09 outubro 2012

Praga (4)

Já vou no quarto post sobre Praga, e ainda só é sábado de manhã, ainda estou sentada em frente a um belíssimo cappuccino, e agarrem-me porque estou com vontade de pespegar mais uma vez a fotografia daquele bolo que entretanto começa a ser o mais famoso bolo de Praga em português...

O melhor é largar aquele lugar de perdição, e continuar o passeio.

Seguimos na direcção da capela de Belém. O nosso guia falava de novo de Jan Hus e da sua visão de uma Igreja pobre, e de ideias revolucionárias que chegariam um século mais tarde à Alemanha. Queríamos entrar na famosa capela despojada, onde o púlpito ocupava o lugar central e nem havia altar. Entrámos numa capela que nos pareceu ser essa: despojada, a palavra como elemento estruturador do espaço, o cálice como símbolo central, em vez da cruz.


Tudo perfeito - mas afinal não era a capela de Belém, era São Martinho do Muro, uma igreja gótica com excelente acústica, onde fazem frequentemente concertos de música clássica (bom, mas concertos de música clássica é o que mais há nas igrejas e nos palácios de Praga). Na nave lateral encontrei uma senhora que estava a passar uma toalha branca a ferro. Perguntei-lhe onde ficava a capela de Belém, ela foi buscar os óculos para me ajudar a entender o meu mapa, e entretanto apareceu um senhor que me deu um prospecto dos concertos naquele bairro, com um belo mapa da cidade em estilo Merian. Muito simpáticos, estes checos!

A capela do Jan Hus era algumas centenas de metros à frente, e deixou-nos decepcionados, porque o que lá existe é uma reconstrução - a possível - a partir do pouco que restou daquele templo medieval. A igreja passou para os jesuítas no séc. XVII, e em fins do séc. XVIII foi fechada. A construção foi-se degradando, até que optaram por destruir boa parte do que restava, e fazer um prédio de apartamentos. No séc. XX resolveram repor a igreja inicial, e o resultado é um belo de um pastiche que não é nada: uma sala sem alma, e de história colada a cuspo, com um palco central para eventos da universidade e reproduções de pinturas medievais nas paredes. E com uma reconstrução do púlpito de Jan Hus - mais valia terem deixado aquela porta original nua, em vez de a taparem com esta construção que nem faz jus à história nem respeita a nossa imaginação.




Para ver a capela era preciso comprar um bilhete, e como já o tínhamos, para não perder dinheiro (!..) subimos ao andar de cima, onde havia um museu. Talvez voltemos lá com mais calma, para ler sobre a história daquele país e o movimento hussita.


Desta vez, trouxe de lá apenas uma imagem medieval que tem o seu quê de actualidade: um acidente com a carruagem do Papa, o povo muito aflito, os clérigos a olhar e a rezar placidamente. E faz de conta que os bichos são burros, faz de conta que continuam a puxar a carruagem, "de pé ou tombado, não se pode parar"...


Mais uns passos, e chegámos ao Clementinum, o colégio jesuíta com a sua famosa biblioteca.

 (daqui)

Aos anos que ando nesta vida, e ainda não aprendi a desconfiar das promessas publicitárias? Pensava que ia ver algo fantástico, do outro mundo, e afinal era apenas uma belíssima biblioteca barroca. Nada mais. Sussurrei ao Joachim: "A nossa de Mafra é muito melhor!" e ele respondeu: "E a nossa de Coimbra também!"

A visita guiada inclui a capela dos espelhos, com um órgão "onde Mozart talvez tenha tocado, porque veio algumas vezes a Praga e tinha amigos no Clementinum", e a subida à torre astronómica. Com elevador, claro, ou não estivéssemos em Praga.

