20 janeiro 2013
Kuhhandel, ou: um manifesto político para o nosso tempo
A semana de Kurt Weill na Komische Oper abriu com a opereta Kuhhandel (traduzido: negociatas; literalmente: comércio de vacas). Por uma feliz intuição, comprei bilhetes - sem saber bem ao que íamos, e afinal fomos a um concerto histórico: a primeira apresentação desta opereta em Berlim. Assistimos a um notável espectáculo, e saímos da ópera quase a levitar, quase de rastos. Como é possível oferecer em música tão leve e alegre uma crítica social e política tão corrosiva? Excelente Weill.
Enquanto ouvia, trocava "armas" por "créditos bancários" e parecia-me que era uma peça sobre o nosso tempo. E descobria um Weill sarcástico até dizer chega - por exemplo nas melodias que punha na boca do político: um presidente que dava música ao seu povo, que até parecia acreditar no que dizia, aaah, quase se ouviam os violinos na sua voz, oooh, encantador, excelência! (podem ouvir a partir do 5º minuto, cheio de palavras bonitas como "pátria amada" e "para o bem do povo").
Max Hopp fez um excelente Felipe Chao: desde o ar cínico que mantém durante toda a peça, até à elasticidade corporal com que ocupa o palco inteiro, de forma tão burlesca como natural. É o homem dos mil ofícios, consegue combinar facilmente o papel de comerciante de armas com o de narrador, ora dentro ora fora do enredo. A seguir ao intervalo aparece como o professor que pergunta ao público se entendeu bem a lição, e começa a fazer revisões da matéria dada. O público ri, divertidíssimo, o actor rosna "riam riam, que logo choram", e é já Felipe Chao, leva-nos à casa da Madame Odette, onde Juanita canta para o general.
Ina Kringelborn oferece a sua voz cristalina à causa de uma Juanita sempre pura e ingénua, por maior que seja a sua miséria. Vincent Wolfsteiner faz de Juan a figura mais expressiva desta ópera concertante. E os pais da noiva dão um belo dueto de choramingas que fez o público rir até às lágrimas.
Recorro ao programa para contar um pouco mais sobre esta obra:
A história: os Estados Ucqua e Santa Maria coexistiriam em paz numa idílica ilha dos trópicos, não fora a acção do comerciante de armas, Felipe Chao. Oferecendo presentes ao presidente de Santa Maria, convence-o a comprar armas, que serão pagas com um "imposto sobre o bem-estar". Na aldeia, Juanita Sanchez e Juan Santos vêem-se impossibilitados de casar, porque a vaca deste, que seria o sustento do casal, é confiscada para pagar o imposto. Juan vai trabalhar para a cidade, tentando amealhar para comprar outra vaca. Quando estão de novo prestes a casar, a segunda vaca é também confiscada para pagar uma comissão ao Ministro da Guerra, general Conchaz. Apesar de todos estes impostos, o Estado de Santa Maria não consegue pagar as armas. Felipe Chao concede uma moratória, em troca de movimentos militares que assustem Ucqua, de modo a que também esse país lhe compre armas. Juan é chamado para o exército. Juanita é obrigada a ir trabalhar na cidade, para poder comprar uma vaca. Encontra trabalho na casa da Madame Odette, um estabelecimento de duvidosa moral. Depois de cantar para o general Conchaz, nos festejos do seu golpe de Estado que derruba o presidente, aquele dá-lhe o dinheiro suficiente para pagar meia vaca. Por sua vez, a Juan é prometido um prémio no valor de meia vaca se se disponibilizar para ser a voz do povo num referendo simbólico, em que aceitará o general Conchaz como presidente. Juan aceita. No entanto, no momento decisivo em que deverá gritar "sim!", dá uma bofetada ao general. É condenado à morte por fuzilamento. Mas acontece que as armas que Felipe Chao vendeu não funcionam. O general Conchez proclama a paz, e já nada pode impedir o casamento de Juan e Juanita.
Dança sobre o vulcão - a opereta Der Kuhhandel, de Kurt Weill
(um texto de Pavel B. Jiracek, aqui muito abreviado por mim)
A 21 de Março de 1933, Kurt Weill fugia de Berlim em direcção a Paris. Era o "dia de Potsdam", uma pomposa encenação que dava início a uma nova era: o presidente von Hindenburg, representante da velha ordem, dava a mão a Adolf Hitler como sinal de uma nova aliança. Dois dias mais tarde, estava Weill a chegar a Paris, o parlamento alemão votava a Lei de Concessão de Plenos Poderes que suspendia a constituição de Weimar e dava a Hitler plenos poderes. Assim se selava o fim de uma época na qual Berlim tinha sido uma metrópole pulsante e cosmopolita, cuja agitação interior se espelhava de modo inigualável na música de Kurt Weill.
Goodbye to Berlin
A Berlim da república de Weimar (1919-1933) era uma espécie de laboratório da modernidade, no qual se negociava e testava a coabitação humana depois da catástrofe da primeira guerra mundial. Nela se libertava uma energia criadora, única em todo o mundo, e que atraía artistas de todas as áreas. Muitos pobres vieram também para esta cidade, na esperança de encontrar trabalho e sustento. Mas as possibilidades económicas de Berlim eram limitadas, pelo que sob a superfície animada da cidade se agitavam graves tensões políticas entre grupos extremistas com um peso cada vez maior. Neste clima febril, o judeu Kurt Weill, proveniente de Dessau e com experiência de teatro musical, procurava o som adequado ao seu tempo. O seu professor Busoni tinha-lhe dado como conselho não temer o "banal" e estender as antenas para o "hoje". As antenas de Weill dirigiram-se à rua, à "estrada lavrada do quotidiano". O meio em que vivia inspirava-lhes não apenas os temas, mas também a diversidade de forma e géneros, a partir dos quais ele criou um estilo próprio de canção, "corais a partir do lodo" - como lhe chamou Hans Heinz Stuckenschmidt -, nos quais dá forma musical a pessoas de carne e osso, aos seus problemas e preocupações. Weill estava no pulso do seu tempo.
O trabalho com Bertolt Brecht revelou-se extremamente proveitoso, e foi muito bem acolhido pelo público. Contudo, diferenças de ordem política, artística e pessoal complicaram a relação de tal modo que se viram obrigados a separar-se. A situação política na Alemanha atingiu Weill duramente: grupos nazis de provocação perturbavam os seus espectáculos com distúrbios e a crítica - cada vez mais comprometida com o poder - começou a ser-lhe desfavorável, pelo que não lhe restou outra alternativa senão encarar a realidade de frente e fugir para França.
A vida parisiense
Mesmo antes de emigrar, Weill já era muito conhecido e apreciado em Paris. Não apenas devido à Ópera dos Três Vinténs, mas também por causa de um célebre concerto com peças da Mahagoni e de Der Jasager que dera na Salle Gaveau em 1932. Entre o público encontravam-se famosos representantes da vida parisiense (Strawinsky, Milhaud, Cocteau, Picasso, Léger, Gide e a mecenas princesa Polignac, que logo encomendou a Weill a sua segunda sinfonia).
Nos primeiros tempos em Paris, Weill trabalhou numa encomenda da companhia de ballett de George Balanchine, e na peça Die Sieben Todsünden, último trabalho em colaboração com Brecht. Apesar desse início auspicioso no novo país, esta foi uma das fases mais amargas da vida de Weill: a perda da pátria, o fim do contrato com a sua editora, o congelamento das suas contas bancárias pelos nazis, e o divórcio de Lotte Lenya. Mas Weill não se deixou abater, e começou a trabalhar na sua primeira opereta, Der Kuhhandel. Vambery, um libretista de origem húngara que já tinha trabalhado em Berlim no famoso teatro do Schiffbauerdamm, apresentou-lhe o projecto de uma opereta que o entusiasmou, chegando a escrever a Lotte Lenya: "Estou muito confiante nesta peça, porque há muito não trabalhava com tanta facilidade".
Em Paris, Weill encontrou-se com o espírito das operetas de Offenbach que, nas suas próprias palavras, "é desde há décadas o modo de diversão mais apetecido e rentável, porque corresponde ao gosto de vários grupos sociais, uma vez que tem tudo o que agrada às massas: humor, dramatismo e sentimentalismo - palavra, dança e música."
O que, para muitos, torna as operetas de Offenbach tão especiais, é o que se pressente em surdina sob toda a alegria do espectáculo, e que nos conduz a outros planos. Segundo Karl Kraus, "a verdadeira música destas operetas é a anarquia como a única constituição mundial moral e digna da humanidade". A ordem social estabelecida é posta em causa, sem que seja derrubada. Para Walter Benjamin, estas operetas chegam a ser atravessadas pela utopia da desobediência civil: "O segredo de Offenbach: como no mais pleno absurdo da ordem pública - seja a da alta sociedade, a de um palco de dança ou a de um estado militar - se ousa um olhar sonhador sobre a ordem plena de desordens privadas".
Também na opereta Der Kuhhandel se sonha um sonho de desordem privada por oposição à ordem de um estado militar - e tal como em Offenbach, sente-se que na peça de Weill fervilha sob a superfície uma música anarquista, "verdadeira", que responde com urgência aos acontecimentos políticos da época.
Como não podia deixar de ser: bananas
Dois Estados que coexistem numa ilha: Hispaniola, ilha partilhada pelo Haiti e a República Dominicana; em 1930, Rafael Trujillo conquistou o poder e começou a gerir o país com mão de ferro - como Conchaz. Um lobby de armamento que empurra os países para guerras: a indústria de armas europeia forneceu os dois lados da guerra de Chaco (Bolívia e Paraguai) entre 1932 e 1935.
Contudo, apesar das referências à América Latina, no centro das preocupações de Weill estava o seu próprio país, no qual era evidente o que um ditador autodenominado "homem forte" podia fazer, fascinando multidões com um programa político tão apelativo como "uma vaca para cada um". Nesse país, foram os lavradores aqueles que mais sofreram com a crise económica durante a república de Weimar, e também os que mais rapidamente aderiram à nova força política.
