Ultimamente, as notícias que dizem respeito ao Depardieu parece que vêm do Inimigo Público.
Teatro da Sibéria quer Depardieu por 400 euros
Além do salário-base, o Grande Teatro Dramático de Tiumen está disposto a pagar bónus e a assumir o arrendamento de uma casa para o ator.
(notícia no Expresso)
(suspeito que alguém no Grande Teatro Dramático de Tiumen tem um extraordinário sentido de humor)
12 janeiro 2013
11 janeiro 2013
le goût de comme une image
Em Weimar há um pequeno cinema comunal, o Mon Ami, com um programa fantástico, mas poucos clientes. Sobretudo nos filmes que passam de manhã (como é possível numa região com tantos reformados e desempregados não haver mais procura de cinema de qualidade às dez da manhã, por 1 ou 2 euros?).
De modo que volta e meia ficávamos ali três ou quatro gatos pingados, à espera que aparecessem interessados em número suficiente para haver quórum para passar o filme (se bem me lembro, o número mínimo de pessoas era cinco, e tinha de ser mesmo gente, não podíamos fazer batota e comprarmos nós os bilhetes). Durante uma dessas esperas, comentei com o técnico que gostara muito do Comme une Image que lá tinha visto na semana passada. Ele recomendou-me o Le Goût des Autres, mas eu achei que seria um filme sobre canibalismo, e deixei andar.
Até à semana passada, quando o vi com o Matthias.
No fim pedi-lhe desculpa por ter escolhido um filme que não é bem do seu gosto, e ele, consolador, respondeu que "não foi assim tão mau" - este rapaz vale ouro, e além disso parece que está a chegar ao fim da puberdade, gracias a la vida!
Le Goût des Autres tem música muito boa, mas durante todo o filme não me saía da cabeça esta de Monteverdi, do Comme une Image:
Terá sido, talvez, devido ao uso dos mesmos actores, ou por estar a pensar no Amour que ia ver no dia seguinte, ou - às tantas é mais isso - por esta música tocar um núcleo de angústia que é marca dos três filmes. Ou do amor, tout court.
Pepa, ou: isto é só boas notícias
Boa notícia 1: Há uma miúda em Portugal que está a poupar dinheiro para comprar uma coisa cara. Não está a pensar cravar a coisa cara aos pais, não está a pensar "arranjar esquemas", não está a pensar pedir emprestado ou usar o cartão crédito - está a poupar dinheiro. Tão gira!
Boa notícia 2: Há uma miúda em Portugal que - sabendo embora que tem um desejo consumista - está a fazer um extraordinário exercício de disciplina de gastos para conseguir comprar algo que quer. E que sente como realização pessoal conseguir poupar todo esse dinheiro. Pensava que já não havia disto nesta nossa cultura de gastar agora e pagar depois, mas afinal parece que há.
Boa notícia 3: Os desejos consumistas desta miúda provocaram uma onda de choque em todo o país, e foram muito criticados por pessoas que entendem que isso não é maneira de estar na vida. Numa primeira fase, os críticos confrontaram a miúda com os seus consumos; numa segunda fase, confrontaram-se a eles próprios sobre o estilo de vida que têm, e decidiram que a partir de hoje vão fazer uma vida o mais frugal possível para, com o dinheiro que lhes sobrará, ajudarem famílias atingidas pela tragédia do desemprego. O dia 11 de Janeiro de 2013 entrará para a história como o início de uma nova fase da humanidade, a Era dos Fazistas: o tempo das pessoas que fazem o que pensam que deve ser feito, em vez de gastarem tempo a criticar os outros.
Boa notícia 2: Há uma miúda em Portugal que - sabendo embora que tem um desejo consumista - está a fazer um extraordinário exercício de disciplina de gastos para conseguir comprar algo que quer. E que sente como realização pessoal conseguir poupar todo esse dinheiro. Pensava que já não havia disto nesta nossa cultura de gastar agora e pagar depois, mas afinal parece que há.
Boa notícia 3: Os desejos consumistas desta miúda provocaram uma onda de choque em todo o país, e foram muito criticados por pessoas que entendem que isso não é maneira de estar na vida. Numa primeira fase, os críticos confrontaram a miúda com os seus consumos; numa segunda fase, confrontaram-se a eles próprios sobre o estilo de vida que têm, e decidiram que a partir de hoje vão fazer uma vida o mais frugal possível para, com o dinheiro que lhes sobrará, ajudarem famílias atingidas pela tragédia do desemprego. O dia 11 de Janeiro de 2013 entrará para a história como o início de uma nova fase da humanidade, a Era dos Fazistas: o tempo das pessoas que fazem o que pensam que deve ser feito, em vez de gastarem tempo a criticar os outros.
10 janeiro 2013
Pepa, qual é a raíz quadrada de 144? o que pensas do relatório do FMI? achas que o governo se devia demitir? e tens uma receita para o meu jantar de hoje?
Parece que a Samsung andou a pedir a bloggers de moda que falassem dos seus desejos para 2013, e eles não souberam estar à altura da situação. Pelo que foi por aí um regabofe cruel, e a Samsung tirou os vídeos de circulação. Com o de uma tal de Pepa à cabeça.
Vi um bocadinho desse filme, mas só um bocadinho, porque não tinha interesse nenhum e o que não falta na internet são vídeos sem interesse dos quais fujo a correr.
Entretanto começaram todos a opinar, e de tal maneira que eu, que até nem simpatizo nada com bloggers de moda, estou cheia de pena da Pepa.
Começando pela Samsung: provavelmente foi ver quais são os blogues que têm mais leitores, e resolveu apelar a esse público numeroso. Mas escolheu mal os artistas. Admito que com uma Pipoca a campanha não tivesse corrido tão mal, porque ela teria (imagino eu) sabido vender-se muito melhor, e servir melhor as intenções publicitárias da Samsung, atraindo todos esses milhares de pessoas que a lêem e deixando o seu público satisfeito, mas sem levantar ondas na nossa casta de iluminados.
Cá entre nós: não entendo o fenómeno desses blogues. Inquieta-me, incomoda-me. Não é possível que aquela superficialidade e aquele correr atrás de ilusões de consumo seja o que mais sucesso tem em Portugal! Mas pelos vistos é. Pelos vistos, há muita gente que gosta de sonhar com carteiras Chanel, ou gosta de se encostar a pessoas que gostam de sonhar com carteiras Chanel.
Podemos perguntar como é que chegámos aqui - o costume: os pais que deram tudo aos filhos e os habituaram mal?, a sociedade de consumo e aparência?, a eterna adolescência?, o isolamento crescente das pessoas e a falta de consciência social? Podemos ficar chocados com o que estes filmes revelam de um certo mundo, ou de uma certa geração. Podemos dizer: então o país em derrocada e esta gente pensa em carteirinhas Chanel?
Só que uma coisa é olharmos para os sinais e tematizar o problema geral, e outra coisa é bater sem dó nem piedade numa miúda que podia ser nossa filha.