O guia explicava os detalhes, a marca do sol que ao meio-dia tocava determinado ponto no chão, as bandeiras que se hasteavam nesse momento para assinalar a hora, as bandeiras multiplicadas nas outras torres da cidade, num autêntico dominó dos meios-dias. Um processo que se repetiu quotidianamente até princípios do séc. XX, até ser substituído pelo rádio. Falava do Kepler e de outros astrónomos famosos, e de um professor, um obstinado que em 1752 começou a medir temperaturas e humidades diariamente, trabalho que foi continuado pelos seus sucessores, e que faz do Clementinum a instituição que tem o mais antigo registo de medição climática do mundo.
Agora, dizia o guia, a torre já não serve para observações astronómicas devido à poluição luminosa.
Mas serve para os turistas fazerem fotografias dos telhados de Praga...



...e da ponte Karlova, sempre sempre sempre atafulhada de turistas.


O sábado continuava de chuva. Optámos por ignorar os bonecos do relógio astronómico,


e fomos em busca do Museu do Cubismo.
Infelizmente estava fechado para obras, mas o seu maravilhoso Gran Cafe Orient, em estilo cubista, estava aberto.





Havia até um piano em estilo cubista, e um pianista que parecia pertencer à mobília. O telemóvel tocou, e ele atendeu-o, continuando a tocar com a mão direita. O Joachim piscou-lhe o olho, ele retorquiu com um sorriso.
Encomendámos um espumante da região, e três copos - um era para o pianista, que nos veio agradecer e perguntou que música gostaríamos de ouvir. O Joachim pediu "take five", eu disse que tinha gostado muito do Rachmaninov que ele tocara. Lá veio o "take five", lá veio a Clair de Lune de Beethoven, lá veio o meu bolo (fantástico!) (Peter Paul Rubens rules!) (forever!).
Depois o pianista começou a tocar músicas de filmes, e nós ficámos por ali a ver quem adivinhava primeiro que filme era. Até que se acabou o espumante, e saímos de novo para a cidade.
Perdemo-nos um bocadinho, atravessámos um antigo centro comercial com uma extraordinária cúpula...


...e pela primeira vez atravessámos o rio. Chovia.


Jantámos no Café Savoy, que nos tinha sido muito recomendado. Uma sopa de camarão do rio, muito saborosa, e um pato com dumplings de pão que não estava nada mal - nunca comi dumplings tão leves.


Anoiteceu, voltámos para o nosso lado da cidade, ainda à chuva,


e capitulámos sem reservas perante a nossa condição de turistas: fomos assistir a um Teatro Negro. É para turistas, já se sabe. Mas passámos hora e meia com um sorriso nos lábios - e só por isso já valeu a pena. Por isso, e pelo que fizeram no fim: revelaram os truques, e até nos deixaram fotografar!



Miguel Sousa Tavares - algumas propostas interessantes

Encontrado no facebook:

Miguel Sousa Tavares no Expresso de ontem.

O que poderemos nós pensar quando, depois de tantos anos a exigir o fim das SCUT, descobrimos que, afinal, o fim das auto-estradas sem portagens ainda iria conseguir sair mais caro ao Estado? 

 Como caixa de ressonância daqueles que de quem é porta-voz (tendo há muito deixado de ter voz própria), o presidente da Comissão Europeia, o português Durão Barroso, veio alinhar-se com os conselhos da troika sobre Portugal: não há outro caminho que não o de seguir a “solução” da austeridade e acelerar as “reformas estruturais” — descer os custos salariais, liberalizar mais ainda os despedimentos e diminuir o alcance do subsídio de desemprego. Que o trio formado pelo careca, o etíope e o alemão ignorem que em Portugal se está a oferecer 650 euros de ordenado a um engenheiro electrotécnico falando três línguas estrangeiras ou 580 euros a um dentista em horário completo é mais ou menos compreensível para quem os portugueses são uma abstracção matemática. Mas que um português, colocado nos altos círculos europeus e instalado nos seus hábitos, também ache que um dos nossos problemas principais são os ordenados elevados, já não é admissível. Lembremo-nos disto quando ele por aí vier candidatar-se a Presidente da República. 