Weill optou por não diabolizar a figura do demagógico general Conchaz. Em vez disso, desloca o monstruoso para o sistema dos executores, mantendo o estilo opereta. No caso, o funcionário judicial que, ao abrigo do seu cargo, executa a penhora da vaca (a partir de 24:15). É aí que encontramos o verdadeiro horror do sistema: no modo como nós próprios quotidianamente nos adaptamos a determinada Ordem. A coragem civil de Juan, quando se rebela contra o sistema e esbofeteia o ditador, revela o carácter anárquico desta peça. Com muito humor brinca-se com o fogo, e este não chega a ser extinto, nem no final, quando tudo se resolve e Juan e Juanita podem enfim casar. O coro sobrepõe-se às outras vozes cantando "Não temos honra, não temos armas. Não temos segurança, oh, que alegria!"
A descoberta de que não há qualquer segurança nas relações políticas, e que estas se podem alterar rapidamente, revela uma verdade que é escandalosa numa opereta. Mas, no fundo, é a única lição a tirar do "dia de Potsdam".
***
Nota sobre o vídeo no início deste post: esta não é a Kuhhandel que está agora na Komische Oper, mas um conjunto de canções que antecederam a versão mostrada em 1935 na Inglaterra. Para tentar agradar ao público inglês, foram tiradas peças fundamentais como a "canção do Faraó", na cena em que Juan trabalha arduamente na cidade. "A Kingdom for a Cow", uma versão mais mansa e em inglês, mais comédia musical que crítica social, não vingou. Weill acabou por se distanciar dela, sem terminar a versão alemã. Depois da morte do compositor, Vambery fez uma revisão do libreto (o comerciante de armas americano passou a ser Felipe Chao, por exemplo), e Lys Simonette, que trabalhara com Weill, completou as partituras. A versão alemã desta opereta foi apresentada pela primeira vez ao público em Bautzen, em 1994. Sobre a versão inglesa, pode-se ler uma crítica (em inglês) aqui. Sobre a peça, mais informações (em alemão) aqui.
Para quem está em Berlim e fala alemão: a opereta passará de novo na Komische Oper na próxima terça-feira, às 19:30.
Weill-Woche na Komische Oper de Berlim
Aviso a quem está agora em Berlim e fala alemão: vejam o que se está a passar na Komische Oper. Dez dias de Kurt Weil, com a opereta Kuhhandel (imperdível!), a ópera Aufstieg und Fall der Stadt Mahagoni, a mistura de canção e dança em Die Sieben Todsünden com Dagmar Manzel, e mais, muito mais.
O concerto Last Tango in Berlin, com a Ute Lemper, é hoje - mas está esgotado. Ainda bem, porque para hoje já tinha planeado outra coisa...
("estão verdes, não prestam, só os cães as podem tragar"...)
19 janeiro 2013
a visita do tio Vânia (2)
Tradução rapidíssima (rapidíssima!) de um excerto do livro "A Visita do Tio Vânia" (Onkel Wanja kommt), de Wladimir Kaminer:
Eu nem sequer sabia se aquela igreja ainda estava a funcionar, ou se era um museu. Hoje em dia, muitas igrejas oferecem programas culturais: nelas podem actuar bandas punk, artistas usam o espaço para fazer exposições. Os padres modernos apoiam todos os tipos de fé. Tentam atrair os poucos crentes, os que têm outras crenças, e até começaram a tolerar os não-crentes praticantes. Estão dispostos a fazer tudo para que a igreja não fique vazia.
Muitas vezes sou convidado para um evento numa igreja: para ler, ou até para fazer a russendisko no altar. Já aceitei algumas vezes, sentindo-me mal. Sentia vergonha. Em particular por causa do público. Se eles decidiram ir a uma igreja, pensava eu, será para estar perto de Deus, ou ao menos do padre, e não da russendisko. Recentemente voltei a pensar nisso, em Hannover, na antiga Igreja de Lutero, agora Igreja da Juventude, e falei com os meus anfitriões sobre essa preocupação.
"Queremos ter esta igreja aberta à vida. Aqui dentro deve ser como lá fora", foi a resposta da pastora.
E um jovem teólogo, cujo nome, a crer no crachat que trazia, era Thorsten, abanava a cabeça em sinal de assentimento. Por isso mesmo tinham à venda não apenas chá de frutas, mas também álcool. O álcool é uma droga socialmente aceitável, o que quer dizer que é uma parte da vida, diziam eles. Atormentado pela minha consciência, pedi logo uma aguardente. Mas a pastora só tinha cerveja e vinho no bar da igreja - pelos vistos, aguardente ainda não era socialmente aceitável que baste. O jovem teólogo foi-me buscar ao quiosque do lado uma grande garrafa de Brandy. O público começou a encher a igreja; a pastora, o teólogo e eu ficámos à porta a fumar um cigarro.
"Há muito tempo que não tínhamos aqui tanta gente", congratulavam-se os meus anfitriões. Apesar do Brandy, eu ainda sentia escrúpulos.
"Será que é correcto dançar na casa de Deus", murmurei indeciso.
"Olhe, não se preocupe mais com isso", interferiu o jovem teólogo. "Nós assumimos a responsabilidade. Jesus também fez festas. Sim, senhor! Expulsou os vendedores do templo e organizou festas."
"Mas eu não sou Jesus", retorqui.
Aquele evento parecia-me algo como uma cantina vegan a oferecer um belo lombo de porco assado para angariar clientes. A ténue fronteira da tolerância eclesial parecia desenhar-se entre o vinho e a aguardente, entre a russendisko e um festival gothic. Nessa noite, em Hannover, tentei pôr música suave - folk, reggae, baladas. O público teve várias reacções: uns foram-se logo embora, outros ficaram imóveis num canto, à luz das velas, alguns saltavam como doidos no estrado de dança da igreja. A pastora e o teólogo estavam bem-dispostos, radiantes. No escuro, três jovens russas disparavam o flash das suas câmaras fotográficas. De lá de cima, pareceu-me, da alta cúpula da igreja, chegavam sinais amáveis: que cada um seria perdoado, que para cada um haveria risos, lágrimas e luto - e mais não era preciso. Naquela noite a igreja funcionou, penso eu. Mas como se distingue uma igreja que funciona de uma igreja-museu? A cidade de Colónia ofereceu às comunidades estrangeiras muitas igrejas que estavam abandonadas - croatas, polacos, búlgaros e outros imigrantes. Em troca de cuidarem da igreja, tinham o direito de celebrar semanalmente um serviço religioso na sua língua materna. Num abrir e fechar de olhos aquelas igrejas tornaram-se pequenos guetos onde se reuniam as pessoas de uma tradição, uma língua, um país.
Enquanto criança e jovem, vivi completamente à margem desta problemática das religiões. Não tive qualquer educação religiosa, e começo a gaguejar quando me fazem perguntas sobre judaísmo, cristianismo ou qualquer outro -ismo. Os meus pais nem ateístas eram. Estavam demasiado ocupados com as questões quotidianas do ser, e faltava-lhe tempo para pensarem a sério no crer. O que lhes permitiu irem vivendo sem depressões, felizes e confiantes.
Em contrapartida, os nossos vizinhos em Moscovo, os Morsin, eram muito religiosos. Tinham dois filhos, André e Alexandre. O André morreu num acidente de carro que ele próprio provocou, estava a conduzir embriagado; o Alexandre trabalhava no Ministério da Energia. Um dia foi para o Afeganistão, para ajudar o governo, comunista nessa época, a construir uma central de alta voltagem, mas esqueceu-se de avisar os pais da data certa da viagem. Um dia, a mãe recebeu um telegrama: "finalmente cheguei, horrivelmente quente aqui. A. Morsin" A mãe terá concluído que o filho que morrera mandara essa mensagem do inferno, e teve uma crise séria. Desde então, a família é crente.
Os meus pais não conheciam as religiões mais importantes, mas não eram descrentes - pelo contrário, acreditavam em tudo. Acreditavam que era possível ganhar no Loto contra o Estado soviético. Acreditavam nos poderes curativos da aguardente de tramazeira, o meu pai até a produzia. Durante algum tempo, chegaram a acreditar num futuro brilhante no seio do socialismo. E acreditavam em todas as histórias que eu trazia da escola, qualquer uma. Hoje, diria que os meus pais eram um caso grave de crença fácil. Só na área das questões religiosas é que mantinham um certo distanciamento, e optavam por uma grande desconfiança em relação a qualquer tipo de iluminação espiritual ou salvação. Só a contragosto aceitavam a vaga possibilidade da existência de um ou mais deuses. E rejeitavam liminarmente a ideia da vida depois da morte.
No decorrer da evolução da religião na Rússia, que tem tido os seus altos e baixos como uma autêntica montanha russa, nos anos noventa apanhámos com uma fase de renascimento religioso. Para começar, enterraram o ideal de uma sociedade humana e justa, e muitos antigos comunistas ingressaram na Igreja. As pessoas procuravam com maior ou menor desespero um apoio espiritual, e todos encontraram algo - excepto os meus pais. Nos anos noventa, centenas de religiões desabrocharam na Rússia, destacando-se o cristianismo para os mais velhos e o budismo para os mais novos. Às vezes as duas religiões coexistiam na mesma família.
Os nossos vizinhos moscovitas, os pais do Alexandre e do falecido André, tornaram-se cristãos ortodoxos. O pai, um major reformado, que tinha cometido muitos pecados na vida profissional e com certeza também na privada, deixou crescer a barba, mas por precaução não se baptizou logo. Na realidade, como contou ele ao meu pai num ataque de sinceridade, um cristão ortodoxo deve baptizar-se o mais tarde possível, de preferência pouco antes de morrer. Segundo a crença cristã, antes do baptismo és invisível para Deus, pelo menos não como cristão, pelo que só contam os pecados cometidos depois do baptismo. Em contrapartida, tudo o que se fez de errado antes do baptismo, depois deste deixa de contar. Seguindo esta lógica, o major sonhava com a continuação da sua carreira no céu. O seu objectivo era deixar-se baptizar no leito da morte, e seguir para o céu como o mais puro cristão. Nada podia correr mal, tinha pensado em tudo muito cuidadosamente. Só havia um ponto fraco: o risco de uma morte súbita, como no caso do seu filho mais novo, que até mandou do inferno um telegrama de advertência. O que se pode fazer para evitar a morte súbita? Um carro que faz uma curva demasiado depressa, uma pedra que cai do telhado - estes acidentes, que não eram de esperar mas, em teoria, possíveis, envenenavam a fé do major e obrigavam-no a olhar nervosamente em volta a toda a hora. Era extremamente cuidadoso, andava lentamente, concentrava-se quando atravessava a rua, e por sistema não saía de casa depois das seis da tarde.
