talvez tenha visto mal, ainda vou verificar de novo, mas parece-me que o livro é mais "cem arménios famosos e uma arménia famosa" - uma cantora. Em milhares de anos de história só uma mulher se conseguiu evidenciar? Muito estranho. Não sei se tire conclusões sobre o povo, se sobre o autor do livro.
Pouco antes das dez da manhã um dos responsáveis daquele núcleo da Berlinale saltou para cima de uma mesa. Às primeiras palavras com o seu vozeirão, quente e seguro, extinguiu-se a barulheira na sala. "Por favor, digam-nos o número do filme que querem ver", dizia ele, "quem o número indica, crises de nervos nos evita" - a sala toda em gargalhadas. Também explicou o mais importante: que se podia pagar com cartão, e que cada pessoa só podia comprar dois bilhetes por filme.
Calou-se, desceu da mesa. As pessoas que tinham chegado por volta das quatro da manhã e se tinham espalhado pelos sofás da sala vieram para os seus lugares em frente às caixas. Toc toc toc, sobe o pano. O rapaz ao meu lado comentou, muito aflito, que vinha para comprar dez bilhetes para Naked Opera, e que não sabia que havia esse limite. Ofereci-me para lhe comprar dois. O nome do filme não me era estranho - vi-o no programa, imaginei que seria sobre as modernas encenações de ópera, e ignorei-o. Afinal não é nada disso. O rapaz estava a comprar bilhetes para um grupo de amigos, porque a realizadora morara durante uns tempos no apartamento comunitário deles. Ontem, uma pessoa na fila era amiga da actriz, outra era amiga do operador de câmara do mesmo filme; hoje era este que tinha partilhado a casa com a realizadora: pergunto-me se os filmes deste festival são todos feitos em Berlim...
À nossa frente havia um grupo muito animado. Estavam ali desde as seis da manhã, sei lá quantos litros de café já teriam emborcado. Uma das senhoras conhecia o rapaz do Naked Opera, começou-lhe a contar que tinha tirado três dias de férias para a Berlinale, e que vinha todos os dias bem cedo para comprar bilhetes, que era cansativo mas "cult", que o grupinho das madrugadas já se conhecia... Disse ainda que entre as sete e as oito não aparece ninguém, e pôs-me a fazer contas de cabeça: no sábado e no domingo, ou vou mesmo às seis e meia da manhã, ou então também posso aparecer só às oito. Ai a tentação.
As caixas abriram. Naked Opera ficou imediatamente em amarelo, e nós a trinta minutos da caixa. Disse ao vizinho que mais valia ele ir pedir aos primeiros da fila que lhe comprassem esses bilhetes. Ele começou a recolher o dinheiro que já espalhara nas redondezas, e foi levá-lo mais à frente. A fila ia avançando, e o meu vizinho fartou-se de carregar o saco e o casaco naquelas intermináveis filas em S. Deixou-os no chão. Daí a nada começaram a chegar os da frente, "tenho aqui os seus dois bilhetes", "oh, obrigado!". Até que uma disse "Já só havia um", e ele ficou pasmado, a olhar para os sete que lhe tinham arranjado. Ao fim de uns minutos perguntei-lhe se queria comprar mais bilhetes, e ele:
- Não, só queria estes.
- Então o que é que está a fazer aqui?
- Pois é...
Guardou os bilhetes no bolso, despediu-se, foi-se embora.
- Não se esqueça do seu saco, gritou-lhe a mulher ao meu lado. Ele voltou atrás, e apanhou o saco.
- E do casaco, acrescentei eu. Ele apanhou o casaco. Por acaso agora pergunto-me se se terá lembrado de ir recolher o dinheiro do último par de bilhetes.
As pessoas começaram a falar sobre os filmes que queriam ver. "O Casablanca e o russo", dizia alguém. "Eu é mesmo só o indonésio", respondia outro. E controlavam: "ainda está verde, parece que vamos ter sorte."
Finalmente chegou a minha vez. Gloria, há muito em amarelo. Disse o número, a vendedora olhou para o computador, engoliu em seco... mas afinal ainda havia bilhetes. Caramba, se eu lhe disse o número, porque é que ela quase me ia provocando uma crise de nervos? O cuidado com o estado de ansiedade das pessoas devia ser recíproco.
- E quais são os outros números?, perguntou.
Olhei para a minha folha.
- Era só este, obrigada.
Senti-me frustrada. Correria, e duas horas na fila, para dois míseros bilhetes?
Tenho de falar com os amigos, para comprar também para eles. Duas horas para um único filme é uma produtividade muito reduzida.

Ao chegar a casa tinha uma newsletter a informar que o Dial M for Murder, do Hitchcock, vem com uma novidade: 3D. A Grace Kelly em 3D?! Lá vou eu rever a minha tabela.

contagem decrescente



Tal como o Público conta hoje, Angela Merkel mantém "total confiança" na ministra alemã da Educação, após esta ter perdido o título académico de doutoramento (recebido há 33 anos) devido a plágio.

Ontem, no noticiário da ZDF das 21:45, o tema foi tratado de uma forma que me surpreendeu tanto, que me dei ao trabalho de traduzir para aqui (já sabem: raaapido, raaapido).

O apresentador Claus Kleber começou assim:

"Boa noite. Se há 33 anos Annette Schavan, num assomo de loucura, tivesse matado o seu orientador de tese, em vez de fazer batota com citações, esse crime, entretanto, já teria prescrito. O crime de não pôr aspas em citações não prescreve nunca. Pode-se discutir se é justo, mas é a Lei. Um pequeno pé-de-página: a comparação com o homicídio não é da minha autoria - tem surgido muitas vezes no actual debate. A ministra da Educação vai perder duas letras, D e R, tal como foi decidido pela sua Universidade. Annette Schavan vai recorrer aos tribunais, mas com poucas hipóteses de ganhar, segundo dizem alguns juristas com experiência nestas áreas, porque os tribunais não costumam decidir contra o parecer das universidades. Levanta-se a questão de saber se a ministra, até agora muito apreciada por todos, ainda é politicamente viável. Em Berlim, o debate está cada vez mais aceso."

