22 novembro 2012

por outro lado...



Encontrei este vídeo no mural do facebook do Vítor Santos Lindegaard.
Grande gargalhada - grandes brincalhões!
Depois de rir, fui ler o link que o Vítor acrescentou para explicar o porquê deste filme.
Repasso:


WHY AFRICA FOR NORWAY?

Imagine if every person in Africa saw the “Africa for Norway” video and this was the only information they ever got about Norway. What would they think about Norway?
If we say Africa, what do you think about? Hunger, poverty, crime or AIDS? No wonder, because in fundraising campaigns and media that’s mainly what you hear about.
The pictures we usually see in fundraisers are of poor African children. Hunger and poverty is ugly, and it calls for action. But while these images can engage people in the short term, we are concerned that many people simply give up because it seems like nothing is getting better. Africa should not just be something that people either give to, or give up on.
The truth is that there are many positive developments in African countries, and we want these to become known. We need to change the simplistic explanations of problems in Africa. We need to educate ourselves on the complex issues and get more focus on how western countries have a negative impact on Africa’s development. If we want to address the problems the world is facing we need to do it based on knowledge and respect.

WHAT DO WE WANT?

  1. Fundraising should not be based on exploiting stereotypes.
    Most of us just get tired if all we see is sad pictures of what is happening in the world, instead of real changes.
  2. We want better information about what is going on in the world, in schools, in TV and media.
    We want to see more nuances. We want to know about positive developments in Africa and developing countries, not only about crises, poverty and AIDS. We need more attention on how western countries have a negative impact on developing countries.
  3. Media: Show respect.
    Media should become more ethical in their reporting. Would you print a photo of a starving white baby without permission? The same rules must apply when journalists are covering the rest of the world as it does when they are in their home country.
  4. Aid must be based on real needs, not “good” intentions.
    Aid is just one part of a bigger picture; we must have cooperation and investments, and change other structures that hold back development in poorer countries. Aid is not the only answer.


***

Vale a pena passear pelo site Radi-aid. Para além de muitas informações, tem momentos hilariantes. Como este artigo sobre uma criança fotografada para uma dessas campanhas de solidariedade, que depois de crescer processou a ONG que usou a sua fotografia sem permissão. O que até podia ser verdade...


20 novembro 2012

o melhor da vida é a própria vida



Com o passar dos anos, aprendemos a olhar para o essencial: a frase "o melhor da vida é a própria vida" vinha escrita num postal de aniversário que uma amiga me enviou - hehehe, eu tenho amigas que ainda usam o correio! - e não podia ser mais verdade.
(Lá estou eu outra vez: lapalissadas logo pela manhã.)

Num SMS, um amigo dizia-me: "sem DRESDENhar a tua escolha, preferia que estivéssemos no Wannsee".
O Wannsee, no ano passado. Uma festa de aniversário tão perfeita, que é melhor nem tentar repetir nos próximos anos. Mais vale partir ao encontro de outros mil lugares e maneiras de ser igualmente feliz. Como Dresden, este fim-de-semana. E já me falaram em Varsóvia, em Cracóvia. Espero que descubram o elixir da eterna juventude nos próximos anos, e pouco depois apareça a preços acessíveis no Aldi e no Lidl. Bem jeito me fazia, que estou a gostar muito deste tanto que é a minha vida. 

roubalheira perfeita

(não, não vou falar do governo português, nem nada disso)

Acabei de receber um e-mail de uma amiga (o endereço de e-mail era o dela) dizendo isto:

Hello, I hope this e-mail reaches well. Just to let you know that I'm presently in Philippines for a Conference but I'm in a serious fix; I was mugged and lost all my money & cards. I'm so glad I wasn't hurt.  Please, will you be able to help me with some cash(USD3500) or any amount you could afford to lend me. I'll definitely pay you back immediately I return back home next weekend.

I am really sorry for bothering you, but I would really appreciate your positive response and 'll forward you the transfer details upon your response.
Thank you in advance for your response.

Sincerely, 


XXX


Carregando em "responder", vi que a minha resposta seria enviada para um e-mail praticamente idêntico ao da minha amiga. Estes gatunos da internet estão cada vez mais requintados. Um dia destes ainda os convidam para elaborar orçamentos de Estado. 

(ai, afinal falei!)

ao piano: Gatmaninoff



(do facebook)

16 novembro 2012

Semperoper, Zwinger, Alte Meister, Frauenkirche, Residenzschloss...


O muro já caiu há 23 anos, eu já moro nesta região da Alemanha há 12 anos, e ainda não fui a Dresden?! Pois lá iremos este fim-de-semana.

(Queria treinar o Fox para atender os telefonemas na nossa ausência, mas ele foge aos saltos com o telefone na boca. Talvez seja melhor voltar ao plano A, um atendedor de chamadas: "boa tarde, daqui fala o papagaio...")

(foto)




oh, céus!


Yosemite, foto do Matthias, Dezembro 2011


Vista da casa da Christina na Bolívia, Novembro 2012

Tenho andado calada por aqui, e não é por falta de assunto, é por excesso de trabalho. Lá para meados da próxima semana as coisas vão ficar mais leves - espero! 

***

Hoje, no Governo Sombra, o Ricardo Araújo Pereira disse que eu disse que no Sony Center só há dois turistas (à hora a que o Marcelo queria passar o seu lindo filme). Maldita austeridade: anda tudo a cortar onde não deve! Eu disse "um punhado", e vai o Ricardo (será que está feito com o Gaspar?) e zás, "isso são gordurinhas da retórica, vamos acabar com elas que o país não tem dinheiro para tanto." E que sobrou, no fim? Dois turistas!
- Às tantas um chama-se Manel e o outro Joaquim. 

15 novembro 2012

mudam-se os tempos



O presidente da República Federal Alemã, Joachim Gauck, vive "amancebado" com uma jornalista - a Daniela Schadt. Ele está separado, mas não divorciado (imagino os motivos que terá, mas não vou escrever aqui especulações). Por estes dias, o casal "amancebado" esteve em Londres, e foi recebido pela rainha. Como se fosse perfeitamente normal. A única dificuldade é encontrar uma forma de tratamento digna para a companheira do presidente. Se se trata de casados, o protocolo não tem muito que pensar: "sua excelência, o presidente bla bla bla e a esposa". Neste caso tem sido "sua excelência, o presidente bla bla bla e a Frau Schadt". Talvez arranjem outra forma, talvez nos habituemos a esta. Mas o mais importante está aí: a amante - a amada - já não tem de ficar escondida nas traseiras da casa, longe dos olhares críticos da sociedade. Já ninguém se importa.
Volta, Christiane Vulpius, estás redimida.

**

A Christiane Vulpius viveu cerca de vinte anos com o Goethe sem serem casados. A casa onde moravam, no centro de Weimar, tinha duas alas, separadas por um pátio interior. Uma era virada para a rua, a outra para o jardim. A ala da frente era a parte representativa da casa; a de trás, inacessível ao mundo exterior, era reservada à família. Com as invasões francesas os acontecimentos precipitaram-se. Os franceses entraram pela cidade a saquear e violar, e a Christiane Vulpius soube proteger a casa em que viviam (em Weimar há variadas versões sobre este episódio. Eu gosto da minha: a Christiane Vulpius a abrir a porta do casarão, e a correr os franceses à bordoada verbal). Certo é que logo depois se celebrava o casamento dela com o famoso escritor, e Johanna Schopenhauer, a mãe do filósofo, a pedido de Goethe quebrava o cerco de hostilidades da cidade. Com uma frase que ficaria para a história, anunciou que a convidaria para o seu salão: "Se Herr Goethe lhe dá o nome, eu não posso negar-lhe uma chávena de chá".
Um chá como esmola.
Na longa história de humilhações infligidas às mulheres, o que mais choca é o papel tantas vezes desempenhado pelas próprias mulheres.

14 novembro 2012

o que será? que será?


Aqui jaz um pássaro cor-de-laranja, aquele que foi o primeiro brinquedo do Fox. E uma ratazana amorosa - provavelmente o último brinquedo do Matthias.

Junto à mesa onde trabalho, o Fox transforma o tapete num autêntico campo de batalha.
O Joachim olha para o desastre, e diz: "Fox, arruma!"
O Fox arrebita meia orelha, e nada. Será que é surdo?
Ou será que não entende português? Ou será que estamos perante um problema grave de autoridade?

13 novembro 2012

cabaneiro


Fiz esta fotografia enquanto esperávamos pelo Joachim, dentro do carro.
O cabaneiro do Fox estava à janela, a controlar o que se passava na rua (e eu atrás dele, toda torcida, a tentar fazer fotografias com o telemóvel).

O Matthias diz que já sabe o nome da cor do Fox: cor de Outono.

