Não vou traduzir
a carta à Alemanha porque me parece que o diálogo com os alemães tem de ser feito a partir de um olhar sobre nós próprios e não sobre eles, e muito menos um olhar ignorante e envenenado sobre eles, e também porque esta mensagem, lida pelos alemães, é um grande tiro pela culatra. Ora vejam:
Senhora Merkel, Chanceler da Alemanha
Venho
pedir-lhe, por ocasião da visita que em breve nos fará, para levar consigo na
partida uma breve mensagem aos seus concidadãos. Eis o que gostava que lhes
transmitisse:
(Pedir à chanceler que leve ao seu povo uma mensagem na qual se afirma que os políticos alemães andam a enganar e a omitir informações ao seu povo é um excelente exemplo de diálogo construtivo. Começa da melhor maneira possível, e garante que a chanceler e os alemães leiam esta mensagem com uma empatia crescente e uma enorme vontade de resolver os problemas num ambiente de mútuo respeito e consideração.)
Sabemos que na
década passada os vossos governos vos disseram que tinham de abrir mão de parte
dos salários para preservar o futuro do vosso Estado Social. Disseram-vos, e
vocês acreditaram, que se prescindissem de uma pequena parte do rendimento
presente vos tornaríeis “mais competitivos” e que, dessa forma, o vosso país
poderia obter uma poupança capaz de sustentar as vossas pensões e os direitos
sociais dos vossos filhos no futuro.
(Cuidado com as confusões: ninguém disse aos alemães que era preciso abrir mão de parte dos salários para preservar o Estado Social. Foi dito que (a) era preciso abrir mão de parte dos salários para tornar os produtos alemães mais competitivos, e que (b) era preciso reformar o sistema de Segurança Social para, no futuro, conseguir garantir um mínimo digno para todos - são questões muito distintas. A referência à Segurança Social nesta mensagem é particularmente contraproducente porque, se há algo de que os alemães se orgulham, é de terem tido a coragem de fazer as brutais reformas na Segurança Social que os outros países têm vindo a adiar obstinadamente. Hoje, olham para a sua Agenda 2010 (e eu, que nem gosto muito do Schröder, aqui lhe deixo uma menção honrosa: fazer estas reformas, mesmo sabendo que por causa delas vai perder as eleições, é obra!), comparam a situação do seu país com a dos países à sua volta, e concluem que valeu a pena. Lembro que na altura em que na Alemanha a idade da reforma passou dos 65 para os 67 anos, em Portugal a direita agitou o mais que pôde para evitar que se passasse dos 62 para os 65 anos.)
Sabemos que a
década passada não foi fácil para vós e que o vosso país se tornou desde então
menos bonito
("menos bonito"?!)
e mais desigual.
(Sim, é verdade que a desigualdade aumentou de forma drástica. Os alemães não têm a menor dúvida quanto a isto, e há regularmente notícias de iniciativas para corrigir a situação.)
Sabemos também que o objetivo pretendido foi
conseguido. Que a Alemanha se tornou «mais competitiva»,
(Porquê as aspas?)
exportou muito,
importou menos e mais barato, conseguiu grandes excedentes da balança de
pagamentos e acumulou poupança nos vossos bancos.
Nós sabemos,
mas vocês talvez não saibam, porque isso não vos é dito pelos vossos
dirigentes,
(O que o leva a pensar que os dirigentes não falam disto? Sugiro a consulta regular do jornal publicado pelo Parlamento alemão, onde os temas debatidos no Parlamento são abertamente tematizados, bem como dos jornais e revistas alemães. E havia mesmo necessidade de insinuar que os políticos alemães escondem informações importantes ao seu povo?)
que esse dinheiro acumulado nos vossos bancos, foi por eles
aplicado, à falta de melhor alternativa, em empréstimos a baixo juro aos bancos
do sul da Europa, entre os quais os bancos portugueses, e por eles
(pelos bancos desses países, note-se)
emprestado
de novo com muita publicidade e matreirice a famílias do sul cujos salários
também não cresciam por aí além, mas que desejavam ter casa, carro e um modo de
vida parecido com o vosso.
