07 outubro 2012
San Francisco
Corrigi o post To Rome with Love, porque me esquecera de algumas cidades. Agora está assim:
Depois de Londres, Barcelona e Paris: Roma. E o próximo filme desta série já está a ser filmado: em San Francisco.
Em San Francisco, sim - a melhor cidade da Europa.
06 outubro 2012
Praga (2)
Sábado de manhã: cara de chuva.
Começámos com um vagaroso brunch no hotel, lendo os jornais alemães do dia - ele há luxos!
O nosso hotel era um edifício típico Arte Nova, recentemente recuperado e modernizado. A sala dos pequenos-almoços era muito curiosa, porque foi feita sobre uma caixa de vidro usada como sala de reuniões. Aparentemente a sala inicial teria um pé direito descomunal, e os arquitectos optaram por aproveitar o espaço para dois usos: sala de reuniões em baixo, sala de refeições em cima:
Agarrámos nos impermeáveis, e saímos. Atravessámos a Torre da Pólvora
e entrámos na Casa Municipal, um edifício Arte Nova construído no sítio onde ficava o palácio real medieval. O nosso guia dizia que os bolos daquele café eram deliciosos, mas tínhamos acabado de brunchar e os bolos não pareciam tão excelentes como apregoados. Em compensação, a arquitectura e a decoração do café e do restaurante são realmente especiais.
Não nos lembrámos de a fotografar de dia, de modo que vai assim:
Continuámos pelos lugares com menos turistas, surpreendemo-nos com algumas curvas nas ruas: quem as teria desenhado assim, e porquê?
De esquina em esquina, chegámos a uma igreja com uma impressionante fachada.
Em frente à igreja, outra fachada surpreendente:
E mesmo ao lado, um oásis francês,
paredes meias com um oásis inglês:
O novo livro da J.K. Rowling estava exposto na montra. Mas nós já não somos tão novos como quando, em Paris, comprámos na livraria inglesa o Harry Potter que tinha saído nesse dia, e carregamos o calhamaço a pé por toda a cidade. Ou como quando, em Londres, não resistimos a comprar um pesadíssimo álbum de fotografias no Travel Bookshop de Notting Hill, mais o entretanto batido "1000 places to see before you die", que na altura nos pareceu muito giro (é tão triste fazer figura de turista...).
Portanto: como de dor de costas em dor de costas vamos aprendendo para a vida, não comprámos o livro, e ainda bem, porque no jornal alemão do dia seguinte viríamos a ler uma crítica devastadora, que contava sobre as condições de secretismo em que o livro fora traduzido para alemão (duas tradutoras alemãs a viver um mês em Londres, trabalhando numa sala sem internet e com computadores aparafusados às mesas, com três senhas diferentes, etc.) e tudo isto para quê? Para evitar que a crítica desfizesse o livro no próprio dia do lançamento, mas apenas três dias mais tarde...
Seguimos para a nossa conhecida praça central, pelo que atravessámos a praceta que fica por trás da tal igreja que fica por trás das tais casas. A igreja de Nossa Senhora de Tyn, mais propriamente. Parece que o adro da igreja é afinal esta praceta nas suas traseiras. Ora, não dá jeito nenhum uma pessoa sair da missa, atravessar o pátio, sair para a praça central, virar à direita, virar outra vez à direita, e contornar a igreja para finalmente chegar ao adro. Até chegar lá, uma pessoa até se esquece de todos os cortes na casaca que queria fazer com as comadres - com adros assim, a vida social dos checos ao domingo de manhã não deve ser lá grande coisa...
Era sábado, e um alegre grupo de homens judeus ia a caminho da sinagoga. É a primeira vez que escrevo "judeu" e "alegre" na mesma frase. Isto de viver no país da Holocausto tem efeitos secundários graves.
Da praceta saímos para uma viela com casas desalinhadas (e ainda falam dos portugueses, e das suas cidades construídas sem plano):
e voltamos para trás, para ir visitar a igreja de Nossa Senhora de Tyn. Não foi difícil dar com a entrada,
mas havia um casamento e não nos deixaram passar. Não nos importámos muito - a igreja tem um ar sombrio e confuso, e ostenta na fachada um vestígio de um triste episódio de guerras religiosas: após a derrota dos utraquistas (protestantes que comungavam em pão e vinho), os católicos fundiram o cálice dourado que aqueles tinham posto por cima do pórtico, para o transformar numa auréola de fogo à volta da imagem de Nossa Senhora.
Bem sei que os tempos são outros, e que não podemos cair na tentação da crítica anacrónica, mas custou-me realmente ver em Praga tantos vestígios das lutas pelo poder religioso e dos gestos de humilhação dos adversários - esses que, afinal, crêem no mesmo Deus!
Sentámo-nos junto ao monumento do Jan Hus, e eu desatei a ler avidamente o meu guia, para preparar os passos seguintes. Ao fim de uns minutos, declarei: à nossa frente estão vários palácios.
O Joachim riu-se, profundamente grato por me ter como guia turística. Sem mim, nunca conseguiria chegar a conclusões tão assertivas...
Ficámos ainda um pouco a ler sobre o Jan Hus, que no princípio do séc. XV (um século antes antes de Martinho Lutero, portanto) lutara por uma igreja sem vaidades e vícios mundanos, com celebrações em checo e com verdadeiras comunidades cristãs, sem propriedade privada - o que influenciou não apenas a igreja, mas também os ideais políticos checos.
Junto à Câmara havia barraquinhas com comidas tradicionais: uma massa de pão enrolada em espetos grossos e assada sobre brasas,
o fantástico presunto de Praga, também assado sobre as brasas, que eles cortavam em nacos enormes e serviam com chucrute. Da próxima vez que formos a Praga, já sabemos: nada de brunches no hotel!
Virámos costas à tentação, e saímos da praça pela rua Melantrichova...
...onde nos esperava o Sex Machines Museum! Lembrámo-nos do filme Hysteria e desatámos a rir. À entrada tinha uma máquina para testar a - digamos assim - propensão momentânea das pessoas: um turista sentava-se no cadeirão, a máquina começava a piscar, e às tantas lá vinha o veredicto: "hot" ou "wild" ou "tepid" ou outra coisa qualquer. Uma risota pegada. É giro viver num tempo onde as pessoas não têm problemas em brincar assim no meio de desconhecidos.
Ao que parece, o museu tem sobretudo equipamentos sado-maso, e alguns vibradores históricos.
Na mesma zona há também um museu de instrumentos de tortura - esse, nem sequer olho para o cartaz!
Alguns metros à frente encontrámos uma loja de chapéus. Chapéus de todas as cores e formas, quase todos com design checo e 100% lã. Experimentámos alguns, e quando perguntei em inglês se tinha chapéus tipo anos vinte, assimétricos, responderam-me em português! Não há dúvida: somos mais que as mães!
Comprei um chapéu vermelho óptimo: é bonito e elegante como um chapéu, mas aquece as orelhas como um gorro.
A rua desembocava numa praça com um certo ar de Idade Média, no meio da qual havia um mercado de frutas e legumes. Vontade de comprar tudo!
Não é que tivéssemos fome, mas numa cidade assim é difícil controlar a gula. Junto ao mercado havia um café francês: entrámos "só para ver", e não resistimos. Todos os bolos tinham um aspecto fenomenal. Eu não conseguia tirar os olhos de um que o empregado descreveu como "cream with cream". Very light, comentei eu, e ele riu-se. Serviram-nos o cappuccino mais bem tirado da minha vida, e os bolos divinos.
Daí a pouco o empregado apareceu na rua, junto à nossa mesa, a comer um bolo igual ao meu. Bem me queria parecer que tinha escolhido o melhor de todos!
Começámos com um vagaroso brunch no hotel, lendo os jornais alemães do dia - ele há luxos!
O nosso hotel era um edifício típico Arte Nova, recentemente recuperado e modernizado. A sala dos pequenos-almoços era muito curiosa, porque foi feita sobre uma caixa de vidro usada como sala de reuniões. Aparentemente a sala inicial teria um pé direito descomunal, e os arquitectos optaram por aproveitar o espaço para dois usos: sala de reuniões em baixo, sala de refeições em cima:
Agarrámos nos impermeáveis, e saímos. Atravessámos a Torre da Pólvora
e entrámos na Casa Municipal, um edifício Arte Nova construído no sítio onde ficava o palácio real medieval. O nosso guia dizia que os bolos daquele café eram deliciosos, mas tínhamos acabado de brunchar e os bolos não pareciam tão excelentes como apregoados. Em compensação, a arquitectura e a decoração do café e do restaurante são realmente especiais.
Não nos lembrámos de a fotografar de dia, de modo que vai assim:
Continuámos pelos lugares com menos turistas, surpreendemo-nos com algumas curvas nas ruas: quem as teria desenhado assim, e porquê?
De esquina em esquina, chegámos a uma igreja com uma impressionante fachada.