***

Fui consultar os dicionários: parece que só na minha aldeia é que se usa "cabaneiro" para dizer "coscuvilheiro". Por estas e por outras é que depois ninguém me entende...

"tratar dos assuntos de todos nós com outro rigor e transparência"

Comentário de um leitor, a propósito do post "praticamente metade dos 78 mil milhões de euros emprestados é para juros?":

Todos nós falamos imensamente da dívida publica portuguesa e dos respectivos juros. Fala-se de agiotismo e de muitas coisas mais. Todos nós especulamos, mas quase tudo não passa de pura especulação, pois a informação que nos chega é quase nada.

Como é possível, numa altura em que se pedem tantos sacrifícios aos portugueses e que se traduzem numa irracional subida de impostos, numa cascata de falências e num desemprego assustador, que não se publique uma listagem dos empréstimos existentes, a forma como estes estão titulados, identificação dos credores, montantes, prazos e datas de amortizações e taxas e montantes dos respectivos juros?

Da mesma maneira, como é possível que se diga diariamente que a Banca se financia junto do BCE a 1% e depois empreste esses capitais ao Estado Português a 5%, e que ninguém da Banca ou sobretudo do Estado, venha clarificar de uma forma transparente esta questão, já que a sensação que se cria é que existe o conluio entre governantes e banqueiros num processo descarado de agiotagem, em que a vítima são mais uma vez os cidadãos?

E isso faz-me lembrar também o silêncio à altura sobre as dezenas de PPPs constituídas para construir aquelas auto-estradas em que passa um carro a cada dez minutos, e em que a grande maioria dos portugueses imaginava que essas obras eram financiadas pela "riqueza" do Estado, e nunca através de pesadíssimas dívidas que sobrariam para si, para os seus filhos e possivelmente para os seus netos.

No fundo, o que eu estou a querer dizer, é que enquanto a nossa exigência enquanto cidadãos não obrigar Governantes e Imprensa a tratar dos assuntos de todos nós com outro rigor e transparência, tudo se passará como até aqui e nós seremos sempre defrontados com uma política de factos consumados e vitimas das armas de arremesso da partidocracia nacional que as utiliza sem qualquer pudor ou respeito pelos cidadãos.

yo te cielo


"¿se pueden inventar verbos? quiero decirte uno: yo te cielo, así mis alas se extienden enormes para amarte sin medida.

Siento que desde nuestro lugar de origen hemos estado juntos, que somos de las misma materia, de las mismas ondas, que llevamos dentro el mismo sentido. Tu ser entero, tu genio y tu humildad prodigiosas son incomparables y enriqueces la vida; dentro de tu mundo extraordinario,
 lo que yo te ofrezco es solamente una verdad más que tú recibes y que acariciará siempre lo más hondo de ti mismo. Gracias por recibirlo, gracias porque vives, porque ayer me dejaste tocar tu luz más íntima y porque dijiste con tu voz y tus ojos lo que yo esperaba toda mi vida".

Fragmento de una carta escrita por Frida Kahlo a Carlos Pellicer en noviembre de 1947. 

(encontrado no facebook de um amigo. Origem: Perota Chingo; vejam também Acción Poética - uma pequena mina de tesouros assim)

12 novembro 2012

momento ¡hola! neste blogue

La canciller alemana, Angela Merkel, ha visitado hoy una Lisboa que la recibió con protestas contra ella y contra las medidas de austeridad del gobierno conservador de Pedro Passos Coelho. La canciler llevaba una chaqueta beige, como la usada en Berlín, cuando recibió el primer ministro portugués. A pesar de tener muchas, no es la primera vez que Angela Merkel repite chaquetas, como se vio en su reciente visita a Grecia. El tiempo de otoño estaba muy agradable, y ella apareció muy optimista y sonriente.




ainda o vídeo do Marcelo Rebelo de Sousa

(foto: Paulo Almeida)

Custava alguma coisa fazer um scan da carta que recusa o uso deste espaço? Podíamos ler os motivos invocados, e ficávamos com as informações necessárias para aferir da justeza do título "Alemanha rejeita bla bla bla Portugal" e para saber se foram mesmo as "autoridades alemãs" ou se foi a administração do Sony Center.

Pensei mais dois tostões sobre este assunto, e:
- O Sony Center e a Potsdamer Platz são espaços construídos por alguns dos mais famosos arquitectos do mundo, e pretendem mostrar uma Alemanha moderna, vital, plena de glamour. Os brincalhões dos berlinenses chamam-lhe "little Manhattan", e não é por acaso que fizeram ali o "walk of fame". No princípio deste mês estenderam nesse chão um tapete vermelho para o Daniel Craig abrilhantar a première alemã do mais recente James Bond. Passar neste espaço público um filme que mais parece feito por diletantes da Coreia do Norte estraga o ambiente. É "unpassend".
- Também pode dar-se o caso de pura e simplesmente estar há muito decidido que naquele espaço não se passam filmes de conteúdo político.


***

Sobre o conteúdo do filme:
- Erro original: o filme é feito para desfazer a "imagem péssima que os alemães têm dos portugueses". Pois é, mas os alemães não têm uma "imagem péssima". Aquelas cenas do Carnaval e dos nossos emigrantes são um tiro em cheio a milhas da mouche. Se o Marcelo Rebelo de Sousa fosse o Guilherme Tell, não acertava nem na maçã nem no filho: vazava um olho à avó perdida no meio do público.
- A alfinetada do plano Marshall era perfeitamente desnecessária. Em 1974, esse plano já tinha passado à História. Em compensação, muito do esforço de desenvolvimento português dos últimos trinta anos foi financiado pela UE a fundo perdido. Se fizermos as contas, às tantas ainda vamos concluir que, per capita, os portugueses receberam muito mais da UE que os alemães receberam do plano Marshall.
- Alguns dos números apresentados no filme são muito pouco credíveis. Por exemplo: se a idade da reforma na Alemanha já ia nos 67 anos quando em Portugal ainda era 62, como é que chegam àqueles números? E as horas de trabalho semanais: onde foram buscar aquele valor para a Alemanha?
- Os submarinos alemães, ai, os submarinos alemães. Os empresários alemães, que pagaram luvas a alguém ligado ao governo português para conseguirem vender os seus submarinos, já foram julgados e condenados. E que aconteceu a quem recebeu as luvas, em Portugal? O que aconteceu ao ministro da tutela?
- Os gastos desnecessários de Portugal: os portugueses que decidiram fazer esses investimentos e assinaram esses contratos são todos menores de dezoito anos?
- Os estádios portugueses construídos por consórcios onde havia empresas alemãs: obrigado, igualmente. Até parece que não há consórcios com empresas portuguesas a ganhar dinheiro na Alemanha...
- O desequilíbrio no comércio externo: sim, é verdade - e tem de ser alterado.
- Sobre a antiga dívida externa da Alemanha: se Portugal entende que os povos têm de pagar as dívidas criadas por regimes ou sistemas já extintos, convém que detalhe um pouco mais: todos os povos, ou só o alemão? Dívidas criadas a partir de 1933, ou também as anteriores (por exemplo, desde o século XVIII)? É que assim sem pensar muito, ocorre-me um negócio de enviar moçambicanos para minas na África do Sul, com entrega de 1/3 do salário dessas pessoas, em forma de ouro, ao governo português - o que resultou num aumento, e grande, das reservas de ouro portuguesas. (Por favor, digam-me que isto não é verdade. Queria muito que isto não fosse verdade.)

***

Para terminar, comentário de um jovem alemão, que fez recentemente um trabalho sobre propaganda nos documentários do III Reich: "acho que já vi disto em algum lado..."

uma aposta na madrugada do dia 12 de Novembro


Aposto que a Angela Merkel vai levar um casaco amarelo torrado.
E vocês?

(Verde não pode ser, porque já levou à Grécia; vermelho também não, porque é a cor dos que querem dominar (v. gravatas nos debates eleitorais); cinzento é triste, preto é demasiado oficial.)

A pergunta do milhão é: com três ou quatro botões?


(foto

11 novembro 2012

Portugal, o melhor destino



Os chanceleres alemães só podem receber presentes num valor até 25 euros - ou talvez 50, já não me lembro bem. Esses chouricinhos, o vinho, o azeite, praticamente tudo, vão reverter para o Estado.
(Ah, pudesse eu chamar-me Estado, é que ia agora mesmo resolver esta questão a meu proveito)

até já

Fui levar um dos meus turistas ao aeroporto.
À despedida, eu disse: adeus.
Ele, artesão das palavras, disse: até já. 

Até já. Tão mais bonito.