Durão Barroso é uma espécie de cata-vento da impotência e incompetência dos dirigentes europeus. Todas as semanas ele cheira o vento e vira-se para o lado de onde ele sopra: se os srs. Monti, Draghi, Van Rompuy se mostram vagamente preocupados com o crescimento e o emprego, lá, no alto do edifício europeu, o cata-vento aponta a direcção; se, porém, na semana seguinte, os mesmos senhores mais a srª Merkel repetem que não há vida sem austeridade, recessão e desemprego, o cata-vento vira 180 graus e passa a indicar a direcção oposta. Quando um dia se fizer a triste história destes anos de suicídio europeu, haveremos de perguntar como é que a Europa foi governada e destruída por um clube fechado de irresponsáveis, sem uma direcção, uma ideia, um projecto lógico. Como é que se começou por brincar ao directório castigador para com a Grécia para acabar a fazer implodir tudo em volta. Como é que se conseguiu levar a Lei de Murphy até ao absoluto, fazendo com que tudo o que podia correr mal tivesse corrido mal: o contágio do subprime americano na banca europeia, que era afirmadamente inviável e que estoirou com a Islândia e a Irlanda e colocou a Inglaterra de joelhos; a falência final da Grécia, submetida a um castigo tão exemplar e tão inteligente que só lhe restou a alternativa de negociar com as máfias russas e as Three Gorges chinesas; como é que a tão longamente prevista explosão da bolha imobiliária espanhola acabou por rebentar na cara dos que juravam que a Espanha aguentaria isso e muito mais; como é que as agências de notação, os mercados e a Goldman Sachs puderam livremente atacar a dívida soberana de todos os Estados europeus, excepto a Alemanha, numa estratégia concertada de cerco ao euro, que finalmente tornou toda a Europa insolvente. Ou como é que um pequeno país, como Portugal, experimentou uma receita jamais vista — a de tentar salvar as finanças públicas através da ruína da economia — e que, oh, espanto, produziu o resultado mais provável: arruinou uma coisa e outra. E como é que, no final de tudo isto, as periferias implodiram e só o centro — isto é, a Alemanha e seus satélites — se viu coberto de mercadorias que os seus parceiros europeus não tinham como comprar e atulhado em triliões de euros depositados pelos pobres e desesperados e que lhes puderam servir para comprar tudo, desde as ilhas gregas à água que os portugueses bebiam. 

Deixemos os grandes senhores da Europa entregues à sua irrecuperável estupidez e detenhamo-nos sobre o nosso pequeno e infeliz exemplo, que nos serve para perceber que nada aconteceu por acaso, mas sim porque umas vezes a incompetência foi demasiada e outras a inocência foi de menos. 

O que podemos nós pensar quando o ex-ministro Teixeira dos Santos ainda consegue jurar que havia um risco sistémico de contágio se não se nacionalizasse aquele covil de bandidos do BPN? Será que todo o restante sistema bancário também assentava na fraude, na evasão fiscal, nos negócios inconfessáveis para amigos, nos bancos-fantasmas em Cabo Verde para esconder dinheiro e toda a restante série de traficâncias que de há muito — de há muito! — se sabia existirem no BPN? E como, com que fundamento, com que ciência, pode continuar a sustentar que a alternativa de encerrar, pura e simplesmente, aquele vão de escada “faria recuar a economia 4%”? Ou que era previsível que a conta da nacionalização para os contribuintes não fosse além dos 700 milhões de euros? 

O que poderemos nós pensar quando descobrimos que à despesa declarada e à dívida ocultada pelo dr. Jardim ainda há a somar as facturas escondidas debaixo do tapete, emitidas pelos empreiteiros amigos da “autonomia” e a quem ele prometia conseguir pagar, assim que os ventos de Lisboa lhe soprassem mais favoravelmente? 

O que poderemos nós pensar quando, depois de tantos anos a exigir o fim das SCUT, descobrimos que, afinal, o fim das auto-estradas sem portagens ainda iria conseguir sair mais caro ao Estado? Como poderíamos adivinhar que havia uns contratos secretos, escondidos do Tribunal de Contas, em que o Estado garantia aos concessionários das PPP que ganhariam sempre X sem portagens e X+Y com portagens? Mas como poderíamos adivinhá-lo se nos dizem sempre que o Estado tem de recorrer aos serviços de escritórios privados de advocacia (sempre os mesmos), porque, entre os milhares de juristas dos quadros públicos, não há uma meia dúzia que consiga redigir um contrato em que o Estado não seja sempre comido por parvo? 

