14 dezembro 2012
violência
A propósito do massacre de hoje nos EUA, copio para aqui um comentário que li no NYT:
"nn montana
I am a school psychologist.
Guns are part of the problem. A bigger part of the problem is a culture that embraces violence as a form of "entertainment" and de-conditions people to it from the time they are little in cartoos, television shows and movies so fraught with gore it is unreal. Gore so realistic it's beyond realistic. Add to that a nation that doesn't believe in public health care, let alone public mental health care, and a huge denial of the significance of mental health problems and you have the makings of a disaster that plays itself out over and over again.
So sure, go after guns. But don't neglect the very big other parts of the puzzle, the multi billion dollar industry built around portraying violence as entertaining or "fun" in the form of apps, programs, game boys, television programs and movies that trains people to not see violence as violence but as a way to 'solve a problem,' or as an entertaining distraction. And go after our nonexistent mental health 'system' which would include child protective service agencies. For if you only cut off one arm of the monster, you will find it has several others to shoot with."
(aqui)
esqueçam a Popota
...e vejam-me este hipopótamo que soltaram agora em Lisboa:
É um autocarro? É um barco?
Não, é um autarco. Ou um barcarro.
É um autocarro? É um barco?
Não, é um autarco. Ou um barcarro.
13 dezembro 2012
trabalhar a desoras ouvindo música assim
(a segunda música tem tudo a ver com Berlim esta semana) (já contei que adoro ouvir o ranger dos meus passos na neve? ando por aí como o elefante na loja de porcelana, crrrr-crrrr-crrrr-crrrr)
12 dezembro 2012
"vergonhas aéreas"
Comentário de uma amiga no facebook:
Este fim de semana estive em Lisboa e comprei o Mixórdia de Temáticas. Li-o no avião e fiz a mesma triste figura que tinha feito com o Viagem a Tralalá, a rir alto como uma louca. O que vale é que era uma companhia diferente.
Tinta-da-China a patrocinar vergonhas aéreas desde 2011.
depois queixo-me que não tenho tempo...
No Lunchkonzert de hoje tocava um trio checo: Jan Fišer (violino), Tomáš Jamnik (violoncelo), Ivo Kahánek (piano) - o Dvořák Trio.
Todos excelentes, mas o Tomáš Jamnik era ainda mais excelente que os outros. Pareceu-me, pelo menos. Infelizmente não encontrei nada deles no youtube. O concerto foi filmado, e perguntei ao cameraman se era para o youtube, mas ele disse que não, que era para a televisão checa. Triste vida. De modo que ficam com este bocadinho, não tão bom como o que ouvi hoje, mas é o que se arranja:
O público aplaudiu freneticamente (bem, o público dos Lunchkonzert aplaude no fim de cada andamento, é um público muito agradecido) e eles voltaram, com uma peça belíssima de um compositor que era genro do Dvořák e eu não conhecia (bem, digo "eu não conhecia" como se os conhecesse a todos...): Elegie, de Josef Suk.
Apontei o nome do violoncelista, "Tomáš Jamnik". Mora em Berlim, está a começar uma carreira de solista, e vai longe. Quer dizer: se me deixassem mandar...
Tinha combinado com uma amiga irmos depois assistir ao ensaio geral da Oratória de Natal de Bach, com o RIAS e a Akademie für alte Musik Berlin. E fomos: ver o trabalho de conquistar a transparência e o brilho, a perfeição. O novo arranjo das cadeiras no palco, para o som sair mais focado e uno; os comentários entre os assistentes; a soprano que procurava em vários pontos da sala o que melhor daria para fazer o eco da solista (e a risota sempre que o eco soava mais forte e seguro que a voz que lhe devia dar origem...); e a minha amiga, sempre a cochichar-me comentários "ainda não está brilhante" e "devia ser mais rápido" (devia, pois! por uns momentos, íamos adormecendo ambas!) ou "adoro esta" e ainda "esta parece Jazz..."
Saí a correr do ensaio para ir a casa resolver duas ou três urgências, saí a correr de casa para um concerto de Jazz na Kammermusiksaal. Foi o primeiro de uma nova série chamada "Jazz at Berlin Philharmonic" (desconfio que o criativo que inventou este nome suou imenso para descobrir algo tão original) e era com três pianistas excepcionais (Leszek Możdżer, Michael Wollny, Iiro Rantala) e o famoso Brendel-Flügel.
Comecemos pelo piano: em 1992, quando começou a trabalhar de forma mais intensa com os Filarmónicos de Berlim, o pianista Alfred Brendel foi à Steinway a Hamburgo escolher um piano de cauda com o qual se havia de entender muito bem em todos os concertos que deu na Filarmonia. Outros pianistas famosos tocaram nele, mas era o piano do Alfred Brendel. Há três anos, quando o pianista se retirou, a Filarmonia decidiu leiloar o seu piano para ajudar a UNICEF, e este foi arrematado por 80.000 euros por Siggi Loch, um produtor musical famoso, dono da firma ACT Musik + Vision. O novo proprietário decidiu que o poria ao serviço do Jazz, e parece que o Alfred Brendel achou bem.
Hoje foi o primeiro dia do resto da vida do Brendel-Flügel. Com três extraordinários pianistas, como disse.
O primeiro a entrar em palco foi o finlandês Iiro Rantala - um brincalhão. E um extraordinário pianista (será que já disse isto?). Começou com Thinking of Misty, depois disse que o primeiro músico de Jazz foi Bach, e improvisou a partir das variações Goldberg. Finalmente, pegou numa folha de papel que pôs sobre as cordas do piano, gracejou que não estragaria o famoso piano ("not completely", acrescentou), disse umas larachas sobre o inverno finlandês ("Na Finlândia, quando faz este tempo que está agora na Alemanha" - vaga de frio, caos de neve - "diz-se com alívio que está a aquecer") e tocou Uplift.
Seguiu-se Michael Wollny, que aos 34 anos já juntou tudo o que é prémio alemão de Jazz, e tocava com o cabelo todo em cima da cara. Comparando com ele, a Hélène Grimaud é uma menina de coro. Lembrava-me o Franjinhas, aquele cão dos livros aos quadradinhos (brasileiros, não eram?) que nunca se sabia onde era a parte da frente e a de trás. Com um pianista é mais fácil: a parte da frente é a virada para o piano - mas quem como eu já viu a Maria João Pires a tocar de costas, fica um bocadinho desconfiada que nem sempre o que parece é. Este parecia muito bom, e é para não dizer excelente. Tinha mais força que o Iiro Rantala, mas menos lirismo.
O finlandês voltou ao palco, para tocar com o alemão "uma balada triste para um dos maiores de nós, que hoje estaria aqui, se ainda estivesse connosco": Tears for Esbjörn.
Os dois saíram, o polaco Leszek Możdżer entrou. Com música também de uma enorme força, e com o cabelo a tapar completamente a cara. Será que precisam de se ocultar assim do público, para ficarem inteiramente dentro da música que tocam?
Na parte final, o show foi extraordinário, e o público foi ao rubro. O polaco e o alemão tocaram Svantetic costas com costas, ambos sobre o mesmo banco comprido entre dois pianos, e brincavam muito um com o outro: metiam notas no teclado alheio, rodavam no banco de modo a tocarem ambos ao mesmo tempo nos dois pianos, trocavam de piano sem parar a música. Um espectáculo!
O alemão saiu, o finlandês entrou, tocou com o polaco Suffering, que este encheu de efeitos especiais pondo uma corrente sobre as cordas, o que fazia certas notas soarem como se fosse um cravo.
O Iiro Rantala avisou que a seguir ao concerto encontraríamos no foyer "three guys who look exactly like us" e começaram a tocar a última peça, os três: Armando's Rhumba, com um ritmo e um bom humor vertiginoso. Corriam entre os pianos como se estivessem a fazer a dança das cadeiras, como se se tivessem enganado sentavam-se dois ao mesmo piano, ou três - ou o terceiro de pé, tentando encontrar uma abertinha por onde deixar as suas notas no teclado. O público ria, trocava olhares com os vizinhos. Uma festa.
Para o encore trouxeram "Santa Claus is coming to town". O tema foi dado pelo Iiro Rantala, quase como se fosse um exercício escolar. Daí partiram para a brincadeira e as correrias.
Talvez me repita, mas foi isso mesmo: um concerto memorável. No dia em que entregaram à União Europeia o prémio Nobel da Paz, gostei de ver estes três - um alemão, um polaco e um finlandês - a entender-se tão bem, cada um com a sua identidade e todos com muito humor.
Saímos da sala a rir, a falar uns com os outros alegremente. Agrupámo-nos em frente à mesa onde eles iriam assinar CDs. Vieram rapidamente, nunca vi artistas saírem tão depressa de um concerto para o banho do público, e começaram a assinar programas como se estivessem numa linha de produção. O Michael Wollny assinava junto à sua fotografia, virava a página para mostrar já a fotografia do Iiro Rantala, passava-lhe o caderno, este assinava e passava ao terceiro pianista. E nós todos ali muito atentos "de quem é esse programa?" "é meu! este é meu!"
Depois queixo-me que não tenho tempo, mas este dia, este, já ninguém mo tira!
Todos excelentes, mas o Tomáš Jamnik era ainda mais excelente que os outros. Pareceu-me, pelo menos. Infelizmente não encontrei nada deles no youtube. O concerto foi filmado, e perguntei ao cameraman se era para o youtube, mas ele disse que não, que era para a televisão checa. Triste vida. De modo que ficam com este bocadinho, não tão bom como o que ouvi hoje, mas é o que se arranja:
O público aplaudiu freneticamente (bem, o público dos Lunchkonzert aplaude no fim de cada andamento, é um público muito agradecido) e eles voltaram, com uma peça belíssima de um compositor que era genro do Dvořák e eu não conhecia (bem, digo "eu não conhecia" como se os conhecesse a todos...): Elegie, de Josef Suk.
Apontei o nome do violoncelista, "Tomáš Jamnik". Mora em Berlim, está a começar uma carreira de solista, e vai longe. Quer dizer: se me deixassem mandar...
