16 setembro 2012

15 de Setembro


Obrigada a quem saiu para a rua com os cartazes da sua fúria.
Obrigada a quem criou um blogue com imagens do 15 de Setembro de 2012 e a quem enviou as fotos.

Vivam os portugueses!






(as fotos foram tiradas do blogue O QUE DIZ A RUA)

Adenda: quanto mais imagens das manifs vejo, mais me lembro daquele extraordinário primeiro primeiro de Maio. Talvez tenha chegado a hora de algo comecar a acontecer em Portugal. Algo que se escreve com o D de dignidade (como no cartaz), o D de diferente, o D de devir.

14 setembro 2012

eh, pá, já ando há dois ou três dias sem falar da Filarmonia...

A ver se corrijo isso antes que os clientes comecem a desconfiar que a casa ardeu.



Ontem fui a um dos concertos da Musikfest - a Rundfunk-Sinfonieorchester Berlin com o seu Marek Janowski. A peça forte era o concerto nº3 para piano, de Rachmaninov. Antes disso tivemos de aturar quarenta minutos de Henze, mas valeu a pena (e como me lembrei de uma horrorosa sopa de tomate que me obrigaram a comer uma vez em miúda, num restaurante alentejano a caminho do Algarve, antes de me servirem um inesquecível bacalhau à Brás).
O pianista, um garboso rapaz chamado Nikolai Lugansky, tocou furiosamente. Eu sou mais Grimaud, mas dizem que ele é um expoente máximo da escola de pianistas russos, comparam-no ao seu grande ídolo, Rachmaninov, e portanto no fim do concerto, quando o público se levantou para aplaudir arrebatadamente, eu aplaudi também com entusiasmo, não vá dar-se o caso de hoje para a amanhã ele se tornar o Pizarro russo e eu ficar com a cara do único magala que ia a desfilar com o passo certo.

Os Lunchkonzerte no foyer da Filarmonia já recomeçaram. Estive lá na terça, e foi excelente: Wies de Boevé no contrabaixo, Tomoko Takahashi no piano, peças de Haydn, Beethoven e Glière.
De Beethoven, tocaram as "12 variações sobre Ein Mädchen oder Weibchen".

Tema original:


Variações:


A última peça foi de Reinhold Glière - que eu nem conhecia. Quatro peças para contrabaixo e piano, op. 9 / op. 32 (1900/1908). Gostei muito - embora às vezes se aproximasse ligeiramente do género filme, que ultimamente me anda a enervar porque a Klassik Radio Berlin agora deu-lhe para aí, e uma vez ou duas tem graça, mas por sistema dá fastio, e se me lembro que daqui a nada vão começar com a música de advento fico tomada de um cansaço que nem vos digo.



Então era isto.

manifestação de 15 de Setembro em Berlim


Em frente ao Consulado de Portugal, na Zimmerstrasse 56, das 4 às seis da tarde.

A seguir passo o texto que acompanha esta iniciativa.
Penso que é importantíssimo sairmos todos para a rua, mas "Fuck Troika!" seria a última coisa que me ocorreria escrever num cartaz mostrado em Berlim - ou noutro sítio qualquer do mundo. Continuo a pensar que o problema não é a troika, mas o governo português, que enveredou pelo caminho mais fácil de tirar aos frágeis para não incomodar os poderosos - tenho a certeza que troika nenhuma teria como negar a defesa de um princípio básico: fazem-se as reformas que for preciso, mas sem deixar que os salários desçam abaixo de um limiar X de pobreza (que na Alemanha, já agora, é de cerca de 850 euros líquidos mensais)
Incomoda-me que nesse texto os portugueses se apresentem como vítimas de um saque. Visto do lado da Alemanha, cujo Tribunal Constitucional acabou de aprovar um pacote de ajuda que pode vir a custar 2.500 euros  a cada alemão, este tipo de argumentação pode ser um tremendo tiro pela culatra. Sabem o que é que os alemães vos vão responder, nas mesas de café? "Estão a saque agora, é? Mas quando assistiram impávidos e serenos à construção desenfreada de auto-estradas, ninguém se queixou. Quando deixaram instalar internet numa escola que seria (e foi) destruída na semana seguinte, ninguém se queixou. Quando o presidente da República fez a sua mensagem de Natal em frente a três pinheiros - três! - profusamente decorados, ninguém foi para a rua gritar que o país estava a saque. Mas pronto, está bem. Se é o que querem, é o que terão: a troika vai à sua vidinha e deixa de vos saquear. Resolvam vocês os vossos problemas. Ponham vocês ordem na casa."  

Se fosse a essa manifestação (não posso ir, este sábado tenho um casamento inadiável) levaria cartazes para informar na Alemanha sobre o que se passa em Portugal: em quanto vai a taxa de desemprego, quantos euros por mês vão tirar agora a quem já ganha menos de 500 euros líquidos, etc.
E afirmaria princípios claros: esta recessão induzida é o maior inimigo do euro - as contas públicas não se podem equilibrar à custa dos pobres - o caminho não é criar pequenas Chinas no seio da UE

***

Fuck Troika! Wir wollen unser Leben!

Am Samstag 15. September 2012 werden in vielen Städten in Portugal und Spanien mehrere Tausend Menschen auf die Straßen und Plätze gehen, um gegen die zerstörerischen Sparmaßnahmen zu protestieren, die von der Troika (Europäische Kommission, Europäische Zentralbank und Internationaler Währungsfonds) diktiert werden. Sogar in Brasilien werden Solidaritätsaktionen geplant. Unter dem Motto "Que se lixem os troikistas" werden die Protestierenden in Portugal mit Töpfen und Kochlöffeln ihre Empörung lautstark kundtun. "Sie haben uns gespalten, um uns zu unterdrücken. Wir vereinen uns, um uns zu befreien. Es ist Zeit für etwas Außergewöhnliches."


The international call from Portugal:

Screw Troika! We want our lives!
15th September, 17h, Lisbon and other cities

We must do something extraordinary. We must take the streets and the squares, the open roads, the side roads, the countryside. This silence is killing us. The noise of the mainstream media echoes in the silence, replicating that silence, weaving webs of lies that numb us and kill our desire. We must do something against submission, defeat, against the stifling of ideas, against the death of our common will. We must summon once more the voices, the arms and the legs of us all, knowing our present and our future are decided on the streets. We must win over fear, this fear that has been skilfully set and spread around us, and understand, once and for all, that we have almost nothing left to lose, and that the day will soon come when we will have lost it all, because we kept to ourselves, we felt alone, we gave up.