Em frente à igreja, outra fachada surpreendente:
E mesmo ao lado, um oásis francês,
paredes meias com um oásis inglês:
O novo livro da J.K. Rowling estava exposto na montra. Mas nós já não somos tão novos como quando, em Paris, comprámos na livraria inglesa o Harry Potter que tinha saído nesse dia, e carregamos o calhamaço a pé por toda a cidade. Ou como quando, em Londres, não resistimos a comprar um pesadíssimo álbum de fotografias no Travel Bookshop de Notting Hill, mais o entretanto batido "1000 places to see before you die", que na altura nos pareceu muito giro (é tão triste fazer figura de turista...).
Portanto: como de dor de costas em dor de costas vamos aprendendo para a vida, não comprámos o livro, e ainda bem, porque no jornal alemão do dia seguinte viríamos a ler uma crítica devastadora, que contava sobre as condições de secretismo em que o livro fora traduzido para alemão (duas tradutoras alemãs a viver um mês em Londres, trabalhando numa sala sem internet e com computadores aparafusados às mesas, com três senhas diferentes, etc.) e tudo isto para quê? Para evitar que a crítica desfizesse o livro no próprio dia do lançamento, mas apenas três dias mais tarde...
Seguimos para a nossa conhecida praça central, pelo que atravessámos a praceta que fica por trás da tal igreja que fica por trás das tais casas. A igreja de Nossa Senhora de Tyn, mais propriamente. Parece que o adro da igreja é afinal esta praceta nas suas traseiras. Ora, não dá jeito nenhum uma pessoa sair da missa, atravessar o pátio, sair para a praça central, virar à direita, virar outra vez à direita, e contornar a igreja para finalmente chegar ao adro. Até chegar lá, uma pessoa até se esquece de todos os cortes na casaca que queria fazer com as comadres - com adros assim, a vida social dos checos ao domingo de manhã não deve ser lá grande coisa...
Era sábado, e um alegre grupo de homens judeus ia a caminho da sinagoga. É a primeira vez que escrevo "judeu" e "alegre" na mesma frase. Isto de viver no país da Holocausto tem efeitos secundários graves.
Da praceta saímos para uma viela com casas desalinhadas (e ainda falam dos portugueses, e das suas cidades construídas sem plano):
e voltamos para trás, para ir visitar a igreja de Nossa Senhora de Tyn. Não foi difícil dar com a entrada,
mas havia um casamento e não nos deixaram passar. Não nos importámos muito - a igreja tem um ar sombrio e confuso, e ostenta na fachada um vestígio de um triste episódio de guerras religiosas: após a derrota dos utraquistas (protestantes que comungavam em pão e vinho), os católicos fundiram o cálice dourado que aqueles tinham posto por cima do pórtico, para o transformar numa auréola de fogo à volta da imagem de Nossa Senhora.
Bem sei que os tempos são outros, e que não podemos cair na tentação da crítica anacrónica, mas custou-me realmente ver em Praga tantos vestígios das lutas pelo poder religioso e dos gestos de humilhação dos adversários - esses que, afinal, crêem no mesmo Deus!
Sentámo-nos junto ao monumento do Jan Hus, e eu desatei a ler avidamente o meu guia, para preparar os passos seguintes. Ao fim de uns minutos, declarei: à nossa frente estão vários palácios.
O Joachim riu-se, profundamente grato por me ter como guia turística. Sem mim, nunca conseguiria chegar a conclusões tão assertivas...
Ficámos ainda um pouco a ler sobre o Jan Hus, que no princípio do séc. XV (um século antes antes de Martinho Lutero, portanto) lutara por uma igreja sem vaidades e vícios mundanos, com celebrações em checo e com verdadeiras comunidades cristãs, sem propriedade privada - o que influenciou não apenas a igreja, mas também os ideais políticos checos.
Junto à Câmara havia barraquinhas com comidas tradicionais: uma massa de pão enrolada em espetos grossos e assada sobre brasas,
o fantástico presunto de Praga, também assado sobre as brasas, que eles cortavam em nacos enormes e serviam com chucrute. Da próxima vez que formos a Praga, já sabemos: nada de brunches no hotel!
Virámos costas à tentação, e saímos da praça pela rua Melantrichova...
...onde nos esperava o Sex Machines Museum! Lembrámo-nos do filme Hysteria e desatámos a rir. À entrada tinha uma máquina para testar a - digamos assim - propensão momentânea das pessoas: um turista sentava-se no cadeirão, a máquina começava a piscar, e às tantas lá vinha o veredicto: "hot" ou "wild" ou "tepid" ou outra coisa qualquer. Uma risota pegada. É giro viver num tempo onde as pessoas não têm problemas em brincar assim no meio de desconhecidos.
Na mesma zona há também um museu de instrumentos de tortura - esse, nem sequer olho para o cartaz!
Alguns metros à frente encontrámos uma loja de chapéus. Chapéus de todas as cores e formas, quase todos com design checo e 100% lã. Experimentámos alguns, e quando perguntei em inglês se tinha chapéus tipo anos vinte, assimétricos, responderam-me em português! Não há dúvida: somos mais que as mães!
Comprei um chapéu vermelho óptimo: é bonito e elegante como um chapéu, mas aquece as orelhas como um gorro.
A rua desembocava numa praça com um certo ar de Idade Média, no meio da qual havia um mercado de frutas e legumes. Vontade de comprar tudo!
Não é que tivéssemos fome, mas numa cidade assim é difícil controlar a gula. Junto ao mercado havia um café francês: entrámos "só para ver", e não resistimos. Todos os bolos tinham um aspecto fenomenal. Eu não conseguia tirar os olhos de um que o empregado descreveu como "cream with cream". Very light, comentei eu, e ele riu-se. Serviram-nos o cappuccino mais bem tirado da minha vida, e os bolos divinos.
Daí a pouco o empregado apareceu na rua, junto à nossa mesa, a comer um bolo igual ao meu. Bem me queria parecer que tinha escolhido o melhor de todos!
to Rome with love
Depois de Londres, Barcelona e Paris: Roma. E o próximo filme desta série já está a ser filmado: em San Francisco.
Não será o nosso velho Woody Allen - talvez apenas um Woody Allen mais velho. Mas, ainda assim, cheio de graça e auto-ironia, recheado de situações inesperadas ou desconcertantes ou hilariantes - ou tudo isso de uma vez só. Passámos o filme a rir, o que já vale bem o preço do bilhete.
Vê-lo com alguém que goste de ópera torna-o ainda mais divertido - na nossa sala de cinema, notava-se bem quem eram os apreciadores de ópera: eram as pessoas que davam saltos nas cadeiras, em gargalhadas ainda mais estrondosas que os outros.
Quando foram perguntar ao Benigni o que tinha comido ao pequeno-almoço, sorri ao Woody Allen:
- Estás em forma, rapaz! Continuas a saber deitar o nosso mundo num divã.
(E parece escrito a pensar numa certa pessoa que eu conheço, uma que só canta bem no chuveiro e que passa a vida a dizer "se me deixassem mandar..." - mas estranhamente, nos créditos finais, não vinha escrito "to Helena Araújo with love". Deve ter sido lapso.)
Anna Depenbusch na Dussmann (2)
Pois claro que fui ao concerto da Anna Depenbusch na Dussmann, e pois claro que me arrependi amargamente de não ter levado uma boa máquina fotográfica: aqueles olhos! ah, aqueles olhos, aquele brilhozinho nos olhos!
O apresentador estava completamente rendido. Contou do momento em que a viu actuar pela primeira vez, ela sozinha ao piano - evitava palavras como "paixão", falava de "capitulação": rendido, enfim. O entrevistador esteve mais controlado, o público não: olhei para trás, e era só sorrisos encantados.
Ela apresentava o novo disco, "Verão de papel", e ria com gargalhadas frescas: inventaram o disco em estúdio, porque este ano quase não houve Verão em Hamburgo. Puseram numa parede um poster gigante de um Hawai muito kitsch, inventaram um Verão para si próprios. Dizia "que interessa a chuva, tens de encontrar o Verão dentro de ti", contava da sua recente paixão pelo ukulele "que está cheio de músicas novas", confessava que neste disco traiu o seu amor de sempre, o piano.A banda subiu ao palco improvisado em frente ao jardim vertical do Leblanc. Músicos simpáticos, sem grandes preocupações de imagem, uma boa onda. A Anna Depenbusch contava histórias engraçadas sobre cada canção ("descobrimos lá uma máquina de escrever, começámos a brincar, e tornou-se um elemento rítmico importante para a nossa composição"), e lá partiam eles juntos para mais uma voltinha pelo seu Verão de papel. Um disco de músicas leves, agradáveis. Não diria que é a Regina Spektor de Hamburgo, mas ouve-se bem e faz-nos sorrir.
No fim do concerto, o regresso ao primeiro amor, o piano, com uma canção divertidíssima em que ela conta que no seu apartamento ouve o vizinho com a namorada. O refrão é "Oh Ben... Oh Ben... Ben! Benjamin!" (podem imaginar, mas garanto que é melhor do que isso, muito melhor: ela ao piano, a rir de si própria enquanto cantava "Oh Ben... Ben!". Um pouco como "a" cena de When Harry met Sally, mas ao piano. E com um final cheio de graça, que deixou o público ainda mais encantadíssimo.