Tinha combinado com uma amiga irmos depois assistir ao ensaio geral da Oratória de Natal de Bach, com o RIAS e a Akademie für alte Musik Berlin. E fomos: ver o trabalho de conquistar a transparência e o brilho, a perfeição. O novo arranjo das cadeiras no palco, para o som sair mais focado e uno; os comentários entre os assistentes; a soprano que procurava em vários pontos da sala o que melhor daria para fazer o eco da solista (e a risota sempre que o eco soava mais forte e seguro que a voz que lhe devia dar origem...); e a minha amiga, sempre a cochichar-me comentários "ainda não está brilhante" e "devia ser mais rápido" (devia, pois! por uns momentos, íamos adormecendo ambas!) ou "adoro esta" e ainda "esta parece Jazz..."
Saí a correr do ensaio para ir a casa resolver duas ou três urgências, saí a correr de casa para um concerto de Jazz na Kammermusiksaal. Foi o primeiro de uma nova série chamada "Jazz at Berlin Philharmonic" (desconfio que o criativo que inventou este nome suou imenso para descobrir algo tão original) e era com três pianistas excepcionais (Leszek Możdżer, Michael Wollny, Iiro Rantala) e o famoso Brendel-Flügel.
Comecemos pelo piano: em 1992, quando começou a trabalhar de forma mais intensa com os Filarmónicos de Berlim, o pianista Alfred Brendel foi à Steinway a Hamburgo escolher um piano de cauda com o qual se havia de entender muito bem em todos os concertos que deu na Filarmonia. Outros pianistas famosos tocaram nele, mas era o piano do Alfred Brendel. Há três anos, quando o pianista se retirou, a Filarmonia decidiu leiloar o seu piano para ajudar a UNICEF, e este foi arrematado por 80.000 euros por Siggi Loch, um produtor musical famoso, dono da firma ACT Musik + Vision. O novo proprietário decidiu que o poria ao serviço do Jazz, e parece que o Alfred Brendel achou bem.
Hoje foi o primeiro dia do resto da vida do Brendel-Flügel. Com três extraordinários pianistas, como disse.
O primeiro a entrar em palco foi o finlandês Iiro Rantala - um brincalhão. E um extraordinário pianista (será que já disse isto?). Começou com Thinking of Misty, depois disse que o primeiro músico de Jazz foi Bach, e improvisou a partir das variações Goldberg. Finalmente, pegou numa folha de papel que pôs sobre as cordas do piano, gracejou que não estragaria o famoso piano ("not completely", acrescentou), disse umas larachas sobre o inverno finlandês ("Na Finlândia, quando faz este tempo que está agora na Alemanha" - vaga de frio, caos de neve - "diz-se com alívio que está a aquecer") e tocou Uplift.
Seguiu-se Michael Wollny, que aos 34 anos já juntou tudo o que é prémio alemão de Jazz, e tocava com o cabelo todo em cima da cara. Comparando com ele, a Hélène Grimaud é uma menina de coro. Lembrava-me o Franjinhas, aquele cão dos livros aos quadradinhos (brasileiros, não eram?) que nunca se sabia onde era a parte da frente e a de trás. Com um pianista é mais fácil: a parte da frente é a virada para o piano - mas quem como eu já viu a Maria João Pires a tocar de costas, fica um bocadinho desconfiada que nem sempre o que parece é. Este parecia muito bom, e é para não dizer excelente. Tinha mais força que o Iiro Rantala, mas menos lirismo.
O finlandês voltou ao palco, para tocar com o alemão "uma balada triste para um dos maiores de nós, que hoje estaria aqui, se ainda estivesse connosco": Tears for Esbjörn.
Os dois saíram, o polaco Leszek Możdżer entrou. Com música também de uma enorme força, e com o cabelo a tapar completamente a cara. Será que precisam de se ocultar assim do público, para ficarem inteiramente dentro da música que tocam?
Na parte final, o show foi extraordinário, e o público foi ao rubro. O polaco e o alemão tocaram Svantetic costas com costas, ambos sobre o mesmo banco comprido entre dois pianos, e brincavam muito um com o outro: metiam notas no teclado alheio, rodavam no banco de modo a tocarem ambos ao mesmo tempo nos dois pianos, trocavam de piano sem parar a música. Um espectáculo!
O alemão saiu, o finlandês entrou, tocou com o polaco Suffering, que este encheu de efeitos especiais pondo uma corrente sobre as cordas, o que fazia certas notas soarem como se fosse um cravo.
O Iiro Rantala avisou que a seguir ao concerto encontraríamos no foyer "three guys who look exactly like us" e começaram a tocar a última peça, os três: Armando's Rhumba, com um ritmo e um bom humor vertiginoso. Corriam entre os pianos como se estivessem a fazer a dança das cadeiras, como se se tivessem enganado sentavam-se dois ao mesmo piano, ou três - ou o terceiro de pé, tentando encontrar uma abertinha por onde deixar as suas notas no teclado. O público ria, trocava olhares com os vizinhos. Uma festa.
Para o encore trouxeram "Santa Claus is coming to town". O tema foi dado pelo Iiro Rantala, quase como se fosse um exercício escolar. Daí partiram para a brincadeira e as correrias.
Talvez me repita, mas foi isso mesmo: um concerto memorável. No dia em que entregaram à União Europeia o prémio Nobel da Paz, gostei de ver estes três - um alemão, um polaco e um finlandês - a entender-se tão bem, cada um com a sua identidade e todos com muito humor.
Saímos da sala a rir, a falar uns com os outros alegremente. Agrupámo-nos em frente à mesa onde eles iriam assinar CDs. Vieram rapidamente, nunca vi artistas saírem tão depressa de um concerto para o banho do público, e começaram a assinar programas como se estivessem numa linha de produção. O Michael Wollny assinava junto à sua fotografia, virava a página para mostrar já a fotografia do Iiro Rantala, passava-lhe o caderno, este assinava e passava ao terceiro pianista. E nós todos ali muito atentos "de quem é esse programa?" "é meu! este é meu!"
Depois queixo-me que não tenho tempo, mas este dia, este, já ninguém mo tira!
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filarmonia de Berlim
11 dezembro 2012
com o Wim Wenders e o João Canijo no cinema
Na sexta-feira passada o João Canijo apresentou o seu "Sangue do meu sangue" num festival de cinema berlinense, e eu - que já tinha ouvido falar muito nesse filme - aproveitei para o ver, toda contente (e a correr muito, que continuo com aquele problema de ohvidademilfacestransbordantesite).
Estava com fome, mas pareceu-me muito mal comer pipocas numa sala de cinema onde estavam o Wim Wenders e o João Canijo, e por isso comprei um Mars, paciência.
Sentei-me, abri o Mars, e daí a nada quase me ia engasgando no caramelo ao ouvir um típico restolhar de papel e pipocas. Era o Wim Wenders, a duas cadeiras de mim, com um pacotão. Ah, se ele é assim..., pensei eu, e fiquei vai não vai para me levantar e ir comprar um pacote do mesmo tamanho, mas entretanto o organizador do festival subiu ao palco, e começou por dizer que este é "provavelmente o último filme a ser financiado pelo Estado porque, devido à crise, o Governo simplesmente reduziu a zero todos estes financiamentos", depois chamou o Wim Wenders, que foi contar de como gostava imenso do "Jéon", e da sua curta participação no Lisbon Story, e de como tinha a certeza que o filme ia ser bom, embora ainda não o tivesse visto (não aproveitei a sua ausência para lhe roubar pipocas, e tão fácil teria sido...).
Ora bem: aquilo não é um filme para pipocas. É uma tareia.
No fim, agradeci ao João Canijo, enquanto pensava "és masoquista ou quê, minha? então agradeces a quem te bateu tanto?"
Seguiu-se uma longa conversa com o Wenders e o público. O realizador alemão estava muito impressionado com algumas passagens do filme, largou um "wow" lindo de se ouvir sobre o modo de filmar os passos da mãe no momento em que se afasta da filha, mencionou o requinte das cenas múltiplas no mesmo plano (também gostei imenso), falou do fim abrupto e da câmara a focar os prédios ("só agora reparei que são masculinos - impõem-se, dominam"). Perguntou se era mesmo preciso incluir o incesto, não tinha gostado desse excesso de melodramatismo. Pensei para comigo: Oh, homem!, vai ler o Eça. Depois dos Maias e da Rua das Flores, por menos que isso não se pode fazer. De facto, não percebo como é que o Wim Wenders queria fazer aquele filme, aquele filme sobre amor incondicional, sem o incesto como motivo. Então a mãe insurgia-se contra aquela relação apenas, sei lá, porque não gostava de ver a filha com um homem mais velho? Não dá, não resulta - não seria amor incondicional, seria manipulação. Mas o João Canijo, modesto, limitou-se a fazer um sorriso muito simpático. E continuou: falou do modo como o filme foi nascendo, e de como certas ideias - nomeadamente a central, de uma mãe que ama a filha tanto que, por amor, é capaz de arriscar perdê-la - só podiam ter vindo de uma mulher, uma das actrizes envolvidas. Os detalhes - por exemplo, os músicos que também são dealers ("a sério", ria-se o Canijo, e o Wenders acrescentava "é a beleza dos clichés: quase sempre funcionam muito bem"). Depois falaram do chefe dos dealers, "lembrava-me o Zidane", dizia o Wenders, "era-me muito simpático. Nas cenas finais, estive sempre à espera que ele dissesse que não era nada daquilo, que só estava a brincar" (eu também - hehehe, se agora estou telepática com o Wim Wenders, não percam o meu próximo filme, hihihi)
Depois falaram da versão completa do filme, de três horas, muito melhor mas infelizmente impossível de passar nos mercados. O Wenders encomendou logo ali a sua cópia, o Canijo disse que sim - há testemunhas.
**
Uma amiga minha é vizinha do Wenders, e já por duas vezes esteve a ponto de ser atropelada por ele, que passa de bicicleta a pedalar furiosamente, com a cabeça provavelmente no próximo filme. Vou-lhe pedir que veja se arranja de à terceira ser de vez, e quando estiver toda esparramada no chão e o Wenders lhe disser "Oh, como lamento! Oh, estou inconsolável! Como pude eu fazer tal erro? Como poderei recompensá-la deste incómodo?" ela vai e responde "empreste aquele DVD do Sangue do meu Sangue à minha amiga Helena!" - e pronto, tudo se resolve a contento de todos.
sabem, aquele mercado de Natal que me deixou fascinada?