Pergunto ainda: queremos desprezar as pessoas que estão em condições de fazer consumos de luxo, e as que sonham com isso? Isto sou eu a tratar de salvar a própria pele: começam a chatear a outra por causa da carteira Chanel, depois chateiam-me a mim por ir tanto à Filarmonia, depois acabam a chatear a minha empregada por fazer férias no Peru (bem, ela é peruana). Em todo o caso: era bom que aprendêssemos a falar dos temas sem diabolizar os indivíduos, porque essa maneira de estar na retórica é um boomerang que acabará por nos atingir a todos.
No que diz respeito à Pepa, começo por uma dúvida: ela será tipo "tia precoce", ou precisa de um terapeuta da fala? Se for este o caso, devíamos ter cuidado com as críticas que fazemos, porque podemos estar a ser injustos.
Em segundo lugar: o que esperávamos de uma blogger da moda? Um discurso articulado como o do Dalai Lama, talvez? Isso é que seria de surpreender. De uma blogger da moda espero que - à semelhança das miúdas dos concursos para miss - ela diga generalidades como "gostar de viajar" e "ler O Principezinho". Porque é que ficamos chocados por ela não conseguir corresponder às nossas expectativas irrealistas? Mas isso sou eu a falar, que também não gosto nada de quando se riem das frases tolas dos jogadores de futebol (quantas delas largadas depois de um jogo que os deixou esgotados!), como se eles tivessem de falar como o Saramago (mas ninguém esperava do Saramago que marcasse lindos golos). Há em muitas dessas críticas uma arrogância e uma violência que me incomoda, porque estamos a exigir de uma pessoa aquilo que ela não pode dar - e que, na realidade, não estava na encomenda do filme.
Finalmente, e passando para um nível completamente diferente, e só para provocar: qual é o problema de uma carteira Chanel? É um tipo de produto que incorpora muita mão-de-obra qualificada e materiais de alta qualidade, e dura muito mais que as porcarias das lojas dos trezentos (cuja lógica representa uma grande sobrecarga para o meio-ambiente: o desperdício de matéria prima em produtos que se estragam depressa, o transporte da China para a nossa rua). Às vezes penso que o nosso mundo estaria melhor se comprássemos muito menos quantidade, mas de excelente qualidade - móveis artesanais em boa madeira em vez das baratices da IKEA para usar e deitar fora, roupa de excelente tecido e corte que não passe de moda nos próximos cinquenta anos, etc.
Não sei onde e em que condições laborais são feitas as carteiras Chanel, mas talvez a Pepa, com este seu desejo para 2013, esteja a fazer mais pela economia europeia e pelo nosso querido modelo europeu que os seus críticos que se alegram com pechinchas made in China.
(disse isto assim, mas de facto ainda não tenho opinião sobre a defesa da economia europeia dever passar por mais proteccionismo comercial, e não sei até que ponto é que "menos e melhor consumo" não provocará mais recessão nas nossas economias)
Resumido é isto: deixem a Pepa em paz. É possível falar sobre os rumos da nossa sociedade sem achincalhar pessoas concretas.
(Mas o Relvas devia ir estudar. Ou prescindir do título académico.)
nove anos?
Um blogue que começou em Janeiro de 2004 está a fazer agora nove anos, não é?
Contei três vezes, e duas delas até foi pelos dedos - e deu sempre nove. Não dá para acreditar.
Senhores do concurso Aventar: será que dá para criarem uma nova categoria, "Terceira Idade"?
Contei três vezes, e duas delas até foi pelos dedos - e deu sempre nove. Não dá para acreditar.
Senhores do concurso Aventar: será que dá para criarem uma nova categoria, "Terceira Idade"?
o earworm da semana
(para os apressados que não têm três minutos para perder com estes desenhos animados: o cerne da questão começa a 2:19)
(para os críticos que pensarão que ao meu gosto musical aconteceu o mesmo que ao gosto político do Depardieu: não se preocupem, na próxima semana tentarei arranjar um earworm mais "irudito")
amor
Depois de uma maldade tão nua que não sabemos encaixar, um amor tão nu que nos sobressalta.
Os filmes do Haneke são um espelho equipado com raio-X.
O amor faz-nos anjo da guarda dos outros? Ou o seu Deus? Ou o seu demónio? Como reconhecemos a fronteira?
Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; pelo que coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.
Regressemos ao Schubert do filme, como quem tenta cobrir-se. Como quem se descobriu numa travessia plena de riscos, e teme soçobrar.
Os filmes do Haneke são um espelho equipado com raio-X.
O amor faz-nos anjo da guarda dos outros? Ou o seu Deus? Ou o seu demónio? Como reconhecemos a fronteira?
Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; pelo que coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.
Regressemos ao Schubert do filme, como quem tenta cobrir-se. Como quem se descobriu numa travessia plena de riscos, e teme soçobrar.
"Jantar de Perdição"
Atenção, berlinenses: o Instituto Camões está a convidar para o segundo jantar literário. Depois de Eça de Queirós, é a vez de Camilo Castelo Branco e o seu Amor de Perdição. Vai ser no dia 31 de Janeiro, pelas 20 horas, no Hotel Pestana Tiergarten. A Leitora do Instituto Camões, Luísa Coelho, fará uma breve apresentação da obra deste escritor, e será servida uma refeição romântica com iguarias típicas da culinária portuguesa.
O jantar custa 25 Euros por pessoa. Inscrições até ao dia 20 de Janeiro. Mas - conselho de amiga - se querem mesmo ir, inscrevam-se já, porque os lugares disponíveis esgotam rapidamente.
***
Atenção, leitores: e que tal fazermos aqui um brain storming sobre os pratos que podiam ser servidos num "jantar de perdição"? A caixa de comentários está à vossa disposição.
A melhor sugestão leva como prémio a minha receita de brownies de perdição (sim, que se algum responsável de Saúde Pública me apanha nesta flagrante, ainda me arrisco a dez anos de degredo).
09 janeiro 2013
as palavras dos outros
Post roubado por inteiro ao Ardósia Azul:
A Ardósia Azul mudou-se agora para a Rua da Índia, 76.
QUINTA-FEIRA, DEZEMBRO 06, 2012
Essas mulheres...
Às vezes espreito a novela Gabriela (que já ninguém chama cravo e canela), confesso que apenas pela curiosidade de ver quem é agora quem. Da primeira vez que passou em Portugal a minha família não possuia ainda Televisão e como se tratava de um bairro suburbano, não se via nos cafés (aliás nem havia cafés) e eu fingia perceber aquilo de que toda a gente falava. Aprendi a rir no sítio certo, a ficar emocionada, a fazer perguntas adequadas - tudo sem ter visto um único episódio. Da segunda vez tratou-se da repetição da primeira e vi já sem aquela euforia colectiva que rodeou a primeira exibição.
As mulheres são agora todas muito mais bonitas, excepto a protagonista. Esta Malvina, por exemplo, tem uma beleza quase perfeita, contudo, nem de perto nem de longe a personagem se impõe como se impunha a outra. Diria que lhes falta personalidade, capacidade de nos convencer, de nos envolver, de nos mobilizar para a sua causa. São só bonitas.