No final perguntei-lhe se tinham planos de ir a Portugal. Disse-lhe que não era por mim, era pelos meus amigos. Ela hesitou um pouco, e eu ri-me: "pois, já sei o que vai responder: se a convidarem, vai!"
Riu-se também. Isso mesmo, disse ela. Se me convidarem, tenho imenso prazer em ir!Só não sei se é boa ideia. É certo que aqueles olhos falam esperanto, mas as músicas têm muita mais graça para quem sabe falar alemão.
05 outubro 2012
Praga (1)
Foi um acaso, algo que nem chega a ter importância, mas que me fez suspeitar que o nosso fim-de-semana seria muito especial: o Joachim, que já estava em Praga há dois dias, foi buscar-me ao comboio, e sem saber em que carruagem eu vinha, calhou de estar justamente em frente à porta por onde eu saí. Uma mera coincidência, um bom auspício.
O hotel ficava muito perto da Torre da Pólvora. Deixámos o meu saco, e seguimos para a praça central, um passeio de dez minutos. Fui invadida pela mesma surpresa que me ocorreu em Budapeste: o que é que esta terra esteve a fazer tantos anos fora da Europa? Ou, melhor: o que é que estivemos nós a fazer tantos anos arredados desta Europa?
Já a viagem de comboio entre Berlim e Praga vale a pena - especialmente a partir de Dresden. Tinha comigo dois guias turísticos da cidade que queria estudar durante as quatro horas e meia da viagem, mas foi impossível. A paisagem é demasiado bela para ser perdida de nariz metido nos livros. O comboio avança ao longo do Elba, junto a enormes penhascos cobertos de árvores, a que se chama "a Suíça saxónica", e continua junto ao Moldava, entre encostas salpicadas de aldeias e burgos. Isso, e este princípio de Outono: não há guia turístico que resista.
Pelo que entrei na cidade sem uma boa preparação prévia. Lera algumas coisas sobre o bairro mais central, o que visitámos nesse dia, mas não estava preparada para mergulhar naqueles mil anos de História europeia largada ombro a ombro (como agora se diz) em pistas de urbanismo e arquitectura.
Começámos pela praça central (a Staromestské námestí - vou ter de escrever os nomes sem os acentos circunflexos invertidos) da cidade velha (Staré Mesto). Subimos à torre da Câmara, o melhor sítio para entrar na cidade: de lá se vê o burgo com a sua catedral, do outro lado do rio,
e a praça a nossos pés, com os palácios e o monumento de Jan Hus,
aquela maluquice de igreja construída por trás das casas,
(eles não saberão fazer terreiros de igreja como deve ser? imagino como serão as frases idiomáticas checas - em vez de "ainda a procissão vai no adro" dirão "ainda a procissão vai no pátio de trás das casas da frente da Igreja")
(a torre da direita é um pouco mais gordinha, e por isso lhe chamam Adão, a da esquerda é a Eva; pensava eu que esta coisa de homens desmazelados com o peso e mulheres em permanente estado de semi-fome era uma injustiça do nosso tempo, mas não - parece que já vem da Idade Média, triste sina. No Verão, a torre "Adão" faz sombra para a torre "Eva", pelo que esta era usada para guardar mantimentos "em local seco e fresco" - mas não me apetece descobrir a alegoria que o facto possa encerrar)
as pessoas que se juntavam em frente ao relógio astronómico,
as fachadas da rua de Paris, a rua que vai dessa praça central ao antigo gueto judeu, e que está cheia de lojas de luxo
- e sobretudo o sol, sol a rodos nos telhados e nas encostas cobertas de árvores:
Gostei especialmente das calçadas. Como se um bocadinho do meu país tivesse vindo parar a este lado da Europa - ou terá sido ao contrário?
Bateram as seis horas. Na praça, a multidão junto ao relógio astronómico adensou-se.
O público na torre abriu alas para um músico vestido a preceito, que anunciava a hora com uma melodia repetida em cada um dos lados da torre. Havíamos de o ouvir mais vezes nos dias seguintes, enquanto passeávamos pelas ruas da cidade antiga.
Descemos para a cidade, usando as rampas ao longo da paredes da torre. Mas também podíamos ter usado o elevador: uma torre medieval com elevador, não é todos os dias!
Dessa praça seguimos para uma praceta linda, a Malé Námestí, e continuámos pela rua Karlova na direcção da ponte Karlov. Não é preciso perguntar o caminho, basta irmos avançando com a multidão. Atravessámos a famosa ponte, como não podia deixar de ser, e quando chegámos a meio parámos junto ao crucifixo. O meu guia informava que aquela inscrição dourada em hebraico está ali desde fins do séc. XVII, e foi paga com a multa de um judeu que não descobriu a cabeça ao passar em frente ao Cristo. Nela se lê: "santo, santo, santo é o Senhor" (diz o guia, mas eu não sei se deva acreditar: não vejo ali três grupos de letras repetidos - a não ser que esteja escrito "três vezes santo é o Senhor").
Quando serei capaz de parar de me surpreender com estes sinais históricos da maldade e da arrogância dos católicos? E é mesmo preciso manter aquela inscrição hoje em dia, é mesmo preciso continuar a provocar os judeus desta maneira?
(foto daqui)
Jantámos num restaurante excelente junto à ponte Karlov. A moderna cozinha checa é uma delícia e uma elegância. Regressámos ao hotel por becos secundários, praticamente desertos - e sobre nós uma magnífica lua cheia.
O céu nocturno estava de um extraordinário azul, um autêntico céu de
- e lá vai a palavra que tenho tentado evitar -
veludo.
Anna Depenbusch na Dussmann
Agarrem-me! Ou agarrem um amigo meu, que andou no facebook a empurrar-me para ir à Dussmann poupar dinheiro - até parece que não sabe que sou especialista em poupar dinheiro naquela loja, às vezes até venho para casa com dores de costas, vergada ao peso das poupanças que faço.
Pois bem: apanhou-me desprevenida e mandou-me um link para a Dussmann, e eu caí na asneira de ver, e fiquei a saber que esta mocinha
vai dar um concerto na Dussmann, no palco junto à esfinge (já contei de uma livraria berlinense que tem uma esfinge egípica antiga verdadeira, uma peça emprestada do museu egípcio? Já disse que fica maravilhosa em frente ao jardim vertical do Patrick Leblanc? Já disse que gosto imenso desta cooperação de artes e entidades várias nesse espaço de cultura? Se já disse, desculpem - é da idade), hoje, às 7 da tarde. Convém ir um bocado mais cedo, porque os berlinenses gostam muito destas coisas, e aparecem lá todos caidinhos, como se fosse de graça. Que, de facto, é.
Vou, claro, e vou cedo - para arranjar um lugar pertinho daqueles olhos.
(E no dia 12 é a Alison Balsom. Razão tinha a minha avó para desconfiar das cidades grandes: em cada esquina espreita o vício!)
Pois bem: apanhou-me desprevenida e mandou-me um link para a Dussmann, e eu caí na asneira de ver, e fiquei a saber que esta mocinha
vai dar um concerto na Dussmann, no palco junto à esfinge (já contei de uma livraria berlinense que tem uma esfinge egípica antiga verdadeira, uma peça emprestada do museu egípcio? Já disse que fica maravilhosa em frente ao jardim vertical do Patrick Leblanc? Já disse que gosto imenso desta cooperação de artes e entidades várias nesse espaço de cultura? Se já disse, desculpem - é da idade), hoje, às 7 da tarde. Convém ir um bocado mais cedo, porque os berlinenses gostam muito destas coisas, e aparecem lá todos caidinhos, como se fosse de graça. Que, de facto, é.
Vou, claro, e vou cedo - para arranjar um lugar pertinho daqueles olhos.
(E no dia 12 é a Alison Balsom. Razão tinha a minha avó para desconfiar das cidades grandes: em cada esquina espreita o vício!)
04 outubro 2012
3 de Outubro de 2012
Ontem foi feriado na Alemanha: dia da unidade alemã, data da assinatura do tratado da reunificação. Todos gostariam que fosse antes o 9 de Novembro, dia da queda do muro, mas essa é uma data maldita devido à Reichskristallnacht. O processo relâmpago da reunificação decorreu ao longo de 1990, e trataram de assinar o seu tratado antes do 7 de Outubro, por ser o dia da fundação da RDA, e quererem evitar esse feriado (de onde se prova que esta mania de os alemães tirarem feriados aos outros países não é só de agora...).