A seguir, passam uma curtíssima reportagem de Annette Schavan durante a sua viagem à África do Sul. Dizem que a ministra se sente atingida em cheio, e que vai lutar pelo seu lugar e sobretudo pelo seu bom-nome. A sua breve declaração às câmaras de TV: "Não aceito a decisão da Universidade, vou recorrer aos tribunais. Dado encontrar-me em conflito jurídico com essa Universidade, peço que compreendam que não farei mais declarações sobre o assunto. Muito obrigada"
No filme pergunta-se: depois destas acusações de plágio, será que a representante suprema da Educação e da Ciência no nosso país ainda pode manter esse posto?
Aparece então a imagem do porta-voz da Chancelaria, que afirma que a chanceler tem "toda a confiança" na ministra, a qual tem feito um excelente trabalho, e que após o regresso desta da viagem à África do Sul terão a oportunidade de conversar calmamente sobre o assunto. Comentário do jornalista: "Isto soa a recuo organizado. Merkel já deixou cair Röntgen, zu Guttenberg e Wulff depois de lhes ter oferecido o seu apoio. A ministra e a chanceler são amigas, mas Merkel é também pragmática, e vai deixá-la cair se se der conta que o caso lhe pode sair caro nas eleições que se aproximam."

Falam ainda da reacção bastante discreta de outros ministros, e lembram que, no caso zu Guttenberg, Annette Schavan não foi nada discreta. Na altura, a ministra atingiu-o profundamente com a frase "não consigo esconder que me sinto envergonhada". Pouco depois ele demitia-se, e toda a Alemanha viu imagens do sorrisinho que Merkel e Schavan trocaram quando a chanceler recebeu por sms a notícia da sua demissão (na imagem acima, fonte: Bild). A CSU, o partido da coligação ao qual Guttenberg pertence, não lhe perdoou essas atitudes.
A reportagem continua: Schavan gosta de falar em rendimento, excelência e elite. Como é que uma pessoa acusada de aldrabar poderá continuar a falar nestes termos? Tornou-se o flanco descoberto do seu partido, num difícil ano de eleições. A oposição já começou a afiar as facas. Andrea Nahles, dos socialistas, exige a sua demissão por já não poder ser um modelo. [Um dia antes, Sigmar Gabriel, presidente do SPD, tinha dito, como reacção à notícia da decisão da Universidade, que lamentava imenso, porque "todos temos a maior consideração  pelo trabalho e pela competência de Annette Schavan", ou algo parecido. Gostei de ver.]
Annette Schavan pode recorrer da decisão, mas o tempo da Justiça é muito mais lento que o tempo da Política. A decisão sobre o seu cargo está adiada apenas até sexta-feira, dia em que ela regressa de África.

O noticiário prossegue com uma entrevista a Bernhard Kemper, que fala em nome dos cientistas alemães. As respostas dele são as óbvias, mas as perguntas com que Claus Kleber lhe interrompe o discurso são impressionantes:
- Parece-lhe que era mesmo inevitável retirar-lhe o título?
- Perguntando de outro modo: teria sido possível evitar?
- Podemos pensar que a Universidade também tem culpa, porque era obrigação do orientador da tese dar-se conta que a doutoranda estava a copiar descaradamente uma grande quantidade de textos. Como pode a Universidade julgar, se também falhou?
- Para os cientistas alemães é completamente impensável que uma ministra, cuja competência tem sido largamente apreciada, se mantenha no cargo devido a um erro que cometeu há mais de trinta anos?
- Trinta anos de trabalho com tanto sucesso justamente na área da Ciência e da Investigação não deviam valer mais do que isso? Parece-lhe que os actuais doutorandos vão sofrer dores de alma por saber que a ministra cometeu esses erros nessa fase da sua vida?

A câmara passa para o repórter em Berlim: os membros do governo mantêm-se em silêncio, para respeitar Annette Schavan e para não dar ainda mais que falar. Mas também nenhum abre a boca para afirmar que ela deve continuar no lugar. Lembra ainda que a "inteira confiança" da chanceler vale pouco:  zu Guttenberg também tinha a sua "inteira confiança" pouco antes de se ver obrigado a demitir-se. No fim, serão pesados os interesses, e será tomada uma decisão. Berlim está a ganhar algum tempo, esperando pelo fim da viagem à África do Sul, mas mal a ministra regresse haverá uma conversa com a chanceler e a decisão será tomada.

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Estava capaz de apostar que o caso não se arrasta sequer até Sábado. E tenho pena. Compreendo que tenha de ser, mas a Alemanha vai perder uma excelente ministra.
Já não é a primeira vez: há alguns anos, perdeu uma excelente representante das Igrejas Protestantes, que ia a conduzir embriagada. Nessa altura, as pessoas chegaram a ir para a igreja rezar para que ela não se demitisse.
Isto é um país engraçado.

06 fevereiro 2013

mais alguém se comoveu com a abertura do Super Bowl 2013...

...quando os alunos da Sandy Hook Elementary School Newtown cantaram "America the Beautiful"? E quando a eles se juntou Jennifer Hudson, que em 2008 perdeu a mãe, o irmão e o sobrinho - mortos a tiro pelo ex-cunhado?



A Alicia Keys também esteve excelente. Mas foi apenas excelente, não foi tocante.




E já que estou a falar do Super Bowl 2013, ora façam favor:

 

Berlinale 2013 (4)

(foto)


Os bilhetes para o Terra de Ninguém já cá cantam, ufff.
Mas é claro que os lugares para a estreia de Gold, o western alemão com a Nina Hoss, esgotaram muito antes de eu começar a ver o branco do olho do senhor da caixa. Adiante.
Também arranjei bilhetes para Shirley - Visions of Reality, e Mes Seances de Lutte, sem saber bem o que nos espera. Veremos. Literalmente.