Dei-me conta que o Jagdschloss Grunewald fica a uma simpática walking distance do sítio onde vamos fazer uma casa. Hoje fui ao terreno para limpar a neve do passeio, e fiquei na conversa com uma vizinha que se mudou recentemente para lá. Disse que está felicíssima, falou dos lagos que ficam ali mesmo ao lado, e de no Verão, ao fim da tarde, fazerem pequenos passeios de bicicleta pelas redondezas - com mergulhos nos lagos e piquenique incluídos.
Parece que vamos ter uma casa "vá para fora cá dentro" em Berlim...
10 dezembro 2012
que farei quando tudo gela?

Era para ser uma simpática excursão de portugueses ao Mercado de Natal de Blankensee, mas nevava tanto (tanto-tanto) que dois dos carros nem chegaram a sair de Berlim, e o terceiro desistiu a meio da aventura.
Como alternativa, sugeri voltar aos lugares onde já fui feliz. Jagdschloss Grunewald, portanto. Fizemos do café e das salas de museu refúgios aquecidos, para onde fugíamos da insistência da neve.
O palácio tem uma escada de caracol com janelas em forma de paralelogramo obliquângulo (sempre soube que o que aprendi naquela terceira classe semi-antiga me seria algum dia muito útil). Outros tempos, quando ninguém temia ousar a geometria nas casas. Fotografei o pátio através do vidro embaciado.

Um romântico andou a desenhar corações nas janelas para fazer fotografias. Boa ideia!
(roubei, claro)



Saímos por volta das cinco da tarde - já era noite, mas estavam a chegar muitas famílias, com os filhos sentados em trenós: o Inverno também pode ser uma forma de dizer alegria.



A caminho do carro, alguém comentou: "se cá estivessem os meus amigos portugueses, já estariam fartos de se queixar do frio". Depois, para contrabalançar, começámos a comparar as maneiras de ser alemã e portuguesa, e não deixámos os alemães ganhar.

09 dezembro 2012
esta foto é roubada

...porque o que tem de ser tem muita força.
***
Por esta altura entro em ainda mais stress que o habitual, porque faço um álbum com fotografias e histórias de todo o ano, para oferecer no Natal à família, aos padrinhos, aos afilhados (e é sempre um sarilho decidir onde parar - temos amigos que até estão dispostos a pagar o custo de impressão para o poder receber...)
São várias semanas de trabalho intenso a percorrer os milhares de fotos que juntamos cada ano, a escolher e a compor as páginas. Muito trabalho, mas também muito prazer. E todos gostamos, no fim, de percorrer aquelas páginas e lembrar tantos momentos bons que já tinham sido submergidos pelos dias.
Cheguei agora à página do "passeio dos alegres", no Verão. E estou deliciada com as fotos que cá me deixaram. Como esta, que roubei descaradamente à Mariana F.
Podia abrir um blogue fotográfico só com as fotos especiais de Berlim que eles fizeram. Seria o tudoroubado.blogspot.com.
08 dezembro 2012
...afinal era ainda melhor do que eu imaginei
Como esperava, o mercado de Natal no Jagdschloss de Grunewald era ainda melhor do que o imaginei...
(será que eu tenho um jeito especial para self fulfilling prophecy?)
Vai-se de autocarro (o 115, por exemplo), e sai-se na Clayallee/Königin-Luise-Straße. Depois anda-se quinze minutos a pé pelo meio da floresta:

Chega-se a uma clareira, onde se encontra a entrada para o palacete:

Paga-se três euros, e entra-se noutro mundo:




O lago já está bastante gelado.
No pátio central, havia uma pequena fila para entrar no edifício central. Estava aberto aos visitantes do mercado, incluído no preço da entrada, e nem dava para acreditar - encontrei lá a maior colecção de Lucas Cranach (o velho e o novo) que conheço: quarenta telas! Também encontrei um amigo meu - é a segunda vez consecutiva que me cruzo com um amigo numa exposição. Berlim começa a tornar-se uma aldeia.
Por azar, a bateria da máquina fotográfica ficou vazia. Plano B: telemóvel (que remédio).
No palco central em frente ao palacete estava a começar uma pequena peça de teatro. A rainha da neve encantou um rapaz, e obrigou-o a escrever "eternidade" para sempre. Para sempre, é como quem diz: até a sua amada o encontrar e mandar a rainha da neve ir dar uma volta. Tudo acabou em bem, o par foi para casa, e quando lá chegou descobriu "que já tinham sido homem e mulher" (gargalhada geral dos adultos).