O seu filho, que entretanto tinha perdido o emprego no Ministério da Energia, não partilhava esta fé - era budista. Não um membro qualquer de uma seita, ou um seguidor de Krishna, como os que nessa altura apareciam em muitos cantos de Moscovo, a desfilar pelas ruas com a cabeça rapada e panos coloridos, entoando um cântico de louvor a Krishna. O filho do major era um budista normal, um budista tradicional a caminho da iluminação do espírito. Para a atingir, tinha de se libertar de todo o stress, bem como do sofrimento, do prazer e das confusões. Um trabalho infernalmente complicado, que tomava todo o tempo daquele homem. Pelo que o filho do major perdeu o trabalho e a namorada.
**
Por mim, continuava a traduzir isto até ao fim do livro (daqui a nada o filho do major vai começar a tricotar na varanda por motivos religiosos) mas o Fox está a pedir para ir à rua, e tenho aí mais uma ou duas coisitas para fazer. Paciência.
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Wladimir Kaminer
a visita do tio Vânia
Estou a ler o livro mais recente do Wladimir Kaminer. Volta e meia largo uma gargalhada: "Eh, pá, isto é tão bom! Hahaha!"
Deu-mo há tempos, dizendo que estava muito satisfeito com o resultado. Razões para isso não lhe faltam, e para que ninguém me chame egoísta e torturadora de Tântalos, resolvi traduzir para os clientes deste blogue um pequeno excerto. Quando se traduz, nota-se ainda mais os pequenos detalhes. Por exemplo, a gracinha sobre hoje em dia ser permitido que bandas punk actuem em igrejas. No meio da frase parecia um exemplo como outro qualquer, e só ao traduzir reparei na soda cáustica. Hehehe.
Escolhi um excerto sobre a Fé. O Kaminer, com aquela carinha de "eu?! eu só cá vim ver a bola", consegue em meia dúzia de frases pôr o dedo em algumas feridas interessantes do nosso tempo. E pelo meio faz-nos rir. Não é qualquer um.
Portanto: me aguardem. Daqui a nada, senhoras e senhores, terei o prazer de vos apresentar o mais novo do Kaminer.
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alguma coisa está a mudar na Alemanha
Precisava de fotocopiar algumas páginas de um livro que só existe numa biblioteca desta cidade. Telefonei para lá, deram-me o código do livro e disseram-me que podia levantá-lo directamente da estante e fotocopiar.
Eu é que não encontrava a estante, e pedi ajuda à senhora das informações.
- O livro está na cave, disse ela. Tem de o requisitar, demora cerca de meia hora.
- Meia hora? Daqui a meia hora tenho de estar no médico...
- Será melhor então requisitá-lo hoje e vir buscá-lo dentro dos próximos seis dias.
O que tem de ser tem muita força. Encolhi os ombros, disse que sim, e ela, muito simpática, ajudou-me a requisitar o livro. Até que chegámos à parte do cartão da biblioteca, que eu não tinha.
Ela olhou para mim, disse "então vamos ter de recorrer a meios menos convencionais", levantou-se da cadeira e desapareceu. Voltou passados três minutos, trazia o livro, colou-lhe uma etiqueta não sei quê, registou-o e deu-mo. Disse para o meter depois na gaveta das devoluções. Daí a cinco minutos eu estava a sair com as minhas fotocópias, e o livro já ia a caminho da cave.
Estão no bom caminho, os alemães. Por este andar, mais ano menos ano ainda conseguem acabar os aeroportos a tempo.
(Isto sou eu a ceder à tentação de fazer humor rasteirinho. O atraso do aeroporto de Berlim não é resultado da falta de capacidade de improvisação mas de um escandaloso afastamento do tradicional rigor no planeamento. Alguma coisa está a mudar na Alemanha, e é para pior.)
(foto)
18 janeiro 2013
onde está o serviço móvel de recolha de sangue, que nunca aparece quando faz falta?
Já devia ter idade para ter juízo, mas não tenho. A cortar o pão como faço há mais de quarenta anos, com a faca na minha direcção, espetei o bico da faca na palma da mão. O sangue a jorrar como num filme de guerra. Estou em crer que hoje aviava sozinha um hospital inteiro.
E depois, esta cena: sangue fresco e denso a correr-me pelas linhas da vida, do destino e do amor.
Fiquei indecisa entre fotografar esta alegoria, ou ir desinfectá-la e pôr um penso.
Com mais de quarenta anos de atraso, ganhou o bom senso.
pensava eu que estas coisas só aconteciam nesse país ultra fundamentalista que é a Irlanda...
Em Colónia, uma mulher foi drogada numa festa e acordou 14 horas mais tarde sem se lembrar de nada. Para fazer a recolha de provas da violação, foi a um hospital de uma instituição católica . Não foi atendida, nem nesse hospital, nem no segundo ao qual se dirigiu (também católico), porque os médicos pensaram que, se ficasse provada a violação, ela iria querer a pílula do dia seguinte, o que os tornaria em parte responsáveis por um aborto - e temiam perder o emprego.
Claro que os responsáveis do hospital estão chocados e já pediram imensa desculpa. Parece que esta vergonha foi o resultado de uma série de mal-entendidos, alimentados por uma ameaça implícita de despedimento (não seria a primeira vez que acontecia a um médico, num caso semelhante). O que torna o incidente ainda mais grave, porque revela que os empregados de instituições da Igreja Católica têm medo de perder o emprego se prestarem auxílio segundo a sua consciência e normas elementares de humanidade, no caso de estas se oporem a regulamentos ambíguos que traduzem o fundamentalismo moral da Igreja.
E eu que pensava que Cristo tinha vindo cá para nos libertar. Vou ter de reler aquela parte do "dou-vos um mandamento novo" - suspeito que haja por lá umas entrelinhas nas quais ainda não reparei.
(Provavelmente a culpa é do tradutor, como de costume: se não for do Martinho Lutero, há-de ser do São Jerónimo.)
PS. A propósito deste caso, ler também a Helena Ferro de Gouveia.
Claro que os responsáveis do hospital estão chocados e já pediram imensa desculpa. Parece que esta vergonha foi o resultado de uma série de mal-entendidos, alimentados por uma ameaça implícita de despedimento (não seria a primeira vez que acontecia a um médico, num caso semelhante). O que torna o incidente ainda mais grave, porque revela que os empregados de instituições da Igreja Católica têm medo de perder o emprego se prestarem auxílio segundo a sua consciência e normas elementares de humanidade, no caso de estas se oporem a regulamentos ambíguos que traduzem o fundamentalismo moral da Igreja.
E eu que pensava que Cristo tinha vindo cá para nos libertar. Vou ter de reler aquela parte do "dou-vos um mandamento novo" - suspeito que haja por lá umas entrelinhas nas quais ainda não reparei.
(Provavelmente a culpa é do tradutor, como de costume: se não for do Martinho Lutero, há-de ser do São Jerónimo.)
PS. A propósito deste caso, ler também a Helena Ferro de Gouveia.
fifty grades of orange
Eu na cozinha a preparar o jantar, o Matthias sentado à mesa a comer, o Fox sentado no chão a abanar a cauda e a olhar para mim fixamente. Corto um bocado de carne e dou-lhe.
O Matthias comenta:
- Ele domina-te completamente.
(ainda se fosse o Clooney, mas não: deixei-me subjugar por um rafeirito simpático)
O Matthias comenta:
- Ele domina-te completamente.
(ainda se fosse o Clooney, mas não: deixei-me subjugar por um rafeirito simpático)
17 janeiro 2013
BVG forever
Ontem dei boleia a um alemão que vive há anos em Berlim, e comentou que era a primeira vez que entrava num carro, nesta cidade.
Não é terceiro-mundismo, podem crer. É mesmo uma rede de transportes públicos muito boa, e uma cidade que convive bem com bicicletas.
(foto)
16 janeiro 2013
trabalhar ao som de música assim
Hoje vou passar o dia a este ritmo. Quer dizer: a trabalhar a este ritmo.
E se conseguisse encontrar o botão para as 78 rotações, bem jeito me dava.
(este é o momento em que entre os leitores deste blogue se nota uma certa agitação, para se abrir uma espécie de corredor como no Mar Vermelho daquela vez, vocês sabem - de um lado os que sabem o que é isso, "78 rpm", e do outro lado os que só sabem do vinil porque ouviram a avó deles contar)
(Se tivesse tempo, ficava por aqui a falar de outras encarnações. Por exemplo, de quando cheguei à Alemanha, dos empregados da caixa do Aldi que sabiam de cor os preços de cada um dos produtos, e os batiam na máquina registadora a uma velocidade inacreditável. Quais autocolantes com preços, quais quê. Quais códigos de barras, quais quê. Com uma mão empurravam o produto, com os agilíssimos dedos da outra registavam QueijoGouda1,78LeiteMagro0,55Farinha0,32Arroz0,89.
E por aí fora, o carrinho de compras inteiro.)