Esta manhã as pessoas da fila estavam muito conversadoras. Havia a senhora de certa idade que só queria comprar um bilhete para um filme, e era porque uma amiga dela aparecia nele. Mesmo atrás dela um rapaz comentou que tinha participado na produção, que também queria ver esse. A mulher que chegou logo a seguir a mim, uma jovem muito elegante, ia tentar ver o filme russo e precisava de quem lhe comprasse um terceiro bilhete. Disse-lhe que também tinha pensado ver esse, mas estava ainda em dúvida, e perguntei porque é que ela o achava interessante. Ela respondeu com um sorriso "porque sou russa". Ah, bom. O homem atrás dela falava português (só o suficiente para se armar um bocadinho). A mulher à minha frente era filha de um grego e uma inglesa. Pouco antes da abertura das caixas, às dez da manhã, um do funcionários veio falar com o jovem que tinha participado no tal filme, e este deu-lhe vinte euros. Nós começámos todos a rir, o funcionário disse com uma piscadela de olhos "era dinheiro que ele me devia" e nós respondemos que também lhe queríamos dever dinheiro, eu cá até estava disposta a dever-lhe cinquenta euros. Galhofa geral. A senhora de casaco claro afligia-se toda ao telefone "então a première não é às duas da tarde?", perguntava ela, e eu a deduzir que estava a confundir (como eu, quando era nova) o P de Presse com première. Desligou o telemóvel, expliquei-lhe. A russa começou a temer que não houvesse bilhetes para o Dolgaya-coiso quando chegasse a vez dela. Falámos de outras possibilidades. O homem que falava português ouviu-me dizer "Shirley" e meteu-se na conversa, perguntou se já conhecíamos o Cinestar Event, onde esse filme vai passar, disse que deve ter o maior ecrã de Berlim a seguir ao Friedrichsstadt Palast, mas este ainda tem o palco à frente. Ah, muito me conta. Disse que esse filme tem mais de vinte anos, e que já viu alguns episódios. Para intelectuais, confirmou. Pois, que isto é a Berlinale!, acrescentou. Agora vejo que se enganou um pouco: o filme é de 2012. A anglo-helénica (será assim que se diz?) estava interessada no Rock the Casbah, que eu vou ver na sexta-feira. Falámos um bocadinho de Israel e da Palestina, ela dizia que a indústria do armamento ganha tanto dinheiro com aquele conflito, que ele não vai acabar nunca. Eu não iria tão longe - estava apenas a pensar que este é mais um daqueles filmes em que se percebem os dois lados, se percebem as razões dos dois lados, mas a realidade é que as pessoas continuam a morrer, e é na morte que recebem a razão absoluta, que de nada lhes aproveita. E nós continuamos a ver estes filmes e a sofrer com eles.
Estávamos cada vez mais perto da caixa. No ecrã, havia já muitos filmes com vermelho e amarelo. Ai. A russa combinou comigo um plano B, caso o Dolgoya-coiso de Sábado esgotasse. O filme da amiga da actriz esgotou, e ela desapareceu da cena. A grega pediu-me que lhe comprasse mais um bilhete. O homem dos filmes intelectuais enfiou o nariz no programa. Eu apercebi-me - pouco antes de saltar para a caixa - que o filme polaco "W imie", sobre um padre que pelos vistos esconde de si próprio que tem tendências homossexuais, ainda tinha bilhetes para o sábado de manhã. Compro? Não compro? Felizmente lembrei-me a tempo que no sábado de manhã vou estar na fila a tentar comprar bilhetes para o Pardé, do Jafar Panahi. É que nem pensar em perder esse!
Depois fomos cada um para a sua caixa, a grega-inglesa passou por mim e segredou "aquele que te pedi já está esgotado, adeus!", a russa pagou-me os bilhetes que comprei para ela e agradeceu dez vezes, e fomos à vida.
Amanhã há mais.

Heleninha tenta uma incursão na área "blogger da moda"


Há dias recebi um presentinho das PPP's (sim, PPP's, que se é para fazer aqui publicidade disfarçada, por menos que PPP's não me estreio neste caminho de desonestidade). Um gorro lindo, muito macio e elástico, com cores que combinam às mil maravilhas com o meu tom da pele. Pensei logo "ai! hoje é que vou fazer de blogger de tendências e tal", vesti o casaco e fui para a varanda fazer fotografias (o Matthias tem uma paciência de santo).


O gorro é das Produções Perenes Penélope. O casaco é da Promod (uns saldos tão bons que quase me pagavam para eu o levar para casa). O resto não conto, porque já nem me lembro. E agora mesmo me dei conta que me esqueci de exibir também uma carteirinha - azar o meu, que até tenho duas daquelas caras (compradas nos saldíssimos do Freeport, diga-se de passagem) que ficavam a matar com este conjunto! Está visto: para blogger de moda, ainda tenho de andar muito. Para trás.


PS, só para a minha Penélope: muito obrigada! Espero que tenhas ficado satisfeita com o resultado. Eu gosto tanto, que o Matthias começa a duvidar da minha sanidade mental: "mãe, porque é que estás de gorro ao computador?"

05 fevereiro 2013

Berlinale 2013 (3)

Telefono a uma amiga, trocamos informações sobre os filmes. O Night Train to Lisbon, com o Jeremy Irons, já está esgotado. Só há uma hipótese: a première, que começam a vender no domingo. Combinamos que no Domingo vamos às sete da manhã (pois...) para a caixa, discutimos ainda se é melhor na Potsdamer Platz (pode-se esperar no quentinho) ou na Haus der Berliner Festspiele (sabe-se lá a que horas abrem!). Decidimos que, se queremos mesmo os bilhetes, vai ter de ser ao frio, para estarmos entre os primeiros a chegar às caixas quando elas abrirem, às dez. Na Potsdamer Platz vai haver inclusivamente gente a dormir lá a noite toda, as filas vão ser muito maiores.

E quando está tudo muito bem combinado, e eu sei o que vou fazer no próximo Domingo entre as, digamos, sete e as onze da madrugada, recebo uma mensagem: acabei de receber dois bilhetes para a matinée de Domingo na Konzerhaus, com o Xavier de Maistre, que transformou o concerto de Haydn para piano e orquestra num concerto de Haydn para harpa e orquestra. Que é para os levantar às dez da manhã, no centro da cidade. E que os bilhetes incluem pequeno-almoço ao som de música de Mozart.

Esta cidade não podia viver em modo ceteris paribus? Quando há Berlinale, o resto devia parar.
É que não dou vazão.

Berlinale 2013 (2)

Já cá cantam os primeiros bilhetinhos:


1. La Maison de la Radio, entre outras coisas porque tenho saudades da Rita.



2. Rock the Casbah, pensando que estava a comprar Inch'Allah. O stress daquela fila em frente à caixa, eu a ver os filmes da minha lista a desaparecerem um após o outro (também ninguém me manda querer ir a todas as premières no palácio da Berlinale, vá), a tentar gerir as três revistas que me dão as informações necessárias, "se este filme não dá, então vou antes àquele, ai, aquele também está esgotado, deixa cá ver, então..."
Em todo o caso, não é grave: afinal de contas, queria ir ver os dois. 