Uma senhora estava a vender presépios feitos com bonecos de lã, e contou que tem vendido muito para pessoas de idade, que não passam o Natal em casa e gostam de levar um presépio "ambulante". Vendia-lhes presépios em caixinhas, em latas, em malas pequenas. Um sorriso.


E havia uma barraquinha a vender goufrais, uns bombons deliciosos, em forma de gugelhupf, cobertos de cacau. Deixaram-me provar várias vezes...
A carne grelhada estava boa. O vinho quente também.
E descobri que no dia 26 fazem lá um concerto de música barroca, e uma visita guiada à colecção de pinturas - ora aí está um bom programa para o dia de Natal.
(será que eu tenho um jeito especial para self fulfilling prophecy?)
Vai-se de autocarro (o 115, por exemplo), e sai-se na Clayallee/Königin-Luise-Straße. Depois anda-se quinze minutos a pé pelo meio da floresta:

Chega-se a uma clareira, onde se encontra a entrada para o palacete:

Paga-se três euros, e entra-se noutro mundo:




O lago já está bastante gelado.
No pátio central, havia uma pequena fila para entrar no edifício central. Estava aberto aos visitantes do mercado, incluído no preço da entrada, e nem dava para acreditar - encontrei lá a maior colecção de Lucas Cranach (o velho e o novo) que conheço: quarenta telas! Também encontrei um amigo meu - é a segunda vez consecutiva que me cruzo com um amigo numa exposição. Berlim começa a tornar-se uma aldeia.
Por azar, a bateria da máquina fotográfica ficou vazia. Plano B: telemóvel (que remédio).
No palco central em frente ao palacete estava a começar uma pequena peça de teatro. A rainha da neve encantou um rapaz, e obrigou-o a escrever "eternidade" para sempre. Para sempre, é como quem diz: até a sua amada o encontrar e mandar a rainha da neve ir dar uma volta. Tudo acabou em bem, o par foi para casa, e quando lá chegou descobriu "que já tinham sido homem e mulher" (gargalhada geral dos adultos).


Uma senhora estava a vender presépios feitos com bonecos de lã, e contou que tem vendido muito para pessoas de idade, que não passam o Natal em casa e gostam de levar um presépio "ambulante". Vendia-lhes presépios em caixinhas, em latas, em malas pequenas. Um sorriso.


E havia uma barraquinha a vender goufrais, uns bombons deliciosos, em forma de gugelhupf, cobertos de cacau. Deixaram-me provar várias vezes...
A carne grelhada estava boa. O vinho quente também.
E descobri que no dia 26 fazem lá um concerto de música barroca, e uma visita guiada à colecção de pinturas - ora aí está um bom programa para o dia de Natal.
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viver em Berlim
no cinema com Wim Wenders
Versão muito muito reduzida: ontem vi um filme ao lado do Wim Wenders, e ele estava a comer pipocas.
***
Depois conto mais. Parajámente, estou a pensar se revelo se o Wim Wenders faz algum barulho a comer as pipocas, e se faço essa revelação neste blogue ou na Berlinda. Alémdissomente, ando atrapalhada com as urgências do costume ("eu não dou vazão" e "ó vida de mil faces transbordantes" - o costume, como disse) e, como se não bastasse, lá fora há neve, sol e céu azul. Quando começar a escurecer iremos ao mercado de Natal de um palacete de caça na floresta de Grunewald (parece outro mundo, mas vai-se para lá de autocarro), e imagino-o assim: no meio das árvores o palacete iluminado, a neve, as barraquinhas do mercado, e personagens de contos de fadas a cruzarem-se connosco pelos caminhos. Depois conto se foi isto, ou ainda melhor. Para já, cá me vou aos trabalhos urgentes. Ah, minha vida de mil faces transbordantes!
(Nem sei se estou perante um caso de "mil faces transbordantes", ou de pura esquizofrenite acelerada: como é possível que um post com o título "no cinema com Wim Wenders" tenha a fotografia de um cenário romântico de inverno medieval?)
***
Depois conto mais. Parajámente, estou a pensar se revelo se o Wim Wenders faz algum barulho a comer as pipocas, e se faço essa revelação neste blogue ou na Berlinda. Alémdissomente, ando atrapalhada com as urgências do costume ("eu não dou vazão" e "ó vida de mil faces transbordantes" - o costume, como disse) e, como se não bastasse, lá fora há neve, sol e céu azul. Quando começar a escurecer iremos ao mercado de Natal de um palacete de caça na floresta de Grunewald (parece outro mundo, mas vai-se para lá de autocarro), e imagino-o assim: no meio das árvores o palacete iluminado, a neve, as barraquinhas do mercado, e personagens de contos de fadas a cruzarem-se connosco pelos caminhos. Depois conto se foi isto, ou ainda melhor. Para já, cá me vou aos trabalhos urgentes. Ah, minha vida de mil faces transbordantes!
(Nem sei se estou perante um caso de "mil faces transbordantes", ou de pura esquizofrenite acelerada: como é possível que um post com o título "no cinema com Wim Wenders" tenha a fotografia de um cenário romântico de inverno medieval?)
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viver em Berlim
07 dezembro 2012
neve neve neve
Ontem nevou muito durante a noite. De manhã, quando levei o Fox à rua, demos com uma camada de neve no passeio com uns três centímetros da altura. Ele já conhecia os flocos de neve grandes a dançar-lhe à volta do corpo, mas nada sabia deste chão diferente.
Farejou, retrocedeu, tentou de novo, para em seguida mergulhar na neve, feérico: aos saltos nas quatro patas, a trotar de lado, a galopar feito louco, a patinar e a tropeçar nas suas próprias patas - todo trengo de surpresa e alegria.
Foi então que eu descobri que vou ser uma avó insuportável: até as suas primeiras pegadas na neve fotografei!

Aqui está ele na sua primeira grande neve (mas sem lhe mostrar a cara, para proteger a sua privacidade):

Hehehe, nada disso - é que este maluco estava sempre a mexer-se e a fugir para fora da minha fotografia...
...e a puxar-me com tanta força pela neve, que por este andar ainda acaba atrelado a um trenó.

(Quando neva muito em Berlim, ali para os lados da Potsdamer Platz passa um homem num trenó puxado pelos seus cães. Até era giro ver este cãozito a puxar os outros todos...) (Helena Araújo, extraordinárias ideias de negócio non stop desde 1963)
Depois de praí umas cinquenta fotografias, e já com os dedos gelados, consegui finalmente fazer esta:

Foi pena o Matthias e o Joachim (e a Christina, a nossa expatriada tão longe) não terem assistido a esta cena. Parece que não se vai repetir, porque pouco depois, quando fomos com ele para o pátio, para o Matthias o filmar, já não fez tantas maluquices.
Farejou, retrocedeu, tentou de novo, para em seguida mergulhar na neve, feérico: aos saltos nas quatro patas, a trotar de lado, a galopar feito louco, a patinar e a tropeçar nas suas próprias patas - todo trengo de surpresa e alegria.
Foi então que eu descobri que vou ser uma avó insuportável: até as suas primeiras pegadas na neve fotografei!

Aqui está ele na sua primeira grande neve (mas sem lhe mostrar a cara, para proteger a sua privacidade):

Hehehe, nada disso - é que este maluco estava sempre a mexer-se e a fugir para fora da minha fotografia...
...e a puxar-me com tanta força pela neve, que por este andar ainda acaba atrelado a um trenó.