A troika quer reformas estruturais? Ora, imponha ao Governo que faça uma lei retroactiva — sim, retroactiva — que declare a nulidade e renegociação de todos os contratos celebrados pelo Estado com privados em que seja manifesto e reconhecido pelo Tribunal de Contas que só o Estado assumiu riscos, encaixou prejuízos sem correspondência com o negócio e fez figura de anjinho. A Constituição não deixa? Ok, estabeleça-se um imposto extraordinário de 99,9% sobre os lucros excessivos dos contratos de PPP ou outros celebrados com o Estado. Eu conheço vários. 

Quer outra reforma, não sei se estrutural ou conjuntural, mas, pelo menos, moral? Obrigue os bancos a aplicarem todo o dinheiro que vão buscar ao BCE a 1% de juros no financiamento da economia e das empresas viáveis e não em autocapitalização, para taparem os buracos dos negócios de favor e de influência que andaram a financiar aos grupos amigos. 

Mais uma? Escrevam uma lei que estabeleça que todas as empresas de construção civil, que estão paradas por falta de obras e a despedir às dezenas de milhares, se possam dedicar à recuperação e remodelação do património urbano, público ou privado, pagando 0% de IRC nessas obras. Bruxelas não deixa? Deixa a Holanda ter um IRC que atrai para lá a sede das nossas empresas do PSI-20, mas não nos deixa baixar parte dos impostos às nossas empresas, numa situação de emergência? OK, Bruxelas que mande então fechar as empresas e despedir os trabalhadores. Cumpra-se a lei! 

Outra? Proíbam as privatizações feitas segundo o modelo em moda, que consiste em privatizar a parte das empresas que dá lucro e deixar as “imparidades” a cargo do Estado: quem quiser comprar leva tudo ou não leva nada. E, já agora, que a operação financeira seja obrigatoriamente conduzida pela Caixa Geral de Depósitos (não é para isso que temos um banco público, por enquanto?). O quê, a Caixa não tem vocação ou aptidão para isso? Não me digam! Então, os administradores são pagos como privados, fazem negócios com os grandes grupos privados, até compram acções dos bancos privados e não são capazes de fazer o que os privados fazem? E, quanto à engenharia jurídica, atenta a reiterada falta de vocação e de aptidão dos serviços contratados em outsourcing para defenderem os interesses do cliente Estado, a troika que nos mande uma equipa de juristas para ensinar como se faz. 

Tenho muitas mais ideias, algumas tão ingénuas como estas, mas nenhumas tão prejudiciais como aquelas com que nos têm governado. A próxima vez que o careca, o etíope e o alemão cá vierem, estou disponível para tomar um cafezinho com eles no Ritz. Pago eu, porque não tenho dinheiro para os juros que eles cobram se lhes ficar a dever.

***

Gosto das propostas. Se são exequíveis, estava capaz de propor manifs sugestão a sugestão: em vez de ir para a rua protestar contra o estado da situação, a manif do próximo sábado era apenas para mostrar quantos portugueses estão a favor de proibir as privatizações à nossa moda, e que de futuro se obrigue o comprador a levar tudo, e não apenas a parte que dá lucro; a do sábado seguinte seria a favor da renegociação dos contratos da PPP, etc.
É verdade que não faríamos outra coisa. Mas foi assim que o muro de Berlim caiu: porque as pessoas começaram a não fazer outra coisa. Às segundas-feiras, ao fim da tarde: manif.

***

Não gosto daquele "o careca, o etíope e o alemão". Mas que raio de retórica é essa?

Também tem uma pequena imprecisão: a Alemanha não está soterrada por produtos que não vende aos parceiros europeus. A Alemanha já começou há muito a perceber que precisa de diversificar os mercados, e  já exporta para fora da Europa 2/3 do que produz. E agora poupem-me os comentários tipo "ah, os espertalhões..."