The plunder (loan, rescue, ransom, bail out, whatever lie they chose to make us cave in) has begun, and, with it, countless ravishing policies, whereby unemployment, precariousness, poverty and social injustice will rise dramatically, most of the state's assets will be sold out, social welfare, education and health (with the national health system in its death throes) will be severed, cultural and public services will become obsolete – all in favour of people and companies that get rich with the speculation on a country's default. After one more year of austerity under external surveillance, our perspectives, the hopes of the greater part of Portugal's residents, are bleaker than ever.

The austerity imposed upon us to destroy our dignity and life does not solve our problems but only stifles democracy. Those who accept to govern us under the Troika's Memorandum are giving up on the fundamental tools for our country's management, giving them away to speculators and technocrats, on the basis of an economic model favouring the survival of the fittest and the strongest, just like in the jungle, neglecting our expectations as a community, our living conditions, our dignity.

Greece, Spain, Italy, Ireland and Portugal are hostages of Troika and its financial speculation. They have lost their sovereignty and get poorer every day, as is bound to happen to all countries submitted to austerity. Against the inevitability of this compulsion to linger and die, we must do something extraordinary.

We must build alternatives, step by step, springing from motivated populations, from the citizens of those countries – Greece, Spain, Italy, Portugal, Ireland - and of each and every one brought together, acting together, fighting for their lives and uniting their voices.

If they want to bend us, force us to accept unemployment, precariousness and injustice as a lifestyle, we shall answer with the power of democracy, of liberty, of motivation. The power to fight back. We want to take the decisions of the present in our hands, so that we can build a future.

This is, therefore, a call to all men and women from diverse areas of activity and political sympathies. We appeal to everyone - individuals, groups, movements, associations, non-governmental organizations, syndicates, political structures and parties - to march together on the street on the 15th September.
They've divided us to oppress us. We will unite to free ourselves!




25.9. weitere Demo:
Athen, Berlin, Madrid gemeinsam gegen Sparpolitik!
Alexanderplatz, Weltzeituhr, 18 Uhr

13 setembro 2012

depois de mim virá...


Abro o facebook e vejo que a Manuela Ferreira Leite se tornou repentinamente numa bandeira da mesma esquerda que até há bem pouco tempo a ridicularizava sem dó nem piedade, e muitas vezes sem razão.
Assim no meio do ruído, até me desoriento: isto parece mais uma montanha-russa de palhaços que um debate sobre o presente e o futuro do país.

12 setembro 2012

não é por aí, pessoal!



Tenham paciência, pá, mas estas coisas são manipulações do mais barato que há.

A troika veio porque o Estado português estava a meia dúzia de semanas de não poder pagar os salários dos médicos, professores, etc. nem as reformas, nem nada - já não se lembram?
Se nessa altura alguém emprestava dinheiro a Portugal, era por juros muitíssimo mais altos que estes negociados com a troika.
Sem a troika, não estávamos em depressão, tínhamos mergulhado instantaneamente no caos total. Se aceitámos a troika, foi porque não havia outra saída.
Não venham agora com filmezinhos simplistas tentar iludir-nos que estaríamos agora muito melhor se a troika não tivesse vindo.

Que tal fazer um esforço para separar o bebé da água do banho?

este é o momento

Continuando o tema do post anterior:

Parece que estamos quase todos de acordo que é preciso salvar o euro. O que é importante agora debater, a nível europeu, são os custos sociais dessa operação e os limites abaixo dos quais nenhum país pode descer. E fazê-lo num diálogo sem preconceitos (especialmente sem preconceitos contra os alemães - tenho a certeza que o povo alemão seria o primeiro a indignar-se e a criticar os sacrifícios impostos aos mais pobres dos portugueses: a descida brutal dos salários mais baixos, o corte dos abonos de família - entre outros exemplos. E sem desconfianças infantis "o que a Alemanha quer é comer-nos as papas na cabeça" - caramba, o que nos faz desconfiar assim à partida do bom-senso e da capacidade de negociação dos nossos governantes? Aaaah, desculpem, não perguntei nada, esqueçam).

Mais ainda: é cada vez mais importante desenhar um modelo de crescimento económico para a União Europeia como um todo, e articular as políticas financeiras e fiscais. Só a união - a verdadeira união - faz a força. Ou isso, ou continuaremos nos nacionalismos e no salve-se quem puder.

Mas voltemos ao Portugal de Setembro de 2012, e a um pormenor fundamental: não foi a Angela Merkel que disse para baixar os salários. A Angela Merkel simplesmente insiste que os países têm de equilibrar as suas contas. Foi o Pedro Passos Coelho que optou por espoliar os pobres em vez de se dar ao trabalho de (vou citar, de um comentário lido noutro blogue) acabar "com as cunhas, as PPP, os Institutos Públicos, as Fundações, as viaturas, os cartões de crédito e mordomias afins, os gestores e consultores pagos a peso de ouro, as despesas desmedidas da Presidência e da Assembleia da República, a fuga aos impostos, a protecção aos mais ricos e aos lobbies instituídos. Prendam quem prevarica e vão ver quantos milhões se poupam por ano. Talvez até dê para não aumentar a taxa da Segurança Social..."

Há que deixar a Angela Merkel em paz. Isto não está para bodes expiatórios - outro sofá do nosso descontentamento. Este é o momento de identificar os verdadeiros responsáveis da miséria e exigir-lhes responsabilidades. O nosso primeiro-ministro que não venha com a desculpa de "foi a mamã que mandou". Ele já é maior e vacinado, e foi a ele que o povo português deu o seu voto: é o primeiro-ministro dos portugueses quem tem de responder pelas decisões que toma. É ao nosso primeiro-ministro que exigimos princípios de equidade, justiça e transparência na escolha das medidas necessárias à recuperação do país, e a competência para desenhar com os parceiros europeus um rumo comum para a União Europeia.

enquanto isso, na Alemanha...



Continua a fazer-me imensa confusão o que se diz em Portugal sobre o que se diz na Alemanha. Nada como a fantasia, o preconceito e a projecção psicológica para ocupar os espaços mantidos vazios pela ignorância.