Muito simbolicamente, passámos o nosso dia da unidade alemã no meio de uma enorme mistura de nacionalidades. Começámos com um brunch em casa de um pintor italiano, onde uma argentina que acabou agora mesmo o seu curso de "arte de teatro de marionetas" (porque é que no meu tempo não havia cursos assim giros?) nos revelou que os alemães que nunca saíram do país são diferentes dos que já viveram noutro lado (mas logo a seguir concordou que esse estranho fenómeno também ocorre com os argentinos), e onde um sírio falou dos milhares de combatentes da al-Qaeda que estão a instalar-se na Síria, nos desenhou mapas de pipelines de gás e petróleo, nos alertou para as coincidências - não é por acaso que neste momento o Japão e a China fazem aquele teatro todo por causa de uns torrões de terra no meio do mar, dizia ele (e eu, que gosto de coisas simples, como a Liberdade do Quino, quase fico com vontade de sentir saudades do tempo da Guerra Fria). Depois chegaram uns franceses, cada pessoa trazia os seus temas - eu ouvia, e dava razão à argentina: para nos alargar os horizontes, nada como falar com pessoas de outras culturas. E nem é preciso sair do país - basta ir visitar um amigo que mora no mesmo bairro. Quanto ao mais: comida deliciosa, enquanto me lembrar daquele couscous nunca mais tento fazer algo semelhante cá em casa.
Ao fim da tarde havia concerto na Filarmonia, um recital de piano com Krystian Zimerman. Calhou simbolicamente muito bem: um pianista polaco com raízes culturais alemãs e russas. O programa parecia uma auto-hagiografia escrita na terceira pessoa, o que me deixou um pouco predisposta a não gostar do pianista. Isso, e uma insistência exagerada para não fazermos fotos nem gravarmos a música. Mas não consegui aguentar o rancorzinho para lá das primeiras notas de Pagodes, a peça de Debussy com que abriu o recital.
Em algum momento, o que acontecia naquela sala deixou de ser música e tornou-se uma aguarela feita de sons. No terceiro (ou quarto?) prelúdio, o piano começou a flutuar serenamente na neblina matinal que cobria um lago sereno - garanto que isto aconteceu ontem na Filarmonia! - e eu esqueci tudo, inclusivamente a hagiografia, para me render sem reservas à sua magia.
Krystian Zimerman não se limita a tocar com perfeita maestria e sensibilidade - domina a própria acústica, pára a meio da peça como que modelando os ecos no ar, prende-os por uns momentos, depois solta a mão e deixa-os ir. Reparem aqui, logo no início, no primeiro minuto:
Ontem tocou as Estampes e alguns dos 24 Préludes de Debussy, três prelúdios da Opus 1 de Karol Szimanowski (e eu que não conhecia este, e que bom ele é!) e a sonata para piano nº 3 op. 58 de Chopin. Maravilha. Mas infelizmente não encontrei nenhuma destas peças tocadas por ele, para partilhar aqui.
O público aplaudiu freneticamente, uns bons dez minutos. Ele regressou ao palco repetidas vezes, e por fim sentou-se de novo ao piano. Silêncio na sala. Ele sentado, também em silêncio. Até que começou a dizer, com um ar pensativo, como se estivesse simplesmente a conversar connosco: "A primeira vez que toquei aqui foi em 1975... Era tudo muito diferente... Nós gostamos de dizer mal dos políticos, porque não conseguem construir aeroportos e coisas assim (risos na sala) mas temos de estar muito gratos pelo que têm conseguido fazer nestes anos". Depois disse uma gracinha qualquer sobre um compositor a quem ele encomendou uma peça para esta ocasião, mas que não a pôde acabar a tempo porque morreu há 185 anos - virou-se para o piano e começou a tocar a sonata Mondschein de Beethoven. Com uma leveza e imaterialidade como eu nunca tinha ouvido. E a meio da sonata, a partir de um acorde qualquer, passou para o "parabéns a você". Depois foi-se embora, e eu, por um daqueles acasos incríveis que me acontecem frequentemente, dei comigo sentada a uma mesa com uma pianista amiga dele, que estava encantada, e dizia frases como "aquele quarto andamento da sonata de Chopin, nunca ninguém o tocou assim como ele hoje - nem a Martha Argerich o conseguiria tão bem. E não há gravações disto assim, foi um momento único."
Depois começou a falar de Guastavino, "o Schubert das Pampas", e se eu não conhecia Guastavino!?
É o seu centenário, é preciso organizar ainda este ano um concerto de Guastavino em Berlim.
Esta cidade não pára.
Muito simbolicamente, passámos o nosso dia da unidade alemã no meio de uma enorme mistura de nacionalidades. Começámos com um brunch em casa de um pintor italiano, onde uma argentina que acabou agora mesmo o seu curso de "arte de teatro de marionetas" (porque é que no meu tempo não havia cursos assim giros?) nos revelou que os alemães que nunca saíram do país são diferentes dos que já viveram noutro lado (mas logo a seguir concordou que esse estranho fenómeno também ocorre com os argentinos), e onde um sírio falou dos milhares de combatentes da al-Qaeda que estão a instalar-se na Síria, nos desenhou mapas de pipelines de gás e petróleo, nos alertou para as coincidências - não é por acaso que neste momento o Japão e a China fazem aquele teatro todo por causa de uns torrões de terra no meio do mar, dizia ele (e eu, que gosto de coisas simples, como a Liberdade do Quino, quase fico com vontade de sentir saudades do tempo da Guerra Fria). Depois chegaram uns franceses, cada pessoa trazia os seus temas - eu ouvia, e dava razão à argentina: para nos alargar os horizontes, nada como falar com pessoas de outras culturas. E nem é preciso sair do país - basta ir visitar um amigo que mora no mesmo bairro. Quanto ao mais: comida deliciosa, enquanto me lembrar daquele couscous nunca mais tento fazer algo semelhante cá em casa.
Ao fim da tarde havia concerto na Filarmonia, um recital de piano com Krystian Zimerman. Calhou simbolicamente muito bem: um pianista polaco com raízes culturais alemãs e russas. O programa parecia uma auto-hagiografia escrita na terceira pessoa, o que me deixou um pouco predisposta a não gostar do pianista. Isso, e uma insistência exagerada para não fazermos fotos nem gravarmos a música. Mas não consegui aguentar o rancorzinho para lá das primeiras notas de Pagodes, a peça de Debussy com que abriu o recital.
Em algum momento, o que acontecia naquela sala deixou de ser música e tornou-se uma aguarela feita de sons. No terceiro (ou quarto?) prelúdio, o piano começou a flutuar serenamente na neblina matinal que cobria um lago sereno - garanto que isto aconteceu ontem na Filarmonia! - e eu esqueci tudo, inclusivamente a hagiografia, para me render sem reservas à sua magia.
Krystian Zimerman não se limita a tocar com perfeita maestria e sensibilidade - domina a própria acústica, pára a meio da peça como que modelando os ecos no ar, prende-os por uns momentos, depois solta a mão e deixa-os ir. Reparem aqui, logo no início, no primeiro minuto:
Ontem tocou as Estampes e alguns dos 24 Préludes de Debussy, três prelúdios da Opus 1 de Karol Szimanowski (e eu que não conhecia este, e que bom ele é!) e a sonata para piano nº 3 op. 58 de Chopin. Maravilha. Mas infelizmente não encontrei nenhuma destas peças tocadas por ele, para partilhar aqui.
O público aplaudiu freneticamente, uns bons dez minutos. Ele regressou ao palco repetidas vezes, e por fim sentou-se de novo ao piano. Silêncio na sala. Ele sentado, também em silêncio. Até que começou a dizer, com um ar pensativo, como se estivesse simplesmente a conversar connosco: "A primeira vez que toquei aqui foi em 1975... Era tudo muito diferente... Nós gostamos de dizer mal dos políticos, porque não conseguem construir aeroportos e coisas assim (risos na sala) mas temos de estar muito gratos pelo que têm conseguido fazer nestes anos". Depois disse uma gracinha qualquer sobre um compositor a quem ele encomendou uma peça para esta ocasião, mas que não a pôde acabar a tempo porque morreu há 185 anos - virou-se para o piano e começou a tocar a sonata Mondschein de Beethoven. Com uma leveza e imaterialidade como eu nunca tinha ouvido. E a meio da sonata, a partir de um acorde qualquer, passou para o "parabéns a você". Depois foi-se embora, e eu, por um daqueles acasos incríveis que me acontecem frequentemente, dei comigo sentada a uma mesa com uma pianista amiga dele, que estava encantada, e dizia frases como "aquele quarto andamento da sonata de Chopin, nunca ninguém o tocou assim como ele hoje - nem a Martha Argerich o conseguiria tão bem. E não há gravações disto assim, foi um momento único."
Depois começou a falar de Guastavino, "o Schubert das Pampas", e se eu não conhecia Guastavino!?
É o seu centenário, é preciso organizar ainda este ano um concerto de Guastavino em Berlim.
Esta cidade não pára.
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02 outubro 2012
sobre as Fundações Públicas
Um texto de Paulo Morais, vice-presidente da "Transparência e Integridade, Associação Cívica":
As fundações públicas devem ser extintas. As fundações privadas sem recursos têm de mudar de nome. E aquelas que, embora dispondo de meios, não perseguem um fim social visível, devem perder o seu estatuto de utilidade pública. Esta verdadeira limpeza levará à eliminação de centenas destas entidades. No final, restarão apenas cinco ou seis genuínas fundações.