***

Em Adenda, transcrevo uma mensagem que recebi de uma amiga, a propósito deste apontamento: 

O "até já" é muito usado em África. Começou por ser um jogo de palavras com o até Jah (Jah é o deus dos rastafaris, que por uma série de trocas e equívocos passou a ser associado a uma certa "resistência" cultural africana, a história da Babilónia/África ancestral de onde nos tiraram e para onde regressaremos, os nossos valores contra os da hegemonia europeia branca). Muitos escrevem precisamente com o H no fim; e outros fazem-no só com o duplo sentido, de ser uma palavra chave africana, e de nos voltarmos a ver em breve. Mas é assim uma espécie de código, para ver se o outro o sabe ler. Acho delicioso ver os até jás e até Jahs que pululam por todo o lado, como se dissessem: nos não somos os desgraçadinhos, temos muito orgulho de onde viemos e sabemos para onde vamos. 

"e tudo faremos para que a mensagem do filme chegue ao seu destinatário"


Este é o Sony Center ao fim de um dia frio. Podia ser às 19 horas do dia 11 de Novembro, véspera da visita da chanceler alemã a Portugal.

Imagino que o écran no qual o Marcelo Rebelo de Sousa queria passar um filme que "visa a realidade portuguesa atual e contém uma explicação dos sacrifícios a que os portugueses estão a ser sujeitos com a aplicação das medidas do memorando da troika" é esse que se vê do lado direito, em baixo - numa praça que em Novembro é gelada, e onde praticamente só há turistas.

Dando de barato que - ao contrário do que temo quando leio que o povo alemão "tem uma ideia péssima dos portugueses" - o filme estará bem feito, gostava de perguntar:
- Quanto custa o aluguer desse espaço? Quem paga?
- Qual foi a "autoridade alemã"que proibiu a sua projecção? Com base em que lei? (e é melhor não tecer comentários sobre a formulação do Expresso "A Alemanha recusou a divulgação no país do vídeo sobre Portugal")

O Marcelo Rebelo de Sousa podia ter preparado um filme informativo para oferecer às televisões alemãs, podia ter optado por divulgá-lo na internet, mas não: escolhe uma praça fria, a uma hora onde no máximo há um punhado de turistas a caminho do restaurante ou de algum espectáculo, para "fazer chegar a mensagem aos seus destinatários".

Não é por nada, mas quer-me parecer que os destinatários desta mensagem são os portugueses, e isto é um mero acto de campanha eleitoral. Sendo assim, ainda bem que lhe recusaram a projecção do filme: fez um brilharete perante os verdadeiros destinatários, e poupou o dinheiro do aluguer. Mission accomplished. 

(as aspas referem-se a este artigo do Expresso)

***

Adenda:
Entretanto o filme já está no youtube.


Segunda adenda:
Vejam o filme sem som. Era assim que ele ia ser visto no Sony Center - porque naquele espaço semi-aberto não há condições para se ouvir bem o som dos filmes que lá passam.
(O melhor é parar de fazer adendas - isto está cada vez pior.)

10 novembro 2012

10.11.12

10.11.12: mas que bela data.


Duas adendas ao meu post recente sobre o 9 de Novembro:

- Seguindo uma sugestão da Junta de Freguesia, ontem os nossos vizinhos encheram a rua de velas e rosas, lembrando os judeus que foram levados daqui para os campos de concentração. Uma vela para cada uma das trinta e cinco Stolpersteine (as placas no passeio que devolvem o nome e a história a essas pessoas).
Não fotografei, e agora não encontro fotografias na net. É pena, porque era muito bonito.
(Só encontrei uma foto de uma vela junto a uma Stolperstein, mas a vela devia ser de cemitério ou igreja: estava lindamente decorada com cruzes. Há gente que não pensa cinco tostões...)


(Foto: daqui)

- Na ZDF, a notícia da memória da queda do muro apareceu (aparece sempre) ligada à memória da noite do pogrom organizado pelo Estado contra os judeus. Todos os anos repetem a informação: os ataques de 9.11.1938 marcaram a passagem para uma nova fase da perseguição às pessoas. Nessa noite mataram mais de mil, e enviaram dez mil para campos de concentração. Foi há 74 anos, e marcou para sempre esta data, juntamente com a consciência da responsabilidade do povo alemão na ajuda aos mais frágeis. Como os refugiados da Síria, por exemplo, dizia o apresentador, passando para a reportagem: numa localidade da antiga RDA, mais de duzentos neonazis fizeram uma manifestação contra um centro de refugiados estrangeiros. Não foram longe, porque grupos de esquerda se sentaram no chão horas e horas, bloqueando as ruas por onde eles queriam passar. Horas e horas sentados no chão, com este frio: grandes! Em entrevista, uma professora dizia que nas últimas semanas receberam alunos novos, "crianças amorosas que queremos proteger". Também mostravam uma senhora já de certa idade que teve de mudar de casa porque a cidade decidiu destinar o seu prédio aos refugiados. Ocupa-se voluntariamente das crianças filhas de sírios, afegãos e africanos - quer que elas se sintam acolhidas. "A princípio foi um choque, quando me disseram que tinha de sair imediatamente da casa. Mas depois caí em mim: estas pessoas têm uma história terrível, temos de ajudar. Ficaria de mal comigo se não as ajudasse." Os refugiados não percebem que alguém tenha inveja deles. Mas, entre os habitantes da pequena cidade, onde há muito desemprego e poucas perspectivas de um futuro risonho, há quem se deixe seduzir pelas ideias da extrema-direita: "Nós não temos nada, e estes chegam aqui e dão-lhes tudo. Até apartamentos!"
Podem ver a reportagem aqui, carregando no marcador "Wolgast und die Asylanten"

(Foto: daqui)

No mesmo dia, alguém arrancou todas as Stolpersteine de uma localidade vizinha.

Tudo isto é vergonhoso e triste, mas pelo menos tem uma vantagem: com tanta manifestação e contramanifestação, tanta discussão e tantos actos criminosos, não é possível adormecer sobre a História.

09 novembro 2012

"praticamente metade dos 78 mil milhões emprestados é para juros"?

Gaspar dixit: Portugal recebe da UE e do FMI 78 mil milhões de euros, e vai ter de pagar 34,4 mil milhões em juros.
Conclusão que se tira? Ai! Grandes agiotas, esses amigos da troika!

Bom, isso é para quem não tem noções básicas de matemática financeira. Eu já me esqueci de praticamente tudo, mas estive a fazer umas continhas. Parece-me que estamos a falar de juros acumulados por um processo de capitalização composta, ou seja: recebemos o dinheiro hoje, mas só reembolsamos esse dinheiro e pagamos os respectivos juros no fim do período do empréstimo. Os juros anuais não pagos vão-se somando à dívida, e teremos de pagar juros também sobre eles. Juros de juros. Se pagássemos os juros todos os meses, como é mais normal, obviamente o montante total do custo do empréstimo era muito menor.

Contudo, esses 112,4 mil milhões de euros que pagaremos daqui a 11 anos (estou a simplificar um bocadinho) não são equivalentes a pagar 112,4 mil milhões de euros hoje. (Olha, olha: Bonjour, Monsieur de la Palisse, avec qu'alors par ici?) (gostava de ter sido eu a inventar esta gracinha, mas não fui)

Os 112,4 mil milhões de euros que teremos de pagar daqui a 11 anos correspondem hoje a:
- 90,4 mil milhões de euros, com uma taxa de inflação de 2%. Descontando os 78 do capital emprestado, sobram 12,4 mil milhões de euros - os juros totais pagos, a preços de hoje
- 85,67, com uma taxa de inflação de 2,5%  - o que dá um total de 7,67 mil milhões de euros para juros.

OK, concedo que 7,7 mil milhões de euros pagos em juros ainda é muito dinheiro. Mas está muito longe de ser o que se anda a apregoar por aí: que os agiotas da troika nos roubam em juros praticamente metade do que emprestam.

Outra coisa: aquela frase "eles recebem dinheiro a juro negativo, para nos emprestar a juros agiotas" também não é muito exacta. Os empréstimos a fundo negativo que a Alemanha tem andado a receber são para prazos extremamente curtos. Ninguém está a emprestar à Alemanha com taxa zero a dez ou onze anos.

(Os jornalistas e a oposição não sabem fazer contas? Anda aqui meio mundo a enganar o outro meio?)

(O Gaspar não soube explicar isto ao povo, ou alguém optou por não passar a mensagem? É que se ele não se lembrou de explicar isto, parece-me que precisa de uma assessora. Eu, infelizmente, já lá vai o tempo em que era uma promissora jovem de vinte e poucos anos, mas também me dava por satisfeita com um salário um pouco mais baixo que o dos jovens génios que andam a assessorar o governo...)

9 de Novembro - e o muro que não cai



Como todos os anos neste dia, alguém terá vindo pôr flores na placa que lembra a sinagoga incendiada, aqui perto de casa. O que este país gasta e gastará em flores no dia 9 de Novembro...
(O Holocausto e  as centrais nucleares têm isso em comum: séculos depois de terem passado à História, ainda darão trabalho a muita gente.)  