(Quando neva muito em Berlim, ali para os lados da Potsdamer Platz passa um homem num trenó puxado pelos seus cães. Até era giro ver este cãozito a puxar os outros todos...) (Helena Araújo, extraordinárias ideias de negócio non stop desde 1963)
Depois de praí umas cinquenta fotografias, e já com os dedos gelados, consegui finalmente fazer esta:

Foi pena o Matthias e o Joachim (e a Christina, a nossa expatriada tão longe) não terem assistido a esta cena. Parece que não se vai repetir, porque pouco depois, quando fomos com ele para o pátio, para o Matthias o filmar, já não fez tantas maluquices.
espelho meu, espelho meu...
O facebook, vá-se lá saber porquê, passa a vida a mandar-me publicidade para sites casamenteiros.
Os iscos que lá põe nem são mal-parecidos, reconheço, mas pergunto-me: o que é que o facebook pensa que eu sou, para me propor homens que podiam ser meus pais?
Será que os da minha idade estão todos esgotados? Ou será que, se os homens querem sempre mulheres mais novas, o facebook parte do princípio que as mulheres quererão sempre homens mais velhos?
(Ou será que entre o que eu sou e o que eu penso que sou haverá um quarto de século de diferença...?)
os suspeitos habituais
Palácio na região de Bordéus demolido por engano.
Podia entrar numa de antiglobalização largando agora comentários sobre outsorcing em geral, e trabalhadores polacos da construção civil em particular (pano para mangas nesta Berlim onde os polacos trabalham por muito menos dinheiro que os alemães), mas escuso de mergulhar na facilidade do senso comum.
Basta-me lembrar que os suspeitos mais óbvios, mas de quem ninguém se lembra, são os tradutores. Ponham-se a fazer traduções no google, ponham, e depois não se queixem.
06 dezembro 2012
sounds and silence
Vi este filme ontem, a meio da tarde. De uma suavíssima intensidade.
Saí da sala a pairar ainda dentro daquela música, e completamente apaixonada pelo Arvo Pärt. A ver se ele ensaia alguma peça nesta cidade - a ver se convenço quem de direito a deixar-me assistir aos ensaios.
Também fiquei apaixonada pelo Dino Saluzzi e pela Anja (lê-se: "ániá") Lechner.
E pelos dois brincalhões italianos que discutiam qual dos dois é superior, o acordeão ou o clarinete, "se já tivessem inventado o acordeão no tempo do Mozart, ias ver..."
E pelo ar distinto da Kim Kashkashian. E pelo Gianluigi Trovesi, com quem tenho uma frase em comum, "devolvo o dinheiro a quem não gostar" - e a diz com o meu sorriso. Apaixonada por quase todos, se querem saber toda a verdade. Sim, la donna è mobile... - mas que culpa tenho eu que tenham ajuntado tanta gente bonita num só filme?
Sem-se-ver, este é para ti. Quase o comprei para to enviar, mas era em alemão. Se te passar por perto em alguma língua que se entenda, não percas!
***
Conhecem o "já agora", o maior inimigo dos orçamentos da construção civil?
Também se aplica à música: "já agora", já que estava na Filarmonia, fiquei para o concerto da noite - canções (Beethoven, Britten, Schubert) ora com piano ora com piano e trompa (com o famoso Stefan Dohr). Sair de um banho de beleza, repousar quinze minutos, e entrar no banho de beleza seguinte - é mais do que uma alma pode aguentar. Não recomendo.
(Aaaah - recomendo, pois!)
(E ainda nem contei como foi a festa dos 40 anos da Orchester Academy, e os 25 anos da Kammermusiksaal. E para o ano a Filarmonia faz 60 anos - mas ainda está tão jovem! - e vai haver mais festa. Esta cidade, esta cidade...)
é na terra? não, é na lua.
Só que aqueles lunáticos encantadores ainda não sabem.
Um filme para ver, e rever, e rever.
O filme a acontecer e eu, sentada no chão do Altes Finanzamt, a dizer baixinho à senhora que tricotava o barrete:
- Não pares, não pares nunca.
Não é um filme para ver - é um filme para estar.
Um filme para ver, e rever, e rever.
O filme a acontecer e eu, sentada no chão do Altes Finanzamt, a dizer baixinho à senhora que tricotava o barrete:
- Não pares, não pares nunca.
Não é um filme para ver - é um filme para estar.
05 dezembro 2012
apontamentos à margem deste tempo (2)
A propósito de um artigo de opinião em que alguém defendia que o ensino deve ser pago segundo as possibilidades de cada um, lembrei-me dos anos que vivemos em San Francisco. De dois detalhes, nomeadamente: eu a olhar para os sem-abrigo e pensar que me podia acontecer também a mim (um temor que não me ocorre na Alemanha) e que um dos motivos mais importantes para regressar à Europa foi não termos dinheiro para pagar as escolas dos miúdos. Lembro-me bem do alívio que foi saber que podíamos contar com um Estado que cuida o melhor possível dos nossos filhos, independentemente de nós estarmos doentes ou desempregados, ou nos dar para a toxicodependência, ou assim.
Gosto de viver num sistema político que tem preocupações sociais, e não aceita como ordem natural das coisas que as pessoas vão viver para debaixo da ponte, ou fiquem sem o tratamento médico de que precisam, ou não dêem aos seus filhos a melhor escola possível. Ainda não é perfeito, é é alvo de muitos ataques (nomeadamente por inépcia dos políticos e por abuso de parte dos seus utilizadores) - o que simplesmente implica que redobremos os esforços para o melhorar.
Claro que podia tentar o American Way, o trabalhar para viver e o dar um tiro na cabeça quando chegar à idade da reforma sem reforma e sem poder pagar os meus tratamentos médicos. Podia. Mas prefiro o Estado Social europeu.
No entanto, aceito que haja pessoas que preferem viver sem uma rede de solidariedade institucional. Para agradar a gregos e troianos, sugiro o seguinte: em vez de gastarem tempo e esforço a reformar os Estados europeus na direcção do neoliberalismo, fazemos um novo tratado de Tordesilhas - o neoliberalismo do lado de lá, o Estado Social do lado de cá. Os neoliberais convictos mudavam-se para os EUA, onde teriam muito por onde ser realizarem plenamente (nomeadamente a reformar o neoliberalismo americano, que dá demasiados subsídios e apoios às empresas, o que é absurdamente contrário à teoria e à retórica do sistema). Na Europa ficavam apenas os que acreditam e apostam no Estado Social, e estão dispostos a encontrar soluções criativas para o tornar sustentável no futuro.
Seria interessante comparar a evolução dos dois sistemas.
(É agora que os meus amigos americanos vão deixar de me falar. Calma, amigos, isto era apenas um exercício de redução ao absurdo. Pronto, reconheço: era também um certo desejo de mandar os missionários do neoliberalismo para a escuridão do ventre de onde nunca deveriam ter saído. Desculpem, amigos!) (Talvez o melhor fosse criar um país novo só para neoliberais. Talvez o centro dos EUA, os Estados que votam Republicanos. E unir os Estados que votam Democratas num país rumo ao Estado Social.) (Ainda o dia vai a meio, e já eu resolvi praticamente todos os problemas dos países ocidentais...)
Gosto de viver num sistema político que tem preocupações sociais, e não aceita como ordem natural das coisas que as pessoas vão viver para debaixo da ponte, ou fiquem sem o tratamento médico de que precisam, ou não dêem aos seus filhos a melhor escola possível. Ainda não é perfeito, é é alvo de muitos ataques (nomeadamente por inépcia dos políticos e por abuso de parte dos seus utilizadores) - o que simplesmente implica que redobremos os esforços para o melhorar.
Claro que podia tentar o American Way, o trabalhar para viver e o dar um tiro na cabeça quando chegar à idade da reforma sem reforma e sem poder pagar os meus tratamentos médicos. Podia. Mas prefiro o Estado Social europeu.
No entanto, aceito que haja pessoas que preferem viver sem uma rede de solidariedade institucional. Para agradar a gregos e troianos, sugiro o seguinte: em vez de gastarem tempo e esforço a reformar os Estados europeus na direcção do neoliberalismo, fazemos um novo tratado de Tordesilhas - o neoliberalismo do lado de lá, o Estado Social do lado de cá. Os neoliberais convictos mudavam-se para os EUA, onde teriam muito por onde ser realizarem plenamente (nomeadamente a reformar o neoliberalismo americano, que dá demasiados subsídios e apoios às empresas, o que é absurdamente contrário à teoria e à retórica do sistema). Na Europa ficavam apenas os que acreditam e apostam no Estado Social, e estão dispostos a encontrar soluções criativas para o tornar sustentável no futuro.
Seria interessante comparar a evolução dos dois sistemas.
(É agora que os meus amigos americanos vão deixar de me falar. Calma, amigos, isto era apenas um exercício de redução ao absurdo. Pronto, reconheço: era também um certo desejo de mandar os missionários do neoliberalismo para a escuridão do ventre de onde nunca deveriam ter saído. Desculpem, amigos!) (Talvez o melhor fosse criar um país novo só para neoliberais. Talvez o centro dos EUA, os Estados que votam Republicanos. E unir os Estados que votam Democratas num país rumo ao Estado Social.) (Ainda o dia vai a meio, e já eu resolvi praticamente todos os problemas dos países ocidentais...)