Já a referência ao centro, que se viu "atulhado em triliões de euros depositados pelos pobres e desesperados e que lhes puderam servir para comprar tudo, desde as ilhas gregas à água que os portugueses bebiam" é algo que me enerva cada vez mais. Quem anda a depositar triliões de euros no centro da Europa não são pobres e desesperados, são ricos cínicos, que depois de se terem enchido de dinheiro à conta da corrupção - muitas vezes legal - do seu país, o foram pôr ao fresco quando viram o barco a afundar.
Sempre que me falam nos "juros agiotas" que o país está obrigado a pagar, tenho vontade de perguntar: "e tu, a que taxa de juro estarias disposto a emprestar as tuas poupanças ao governo do teu país?"
Também não percebo porque é que os governos não congelaram as contas para evitar essa sangria. Parece que agora já pensaram nisso: disseram-me que se um país sair do euro, em menos de 24 horas as contas europeias serão congeladas para evitar uma corrida aos bancos. Casa arrombada...
(Por mim, e sem pensar muito, não me repugnaria nada que esses empréstimos a taxa zero à Alemanha fossem devolvidos - quer dizer: fossem emprestados ao mesmo juro - ao país do proprietário desse dinheiro. Mas isto agora é a minha costela robespierrana a falar.)

***

Não estou a tentar desculpar os mercados, a Goldman Sachs, a inaptidão da Angela Merkel. Estou a chamar a atenção para a nossa parte da responsabilidade. Já vimos que eleger um governo de quatro em quatro anos não chega, já vimos que a abstenção ou o voto em branco não nos levam longe. Este é o tempo de assumirmos que a nossa vida tem de voltar a estar nas nossas mãos, e que o país que temos é o país que fazemos. Nós todos, cada um de nós.

08 outubro 2012

Pussy Riot e a liberdade que interessa a poucos





Contaram-me há tempos que o caso Pussy Riot poucas ondas levantou na Rússia, excepto para alguns ortodoxos fundamentalistas, de um lado, e para uma minoria, do outro, que saiu para a rua gritando "Liberdade!" - uma minoria composta por jovens, para quem a liberdade é um valor romântico; por homossexuais, para quem é liberdade é uma questão existencial; e por advogados, que encontram naquelas manifestações os seus futuros clientes...

(Estava à espera do primeiro de Abril para escrever este post, mas - às tantas - não é piada.)

Praga (3)

Meditações numa manhã de sábado em Praga:

* É preciso revolucionar a Arte. O nosso tempo anda perdido em conceitos estéticos completamente decadentes, desumanos, irreais. O Rubens é que sabia, e chegou o momento de voltar aos verdadeiros valores da nossa humanidade:


Mais concretamente, estes:



* Há muitos, muitos anos, trabalhava eu em planeamento regional, na área do turismo, cruzei-me na rua com uma antiga amiga, dos tempos da escola secundária, que me convidou para casa dela. O seu companheiro era um fotógrafo de guerra americano, que em algum momento desgraçado perdera as duas pernas. Passava o dia em casa à sua espera, numa cadeira de rodas. As próteses jaziam pelo chão, no meio de garrafas vazias. Tentei ignorar o ambiente sórdido, e começámos a conversar. Quando soube que eu trabalhava na área do turismo, largou em cima de mim toda a sua amargura: que Portugal pouco tinha para oferecer, que as estradas não prestavam (naquela altura, ainda nem auto-estrada Porto-Lisboa havia), que a Peneda-Gerês nada valia em comparação com os parques nacionais americanos, ou os Alpes, ou o Nepal, e que praias boas eram não sei onde, e cultura não sei onde mais. Eu brandia-lhe os prospectos da DGT com toda a verve, mas ele retorquia com dez sítios no mundo onde tudo isso era muito melhor.
Eu tinha 25 anos, e uma fé cega no que fazia. De modo que misturei a mensagem, o mensageiro, as próteses e as garrafas tudo no mesmo saco, e fui à minha vida. Às vezes lembro-me dessa conversa: em frente à ilha nos Alpes onde Nietzsche viveu, nos parques nacionais dos EUA, ou agora, no fim-de-semana passado, por estar sentada numa praça lindíssima em Praga. Mas - respira fundo, vai à luta! - ainda agora era capaz de lhe provar por a+b  que no Porto também há praças assim bonitas. E é para não falar em Ponte de Lima!
(ahem, pareço o Fox, esse cão de bolso, a ladrar para cães grandes: cheio de coragem, mas em movimentos de marcha atrás...)