Por estes dias, em que o Tribunal Constitucional deliberou sobre a entrada da Alemanha no Pacto do Euro (lembro que antes do Verão deu um valente puxão de orelhas à Angela Merkel por andar a tomar decisões sobre como salvar o euro à revelia do normal funcionamento democrático alemão - e estava capaz de apostar com quem quiser que o normal funcionamento democrático alemão não teria resultados menos drásticos para os países do sul, muito pelo contrário), por estes dias, dizia, a revista Stern tem andado numa extraordinária campanha a favor do euro.
Sobre a revista da semana passada já escrevi aqui.
Hoje dou-me de novo ao trabalho de traduzir (rapidamente, já se sabe) um artigo de opinião de Hans-Ulrich Jörges, da edição de 6 de Setembro.


Nota prévia: Konrad Lorenz escreveu "quando a bandeira adeja, a razão vai para a trompeta", referindo-se à ligação entre ideias nacionalistas e marchas militares. Há quem pense noutra "trompeta" quando se fala em "ter a razão na trompeta". Dado que neste texto nem sempre é claro a que trompeta é que o autor se refere, limitei-me a traduzir a palavra literalmente. Interprete o leitor como melhor aprouver à sua razão.


A razão na trompeta

A arrogância em relação ao euro tornou-se uma obstinação dos alemães. Começa a ser tempo de nos despedirmos dos ERROS e das ILUSÕES, tempo de perceber que só temos a ganhar com a Europa

Hans-Ulrich Jörges, Stern 6.9.2012

É insuportável. A burrice do orgulho nacionalista patente no barulho que envia a nossa razão para a trompeta. As tiradas depreciativas sobre os países do sul, recortadas como confetti para os títulos dos jornais - o sul que aprecia a sesta e só quer o nosso rico dinheiro. O clamor do jornal Frankfurter Allgemeine contra a inflação, que um banqueiro com passaporte falso e genes monetários de romano decadente vai lançar sobre nós. Estamos mergulhados na miséria do euro. A autocompaixão e a fúria tentam apoderar-se da alma alemã.
E que tal se tentássemos tirar a nossa razão da trompeta? Se começássemos a aceitar a Europa e a sua moeda frágil - defendê-la com tudo o que temos, com todos os que estão connosco, e contra todos os que a querem destruir? Se nos despedíssemos do nosso auto centrismo, dos erros e das ilusões que transportamos connosco vindos da era das paixões nacionais, quando o marco alemão funcionava para os alemães como substituto do patriotismo traído?
Começa com a ilusão de sermos os mestres e o modelo da Europa. Sim, foram os alemães que, no início do euro, impuseram aos outros países severos critérios de estabilidade. Mas também fomos nós os primeiros a dar o exemplo, no tempo do chanceler Gerhard Schröder, do impune desrespeito dessas regras. Espalhámos o veneno da dívida pública desordenada, do qual provaram os gregos, e não só. Hoje impomos à Europa poupanças públicas que estrangulam os países, mas nós próprios não poupamos um único cêntimo. Gastamos a rodos, alimentados por generosas fontes fiscais. Se tivéssemos de poupar como os espanhóis, a nossa cómoda partidocracia rebentava.
Além disso, acreditamos que, por termos a economia mais poderosa do continente, nada de importante deve ser decidido à nossa revelia. Por termos as bolsas mais recheadas, concedemo-nos um poder de veto. O que é insustentável. Os outros podem organizar maiorias contra nós - temos de suportar isso.
E temos de ter a superioridade de sermos capazes de reconhecer que os outros podem ter razão. No Banco Central Europeu isso já aconteceu. O presidente do Banco Central Alemão, Jens Weidmann - isolado no conselho do BCE, com apenas um voto, tal como o colega de Malta - agita-se contra a compra de títulos da dívida de Estados em dificuldade, para baixar a pressão dos seus juros. Se fosse ele a mandar, o euro já não existia. Que sorte termos o italiano Mario Draghi à frente do BCE! Defendeu o euro dos ataques de especuladores anglo-americanos, de forma enérgica e criativa. O que é um óptimo motivo para repensarmos os nossos preconceitos sobre os dirigentes que há no Sul.
É também motivo para enterrarmos o mito do Banco Central Alemão. O banco central de uma região cuja moeda está em crise não se pode restringir à luta contra a inflação. Porque, primeiro: apesar da gritaria, nada indica que haja inflação - a desvalorização monetária na Alemanha anda pelos 2%. Segundo: no passado, o Banco Central Alemão também agiu de forma política. Em 1992 e 1993 injectou milhares de milhões para defender o sistema monetário europeu contra ataques especulativos. O então ministro das Finanças, Theo Weigel, recorda que num intervalo de quatro semanas foram entregues em segredo 90 mil milhões de marcos à França, para estabilizar o franco. Desde a crise financeira de 2008, o Banco Central americano já comprou a Washington títulos no valor de mais de 2,3 biliões de dólares.
Podemos, ou melhor, devemos ajudar a suportar as dívidas dos nossos parceiros? Os tratados europeus proíbem-no, mas já o fazemos há muito. Os pacotes de salvação para a Grécia, Espanha, Portugal e Irlanda não são outra coisa. Tal como as compras de títulos pelo Banco Central Europeu, cujo risco é partilhado por todos. O que está correcto. Se formos capazes de quebrar o ciclo de endividamento e de controlar melhor as finanças europeias, podemos até aceitar os Eurobonds (títulos de reembolso da dívida) e mesmo uma isenção da dívida. Nesse caso, sim.
O nosso grande erro consiste em pensar que podemos invadir o mundo inteiro com as nossas exportações, com salários baixos e uma cotação do euro favorável, sem ajudar os europeus que compram os nossos carros e as nossas máquinas. Temos o maior interesse em manter a liquidez dos nossos clientes. O regresso ao marco provocaria uma valorização de cerca de 40% - colapso nas exportações, desemprego de milhões. Os nossos empréstimos de auxílio também estariam perdidos. O marco ficaria mais caro, e tornar-se-ia o nosso castigo.
O euro foi um projecto político, e foi a condição imposta aos alemães para autorizar a reunificação da Alemanha. Hoje é também uma garantia da economia, base do nosso bem-estar. Com a Grécia. A seguir, com a Polónia. E um ano destes com a Turquia de economia emergente.    