Uma verdadeira fundação é uma entidade
As fundações públicas devem ser extintas. As fundações privadas sem recursos têm de mudar de nome. E aquelas que, embora dispondo de meios, não perseguem um fim social visível, devem perder o seu estatuto de utilidade pública. Esta verdadeira limpeza levará à eliminação de centenas destas entidades. No final, restarão apenas cinco ou seis genuínas fundações.
Uma verdadeira fundação é uma entidade
cujo instituidor, dispondo de meios avultados, de um fundo, decide disponibilizá-lo à comunidade para perseguir um dado desígnio social, um qualquer benefício colectivo.
Nesta perspectiva, as fundações públicas nem sequer são fundações. São departamentos públicos travestidos, cujo estatuto lhes permite viverem de forma clandestina. Os seus directores não estão sujeitos a regras da administração pública. Podem contratar negócios sem qualquer controlo, permitem-se ainda recrutar pessoal sem concurso. Utilizam os recursos públicos em função dos seus interesses e dos seus negócios privados.
Já quanto às actuais fundações privadas, podemos dividi-las em três grupos. Temos as que pretendem alcançar um fim social útil, mas vivem maioritariamente de recursos públicos. Assim, se não dispõem de fundos próprios, serão instituições de solidariedade, associações, mas jamais fundações. Devem mudar de regime.
Há um outro grupo cujos instituidores são pessoas de muitas posses que registam os seus bens em nome de fundações particulares, mas que nada dão à sociedade. Com este esquema, ficam isentos de pagar IRC na sua actividade, os seus terrenos e prédios não pagam impostos, como o IMT e o IMI. Até alguns dos seus carros ficam isentos de pagar imposto de circulação e imposto automóvel. Estes cavalheiros conseguem assim um paraíso fiscal próprio, verdadeiras "off--shores" em território nacional. Retirem-lhes pois o estatuto de utilidade pública.
Feito este expurgo, restará um restrito grupo de entidades criadas por aqueles milionários que decidiram legar parte da sua riqueza em benefício da sociedade que os ajudou enriquecer. São os casos de Gulbenkian, Champalimaud e poucos mais. Para honrar a sua memória, há que impedir que as suas organizações sejam confundidas com pseudofundações, casas de má fama geridas por oportunistas.
Nesta perspectiva, as fundações públicas nem sequer são fundações. São departamentos públicos travestidos, cujo estatuto lhes permite viverem de forma clandestina. Os seus directores não estão sujeitos a regras da administração pública. Podem contratar negócios sem qualquer controlo, permitem-se ainda recrutar pessoal sem concurso. Utilizam os recursos públicos em função dos seus interesses e dos seus negócios privados.
Já quanto às actuais fundações privadas, podemos dividi-las em três grupos. Temos as que pretendem alcançar um fim social útil, mas vivem maioritariamente de recursos públicos. Assim, se não dispõem de fundos próprios, serão instituições de solidariedade, associações, mas jamais fundações. Devem mudar de regime.
Há um outro grupo cujos instituidores são pessoas de muitas posses que registam os seus bens em nome de fundações particulares, mas que nada dão à sociedade. Com este esquema, ficam isentos de pagar IRC na sua actividade, os seus terrenos e prédios não pagam impostos, como o IMT e o IMI. Até alguns dos seus carros ficam isentos de pagar imposto de circulação e imposto automóvel. Estes cavalheiros conseguem assim um paraíso fiscal próprio, verdadeiras "off--shores" em território nacional. Retirem-lhes pois o estatuto de utilidade pública.
Feito este expurgo, restará um restrito grupo de entidades criadas por aqueles milionários que decidiram legar parte da sua riqueza em benefício da sociedade que os ajudou enriquecer. São os casos de Gulbenkian, Champalimaud e poucos mais. Para honrar a sua memória, há que impedir que as suas organizações sejam confundidas com pseudofundações, casas de má fama geridas por oportunistas.
***
O bem que faz ler uma coisa escrita com esta clareza!
O bem que faz ler uma coisa escrita com esta clareza!
aquilo a que temos direito (3)
Um post do blogue Dias de Telha:
E sim, devíamos cortar noutros sítios e não aqui, mas se não tivessemos mais onde cortar e esta questão se pusesse estávamos aqui outra vez.
CONTRIBUTO PARA UMA DISCUSSÃO MAIS RACIONAL
Ontem foi um dia muito difícil para mim. Questionei a minha racionalidade, a minha moral e a minha ética. Perguntei-me se teria passado os últimos 20 anos a achar-me de um lado do espectro quando, afinal, estaria noutro. Demorei a pôr as ideias no sítio e ainda não cheguei exactamente lá. Mas o caminho faz-se passo a passo e é preciso ir pensando nas coisas.
Quando se discute, é bom ter os dados todos. Saber, por exemplo, o preço daquilo que se está a ponderar cortar. Sabem quanto custa 1 injecção daqueles medicamentos biológicos de que se fala e que os doentes tomam a cada 2, 3 ou 4 semanas? Uma só injecção custa milhares de euros. Mesmo. Um medicamento que se dá num linfoma (não me lembro agora qual e desculpem-me mas não me apetece ir ver) custa 5.000€ por injecção. Há outros mais caros, outros mais baratos.
O nosso sistema de saúde baseia os seus princípios éticos numa lógica de justiça distributiva – com tudo o que isso tem de bom (os mesmos cuidados de saúde e tendencialmente gratuitos para todos) e de mau (em Portugal não usamos os fármacos topo de gama para a quimioterapia, por exemplo, porque são demasiado caros e não conseguiríamos oferecê-los a toda a gente). O conselho de ética foi criado precisamente para assegurar que a tal da justiça distributiva é mantida.
Eu, honestamente, não sei como contornar esta situação. Não cortar? Ok. Mas se o dinheiro não cresce, então não cortar aqui vai implicar cortes noutros sítios – que se calhar até vão prejudicar mais pessoas, com igual gravidade. Cortar? Também me parece mal, porque, lá está, todos deveríamos ter o direito a viver o mais possível com a maior qualidade de vida possível.
Mas se chegamos a uma situação limite, em que ou cortamos 10 ou somos obrigados a cortar 100, então não será preferível cortar esses 10? Não será preferível pegar nos 10.000€ que aquele doente ia gastar no último mês da sua vida e usá-lo de uma forma que salve mais vidas? Se calhar não, porque as vidas não se podem comparar assim, como se 100 valessem mais do que 10. Mas na gestão têm de se contar assim, porque o dinheiro, de facto, não cresce.
Importa clarificar algumas outras coisas, também:O nosso sistema de saúde baseia os seus princípios éticos numa lógica de justiça distributiva – com tudo o que isso tem de bom (os mesmos cuidados de saúde e tendencialmente gratuitos para todos) e de mau (em Portugal não usamos os fármacos topo de gama para a quimioterapia, por exemplo, porque são demasiado caros e não conseguiríamos oferecê-los a toda a gente). O conselho de ética foi criado precisamente para assegurar que a tal da justiça distributiva é mantida.
Eu, honestamente, não sei como contornar esta situação. Não cortar? Ok. Mas se o dinheiro não cresce, então não cortar aqui vai implicar cortes noutros sítios – que se calhar até vão prejudicar mais pessoas, com igual gravidade. Cortar? Também me parece mal, porque, lá está, todos deveríamos ter o direito a viver o mais possível com a maior qualidade de vida possível.
Mas se chegamos a uma situação limite, em que ou cortamos 10 ou somos obrigados a cortar 100, então não será preferível cortar esses 10? Não será preferível pegar nos 10.000€ que aquele doente ia gastar no último mês da sua vida e usá-lo de uma forma que salve mais vidas? Se calhar não, porque as vidas não se podem comparar assim, como se 100 valessem mais do que 10. Mas na gestão têm de se contar assim, porque o dinheiro, de facto, não cresce.
- não vai haver gente com hipóteses de cura a ficar sem tratamento. Vai é continuar a fazer-se como até aqui (e o bastonário actual vir criticar é de uma grande hipocrisia, porque já se faz só que não se diz que se faz): não há o topo de gama dos fármacos de quimioterapia, porque só poderíamos dar tratamento a uma porção dos doentes. Há uns menos melhores mas que nos permitem tratar 100%. E todos os dias há gestores de hospitais a proibir o uso de certos fármacos porque são muito caros. Era preferível continuar a fazer-se às escondidas? Pelo menos agora está claro que se escolhem os mais baratos dos melhores (para usar as palavras do senhor). Até aqui fazia-se isso e não se dizia nada.
- a quem se vai cortar tratamentos (não sei critérios, não sei quem decide, não sei nada; aliás, acho que ninguém sabe bem, ainda) é nos casos terminais. Atenção: vão cortar-se tratamentos CURATIVOS e não PALIATIVOS, como li muita gente confundir pela internet fora. Nos curativos, vão escolher-se fármacos mais baratos – que, repito, já é prática comum, só que o público não sabe.