(Primeiro: há algum mal em emprestar dinheiro a baixo juro aos bancos do Sul da Europa? Segundo: é mesmo necessário referir a matreirice dos bancos do Sul da Europa, e sugerir que os adultos desses países são vítimas inimputáveis, incapazes de tomar decisões responsáveis sobre a gestão das suas finanças? Isso é entregar as armas ao inimigo - em última análise implica admitir que os bancos do Sul não são sérios e que os povos do Sul não se sabem governar e precisam de uma instituição europeia a controlar a sua gestão e as suas contas.)
As nossas
economias sujeitas à concorrência criada pela globalização que tanto convinha
às vossas empresas exportadoras cresciam pouco. Mas o crédito que os vossos
bancos nos ofereciam, por intermédio dos nossos, lá ia permitindo que as nossas
famílias tivessem acesso a bens de consumo, muitos deles com origem nas vossas
empresas exportadoras. Durante algum tempo este estado de coisas parecia ser
bom para todos.
Quando em 2008
todas as bolhas começaram a estoirar, os vossos bancos descobriram que não
podiam continuar a arriscar tanto e cortaram o crédito aos bancos do sul e
mesmo aos Estados. Se a União Europeia não tivesse decidido que nenhum banco
podia abrir falência, responsabilizando os Estados pelas dívidas bancárias,
teríamos assistido a uma razia quer dos bancos endividados, quer dos bancos
credores.
(...e também a uma crise económica global e brutal, talvez até pior que a Grande Recessão - porque a falência dos bancos provocaria a falência de toda a economia e o fim imediato do Estado Social. O que neste momento se passa na Grécia e em Portugal, apenas porque os bancos não têm liquidez e os Estados perderam credibilidade, é uma minúscula amostra do que teria acontecido se a UE tivesse deixado cair os bancos.)
Mas a UE decidiu que os governos iam «resgatar» os bancos e que
depois ela própria, com o BCE e o FMI, «resgatariam» os Estados. Foi desta
forma que os vossos bancos, que haviam emprestado a juros baixos para lá de
todos os critérios de prudência, se salvaram eles próprios da falência. Foi
assim que eles conseguiram continuar a cobrar os juros dos empréstimos e a
obter a sua amortização.
(Há aqui qualquer coisa que me escapa. Os Estados resgataram os bancos para evitar a sua falência na sequência da crise iniciada nos EUA, nomeadamente a falência do Lehman Brothers e a venda de títulos sem qualquer valor. Quando a crise da Grécia rebentou, os Estados optaram por penalizar os bancos e os credores - nomeadamente na redução da dívida grega - em vez de os "resgatarem".
Claro que se todo o sistema bancário tivesse falido devido à crise financeira de 2008, não ficava ninguém para cobrar as dívidas do Sul. Mas os bancos não faliram, pelo que continuam a exigir aos bancos e aos Estados do Sul o pagamento das dívidas por eles contraídos. Qual é a dúvida?)
Doutra forma, teriam falido. Talvez vocês não saibam,
mas os empréstimos concedidos à Grécia, à Irlanda e a Portugal são na realidade
uma dívida imposta aos povos destes países para «resgatar» os vossos bancos.
(Não, os empréstimos concedidos à Grécia, à Irlanda e a Portugal não são uma dívida imposta, são a resposta aos pedidos desses países. E, de facto, os alemães não sabem que os novos empréstimos a esses países são uma maneira de "resgatar" os bancos alemães. O que lhes é dito é que estes empréstimos são muito arriscados, porque os Estados podem não poder pagar, mas que, se as coisas correrem bem, serão um bom negócio. Contudo, o fim último dos respectivos juros - que, aqui, consta que são de 3,5%, mas em Portugal se diz serem "agiotas" - não é garantir o bom negócio, mas obrigarem os países a fazer um uso responsável desse dinheiro. Mais: provavelmente os alemães até nem se importariam em enviar transferências para os países do Sul, dinheiro a fundo perdido - mas gostavam de ter a certeza que esse dinheiro não vai parar directamente aos bolsos cheios do costume. A corrupção e o mau governo que infelizmente ainda grassam nos países do Sul são os motivos que impedem que as ajudas financeiras sejam realmente generosas.)