***

Traduzi. Não concordo com tudo. Sobre certos pontos poderia argumentar de outra maneira. Mas dá uma ideia do que anda a ser debatido na Alemanha. Convinha que nos outros países se levantassem vozes para se unir a esta (e para a completar, e para se contrapor a ela no que for necessário).


aos curiosos que vêm do Boas Intenções em busca de um chorrilho prometido

(Rita, um dia destes hádesver)

O chorrilho não é aqui, é no Sinusite Crónica, pela pena do Vasco Mendonça.
Podem ir, à confiança, garanto que não sairão decepcionados.

Só trocaria uma coisa: em vez de filho-da-puta, escreveria bate-na-avó.
Porque nós não temos culpa de quem nos pôs no mundo, mas somos responsáveis pelos nossos actos. Quero lá saber quem era a mãe destes energúmenos - o que é grave é que eles não têm vergonha de tirar aos mais frágeis e dependentes da nossa sociedade. Batem na avó paralítica, os poltrões, e andam convencidos que são estóicos.

A verdade, Rita, é que chegámos a um ponto em que os palavrões não se adequam. Os palavrões servem como escape para a zanga, aliviam. São uma forma de sofá.
Este é o momento de procurar as palavras exactas para recusar a ignomínia, em vez dos palavrões que nos permitem continuar a aguentar apesar de tudo.






Os locais para a manifestação do próximo sábado estão listados nesta página.

***

Para memória futura, copio para aqui o post do Vasco Mendonça:


Terça-feira, 11 de Setembro de 2012
Aqui que ninguém nos ouve
Acabei de ouvir Miguel Relvas dizer, com o seu já habitual ar de sabujo, que o apoio aos mais desfavorecidos é uma preocupação permanente deste Governo. Perante a impossibilidade de ser ouvido por esta gente, perante esta espécie de surdez desprovida de qualquer noção de civilidade no serviço prestado ao país, vou escrever como se eles não nos estivessem a ouvir.

Que país é este que aceita que um bando de filhos da puta confisque impunemente o resultado do trabalho de milhões de pessoas? Quão insensível é preciso um bando de filhos da puta ser para anunciar ao país uma redução do salário mínimo? Eu sei que muita gente sente já ter assistido a isto antes, mas este não é um bando de filhos da puta qualquer. É uma espécie refinada de filho da puta, tão perigosa pela sua ignorância quanto pela capacidade inesgotável de mandar um país inteiro para o caralho que o foda. Bem sei que é um bando de filhos da puta com maioria absoluta. Infelizmente, demasiados eleitores desconheciam, à data das eleições, que estavam a mandatar um bando de filhos da puta com tão especial vocação para foder o mexilhão. Quiseram acreditar que este não era um bando de filhos da puta. Infelizmente, jamais imaginaram que este viesse a tornar-se o maior bando de filhos da puta que o país já viu no poder, e a mais séria ameaça ao modo de vida de todos os que diplomaticamente têm aceitado a pior forma de governo, salvo todas as outras.

Está ali um bandalho dum funcionário descansado na televisão a dizer-me que as empresas são locais de cooperação entre patrões, empregados e a cona da mãe dele. Amigo: locais de cooperação o caralho que ta foda. Este pulha dum cabrão, que nunca trabalhou numa puta duma empresa na vida, assim como a maioria destes inefáveis cabrões, que eu podia alegar não terem outro nome, não fosse o facto de já os ter apresentado como filhos da puta, mas dizia eu, este filho da puta, bandalho e pulha dum cabrão, sobejamente merecedor de todos os insultos que me forem ocorrendo, diz-me que a empresa é um local de cooperação. As empresas, cabrão desumano, são locais onde as pessoas convivem de forma mais ou menos saudável com um modo de vida/ocupação de tempo que, de forma mais ou menos saudável, aceitam ao longo de parte das suas vidas. Então explica-me lá, ó javali cagado pela arca, em que é que uma empresa é um local de cooperação, e não uma desesperada forma de prisão, quando um bando de filhos da puta destrói qualquer possibilidade de as pessoas terem uma remota esperança de construir algo edificante a que possam chamar vida, esperar que esta subsista, se mantenha e evolua positivamente sem a ajuda, mas especialmente sem a constante sabotagem, de um bando de filhos da puta. Se o referido bando de filhos da puta nos estivesse a ouvir, ouvir-se-ia por esta altura um deles dizer, de forma inacreditavelmente ponderada, dotado da mais fina filha-da-putice - que este bando de filhos da puta confunde com elevação, humanidade, sentido de estado e afins – diria que eu, e vocês todos, passámos estes anos todos a viver acima das possibilidades.

Mas quais anos, meu filho da puta? E quais possibilidades? Trabalho que nem um cão há 6 anos, a tempo inteiro mais as horas todas que não me pagaram, e o número de reduções salariais que tive, impostas por este bando de filhos da puta, é já próximo do número de empregos que tive na minha ainda curta carreira. Comprei um carro em segunda mão, uma mota para poupar no que não podia gastar com o carro, e vou jantar fora e ao cinema. Comprei uns discos, uns livros, fiz meia dúzia de viagens baratas, comprei uns móveis do Ikea e, durante o processo, paguei uma renda e uma catrefada de impostos. Vá lá, tentei ser feliz sem pedir ajuda a ninguém nem ir preso. Aceitei o mais serenamente que pude as regras do jogo, isto é, trabalho, trabalho e trabalho para usufruir do resto e conservar, em doses iguais, a saúde mental e a ambição, a primeira das quais começa a desvanecer-se, como se lê. E, no final de uma semana de 60 horas de trabalho que aceitei de bom grado por considerar justa e saudável a "relação de cooperação" mantida com quem me paga, ligo a rádio e é-me anunciada, por um filho da puta de currículo construído a favores, é-me anunciada a ideia peregrina com que este bando de filhos da puta, sem critério nem humanidade, resolveu premiar um país inteiro, que na sua maioria vive em muito piores condições do que eu.