apontamentos à margem deste tempo (1)
(daqui)
Disseram-me recentemente que o processo pelo qual Relvas acedeu ao seu curso universitário é perfeitamente legal, que ele tem de facto a experiência profissional que justifica as equiparações, e que foi vítima de um bando de jornalistas que andavam a farejar por todos os lados, tentando arranjar o que dizer de mal sobre o governo em geral, e sobre o Relvas em particular.
Começando pelo fim, eu diria que mal vamos quando jornalismo de investigação é confundido com campanha antigovernamental. E pergunto-me se aquele jornalista que andou a investigar a permuta da casa de férias do Cavaco Silva corre o risco de ser acusado de alta traição. Alta traição, diria eu, é esse caso ser conhecido há anos e ainda não ter acontecido nada, excepto ter surgido uma nova expressão idiomática, "nascer duas vezes": um síndroma raro, que só podia ser português, e se revela numa certa maneira de estar na política que se pode resumir a "não é preciso que a mulher de César seja honesta, ou sequer que o pareça - basta que saiba encerrar os debates formulando axiomas a respeito de si própria".
Diria também que uma coisa é ter muita prática na área da Teoria dos Jogos, e outra é confrontar-se arduamente com a Filosofia Política. Um curso universitário não se pode limitar à prática de jogos palacianos, jogos de cintura e jogos de interesses, é sobretudo ler e pensar sobre esses e outros temas (sobretudo os outros temas), mergulhar em profundidade nas teorias, aventurar-se no mundo das ideias. Exige-se à Universidade que saiba distinguir entre a via académica e a via profissionalizante, de cariz mais prático - e se não souber, pergunte ao Crato, que ainda agora veio à Alemanha aprender a diferença.
E diria ainda que o carácter e a ética de uma pessoa se medem pela distância que existe entre os seus actos e aquilo que é legalmente possível.
04 dezembro 2012
ontem vi o Pai Natal - estava na caixa da Konzerthaus em Berlim
Ontem ao fim da tarde, estava eu a pensar que finalmente podia vir contar aqui como foi a fantástica festa de comemoração dos 40 anos da Orchestra Academy, eis que o telefone toca e era o Joachim a perguntar "queres ir hoje à noite à Konzerthaus ouvir a 9ª de Beethoven e o concerto para violino de Tchaikowsky?"
Eu queria.
De modo que jantei a correr e saí.
Quando cheguei à caixa onde me dariam o bilhete guardado para mim, havia duas senhoras à minha frente, mãe e filha, que só tinham um cartão de pagamento que aquela máquina não aceitava. "Então compro para já um bilhete para a minha mãe, e vou ali ao multibanco buscar mais dinheiro para comprar o meu depois", disse uma delas, mas o empregado deu-lhe dois bilhetes e disse "Entrem, entrem, que está mesmo a começar, e venham cá pagar no intervalo."
A seguir era eu. Tinha-me esquecido do nome que devia estar no envelope. "Desculpe, não me lembro mesmo, nós tratamo-lo por Björg, e não me lembro do nome de família!" O empregado deu-me um bilhete qualquer, por acaso era mesmo na quarta fila, ao centro, "leve este, leve este, porque se demoramos mais o concerto começa sem si."
***
Uma pessoa habitua-se à Filarmonia, e depois é um sarilho. O violinista, Andrej Baranov, era extraordinário. Os outros músicos eram muito bons, o coro portou-se muito bem (excepto um menino, no canto esquerdo, que passou o tempo a meter conversa e a distrair os outros). Mas a sala, as notas desencontradas e perdidas pela sala... É que nem a tosse do público se ouve ali com clareza!
03 dezembro 2012
tarte de grão-de-bico
(daqui)
Para a massa de forrar a forma: ele tem uma receita, mas eu pego em 3 folhas de massa folhada congelada, estico-as muito bem para ficarem quase como massa de pastéis de Tentúgal, e forro a forma.
Para o creme:
150 gr de grão-de-bico cozido, escorrido e passado na máquina de picar
300 gr de açúcar (eu uso metade, e já vai mais que doce)
2 ovos inteiros
4 gemas
60 gr de margarina derretida (uso manteiga)
raspa de casca de limão (eu ponho também o sumo)
açúcar em pó para polvilhar
Misture o puré de grão com o açúcar e a raspa de limão. Junte-lhe os ovos, as gemas e a margarina, mexa bem para ficar ligado e encha a tarte até 2/3. Leve a cozer em forno moderado durante 30 a 40 minutos. Quando estiver quase cozida, polvilhe-a com açúcar em pó. Sirva depois de fria (no meu caso: não se afaste nem por um minuto da tarte, não se vá dar o caso de outras pessoas que moram cá em casa acharem que já está fria q.b.)
***
Por falar em pratos económicos: o Matthias tem de levar bolos para vender na festa de Natal da escola dele, e estou a tentar convencê-lo a levar este, porque é bem mais barato que a nossa famosa receita de brownies de chocolate. Mas vamos dizer que é "tarte de limão", porque se lhe chamarmos "tarte de grão-de-bico" ninguém compra.
****
Em Adenda, um comentário de um amigo no facebook:
A propósito, para fazeres o favor de não aldrabar a receita do mestre chef Silva, para a "massa de forrar a forma: 125g de farinha; 50 g de banha; 25g de margarina; sal; umas gotas de sumo de limão; alguma água fria, se necessária. Amasse todos os ingredientes, devendo ficar uma massa segura. Deixe repousar, coberta com um pano, cerca de meia hora. Depois, estenda fina com o rolo e forre a forma da tarte"
Por falar em pratos económicos: o Matthias tem de levar bolos para vender na festa de Natal da escola dele, e estou a tentar convencê-lo a levar este, porque é bem mais barato que a nossa famosa receita de brownies de chocolate. Mas vamos dizer que é "tarte de limão", porque se lhe chamarmos "tarte de grão-de-bico" ninguém compra.
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Em Adenda, um comentário de um amigo no facebook:
A propósito, para fazeres o favor de não aldrabar a receita do mestre chef Silva, para a "massa de forrar a forma: 125g de farinha; 50 g de banha; 25g de margarina; sal; umas gotas de sumo de limão; alguma água fria, se necessária. Amasse todos os ingredientes, devendo ficar uma massa segura. Deixe repousar, coberta com um pano, cerca de meia hora. Depois, estenda fina com o rolo e forre a forma da tarte"
"a carícia que nos estendes no tempo"
No princípio do Advento, um poema do José Tolentino de Mendonça:
(daqui)
Para rezar enquanto se constrói o presépio
Primeiro Andamento
Visite-nos, Senhor, a Tua alegria.
Seja ela o dom que sustém esta hora da nossa vida.
Tenha o poder de reedificar, em nós, o caído,
de aclarar a tenda que a noite atribulou,
de unir aquilo que a pressa ou o cansaço interromperam.
Seja ela o sinal da leveza com que nos vês,
a carícia que nos estendes no tempo,
o assobio do Pastor que inaugura as tréguas.
Dá-nos Senhor, neste tempo,
a alegria como alento revitalizador:
inscreva ela em nós o sabor da vida abundante e
multiplicada;
perfume cada um dos nossos gestos;
traga às nossas palavras a luz daquela estrela
que o Teu Nascimento para sempre acendeu.
Que o Teu Nascimento inspire cada um dos nossos
renascimentos
Que a Tua presença, nos ensine o que significa tornar-se
presente
E o dom que fazes de Ti,
nos ajude a tecer a vida
como quem entretece uma história de amor.
(daqui)
Para rezar enquanto se constrói o presépio
Primeiro Andamento
Visite-nos, Senhor, a Tua alegria.
Seja ela o dom que sustém esta hora da nossa vida.
Tenha o poder de reedificar, em nós, o caído,
de aclarar a tenda que a noite atribulou,
de unir aquilo que a pressa ou o cansaço interromperam.
Seja ela o sinal da leveza com que nos vês,
a carícia que nos estendes no tempo,
o assobio do Pastor que inaugura as tréguas.
Dá-nos Senhor, neste tempo,
a alegria como alento revitalizador:
inscreva ela em nós o sabor da vida abundante e
multiplicada;
perfume cada um dos nossos gestos;
traga às nossas palavras a luz daquela estrela
que o Teu Nascimento para sempre acendeu.
Que o Teu Nascimento inspire cada um dos nossos
renascimentos
Que a Tua presença, nos ensine o que significa tornar-se
presente
E o dom que fazes de Ti,
nos ajude a tecer a vida
como quem entretece uma história de amor.
01 dezembro 2012
primeira neve
Esta manhã um gemido interrompeu-me a sorna. Era o Fox, esse discreto piegas, que do lado de fora da porta entreaberta do meu quarto me lembrava que estava à rasquinha para ir à rua.
Lá fomos, de encontro à primeira neve do ano. Os flocos caíam enormes e espaçados. O Fox farejava, saltava e tentava abocanhar os maiores.
Pouco depois começou a nevar a sério.