Isto transportou-me para o anfiteatro cheio de estudantes no dia do Teatro do Oprimido. Eles perguntaram aos estudantes quem eram as mulheres que admiravam. Choveram estrelas da música e do cinema que estão no topo. Depois um estudante disse que quando pensou na resposta, não lhe tinha surgido ninguém que tinha sido referido. Todos quiseram saber em quem tinha ele pensado. Ele disse um pouco envergonhado mas também de modo assertivo: eu pensei na minha mãe! E depois acrescentou: pensei no sorriso dela...
~CC~
08 janeiro 2013
celebrando o meu primeiro CD do Philippe Jaroussky...
...que comprei para o caso de ele vir a Berlim e eu ir-lhe pedir um autógrafo. Caía um bocadinho mal levar-lhe o portátil para ele assinar sobre o youtube, ou pedir-lhe para assinar uma das cópias de segurança que os amigos vão deixando cá, para o caso de - nunca se sabe - a colecção deles arder ou ir numa enxurrada qualquer ou ser levada pelo vento, porque isto com o aquecimento global já ninguém está seguro.
07 janeiro 2013
ai! onde é que haverá um cabeleireiro e um esteticista abertos a esta hora?
Preciso urgentemente, porque a Luna falou deste blog no Crónicas das Horas Perdidas, e estou em crer que hoje vou ter a casa cheia de gente que não me conhece, e convém estar aqui com bom ar, muito compostinha a fazer de conta que só cá vim ver a bola.
(Obrigada, Luna. Foi muito simpático.)
(Obrigada, Luna. Foi muito simpático.)
blogues do ano 2012
Lá vamos nós outra vez para o concurso do Aventar...
Alguém teve a delicadeza (obrigadíssima, oh amigo invisível!) de inscrever o Dois Dedos de Conversa na secção "Diários de Bordo", que fica nesta página, entre a Actualidade Política e o Erotismo (hehehe).
Pode-se votar uma vez por dia.
Nem sei que vos diga. Vamos a isso? Ou ficamos por aqui, amigos como sempre?
ADENDA: também está nos "generalistas". À escolha do freguês.
receita para o ano novo
Toma doze meses,
limpa-os muito bem de toda a amargura, a avareza,
o pedantismo e o medo.
Divide cada mês em 30 ou 31 partes,
de modo a que cheguem para um ano inteiro.
Cada dia será preparado
com uma parte de trabalho
e duas de jovialidade e humor.
Adiciona três colheres de sopa cheias de optimismo,
uma colher de chá de tolerância, um grão de ironia,
uma pitada de tacto.
Em seguida, mistura muito amor a esta massa.
Quanto estiver pronto, decora o prato com raminhos
de pequenas delicadezas
e serve-o diariamente com alegria.
Catharina Elisabeth Goethe (1731 - 1808), carta ao seu filho Johann Wolfgang no primeiro dia de 1770
(original: aqui)
(tradução: you know who)
tenho dois meses e meio...
Tenho dois meses e meio para me habituar à ideia de descer esta estrada em bicicleta.
Ayayayayay! Socooooooooooooooooooorro!
(fotografia: Yungas Road)
ah, valente!
No filme que vi ontem, "No céu, debaixo da terra", falavam de um judeu alemão assimilado, pessoa muito rica e importante, que recusou diversas vezes o título de nobreza que o Kaiser lhe queria oferecer, alegando: "sou demasiado cobarde para me ridicularizar".
Ah, valente!
06 janeiro 2013
o discreto charme da Rússia
Neste princípio de 2013, parece que tudo gira em volta da Rússia. Festejámos a passagem de ano com russos, o primeiro concerto do ano foi com uma orquestra russa, na próxima sexta-feira vamos à Filarmonia ver o Kaminer a fazer de Ivan, o terrível, e no sábado vamos à Russendisko vê-lo a fazer de Wladimir, o insubstituível.
Por este andar, até ao fim de Janeiro tenho a nacionalidade russa, desato a fazer coro com o Depardieu sobre as maravilhas daquela democracia, e saio com a Brigitte Bardot e o Putin para uma das caçadas fantásticas que o presidente organiza. Ou talvez não - suspeito que, para sentir esse fascínio pela democracia do Putin e pela política russa de defesa dos animais e do ambiente, precisava de ganhar vários milhões por ano.
(Presidente, ou primeiro-ministro? Esqueci-me. O problema destes regimes tipo "l'État c'est moi" é que uma pessoa decora o nome e depois esquece-se dos detalhes da fachada.)
**
Enquanto não ganho os milhões, vou adiantando trabalho, familiarizando-me com a cultura. Ontem fui a um concerto com uma velha orquestra de jovens, a Serebranyje Struny, de São Petersburgo. Ia a convite de um antigo colega do finado coro de diplomatas, pensando que seria um concerto assim-assim, e saiu-me um evento muito sui generis: uma orquestra de instrumentos tradicionais russos (balalaika, gusli, domra, etc.) que tocava música clássica. Confesso que foi estranho ouvir as Asturias do Albéniz ou a Dança de Anitra do Grieg tocada daquela maneira. Por momentos, lembrei a banda de música da aldeia da minha avó, a abrir o cortejo da procissão. Mas uma pessoa habitua-se a tudo, e até acha graça. De tal modo, que no fim cantei lalala com os outros, a acompanhar a orquestra numa valsa da Suite para Orquestra de Jazz Nº2 de Schostakowitsch.
O e-mail com o convite informava que se tratava de uma iniciativa diplomática, do grupo parlamentar russo-alemão (esta parte, confesso que não entendi), e que a seguir ao concerto havia uma recepção (que eu traduzi logo para petits fours de caviar, pelo menos).
Encontrei uma cantora do finado coro, e rumámos à sala da recepção, juntamente com vários embaixadores em Berlim, ou representantes seus. Foi na cave por baixo da igreja onde tinha sido o concerto, num pequeno bar que lá têm (por sinal, muito engraçado, sob as antigas abóbadas de tijolo). O espumante servido era o mais barato que existe na Alemanha, uma mistela industrial da RDA, Rotkäpchen. "Ist nicht gut, ist aber kult!", dizia a minha amiga. "Ah, então está bem", respondi. Para comer, havia apenas chips vários e pretzel de pacote largados em pratos de papel sobre as mesas.
Há um ditado alemão que diz "se queres poupar, aprende com os ricos". Pensei muito nele, enquanto ia petiscando batatas fritas e pretzel, e bebericando aquele espumante que só entra na nossa casa quando queremos fazer uma gracinha. Duvido que em Portugal alguém se lembrasse de organizar uma recepção para embaixadores com um serviço tão barato. E estou em dúvida: isso é uma virtude ou um defeito?