Reduzir o salário mínimo? Aumentar ainda mais a precariedade de quem trabalha a recibos verdes? Transferir uma soma obscena de dinheiro dos trabalhadores para as empresas num país com clivagens sociais e económicas absolutamente trágicas, numa esperança infundada de que isso promova emprego? Isto já não cabe na cabeça de ninguém, e há um bom motivo para existir hoje uma impensável maioria que vai de António Nogueira Leite a Bagão Félix, passando pelos 4 sem abrigo que contei de casa até ao trabalho, mais as lojas falidas. Não é simbolismo nem retórica nem injustiça poética: isto é a vida, conforme ditada por um bando de filhos da puta, a abater-se sobre um país inteiro, dia após dia, cêntimo após cêntimo, impossibilidade após impossibilidade. Haverá um pingo de decência nestas cabeças? Milhões de vozes manifestam em uníssono a vontade literal de esganar estes filhos da puta, ao mesmo tempo que consideram, infelizes, a hipótese de fugir do seu próprio país, e estes filhos da puta aparentam não sentir nada. Foda-se, reduzir o salário mínimo. Há gente que merece o pior de nós. E é assustador que aí se inclua o Governo do meu país.




11 setembro 2012

11 de Setembro de 2001

Ao ver as imagens das torres a cair, e das pessoas a cair das torres, não posso deixar de lembrar outro crime que aconteceu nesse 11 de Setembro de 2001: o modo implacável como as televisões americanas tentaram passar dos palestinianos a pior imagem possível.



Nesse dia, vi este filme dezenas de vezes, sempre a seguir a imagens das pessoas que se atiravam das torres.
De nada valeram as dezenas de comunicados de grupos islâmicos e de políticos palestinianos a condenar aquele ataque. De pouco valeram as explicações sobre o contexto em que aquela imagem foi fabricada. Como se condicionados por um toque de campainha, é esta a sequência que o dia deixou gravada nas cabeças de muitos: pessoas naquele horroroso cair, um grupo de palestinianos a aplaudir.

Lembrarei também o seu oposto, um sinal de decência extrema no interior do inferno: os irmãos Naudet estavam a filmar nessa manhã com bombeiros em Manhattan, a poucos quarteirões do WTC. Após o primeiro ataque, correram para o local, e chegaram a filmar no interior de uma das torres. No documentário 9/11 ouve-se com bastante frequência, vindo da rua, um certo tipo de estrondo. Eram os que caíam. Eles fizeram a escolha do pudor: não alimentaram as câmaras com essas imagens da tragédia.

pensando bem, o nosso Pedro é mais que um pai para nós



(E aquela coda sobre o nariz do Markl? Humor do melhor!)

dedicação


Provavelmente já todos conhecem esta fotografia e a história por trás dela - o cão velhinho e doente, o dono que o leva para a água para lhe aliviar as dores. Schoep and John.

O Fox só entrou na nossa vida há cerca de mês e meio, e já é parte indispensável de nós.

Vejo esta fotografia e nem quero pensar como vai ser quando o Fox ficar velhinho e partir (daqui a muitos, muitos anos, claro - dizem que os portugiesischer Rafairoh têm sete vidas).

10 setembro 2012

carta de Eugénio Lisboa ao primeiro-ministro

Encontrei esta carta, do escritor e ensaísta Eugénio Lisboa, no blogue Da Literatura.
Gostei tanto dela, que a copio para aqui, juntamente com a nota biográfica que é da autoria do Eduardo Pitta - a quem agradeço a partilha.


CARTA AO PRIMEIRO-MINISTRO DE PORTUGAL

Exmo. Senhor Primeiro Ministro

Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. Além do mais, não é meu costume nem vocação escrever coisas de cariz político, mais me inclinando para o pelouro cultural. Mas há momentos em que, mesmo que não vamos nós ao encontro da política, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E, então, não há que fugir-lhe.

Para ser inteiramente franco, escrevo-lhe, não tanto por acreditar que vá ter em V. Exa. qualquer efeito — todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo, traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral, não convida à esperança numa reviravolta! — mas, antes, para ficar de bem com a minha consciência. Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar “as vantagens do túmulo” ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. Tanto o que me dê como o que me tire será sempre de curta duração. Não será, pois, de mim que falo, mesmo quando use, na frase, o “odioso eu”, a que aludia Pascal.

Mas tenho, como disse, 82 anos e, portanto, uma alongada e bem vivida experiência da velhice — a minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice é um pouco — ou é muito – a experiência de uma contínua e ininterrupta perda de poderes. “Desistir é a derradeira tragédia”, disse um escritor pouco conhecido. Desistir é aquilo que vão fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horrível. Estamos no verão, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de um grande poeta inglês do século XX (Eliot): “Um velho, num mês de secura”... A velhice, encarquilhando-se, no meio da desolação e da secura. É para isto que servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e definitiva para uma situação, uma visão, uma emoção ou uma ideia.

A velhice, Senhor Primeiro Ministro, é, com as dores que arrasta — as físicas, as emotivas e as morais — um período bem difícil de atravessar. Já alguém a definiu como o departamento dos doentes externos do Purgatório. E uma grande contista da Nova Zelândia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com a afinada sensibilidade e sabedoria da vida, de que V. Exa. e o seu governo parecem ter défice, observou, num dos contos singulares do seu belíssimo livro intitulado The Garden Party: “O velho Sr. Neave achava-se demasiado velho para a primavera.” Ser velho é também isto: acharmos que a primavera já não é para nós, que não temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela... Já foi nossa, já, de certo modo, nos definiu. Hoje, não. Hoje, sentimos que já não interessamos, que, até, incomodamos. Todo o discurso político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a falta dela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo. Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais — tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter, para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso.

Já alguém, aludindo à mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. dá provas, em relação à velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos, situados, de preferência, em andares altos de prédios muito altos: de um 14º andar, explicava, a desolação que se comtempla até passa por paisagem. V. Exa. e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste gosto. V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As políticas radicais de V. Exa, e do seu robôtico Ministro das Finanças — sim, porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles... — têm levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página.

Falei da velhice porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida — tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados. Dizia Joan Ruddock não acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompatíveis. V. Exa. e o seu governo provam que o são: não há forma de conviverem pacificamente. Nisto, estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador inglês, Francis Pym, que teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes termos: “Extremismo e conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher — como o “conservador” Passos Coelho — quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo e extremismo. Claro que não dá.

Alguém observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio. Darei a V. Exa. — e com isto termino — uma pista para um bom entendimento do que se está a passar. Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: “Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo.