*

Há 23 anos e 3 dias cheguei à Alemanha. Era uma segunda-feira. Na quinta-feira, quando o muro caiu, estava sentada no sofá dos meus sogros - eles de mão dada, a chorar, eu sem perceber quase nada. Na televisão, o que mais se via era bananas. E Trabis que passavam, e pessoas a chorar e a rir ao mesmo tempo. Só muito depois comecei a dar-me conta de como era esse mundo, tão outro, de onde vinham.

Depois veio a euforia, as imagens (se tiverem seis minutos,vejam este filme, é um belo resumo desses dias).

Há tempos, num táxi, tive uma conversa muito interessante com o motorista, que falava no dialecto berlinense. Disse-lhe para onde queria ir, e ele recitou o encadeamento de ruas que nos levaria a esse destino.
- Vejo que não é principiante nesta profissão...
- Pode crer! Já fazia isto no tempo do muro. Era mais fácil. Uma pessoa sabia logo: esta rua, por exemplo, Hohenzollerndamm, a seguir vem a Clayallee, depois a Potsdamer Chaussee, a Königsstrasse, a fronteira. Quando o muro caiu, tive de aprender as ruas todas do outro lado. Ruas com nomes lá dos políticos deles, comunistas, socialistas, gente que eu não conhecia. Depois mudaram os nomes, as ruas voltaram a chamar-se como antes da RDA. Tive de aprender tudo de novo. E aprendi! Outro dia, uma senhora disse-me: quero ir para a Cecilienstrasse, em Marzahn. E eu: ah, a antiga Albert-Norden-Strasse! E ela: você é um dos nossos?
Veja-me lá isto: só porque eu sabia o nome da rua quando tinha o nome de um daqueles políticos da RDA, ela pergunta-me se sou "um dos nossos"! "Um dos nossos"! Por pouco não me caiu o volante das mãos. Então, quase um quarto de século depois da queda do muro, ainda se diz "um dos nossos"?!

a ver se acabo com alguns mal-entendidos


A propósito de um comentário no post finalmente uma carta que me apetece assinar!:
reconheço que há bastante violência no modo como tenho comentado as cartas à Angela Merkel, que é sobretudo fruto do tom insultuoso das mesmas. Para insulto, insulto e meio...?

Talvez pareça que eu penso que a Merkel tem toda a razão e que a austeridade é o deserto que temos de atravessar para nos salvarmos. Não é. O que eu tenho andado a escrever é sobretudo uma reacção aos excessos retóricos de alguns portugueses.

Para evitar mais mal-entendidos, e sinteticamente:
penso que Portugal cometeu excessos graves (se me lembro que, na altura em que as PPPs começaram a rebentar nas mãos dos contribuintes, ainda queriam construir um TGV e um aeroporto - quando os limites de endividamento acordados em Maastricht já estavam largamente ultrapassados!), que tem um problema de corrupção e promiscuidade entre o Estado e as empresas, problemas com a Justiça e a Comunicação Social, e que - last but not least! - a economia tem problemas estruturais complicados que urge resolver. Penso que o Estado tem de reduzir a sua dívida, mas esse processo deve ser muito mais lento e controlado, e respeitando sempre os critérios básicos de um Estado Social. Penso que é preciso repensar a economia, que para isso precisamos da ajuda da UE (nomeadamente um esforço comum de melhoria do tecido produtivo da União, para que se torne mais homogéneo), e que o futuro da Europa não passa, de modo algum, por ter países que tentam competir com a China ao nível dos custos da mão-de-obra. Penso que o euro é um erro terrível, mas está feito e agora há que construir a partir daqui, porque as alternativas, no contexto actual, são ainda piores: se a Alemanha sair do euro, os outros países ricos não vão querer ficar; se se criar um euro-norte, nenhum país vai querer ficar no euro-sul; se a Grécia e Portugal saírem do euro, vão ficar em muito maus lençóis - os outros países também, aliás). Penso que a Europa está num ponto de viragem muito difícil, porque o caminho necessário é o federal, mas os povos estão a refugiar-se no nacionalismo. Irrita-me que, perante problemas tão grandes, os portugueses entrem numa dinâmica simplista que culmina na frase "vem aí a gorda!"  (excelente povo: além de saber agonizar de pé, ainda tem força para trocar as exigências da realidade por uma piadinha de mau gosto) (ai! descaí-me outra vez!)

Posto isto, volto ao comentário que deu origem a este post, no qual se dizia que a minha diferença de perspectiva deriva naturalmente do facto de viver na Alemanha. É, com certeza: por um lado, tenho acesso aos debates que aqui se fazem sobre esses temas. Por outro lado, por conhecer este povo, sou mais sensível e reajo muito às palermices que em Portugal se dizem sobre os alemães e a sua Merkel.

Mas também conheço muitas pessoas que vivem em Portugal e pensam da mesma maneira que eu - ou bem pior. Alguns exemplos do que ouvi no Verão passado:
- Numa aldeia do Douro, uma mulher com um ordenado muito baixo dizia-me que ainda bem que o Governo estava a acabar com o rendimento social de inserção, porque ela irritava-se muito por ter de trabalhar tanto para se sustentar, e ver ao mesmo tempo o espertalhão do vizinho a passar os dias no café, por conta do RSI.
- No Minho, um empresário dizia-me que todas as semanas lhe apareciam desempregados a pedir que assinasse o papel a provar que eles tinham ido lá pedir emprego. Só quando o período em que têm direito a subsídio de desemprego se está a acabar é que se começam realmente a esforçar por arranjar trabalho.
- Um desabafo de uma amiga, ao passar numa das milhentas rotundas com "obras de arte" no meio: pelo menos a crise teve a vantagem de me acordar. Agora olho para isto e penso: "está aqui o meu rico dinheirinho!" Dantes, achava que era feito com o dinheiro dos outros, e não me preocupava.


08 novembro 2012

notícia no Spiegel sobre a carta aberta de intelectuais e artistas portugueses

O Spiegel traz uma notícia sobre as manifestações da próxima segunda-feira e a carta aberta de alguns intelectuais e artistas portugueses. 
Como se não tivesse mais nada para fazer, traduzo num instantinho (num instantinho, OK? quer dizer: sem tempo para virar cada uma das palavras do avesso, para ter a certeza absoluta que corresponde inteiramente à intenção do autor. Portanto: se se irritarem com alguma coisa, perguntem-me a mim se não terá sido erro de tradução, antes de concluirem que os alemães são todos uns nazis...):

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Carta para Merkel

"Persona non grata em Portugal" 



Protesto em Lisboa: anunciadas manifestações contra Merkel

Em Portugal, país que está a sofrer a crise do euro, cresce a resistência à visita anunciada da chanceler Merkel. Alguns dias antes da sua viagem, mais de cem intelectuais e artistas do país publicaram uma carta aberta na qual declaram que ela não é bem-vinda.

Lisboa - A visita que na próxima semana Angela Merkel fará a Portugal não ficará, provavelmente, entre as melhores recordações do seu mandato. A chanceler alemã vai ser recebida em Lisboa, na próxima segunda-feira. Vai-se encontrar com Pedro Passos Coelho, o primeiro-ministro do país que tem sido severamente atingido pela crise. Também está prevista uma reunião com o presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. Além disso quer visitar uma fábrica da VW, perto da capital portuguesa.

Cinco dias antes da sua viagem, mais de cem intelectuais e artistas do país declararam-na "persona non grata". "Devido ao carácter da visita anunciada, e tendo em conta a catastrófica situação social e económica de Portugal, sublinhamos que não é aqui bem-vinda", diz-se na carta aberta a Merkel, que foi publicada na internet na quarta-feira passada.

A carta foi assinada por Alice Vieira, uma escritora de literatura infantil também conhecida na Alemanha, pelo realizador António Pedro Vasconcelos, e outras personalidades famosas. Descrevem Merkel como "principal promotora da doutrina neoliberal que está a arruinar a Europa". Estão a ser preparadas manifestações anti-Merkel para a próxima segunda-feira, quer pela CGTP, quer pela influente iniciativa no facebook "Que se lixe a troika (de onde vem o dinheiro)". Dois dias depois da visita, a CGTP organiza no país mais pobre da Europa ocidental uma greve geral contra a política de poupança do governo de centro-direita de Pedro Passos Coelho. Em 2011, o país em crise recebeu um pacote de ajuda de 78 mil milhões de euros da troika (fundos da UE, do BCE e do FMI). Em troca, pretende-se que até 2014 o défice baixe para o nível definido pela UE como limite máximo - 3% do PIB. Como consequência das medidas de poupança, o PIB português vai baixar pelo menos 3% em 2012, segundo estimativas governamentais; a taxa de desemprego já atingiu o valor record de 15,9%.