                                   


Ao meter os filmes no calendário, o segundo susto: ai! nessa noite tenho um jantar para comemorar o ano novo chinês! Um grupinho de antigos diplomatas alemães na China, e eu. Por sorte começa às sete da tarde, e o filme é só às dez e meia. O pior que pode acontecer é eu ter de dizer "ó senhor embaixador, se quiser a minha sobremesa pode ficar com ela, excelência, que eu agora tenho de me pôr a andar". A minha vida dava um filme. Cómico.


3.  Don Jon's Addiction.


Faz-me pensar no Shame, mas provavelmente não passa de um mero Embarrassment.

04 fevereiro 2013

Berlinale 2013


Berlinale 2013

Já comecei com quatro dias de atraso: só hoje, ao fim da tarde, fui buscar o programa que já estava disponível desde sexta-feira passada. Tem cem páginas só de informações sobre os filmes. Leio e vou anotando no segundo caderno, o que tem "apenas" trinta páginas com o programa repartido pelos dez dias e os cinemas.
A Berlinale acaba a 17 de Fevereiro, mas algo me diz que só terei terminado este trabalho lá para princípios de Março. E é se me despachar.


Rosa Parks - 1 de Dezembro de 1955


A Joana Lopes conta:

Rosa Parks nasceu em 4 de Fevereiro de 1913 e morreu em 2005. Ficará para sempre como um dos símbolos do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, juntamente com Martin Luther King, e ficou famosa por ter recusado ceder o seu lugar no autocarro a um branco, no dia 1 de Dezembro de 1955. Foi então presa mas, em poucos dias, os negros de Montgomery organizaram um boicote à discriminação nos autocarros, que durou um ano, e ganharam a batalha. Até aí, eram obrigados a ocupar os lugares traseiros e a cedê-los aos brancos se o autocarro enchia.

Em 1955 era já praticamente o meu tempo - nasci oito anos depois. Mas parece-me um tempo tão remoto!

Ou talvez não...

1. Há meia dúzia de semanas, um amigo meu, mestiço, tentou a noite berlinense. Foi-lhe recusada a entrada em cinco bares consecutivos. Eram três amigos: um branco, um preto, um mestiço - todos com curso universitário e bons empregos, bem vestidos. Para não haver dúvidas, no quinto bar o branco do trio foi à frente, e não houve problema. Mas quando disse "ah, aqueles dois também estão comigo" a porta fechou-se outra vez.
O nosso amigo comentava: "se fosse na província... mas em Berlim?!"

Eu acrescento: é muito triste ele já ter aceitado que na província tem de se sujeitar a estas humilhações, e é muito triste eu ter explicitado que os três têm bons empregos - como se o que se esperasse de um preto é que tivesse um mau emprego e um estilo que não prestigia um bar.

2. Uma amiga contou-me que durante uns tempos usou como fotografia no facebook a imagem de uma artista africana. O tom daqueles que não a conheciam pessoalmente mudou logo. Começaram a tratá-la de forma bruta, arrogante e desrespeitosa.

Rosa sat...




"Rosa sat, so Martin could walk
Martin walked so Barack could run
Barack ran so all our children could fly"

Rosa Parks faria hoje 100 anos.


pode alguém ser quem não é?



O Filipe Nunes Vicente passou este vídeo no Declínio e Queda, com as perguntas:
O que achas? Perdoar ou não?

Este vídeo incomoda-me, porque me parece artificial: "pode alguém ser quem não é?"
Resumidamente: o assassino entra na igreja para deixar uma coroa de flores junto aos caixões daqueles que matou (hipocrisia, ou arrependimento?) e a miúda que assistiu ao brutal assassínio dos pais resolve perdoar e oferecer um abraço ao assassino porque "talvez tenha levado muita pancada em criança" e "Deus não quer que matemos, porque todos somos seus filhos".
Que ela não o mate, ou aos seus filhos, ainda entendo. Mas de onde vêm este perdão e este abraço?
O perdão é a resposta a um profundo arrependimento, ou um acto unilateral?


Qual é a ideia de fazer um filme destes? Parece-me que transforma o "ama o teu próximo como a ti próprio" num "ama o teu próximo e desama-te a ti próprio" - o catolicismo como apelo à abnegação, à negação de si próprio; o bom cristão como alguém que sublima a "fome e sede de Justiça", transformando-as neste perdão automático para todas as pessoas e todos os crimes.
Isto é um caminho de salvação, ou uma alienação?

***

Voltando ao terreno da realidade: será que este assassino se vai deixar converter pelo gesto da órfã, ou vai agarrar nela e metê-la no bordel da esquina?
Como responder a este convite ao amor infinito dos filhos de Deus com gestos de obreiros da Paz, e não de lorpas conformados?

03 fevereiro 2013

outras maneiras de estar na cultura



Esta manhã fomos à Komische Oper comprar roupa de espectáculos passados, e esta tarde fomos ao mesmo teatro assistir à ópera Aufstieg und Fall der Stadt Mahagony, com texto de Brecht e música de Weill.
Dei comigo a olhar para os vestidos e a pensar: qual deles compraria?

era só para tirar uma fotografia para o facebook...


Esta manhã levantámo-nos cedinho e fomos para a Komische Oper, que estava a vender roupas de espectáculos passados numa sala do foyer, e a servir bons pequenos-almoços na outra.
O Joachim queria uma roupa de pirata, e eu fui com ele como conselheira de moda (por estas e por outras, às vezes penso que devia ter um blogue...) e por causa do pequeno-almoço.
Num dos cabides, um grupo de vestidos chamava a atenção de todos, mas ninguém pensava comprar. Nem eu, que só vesti um por brincadeira, para fazer uma foto para o facebook. Eu com ele vestido, o Joachim a fotografar, nós os dois a rir do disparate. Depois eu com um casaco cheio de cobras por cima do corpinho nu, e mais risota.




À volta do Joachim fez-se um ajuntamento, parecia uma conferência de imprensa: imensas máquinas fotográficas viradas a mim, e uns repórteres de um jornal berlinense a pedir-me uma pequena entrevista. Para fazerem uma fotografia para o jornal pediram-me que fosse para o meio do foyer, e eu fui, sempre a rir, porque - dentro do vestido e sem me ver ao espelho - não me dava inteiramente conta da figura que estava a fazer. Foi então que, ao passar em frente às escadas onde uma enorme fila de pessoas esperavam a sua vez para entrar, vi pela primeira vez o olhar cobiçoso e despudorado dos homens perante uma mulher transformada em objecto. Não foi bonito.