Por este andar, até ao fim de Janeiro tenho a nacionalidade russa, desato a fazer coro com o Depardieu sobre as maravilhas daquela democracia, e saio com a Brigitte Bardot e o Putin para uma das caçadas fantásticas que o presidente organiza. Ou talvez não - suspeito que, para sentir esse fascínio pela democracia do Putin e pela política russa de defesa dos animais e do ambiente, precisava de ganhar vários milhões por ano.
(Presidente, ou primeiro-ministro? Esqueci-me. O problema destes regimes tipo "l'État c'est moi" é que uma pessoa decora o nome e depois esquece-se dos detalhes da fachada.)
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Enquanto não ganho os milhões, vou adiantando trabalho, familiarizando-me com a cultura. Ontem fui a um concerto com uma velha orquestra de jovens, a Serebranyje Struny, de São Petersburgo. Ia a convite de um antigo colega do finado coro de diplomatas, pensando que seria um concerto assim-assim, e saiu-me um evento muito sui generis: uma orquestra de instrumentos tradicionais russos (balalaika, gusli, domra, etc.) que tocava música clássica. Confesso que foi estranho ouvir as Asturias do Albéniz ou a Dança de Anitra do Grieg tocada daquela maneira. Por momentos, lembrei a banda de música da aldeia da minha avó, a abrir o cortejo da procissão. Mas uma pessoa habitua-se a tudo, e até acha graça. De tal modo, que no fim cantei lalala com os outros, a acompanhar a orquestra numa valsa da Suite para Orquestra de Jazz Nº2 de Schostakowitsch.
O e-mail com o convite informava que se tratava de uma iniciativa diplomática, do grupo parlamentar russo-alemão (esta parte, confesso que não entendi), e que a seguir ao concerto havia uma recepção (que eu traduzi logo para petits fours de caviar, pelo menos).
Encontrei uma cantora do finado coro, e rumámos à sala da recepção, juntamente com vários embaixadores em Berlim, ou representantes seus. Foi na cave por baixo da igreja onde tinha sido o concerto, num pequeno bar que lá têm (por sinal, muito engraçado, sob as antigas abóbadas de tijolo). O espumante servido era o mais barato que existe na Alemanha, uma mistela industrial da RDA, Rotkäpchen. "Ist nicht gut, ist aber kult!", dizia a minha amiga. "Ah, então está bem", respondi. Para comer, havia apenas chips vários e pretzel de pacote largados em pratos de papel sobre as mesas.
Há um ditado alemão que diz "se queres poupar, aprende com os ricos". Pensei muito nele, enquanto ia petiscando batatas fritas e pretzel, e bebericando aquele espumante que só entra na nossa casa quando queremos fazer uma gracinha. Duvido que em Portugal alguém se lembrasse de organizar uma recepção para embaixadores com um serviço tão barato. E estou em dúvida: isso é uma virtude ou um defeito?
no céu, debaixo da terra
Im Himmel, unter der Erde.
Se este filme vos passar por perto, não percam.
(Eu com vontade de me converter ao judaísmo para me deixarem pôr os ossinhos ali...)
05 janeiro 2013
voltar ao Porto
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(arquitectos desempregados a oferecer trabalho ao preço de uma empregada de limpeza - isto está lindo...) (pior do que esta, só me lembro da cena numa quinta do Douro, o dono da casa a mandar "ó senhor padre fulano, vá à cozinha buscar-nos mais um pratinho de presunto) (pena o Eça não estar presente, era de nos deixar todos consoladinhos a páginas tantas de um livro seu) (mas estou a divagar: isto não é literatura, isto de Portugal estar a pagar dívidas contraídas também para formar pessoas que, se arranjarem emprego, trabalham pelo preço mais baixo da tabela, ou são obrigadas a emigrar, é sintoma de um país que perdeu o pé, e o rumo) (eu a chover no molhado)
(chovendo agora noutra perspectiva: isto de haver em Portugal gente dinâmica, com formação universitária e ideias inovadoras, que não consegue arranjar emprego, pode vir a ser uma oportunidade de acontecer algo novo no país - por exemplo, grupos que ocupam espaços abandonados para fazer serviço social ou, como se vê aqui, gente que encontra maneiras inovadoras de ganhar o próprio pão: uma pobreza que não conduz à escravatura, mas a novas formas de dizer liberdade)
**
À atenção dos meus amigos no Porto: que acham de, no próximo Verão, combinarmos um sábado para dar estas voltinhas pela cidade?
03 janeiro 2013
duas semanas de festa ou: a minha vida dava um filme
Para o nosso Natal, anunciou-se o cozinheiro sueco. Ficámos todos contentes - raramente nos sentimos tão descansados na antevéspera da ultimate battle na home front. Ele ia avisando "estamos em Colónia, estamos em Düsseldorf, chegamos amanhã a Berlim".
Comprei os gansos, preparei a casa - tudo a postos para um fantástico Natal, um autêntico The Muppet Show, mas para melhor.
O cozinheiro sueco chegou-nos num estado lastimável. Senti-me como no Shining, quando o miúdo chama o cozinheiro, este põe-se a caminho, nós aflitos na cadeira do cinema começamos a acreditar que tudo se vai resolver, o homem entra no hotel - e zimbas!, mais não conto.
O nosso cozinheiro tossia desalmadamente (parecia que se estava a preparar para ir a um concerto na Filarmonia), e meteu-se na cama durante quase dois dias.
Nós entregámo-nos ao carpe diem, e de que maneira!
No sábado antes do Natal assistimos a um pequeno concerto do Carlos Bica, sentados a dois metros dele. O que andam a fazer os realizadores, que ainda ninguém se lembrou de filmar a coreografia dos seus dedos quando toca "Believer"? (se me deixassem mandar...)
Depois, já bem tarde, levámos um amigo a casa (o que poucos fazem, em Berlim - quando muito, leva-se até à estação de S-Bahn mais próxima). Despedimo-nos na rua de casas antigas em tons pastel, num silêncio emoldurado pela neve abundante, ele em frente à porta antiga, o chão branco, dissemos "feliz Natal" - o Wim Wenders mora ali, mas é claro que não estava a passar naquele momento para se inspirar para um filme natalício daqueles lindos que se faziam ainda eu não era nascida. Nasci tarde de mais, é o problema, e além disso não me deixam mandar...
Do cenário de perfeito Natal seguimos para a Russendisko, para mostrar aquele bocadinho de Berlim aos amigos americanos. O Wladimir Kaminer já tinha ido para casa, mas ainda ficámos na conversa com a Olga, que nos contou da festa do fim-do-mundo que fizeram na datscha. Ela tem uma maneira muito engraçada de falar do fim-do-mundo, quer-me parecer que nunca passou por nenhum ao vivo.
Depois fomos dormir. No domingo chegou mais uma visita, uma australiana. Ao jantar, rimos a bandeiras despregadas com as histórias loucas que ela contava sobre o seu país: daquela vez que a mãe encontrou uma cobra verde dentro da torradeira, ou quando encontraram uma cobra venenosa no jardim mas ela não a matou porque era venenosa mas não era a pior de todas, e comia os bichos que atraíam as piores; mas depois viu um sapo e desatou aos gritos "mata! mata!", porque aquele bicho ataca os cães e é um festim para as cobras piores, e o namorado (americano, urbano) perguntava surpreendido: "não matas cobras mas matas sapos?! que país é este?" O pai riu-se tanto que se engasgou a sério, o filho disse "não se preocupem, temos aqui um médico que sabe o que é preciso para ligar ao 115". Foi uma sorte não ter havido mais engasgados naqueles jantares.