* Uns dias antes desta viagem, a Olga e o Wladimir Kaminer tinham-nos dito que locais devíamos visitar. Eles conhecem bem Praga, gostam muito da cidade, e sugeriram que atravessássemos a ponte Karlov e passeássemos do outro lado do rio.
Sentada em frente a um magnífico cappuccino e um bolo divino, olhei para as arcadas das casas naquela praça: lembravam a praça do Giraldo, em Évora.


Portanto: convidei o casal Kaminer para ir a Portugal convencida que os levava para além de Tralalá - a lugares como eles nunca se lembrariam sequer de sonhar -, e levei-os a Évora...
...onde lhes mostrei uma praça como eles estão fartos de conhecer.
Só vos digo que o momento em que uma pessoa cai em si própria é sempre muito triste.

(Mas eles querem voltar a Portugal, já temos as férias agendadas e tudo, fartam-se de perguntar pelo Lutz. Pelo que posso começar a laborar numa teoria nova sobre Tralalá e o que se encontra no fim do arco-íris: não é o caldeirão de moedas de ouro, são as pessoas.)

07 outubro 2012

o sublime ataca de novo...


Fomos a Potsdam ver a exposição Friederisiko, a propósito do tricentenário de Frederico o Grande. A fila em frente à bilheteira estava com cara de durar pelo menos uma hora - é que a exposição acaba no fim deste mês e tem sido muito falada, mas só permitem 900 pessoas nas salas. Optámos por ir passear pelo Outono do parque - ainda não foi desta que entrámos no palácio.



Já tiraram os vasos gigantes - com laranjeiras, oliveiras e figueiras - que durante os meses mais quentes adornam o jardim à volta do palácio. Há três séculos que passam o inverno na Orangerie, o palácio construído num dos lados do parque para guardar estas espécies mais sensíveis ao frio. No lugar dos vasos, ficaram os subalugas do pedaço: ervas que se foram servindo da água da rega.





Em qualquer recanto deste parque se encontra mais um pavilhão, outro palácio, um jardim, uma escultura, uma pérgola. Nascem por todos os lados, como cogumelos no Outono.







Parámos nos Banhos Romanos, junto a uma casa em estilo italiano onde Alexander von Humboldt ficou várias vezes hospedado. Estou capaz de apostar que ele gostaria do sítio.







Dizem que não há mau tempo, há apenas roupa inadequada. Os pais deste miúdo puseram-lhe calças impermeáveis e galochas, e deixaram-nos meter-se com o seu triciclo em tudo o que era pocinha de água. Sem dramas.


Uma família atravessou o parque de bicicleta. Tinham todos casacos vermelhos, o que fazia uma fila engraçada.


Quando vim morar para a Alemanha, em 1989, as lojas fechavam todas ao fim da manhã de sábado, e só abriam de novo na segunda-feira. Em Portugal já as pessoas estavam mais que habituadas a passar o fim-de-semana no Continente e nos centros comerciais. Na Alemanha, surpreendeu-me ver um povo que conhecia mil formas de ocupar o tempo livre. Agora as lojas já ficam abertas até tarde, ao sábado, e até abrem às vezes aos domingos. Mas as pessoas ainda sabem usar o seu tempo de outra forma. Passeios de bicicleta, ou até a pé: este é o tempo de ir apanhar cogumelos nas florestas. Por exemplo.



A minha ponte Monet na Prússia tem agora grades provisórias para impedir que alguém caia na água. Lá se foi o impressionismo...




O palácio Sanssouci:



Quem segue pela alameda principal entre o palácio Sanssouci e o Palácio Novo, tem à sua direita a Orangerie - que era para ser uma estufa mas não sei que lhe deu, que é mais um palácio:




O sol passou a tarde a brincar às escondidas connosco. 
Depois a chuva resolveu entrar na brincadeira, e nós regressámos a casa.