Onde está o Wally?


Lá fomos, de encontro à primeira neve do ano. Os flocos caíam enormes e espaçados. O Fox farejava, saltava e tentava abocanhar os maiores.
Pouco depois começou a nevar a sério.

Onde está o Wally?


30 novembro 2012
e agora, para algo realmente realmente importante
Campanha Tempo e Livros
Há crianças doentes em Berlim, sozinhas num quarto de hospital, que só precisam de quem fale português com elas - ajude-nos a ajudá-las!
Em Berlim e arredores há várias crianças angolanas internadas em hospitais para tratamentos muitas vezes demorados, e que não falam alemão nem têm nenhum contacto social para além dos médicos e enfermeiras. Ficam na Alemanha, longe dos seus familiares, semanas e muitas vezes até vários meses, antes de terminarem os tratamentos e poderem regressar ao seu país de origem.
A sua vinda para a Alemanha é assegurada por organizações de ajuda humanitária que possibilitam a essas crianças tratamentos e curas hospitalares às quais de outra maneira nunca teriam acesso.
Elas precisam antes de tudo de conversar em português, de alguém que traduza os seus medos e as suas necessidades às equipas dos hospitais, e também quem lhes traduza a elas quais os procedimentos, operações e tratamentos que lhes vão ser aplicados.
Algumas crianças nem sabem que estão na Alemanha. Sabem que estão num lugar estranho, longe dos pais, doentes, com muitas dores, „presas“ a uma cama e sem conseguirem comunicar.
As equipas dos hospitais são regra geral extremamente competentes e estão empenhadas em proporcionar às crianças o melhor tratamento possível. Mas sem compreenderem a língua, estas crianças têm medo do que lhes vão fazer, não entendem o que está a acontecer e passam o dia sozinhas.
O magazine Berlinda.org apela a todos os falantes de português a que dêm um pouco do seu tempo para aliviar a vida destas crianças.
NÃO QUEREMOS DINHEIRO. QUEREMOS UM POUCO DO SEU TEMPO, E DOS SEUS LIVROS.
Esta ajuda pode ser feita de várias maneiras:
- -preferencialmente, através de visitas às crianças. Os hospitais encontram-se nos arredores de Berlim, por vezes em Brandemburgo, a cerca de 1h do centro. É possível ir de transportes públicos, ou de carro. Uma vez por mês já é suficiente (quantos mais voluntários houver, maior a frequência das visitas para as crianças, mesmo que cada voluntário só visite uma vez por mês).
- -doação e/ou empréstimo de livros infantis em português, cadernos, canetas, brinquedos, jogos, etc. Em caso de empréstimo, poderá reaver os objetos emprestados quando a criança tiver terminado o tratamento e regressar ao seu país de origem - a menos que prefira que sejam transmitidos a outra criança que deles necessite. Poderá a qualquer momento reaver os seus bens, bastando para isso comunicar o seu desejo ao nosso magazine.
- -ajuda na organização e coordenação dos voluntários. O magazine Berlinda propõe-se criar uma rede para ajudar a melhorar a qualidade de vida destas crianças e tirá-las do isolamento comunicacional em que se encontram. Tudo isto é feito de forma voluntária, e requer tempo e dedicação. Toda a ajuda na parte administrativa é muito bem-vinda!
Dê-nos um pouco do seu tempo e dos seus livros - as crianças agradecem.
Basta enviar-nos um email para: berlinda.social@berlinda.org indicando qual o tipo de ajuda para a qual se quer voluntariar (visitas, doação de livros/brinquedos, ou administrativa).
P.S. - Felizmente, a maioria das pessoas não sabe o que é o dia a dia de crianças internadas com doenças ou lesões graves, sozinhas num mundo que não é o delas. O que pedimos é algo mais do que nada para lhes aliviar o sofrimento.
Uma iniciativa do Magazine Berlinda.org - Ação Social
(eu bem digo que esta cidade é um stress)
Ainda não tive oportunidade de contar como foi a grande festa de comemoração dos 25 anos da Kammermusiksaal (e foi fantástica), e já vem aí a próxima grande festa: a Orchester Academy dos Filarmónicos de Berlim, criada pelo Karajan, já vai em 40 anos. No próximo domingo haverá um concerto que é também um encontro de velhos amigos, criados nos bancos desta orquestra de jovens profissionais, e que agora são alguns dos mais famosos músicos do mundo.
O concerto vai ser transmitido em directo pelo Digital Concert Hall, e neste vídeo o maestro Simon Rattle fala sobre a Orchestra Academy e o programa desta festa.
(E eu caio nelas todas: aqui a pensar que ia ficar sossegadamente em casa a tomar café com um jogador de futebol não-me-façam-mais-perguntas-mas-não,-não-é-o-Cristiano-Ronaldo, e afinal acabei de chegar à conclusão que nem gosto de futebol nem é boa ideia ficar nessa conversa, que mais vale deixar os homens à sua vontade de volta da minha tarte de grão de bico, e lá vou eu ver se arranjo um bilhetinho para este concerto)
andam-me a dar música no facebook...
...e para que ninguém diga que eu guardo o que é bom só para mim, ó aqui:
(de nada, de nada - temos de ser uns para os outros)
PS (já me ia esquecendo!):
(de nada, de nada - temos de ser uns para os outros)
PS (já me ia esquecendo!):
29 novembro 2012
então o Crato veio a Berlim aprender umas coisas sobre Educação, e esqueceu-se de perguntar o essencial?
Passo a vida a repetir isto, até pareço obsessiva:
- Na Alemanha, os abonos de família andam pelos 180 euros por mês, por criança, até esta acabar a sua formação (pode bem ser aos 25 anos). A partir do terceiro filho, o abono é maior.
- As escolas são gratuitas até ao fim do secundário. Apesar dos imensos cortes que têm sido feitos (sim, aqui também andam a poupar), tentam assegurar que o ensino seja realmente gratuito; por isso, as escolas emprestam os livros escolares aos alunos. No princípio do ano somos informados sobre qual o plafond máximo de custos escolares que as famílias têm de pagar (anda pelos 60 euros, para cadernos de exercícios, fotocópias, etc.). A escola não pode dar aos alunos uma lista de materiais para aquisição que exceda este plafond.
- As escolas privadas são comparticipadas pelo Estado, que em troca impõe algumas condições, e têm geralmente um preço muito acessível (nós pagávamos 70 euros mensais).
- Na altura em que a Alemanha teve de cortar drasticamente nas despesas do Estado porque não estava a cumprir o acordo do euro, fez cortes em praticamente todas as áreas, mas não cortou (até aumentou, em certos casos) a investigação e o ensino. A nível do ensino deu particular atenção aos filhos das famílias mais pobres, para que a nova geração consiga, por meio da educação, quebrar o ciclo de pobreza.
A ideia é simples, e não passa de mero economicismo: o nosso futuro depende dos nossos filhos. É preciso apoiar as famílias, e dar-lhes todos os meios para que criem uma geração de pessoas capazes de tirar o maior partido das suas capacidades. Não somos tão ricos que nos possamos dar ao luxo de ter pobres, nomeadamente pessoas que ficaram aquém do que poderiam oferecer à sociedade, por não terem tido acesso à formação melhor e mais adequada às suas potencialidades.