Não comprei o vestido, mas devia ter comprado: armada com ele, e com uma máquina fotográfica escondida, podia fazer um magnífico álbum de retratos da miséria estampada no rosto humano. Os homens saberão a triste figura que fazem quando se esquecem que por trás de um corpo há uma pessoa que os vê?

**

A Komische Oper também me podia dar uma comissão pela publicidade: quando experimentei o vestido ainda não tinham vendido nenhum. Quando o fui devolver, já só sobravam dois.

02 fevereiro 2013

quantos golpes é que a Democracia aguenta, aguenta?


No dia 30 de Janeiro de 2013, quando fazia 80 anos que Hitler tinha chegado ao poder, um dos noticiários alemães (penso que foi o Heute, o noticiário de meia hora, às 21:45) falava do fim da Democracia da República de Weimar, o período nazi e o longo caminho para a Democracia, a partir de 1945. A seguir, passou imagens das demonstrações e da violência em Atenas, e perguntou: será a Democracia alemã estável? Será que a nossa Democracia resistirá, em caso de recessão e pobreza? Ou podemos vir a assistir a cenas como estas nas nossas ruas?

Mesmo em tempo de vacas gordas, nas regiões menos ricas deste país já há uma percentagem demasiado alta de eleitores de extrema-direita e extrema-esquerda.
Por seu lado, em Portugal, neste tempo de vacas magras, multiplicam-se os desabafos do género "não há ninguém que lhe dê um tiro?"

É indispensável que todos - os que fazem jogatanas partidárias, os que aparecem a largar opiniões nos meios de comunicação social, os que aparecem nos cafés ou no facebook a sugerir métodos sui generis de participar na coisa pública - que todos nós tenhamos bem presente que o nosso rumo é a construção de uma Democracia estável e saudável, e que não podemos nunca perdê-lo de vista. Mesmo se somos desempregados a desabafar no facebook, mesmo se somos famosos e ricos, mesmo se nos sentimos cheios de razão e inimputáveis.

(foto)

01 fevereiro 2013

para ver amanhã (Sábado) o concerto do Dudamel e do Lang Lang na Filarmónica de Berlim


Muito fácil: vão para o Digital Concert Hall (a partir das zero horas de Sábado, ou seja, imediatamente), e escrevam DUDAMEL79X na caixa do "voucher code". Os primeiros mil a inscrever-se (agora são os primeiros 999, que eu já lá estive) podem ver gratuitamente o concerto em directo (às 19 horas em Portugal), e durante as 48 horas seguintes à activação do código também podem espreitar os concertos do arquivo. O voucher é válido apenas para este fim-de-semana. 


BERLINER PHILHARMONIKER

GUSTAVO DUDAMEL Conductor

LANG LANG Piano

Samuel Barber

Adagio for Strings

Béla Bartók

Piano Concerto No. 2

Richard Strauss

Don Juan

Richard Strauss

Till Eulenspiegel's Merry Pranks

boas maneiras



Ninguém me disse como é que neste séc. XXI se faz quando um homem e uma mulher se aproximam ao mesmo tempo de uma porta, de modo que ontem fui ao meu jantar de VIPs muito atrapalhada, tratando de não ter nenhum homem por perto quando tinha de passar de uma sala para a outra.
Tudo acabou em bem, sem qualquer percalço, entrei sozinha e saí com mulheres, ufff!
Se tivesse reino, há dias em que estaria capaz de o trocar por uma ilha deserta e sem portas. Quer dizer: se não tivesse portas já não precisava de ser deserta.
Ou então, trocava o meu reino pelo Begijnhof.
Bom, esqueçam - tenho de pensar um bocadinho melhor nisso tudo.

O jantar foi no Hotel Pestana Tiergarten. O que se segue não é publicidade paga (antes fosse...), é apenas surpresa e gratidão.
Era um Jantar de Perdição, no qual se falava do famoso livro do Camilo Castelo Branco, e se comiam comidas afrodisíacas. Até avisaram que ainda havia quartos disponíveis, ah, os malandros não dão ponto sem nó.
Olhei para a ementa, e apanhei um susto: sopa com amêndoas torradas, risoto com castanhas de caju, mousse de chocolate com noz. Não posso comer nada disso. De modo que pedi ao empregado de mesa que ao menos não deitassem as amêndoas na minha sopa. Eu tiraria depois as castanhas de caju do arroz (encomendando a minha alma, pelo sim pelo não), e da sobremesa só comeria o ananás com coco. Daí a nada chegou a minha sopa sem amêndoa, quando estava à espera do risoto-seja-o-que-Deus-quiser ele apareceu-me com um risoto sem castanhas de caju (o que significa que foi feito exclusivamente para mim), em vez da mousse veio um iogurte com frutos do bosque.

Boas maneiras é isto. Hotel Pestana Tiergarten forever!

31 janeiro 2013

preciso urgentemente de um manual de etiqueta e boas maneiras



Desde que me disseram que o Clooney anda por aí, comecei a estar mais atenta a homens baixinhos - nunca se sabe.
Esta manhã, estava a chegar à porta da Filarmonia, ouvi falar animadamente em inglês atrás de mim. O Clooney!, pensei, e olhei para trás. Era mais baixo que eu, mas não era o Clooney, era o Dudamel.
Foi nesse momento que senti a falta de um manual de etiqueta actualizado. Num caso destes, quem entra primeiro? Quem abre a porta a quem? É verdade que o Dudamel é um bocadinho mais famoso que eu, mas - que diabo! - hoje eu até ia vestida de senhora e tudo.

Abri a porta, passei à frente, e mantive-a aberta para eles passarem.
Mas continuo sem saber se devia ter esperado ele abrir a porta para eu passar, ou quê. E, já agora: se estivesse a trabalhar com uma pessoa dessas (por exemplo, se fosse a assistente do Simon Rattle) (sonha, Heleninha!) quem devia dar passagem a quem?

Agradeço respostas em breve, porque logo vou a um jantar com alguns VIPs e pode ser que me aconteça mais uma dessas questões existenciais. Só vos digo que é muito complicado ser mulher nestes tempos de emancipação.

