O melhor é largar aquele lugar de perdição, e continuar o passeio.
Seguimos na direcção da capela de Belém. O nosso guia falava de novo de Jan Hus e da sua visão de uma Igreja pobre, e de ideias revolucionárias que chegariam um século mais tarde à Alemanha. Queríamos entrar na famosa capela despojada, onde o púlpito ocupava o lugar central e nem havia altar. Entrámos numa capela que nos pareceu ser essa: despojada, a palavra como elemento estruturador do espaço, o cálice como símbolo central, em vez da cruz.
Tudo perfeito - mas afinal não era a capela de Belém, era São Martinho do Muro, uma igreja gótica com excelente acústica, onde fazem frequentemente concertos de música clássica (bom, mas concertos de música clássica é o que mais há nas igrejas e nos palácios de Praga). Na nave lateral encontrei uma senhora que estava a passar uma toalha branca a ferro. Perguntei-lhe onde ficava a capela de Belém, ela foi buscar os óculos para me ajudar a entender o meu mapa, e entretanto apareceu um senhor que me deu um prospecto dos concertos naquele bairro, com um belo mapa da cidade em estilo Merian. Muito simpáticos, estes checos!
A capela do Jan Hus era algumas centenas de metros à frente, e deixou-nos decepcionados, porque o que lá existe é uma reconstrução - a possível - a partir do pouco que restou daquele templo medieval. A igreja passou para os jesuítas no séc. XVII, e em fins do séc. XVIII foi fechada. A construção foi-se degradando, até que optaram por destruir boa parte do que restava, e fazer um prédio de apartamentos. No séc. XX resolveram repor a igreja inicial, e o resultado é um belo de um pastiche que não é nada: uma sala sem alma, e de história colada a cuspo, com um palco central para eventos da universidade e reproduções de pinturas medievais nas paredes. E com uma reconstrução do púlpito de Jan Hus - mais valia terem deixado aquela porta original nua, em vez de a taparem com esta construção que nem faz jus à história nem respeita a nossa imaginação.
Para ver a capela era preciso comprar um bilhete, e como já o tínhamos, para não perder dinheiro (!..) subimos ao andar de cima, onde havia um museu. Talvez voltemos lá com mais calma, para ler sobre a história daquele país e o movimento hussita.
Desta vez, trouxe de lá apenas uma imagem medieval que tem o seu quê de actualidade: um acidente com a carruagem do Papa, o povo muito aflito, os clérigos a olhar e a rezar placidamente. E faz de conta que os bichos são burros, faz de conta que continuam a puxar a carruagem, "de pé ou tombado, não se pode parar"...
Mais uns passos, e chegámos ao Clementinum, o colégio jesuíta com a sua famosa biblioteca.
(daqui)
Aos anos que ando nesta vida, e ainda não aprendi a desconfiar das promessas publicitárias? Pensava que ia ver algo fantástico, do outro mundo, e afinal era apenas uma belíssima biblioteca barroca. Nada mais. Sussurrei ao Joachim: "A nossa de Mafra é muito melhor!" e ele respondeu: "E a nossa de Coimbra também!"
A visita guiada inclui a capela dos espelhos, com um órgão "onde Mozart talvez tenha tocado, porque veio algumas vezes a Praga e tinha amigos no Clementinum", e a subida à torre astronómica. Com elevador, claro, ou não estivéssemos em Praga.
O guia explicava os detalhes, a marca do sol que ao meio-dia tocava determinado ponto no chão, as bandeiras que se hasteavam nesse momento para assinalar a hora, as bandeiras multiplicadas nas outras torres da cidade, num autêntico dominó dos meios-dias. Um processo que se repetiu quotidianamente até princípios do séc. XX, até ser substituído pelo rádio. Falava do Kepler e de outros astrónomos famosos, e de um professor, um obstinado que em 1752 começou a medir temperaturas e humidades diariamente, trabalho que foi continuado pelos seus sucessores, e que faz do Clementinum a instituição que tem o mais antigo registo de medição climática do mundo.
Agora, dizia o guia, a torre já não serve para observações astronómicas devido à poluição luminosa.
Mas serve para os turistas fazerem fotografias dos telhados de Praga...
...e da ponte Karlova, sempre sempre sempre atafulhada de turistas.
O sábado continuava de chuva. Optámos por ignorar os bonecos do relógio astronómico,
e fomos em busca do Museu do Cubismo.
Infelizmente estava fechado para obras, mas o seu maravilhoso Gran Cafe Orient, em estilo cubista, estava aberto.
Havia até um piano em estilo cubista, e um pianista que parecia pertencer à mobília. O telemóvel tocou, e ele atendeu-o, continuando a tocar com a mão direita. O Joachim piscou-lhe o olho, ele retorquiu com um sorriso.
Encomendámos um espumante da região, e três copos - um era para o pianista, que nos veio agradecer e perguntou que música gostaríamos de ouvir. O Joachim pediu "take five", eu disse que tinha gostado muito do Rachmaninov que ele tocara. Lá veio o "take five", lá veio a Clair de Lune de Beethoven, lá veio o meu bolo (fantástico!) (Peter Paul Rubens rules!) (forever!).
Depois o pianista começou a tocar músicas de filmes, e nós ficámos por ali a ver quem adivinhava primeiro que filme era. Até que se acabou o espumante, e saímos de novo para a cidade.
Perdemo-nos um bocadinho, atravessámos um antigo centro comercial com uma extraordinária cúpula...
...e pela primeira vez atravessámos o rio. Chovia.
Jantámos no Café Savoy, que nos tinha sido muito recomendado. Uma sopa de camarão do rio, muito saborosa, e um pato com dumplings de pão que não estava nada mal - nunca comi dumplings tão leves.
Anoiteceu, voltámos para o nosso lado da cidade, ainda à chuva,
e capitulámos sem reservas perante a nossa condição de turistas: fomos assistir a um Teatro Negro. É para turistas, já se sabe. Mas passámos hora e meia com um sorriso nos lábios - e só por isso já valeu a pena. Por isso, e pelo que fizeram no fim: revelaram os truques, e até nos deixaram fotografar!