Ressuscitámos o nosso cozinheiro o melhor que pudemos, e fomos à ópera - a Raposa Matreira, de Leoš Janáček. Pena que tenham posto mais empenho na encenação que nos cantores. As cenas dos insectos na floresta eram um autêntico sonho, um miúdo-sapo encantou-nos com a sua história em forma de diálogo, mudando a entoação da voz de forma perfeita. Mas os cantores, ai! A última ária, por exemplo: se é para cantar sobre o sentido da vida e a vastidão da Natureza que nos abraça e sustém, não basta cantar afinadinho. Faltou metafísica àquela ópera, mas sobrou-lhe encanto no cenário, não se perdeu tudo.
Na véspera de Natal saí com o Fox pela manhã, e quando regressei tinha a casa cheia de gente feliz: daí a nada vinha visitar-nos um jogador da selecção nacional de futebol (nem queiram saber como é que estas coisas nos acontecem, mas acho que é assim: em Berlim há tantos VIPs, que algum havia de sobrar para nós) e o Joachim chamou um amigo para trazer os filhos e a tralha toda para ele assinar. Parecia outra vez um filme: os miúdos com um sorriso de orelha a orelha, o jogador muito simpático e simples a responder às nossas perguntas, a contar dos natais da sua infância, a dizer que mais valia dar-lhes a camisola do próximo jogo, em vez de assinar aquela - e os olhos dos nossos amigos a escancarar-se de alegria.
(Eu a pensar que estava capaz de trocar as pernas do Figo pelo olhos daquele rapaz - que olhos extraordinariamente doces!) (la donna è mobile, eu sei)
Depois de ele se ir embora, os miúdos comentaram a sua roupa, fascinados. Comparado com este, o famoso Arrumadinho parece o rapariguinho do shopping. Não há dúvida: há em Portugal fenómenos de sucesso que não consigo entender.
O cozinheiro sueco foi para a cozinha preparar os gansos da consoada, eu fui comprar os últimos presentes (as lojas fechavam às duas da tarde), consegui encontrar tudo, ufff!, a mulher do cozinheiro foi preparar a apple pie e a blueberry pie. Em algum momento trocou o açúcar pelo sal (não percebo como é que é possível olhar para um boião que diz "Marmelade" e não ver logo que isso é o sal!) de modo que as pies saíram um bocadinho sui generis. Mas foi só na crosta, pelo que sugámos a maior parte do sal com papel húmido, e o que sobrou deu um ar de interessante experiência culinária.
Pusemos os dois artistas de circo convidados (o filho do cozinheiro e a sua namorada australiana) a montar a árvore e o presépio, mas eles penduraram as bolas de vidro e prenderam os passarinhos como gente normal - sem um flic flac entre duas estrelas nem nada. Só soltavam volta e meia uns aaaahs extasiados, como se o verdadeiro prodígio fosse aquele abeto a cheirar a floresta nórdica e a sua decoração tradicional e simples. E, convenhamos, era.
A Christina veio ter connosco pelo skype, ficámos na risota com ela um bom bocado, depois o Joachim andou a mostrar-lhe a casa: o pinheiro, o presépio, a mesa, os gansos no forno (mas esta parte não foi uma grande maldade, porque o skype não passa os aromas). O Matthias fechou-se numa sala a conversar com a irmã sem ninguém os incomodar. Gosto imenso quando se põem a falar um com o outro, longe de nós. Fico feliz, e aliviada, ao vê-los assim amigos e confidentes.
Ficou tudo pronto cinco minutos antes de o ganso vir para a mesa. Entre o rir, tirar fotografias, cortar, e tudo, a comida arrefeceu. Em termos culinários, foi sem dúvida um Natal diferente...
Fizemos um intervalinho antes das pies para cantar algumas canções de Natal. A minha sogra ao piano, o Joachim o Matthias e eu a cantar as canções tradicionais de Natal alemãs, algumas antigas de cinco séculos. Tão belas.
A australiana leu uma passagem da Bíblia em francês, o que por momentos me levou aos nossos encontros nos Alpes franceses e em Taizé, e trouxe para aquela sala recordações de amigos queridos. Depois cantámos o inevitável "Noite feliz", o Joachim e o Matthias a fazer a gracinha habitual "noite feliz aaaaaaah-inspira-fundo, noite de paz aaaaaah-inspira-fundo" (eles dizem que esta é a canção ideal para os asmáticos), a avó tocava e ria. E assim se conseguiu resolver uma questão delicada: celebrarmos nós o nosso Natal de cristãos sem que a nossa amiga judia se sentisse agredida.
Depois disso, lembro-me vagamente dos presentes, das pies, e de o vinho estar muito bom...
No primeiro dia de Natal sornámos longamente, e depois de escurecer fomos até ao mercado do Gendarmenmarkt: um bocadinho de magia no coração da cidade.
No segundo dia de Natal queríamos ir a um concerto de música barroca no cenário do Jagdschloss Grunewald, mas estava esgotado. Pelo que assistimos a uma parte do ensaio, rapidamente percebemos que fora uma sorte para nós o concerto estar esgotado, visitamos a colecção dos Cranach, fotografámos com o telemóvel o lago gelado...
... e a seguir fomos sonhar para o Corteo. Difícil dizer o que foi o mais bonito - mas a cena dos balões, a partir de 49'05, é pura poesia.
Nestas duas semanas houve ainda tempo para ir passear para o Wannsee (ah, a luz de inverno no Wannsee!)...
...ao museu Die Brücke, que estava deserto e tem de novo os quadros da exposição habitual (e como é bom regressar aos quadros onde já se foi feliz!)...
...à Filarmonia, onde nos zangámos um bocadinho com a Bartoli (porque não nos deixou assistir ao seu ensaio), e ao Loft - um espectáculo de "variété", que é como quem diz teatro circo com alguns toques de ordinarice. Chegámos mesmo em cima da hora, mandaram-nos por uma entrada lateral, e quando demos por ela estávamos a entrar pelo meio do frigorífico do Loft para o centro do palco, com a sala cheia a aplaudir. Eu achei que todos tinham passado pelo mesmo, de modo que me ri para as outras vítimas; a nossa amiga Linda descobriu entre os artistas no palco uma que tinha sido roommate da nossa australiana, deu-lhe dois beijinhos e fez um bocadinho de small talk enquanto o público continuava a aplaudir. Um dos artistas tinha um six pack que quase me fez esquecer os olhos do jogador de futebol (o Verdi é que tinha razão).