***

O Dudamel é um dos maestros de quem se fala para substituir Simon Rattle em 2018. Entre risos, comentávamos que este talvez seja o seu concerto de candidatura. Mostrou estatura para isso: pareceu-me menos exuberante, mas mantém a graciosidade na expressão corporal, e dirigiu com toda a segurança. Há dias perguntava-me como se sentirá um maestro à frente destes músicos, conhecidos entre os melhores do mundo. O Dudamel não deixou margem para dúvidas: quem conduz é ele, e sabe exactamente onde quer chegar.

O Lang Lang continua em plena forma no seu piano-show. Tocou o concerto nº2 para piano de Béla Bartók, peça que combina muito bem com a sua maneira de usar o piano. Um espectáculo por si: o pé a bater o ritmo no chão, o diálogo com o músico dos tímbales ("toma esta" "gosto disso!" "e só para terminar, olha-me isto"), o bate e foge, o estender o corpo para trás para largar duas notas finais de uma frase em pianissimo, a furiosa corrida pelo teclado. Por pouco não punha o piano a saltitar. Um dia há-de conseguir, tenho a certeza.

30 janeiro 2013

diversidade destruída




Faz hoje oitenta anos que o presidente von Hindenburg nomeou Adolf Hitler Reichskanzler dos alemães, depois de o partido deste ter conseguido 33,1 % nas eleições, e não ter havido entendimento por parte dos outros partidos para fazerem uma coligação alternativa.
O que se seguiu é do conhecimento público. Mas hoje li nos jornais alguns detalhes interessantes, que aqui transcrevo:

- Os eleitores estavam extremamente divididos, e cada vez mais extremados - os partidos moderados estavam a perder votos para o partido comunista e o nazi.
- O partido comunista dizia dos judeus que o seu capital estava misturado com o capital dos burgueses, e que era preciso aniquilar ambos. Comentário no jornal: "com um discurso destes, não admira que alguns eleitores optassem directamente pelo original".
- Hitler não se instalou no poder apenas por recurso ao Terror. Mal lhe foi entregue o governo, baixou o preço do acesso à saúde pública, aumentou os salários, criou emprego, reduziu a carga fiscal das famílias. Tudo isso por conta de um enorme endividamento do Estado. Uns meses depois de ter chegado ao poder, era considerado o benfeitor da nação. A ilusão sobre os seus valores era tão grande que algumas pessoas, vítimas da prepotência do sistema, se lamentavam: "se Hitler soubesse disto..."
- Foi o primeiro político a dar importância aos agricultores, o que lhe rendeu grandes juros.
- No princípio, a população reagiu mal à perseguição aos judeus - os alemães tinham uma noção bastante concreta do valor da pluralidade social, e da justiça. Em particular as classes trabalhadoras não viam a necessidade de perseguições desse tipo, e os católicos também não o viam com bons olhos. (Achei interessante terem dito católicos, não cristãos. Terá sido lapso? Será que os católicos fizeram mais barulho, deram mais nas vistas? Por que motivo não referiram aqui os protestantes?)
- Cinco anos mais tarde, a 9 de Novembro de 1938, seriam espectadores passivos do ataque organizado às sinagogas, empresas e casas dos judeus, e ao envio de milhares de pessoas para os campos de concentração.

Em 2013 lembra-se a Machtergreifung (há 80 anos) e a Reichskristallnacht (há 75). Ao longo deste ano haverá em Berlim cerca de 500 exposições e eventos dedicados ao tema "diversidade destruída".

Ora aí está: "diversidade destruída". Um grande tema, extremamente actual.

uma cidade que é um exagero


Pensava eu que já era uma sorte - uma incrível sorte - haver em Berlim uma livraria, a Dussmann, com um andar inteiro só de música clássica, onde a gente vai e pergunta "tem a missa tal de Mozart?" e o empregado responde: "sim, pode escolher ali entre as quinze gravações".

E eis que olho para o programa das óperas em Fevereiro, e descubro que nesse mês há duas Traviatas diferentes. Uma do Neuenfels, e outra do Mussbach.

Esta cidade não exagera nem um bocadinho.

E por falar em Dussmann: hoje o Lang Lang vai apresentar nessa livraria o seu novo CD, com músicas de Chopin. Como é habitual nestes casos, além da conversinha vai também fazer um recital gratuito.
(Mas não vou, porque não tenho tempo e prefiro ir vê-lo amanhã com o Dudamel) (Sim, foi o que eu disse: um exagero.)

29 janeiro 2013

David e Golias


Aqueceu, a alta camada de neve começou a derreter, arrefeceu outra vez, a água transformou-se numa placa lisa de gelo em cima do passeio.
E é aí que o Fox entra em cena: saímos à rua, ele pela trela. Vê um cão ao longe, desata a correr com todo o seu juvenil entusiasmo. E eu a tentar travá-lo, a patinar. Já faltou mais para me estatelar no chão.

No princípio do séc. XXI, o combate entre David e Golias trava-se numa rua de Berlim. E o David nem precisa de fisga.

às vezes dá-me um cansaço...


(Desenho do oblogouavida - concurso para a mascote de uma livraria. Na altura alguém criticou o camaleão, por não ter a cor dos livros. Eu rebati que só quem lê muito consegue encontrar a sua própria cor. Continuo a pensar o mesmo, e assim defino a minha posição em relação à lista de livros da Opus Dei.)


Como se nos faltassem problemas verdadeiros, resolvemos agora embirrar com a lista de livros que a Opus Dei considera perigosos para a boa formação religiosa e moral dos seus membros.

Bem sei que o argumento "temos problemas mais importantes" não colhe, mas este escândalo sobre os "livros proibidos" parece um tema de quando não há tema. Calma, ainda não estamos na Praça da Ópera em Berlim a 10 de Maio de 1933. É apenas Agosto de um ano qualquer.

Tenho andado por aí a debater com pessoas que criticam a lista: eles falam de acesso à cultura e de obscurantismo; eu pergunto como lidar com grupos que têm outras ideologias, outros princípios morais, ou uma vivência religiosa muito forte.
Que é que a nossa sociedade deve fazer, e segundo que princípios e critérios, para impor o serviço militar aos pacifistas, o darwinismo aos criacionistas, as transfusões de sangue às Testemunhas de Jeová, livros do Saramago a quem o considera o anticristo, a descrição queirosiana das imoralidades da sua sociedade a quem quer criar os filhos longe desses maus pensamentos? A nossa sociedade pode - e deve - intervir nas famílias que ensinam aos seus filhos que a Democracia é chão que nunca deu uvas, e que o que é preciso é uma ditadurazinha do proletariado, ou que o futuro pertence à raça ariana?