De V. Exa., atentamente,

Eugénio Lisboa

**


O autor foi presidente da Comissão Nacional da UNESCO / conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Londres entre 1978-1995 / professor catedrático especial de Estudos Portugueses na Universidade de Nottingham / professor catedrático visitante da Universidade de Aveiro / e coordenador do ensino da língua portuguesa na Suécia. É Doutor Honoris Causa pelas universidades de Nottingham e Aveiro. A Câmara de Cascais outorgou-lhe a medalha de Mérito Cultural.

Em Moçambique foi sucessivamente administrador e director das petrolíferas SONAPMOC, SONAREP e TOTAL.



este país tem gente que é uma maravilha, nós é que andamos distraídos e muito ocupados a dizer mal



Vejam este post no Imagens com Texto: calçada portuguesa.
Nem sei se ria com a graça da coisa, se chore de ternura por este sinal de alguém que foi assim capaz de juntar inteligência e humor a uma arte tradicional.

(a foto foi tirada desse post, como é óbvio)

09 setembro 2012

Jaqueline du Pré e Daniel Barenboim

Jaqueline du Pré e Daniel Barenboim - e mais não digo. Mas vejam. Vejam.

portugiesischer Rafairoh

"Qual é a raça do cão?" é a pergunta que todos nos fazem.
Combinámos - no meio de muita gargalhada - inventar uma raça de nome sonante: "portugiesischer Rafairoh". Mas acabamos por dizer sempre o que é: Mischling, mistura.
"Mistura de que raças?" é a segunda pergunta que nos fazem.
(Como se dirá "filho de pai incógnito" em alemão?)

***

Na viagem do Fox para a Alemanha, um casal jovem muito simpático veio falar connosco num aeroporto. Fizeram-lhe muitas festinhas, perguntaram o nome - enfim, o costume. E pediram autorizaçao para fazer uma fotografia.
"Sim", concedi eu, "desde que não apareça depois na internet em sites de cachorrinhos nus..."
Eles riram-se: "Como é que adivinhou tão depressa as nossas intenções?"

Depois fizeram uma pergunta que ainda agora me dói: "Estão a salvar este cão de Portugal?"
Contaram que eles próprios queriam salvar um que tinha sido abandonado e não tinha ninguém que olhasse por ele, mas era grande demais, ia ser muito complicado para o poderem trazer no avião.

Bem sei o que se faz com muitos cães no meu país - e não é só o abandono, é também tê-los uma vida inteira presos a uma corrente, com meia dúzia de metros quadrados por habitat -, mas custa ouvir estrangeiros falarem assim em operações de salvamento dos cães de um país. Como se o meu Portugal fosse um país de bárbaros e atrozes barbaridades.
"Como se fosse", diz ela...

08 setembro 2012

continuando a falar de coisas importantes...


O Fox foi hoje pela primeira vez à escola de cães.
Fartou-se de brincar com outros cães (estava tão feliz!), enquanto o Matthias ouvia atentamente as instruções que eram dadas. Quer-me parecer que quem vai à escola somos nós...


Já conseguimos que ele percebesse que a varanda é que é, mas ainda não sabe para que serve o jornal.
E muito menos para que serve a rua - o bicho encasquetou que a rua não é para essas porcarias. É capaz de aguentar enrascadinho um passeio de uma ou duas horas pela rua e pelos parques, e depois chega a casa e dispara como um raio em direcção ao seu tapete preferido...
Havemos de o interessar pelos media, digamos assim, e havemos de levar os media para a rua para que ele perceba que afinal ali é que é (como nos aconselharam num comentário num post anterior) (que seria de mim sem os comentadores deste blogue?).

(eh, lá, acabei de inventar uma metáfora provocadora: o jornal como transportador de - bem... digamos... - deixem lá)

roteiro de Berlim segundo Gonçalo M. Tavares

Caso não tenham mais nada que fazer, e vos esteja a dar um ataque de cusquice, vão à Berlinda.org ver o Gonçalo M. Tavares a concordar comigo, hehehe. Eu bem digo que o céu é o limite - mas às vezes desconfio que já o estou a ver pelo lado de cima...

Também podem ir sem ser por cusquice nem nada: diz coisas muito engraçadas sobre o Carlos Bica e o Norberto Lobo, e sobre um caso literal de fast food no bairro turco e árabe da cidade.

(Se me deixassem mandar, e se eu falasse sueco...)

estou aqui a pensar se isto dava uma parábola...



(Foi o meu filho que me mostrou este filme. Achei graça, mas fui ver os outros do Rémi Gaillard e pareceu-me parvo: um tipo que faz humor a chatear as pessoas. Depois cheguei ao filme em que ele se mete no meio da equipa vencedora da taça de França de 2002, cumprimenta o presidente, posa para os jornalistas, dá autógrafos aos fãs - e ninguém nota que ele não é jogador dessa equipa. Provavelmente também dava uma parábola, mas hoje tenho os neurónios constipados. Os neurónios e não só - aquele concerto do Leonard Cohen deu cabo de mim!)

medidas de poupança e alterações estruturais - Portugal visto a partir da Alemanha

O que se segue não é propriamente novidade para os portugueses, mas traduzo só para informar como é que ontem se falou de Portugal no noticiário do primeiro canal alemão (aqui, em alemão) (tradução apressada e com alguns cortes):

Novas medidas para o saneamento das contas públicas

Portugal anuncia mais medidas de poupança

O primeiro-ministro português, Passos Coelho, anunciou aos seus compatriotas novas medidas de poupança para o saneamento das finanças do Estado. Uma delas será o aumento das contribuições dos trabalhadores para a Segurança Social de 11 para 18% em 2013. Em troca, os empregadores vêem o peso das suas contribuições reduzido de 23,75 para 18%, para criarem novos postos de trabalho. Além disso, mantém-se em 2013 o corte dos 13º e 14º mês nas reformas do sector privado e público.

Prevêem-se receitas menores na área dos impostos

A crise financeira em que Portugal caiu em 2011 ainda não está ultrapassada, avisou Coelho. A economia portuguesa continua em recessão. O governo de Lisboa conta para este ano com uma redução de 3,3% da Economia. O ministério das Finanças prevê uma descida das receitas de impostos de cerca de dois mil milhões de euros. As contas públicas estão sobrecarregadas, entre outros, com uma taxa de desemprego record de 15,7%.