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Com uma palavrinha apenas, sintetiza o que eu tentei explicar há meses, a propósito da má escolha do nome "que se lixe a troika". Escrevem "Zum Teufel mit der (Gelgeber-)Troika" = "Que se lixe a troika (de onde vem o dinheiro)". Não é preciso dizer mais nada. Um pequeno toque mordaz, e todo este movimento, que é legítimo e fundamental, é arrumado na gaveta errada.

"se não nos unirmos agora..."


Esta fotografia, que trouxe do Entre as Brumas da Memória, lembra-me um episódio do princípio dos anos trinta, na Alemanha: Ernst Thälmann, chefe do partido comunista, terá dito aos socialistas (mas não encontro a citação na internet): "se não formos capaz de nos dar agora as mãos, antes das eleições, acabaremos depois a dá-las nos campos de concentração".
Porque é que estes países não foram capazes de falar uns com os outros e de se unir há dez anos, quando perceberam que o Euro lhes iria asfixiar a economia? Porque é que não pensaram nessa altura numa maneira de resolver o problema, porque é que não foram falar com a UE para alertar a comunidade para este problema, para mudar as políticas comuns?
Ou só se aperceberam do problema do Euro quando os mercados deixaram de lhes emprestar dinheiro barato?
Por outras palavras: o que é que os governantes e os responsáveis destes países andaram a fazer durante dez anos?

Já é tarde para voltar atrás, e recomeçar tudo de novo. Mas que fique o aviso: a Europa precisa de governantes atentos ao seu país e ao dos outros, capazes de identificar atempadamente os problemas e de debater com os parceiros maneiras de os resolver. Por isso mesmo me apetece insultar o Passos Coelho por ter faltado ao encontro com os representantes da Itália, da Grécia e da Espanha. Em vez de um primeiro-ministro, temos um marçano da troika!  

Berlim em português

Ontem foi "Capitães da Areia", na Casa das Culturas do Mundo. O filme nunca mais começava, porque tem os créditos todos no início, e parece que todas as instituições de além e aquém-mar queriam contribuir, até a RTP (não sei porquê, a sala rebentou a rir quando apareceu o logotipo da RTP - espero que tenha sido apenas coincidência, e não os brasileiros a rir dos portugueses. Sim, que desde que me aconteceu de levar um jovem brasileiro ao hospital, e ter ficado por ali a ver se o consertavam como deve ser, e ter ouvido em troca o agradecimento mais estranho da minha vida - "Nossa, Helena, você é tão legal! Eu não fazia a menor idéia que os portugueses são assim..." - desde então fiquei um bocadinho na dúvida se os portugueses não serão os alentejanos-alemães dos brasileiros.)
O filme foi bom, e no fim serviram caipirinhas. Queríamos sair rapidamente, para o Joachim ver o jogo de futebol que estava quase a começar, mas acabámos por ficar por ali, a beber e a experimentar os sofás e cadeirões anos 60 que estavam espalhados pelo foyer, e quando chegámos a casa o Matthias avisou o Joachim que tinha perdido cinco golos em meia hora, pelo que aquela caipirinha gratuita acabou por sair bem cara.




Hoje é dia de "Oxalá Cresçam Pitangas". Seguido de conversa com o Ondjaki. E talvez sirvam até bebidas angolanas (lá estaremos para bever).

Esta Berlim em português anda-me a atrasar a vidinha: o monte de roupa para passar a ferro está quase a poder ir juntar-se à cadeia do Himalaia.

07 novembro 2012

finalmente, uma carta que me apetece assinar!


Um desafio à Chanceler Merkel

Exmª Srª Chanceler Merkel, Escrevemos-lhe em antecipação à sua visita oficial a Portugal no próximo dia 12 de Novembro. No programa dessa visita há uma oportunidade perdida: a Srª Chanceler vai falar com quem já concorda com as suas políticas. E mais ninguém. Julgamos poder afirmar que a maioria dos portugueses discorda das suas políticas e poderia ter consigo uma conversa honesta e para si instrutiva acerca do que se está a passar no nosso País e na Europa. Uma das primeiras coisas que lhe poderíamos explicar é como Portugal perdeu, só no último ano, 22 mil milhões de euros em depósitos bancários — mais do que aquilo que agora é obrigado a cortar em despesas sociais. Mas há mais: em transferências de capitais, Portugal perdeu pelo menos 70 mil milhões de euros desde o início da crise. Se este número faz lembrar alguma coisa é porque ele é praticamente igual ao montante do resgate ao nosso país. O que isto significa é que a insolvência de Portugal é, em primeiro lugar, o resultado das insuficiências das lideranças europeias e de gravíssimos defeitos na construção da moeda única. Portugal tinha à partida problemas e insuficiências. Os cidadãos portugueses sabem disso melhor do que ninguém. É por isso que lhe podemos dizer: as políticas atuais agravam os nossos problemas e impedem-nos de os resolver. Quanto mais prolongadas estas medidas de austeridade forem, mais irreversíveis serão os seus efeitos negativos. É por saberem isso, por verem isso no seu quotidiano, que os portugueses estão angustiados e indignados. Talvez no seu breve percurso por Portugal possa ver que muitos de nós pusemos panos negros nas nossas janelas. A razão é muito simples: estamos de luto. Estamos de luto pelo nosso País. A Srª Chanceler virá entregar a cem jovens portugueses bolsas de estudo na Alemanha. Deveria saber a Srª Chanceler que os portugueses vêem como uma tragédia que a nossa juventude, a geração mais formada da nossa história, em que tanto investimos e de que tanto orgulho temos, esteja a abandonar em massa o nosso país por causa das políticas que a Srª Chanceler foi impondo. Esta sua ação é vista como mais um incentivo para a fuga de cérebros, de que tanto precisamos para a reconstrução do nosso país. A maioria dos portugueses não entende como é possível que não se procure criar condições para que os milhares de jovens licenciados que fogem de Portugal todos os anos queiram voltar para ficar. Tal como também se vive aqui como uma provocação a Srª Chanceler vir acompanhada de empresários alemães, com o propósito de fazerem negócios proveitosos para o seu país, mas desastrosos para o nosso que vê todos os dias nas notícias o seu património a ser privatizado para lucro de todos menos do povo português. E estamos de luto também pela Europa. O grau de distanciamento e recriminação entre os povos e os países da União é estarrecedor, tendo em conta a trágica história do nosso continente. Desafiamo-la a reconhecer, Srª Chanceler, que cometeu um grave erro ao ter recorrido a generalizações enganadoras sobre os povos do Sul da Europa — ao mesmo tempo que condenamos as expressões de sentimento anti-alemão que mancham o discurso público, onde quer que apareçam. As nossas nações europeias, todas elas históricas, são diversas entre si mas iguais em dignidade. Todas devem ser respeitadas e todas têm um papel a desempenhar na União. Cara Srª Chanceler, esta loucura deve parar. A Europa volta a estar dividida ao meio, não por uma cortina de ferro, mas por uma cortina de incompreensão, de inflexibilidade e de irrazoabilidade. Estamos disponíveis, enquanto seus concidadãos europeus, a abrir um verdadeiro debate transparente e participado sobre a saída desta crise e o nosso futuro comum, para que possamos fazer na nossa Europa uma União mais democrática, mais responsável, mais fraterna — e com mais futuro. Mude o programa da sua visita a Portugal. Fale com quem não concorda consigo. Use esta visita como um momento de aprendizagem. Use a aprendizagem para mudar de rumo. Com os nossos cordiais cumprimentos, (Redactores/primeiros signatários:) Rui Tavares Viriato Soromenho Marques André Barata Elísio Estanque José Vítor Malheiros Nuno Artur Silva Ana Benavente Marta Loja Neves José Reis Ana Matos Pires André Teodósio Ricardo Alves Patrícia Cunha e França Geiziely Glícia Fernandes Vera Tavares António Loja Neves Ricardo Alves Paula Gil João MacDonald Evalina Dias Miguel Real

*** Para assinar, usar este link. (Só tenho um reparo: essa história dos empresários. Ainda agora estava eu a dizer que era fundamental que a Europa rica deslocasse parte da sua produção para os países do Sul, para se criar uma rede produtiva europeia mais equilibrada, e agora vou assinar uma carta onde lhe é dito para deixar ficar os empresários em casa? Vou pensar mais um bocadinho - e entretanto, alguém faça o favor de me dizer se estes empresários trazem para cá projectos, ou vêm aos saldos, ou vêm ao preço justo.) PS. A carta é para assinar até sexta-feira, às 11:00.

também não vou traduzir este texto, mas em compensação deixo-vos um já traduzido para alemão, que é muito melhor

É fundamental que, no dia em que a Angela Merkel vai a Portugal, os portugueses se manifestem, saiam à rua aos milhares. Mas, infelizmente, o texto e a fotografia que convocam para a manifestação Que se lixe a Troika! A Merkel não manda aqui! são de novo um tiro pela culatra.