Onde e como se traça a fronteira entre os limites do poder dos pais e da sociedade na educação e formação dos menores?

Era isto que me interessava discutir, e é o que tenho feito por aí, com pessoas que educada, honesta e inteligentemente defendem o seu ponto de vista. Mas hoje encontrei um comentário de alguém que, para defender a perspectiva da Opus Dei, ofende a autora do blogue. A coberto do anonimato, claro.
Às vezes dá-me um cansaço...
Não será possível falarmos uns com os outros, tentarmos encontrar uma plataforma de coexistência (que não significa nem imposição nem indiferença e ignorância), em vez de nos agredirmos e ridicularizarmos mutuamente?

E porque insisto eu em defender a posição de pessoas com as quais não concordo, pessoas essas que não se ensaiam nada para ofender a coberto do anonimato (como naquele blogue), e que dão aos seus filhos o exemplo de ofender cruelmente aqueles que não cabem nos seus esquemas (os homossexuais, por exemplo)?

***

A propósito, traduzo (rapido, rapido) um texto do diário de Ruth Andreas-Friedrich, que pertencia a um grupo de resistência em Berlim. Em 1939 esse grupo transportava para fora do país pertences dos judeus que fugiam sem poderem levar nada com eles. Esta página do seu diário refere uma dessa viagens ("Amanhã chegaremos a Paris. Finalmente poder falar sem ser em surdina. Sem ter de usar metáforas ou olhar em volta com medo.").


Paris, Domingo 16.07.1939

Durante todo o dia o vaivém no nosso quarto não pára. Amigos, conhecidos, amigos de amigos, conhecidos de conhecidos. Todos querem saber o que se passa na Alemanha, trocar impressões, receber saudações, aliviar a alma. Nem todos continuam como eram antes desta breve, ou longa, separação. É-me difícil falar com alguns deles. Porque é que começaram a pensar que somos simpatizantes dos nazis? Apenas porque regressaremos à Alemanha? Porque dizem agora "nós, judeus" quando antes diziam "nós, amigos"? Não éramos amigos quando os ajudámos a fugir do país? Hitler inventou a separação das raças, e eles próprios reforçam esse discurso quando se reconhecem naquela diferença. Algumas conversas deixam-me muito desanimada. Mas Andrik chama-me à razão.
- Não caias também tu no erro de pensar que todos os judeus são anjinhos. Nem todos aqueles que os nazis transformaram em seus inimigos são amigos nossos. Um ou outro senhor Abraão, Isaac ou Jacob seria alegremente nazi, se o deixassem.      
- Mas, os emigrantes...
- Não há "os" emigrantes. Há o amigo A que emigrou, a amiga B que emigrou. O problema central está nas generalizações. Todos os polacos são assim. Todos os franceses são assado. Todos os judeus têm de ser isto e aquilo. Avaliação do carácter segundo um esquema simplista, centenas de milhares numa única gaveta. Se não nos libertarmos desse hábito, nunca chegaremos a bom porto. Nem no que diz respeito ao diálogo entre os humanos, nem à tolerância. 

Vejo-me obrigada a dar-lhe razão. E já não exijo que "todos" os emigrantes partilhem os nossos pontos de vista. 

oh, não! lá vem ela outra vez com música clássica!

Roubado de fresco no facebook:


 

28 janeiro 2013

tu não podes comprar o sol




Vídeo recomendado pela Christina - que já não é, definitivamente, a alemãzinha que há seis meses partiu para a América Latina. Diz que nos próximos meses irá à Argentina, e ao Chile, e ao Peru. E já sabe hoje que há-de voltar àquele continente.

manhã de segunda-feira

Ai que pregui...

Enquanto espero que me preparem a nova fornada de frases para traduzir online, perco-me por aqui:

- "Escutar o Absoluto no Ano da Fé" - um encontro, no auditório da Renascença, sobre a vida e a obra de Bach. Historietas e música.

- adventures in pinksugarland (uma fotógrafa que todos os dias põe na net uma imagem dos filhos - começou com lila was here, e passou para este blogue quando o Cole se juntou à Lila. Imagens da maravilha que toca o quotidiano desta família.
Um pequeno resumo neste post: in writing . a birthday, a thank you, a plan and a top ten.





 

27 janeiro 2013

Portugiesendisko

Não somos produtores de vinho do Porto, mas já participámos nas vindimas e nos engarrafamentos da Quinta de Santa Eufémia, e temos de lá recordações tão felizes que quase sentimos como nosso o vinho que esses amigos fazem. Pelo que outro dia nos vangloriámos perante o Wladimir Kaminer de ter um vinho do Porto "daqui" (de trás da orelha) (de onde virá este gesto?), e ele desafiou-nos: se levássemos uma garrafinha desse vinho para a Russendisko, ele passava lá alguma música que nunca lá se ouviu.
Ontem levámos o vinho, um LBV de 2005, e então, pelo meio de músicas como esta



e esta



apareceu esta



e outras, de que gostei mas não me lembro quais eram, porque não as conhecia. Vinham num CD que uma portuguesa lhe deu em Lisboa, quando ele apresentou o seu livro Viagem a Tralalá. De regresso a Berlim, o Wladimir mostrou o CD ao seu sócio da Russendisko, o Yuri; a música foi muito elogiada por ambos. Pelo que provavelmente não foi esta a última vez que a Russendisko teve um bocadinho de Portugiesendisko. E o mais engraçado é que só estando muito atento se percebe que não é russo, mas português.

A certa altura o Wladimir pediu ao Joachim que lhe fosse dar uma ajudinha, porque tinha de sair por uns momentos. Música portuguesa na Russendisko passada por um alemão, e uma amiga nossa a dizer-me "tens de ir pedir um autógrafo ao DJ!". Às vezes a globalização tem piada.

Pequena introdução para quem só agora chegou a este blogue: o escritor Wladimir Kaminer, um russo (entretanto de nacionalidade alemã, não pensem que estas coisas é só no futebol) que vive em Berlim desde 1990 e escreve em alemão, é também animador da Russendisko, no centro de Berlim - uma discoteca com música russa e ambiente alegre e descontraído, no Café Burger (Torstraße 60), no primeiro e no terceiro sábado do mês. Volta e meia aparece lá a televisão, ou um jornalista qualquer, mas de um modo geral o que se vê é gente a dançar aos saltos no meio da pequena sala com papel de parede estilo palácio barroco dos anos setenta, enquanto uma televisão no canto mostra desenhos animados soviéticos, tudo muito bem misturado pelas luzes deslizantes do globo espelhado.