A troika analisa o programa de poupança

Este ano, o governo aponta para um défice de 4,5%; analistas dizem que será superior a 5%. Representantes dos credores internacionais da UE, FMI e BCE estão a analisar o progresso do programa de poupança. Está em causa a entrega de 4,3 mil milhões de euros, que é a próxima tranche do pacote de ajuda a Portugal, no valor total de 78 mil milhões de euros. Até agora, Portugal já recebeu 57,1 mil milhões de euros. Em 2011, Lisboa conseguiu um défice orçamental de 4,2%, o que foi muito além dos objectivos do programa de poupança.

O parceiro da coligação rejeita o aumento de impostos e contribuições

As nova medidas de poupança colocam Coelho mais uma vez sob pressão. O CDS, seu parceiro da coligação, pronunciou-se contra o aumento dos impostos e das contribuições. Do mesmo modo, o partido mais importante da oposição, o PS, não está disposto a aceitar o aumento da carga fiscal dos portugueses.

***

Entrevista com Claus Friedrich Laaser, do Institut für Weltwirtschaft na Universidade de Kiel:
(aqui, em alemão).

"Portugal não deve apenas poupar"

Quais são as probabilidades de Portugal conseguir recuperar a sua economia apesar das medidas de poupança? Boas, diz Claus Friedrich Laaser. O país tem uma base industrial melhor que a grega. No entanto, é necessário haver uma mudança de estrutura, para se tornar concorrencial.

tagesschau.de: Portugal tem mais hipóteses de sair da crise que a Grécia?

Claus Friedrich Laaser: Sim, penso que Portugal tem mais hipóteses. Portugal não tem de começar por definir uma nova filosofia de crescimento. Lembremos apenas a fase logo após a entrada na comunidade europeia, em 1986. Nessa altura, Portugal conseguiu atrair investimentos directos do estrangeiro com uma relativa rapidez, baseado nos baixos custos salariais e numa boa produtividade ligada aos salários. Toda a Europa ocidental deslocou para Portugal as produções mais baseadas no trabalho. A consequência foi que Portugal conseguiu desenvolver-se mais do que outros países.

tagesschau.de: Quais são os pontos positivos de Portugal?

Laaser: Portugal tem uma base industrial mais alargada que a da Grécia. As empresas em Portugal estão em melhor posição, porque estão integradas em redes de produção internacionais. Outros dois pontos a favor de Portugal: o relativo consenso alargado, que ainda existe na população, de que é preciso mudar alguma coisa, que é preciso fazer reformas. E serviços públicos nos quais se pode confiar, que estão em condições de executar as decisões políticas. Tudo isto são pontos a favor de Portugal.

tagesschau.de: Quais são os motivos da crise, e que soluções existem?

Laaser: Portugal não deve limitar-se a poupar. A poupança não pode ser evitada. Mas, por outro lado, não se pode esquecer que estamos perante uma crise estrutural. Portugal não conseguiu iniciar uma mudança estrutural quando começou a ter novos concorrentes para o seu modelo económico tradicional, com a abertura europeia aos países da Europa central e oriental: repentinamente havia outros países onde os salários eram baixos e a produtividade alta. A partir daí, os investimentos deixaram de ir para Portugal. A isto veio juntar-se a globalização, apareceu um número cada vez maior de países em vias de desenvolvimento que atraíam os investimentos produtivos. Contudo, Portugal continuou fiel ao seu velho modelo económico. Continua a ter um predomínio de indústrias baseadas em trabalho intensivo, não fez uma mudança estrutural. Por esse motivo, uma parte do programa português consiste em mudar alguma coisa e atingir esta mudança estrutural.

07 setembro 2012

"a Europa começa em Atenas"

A revista alemã Stern tem na sua edição de 30 de Agosto alguns textos interessantes sobre a crise do euro. Gostei de ler, e parece-me útil que em Portugal se saiba como é que na Alemanha se fala sobre a crise.

O primeiro é logo o editorial do chefe de redacção, Andreas Petzold. Começa assim:
(já sabem: a tradução é do irmão mais rápido do Speedy Gonzalez)

É lamentável que o palco político volta e meia seja ocupado com grande estrondo por espíritos mesquinhos da CSU e da FDP. Esses Dobrindts, Seehofers, Söders, Dörings e Röslers que repetem um discurso de saída da Grécia, e até gostariam de abandonar os outros "desmotivados" (a Espanha e a Itália) ao seu destino de devedores. Provavelmente pensarão que devem alimentar o que presumem ser o gosto dos cidadãos por soluções simples: quem não poupa, sai. Mas como é que não ocorre a estes espertinhos que, se a Grécia sair, no sul da Europa vai haver uma corrida às contas bancárias de tal ordem que fará vacilar todo o sistema do euro? E que o Banco Central Europeu pode bem ser obrigado a comprar títulos da dívida de todos os países porque fora da Europa não haverá mais compradores? Esses espertinhos são também responsáveis pela saída do espaço euro de quinze mil milhões de euros do gigante Shell. Dinheiro que falta nos circuitos financeiros europeus. Porque é que dão rédea solta a estes assassinos da confiança? É fácil de imaginar: fazem contas mesquinhas, que se traduzem em resultados nas sondagens. Completamente a leste de uma ideia da Europa. 
Contudo, valeria a pena continuar a trabalhar nesta grande ideia, como a reportagem de Jan Christoph Wiechmann mostra. Ele dedicou-se às questões que, no decorrer desta crise, têm caído no esquecimento: o que é um europeu? Sentimo-nos europeus? Que Europa queremos? O que significa para nós a Europa, para lá da união bancária e do pacto fiscal?
(...)
Após 120 entrevistas, tão diferentes como os países deste fantástico continente, ficou a sensação de que o projecto Europa continua a ser muito querido dos europeus, apesar da recessão e da crise duradoura; sentem-se insatisfeitos com Bruxelas e os conflitos entre os Estados, mas não querem regressar ao marco e à peseta; quanto mais jovens os interrogados, e quanto mais vezes estiveram no estrangeiro, maior é o desejo de uma Europa unida, na qual possam estudar, trabalhar, viver e amar sem a existência de fronteiras. Para eles, a Europa não é um tema, mas algo natural e evidente.