15 janeiro 2013
é terça-feira, e a Feira da Ladra... (2)
Antes de passar o post que vou roubar por inteiro ao João Lopes, queria deixar um último apontamento em relação ao tema "Pepa. Ou: uma sociedade que caiu na sarjeta" (bem, não prometo que seja o último):
- E que tal aprendermos a criticar os outros como se fossem um filho nosso, ou a nossa avó? Ou, servindo-me de uma receita antiga de dois mil anos, julgar os outros como gostaríamos de ser julgados? (isto é tão flagrantemente óbvio que quase me pergunto se Jesus era mesmo o filho de Deus, ou uma encarnação anterior do Colombo, aquele chato do ovo)
- E que tal aprendermos a criticar os outros como se fossem um filho nosso, ou a nossa avó? Ou, servindo-me de uma receita antiga de dois mil anos, julgar os outros como gostaríamos de ser julgados? (isto é tão flagrantemente óbvio que quase me pergunto se Jesus era mesmo o filho de Deus, ou uma encarnação anterior do Colombo, aquele chato do ovo)
Segunda-feira, Janeiro 14, 2013
Filipa Xavier e Coco Chanel
I. A agitação social em torno do caso Filipa Xavier [ver: Pépa Xavier e as redes sociais] seria apenas um anedota pueril e pouco feliz, não se desse o caso de constituir um sintoma brutal da degradação do nosso tecido social.
II. De facto, vale a pena referir que, sob a designação autoritária, supostamente indiscutível, de redes sociais, há quem considere que faz sentido gastar o seu tempo (e o tempo dos outros) insultando a autora do blog 'Fashion-à-Porter' porque ela manifestou o seu desejo de, em 2013, ter uma mala Chanel... Mais do que isso: monta-se todo um aparato “jornalístico” para expor na praça pública o facto de alguém ter manifestado o desejo de ter um objecto que custa um pouco mais de 3 mil euros.
III. Há várias maneiras de lidar com esta manifestação desse implacável Reino da Estupidez para cujos poderes, há muito tempo, nos alertou o genial Jorge de Sena (não, não está no Facebook...). A mais redutora, mas também a mais linear, é a contabilística. Por exemplo, se eu disser que, ao longo de 2013, adorava poder ir pelo menos três dias por mês a Londres para ir ao teatro, ver exposições e comprar livros... que alternativa me resta? Fazer mea culpa e reconhecer que nem mesmo o valor de várias malas Chanel poderia custear a minha arrogante pretensão? Ou anda por aí alguém que faça questão em ser ainda mais estúpido e considerar que as minhas escolhas, porque são “culturais”, merecem outra atenção? Desculpem lá, mas recuso semelhante protecção: uma belíssima mala Chanel é sempre mais digna que a miséria moralista.
IV. Depois, há a questão da própria quantia. Será que o facto de alguém desejar um objecto de 3 mil euros (se é que a noção de desejo não fica desqualificada face a uma mera vontade de consumo pessoal, corrente em qualquer ser humano) pode ser transformado em barómetro moral de toda uma conjuntura social? Será que a “crise” em que nos obrigam a viver – a ponto de muitos discursos político-económicos parecerem querer legitimar-se a partir da aplicação automática da palavra “crise” – passou a ser uma moral ditatorial a que está sujeito qualquer cidadão que se atreva a exprimir-se em euros?...
V. A conjuntura é tanto mais repressiva – em relação à simples possibilidade de pensar – quanto esta fúria moralista possui as mais discutíveis medidas de indignação. Assim, porque gostaria de poder gastar 3 mil euros, Filipa Xavier é difamada por uma multidão de vozes vingadoras... Isto no mesmo país em que alguns administradores das mais diversas instituições podem ser achincalhados, sem qualquer consideração sobre as qualidades do seu trabalho, por receberem um ordenado de 10 mil euros... Por sua vez, o seleccionador nacional de futebol recebe 64 mil euros por mês e não há uma voz, uma que seja, que venha ao menos perguntar que opções enquadram e justificam tal valor...
VI. Em boa verdade, sou dos que consideram normal que Paulo Bento ganhe 64 mil euros por mês (creio mesmo que, face aos seus congéneres europeus, recebe um ordenado miserável). E não vejo nenhuma razão, moral, política ou simbólica, para transformar o eventual consumo de Chanel por Filipa Teixeira num elemento de reflexão e/ou superação dos nossos dramas sociais e económicos. Julgar que as muito graves limitações do nosso tecido económico se resolvem impondo a Filipa Teixeira que renuncie à sua mala Chanel, eis uma ideia (?) que pode dar muitos polegares ao alto no Facebook, mas que apenas contribui para agravar a fulanização vingativa que começou pelo imaginário do futebol e, pelos vistos, vai contaminando todas as áreas das relações sociais.
VII. Há poucos anos, perante um filme (assaz convencional, a meu ver) sobre Coco Chanel (Coco Avant Chanel, com Audrey Tautou), o país da Internet mostrou o seu deslumbramento perante a elegância da personagem e a excelência do seu universo criativo. Agora, ficamos a saber que basta querer uma mala Chanel para se ser tratada como uma criminosa. Que os “amigos” das redes sociais peguem em 3 mil euros, ponham uma metralhadora nas mãos de Filipa Teixeira, lancem-na contra as barricadas do Mal e corrijam todos os males do mundo – é o mínimo que deles se espera.
é terça-feira, e a Feira da Ladra... (1)
Post roubado por inteiro à Ana Cristina Leonardo:
13/01/13
Da utilidade dos consoantes mudas quando queremos saber do que falamos ou do falam as palavras
13/01/13
Da utilidade dos consoantes mudas quando queremos saber do que falamos ou do falam as palavras
SEXO NO VATICANO
Vaticano
Bento XVI batizou 20 crianças
Onze meninas e nove meninos receberam este
domingo o baptismo, o primeiro dos sete sacramentos, em celebração
presidida por Bento XVI na Capela Sistina, Vaticano.
Filhas de empregados da Santa Sé, os novos
cristãos estavam acompanhadas pelos pais, madrinhas e padrinhos, a quem
o Papa afirmou: «O céu está aberto também sobre as vossas crianças, e
Deus diz: estes são os meus filhos, filhos da minha complacência».
Os pais, sublinhou Bento XVI, são chamados a
fazer crescer os filhos «numa amizade cada vez mais profunda», numa
sociedade que «com frequência considera fora de moda e do tempo aqueles
que vivem da fé em Jesus», refere o jornal do Vaticano, L'Osservatore
Romano.
A celebração ocorreu no dia em que os católicos evocaram o batismo de Jesus.
***
Desculpem o título - era eu a experimentar uma certa maneira de fazer jornalismo...
(a notícia, com um título bem menos espectacular que o meu, vem no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, um sítio bom para passear)
14 janeiro 2013
pasta italiana e outras reflexões de segunda-feira
Há tempos convidámos o "mestre" do Joachim, um pintor italiano, para vir jantar connosco.
Fiz um esparguete, que me mereceu um comentário céptico do Matthias:
- Achas boa ideia cozinhar pasta para um italiano?
Eu não tinha pensado nisso, e já era tarde para arrepiar caminho. O pintor é bem educado, disse que estava muito bom.
Este fim-de-semana fomos jantar a casa dele, pasta, e eu percebi inteiramente o cepticismo do Matthias: pasta feita por um italiano é outra coisa.
Fiquei a pensar que é muito bom viver num tempo em que a cozinha pode ser um habitat natural dos homens. E também um lugar de alargamento do nosso horizonte gastro-cultural: naquela casa come-se tanto pasta como couscous, doçaria árabe e pratos turcos.
O mundo no qual eu nasci não era assim - alguma coisa está a mudar para melhor.
(foto)
13 janeiro 2013
mais um choque cultural
O Matthias combinou com amigos encontrarem-se hoje cá em casa para fazerem um jogo. Encontro marcado para as três (da tarde de domingo, note-se). Às 15:03 já se estavam todos a rir por causa do único que faltava: "vem atrasado, como de costume".
Por estas e por outras me dou conta do que os alemães devem sofrer comigo...
amor (2)
(Copio para aqui um texto que encontrei no facebook.) (Talvez este condutor de táxi seja uma ficção, talvez este texto tenha sido copiado do livro "Chicken soup for the soul", mas fica aqui na mesma, porque gosto desta ideia do amor suspenso na surpresa dos instantes.)
A NYC Taxi driver wrote:
I arrived at the address and honked the horn. After waiting a few minutes I honked again. Since this was going to be my last ride of my shift I thought about just driving away, but instead I put the car in park and walked up to the door and knocked.
'Just a minute', answered a frail, elderly voice. I could hear something being dragged across the floor.
After a long pause, the door opened. A small woman in her 90's stood before me. She was wearing a print dress and a pillbox hat with a veil pinned on it, like somebody out of a 1940's movie.
By her side was a small nylon suitcase. The apartment looked as if no one had lived in it for years. All the furniture was covered with sheets.
There were no clocks on the walls, no knickknacks or utensils on the counters. In the corner was a cardboard box filled with photos and glassware.
'Would you carry my bag out to the car?' she said. I took the suitcase to the cab, then returned to assist the woman.
She took my arm and we walked slowly toward the curb.
She kept thanking me for my kindness. 'It's nothing', I told her. 'I just try to treat my passengers the way I would want my mother to be treated.'
'Oh, you're such a good boy, she said. When we got in the cab, she gave me an address and then asked, 'Could you drive through downtown?'
'It's not the shortest way,' I answered quickly.
'Oh, I don't mind,' she said. 'I'm in no hurry. I'm on my way to a hospice.
I looked in the rear-view mirror. Her eyes were glistening. 'I don't have any family left,' she continued in a soft voice...'The doctor says I don't have very long.' I quietly reached over and shut off the meter.
'What route would you like me to take?' I asked.
For the next two hours, we drove through the city. She showed me the building where she had once worked as an elevator operator.
We drove through the neighborhood where she and her husband had lived when they were newlyweds She had me pull up in front of a furniture warehouse that had once been a ballroom where she had gone dancing as a girl.
Sometimes she'd ask me to slow in front of a particular building or corner and would sit staring into the darkness, saying nothing.
As the first hint of sun was creasing the horizon, she suddenly said, 'I'm tired. Let's go now'. We drove in silence to the address she had given me. It was a low building, like a small convalescent home, with a driveway that passed under a portico.
Two orderlies came out to the cab as soon as we pulled up. They were solicitous and intent, watching her every move. They must have been expecting her.
I opened the trunk and took the small suitcase to the door. The woman was already seated in a wheelchair.
'How much do I owe you?' she asked, reaching into her purse.
'Nothing,' I said.
'You have to make a living,' she answered.
'There are other passengers,' I responded.