Nestas duas semanas também houve tempo para ver sossegadamente filmes no sofá, ler, dormir, passear (muito) com o Fox. Para fazer sushi em casa,
e ir festejar a passagem de ano à maneira russa: a mesa ajoujada de comida fantástica porque duas avós tinham cozinhado ao despique, a enorme simpatia das pessoas, o fogo-de-artifício especial - e nós, sortudos, a saborear com eles.
O nosso Natal dava vários filmes de domingo à tarde. Uns poéticos, outros cómicos. Mas ainda está para nascer duas vezes o autor capaz de imaginar a tirada mais inesperada de todas: num jantar com primos, a minha sogra atira para a mesa que "a Helena diz que a culpa de tudo o que está a acontecer em Portugal é da Angela Merkel!"
(Aha, Rita, para que conste!)
***
Ontem, a última das nossas visitas foi-se embora: o nosso Natal acabou a 2 de Janeiro - mas já temos planos para o próximo.
parece-me que vou passar o resto da tarde por aqui
(bela música para me acompanhar a navegação - estou a tentar encontrar passagens de avião para a Bolívia)
"Como te sentes, Helena?"
O facebook, todos os dias:
- Como te sentes, Helena?
- Bem, obrigada. E tu, facebook?
O que me lembra uma passagem do livro mais recente do Kaminer, "Onkel Wanja kommt":
(tradução do "rrrraaapido, rrrraaaapido")
"Excelentíssimo senhor funcionário da Embaixada", escrevi eu na caixa das mensagens, "queria pedir o favor de marcar ainda este ano uma data para o meu tio pedir um visto. Trata-se de uma pessoa de idade, que não vejo há muito tempo. Ficar-lhe-ia muito agradecido. Respeitosos cumprimentos,
W. Kaminer"
Naturalmente apresentei-me como escritor famoso, mas as respostas são enviadas automaticamente pelo robot da Embaixada, para o qual todos os homens são iguais, quer sejam escritores quer não.
"Excelentíssimos senhores e senhoras", respondeu o robot, "recebemos um pedido para marcar uma hora de atendimento para casos excepcionais no departamento de vistos da Embaixada alemã em Moscovo. Essas excepções só podem ser concedidas para um número muito limitado de casos urgentes. Por favor, explicite detalhadamente o caso, o motivo da viagem e a causa da urgência. Junte à sua mensagem os documentos comprovativos das declarações. Avisamos desde já que os pedidos relativos a meras viagens turísticas não são atendidos."
"Excelentíssimo senhor robot", eu de novo. "trata-se de um mal-entendido. Não tenho qualquer comprovativo de urgência ou de caso excepcional. Trata-se apenas do meu tio idoso, que eu queria convidar para vir passar uns dias connosco antes do fim deste ano. Não precisamos de uma hora de atendimento excepcional, basta-nos uma hora normalíssima. É uma questão que levo muito a peito, agradecia que a tratasse com especial atenção." escrevi, sabendo embora que os robots não têm peito, e muito menos os robots da Embaixada.
Troquei mais umas três mensagens com o robot, até que um dia uma mulher viva, com nome próprio e apelido, perguntou:
"Caro senhor Kaminer, qual é o nome do seu tio?"
02 janeiro 2013
"desculpem lá!"
A propósito do post "desculpem lá!" na Travessa do Fala-Só, lembrei-me do Pax Bank, um banco católico alemão, que vendeu títulos do Lehman Brothers aos seus clientes; quando o banco faliu, usou as suas próprias reservas para reembolsar as pessoas que tinham sido enganadas. Um representante do banco explicou os mecanismos que os levaram a pensar que estavam a vender títulos seguros, acrescentando que depois disso redobraram os cuidados, porque nos próximos anos não têm margem para suportar os erros que possam eventualmente ocorrer.
Não estou a fazer a apologia dos bancos católicos (tanto mais que bem sei de outros bancos católicos que...), mas a deixar aqui um sinal: não basta pedir desculpa. É possível assumir as suas responsabilidades assumindo também o preço das decisões tomadas.
Andámos há anos a pensar mudar para esse banco, apesar de ser bem mais caro que os outros nos quais temos contas. Era boa ideia começar 2013 com uma pequena vitória sobre a inércia, escolhendo apoiar um banco que procura ter um comportamento mais ético.
Não estou a fazer a apologia dos bancos católicos (tanto mais que bem sei de outros bancos católicos que...), mas a deixar aqui um sinal: não basta pedir desculpa. É possível assumir as suas responsabilidades assumindo também o preço das decisões tomadas.
Andámos há anos a pensar mudar para esse banco, apesar de ser bem mais caro que os outros nos quais temos contas. Era boa ideia começar 2013 com uma pequena vitória sobre a inércia, escolhendo apoiar um banco que procura ter um comportamento mais ético.
31 dezembro 2012
a luz ao fundo do túnel ...
(fonte)
"A luz ao fundo do túnel ... é um comboio" é uma gracinha que encontrei hoje no facebook. Respondi com outra gracinha, tipo "ainda bem, porque pensava que a luz ao fundo do túnel é o cartaz luminoso que anuncia o show de travestis do Coelho & Gaspar a fazer de Germania".
Mas o que queria realmente dizer, neste último dia de 2012, é (citando um amigo) que não se trata da luz ao fundo do túnel, mas do aqui e agora. A nossa vida não é quando conseguirmos enfim sair do túnel - é hoje, no coração das dificuldades. Que saibamos encontrar o passo seguro para atravessar a escuridão, e que saibamos encontrar os ombros amigos nos quais nos apoiaremos, os que se apoiarão em nós para caminhar.
Raramente um ano se apresentou com tão fracas garantias - pelo que teremos de ser nós a garantia do ano. Nela ponho nomes e rostos de pessoas amadas, e logo o 2013 começa a sorrir-se todo simpático para mim.
A quem aqui passa deixo estes votos: que o vosso 2013 se encha de rostos amados - e será então um bom ano.
***
Aproveito para deixar mais uns bocadinhos de sabedoria internética:
(fonte)
(fonte)
por vinte euros
A Christina contou hoje que com vinte euros comprou várias camisolas grossas, um casaco de lã e um casaco de pele.
O meu coração de mãe alemã fica em sobressaltos: para ser tão barato, que espécie de químicos puseram na pele do casaco?
A minha costela europeia de culpa crónica também reage: como é possível produzir tanto por tão pouco dinheiro? Pobre gente explorada!
A não ser - alvitra o meu lado português - que tenha andado a comprar coisas nos contentores de alguma dessas entidades que recolhem no primeiro mundo para distribuir no terceiro. Nesse caso, vinte euros é uma roubalheira!, diz o meu lado suábio. E ainda se arrisca a apanhar sarna, ai!, acrescenta a higienista compulsiva que há em mim.
Esta minha identidade cultural múltipla é um desassossego.
28 dezembro 2012
mais um caso de plágio
A Casa das Belas Adormecidas, lembram-se?, a história de um homem que passa as suas noites ao lado de uma virgem, a pensar na vida, e que assim e que assado, e porque não?, etc.
Neste Natal (com uns anitos de atraso, reconheço) ocorreu-me a evidência: é o São José!