- não é uma questão de merecer ou não merecer. A ser bem feito (e, lá está, isto é o que ainda não se sabe, até porque a comissão de ética não tem poder de decisão sobre isto, agora é o ministério que resolve), vai ser como o que já acontece agora. Agora também já se param terapêuticas ou nem se iniciam, se se concluir que a) não vão prolongar a vida do doente ou b) vão prolongá-la mas sem qualidade de vida.
Eu não acho mal que estas coisas, que já se fazem, se passem a fazer às claras. Porque acho importante percebermos isto. Eu confesso que fiquei muito chocada quando me disseram, no primeiro ano de medicina, que cá não se usavam os melhores quimioterápicos. Como não?! Mas se pararmos um bocadinho, percebemos: como podemos usar os melhores fármacos, se assim só tratávamos parte dos doentes?
Tudo isto é muito difícil, de pensar e de discutir. E eu não acredito que o presidente da comissão de ética tenha dito o que disse de ânimo leve. Não consigo acreditar. Nem que a comissão de ética (que decidiu com unanimidade) o tenha feito também de ânimo leve. Mas acho que às vezes não há grande escolha, pois não? Numa metáfora feia, mas muito apropriada: às vezes temos de amputar o pé para não perdermos a perna toda. É duro, é feio, mas é a realidade.
E sim, isto é horrível. E o senhor se calhar não escolheu as melhores palavras. E idealmente era muito melhor se pudessemos ter todos os melhores medicamentos e as melhores condições. Mas parece que não temos dinheiro para isso. Nem os países ricos têm dinheiro para isso.E sim, devíamos cortar noutros sítios e não aqui, mas se não tivessemos mais onde cortar e esta questão se pusesse estávamos aqui outra vez.
Podemos entrar por outro lado e questionar por que razão são os tratamentos e os medicamentos tão caros. E esse é um caminho ainda mais complicado. Tomemos, por exemplo, os tais biológicos referidos acima.
Os biológicos custam fortunas porque são anticorpos sintéticos e ainda são de produção muito cara. Mas também custam fortunas porque as farmacêuticas que os desenvolveram têm a patente dos fármacos. Ora, isto resolvia-se facilmente se mudássemos a política de patentes e impedíssemos a “patente exclusiva” ou lá o que é (não faço ideia se se chama assim, mas vocês percebem). Mas se tirássemos às farmacêuticas o incentivo das patentes (que é o que lhes permite ganhar MUITO dinheiro com os medicamentos que desenvolvem) estaríamos a tirar-lhes a única razão pela qual elas investem biliões de euros na investigação e desenvolvimento de novos medicamentos. As farmacêuticas passariam a viver dos lucros dos fármacos que já criaram e a investigação ficava só nas faculdades e institutos públicos – que não têm dinheiro nenhum, comparados com os gigantes da área. E a medicina parava no tempo.
Era bom que houvesse quem fizesse investigação pelo bem da humanidade, sem exigir nada em troca? Era incrível. Mas não me parece que vá acontecer.
Era bom que houvesse quem fizesse investigação pelo bem da humanidade, sem exigir nada em troca? Era incrível. Mas não me parece que vá acontecer.
Há discussões impossíveis. E que se tornam ainda mais difíceis pela histeria colectiva que geram. Usar termos como “eutanásia dos pobres” ou eugenia é o equivalente a gritar fogo num estádio apinhado – começa tudo a gritar e a correr para a porta e já ninguém ouve o senhor lá ao fundo a dizer que não, foi só uma beata que pegou fogo a um caixote do lixo. Não ajuda à discussão, não permite a discussão.
Não queiram fazer preto ou branco de uma questão com tantos tons de cinzento. Não ajuda ninguém, não adianta nada. E já agora, vão ler o Público, que foi o único que, ontem e hoje, falou com calma e cuidado sobre esta questão, sem gritar fogo como os outros jornais fizeram.
diz-me os teus poemas
Estava para contar sobre Praga, mas ainda não vai ser já, porque esta manhã acordei a pensar num dos dias mais bonitos que me aconteceu no Verão passado: quando vários amigos se juntaram para falar dos seus poemas de vida.
A ideia surgiu devido a um post que escrevi há meses, "raízes". A memória desse tempo em que nos líamos poemas em voz alta, e a frase com que terminava:
Novos temas. Já não temos vinte anos. O que permanece: a exigência - a capacidade de se maravilhar - a confiança no poder transformador das nossas mãos - o riso - - -
E foi assim que nos juntámos de novo, amigos de tão fundas raízes, à volta de uma mesa de potluck (quem se teria lembrado de meter "luck" nesse nome, quem terá querido dizer a sorte que é saber juntar os amigos assim, sem complicações?) e depois sentados numa sala com vista para os navios do porto (uma bela alegoria) para mais uma vez nos falarmos dos poemas que iluminam os nossos passos.
Começámos com a Sophia que acompanha desde sempre este blogue:
Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus
Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra a fita
Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco
Trouxeram uma poetisa que eu não conhecia, Hilde Domin:
Não deixes o cansaço instalar-se
em vez disso
silenciosamente
como a um pássaro
estende a mão ao milagre.
Folheei o livro, e outras linhas vieram ao meu encontro:
A alegria
este modestíssimo animal
este doce unicórnio
tão silencioso
não se ouve
quando vem quando vai
meu animal doméstico
alegria
quando tem sede
lambe as lágrimas dos sonhos.
Um amigo releu o seu poema de sempre, "Quase", de Mário de Sá-Carneiro,
Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
(...)
outra leu versos que inspiram o seu trabalho como professora. Pensei no Diário do Sebastião da Gama. Tenho de voltar a esse poema, e a esse livro. E que fique hoje dito: em 2012, há professores no ensino público em Portugal que orientam o seu agir pela poesia. Calem-se os arautos da perdição: as escolas estão cheias de profetas - aqueles que acreditam num caminho que atravessa o estertor do tempo.
Daniel Faria foi-nos trazido pela voz de um seu antigo professor de português.
(Professor de português do Daniel Faria: que responsabilidade! Saberemos nós estar à altura do milagre que as nossas mãos ocasionalmente tocam?)
Ana Luísa Amaral esteve presente na sua carta à filha, a propósito de um quadro de Goya,
Um Pouco Só De Goya: Carta A Minha Filha:
e com ela veio o incontornável Jorge de Sena.
Como contraponto, um poeta popular do Norte, com as suas verdades simples expressas em rimas fáceis.
Eu disse de cor parte de um poema de Manuel António Pina, que me tem reconciliado com a ideia da morte, porque a retrata como o que é: algo natural e absoluto, inscrito em nós desde a primeira célula.
E muitos outros poemas, no meio de encantamento e riso. Soube a pouco.
Despedimo-nos com uma alegre promessa: repetiremos.
A esses amigos, digo hoje, no dia em que acordei com o eco das vossas vozes: obrigada!
A ideia surgiu devido a um post que escrevi há meses, "raízes". A memória desse tempo em que nos líamos poemas em voz alta, e a frase com que terminava:
Novos temas. Já não temos vinte anos. O que permanece: a exigência - a capacidade de se maravilhar - a confiança no poder transformador das nossas mãos - o riso - - -
E foi assim que nos juntámos de novo, amigos de tão fundas raízes, à volta de uma mesa de potluck (quem se teria lembrado de meter "luck" nesse nome, quem terá querido dizer a sorte que é saber juntar os amigos assim, sem complicações?) e depois sentados numa sala com vista para os navios do porto (uma bela alegoria) para mais uma vez nos falarmos dos poemas que iluminam os nossos passos.
Começámos com a Sophia que acompanha desde sempre este blogue:
Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus
Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra a fita
Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco
Trouxeram uma poetisa que eu não conhecia, Hilde Domin:
Não deixes o cansaço instalar-se
em vez disso
silenciosamente
como a um pássaro
estende a mão ao milagre.
Folheei o livro, e outras linhas vieram ao meu encontro:
A alegria
este modestíssimo animal
este doce unicórnio
tão silencioso
não se ouve
quando vem quando vai
meu animal doméstico
alegria
quando tem sede
lambe as lágrimas dos sonhos.
Um amigo releu o seu poema de sempre, "Quase", de Mário de Sá-Carneiro,
Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
(...)
outra leu versos que inspiram o seu trabalho como professora. Pensei no Diário do Sebastião da Gama. Tenho de voltar a esse poema, e a esse livro. E que fique hoje dito: em 2012, há professores no ensino público em Portugal que orientam o seu agir pela poesia. Calem-se os arautos da perdição: as escolas estão cheias de profetas - aqueles que acreditam num caminho que atravessa o estertor do tempo.
Daniel Faria foi-nos trazido pela voz de um seu antigo professor de português.
(Professor de português do Daniel Faria: que responsabilidade! Saberemos nós estar à altura do milagre que as nossas mãos ocasionalmente tocam?)