Almost without thinking, I bent and gave her a hug. She held onto me tightly.
'You gave an old woman a little moment of joy,' she said. 'Thank you.'
I squeezed her hand, and then walked into the dim morning light. Behind me, a door shut. It was the sound of the closing of a life.
I didn't pick up any more passengers that shift. I drove aimlessly lost in thought. For the rest of that day, I could hardly talk. What if that woman had gotten an angry driver,or one who was impatient to end his shift? What if I had refused to take the run, or had honked once, then driven away?
On a quick review, I don't think that I have done anything more important in my life.
We're conditioned to think that our lives revolve around great moments.
But great moments often catch us unaware-beautifully wrapped in what others may consider a small one.
12 janeiro 2013
ah, valente! (2)
Ultimamente, as notícias que dizem respeito ao Depardieu parece que vêm do Inimigo Público.
Teatro da Sibéria quer Depardieu por 400 euros
Além do salário-base, o Grande Teatro Dramático de Tiumen está disposto a pagar bónus e a assumir o arrendamento de uma casa para o ator.
(notícia no Expresso)
(suspeito que alguém no Grande Teatro Dramático de Tiumen tem um extraordinário sentido de humor)
Teatro da Sibéria quer Depardieu por 400 euros
Além do salário-base, o Grande Teatro Dramático de Tiumen está disposto a pagar bónus e a assumir o arrendamento de uma casa para o ator.
(notícia no Expresso)
(suspeito que alguém no Grande Teatro Dramático de Tiumen tem um extraordinário sentido de humor)
11 janeiro 2013
le goût de comme une image
Em Weimar há um pequeno cinema comunal, o Mon Ami, com um programa fantástico, mas poucos clientes. Sobretudo nos filmes que passam de manhã (como é possível numa região com tantos reformados e desempregados não haver mais procura de cinema de qualidade às dez da manhã, por 1 ou 2 euros?).
De modo que volta e meia ficávamos ali três ou quatro gatos pingados, à espera que aparecessem interessados em número suficiente para haver quórum para passar o filme (se bem me lembro, o número mínimo de pessoas era cinco, e tinha de ser mesmo gente, não podíamos fazer batota e comprarmos nós os bilhetes). Durante uma dessas esperas, comentei com o técnico que gostara muito do Comme une Image que lá tinha visto na semana passada. Ele recomendou-me o Le Goût des Autres, mas eu achei que seria um filme sobre canibalismo, e deixei andar.
Até à semana passada, quando o vi com o Matthias.
No fim pedi-lhe desculpa por ter escolhido um filme que não é bem do seu gosto, e ele, consolador, respondeu que "não foi assim tão mau" - este rapaz vale ouro, e além disso parece que está a chegar ao fim da puberdade, gracias a la vida!
Le Goût des Autres tem música muito boa, mas durante todo o filme não me saía da cabeça esta de Monteverdi, do Comme une Image:
Terá sido, talvez, devido ao uso dos mesmos actores, ou por estar a pensar no Amour que ia ver no dia seguinte, ou - às tantas é mais isso - por esta música tocar um núcleo de angústia que é marca dos três filmes. Ou do amor, tout court.
Pepa, ou: isto é só boas notícias
Boa notícia 1: Há uma miúda em Portugal que está a poupar dinheiro para comprar uma coisa cara. Não está a pensar cravar a coisa cara aos pais, não está a pensar "arranjar esquemas", não está a pensar pedir emprestado ou usar o cartão crédito - está a poupar dinheiro. Tão gira!
Boa notícia 2: Há uma miúda em Portugal que - sabendo embora que tem um desejo consumista - está a fazer um extraordinário exercício de disciplina de gastos para conseguir comprar algo que quer. E que sente como realização pessoal conseguir poupar todo esse dinheiro. Pensava que já não havia disto nesta nossa cultura de gastar agora e pagar depois, mas afinal parece que há.
Boa notícia 3: Os desejos consumistas desta miúda provocaram uma onda de choque em todo o país, e foram muito criticados por pessoas que entendem que isso não é maneira de estar na vida. Numa primeira fase, os críticos confrontaram a miúda com os seus consumos; numa segunda fase, confrontaram-se a eles próprios sobre o estilo de vida que têm, e decidiram que a partir de hoje vão fazer uma vida o mais frugal possível para, com o dinheiro que lhes sobrará, ajudarem famílias atingidas pela tragédia do desemprego. O dia 11 de Janeiro de 2013 entrará para a história como o início de uma nova fase da humanidade, a Era dos Fazistas: o tempo das pessoas que fazem o que pensam que deve ser feito, em vez de gastarem tempo a criticar os outros.
Boa notícia 2: Há uma miúda em Portugal que - sabendo embora que tem um desejo consumista - está a fazer um extraordinário exercício de disciplina de gastos para conseguir comprar algo que quer. E que sente como realização pessoal conseguir poupar todo esse dinheiro. Pensava que já não havia disto nesta nossa cultura de gastar agora e pagar depois, mas afinal parece que há.
Boa notícia 3: Os desejos consumistas desta miúda provocaram uma onda de choque em todo o país, e foram muito criticados por pessoas que entendem que isso não é maneira de estar na vida. Numa primeira fase, os críticos confrontaram a miúda com os seus consumos; numa segunda fase, confrontaram-se a eles próprios sobre o estilo de vida que têm, e decidiram que a partir de hoje vão fazer uma vida o mais frugal possível para, com o dinheiro que lhes sobrará, ajudarem famílias atingidas pela tragédia do desemprego. O dia 11 de Janeiro de 2013 entrará para a história como o início de uma nova fase da humanidade, a Era dos Fazistas: o tempo das pessoas que fazem o que pensam que deve ser feito, em vez de gastarem tempo a criticar os outros.
10 janeiro 2013
Pepa, qual é a raíz quadrada de 144? o que pensas do relatório do FMI? achas que o governo se devia demitir? e tens uma receita para o meu jantar de hoje?
Parece que a Samsung andou a pedir a bloggers de moda que falassem dos seus desejos para 2013, e eles não souberam estar à altura da situação. Pelo que foi por aí um regabofe cruel, e a Samsung tirou os vídeos de circulação. Com o de uma tal de Pepa à cabeça.
Vi um bocadinho desse filme, mas só um bocadinho, porque não tinha interesse nenhum e o que não falta na internet são vídeos sem interesse dos quais fujo a correr.
Entretanto começaram todos a opinar, e de tal maneira que eu, que até nem simpatizo nada com bloggers de moda, estou cheia de pena da Pepa.
Começando pela Samsung: provavelmente foi ver quais são os blogues que têm mais leitores, e resolveu apelar a esse público numeroso. Mas escolheu mal os artistas. Admito que com uma Pipoca a campanha não tivesse corrido tão mal, porque ela teria (imagino eu) sabido vender-se muito melhor, e servir melhor as intenções publicitárias da Samsung, atraindo todos esses milhares de pessoas que a lêem e deixando o seu público satisfeito, mas sem levantar ondas na nossa casta de iluminados.
Cá entre nós: não entendo o fenómeno desses blogues. Inquieta-me, incomoda-me. Não é possível que aquela superficialidade e aquele correr atrás de ilusões de consumo seja o que mais sucesso tem em Portugal! Mas pelos vistos é. Pelos vistos, há muita gente que gosta de sonhar com carteiras Chanel, ou gosta de se encostar a pessoas que gostam de sonhar com carteiras Chanel.
Podemos perguntar como é que chegámos aqui - o costume: os pais que deram tudo aos filhos e os habituaram mal?, a sociedade de consumo e aparência?, a eterna adolescência?, o isolamento crescente das pessoas e a falta de consciência social? Podemos ficar chocados com o que estes filmes revelam de um certo mundo, ou de uma certa geração. Podemos dizer: então o país em derrocada e esta gente pensa em carteirinhas Chanel?
Só que uma coisa é olharmos para os sinais e tematizar o problema geral, e outra coisa é bater sem dó nem piedade numa miúda que podia ser nossa filha.
Pergunto ainda: queremos desprezar as pessoas que estão em condições de fazer consumos de luxo, e as que sonham com isso? Isto sou eu a tratar de salvar a própria pele: começam a chatear a outra por causa da carteira Chanel, depois chateiam-me a mim por ir tanto à Filarmonia, depois acabam a chatear a minha empregada por fazer férias no Peru (bem, ela é peruana). Em todo o caso: era bom que aprendêssemos a falar dos temas sem diabolizar os indivíduos, porque essa maneira de estar na retórica é um boomerang que acabará por nos atingir a todos.
No que diz respeito à Pepa, começo por uma dúvida: ela será tipo "tia precoce", ou precisa de um terapeuta da fala? Se for este o caso, devíamos ter cuidado com as críticas que fazemos, porque podemos estar a ser injustos.
Em segundo lugar: o que esperávamos de uma blogger da moda? Um discurso articulado como o do Dalai Lama, talvez? Isso é que seria de surpreender. De uma blogger da moda espero que - à semelhança das miúdas dos concursos para miss - ela diga generalidades como "gostar de viajar" e "ler O Principezinho". Porque é que ficamos chocados por ela não conseguir corresponder às nossas expectativas irrealistas? Mas isso sou eu a falar, que também não gosto nada de quando se riem das frases tolas dos jogadores de futebol (quantas delas largadas depois de um jogo que os deixou esgotados!), como se eles tivessem de falar como o Saramago (mas ninguém esperava do Saramago que marcasse lindos golos). Há em muitas dessas críticas uma arrogância e uma violência que me incomoda, porque estamos a exigir de uma pessoa aquilo que ela não pode dar - e que, na realidade, não estava na encomenda do filme.
Finalmente, e passando para um nível completamente diferente, e só para provocar: qual é o problema de uma carteira Chanel? É um tipo de produto que incorpora muita mão-de-obra qualificada e materiais de alta qualidade, e dura muito mais que as porcarias das lojas dos trezentos (cuja lógica representa uma grande sobrecarga para o meio-ambiente: o desperdício de matéria prima em produtos que se estragam depressa, o transporte da China para a nossa rua). Às vezes penso que o nosso mundo estaria melhor se comprássemos muito menos quantidade, mas de excelente qualidade - móveis artesanais em boa madeira em vez das baratices da IKEA para usar e deitar fora, roupa de excelente tecido e corte que não passe de moda nos próximos cinquenta anos, etc.