A história está escrita há dois mil anos. Ai o malandro do Kawabata...
(Depois hei-de ir verificar: será que Terra de Neve é uma outra maneira de dizer Betânia?)
(Depois hei-de ir verificar: será que Terra de Neve é uma outra maneira de dizer Betânia?)
tão simples e tão óbvio
(daqui)
Do jornalzinho da loja de fair trade do meu bairro:
O Nicolau vem do Gana
A época de Natal é também uma época de comer chocolates - o comércio sabe esta verdade, e todos os anos aumenta o sortimento a partir de Outubro. Nas prateleiras juntam-se, entre outros, cerca de 160 milhões de Nicolaus de chocolate que esperam por um comprador.
O crescente mercado alemão abastece-se de cacau sobretudo na África, e as regiões produtoras ganham com esta nossa vontade de comer doces: mais de 30 países em vias de desenvolvimento e mais de 14 milhões de pessoas vivem da produção do cacau. No entanto, devido à variação dos preços mundiais e às estratégias das grandes empresas, apenas alguns destes produtores conseguem ganhar o suficiente para assegurar às suas famílias um nível de vida digno, a longo prazo.
Uma das consequências da pobreza nas regiões agrícolas é o trabalho infantil. As crianças são chamadas a contribuir para o sustento da família, e não têm tempo para ir à escola e para terem uma infância normal. Pior ainda: há plantações na África ocidental onde as crianças trabalham em condições de escravatura, às vezes até 15 horas por dia.
O Fair Trade ajuda: proíbe a exploração do trabalho infantil, garante preços mínimos e uma margem para, por exemplo, cuidados de saúde ou de educação. Já há 57 organizações de produtores de cacau integradas no sistema do Fair Trade. Mas podem ser muitas mais. Talvez um dia o S.Nicolau deixe de ser apenas o patrono dos vendedores, para passar a ser - em chocolate - um símbolo do comércio justo. Era o melhor que lhe podia acontecer!
27 dezembro 2012
acudam - no facebook há um hacker brasileiro a escrever em nome do Primeiro Ministro de Portugal
"Amigos,
Este não foi o Natal que merecíamos. Muitas famílias não tiveram na Consoada os pratos que se habituaram. Muitos não conseguiram ter a família toda à mesma mesa. E muitos não puderam dar aos filhos um simples presente.
Já aqui estivemos antes. Já nos sentámos em mesas em que a comida esticava para chegar a todos, já demos aos nossos filhos presentes menores porque não tínhamos como dar outros. Mas a verdade é que para muitos, este foi apenas mais um dia num ano cheio de sacrifícios, e penso muitas vezes neles e no que estão a sofrer.
A eles, e a todos vós, no fim deste ano tão difícil em que tanto já nos foi pedido, peço apenas que procurem a força para, quando olharem os vossos filhos e netos, o façam não com pesar mas com o orgulho de quem sabe que os sacrifícios que fazemos hoje, as difíceis decisões que estamos a tomar, fazemo-lo para que os nossos filhos tenham no futuro um Natal melhor.
A Laura e eu desejamos a todos umas Festas Felizes.
Um abraço,
Pedro."
Este não foi o Natal que merecíamos. Muitas famílias não tiveram na Consoada os pratos que se habituaram. Muitos não conseguiram ter a família toda à mesma mesa. E muitos não puderam dar aos filhos um simples presente.
Já aqui estivemos antes. Já nos sentámos em mesas em que a comida esticava para chegar a todos, já demos aos nossos filhos presentes menores porque não tínhamos como dar outros. Mas a verdade é que para muitos, este foi apenas mais um dia num ano cheio de sacrifícios, e penso muitas vezes neles e no que estão a sofrer.
A eles, e a todos vós, no fim deste ano tão difícil em que tanto já nos foi pedido, peço apenas que procurem a força para, quando olharem os vossos filhos e netos, o façam não com pesar mas com o orgulho de quem sabe que os sacrifícios que fazemos hoje, as difíceis decisões que estamos a tomar, fazemo-lo para que os nossos filhos tenham no futuro um Natal melhor.
A Laura e eu desejamos a todos umas Festas Felizes.
Um abraço,
Pedro."
***
Uma ajudazinha aos senhores da Judiciária que tratarão deste caso: procurem o criminoso entre as pessoas que para comer se sentam em mesas, em vez de se sentarem em cadeiras. É um caso fácil de resolver - não deve haver muita gente a comer assim.
26 dezembro 2012
the twelve days of Christmas
Na Alemanha não são doze, são três. Gosto deles todos: este tempo em que tudo abranda.
24 dezembro 2012
não sei como é que faz, que a cada ano chega mais cedo!
A todos os amigos que por aqui passam, desejo um Natal tranquilo, e feliz,
e de inclusão
e de diálogo
(beeeem, na medida do possível - que isto é apenas Natal, não é Natal e Páscoa ao mesmo tempo...)
21 dezembro 2012
sonata de Outono - andamento prestissimo (Dresden)
A primeira vez que me lembro de alguém ter falado de Dresden foi no dia 13 de Fevereiro de 1990 - o meu sogro passara toda a manhã mal disposto, e à hora do almoço referiu o terrível bombardeamento da cidade, os muitos milhares de refugiados mortos pelo fogo - uma notícia que marcou fundo a sua infância. A segunda vez, tínhamos acabado de nos mudar para Weimar, nem televisão tínhamos ainda: enquanto esvaziava caixotes, ouvia na rádio notícias trágicas sobre a Florença do Elba debaixo da água - o Zwinger inundado, a Semperoper e todo o centro histórico também.
(fonte)
O que tem de ser tem muita força: tínhamos de ir a Dresden, e o fim-de-semana do meu aniversário dava um óptimo motivo. Chegámos ao fim da manhã de sábado, e largámos rapidamente para o Zwinger. O famoso Zwinger, onde arquitectura e arte se combinam e misturam como se fossem a mesma coisa. Avisaram-nos que às quatro havia uma visita guiada aos Alte Meister, pelo que resolvemos ir antes disso até à Marienkirche, a igreja recentemente reconstruída.
Fomos andando pelo meio de todos aqueles monumentos, entrámos na igreja, tentámos destrinçar o que restou da antiga e o que é novo, descobrimos chocados a cruz de ferro toda retorcida que se salvou do incêndio - e subimos à torre. O que foi uma asneira enorme, porque lá de cima vê-se perfeitamente a cicatriz da guerra: a cidade medieval e barroca toda destruída, os prédios da RDA e da ofensiva de construção civil desenfreada que se seguiu à queda do muro, os lugares de desterro entre as casas - uma paisagem urbana que não resulta de um crescimento lento e doce ao longo dos séculos, uma cidade que dói.
Olhando com cuidado para as casas, vê-se bem que se limitam a citar a antiga arquitectura. Um conjunto estranho, um quer-mas-não-pode. Que fazer de uma cidade inteiramente destruída? Os polacos sabem reconstruir como se nada se tivesse passado. A RDA construía caricaturas do que foi. A RFA reconstruía com um ar de novinho em folha, os objectos a brilhar com uma perfeição que os fazia parecer o que são: artificiais.