Requiem para Auschwitz



(a música começa a partir de 2:50)

Hoje, dia da libertação de Auschwitz, a Orquestra Filarmónica de Músicos Sinti e Roma de Frankfurt tocou em Cracóvia o "Requiem  para Auschwitz". Na próxima terça-feira tocará na Filarmonia de Berlim.  A sala vai estar cheia de altos representantes da sociedade alemã, ao lado de muitos "ciganos" bem integrados. Mas duvido que ao meu lado se sentem alguns daqueles que todos os dias enxotamos nas ruas. A gente esforça-se, mas não aprende a lição até ao fim.
(E é claro que não me refiro apenas à sociedade alemã)

" a água e o saneamento são um direito humano"



O movimento right2water.eu é uma iniciativa de cidadãos europeus para evitar que a água seja tratada como algo privatizável e comercializável . Estão a juntar assinaturas aqui. Queriam recolher um milhão de assinaturas até Setembro. Eu gostaria que conseguissem juntar vários milhões esta semana.


Water and sanitation are a human right!

Water is a public good, not a commodity. We invite the European Commission to propose legislation implementing the human right to water and sanitation as recognised by the United Nations, and promoting the provision of water and sanitation as essential public services for all. The EU legislation should require governments to ensure and to provide all citizens with sufficient and clean drinking water and sanitation. We urge that:
- The EU institutions and Member States be obliged to ensure that all inhabitants enjoy the right to water and sanitation.
- Water supply and management of water resources not be subject to ‘internal market rules’ and that water services are excluded from liberalisation.
- The EU increases its efforts to achieve universal access to water and sanitation.


25 janeiro 2013

Mozart: uma paródia para a Segurança Social

O programa do concerto de hoje na Filarmonia anunciava uma paródia. Uma auto paródia, diziam eles: Mozart parodiando-se a si próprio.
Com tal apresentação, uma pessoa lembra-se do Amadeus e fica à espera do melhor. Mas depois o programa explica: no Léxico Musical de Heinrich Christoph Koch, de 1802, está escrito que "se uma peça para canto é usada para criar outra, com a mesma música mas outro texto, ou um texto noutra língua, esta segunda peça é chamada Paródia". Ou seja: acenaram-me com um "falso amigo", mas não me importei, porque a cantata David Penitente KV 469, com textos em italiano a substituir os alemães, tem a música da Missa em Dó Menor. E como eu gosto desta Missa!

E porquê uma paródia? Porque em 1785, ano em que esta peça foi feita, Mozart se debatia com uma terrível falta de tempo. Vivia o auge do seu sucesso em Viena, era extremamente requisitado como pianista e compositor, corria de um evento para o seguinte. A Wiener Tonkünstler Sozietät, que organizava anualmente um concerto de beneficência a favor das viúvas e dos órfãos dos músicos, encomendou-lhe uma peça. O compositor não tinha tempo para nada, mas estava muito interessado em tornar-se membro dessa Sociedade de mútuo auxílio, pelo que regressou à Missa já quase terminada, aproveitou algumas partes mudando-lhe a letra, e acrescentou outras. Reduce, reuse, recycle - dir-se-ia hoje. E muito bem, porque essa Missa estava votada ao esquecimento. Depois de uma primeira apresentação em Salzburgo, dificilmente teria hipóteses de ser repetida, porque o Kaiser Joseph II só excepcionalmente permitia música deste tipo nas igrejas. E o prazo apertava.



O resultado é David Penitente, com duas árias novas (uma para tenor e outra para a primeiro soprano) e a inclusão dos solistas no final do coro. A peça foi apresentada a 13 e a 15 de Março de 1785, e o maestro foi o próprio Mozart. O problema é que todos os membros da Sociedade eram obrigados a participar, pelo que entre coro e orquestra havia 150 pessoas em palco, com os cantores à frente e a orquestra atrás - o que deve ter dado um efeito, no mínimo, estranho. Talvez por isso lhe chamem paródia, afinal.
Mas a Sociedade ficou muito satisfeita, é o que interessa. Como prestação para a Segurança Social, parece-me que dificilmente se podia fazer melhor. E agora me ocorreu que os empresários portugueses também podiam fazer o mesmo: quando as Finanças vão atrás deles por causa dos pagamentos em atraso, os devedores podiam tentar dar-lhes música. (Enfim, desconfio que é mais um daqueles casos em que inventei a roda com alguns anos de atraso...)

Tudo teria acabado em bem, não fora Mozart ter-se atrasado a entregar uma cópia do seu registo de baptismo, o que fez com que não conseguisse entrar para a famosa Wiener Tonkünstler Sozietät. Por acaso agora gostava de saber se esta, depois de embolsar os concertitos, não cuidou da viúva e do filho do compositor.

A cantata David Penitente e outras peças de Mozart foram interpretadas por estes dias pela Filarmónica de Berlim com o maestro Louis Langrée, as sopranos Jane Archibald (*suspiro*) e Ann Hallenberg, e o tenor Werner Güra. O concerto de hoje, o último com este programa, foi transmitido pelo Digital Concert Hall.

***

Secção Caras

O maestro era simpático. Não interpretava Mozart como me dá jeito, mas era simpático e gracioso. Sorria com covinhas, passou o concerto todo com covinhas. Bem, se eu estivesse a dirigir o Emmanuel Pahud e o Albrecht Mayer, também sorria a fazer covinhas o tempo todo (e é só para mencionar os que estavam lado a lado, mesmo à frente dele). Como será que estes maestros se sentem quando estão naquela sala, a dirigir aquela orquestra? Será um bocadinho como a angústia do guarda-redes antes do penalty, mas durante o concerto inteiro?

A Jane Archibald tinha um vestido assimétrico muito bonito, a Ann Hallenberg tinha um num tecido como eu também tenho e ninguém cá em casa gosta. Não reparei na roupa do tenor, não sei porquê.

Fotografei com o telemóvel, tipo à queima-roupa porque estava a tentar fazer de conta que não era eu, que nem estava ali.