Talvez vocês
não saibam também que até agora, os vossos Estados, todos vós como
contribuintes, não gastaram um euro que fosse nos «resgates» à Grécia, à
Irlanda e Portugal. Até agora o vosso governo concedeu garantias a um fundo
europeu que emite dívida a taxas quase nulas para emprestar a 3% ou 4% aos
países «resgatados».
(Até agora os governos não gastaram um euro nos resgates, é verdade. Mas se a Grécia, a Irlanda e Portugal não forem capazes de pagar as dívidas que estão a contrair, as garantias dadas pelos Estados tornam-se automaticamente dívida que os contribuintes destes países terão de pagar. Os alemães sabem isto, de tal modo que, num debate parlamentar, até o partido "die Linke" acusou a Angela Merkel de estar a empenhar o dinheiro dos contribuintes alemães de forma muito arriscada e irresponsável. E convém acrescentar - talvez os portugueses não saibam... - que o perdão de metade da dívida da Grécia tem consequências graves nas finanças alemãs: entre redução da dívida para metade e redução dos juros sobre a restante metade, os bancos alemães, muitos deles garantidos pelo Estado e portanto pelos contribuintes alemães, perdem mais de 70% dos seus activos da dívida grega. Também muitos investidores privados, que aplicaram as suas poupanças em títulos da dívida grega, perdem esse dinheiro.)
Talvez vocês
não saibam que em breve este estado de coisas se pode vir a alterar. A
austeridade imposta em troca de empréstimos está a arrasar os países
«resgatados». Em breve, estes países, chegarão ao ponto em que terão de
suspender o serviço da dívida. Nessa hora, haverá perdas, perdas pesadas para
todos, contribuintes alemães incluídos.
(Sabem, pois! Não há a menor dúvida sobre isso. No entanto, o que se diz na Alemanha é que os países do Sul estão a apostar na austeridade com custos insuportáveis para os seus povos, mas não estão a fazer as reformas absolutamente essenciais no combate à corrupção e ao aproveitamento do Estado por parte de certas empresas e lobbies, e no fortalecimento do Estado. Por isso mesmo é que já há quem diga que mais valia mandar borda fora os países que não se sabem governar - isto sou eu a falar à maneira do Bildzeitung, os políticos escolhem as suas palavras com mais cuidado - mas a resposta é sempre a mesma: o Euro é muito mais que uma moeda, é um símbolo fundamental de uma Europa que tem de saber construir-se solidária e forte; e a Alemanha tem uma responsabilidade histórica que lhe exige ser solidária com os seus vizinhos, em vez de os abandonar à sua má sorte.)
(Correcção - em 7.11: "países do Sul" é uma generalização. Cada país é um caso. O debate alemão a que me refiro é sobretudo relativo à Grécia. De Portugal praticamente não se fala. Os relatórios que se vão encontrando na net referem que o problema de corrupção em Portugal é bem menor que o da Grécia (Transparency International) e que Portugal tem muito melhores perspectivas de saída da crise.)
Talvez vocês
não saibam, mas no final, todo o esforço que haveis feito na década passada
para tornar a Alemanha «competitiva» e excedentária se pode esfumar num ápice.
(Sabem, pois!)
Afinal os vossos excedentes, são os nossos défices, os créditos dos vossos
bancos são as nossas dívidas.
(Sim, lê-se frequentemente nos jornais alemães, em entrevistas a políticos e responsáveis de instituições financeiras alemães e europeus. E até dizem abertamente que "os bancos alemães também têm a sua quota parte de culpa nesta situação", por exemplo, e que o Euro não pode falhar, porque toda a Europa falhará com ele.)
Os vossos dirigentes deviam saber que uma
economia é um sistema e que a economia do euro não é exceção. Quando as partes
procuram obter vantagens à custa umas das outras, o resultado para o conjunto e
cada uma delas não pode deixar de ser desastroso.
(Os dirigentes alemães não têm a menor dúvida sobre isto. Por exemplo: antes de em Portugal se falar sobre o problema de haver uma moeda única para economias tão díspares, já o jornal do Parlamento alemão tinha publicado textos sobre esse problema - nomeadamente sobre o modo como o valor do Euro estava a asfixiar as economias do Sul.)