Ana Luísa Amaral esteve presente na sua carta à filha, a propósito de um quadro de Goya,
Um Pouco Só De Goya: Carta A Minha Filha:
Lembras-te de
dizer que a vida era uma fila?
Eras pequena e
o cabelo mais claro,
mas os olhos
iguais. Na metáfora dada
pela infância,
perguntavas do espanto
da morte e do
nascer, e de quem se seguia
e porque se
seguia, ou da total ausência
de razão nessa
cadeia em sonho de novelo.
Hoje, nesta
noite tão quente rompendo-se
de junho, o
teu cabelo claro mais escuro,
queria
contar-te que a vida é também isso:
uma fila no
espaço, uma fila no tempo,
e que o teu
tempo ao meu se seguirá.
Num estilo que
gostava, esse de um homem
que um dia
lembrou Goya numa carta a seus
filhos, queria
dizer-te que a vida é também
isto: uma
espingarda às vezes carregada
(como dizia
uma mulher sozinha, mas grande
de jardim).
Mostrar-te leite-creme, deixar-te
testamentos,
falar-te de tigelas -- é sempre
olhar-te amor.
Mas é também desordenar-te à
vida,
entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua
de mentiras,
em carinho de verso.
E o que queria
dizer-te é dos nexos da vida,
de quem a
habita para além do ar.
E que o
respeito inteiro e infinito
não precisa de
vir depois do amor.
Nem antes. Que
as filas só são úteis
como formas de
olhar, maneiras de ordenar
o nosso
espanto, mas que é possível pontos
paralelos,
espelhos e não janelas.
E que tudo
está bem e é bom: fila ou
novelo, duas
cabeças tais num corpo só,
ou um dragão
sem fogo, ou unicórnio
ameaçando
chamas muito vivas.
Como o cabelo
claro que tinhas nessa altura
se transformou
castanho, ainda claro,
e a metáfora
feita pela infância
se revelou tão
boa no poema. Se revela
tão útil para
falar da vida, essa que,
sem tigelas,
intactas ou partidas, continua
a ser boa,
mesmo que em dissonância de novelo.
Não sei que te
dirão num futuro mais perto,
se quem assim
habita os espaços das vidas
tem olhos de
gigante ou chifres monstruosos.
Porque te amo,
queria-te um antídoto
igual a
elixir, que te fizesse grande
de repente,
voando, como fada, sobre a fila.
Mas por te
amar, não posso fazer isso,
e nesta noite
quente a rasgar junho,
quero dizer-te
da fila e do novelo
e das formas
de amar todas diversas,
mas feitas de
pequenos sons de espanto,
se o justo e o
humano aí se abraçam.
A vida, minha
filha, pode ser
de metáfora
outra: uma língua de fogo;
uma camisa
branca da cor do pesadelo.
Mas também
esse bolbo que me deste,
e que agora
floriu, passado um ano.
Porque houve
terra, alguma água leve,
e uma varanda a libertar-lhe os passos.
e com ela veio o incontornável Jorge de Sena.
Como contraponto, um poeta popular do Norte, com as suas verdades simples expressas em rimas fáceis.
Eu disse de cor parte de um poema de Manuel António Pina, que me tem reconciliado com a ideia da morte, porque a retrata como o que é: algo natural e absoluto, inscrito em nós desde a primeira célula.
Alguém o
chamara por outro nome,
um absoluto
nome,
de muito
longe.
E o cão
partira
ao encontro
desse nome
como chegara:
só.
E a mãe
enterrou-o
sob a buganvília
dizendo: "É a vida..."
E muitos outros poemas, no meio de encantamento e riso. Soube a pouco.
Despedimo-nos com uma alegre promessa: repetiremos.
A esses amigos, digo hoje, no dia em que acordei com o eco das vossas vozes: obrigada!
Holm Birkholz hoje na Filarmonia
Terça-feira, dia de Lunchkonzert no foyer da Filarmonia. O programa anuncia para hoje Holm Birkholz, solista de violino, tocando uma composição sua: Arpeggio – Im Echo der Stille.
Diz que é uma música como se estivéssemos a meditar com Bach num planalto do Himalaia, tocando os segredos do mundo.
(Lá está Deus outra vez com o seu nogueiral: hoje apetece-me pouco tocar os segredos do mundo no Himalaia, prefiro ficar em casa a resolver comezinhices. Não vou.)
01 outubro 2012
aquilo a que temos direito (2)
Em jeito de resposta a comentários ao post anterior:
1. A barulheira das reacções ao parecer do Conselho Nacional de Ética surpreendeu-me por vários motivos:
- Pareceu-me que as pessoas desataram a gritar, mesmo antes de lerem o parecer. É verdade que as declarações publicadas não primaram pela sensibilidade, mas o parecer em si não merecia esta reacção - insiste na necessidade da transparência, sugere que se olhe para a experiência de outros países, como o Canadá (vá lá que não disseram o Ghana...), e propõe que se use o mais barato dos melhores, o que me parece uma solução razoável. O Paulo Pedroso leu o parecer, e chegou à conclusão - como podem ler aqui - que a proposta é razoável, mas fugiu ao debate ético e dá um cheque em branco ao governo. Não sei como aconselhar "o mais barato dos melhores" e "mais transparência na decisão" seja um cheque em branco ao governo, mas deixo aí o link para quem o quiser ler e debater.
- O tipo de argumento usado ("a eutanásia dos pobres", "o Mengele não faria melhor") lembra-me a história de Pedro e o lobo: se invocam o nome de Mengele para isto, que nome usarão para reagir caso o SNS português seja alvo de reformas como o britânico?
- Vivo num país onde há dezenas de anos se diz que o sistema está a chegar aos seus limites, e que mesmo que se aplicasse todo o dinheiro disponível na saúde, não seria possível financiar tudo o que seria desejável, pelo que é preciso fazer escolhas e tomar decisões. Há cerca de dez anos começaram a aumentar as contribuições e a reduzir o leque de prestações - e as pessoas aceitam, porque percebem que essa é a única maneira de preservar o sistema público de saúde.
Para mim, é um dado adquirido que não há recursos suficientes, e que não posso exigir da minha sociedade solidária que invista na minha saúde para lá do razoável. (OK, depois vamos discutir - de cabeça fria e sem chamar para aqui o Hitler - o que é "razoável".)
- Pergunto-me em que país vivem as pessoas. Porquê esta gritaria agora? Porque é que se lembram do Mengele a propósito de três medicamentos caríssimos, e não dizem nada quanto à duração da lista de espera para operar tumores malignos? Qual é o período médio de espera para essas operações, hoje em dia? Na Alemanha espera-se no máximo uma semana; em Portugal, uma amiga minha esperou meio ano (podia ter metido uma cunha para passar à frente na lista, mas não meteu - e só esta frase seria motivo para muita gritaria, mas estranhamente ninguém parece muito incomodado com o sistema de cunhas que acompanha o SNS).
Contudo, compreendo em parte esta reacção: num país em regime de austeridade e consequente recessão, onde as pessoas têm preocupações realmente existenciais e todos os dias contam receber mais notícias terríveis, aparecer alguém a falar de forma insensível e pouco articulada sobre a necessidade de poupar no sector da Saúde faz soar todas as campainhas de alarme.
2. Falaram em humanismo, e pediram-me filosofia.
Em termos de filosofia, sou muito Sócrates: só sei que nada sei, e por nada deste mundo queria fazer parte dessas Comissões de Ética, ou ser Ministra da Saúde. E sou um bocadinho Diógenes: a filosofia começa em casa. Mais concretamente: eu não quero que os meus filhos vendam a casa para pagarem uma remota possibilidade de me prolongarem a vida duas semanas ou dois meses. Do mesmo modo, não quero exigir da minha sociedade solidária um esforço exagerado para me oferecer o melhor de tudo, em termos de saúde. Entre investir 100.000 euros nas últimas semanas da minha vida, ou (isto sou eu outra vez a delirar) mandar vir por uns tempos uns médicos búlgaros que operem no turno da noite, de modo a reduzir substancialmente o tempo de espera para operações de tumores malignos, prefiro que me deixem morrer em paz e fiquem lá com os 100.000 euros para fazer essas operações.
O Philippe Ariès tem um livro muito interessante, "História da Morte", onde ilustra o modo como as sociedades olham para a morte dos humanos. Enquanto o homem medieval reconhecia o momento em que a morte chegava, e o enfrentava com naturalidade, as pessoas do nosso tempo morrem não porque a morte faça parte da vida, mas porque a medicina falhou. O que explica que nos últimos dez dias da vida de uma pessoa se gastem enormidades em medicamentos e máquinas. Claro que nunca sabemos quando começou a contagem decrescente dos dez dias (ou não queremos aceitar) - o que torna a decisão de desistir muito complicada. Mesmo assim, convém termos isso presente: a vida humana tem um valor inestimável, mas nem todo o dinheiro do mundo nos livra da nossa morte.
A propósito: uma amiga falou-me do conselho que lhe deram no hospital: "leve o seu marido para casa, porque a gente aqui não o pode ajudar, e ao menos ele sempre morre ao lado dos que o amam". Vão dizer que isto é uma medida economicista, ou de pura humanidade?