- Na Alemanha, os abonos de família andam pelos 180 euros por mês, por criança, até esta acabar a sua formação (pode bem ser aos 25 anos). A partir do terceiro filho, o abono é maior.
- As escolas são gratuitas até ao fim do secundário. Apesar dos imensos cortes que têm sido feitos (sim, aqui também andam a poupar), tentam assegurar que o ensino seja realmente gratuito; por isso, as escolas emprestam os livros escolares aos alunos. No princípio do ano somos informados sobre qual o plafond máximo de custos escolares que as famílias têm de pagar (anda pelos 60 euros, para cadernos de exercícios, fotocópias, etc.). A escola não pode dar aos alunos uma lista de materiais para aquisição que exceda este plafond.
- As escolas privadas são comparticipadas pelo Estado, que em troca impõe algumas condições, e têm geralmente um preço muito acessível (nós pagávamos 70 euros mensais).
- Na altura em que a Alemanha teve de cortar drasticamente nas despesas do Estado porque não estava a cumprir o acordo do euro, fez cortes em praticamente todas as áreas, mas não cortou (até aumentou, em certos casos) a investigação e o ensino. A nível do ensino deu particular atenção aos filhos das famílias mais pobres, para que a nova geração consiga, por meio da educação, quebrar o ciclo de pobreza.
A ideia é simples, e não passa de mero economicismo: o nosso futuro depende dos nossos filhos. É preciso apoiar as famílias, e dar-lhes todos os meios para que criem uma geração de pessoas capazes de tirar o maior partido das suas capacidades. Não somos tão ricos que nos possamos dar ao luxo de ter pobres, nomeadamente pessoas que ficaram aquém do que poderiam oferecer à sociedade, por não terem tido acesso à formação melhor e mais adequada às suas potencialidades.
deficiência nossa
27 novembro 2012
preciso de um dicionário mais completo...
...porque o meu falha numa questão básica: quem revela desprezo por tias é uma pessoa misógina, ou tisógina?
(uma mulher pode ser misógina? tisógina pode: conheço algumas)
***
Adenda: na caixa de comentários, o Vítor Santos Lindegaard nota que devia ser misotia e misotio (ou misótia e misótio). Às vezes cometo argoladas tão grandes que bem corro o risco de me tornar misohelena...
(Gosto mais de misolena, mas por hoje não invento mais palavras, que isto está-me a correr mal.)
(uma mulher pode ser misógina? tisógina pode: conheço algumas)
***
Adenda: na caixa de comentários, o Vítor Santos Lindegaard nota que devia ser misotia e misotio (ou misótia e misótio). Às vezes cometo argoladas tão grandes que bem corro o risco de me tornar misohelena...
(Gosto mais de misolena, mas por hoje não invento mais palavras, que isto está-me a correr mal.)
26 novembro 2012
a gente mete-se com políticos de vocalções e...
,,
(vídeo encontrado no Entre as Brumas da Memória)
Estou vocalmente estarrecida: será que entendi bem? Aumentaram os impostos a pessoas que têm pensões ANUAIS de 7000 euros?
E o que será que ele entende por "acumulação de privilégios"? Será o pagamento de um salário justo aos funcionários que asseguram o cumprimento das funções básicas do Estado (e do Estado Social)?
O Marcelo Rebelo de Sousa andou a perder tempo com aquele filme pateta para ensinar aos alemães umas coisas sobre os portugueses, sem perceber que lhe bastava pegar no material vocalmente oferecido pelo nosso primeiro-ministro, traduzi-lo para alemão, e passar o filme no youtube. Ia ser um fenómeno viral, e os alemães iam ter tanta pena de nós que até diziam à Angela Merkel que o melhor é perdoar a dívida por inteiro, porque já estamos castigados q.b. com um governo assim.
anjo da guarda
(daqui)
"Tu andas com um anjo da guarda atrelado", insiste uma amiga minha. Ainda há pouco, a propósito de eu querer partir com a Filarmónica como quem vai com o circo, me veio lembrar o anjo do Wim Wenders. Lembrança puxa lembrança, cheguei àquele dia em que me convidaram para participar numa peça Dada, "uma coisa muito engraçada", diziam, "em que partes do rosto têm a palavra, e tu serias o nariz". Seria uma encenação mais ou menos caseira, feita entre amigos. Calha de esses amigos virem um pouco de toda a Europa, e serem gente importante na área da cultura, e de quem me convidava organizar estes eventos no espírito dos antigos salões de Goethe, Anna-Amalia e toda a sociedade culta da Weimar clássica.
Eu declinei. Esses encontros calham sempre na altura em que o Joachim e eu temos um fim-de-semana inadiável na França, com amigos muito especiais.
Soube depois que o "teatro caseiro" juntou um público de 400 pessoas, e que eu, se tivesse participado, teria contracenado com o Bruno Ganz.
Às vezes desconfio que o meu anjo da guarda bebe.
25 novembro 2012
decidi que na próxima vida afinal não quero ser condutora de TIR
Andava eu a pensar que ser condutora de TIR era a profissão ideal para mim, porque podia ouvir muita música, eis senão que vi esta fotografia
no blogue das tournées da Orquestra Filarmónica de Berlim, e decidi que afinal na próxima vida quero ser membro daquela orquestra. Nem que seja a tocar os ferrinhos, pronto.
Como é que não me lembrei disto antes?! Além de ouvir boa música, faria viagens recheadas de maravilhas (acabei de ver, e estou aqui a segurar os olhos, que querem ficar naquele blogue).
Vinha lá escrito que este foi o highlight da tournée. Era, era, mas foi até chegarem a Lisboa e o Paulo os ter levado a ouvir fado à Mesa dos Frades.
(Vão ver o blogue: dá mesmo vontade de fugir com o circo - no caso, com a orquestra)
no blogue das tournées da Orquestra Filarmónica de Berlim, e decidi que afinal na próxima vida quero ser membro daquela orquestra. Nem que seja a tocar os ferrinhos, pronto.
Como é que não me lembrei disto antes?! Além de ouvir boa música, faria viagens recheadas de maravilhas (acabei de ver, e estou aqui a segurar os olhos, que querem ficar naquele blogue).
Vinha lá escrito que este foi o highlight da tournée. Era, era, mas foi até chegarem a Lisboa e o Paulo os ter levado a ouvir fado à Mesa dos Frades.
(Vão ver o blogue: dá mesmo vontade de fugir com o circo - no caso, com a orquestra)
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filarmonia de Berlim
o FIB e o Fox
Entalado entre duas pernas da minha cadeira, o Fox enrola-se a dormir. Estico a mão, faço-lhe uma festinha. Ele espreguiça-se no gozo do mimo. Depois levanta-se, olha para mim. Vai buscar os brinquedos e larga-os todos aos meus pés. Faço de conta que não reparo. Ele dá saltos e ladra, "olha para mim, estou aqui, brinca comigo!"
"Agora não, Fox, espera, agora não."
Ergue-se nas patas traseiras (estamos a treiná-lo para suricate), estendo-lhe a mão, mergulha nela, às lambidelas.
Este cão dá-me cabo da produtividade, mas aumenta o índice de Felicidade Interna Bruta para níveis astronómicos.






"Agora não, Fox, espera, agora não."
Ergue-se nas patas traseiras (estamos a treiná-lo para suricate), estendo-lhe a mão, mergulha nela, às lambidelas.
Este cão dá-me cabo da produtividade, mas aumenta o índice de Felicidade Interna Bruta para níveis astronómicos.






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