Dia 12 de Novembro, Angela Merkel vem a Portugal.

E Angela Merkel representa a Europa da austeridade, a Europa nas mãos do poder financeiro, a Europa dos directórios, do poder político não sufragado, a Europa cada vez mais sujeita a instâncias internacionais que promovem a destruição das nossas economias e sociedades. Angela Merkel é uma das figuras de proa da ideologia que nos impõe a pobreza, o desemprego, a precariedade e a destruição do estado social, tendo a troika e os governos troikistas como armas.


Não admitimos que outros decidam por nós. Não aceitamos que os nossos governos aceitem que nos destruam a todos para favorecer alguns. Recusamos em absoluto que as decisões sejam tomadas por quem não elegemos, mesmo quando quem elegemos se submete de bom grado a decisões que, pura e simplesmente, nos destroem.

Angela Merkel simboliza tudo isto. Por isso, queremos deixar muito claro que não manda aqui. Nunca votámos nela. Recusamos a austeridade que quer impor à Europa, como rejeitamos os governos que a aceitam.

Por tudo isto, vamos dizer-lhe, muito claramente: Fora Daqui!


Saindo do Largo do Calvário às 13h, seguiremos até Belém onde expressaremos claramente que a Merkel Não Manda Aqui!

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Se este texto fosse traduzido para alemão e chegasse às mãos dos leitores do Bildzeitung (uma simplificação), a reacção podia ser mais ou menos esta:

A Angela Merkel representa a Europa da austeridade. Pois sim - e há outra Europa?! Que países estão dispostos a ajudar Portugal com empréstimos a juros de 1% ou até sem juros, e sem impor condições?
Se ela é a figura de proa das ideologias que impõem a pobreza a Portugal, tentem arranjar na Europa a figura de proa das ideologias que conseguem tirar Portugal da crise preservando ao mesmo tempo o nível de vida que o país tem tido... Boa sorte para a vossa busca! 
Pois, primeiro pedem emprestado e gastam como se não houvesse amanhã nem tivessem assinado tratados onde isso era expressamente proibido (e onde se estabelece que cada país se responsabiliza pela sua dívida, e não há bail-outs para ninguém), depois vêm-nos pedir ajuda, e no fim ainda insultam a nossa Chanceler. 
 Se não gostam do que a Angela Merkel impõe, se a querem fora do país, pois cancelem a viagem, arranjem outra solução, outros aliados, e tratem de resolver os seus problemas da maneira que acharem ser a mais conveniente para eles. 
Era um favor que nos faziam, que também não gostamos nada de ver a nossa Chanceler a meter dinheiro dos contribuintes alemães nesse saco sem fundo que são os programas para tentar salvar o euro. Mais valia saírem de uma vez (ou voltarmos nós ao nosso querido marco), por muito dinheiro que nos custasse. Mais vale um fim com susto que um susto sem fim. 

Isto seria a retórica tipo Bildzeitung. A retórica dos leitores do Die Zeit seria mais do género:

Temos de ter paciência, perceber que eles estão a passar enormes dificuldades e por isso escolhem mal as palavras; mas não podemos desistir de levar a Europa e o Euro a bom porto, tanto mais que, por muitos erros que esses países tenham feito, a Alemanha tem uma responsabilidade histórica que não pode alienar. Contudo, não basta exigir rigor de contas aos nossos parceiros - é também necessário mudar algumas das premissas da política actual. 

Eu diria que, se a nossa intenção é resolver os problemas e não pormos os outros contra nós, melhor seria não provocar o pessoal tipo Bildzeitung (cujo voto vale tanto como qualquer outro) e tentar apelar ao pessoal tipo Die Zeit.

E por falar em Die Zeit, encontrei nesse jornal um texto, traduzido do francês, que diz tudo o que o povo português podia dizer à Angela Merkel - preto no branco, sem emoções nem insultos. Está aqui em alemão. E traduzo (rapidinho, rapidinho) para português:




A austeridade está a arruinar-nos a todos

A política alemã conduz a Europa à catástrofe
Second-Hand-Läden in Lissabon
Second-Hand em Lisboa
© Rafael Marchante/Reuters

A opinião pública alemã exige uma rigorosa disciplina orçamental dos outros países europeus. O que é muito compreensível. A República Federal Alemã fez ao longo de dez anos reformas muito dolorosas, que puseram em causa conquistas sociais e provocaram perdas de rendimento para uma parte importante da população. E, de facto, depois deste esforço espectacular, a economia alemã voltou a ganhar força. As finanças melhoraram, a taxa de desemprego baixou.

Perante o sucesso para o qual tão arduamente trabalharam, os alemães não compreendem porque é preciso agora subvencionar países que se recusaram a desenvolver esforços semelhantes, e em vez disso optaram pelo caminho mais fácil: o da dívida. Começaram a olhar com muita desconfiança para o Sul e as suas exigências, que, segundo temem, poderiam pôr em risco a estabilidade monetária na Europa. Também se lembram perfeitamente das promessas feitas alegremente por certos dirigentes europeus nas cimeiras da UE: mal os representantes dos países regressaram a casa, tudo ficou esquecido.

No entanto, esta atitude - compreensível, racional e lógica -, conduz-nos em linha recta à catástrofe. 

A política de poupança praticada na Europa tem um efeito destruidor. Executada de modo simultâneo - e muitas vezes brutal - está a asfixiar a procura em todo o continente. A actividade económica está a soçobrar, o número das falências aumenta, os lucros diminuem, e ao mesmo tempo a taxa de desemprego está a aumentar: em alguns países, já atinge mais de 20% da população. Em alguns países do Sul, metade dos jovens em idade de trabalhar não conseguem arranjar emprego. A paralisia económica reduz, por seu lado, as receitas de impostos e contribuições para a Segurança Social. E isto acontece numa dimensão tal que a política de poupança tem como resultado o efeito contrário do que pretendia: em vez de reduzir os défices, aumenta-os.

O exemplo mais óbvio para o efeito perverso da austeridade é dado por Portugal. Depois de ter executado com todo o zelo as sugestões europeias, mesmo as mais dolorosas, o governo em Lisboa viu-se obrigado a ver o seu défice aumentar e o seu endividamento atingir uma dimensão assustadora.

Por outras palavras: a política de austeridade é uma cura que corre o risco de matar os pacientes.

A recessão, que se começou a estender ao continente, vai ter também consequências políticas. Já agora se assiste a um afastamento dos povos das políticas que, na sua opinião, lhes é imposta por Bruxelas ou Berlim. É sabido que o pacto fiscal actualmente em discussão, que exige dos seus subscritores um "travão ao endividamento" e prevê mecanismos europeus de controle para garantir a disciplina orçamental, seria rejeitado em vários países se tivesse de ser aprovado em referendo, em vez de ser aprovado no Parlamento. Nestes tempos de crise, talvez os antieuropeístas estejam em maioria. Partidos extremistas ganham novo alento. Na França, a Frente Nacional chegou aos 20% nas eleições mais recentes, e a extrema-esquerda aos 10%; um terço da população francesa rejeita radicalmente o sistema europeu na sua forma actual. Fenómenos semelhantes acontecem em numerosos países da UE.

Por isso, os alemães vêem-se perante uma ameaça dupla. Em primeiro lugar, a sua economia, que depende das exportações para o espaço europeu, está directamente ameaçada pela recessão europeia. Por conseguinte, ao impor uma política de austeridade a países europeus gastadores, a RFA está a castigar-se a si própria. Uma Alemanha de sucesso no meio de uma Europa arruinada? Impossível. Em segundo lugar, também há uma ameaça política. A existência do Euro seria posta em causa se se tornasse, para os povos do Sul, um símbolo de dor e sacrifícios sociais; o crescimento de partidos nacionalistas iria então pôr em risco a união política que com tanto esforço tem vindo a ser construída por várias gerações de europeus, nomeadamente franceses e alemães. 

Mas há uma saída para este labirinto complicado. A Europa pode e tem de reagir à recessão:  a política de crescimento é a nossa maior urgência, mais que a política de poupança. Não que se possa prescindir de uma política orçamental séria, nada disso: é preciso restabelecer a confiança dos mercados nos governos europeus. Mas é necessária uma poderosa política conjuntural, e está nas mãos de Bruxelas tomar essa iniciativa. Só uma actuação imediata e conjunta, a nível continental, pode evitar uma recessão drástica que arruinará a Europa.