Não sei onde e em que condições laborais são feitas as carteiras Chanel, mas talvez a Pepa, com este seu desejo para 2013, esteja a fazer mais pela economia europeia e pelo nosso querido modelo europeu que os seus críticos que se alegram com pechinchas made in China.
(disse isto assim, mas de facto ainda não tenho opinião sobre a defesa da economia europeia dever passar por mais proteccionismo comercial, e não sei até que ponto é que "menos e melhor consumo" não provocará mais recessão nas nossas economias)
Resumido é isto: deixem a Pepa em paz. É possível falar sobre os rumos da nossa sociedade sem achincalhar pessoas concretas.
(Mas o Relvas devia ir estudar. Ou prescindir do título académico.)
nove anos?
Um blogue que começou em Janeiro de 2004 está a fazer agora nove anos, não é?
Contei três vezes, e duas delas até foi pelos dedos - e deu sempre nove. Não dá para acreditar.
Senhores do concurso Aventar: será que dá para criarem uma nova categoria, "Terceira Idade"?
Contei três vezes, e duas delas até foi pelos dedos - e deu sempre nove. Não dá para acreditar.
Senhores do concurso Aventar: será que dá para criarem uma nova categoria, "Terceira Idade"?
o earworm da semana
(para os apressados que não têm três minutos para perder com estes desenhos animados: o cerne da questão começa a 2:19)
(para os críticos que pensarão que ao meu gosto musical aconteceu o mesmo que ao gosto político do Depardieu: não se preocupem, na próxima semana tentarei arranjar um earworm mais "irudito")
amor
Depois de uma maldade tão nua que não sabemos encaixar, um amor tão nu que nos sobressalta.
Os filmes do Haneke são um espelho equipado com raio-X.
O amor faz-nos anjo da guarda dos outros? Ou o seu Deus? Ou o seu demónio? Como reconhecemos a fronteira?
Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; pelo que coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.
Regressemos ao Schubert do filme, como quem tenta cobrir-se. Como quem se descobriu numa travessia plena de riscos, e teme soçobrar.
Os filmes do Haneke são um espelho equipado com raio-X.
O amor faz-nos anjo da guarda dos outros? Ou o seu Deus? Ou o seu demónio? Como reconhecemos a fronteira?
Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; pelo que coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.
Regressemos ao Schubert do filme, como quem tenta cobrir-se. Como quem se descobriu numa travessia plena de riscos, e teme soçobrar.
"Jantar de Perdição"
Atenção, berlinenses: o Instituto Camões está a convidar para o segundo jantar literário. Depois de Eça de Queirós, é a vez de Camilo Castelo Branco e o seu Amor de Perdição. Vai ser no dia 31 de Janeiro, pelas 20 horas, no Hotel Pestana Tiergarten. A Leitora do Instituto Camões, Luísa Coelho, fará uma breve apresentação da obra deste escritor, e será servida uma refeição romântica com iguarias típicas da culinária portuguesa.
O jantar custa 25 Euros por pessoa. Inscrições até ao dia 20 de Janeiro. Mas - conselho de amiga - se querem mesmo ir, inscrevam-se já, porque os lugares disponíveis esgotam rapidamente.
***
Atenção, leitores: e que tal fazermos aqui um brain storming sobre os pratos que podiam ser servidos num "jantar de perdição"? A caixa de comentários está à vossa disposição.
A melhor sugestão leva como prémio a minha receita de brownies de perdição (sim, que se algum responsável de Saúde Pública me apanha nesta flagrante, ainda me arrisco a dez anos de degredo).
09 janeiro 2013
as palavras dos outros
Post roubado por inteiro ao Ardósia Azul:
A Ardósia Azul mudou-se agora para a Rua da Índia, 76.
QUINTA-FEIRA, DEZEMBRO 06, 2012
Essas mulheres...
Às vezes espreito a novela Gabriela (que já ninguém chama cravo e canela), confesso que apenas pela curiosidade de ver quem é agora quem. Da primeira vez que passou em Portugal a minha família não possuia ainda Televisão e como se tratava de um bairro suburbano, não se via nos cafés (aliás nem havia cafés) e eu fingia perceber aquilo de que toda a gente falava. Aprendi a rir no sítio certo, a ficar emocionada, a fazer perguntas adequadas - tudo sem ter visto um único episódio. Da segunda vez tratou-se da repetição da primeira e vi já sem aquela euforia colectiva que rodeou a primeira exibição.
As mulheres são agora todas muito mais bonitas, excepto a protagonista. Esta Malvina, por exemplo, tem uma beleza quase perfeita, contudo, nem de perto nem de longe a personagem se impõe como se impunha a outra. Diria que lhes falta personalidade, capacidade de nos convencer, de nos envolver, de nos mobilizar para a sua causa. São só bonitas.
Isto transportou-me para o anfiteatro cheio de estudantes no dia do Teatro do Oprimido. Eles perguntaram aos estudantes quem eram as mulheres que admiravam. Choveram estrelas da música e do cinema que estão no topo. Depois um estudante disse que quando pensou na resposta, não lhe tinha surgido ninguém que tinha sido referido. Todos quiseram saber em quem tinha ele pensado. Ele disse um pouco envergonhado mas também de modo assertivo: eu pensei na minha mãe! E depois acrescentou: pensei no sorriso dela...
~CC~
08 janeiro 2013
celebrando o meu primeiro CD do Philippe Jaroussky...
...que comprei para o caso de ele vir a Berlim e eu ir-lhe pedir um autógrafo. Caía um bocadinho mal levar-lhe o portátil para ele assinar sobre o youtube, ou pedir-lhe para assinar uma das cópias de segurança que os amigos vão deixando cá, para o caso de - nunca se sabe - a colecção deles arder ou ir numa enxurrada qualquer ou ser levada pelo vento, porque isto com o aquecimento global já ninguém está seguro.
07 janeiro 2013
ai! onde é que haverá um cabeleireiro e um esteticista abertos a esta hora?
Preciso urgentemente, porque a Luna falou deste blog no Crónicas das Horas Perdidas, e estou em crer que hoje vou ter a casa cheia de gente que não me conhece, e convém estar aqui com bom ar, muito compostinha a fazer de conta que só cá vim ver a bola.
(Obrigada, Luna. Foi muito simpático.)
(Obrigada, Luna. Foi muito simpático.)
blogues do ano 2012
Lá vamos nós outra vez para o concurso do Aventar...
Alguém teve a delicadeza (obrigadíssima, oh amigo invisível!) de inscrever o Dois Dedos de Conversa na secção "Diários de Bordo", que fica nesta página, entre a Actualidade Política e o Erotismo (hehehe).
Pode-se votar uma vez por dia.
Nem sei que vos diga. Vamos a isso? Ou ficamos por aqui, amigos como sempre?
ADENDA: também está nos "generalistas". À escolha do freguês.
receita para o ano novo
Toma doze meses,
limpa-os muito bem de toda a amargura, a avareza,
o pedantismo e o medo.
Divide cada mês em 30 ou 31 partes,
de modo a que cheguem para um ano inteiro.
Cada dia será preparado
com uma parte de trabalho
e duas de jovialidade e humor.
Adiciona três colheres de sopa cheias de optimismo,
uma colher de chá de tolerância, um grão de ironia,
uma pitada de tacto.
Em seguida, mistura muito amor a esta massa.
Quanto estiver pronto, decora o prato com raminhos
de pequenas delicadezas
e serve-o diariamente com alegria.
Catharina Elisabeth Goethe (1731 - 1808), carta ao seu filho Johann Wolfgang no primeiro dia de 1770
(original: aqui)
(tradução: you know who)
tenho dois meses e meio...
Tenho dois meses e meio para me habituar à ideia de descer esta estrada em bicicleta.
Ayayayayay! Socooooooooooooooooooorro!
(fotografia: Yungas Road)
ah, valente!
No filme que vi ontem, "No céu, debaixo da terra", falavam de um judeu alemão assimilado, pessoa muito rica e importante, que recusou diversas vezes o título de nobreza que o Kaiser lhe queria oferecer, alegando: "sou demasiado cobarde para me ridicularizar".
Ah, valente!
06 janeiro 2013
o discreto charme da Rússia
Neste princípio de 2013, parece que tudo gira em volta da Rússia. Festejámos a passagem de ano com russos, o primeiro concerto do ano foi com uma orquestra russa, na próxima sexta-feira vamos à Filarmonia ver o Kaminer a fazer de Ivan, o terrível, e no sábado vamos à Russendisko vê-lo a fazer de Wladimir, o insubstituível.
Por este andar, até ao fim de Janeiro tenho a nacionalidade russa, desato a fazer coro com o Depardieu sobre as maravilhas daquela democracia, e saio com a Brigitte Bardot e o Putin para uma das caçadas fantásticas que o presidente organiza. Ou talvez não - suspeito que, para sentir esse fascínio pela democracia do Putin e pela política russa de defesa dos animais e do ambiente, precisava de ganhar vários milhões por ano.
(Presidente, ou primeiro-ministro? Esqueci-me. O problema destes regimes tipo "l'État c'est moi" é que uma pessoa decora o nome e depois esquece-se dos detalhes da fachada.)
**
Enquanto não ganho os milhões, vou adiantando trabalho, familiarizando-me com a cultura. Ontem fui a um concerto com uma velha orquestra de jovens, a Serebranyje Struny, de São Petersburgo. Ia a convite de um antigo colega do finado coro de diplomatas, pensando que seria um concerto assim-assim, e saiu-me um evento muito sui generis: uma orquestra de instrumentos tradicionais russos (balalaika, gusli, domra, etc.) que tocava música clássica. Confesso que foi estranho ouvir as Asturias do Albéniz ou a Dança de Anitra do Grieg tocada daquela maneira. Por momentos, lembrei a banda de música da aldeia da minha avó, a abrir o cortejo da procissão. Mas uma pessoa habitua-se a tudo, e até acha graça. De tal modo, que no fim cantei lalala com os outros, a acompanhar a orquestra numa valsa da Suite para Orquestra de Jazz Nº2 de Schostakowitsch.