Em Dresden vi os edifícios históricos com a fachada reconstruída, alguns deles com interiores inteiramente modernos, e ruas com casas "à la mode" (para citar ementas de restaurantes americanos) - sublinhando a mentira de todo o cenário. Parece-me ser um caso exemplar de "sei que não vou por aí", porque o resultado é deprimente.
Comemos uma salsicha na rua, entrámos num café muito bonito no terraço de Brühl (a "varanda da Europa", dizia Goethe) para um intervalinho de café e bolo: sentados no meio de reproduções de quadros famosos dos museus de Dresden, olhando para o rio que corria do lado de lá da porta de vidro.
Descobri finalmente o nome daquele famoso bolo que comi em Praga: pelos vistos, é uma especialidade de Dresden, o "dresdner Eierschecke" - mas o de Praga era mil vezes melhor, e agora podia fazer um pequeno discurso sobre a globalização, para concluir que não é boa ideia exportarmos pastéis de nata, até porque já conheço em Berlim um cozinheiro alemão que os faz deliciosos, ai a nossa vida!
(fonte)
Saímos do café pouco depois das três, já o sol lançava uma luz rasa de fim de tarde.
Antes da visita guiada à pinacoteca, percorremos a parte do Zwinger dedicada à cerâmica. "Enfim", pensava eu, "cerâmica não é propriamente o que mais me interessa na vida, mas já que está incluído no preço do bilhete..."
Cerâmica não era o que mais me interessava na vida, mas uma pessoa não consegue atravessar aquelas salas e sair ilesa. E mais não digo - só visto!
Os Alte Meister estavam todos lá. Tantos, e em tal profusão, e tão conhecidos, que às tantas me perguntava se sobrou algum para os outros museus. Tantos, que a guia nem sequer conseguiu falar de todos os mais importantes. No fim da visita percorremos de novo as salas onde já tínhamos estado, descobrindo por nós o que ela não mostrara: "olha ali aquele Rubens famoso, Leda e o cisne!" e "olha esta cena sub-aquática, que coisa impressionante!" e a colecção espanhola e francesa, em cujas salas nem chegáramos a entrar. Numa sala mais longínqua vimos um conjunto genial de retratos do séc. XVI (como é que a modernidade já tem 500 anos?), e tantos outros. Os Alte Meister pedem vários dias, e muitas horas de visita guiada.
Os guardas começaram a avisar que eram horas de fechar, e nós vimo-nos tristemente obrigados a sair. Atravessámos a praça, e fomos à Semperoper buscar os bilhetes que tínhamos reservado. Tencionávamos ir ainda ao hotel vestir algo mais adequado à ópera, mas descobrimos, ao levantar os bilhetes, que nos tínhamos enganado na hora. Começava às sete, e não às oito - daí a uns minutos!
O Joachim olhou desconsolado para as suas calças de ganga, para a camisola desportiva. Eu, da segurança das minhas botas elegantes e do meu vestido todo-o-terreno, animei-o: "somos berlinenses, não precisamos de nos preocupar com esses detalhes". Enchemos os bolsos com rebuçados Ricola que estavam à mão de semear em caixas enormes (grande ideia!), reservámos o vinho e os petiscos de salmão para o intervalo (sim, que não faço anos todos os dias), e sentámo-nos na galeria, a saborear o ambiente. Metade do público parecia ter vindo de Berlim, embora alguns tivessem tido tempo de ir ao hotel mudar de roupa. Havia senhoras com vestidos fascinantes - infelizmente, não tive coragem de fotografar um vestido sem costas que nem era preciso ver mais nada. E havia também as pessoas socializadas na RDA, que vestiam a sua roupa de excelente qualidade, mas com design dos anos oitenta ou noventa (tanto que podíamos aprender com eles! e tanto que o nosso planeta agradeceria!).
Uma certa euforia tomou conta de nós: estávamos na Semperoper. Olhávamos para a decoração das paredes e dos tectos, os edifícios históricos à volta da praça. Um sonho.
A famosa Semperoper é isto? Para isto é que pagámos bilhetes tão caros?, pensávamos desconsolados. Será que as pessoas compram a marca "semperoper", para receber espectáculos com qualidade de "discount"? Um fenómeno a observar com mais cuidado.
Na praça, os edifícios-cenário exibiam-se numa glória reforçada pela noite, e nós fomos jantar a uma cervejaria bávara.
No dia seguinte saímos à procura de um sítio onde tomar o pequeno-almoço (aviso aos viajantes: tomem o pequeno-almoço no hotel), e depois invadimos o palácio, para conhecer a colecção da Grünes Gewölbe e a Türckische Cammer. O palácio ardeu praticamente todo na sequência do bombardeamento, mas depois da reunificação resolveram reconstruir as antigas salas de exposição, no rés-do-chão, segundo o modelo histórico e aproveitando o máximo do que fora possível salvar. O resultado é muito bonito, e a colecção (o que não foi destruído na guerra, o que não foi retido como despojo) é fascinante. E demasiado - seriam precisos vários dias para apreciar convenientemente tudo aquilo.
Começámos pela colecção de objectos do império otomano, testemunha da febre de orientalismo que atravessou aquela corte. As tendas de cuidadosos bordados, as armas cheias de ornamentos, as roupas, os arreios dos cavalos, os quadros e as descrições das festas da época - coisas do outro mundo. Praticamente tudo recebido como presente diplomático, ou comprado por um enviado de Augusto o Forte, grande apreciador dessa cultura, que se aproveitava bem dos conhecimentos do súbdito (e também da mulher dele - a maitresse turca do rei. Aquilo eram uns tempos que sabe Deus...).
No antigo Grünes Gewölbe fomos esmagados pela colecção e pelas salas. Na parte moderna da exposição demos o tilt. Não é possível ver tanta beleza num dia só (parece que me estou a repetir, mas é mesmo só para deixar bem claro). O "microgabinete", por exemplo: uma salinha com peças para apreciar à lupa, onde se vêem curiosidades como um caroço de cereja no qual esculpiram umas 150 cabeças. E não vou contar mais, que estou a ver se acabo este post ainda hoje.
Saímos do palácio, fomos em busca de um restaurante para almoçar. Encontrámos um engraçado: o Augustiner an der Frauenkirche - restaurante da Baviera! Parece que Dresden foi invadida por bávaros - ou empresas de restauração, ou turistas, ou ambos (é o mais provável).
Começava a ficar tarde, mas resolvemos espreitar ainda o Albertinum, com a sua colecção de arte moderna - a Galerie Neue Meister, que pouco fica a dever à Galerie Alte Meister do Zwinger.
Depois regressámos a Berlim. Mas (não tenho a certeza de já ter dito isto) voltaremos a Dresden!
Tanto mais que só depois me disseram que não vimos a parte mais bonita da cidade, a Neustadt. E não tivemos tempo de ir à Pfunds Molkerei.
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