Como é que isso pode ser pago? Com créditos do Banco Central para a UE, e não apenas para os bancos. Afinal de contas, numa economia em recessão não há o risco da inflação. Chegou a hora de o Banco Central Europeu assumir a sua responsabilidade na promoção do crescimento, tal como todos os outros Bancos Centrais fazem - e também como o Mario Draghi começou a fazer, ao comprar no mercado secundário títulos da dívida pública dos Estados afectados. Uma tal política de expansão monetária, naturalmente dirigida e controlada, é a bóia de salvação para o continente ameaçado por uma crise semelhante à de 1929. Teremos de abrir mão de certos dogmas para isso? Necessariamente. Problemas extraordinários não podem ser resolvidos com os meios habituais. 
LAURENT JOFFRIN,
nascido em 1952, é Chefe de Redacção da revista semanal Le Nouvel Observateur e autor de vários romances e ensaios.


publicidade, saber e arte

Costumo irritar-me quando me impingem publicidade no youtube antes de me deixarem ver o filme que quero, mas hoje, excepcionalmente, fiquei rendida ao que via:



Lembrei-me de um post antigo no Imagens com Texto: Portugal visto por El Corte Inglés (de onde roubei a fotografia).


E como as imagens são como as cerejas, e o que não falta no blogue do jj.amarante são imagens que nos transportam para mundos extraordinários, aqui vai mais uma, mencionada na caixa de comentários do seu post,


e o original que a inspirou, já agora.


(as duas fotos são daqui)

Fascinante.


06 novembro 2012

porque é que não vou traduzir para alemão a carta do José Maria Castro Caldas

Não vou traduzir a carta à Alemanha porque me parece que o diálogo com os alemães tem de ser feito a partir de um olhar sobre nós próprios e não sobre eles, e muito menos um olhar ignorante e envenenado sobre eles, e também porque esta mensagem, lida pelos alemães, é um grande tiro pela culatra. Ora vejam:


Senhora  Merkel, Chanceler da Alemanha

Venho pedir-lhe, por ocasião da visita que em breve nos fará, para levar consigo na partida uma breve mensagem aos seus concidadãos. Eis o que gostava que lhes transmitisse:

(Pedir à chanceler que leve ao seu povo uma mensagem na qual se afirma que os políticos alemães andam a enganar e a omitir informações ao seu povo é um excelente exemplo de diálogo construtivo. Começa da melhor maneira possível, e garante que a chanceler e os alemães leiam esta mensagem com uma empatia crescente e uma enorme vontade de resolver os problemas num ambiente de mútuo respeito e consideração.) 

Sabemos que na década passada os vossos governos vos disseram que tinham de abrir mão de parte dos salários para preservar o futuro do vosso Estado Social. Disseram-vos, e vocês acreditaram, que se prescindissem de uma pequena parte do rendimento presente vos tornaríeis “mais competitivos” e que, dessa forma, o vosso país poderia obter uma poupança capaz de sustentar as vossas pensões e os direitos sociais dos vossos filhos no futuro.
(Cuidado com as confusões: ninguém disse aos alemães que era preciso abrir mão de parte dos salários para preservar o Estado Social. Foi dito que (a) era preciso abrir mão de parte dos salários para tornar os produtos alemães mais competitivos, e que (b) era preciso reformar o sistema de Segurança Social para, no futuro, conseguir garantir um mínimo digno para todos - são questões muito distintas. A referência à Segurança Social nesta mensagem é particularmente contraproducente porque, se há algo de que os alemães se orgulham, é de terem tido a coragem de fazer as brutais reformas na Segurança Social que os outros países têm vindo a adiar obstinadamente. Hoje, olham para a sua Agenda 2010 (e eu, que nem gosto muito do Schröder, aqui lhe deixo uma menção honrosa: fazer estas reformas, mesmo sabendo que por causa delas vai perder as eleições, é obra!), comparam a situação do seu país com a dos países à sua volta, e concluem que valeu a pena. Lembro que na altura em que na Alemanha a idade da reforma passou dos 65 para os 67 anos, em Portugal a direita agitou o mais que pôde para evitar que se passasse dos 62 para os 65 anos.)
Sabemos que a década passada não foi fácil para vós e que o vosso país se tornou desde então menos bonito 
("menos bonito"?!) 
e mais desigual
(Sim, é verdade que a desigualdade aumentou de forma drástica. Os alemães não têm a menor dúvida quanto a isto, e há regularmente notícias de iniciativas para corrigir a situação.) 
Sabemos também que o objetivo pretendido foi conseguido. Que a Alemanha se tornou «mais competitiva», 
(Porquê as aspas?)
exportou muito, importou menos e mais barato, conseguiu grandes excedentes da balança de pagamentos e acumulou poupança nos vossos bancos.
Nós sabemos, mas vocês talvez não saibam, porque isso não vos é dito pelos vossos dirigentes, 
(O que o leva a pensar que os dirigentes não falam disto? Sugiro a consulta regular do jornal publicado pelo Parlamento alemão, onde os temas debatidos no Parlamento são abertamente tematizados, bem como dos jornais e revistas alemães. E havia mesmo necessidade de insinuar que os políticos alemães escondem informações importantes ao seu povo?) 
que esse dinheiro acumulado nos vossos bancos, foi por eles aplicado, à falta de melhor alternativa, em empréstimos a baixo juro aos bancos do sul da Europa, entre os quais os bancos portugueses, e por eles
(pelos bancos desses países, note-se) 
emprestado de novo com muita publicidade e matreirice a famílias do sul cujos salários também não cresciam por aí além, mas que desejavam ter casa, carro e um modo de vida parecido com o vosso.
(Primeiro: há algum mal em emprestar dinheiro a baixo juro aos bancos do Sul da Europa? Segundo: é mesmo necessário referir a matreirice dos bancos do Sul da Europa, e sugerir que os adultos desses países são vítimas inimputáveis, incapazes de tomar decisões responsáveis sobre a gestão das suas finanças? Isso é entregar as armas ao inimigo - em última análise implica admitir que os bancos do Sul não são sérios e que os povos do Sul não se sabem governar e precisam de uma instituição europeia a controlar a sua gestão e as suas contas.)
As nossas economias sujeitas à concorrência criada pela globalização que tanto convinha às vossas empresas exportadoras cresciam pouco. Mas o crédito que os vossos bancos nos ofereciam, por intermédio dos nossos, lá ia permitindo que as nossas famílias tivessem acesso a bens de consumo, muitos deles com origem nas vossas empresas exportadoras. Durante algum tempo este estado de coisas parecia ser bom para todos.
Quando em 2008 todas as bolhas começaram a estoirar, os vossos bancos descobriram que não podiam continuar a arriscar tanto e cortaram o crédito aos bancos do sul e mesmo aos Estados. Se a União Europeia não tivesse decidido que nenhum banco podia abrir falência, responsabilizando os Estados pelas dívidas bancárias, teríamos assistido a uma razia quer dos bancos endividados, quer dos bancos credores. 
(...e também a uma crise económica global e brutal, talvez até pior que a Grande Recessão - porque a falência dos bancos provocaria a falência de toda a economia e o fim imediato do Estado Social. O que neste momento se passa na Grécia e em Portugal, apenas porque os bancos não têm liquidez e os Estados perderam credibilidade, é uma minúscula amostra do que teria acontecido se a UE tivesse deixado cair os bancos.)
Mas a UE decidiu que os governos iam «resgatar» os bancos e que depois ela própria, com o BCE e o FMI, «resgatariam» os Estados. Foi desta forma que os vossos bancos, que haviam emprestado a juros baixos para lá de todos os critérios de prudência, se salvaram eles próprios da falência. Foi assim que eles conseguiram continuar a cobrar os juros dos empréstimos e a obter a sua amortização. 
(Há aqui qualquer coisa que me escapa. Os Estados resgataram os bancos para evitar a sua falência na sequência da crise iniciada nos EUA, nomeadamente a falência do Lehman Brothers e a venda de títulos sem qualquer valor. Quando a crise da Grécia rebentou, os Estados optaram por penalizar os bancos e os credores - nomeadamente na redução da dívida grega - em vez de os "resgatarem".
Claro que se todo o sistema bancário tivesse falido devido à crise financeira de 2008, não ficava ninguém para cobrar as dívidas do Sul. Mas os bancos não faliram, pelo que continuam a exigir aos bancos e aos Estados do Sul o pagamento das dívidas por eles contraídos. Qual é a dúvida?)