O e-mail com o convite informava que se tratava de uma iniciativa diplomática, do grupo parlamentar russo-alemão (esta parte, confesso que não entendi), e que a seguir ao concerto havia uma recepção (que eu traduzi logo para petits fours de caviar, pelo menos).
Encontrei uma cantora do finado coro, e rumámos à sala da recepção, juntamente com vários embaixadores em Berlim, ou representantes seus. Foi na cave por baixo da igreja onde tinha sido o concerto, num pequeno bar que lá têm (por sinal, muito engraçado, sob as antigas abóbadas de tijolo). O espumante servido era o mais barato que existe na Alemanha, uma mistela industrial da RDA, Rotkäpchen. "Ist nicht gut, ist aber kult!", dizia a minha amiga. "Ah, então está bem", respondi. Para comer, havia apenas chips vários e pretzel de pacote largados em pratos de papel sobre as mesas.
Há um ditado alemão que diz "se queres poupar, aprende com os ricos". Pensei muito nele, enquanto ia petiscando batatas fritas e pretzel, e bebericando aquele espumante que só entra na nossa casa quando queremos fazer uma gracinha. Duvido que em Portugal alguém se lembrasse de organizar uma recepção para embaixadores com um serviço tão barato. E estou em dúvida: isso é uma virtude ou um defeito?
Por este andar, até ao fim de Janeiro tenho a nacionalidade russa, desato a fazer coro com o Depardieu sobre as maravilhas daquela democracia, e saio com a Brigitte Bardot e o Putin para uma das caçadas fantásticas que o presidente organiza. Ou talvez não - suspeito que, para sentir esse fascínio pela democracia do Putin e pela política russa de defesa dos animais e do ambiente, precisava de ganhar vários milhões por ano.
(Presidente, ou primeiro-ministro? Esqueci-me. O problema destes regimes tipo "l'État c'est moi" é que uma pessoa decora o nome e depois esquece-se dos detalhes da fachada.)
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Enquanto não ganho os milhões, vou adiantando trabalho, familiarizando-me com a cultura. Ontem fui a um concerto com uma velha orquestra de jovens, a Serebranyje Struny, de São Petersburgo. Ia a convite de um antigo colega do finado coro de diplomatas, pensando que seria um concerto assim-assim, e saiu-me um evento muito sui generis: uma orquestra de instrumentos tradicionais russos (balalaika, gusli, domra, etc.) que tocava música clássica. Confesso que foi estranho ouvir as Asturias do Albéniz ou a Dança de Anitra do Grieg tocada daquela maneira. Por momentos, lembrei a banda de música da aldeia da minha avó, a abrir o cortejo da procissão. Mas uma pessoa habitua-se a tudo, e até acha graça. De tal modo, que no fim cantei lalala com os outros, a acompanhar a orquestra numa valsa da Suite para Orquestra de Jazz Nº2 de Schostakowitsch.
O e-mail com o convite informava que se tratava de uma iniciativa diplomática, do grupo parlamentar russo-alemão (esta parte, confesso que não entendi), e que a seguir ao concerto havia uma recepção (que eu traduzi logo para petits fours de caviar, pelo menos).
Encontrei uma cantora do finado coro, e rumámos à sala da recepção, juntamente com vários embaixadores em Berlim, ou representantes seus. Foi na cave por baixo da igreja onde tinha sido o concerto, num pequeno bar que lá têm (por sinal, muito engraçado, sob as antigas abóbadas de tijolo). O espumante servido era o mais barato que existe na Alemanha, uma mistela industrial da RDA, Rotkäpchen. "Ist nicht gut, ist aber kult!", dizia a minha amiga. "Ah, então está bem", respondi. Para comer, havia apenas chips vários e pretzel de pacote largados em pratos de papel sobre as mesas.
Há um ditado alemão que diz "se queres poupar, aprende com os ricos". Pensei muito nele, enquanto ia petiscando batatas fritas e pretzel, e bebericando aquele espumante que só entra na nossa casa quando queremos fazer uma gracinha. Duvido que em Portugal alguém se lembrasse de organizar uma recepção para embaixadores com um serviço tão barato. E estou em dúvida: isso é uma virtude ou um defeito?
no céu, debaixo da terra
Im Himmel, unter der Erde.
Se este filme vos passar por perto, não percam.
(Eu com vontade de me converter ao judaísmo para me deixarem pôr os ossinhos ali...)
05 janeiro 2013
voltar ao Porto
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(arquitectos desempregados a oferecer trabalho ao preço de uma empregada de limpeza - isto está lindo...) (pior do que esta, só me lembro da cena numa quinta do Douro, o dono da casa a mandar "ó senhor padre fulano, vá à cozinha buscar-nos mais um pratinho de presunto) (pena o Eça não estar presente, era de nos deixar todos consoladinhos a páginas tantas de um livro seu) (mas estou a divagar: isto não é literatura, isto de Portugal estar a pagar dívidas contraídas também para formar pessoas que, se arranjarem emprego, trabalham pelo preço mais baixo da tabela, ou são obrigadas a emigrar, é sintoma de um país que perdeu o pé, e o rumo) (eu a chover no molhado)
(chovendo agora noutra perspectiva: isto de haver em Portugal gente dinâmica, com formação universitária e ideias inovadoras, que não consegue arranjar emprego, pode vir a ser uma oportunidade de acontecer algo novo no país - por exemplo, grupos que ocupam espaços abandonados para fazer serviço social ou, como se vê aqui, gente que encontra maneiras inovadoras de ganhar o próprio pão: uma pobreza que não conduz à escravatura, mas a novas formas de dizer liberdade)
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À atenção dos meus amigos no Porto: que acham de, no próximo Verão, combinarmos um sábado para dar estas voltinhas pela cidade?
03 janeiro 2013
duas semanas de festa ou: a minha vida dava um filme
Para o nosso Natal, anunciou-se o cozinheiro sueco. Ficámos todos contentes - raramente nos sentimos tão descansados na antevéspera da ultimate battle na home front. Ele ia avisando "estamos em Colónia, estamos em Düsseldorf, chegamos amanhã a Berlim".
Comprei os gansos, preparei a casa - tudo a postos para um fantástico Natal, um autêntico The Muppet Show, mas para melhor.
O cozinheiro sueco chegou-nos num estado lastimável. Senti-me como no Shining, quando o miúdo chama o cozinheiro, este põe-se a caminho, nós aflitos na cadeira do cinema começamos a acreditar que tudo se vai resolver, o homem entra no hotel - e zimbas!, mais não conto.
O nosso cozinheiro tossia desalmadamente (parecia que se estava a preparar para ir a um concerto na Filarmonia), e meteu-se na cama durante quase dois dias.
Nós entregámo-nos ao carpe diem, e de que maneira!
No sábado antes do Natal assistimos a um pequeno concerto do Carlos Bica, sentados a dois metros dele. O que andam a fazer os realizadores, que ainda ninguém se lembrou de filmar a coreografia dos seus dedos quando toca "Believer"? (se me deixassem mandar...)
Depois, já bem tarde, levámos um amigo a casa (o que poucos fazem, em Berlim - quando muito, leva-se até à estação de S-Bahn mais próxima). Despedimo-nos na rua de casas antigas em tons pastel, num silêncio emoldurado pela neve abundante, ele em frente à porta antiga, o chão branco, dissemos "feliz Natal" - o Wim Wenders mora ali, mas é claro que não estava a passar naquele momento para se inspirar para um filme natalício daqueles lindos que se faziam ainda eu não era nascida. Nasci tarde de mais, é o problema, e além disso não me deixam mandar...
Do cenário de perfeito Natal seguimos para a Russendisko, para mostrar aquele bocadinho de Berlim aos amigos americanos. O Wladimir Kaminer já tinha ido para casa, mas ainda ficámos na conversa com a Olga, que nos contou da festa do fim-do-mundo que fizeram na datscha. Ela tem uma maneira muito engraçada de falar do fim-do-mundo, quer-me parecer que nunca passou por nenhum ao vivo.
Depois fomos dormir. No domingo chegou mais uma visita, uma australiana. Ao jantar, rimos a bandeiras despregadas com as histórias loucas que ela contava sobre o seu país: daquela vez que a mãe encontrou uma cobra verde dentro da torradeira, ou quando encontraram uma cobra venenosa no jardim mas ela não a matou porque era venenosa mas não era a pior de todas, e comia os bichos que atraíam as piores; mas depois viu um sapo e desatou aos gritos "mata! mata!", porque aquele bicho ataca os cães e é um festim para as cobras piores, e o namorado (americano, urbano) perguntava surpreendido: "não matas cobras mas matas sapos?! que país é este?" O pai riu-se tanto que se engasgou a sério, o filho disse "não se preocupem, temos aqui um médico que sabe o que é preciso para ligar ao 115". Foi uma sorte não ter havido mais engasgados naqueles jantares.
Ressuscitámos o nosso cozinheiro o melhor que pudemos, e fomos à ópera - a Raposa Matreira, de Leoš Janáček. Pena que tenham posto mais empenho na encenação que nos cantores. As cenas dos insectos na floresta eram um autêntico sonho, um miúdo-sapo encantou-nos com a sua história em forma de diálogo, mudando a entoação da voz de forma perfeita. Mas os cantores, ai! A última ária, por exemplo: se é para cantar sobre o sentido da vida e a vastidão da Natureza que nos abraça e sustém, não basta cantar afinadinho. Faltou metafísica àquela ópera, mas sobrou-lhe encanto no cenário, não se perdeu tudo.
Na véspera de Natal saí com o Fox pela manhã, e quando regressei tinha a casa cheia de gente feliz: daí a nada vinha visitar-nos um jogador da selecção nacional de futebol (nem queiram saber como é que estas coisas nos acontecem, mas acho que é assim: em Berlim há tantos VIPs, que algum havia de sobrar para nós) e o Joachim chamou um amigo para trazer os filhos e a tralha toda para ele assinar. Parecia outra vez um filme: os miúdos com um sorriso de orelha a orelha, o jogador muito simpático e simples a responder às nossas perguntas, a contar dos natais da sua infância, a dizer que mais valia dar-lhes a camisola do próximo jogo, em vez de assinar aquela - e os olhos dos nossos amigos a escancarar-se de alegria.