3. Disseram que todos têm direito a iguais cuidados de saúde, independentemente da idade e do meio social.
Quanto à idade: sabemos que não é assim. Se houver um coração para transplantar, dão-no à pessoa de vinte anos e não à de oitenta. Se houver apenas um pulmão artificial disponível, entre mim e um miúdo de cinco anos vão escolher o miúdo de cinco anos. Mesmo que eu tenha um seguro de saúde privado, o tal coração e a tal máquina serão dados a alguém mais novo e com mais hipóteses de poder aproveitar o uso desse bem escasso (há regras que só o crime pode contornar).
Quanto ao meio social: pode ser influência do que tenho ouvido na Alemanha, mas sinto-me bem com isso - a sociedade garante um standard de elevada qualidade; quem quiser mais que isso (exames de rastreio com mais regularidade que a garantida pelo SNS, quarto de duas camas no hospital, determinados tratamentos dentários, medicamentos de ponta - que, diga-se de passagem, nem sempre são sinónimo de qualidade -, tratamento hospitalar monitorado pessoalmente pelo chefe de serviço, determinado tipo de óculos, etc.) tem de fazer um seguro complementar. Se é fundamental que se assegure um nível muito digno de cuidados de saúde para todos, já tenho as minhas dúvidas que seja necessário e viável dar a todos aquilo que os mais ricos podem comprar.
Parece-me que temos de ter cuidado com os princípios, e ter presente que o óptimo pode ser um inimigo mortal do bom. E o bom é o Estado Social que ainda temos, e que é o possível tendo em conta a nossa situação económica (e nem vou falar da financeira).
4. Falaram em corrupção dos políticos, má distribuição de recursos, má gestão, necessidade de impedir as fugas aos impostos, etc. O costume.
Não vou discutir isso - muito há para fazer. Mas neste momento havia que responder a uma questão concreta: que critérios definir para o uso de três medicamentos que no ano passado custaram ao SNS 500 milhões de euros. Não podemos adiar esta resposta até termos cumprido a agenda moral e social que, como povo, andamos a empurrar com a barriga há centenas de anos.
1. A barulheira das reacções ao parecer do Conselho Nacional de Ética surpreendeu-me por vários motivos:
- Pareceu-me que as pessoas desataram a gritar, mesmo antes de lerem o parecer. É verdade que as declarações publicadas não primaram pela sensibilidade, mas o parecer em si não merecia esta reacção - insiste na necessidade da transparência, sugere que se olhe para a experiência de outros países, como o Canadá (vá lá que não disseram o Ghana...), e propõe que se use o mais barato dos melhores, o que me parece uma solução razoável. O Paulo Pedroso leu o parecer, e chegou à conclusão - como podem ler aqui - que a proposta é razoável, mas fugiu ao debate ético e dá um cheque em branco ao governo. Não sei como aconselhar "o mais barato dos melhores" e "mais transparência na decisão" seja um cheque em branco ao governo, mas deixo aí o link para quem o quiser ler e debater.
- O tipo de argumento usado ("a eutanásia dos pobres", "o Mengele não faria melhor") lembra-me a história de Pedro e o lobo: se invocam o nome de Mengele para isto, que nome usarão para reagir caso o SNS português seja alvo de reformas como o britânico?
- Vivo num país onde há dezenas de anos se diz que o sistema está a chegar aos seus limites, e que mesmo que se aplicasse todo o dinheiro disponível na saúde, não seria possível financiar tudo o que seria desejável, pelo que é preciso fazer escolhas e tomar decisões. Há cerca de dez anos começaram a aumentar as contribuições e a reduzir o leque de prestações - e as pessoas aceitam, porque percebem que essa é a única maneira de preservar o sistema público de saúde.
Para mim, é um dado adquirido que não há recursos suficientes, e que não posso exigir da minha sociedade solidária que invista na minha saúde para lá do razoável. (OK, depois vamos discutir - de cabeça fria e sem chamar para aqui o Hitler - o que é "razoável".)
- Pergunto-me em que país vivem as pessoas. Porquê esta gritaria agora? Porque é que se lembram do Mengele a propósito de três medicamentos caríssimos, e não dizem nada quanto à duração da lista de espera para operar tumores malignos? Qual é o período médio de espera para essas operações, hoje em dia? Na Alemanha espera-se no máximo uma semana; em Portugal, uma amiga minha esperou meio ano (podia ter metido uma cunha para passar à frente na lista, mas não meteu - e só esta frase seria motivo para muita gritaria, mas estranhamente ninguém parece muito incomodado com o sistema de cunhas que acompanha o SNS).
Contudo, compreendo em parte esta reacção: num país em regime de austeridade e consequente recessão, onde as pessoas têm preocupações realmente existenciais e todos os dias contam receber mais notícias terríveis, aparecer alguém a falar de forma insensível e pouco articulada sobre a necessidade de poupar no sector da Saúde faz soar todas as campainhas de alarme.
2. Falaram em humanismo, e pediram-me filosofia.
Em termos de filosofia, sou muito Sócrates: só sei que nada sei, e por nada deste mundo queria fazer parte dessas Comissões de Ética, ou ser Ministra da Saúde. E sou um bocadinho Diógenes: a filosofia começa em casa. Mais concretamente: eu não quero que os meus filhos vendam a casa para pagarem uma remota possibilidade de me prolongarem a vida duas semanas ou dois meses. Do mesmo modo, não quero exigir da minha sociedade solidária um esforço exagerado para me oferecer o melhor de tudo, em termos de saúde. Entre investir 100.000 euros nas últimas semanas da minha vida, ou (isto sou eu outra vez a delirar) mandar vir por uns tempos uns médicos búlgaros que operem no turno da noite, de modo a reduzir substancialmente o tempo de espera para operações de tumores malignos, prefiro que me deixem morrer em paz e fiquem lá com os 100.000 euros para fazer essas operações.
O Philippe Ariès tem um livro muito interessante, "História da Morte", onde ilustra o modo como as sociedades olham para a morte dos humanos. Enquanto o homem medieval reconhecia o momento em que a morte chegava, e o enfrentava com naturalidade, as pessoas do nosso tempo morrem não porque a morte faça parte da vida, mas porque a medicina falhou. O que explica que nos últimos dez dias da vida de uma pessoa se gastem enormidades em medicamentos e máquinas. Claro que nunca sabemos quando começou a contagem decrescente dos dez dias (ou não queremos aceitar) - o que torna a decisão de desistir muito complicada. Mesmo assim, convém termos isso presente: a vida humana tem um valor inestimável, mas nem todo o dinheiro do mundo nos livra da nossa morte.
A propósito: uma amiga falou-me do conselho que lhe deram no hospital: "leve o seu marido para casa, porque a gente aqui não o pode ajudar, e ao menos ele sempre morre ao lado dos que o amam". Vão dizer que isto é uma medida economicista, ou de pura humanidade?
3. Disseram que todos têm direito a iguais cuidados de saúde, independentemente da idade e do meio social.
Quanto à idade: sabemos que não é assim. Se houver um coração para transplantar, dão-no à pessoa de vinte anos e não à de oitenta. Se houver apenas um pulmão artificial disponível, entre mim e um miúdo de cinco anos vão escolher o miúdo de cinco anos. Mesmo que eu tenha um seguro de saúde privado, o tal coração e a tal máquina serão dados a alguém mais novo e com mais hipóteses de poder aproveitar o uso desse bem escasso (há regras que só o crime pode contornar).
Quanto ao meio social: pode ser influência do que tenho ouvido na Alemanha, mas sinto-me bem com isso - a sociedade garante um standard de elevada qualidade; quem quiser mais que isso (exames de rastreio com mais regularidade que a garantida pelo SNS, quarto de duas camas no hospital, determinados tratamentos dentários, medicamentos de ponta - que, diga-se de passagem, nem sempre são sinónimo de qualidade -, tratamento hospitalar monitorado pessoalmente pelo chefe de serviço, determinado tipo de óculos, etc.) tem de fazer um seguro complementar. Se é fundamental que se assegure um nível muito digno de cuidados de saúde para todos, já tenho as minhas dúvidas que seja necessário e viável dar a todos aquilo que os mais ricos podem comprar.
Parece-me que temos de ter cuidado com os princípios, e ter presente que o óptimo pode ser um inimigo mortal do bom. E o bom é o Estado Social que ainda temos, e que é o possível tendo em conta a nossa situação económica (e nem vou falar da financeira).
4. Falaram em corrupção dos políticos, má distribuição de recursos, má gestão, necessidade de impedir as fugas aos impostos, etc. O costume.
Não vou discutir isso - muito há para fazer. Mas neste momento havia que responder a uma questão concreta: que critérios definir para o uso de três medicamentos que no ano passado custaram ao SNS 500 milhões de euros. Não podemos adiar esta resposta até termos cumprido a agenda moral e social que, como povo, andamos a empurrar com a barriga há centenas de anos.
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