Doutra forma, teriam falido. Talvez vocês não saibam, mas os empréstimos concedidos à Grécia, à Irlanda e a Portugal são na realidade uma dívida imposta aos povos destes países para «resgatar» os vossos bancos. 
(Não, os empréstimos concedidos à Grécia, à Irlanda e a Portugal não são uma dívida imposta, são a resposta aos pedidos desses países. E, de facto, os alemães não sabem que os novos empréstimos a esses países são uma maneira de "resgatar" os bancos alemães. O que lhes é dito é que estes empréstimos são muito arriscados, porque os Estados podem não poder pagar, mas que, se as coisas correrem bem, serão um bom negócio. Contudo, o fim último dos respectivos juros - que, aqui, consta que são de 3,5%, mas em Portugal se diz serem "agiotas" - não é garantir o bom negócio, mas obrigarem os países a fazer um uso responsável desse dinheiro. Mais: provavelmente os alemães até nem se importariam em enviar transferências para os países do Sul, dinheiro a fundo perdido - mas gostavam de ter a certeza que esse dinheiro não vai parar directamente aos bolsos cheios do costume. A corrupção e o mau governo que infelizmente ainda grassam nos países do Sul são os motivos que impedem que as ajudas financeiras sejam realmente generosas.) 
Talvez vocês não saibam também que até agora, os vossos Estados, todos vós como contribuintes, não gastaram um euro que fosse nos «resgates» à Grécia, à Irlanda e Portugal. Até agora o vosso governo concedeu garantias a um fundo europeu que emite dívida a taxas quase nulas para emprestar a 3% ou 4% aos países «resgatados».
(Até agora os governos não gastaram um euro nos resgates, é verdade. Mas se a Grécia, a Irlanda e Portugal não forem capazes de pagar as dívidas que estão a contrair, as garantias dadas pelos Estados tornam-se automaticamente dívida que os contribuintes destes países terão de pagar. Os alemães sabem isto, de tal modo que, num debate parlamentar, até o partido "die Linke" acusou a Angela Merkel de estar a empenhar o dinheiro dos contribuintes alemães de forma muito arriscada e irresponsável. E convém acrescentar - talvez os portugueses não saibam... - que o perdão de metade da dívida da Grécia tem consequências graves nas finanças alemãs: entre redução da dívida para metade e redução dos juros sobre a restante metade, os bancos alemães, muitos deles garantidos pelo Estado e portanto pelos contribuintes alemães, perdem mais de 70% dos seus activos da dívida grega. Também muitos investidores privados, que aplicaram as suas poupanças em títulos da dívida grega, perdem esse dinheiro.) 
Talvez vocês não saibam que em breve este estado de coisas se pode vir a alterar. A austeridade imposta em troca de empréstimos está a arrasar os países «resgatados». Em breve, estes países, chegarão ao ponto em que terão de suspender o serviço da dívida. Nessa hora, haverá perdas, perdas pesadas para todos, contribuintes alemães incluídos. 
(Sabem, pois! Não há a menor dúvida sobre isso. No entanto, o que se diz na Alemanha é que os países do Sul estão a apostar na austeridade com custos insuportáveis para os seus povos, mas não estão a fazer as reformas absolutamente essenciais no combate à corrupção e ao aproveitamento do Estado por parte de certas empresas e lobbies, e no fortalecimento do Estado. Por isso mesmo é que já há quem diga que mais valia mandar borda fora os países que não se sabem governar - isto sou eu a falar à maneira do Bildzeitung, os políticos escolhem as suas palavras com mais cuidado - mas a resposta é sempre a mesma: o Euro é muito mais que uma moeda, é um símbolo fundamental de uma Europa que tem de saber construir-se solidária e forte; e a Alemanha tem uma responsabilidade histórica que lhe exige ser solidária com os seus vizinhos, em vez de os abandonar à sua má sorte.)
(Correcção - em 7.11: "países do Sul" é uma generalização. Cada país é um caso. O debate alemão a que me refiro é sobretudo relativo à Grécia. De Portugal praticamente não se fala. Os relatórios que se vão encontrando na net referem que o problema de corrupção em Portugal é bem menor que o da Grécia (Transparency International) e que Portugal tem muito melhores perspectivas de saída da crise.) 
Talvez vocês não saibam, mas no final, todo o esforço que haveis feito na década passada para tornar a Alemanha «competitiva» e excedentária se pode esfumar num ápice. 
(Sabem, pois!) 
Afinal os vossos excedentes, são os nossos défices, os créditos dos vossos bancos são as nossas dívidas. 
(Sim, lê-se frequentemente nos jornais alemães, em entrevistas a políticos e responsáveis de instituições financeiras alemães e europeus. E até dizem abertamente que "os bancos alemães também têm a sua quota parte de culpa nesta situação", por exemplo, e que o Euro não pode falhar, porque toda a Europa falhará com ele.) 
Os vossos dirigentes deviam saber que uma economia é um sistema e que a economia do euro não é exceção. Quando as partes procuram obter vantagens à custa umas das outras, o resultado para o conjunto e cada uma delas não pode deixar de ser desastroso. 
(Os dirigentes alemães não têm a menor dúvida sobre isto. Por exemplo: antes de em Portugal se falar sobre o problema de haver uma moeda única para economias tão díspares, já o jornal do Parlamento alemão tinha publicado textos sobre esse problema - nomeadamente sobre o modo como o valor do Euro estava a asfixiar as economias do Sul.) 
Talvez vocês não saibam, mas os vossos dirigentes andam a enganar-vos há muito tempo.
(Ah, esta é mesmo engraçada: o país do BPN e das PPP, do Presidente da República envolvido em negócios obscuros de fuga aos impostos e de ganhos de capitais, da promíscua dança entre cargos no Governo e cargos nas empresas que sugam o Estado, o país onde num Ministério desaparecem documentos fundamentais para a investigação de algo que na Alemanha já foi julgado e considerado crime, a avisar os alemães que andam a ser enganados pelos seus políticos. Que tal cuidar de pôr ordem na sua própria casa, antes de inventar roupa suja na casa dos outros?) 


Perdoe-me senhora Merkel se entre uma e outra palavra deixei transparecer amargura em excesso. É que não sou capaz de o esconder: o espetáculo de uns povos contra outros é para mim insuportável, 
(para os alemães também, e não percebem porque é que são alvo de tanto ódio, e porque lhes escrevem cartas como esta) 
sobretudo quando afinal todos eles se debatem com um problema que é comum – o da finança que governa com governos ao serviço de 1% da população, como o seu e o nosso. 
(A Alemanha não salva a Finança para ajudar esse 1% da população, mas porque sabe que se não ajudar a Finança é todo o povo que vai pagar um altíssimo preço - simultaneamente, muito tem feito para controlar mais essa Finança, sendo muitas vezes alvo das críticas dos parceiros, que a acusam de ir depressa demais (caso da proibição das vendas a descoberto logo a seguir à crise financeira de 2008, por exemplo); outro problema comum é que a incompetência e a corrupção de alguns governos europeus pode arrastar toda a Europa para o caos.)

À memória ocorrem-me tragédias passadas que deviam ser impensáveis. Concordará comigo pelo menos num ponto: é preciso evitar esses inomináveis regressos ao passado. 
(E que tal falar do futuro que queremos construir juntos, em vez de - talvez eu esteja a interpretar mal, mas é o que me ocorre - vir fazer o jogo da má consciência?)

***

Se me deixassem ser porta-voz do povo português, a carta que eu traduzia para alemão era mais ou menos assim:

Excelentíssima Senhora Doutora Angela Merkel, Chanceler da Alemanha
(ou em Portugal as cartas agora começam-se assim tipo: "Senhora Esteves, Presidente da Assembleia da República"?)

Estamos à rasca. Precisamos da ajuda da Alemanha. Precisamos que as vossas empresas se instalem em Portugal para reduzir o nosso desemprego (não somos baratos como os chineses, mas estamos mais perto, e é do interesse de todos que não haja grandes disparidades no nível de desenvolvimento económico dos países europeus). Precisamos de empréstimos directos às nossas empresas, porque a falta de liquidez dos nossos bancos está a asfixiar a nossa economia. Precisamos que nos protejam dos nossos próprios políticos: enviem uma lista standard de apoios da Segurança Social abaixo da qual não se pode descer; enviem troikas (talvez escandinavas?) para passar a pente-fino e renegociar os contratos das PPP, para fiscalizar os processos das privatizações; enviem uma troika alemã para nos ajudar a reformar o nosso sistema de Justiça; enviem fotocópias dos documentos sobre o caso dos submarinos, porque os nossos desapareceram. Precisamos que nos protejam dos nossos próprios ricos: acabem com as diferenças fiscais europeias, que levam as empresas a criar sedes fiscais noutros países; ajudem-nos a criar um sistema eficaz de fuga aos impostos. E para já, imediatamente, precisamos de ajudas directas às nossas famílias mais pobres - os nossos pobres estão em situação desesperada.
Conhecemos a generosidade e o espírito de Justiça do povo alemão, e contamos com a vossa ajuda. Queremos construir convosco uma Europa mais sólida, mais equilibrada e sobretudo mais democrática.

(Carta escrita mais depressa que o pensamento. Faltam com certeza muitos outros aspectos. Fica aí como contra-proposta, para debate.)