(Eu a pensar que estava capaz de trocar as pernas do Figo pelo olhos daquele rapaz - que olhos extraordinariamente doces!) (la donna è mobile, eu sei)
Depois de ele se ir embora, os miúdos comentaram a sua roupa, fascinados. Comparado com este, o famoso Arrumadinho parece o rapariguinho do shopping. Não há dúvida: há em Portugal fenómenos de sucesso que não consigo entender.
O cozinheiro sueco foi para a cozinha preparar os gansos da consoada, eu fui comprar os últimos presentes (as lojas fechavam às duas da tarde), consegui encontrar tudo, ufff!, a mulher do cozinheiro foi preparar a apple pie e a blueberry pie. Em algum momento trocou o açúcar pelo sal (não percebo como é que é possível olhar para um boião que diz "Marmelade" e não ver logo que isso é o sal!) de modo que as pies saíram um bocadinho sui generis. Mas foi só na crosta, pelo que sugámos a maior parte do sal com papel húmido, e o que sobrou deu um ar de interessante experiência culinária.
Pusemos os dois artistas de circo convidados (o filho do cozinheiro e a sua namorada australiana) a montar a árvore e o presépio, mas eles penduraram as bolas de vidro e prenderam os passarinhos como gente normal - sem um flic flac entre duas estrelas nem nada. Só soltavam volta e meia uns aaaahs extasiados, como se o verdadeiro prodígio fosse aquele abeto a cheirar a floresta nórdica e a sua decoração tradicional e simples. E, convenhamos, era.
A Christina veio ter connosco pelo skype, ficámos na risota com ela um bom bocado, depois o Joachim andou a mostrar-lhe a casa: o pinheiro, o presépio, a mesa, os gansos no forno (mas esta parte não foi uma grande maldade, porque o skype não passa os aromas). O Matthias fechou-se numa sala a conversar com a irmã sem ninguém os incomodar. Gosto imenso quando se põem a falar um com o outro, longe de nós. Fico feliz, e aliviada, ao vê-los assim amigos e confidentes.
Ficou tudo pronto cinco minutos antes de o ganso vir para a mesa. Entre o rir, tirar fotografias, cortar, e tudo, a comida arrefeceu. Em termos culinários, foi sem dúvida um Natal diferente...
Fizemos um intervalinho antes das pies para cantar algumas canções de Natal. A minha sogra ao piano, o Joachim o Matthias e eu a cantar as canções tradicionais de Natal alemãs, algumas antigas de cinco séculos. Tão belas.
A australiana leu uma passagem da Bíblia em francês, o que por momentos me levou aos nossos encontros nos Alpes franceses e em Taizé, e trouxe para aquela sala recordações de amigos queridos. Depois cantámos o inevitável "Noite feliz", o Joachim e o Matthias a fazer a gracinha habitual "noite feliz aaaaaaah-inspira-fundo, noite de paz aaaaaah-inspira-fundo" (eles dizem que esta é a canção ideal para os asmáticos), a avó tocava e ria. E assim se conseguiu resolver uma questão delicada: celebrarmos nós o nosso Natal de cristãos sem que a nossa amiga judia se sentisse agredida.
Depois disso, lembro-me vagamente dos presentes, das pies, e de o vinho estar muito bom...
No primeiro dia de Natal sornámos longamente, e depois de escurecer fomos até ao mercado do Gendarmenmarkt: um bocadinho de magia no coração da cidade.
No segundo dia de Natal queríamos ir a um concerto de música barroca no cenário do Jagdschloss Grunewald, mas estava esgotado. Pelo que assistimos a uma parte do ensaio, rapidamente percebemos que fora uma sorte para nós o concerto estar esgotado, visitamos a colecção dos Cranach, fotografámos com o telemóvel o lago gelado...
... e a seguir fomos sonhar para o Corteo. Difícil dizer o que foi o mais bonito - mas a cena dos balões, a partir de 49'05, é pura poesia.
Nestas duas semanas houve ainda tempo para ir passear para o Wannsee (ah, a luz de inverno no Wannsee!)...
...ao museu Die Brücke, que estava deserto e tem de novo os quadros da exposição habitual (e como é bom regressar aos quadros onde já se foi feliz!)...
...à Filarmonia, onde nos zangámos um bocadinho com a Bartoli (porque não nos deixou assistir ao seu ensaio), e ao Loft - um espectáculo de "variété", que é como quem diz teatro circo com alguns toques de ordinarice. Chegámos mesmo em cima da hora, mandaram-nos por uma entrada lateral, e quando demos por ela estávamos a entrar pelo meio do frigorífico do Loft para o centro do palco, com a sala cheia a aplaudir. Eu achei que todos tinham passado pelo mesmo, de modo que me ri para as outras vítimas; a nossa amiga Linda descobriu entre os artistas no palco uma que tinha sido roommate da nossa australiana, deu-lhe dois beijinhos e fez um bocadinho de small talk enquanto o público continuava a aplaudir. Um dos artistas tinha um six pack que quase me fez esquecer os olhos do jogador de futebol (o Verdi é que tinha razão).
Nestas duas semanas também houve tempo para ver sossegadamente filmes no sofá, ler, dormir, passear (muito) com o Fox. Para fazer sushi em casa,
e ir festejar a passagem de ano à maneira russa: a mesa ajoujada de comida fantástica porque duas avós tinham cozinhado ao despique, a enorme simpatia das pessoas, o fogo-de-artifício especial - e nós, sortudos, a saborear com eles.
O nosso Natal dava vários filmes de domingo à tarde. Uns poéticos, outros cómicos. Mas ainda está para nascer duas vezes o autor capaz de imaginar a tirada mais inesperada de todas: num jantar com primos, a minha sogra atira para a mesa que "a Helena diz que a culpa de tudo o que está a acontecer em Portugal é da Angela Merkel!"
(Aha, Rita, para que conste!)
***
Ontem, a última das nossas visitas foi-se embora: o nosso Natal acabou a 2 de Janeiro - mas já temos planos para o próximo.
parece-me que vou passar o resto da tarde por aqui
(bela música para me acompanhar a navegação - estou a tentar encontrar passagens de avião para a Bolívia)
"Como te sentes, Helena?"
O facebook, todos os dias:
- Como te sentes, Helena?
- Bem, obrigada. E tu, facebook?
O que me lembra uma passagem do livro mais recente do Kaminer, "Onkel Wanja kommt":
(tradução do "rrrraaapido, rrrraaaapido")
"Excelentíssimo senhor funcionário da Embaixada", escrevi eu na caixa das mensagens, "queria pedir o favor de marcar ainda este ano uma data para o meu tio pedir um visto. Trata-se de uma pessoa de idade, que não vejo há muito tempo. Ficar-lhe-ia muito agradecido. Respeitosos cumprimentos,
W. Kaminer"
Naturalmente apresentei-me como escritor famoso, mas as respostas são enviadas automaticamente pelo robot da Embaixada, para o qual todos os homens são iguais, quer sejam escritores quer não.
"Excelentíssimos senhores e senhoras", respondeu o robot, "recebemos um pedido para marcar uma hora de atendimento para casos excepcionais no departamento de vistos da Embaixada alemã em Moscovo. Essas excepções só podem ser concedidas para um número muito limitado de casos urgentes. Por favor, explicite detalhadamente o caso, o motivo da viagem e a causa da urgência. Junte à sua mensagem os documentos comprovativos das declarações. Avisamos desde já que os pedidos relativos a meras viagens turísticas não são atendidos."
"Excelentíssimo senhor robot", eu de novo. "trata-se de um mal-entendido. Não tenho qualquer comprovativo de urgência ou de caso excepcional. Trata-se apenas do meu tio idoso, que eu queria convidar para vir passar uns dias connosco antes do fim deste ano. Não precisamos de uma hora de atendimento excepcional, basta-nos uma hora normalíssima. É uma questão que levo muito a peito, agradecia que a tratasse com especial atenção." escrevi, sabendo embora que os robots não têm peito, e muito menos os robots da Embaixada.
Troquei mais umas três mensagens com o robot, até que um dia uma mulher viva, com nome próprio e apelido, perguntou:
"Caro senhor Kaminer, qual é o nome do seu tio?"
02 janeiro 2013
"desculpem lá!"
A propósito do post "desculpem lá!" na Travessa do Fala-Só, lembrei-me do Pax Bank, um banco católico alemão, que vendeu títulos do Lehman Brothers aos seus clientes; quando o banco faliu, usou as suas próprias reservas para reembolsar as pessoas que tinham sido enganadas. Um representante do banco explicou os mecanismos que os levaram a pensar que estavam a vender títulos seguros, acrescentando que depois disso redobraram os cuidados, porque nos próximos anos não têm margem para suportar os erros que possam eventualmente ocorrer.
Não estou a fazer a apologia dos bancos católicos (tanto mais que bem sei de outros bancos católicos que...), mas a deixar aqui um sinal: não basta pedir desculpa. É possível assumir as suas responsabilidades assumindo também o preço das decisões tomadas.
Andámos há anos a pensar mudar para esse banco, apesar de ser bem mais caro que os outros nos quais temos contas. Era boa ideia começar 2013 com uma pequena vitória sobre a inércia, escolhendo apoiar um banco que procura ter um comportamento mais ético.
Não estou a fazer a apologia dos bancos católicos (tanto mais que bem sei de outros bancos católicos que...), mas a deixar aqui um sinal: não basta pedir desculpa. É possível assumir as suas responsabilidades assumindo também o preço das decisões tomadas.
Andámos há anos a pensar mudar para esse banco, apesar de ser bem mais caro que os outros nos quais temos contas. Era boa ideia começar 2013 com uma pequena vitória sobre a inércia, escolhendo apoiar um banco que procura ter um comportamento mais ético.
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