Talvez vocês
não saibam, mas os vossos dirigentes andam a enganar-vos há muito tempo.
(Ah, esta é mesmo engraçada: o país do BPN e das PPP, do Presidente da República envolvido em negócios obscuros de fuga aos impostos e de ganhos de capitais, da promíscua dança entre cargos no Governo e cargos nas empresas que sugam o Estado, o país onde num Ministério desaparecem documentos fundamentais para a investigação de algo que na Alemanha já foi julgado e considerado crime, a avisar os alemães que andam a ser enganados pelos seus políticos. Que tal cuidar de pôr ordem na sua própria casa, antes de inventar roupa suja na casa dos outros?)
Perdoe-me
senhora Merkel se entre uma e outra palavra deixei transparecer amargura em
excesso. É que não sou capaz de o esconder: o espetáculo de uns povos contra
outros é para mim insuportável,
(para os alemães também, e não percebem porque é que são alvo de tanto ódio, e porque lhes escrevem cartas como esta)
sobretudo quando afinal todos eles se debatem
com um problema que é comum – o da finança que governa com governos ao serviço
de 1% da população, como o seu e o nosso.
(A Alemanha não salva a Finança para ajudar esse 1% da população, mas porque sabe que se não ajudar a Finança é todo o povo que vai pagar um altíssimo preço - simultaneamente, muito tem feito para controlar mais essa Finança, sendo muitas vezes alvo das críticas dos parceiros, que a acusam de ir depressa demais (caso da proibição das vendas a descoberto logo a seguir à crise financeira de 2008, por exemplo); outro problema comum é que a incompetência e a corrupção de alguns governos europeus pode arrastar toda a Europa para o caos.)
À memória ocorrem-me tragédias
passadas que deviam ser impensáveis. Concordará comigo pelo menos num ponto: é
preciso evitar esses inomináveis regressos ao passado.
(E que tal falar do futuro que queremos construir juntos, em vez de - talvez eu esteja a interpretar mal, mas é o que me ocorre - vir fazer o jogo da má consciência?)
***
Se me deixassem ser porta-voz do povo português, a carta que eu traduzia para alemão era mais ou menos assim:
Excelentíssima Senhora Doutora Angela Merkel, Chanceler da Alemanha
(ou em Portugal as cartas agora começam-se assim tipo: "Senhora Esteves, Presidente da Assembleia da República"?)
Estamos à rasca. Precisamos da ajuda da Alemanha. Precisamos que as vossas empresas se instalem em Portugal para reduzir o nosso desemprego (não somos baratos como os chineses, mas estamos mais perto, e é do interesse de todos que não haja grandes disparidades no nível de desenvolvimento económico dos países europeus). Precisamos de empréstimos directos às nossas empresas, porque a falta de liquidez dos nossos bancos está a asfixiar a nossa economia. Precisamos que nos protejam dos nossos próprios políticos: enviem uma lista standard de apoios da Segurança Social abaixo da qual não se pode descer; enviem troikas (talvez escandinavas?) para passar a pente-fino e renegociar os contratos das PPP, para fiscalizar os processos das privatizações; enviem uma troika alemã para nos ajudar a reformar o nosso sistema de Justiça; enviem fotocópias dos documentos sobre o caso dos submarinos, porque os nossos desapareceram. Precisamos que nos protejam dos nossos próprios ricos: acabem com as diferenças fiscais europeias, que levam as empresas a criar sedes fiscais noutros países; ajudem-nos a criar um sistema eficaz de fuga aos impostos. E para já, imediatamente, precisamos de ajudas directas às nossas famílias mais pobres - os nossos pobres estão em situação desesperada.
Conhecemos a generosidade e o espírito de Justiça do povo alemão, e contamos com a vossa ajuda. Queremos construir convosco uma Europa mais sólida, mais equilibrada e sobretudo mais democrática.
(Carta escrita mais depressa que o pensamento. Faltam com certeza muitos outros aspectos. Fica aí como contra-proposta, para debate.)