Algumas páginas à frente, Hans-Ulrich Jörges escreve na sua coluna:

Firmeza e acções valem a pena - pagam, literalmente, em euros e cêntimos. O anúncio feito por Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu, sobre um novo programa para a compra de títulos das dívidas públicas para estabilizar a zona euro foi um duro golpe para a especulação. Os hedgefonds - os abutres e comem-tudo dos mercados financeiros - capitularam. Tinham apostado na destruição e na queda dos valores da Bolsa, tinham vendido a prazo acções que não detinham - confiando que, no momento em que tivessem de as entregar, as comprariam abaixo do preço de venda. Devido a Draghi, perderam esse negócio com as acções europeias - e compraram. O fracasso dos especuladores contribuiu para a subida do preço das acções, em contraste com o espírito de crise europeu que imperara durante o Verão. Touché!
Podemos aprender com isso. A defesa da zona euro, incondicional e por todos os meios, de Atenas a Helsínquia, é também (e sobretudo, nestes tempos) um contributo poderoso para o combate à especulação e para civilizar os mercados. Opostamente, os discursos sobre o fim do bloco euro e o fracasso da Grécia servem os negócios dos predadores, na sua maior parte anglo-americanos. Se Atenas fosse expulsa do euro, isso seria um sinal da fragilidade europeia num momento histórico - e praticamente um convite aos abutres para se lançarem sobre a Espanha e a Itália, eventualmente até a França. Por isso é neste momento prioridade máxima defender a Europa - em toda a linha.
Ou seja: não é da Grécia que se deve fazer um exemplo, mas da especulação: todos esses fundos, bancos e multinacionais que farejam e deslocam milhares de milhões de um lado para o outro - para fora da zona de risco e para dentro dos nichos de lucros -, que já fizeram contas ao fim do euro, e até o praticam com precisão militar - o pânico das pessoas que não sabem o que lhes vai acontecer, a corrida às contas bancárias. 
Ao ouvir a vozearia que vem de Munique, perguntamo-nos o que é maior: a infâmia ou a lerdice dos seus autores. No estrangeiro, Angela Merkel é repetidamente representada com cruz suástica e em uniforme nazi. Markus Söder, que aparece em frente às câmaras no papel de sorridente crocodilo da CSU, oferece a banda sonora para estas imagens.
"Fazer da Grécia um exemplo": após 1945, este tipo de frases era considerado Lingua Tertii Imperii, indizível para os alemães. E que dizer do espírito cristão deste experiente orador de domingo, quando logo a seguir lembra a alegada sabedoria dos montanhistas que sabem cortar a corda quando a queda de um companheiro ameaça precipitá-los para o abismo?

No abismo? A Grécia não representa nem 4% do conjunto da dívida pública da zona euro. Ajudar a suportar esta dívida é um desafio demasiado grande para a força e a solidariedade europeias? É certo que a política ateniense tem de mostrar uma capacidade de acção que liberte os seus companheiros das calamidades da sua política interna; mas aos gregos já foi exigido muito mais do que qualquer outro povo europeu teria suportado. O analista financeiro ateniense Panos Panagiotou publicou um balanço no Süddeutsche Zeitung: nunca houve tal redução de salários e reformas num país desenvolvido, "o nível de vida e o poder de compra dos cidadãos desceu para metade". O banco central irlandês calcula que as restrições nas despesas e os aumentos de impostos na Grécia representam 20% do volume económico total nos dois últimos anos - cinco vezes mais que a Espanha e Portugal juntos. 
Afinal de contas, em que loucura de construção irreflectida nos perdemos? Se Atenas fosse expulsa do euro e assim deixasse de poder pagar as contas, todos os créditos de auxílio estariam perdidos - só no primeiro pacote vão 110 mil milhões de euros. Por outras palavras: se a Grécia se conseguir salvar, nós ganhamos com juros; se fracassar, perdemos tudo. Dito de forma ainda mais simples: se a Grécia sair, em vez de poupar vamos pagar. Atirado à miséria, esse país teria antes de mais direito a ajudas da União Europeia, já que continuaria a ser seu membro. A catástrofe sairia ainda mais cara.
A tão alardeada proposta de saída da Grécia é tão absurda que dói. 

A dívida pública grega ronda os 300 mil milhões de euros. Só o auxílio ao Hypo Real Estate (HRE) aumentou a dívida pública alemã em 200 mil milhões de euros. É demais para nós? Isso é grotesco. A Europa começa em Atenas - e terminará também aí, se os cegos da História levarem a melhor.   


espírito académico x saber de experiência feito

Bruxelas quer mais licenciaturas como a de Relvas, diz o Sol.
Que mais irá me acontecer?, pergunto eu. (E mais uma vez lamento a falta de seriedade dos jornalistas que inventam títulos destes. Que diabo: a vida não é uma revista à portuguesa, e o tema é demasiado sério para ser arrelvasado!)

Porquê dar um título académico a pessoas que não frequentaram a universidade? Porque não inventar outro nome para lhes reconhecer a experiência profissional? Podíamos ter licenciados e, por exemplo, emeritados (talvez precise de pensar mais uns cinco minutinhos para arranjar um nome melhor). 


Se tivesse meios para isso, abria agora uma universidade privada que só daria a licenciatura a quem frequentou aulas de exigente currículo, estudou com profundidade a sua área de saber e lhe discutiu os métodos, fez vários trabalhos de investigação e participou em debates intensos com os professores e os colegas.
Que nome lhe daria: Universidade Antiga? Utopiversidade? Pequenaldeiagaulesa?


No fundo, a questão que se coloca é: o que é a universidade? Qual é o lugar da universidade no futuro? O que significa ter um título académico? A universidade é um lugar onde se vai aprender uma ferramenta e uma profissão, ou onde se pratica o pensamento com profundidade e a investigação colegial?

(Arrelvasando a questão: porque não distinguir nos títulos concedidos pela Universidade - que são, no fundo, uma validação concreta - um título académico para os que verdadeiramente estudaram, e outro, o da via profissional, digamos assim, para as pessoas que só se lembram de concluir o curso aos 37 anos ou os que, em vez de estudar, preferem cair logo na vida real e acumular experiência prática?) (desculpem, foi um momento de fraqueza, já passa)

***

O semanário Die Zeit trazia em fins de Julho passado um artigo de Heinz-Elmar Tenorth com o título "ainda precisamos da universidade?" Trata-se da versão resumida de um trabalho apresentado na Junge Akademie der Berlin-Brandenburgischen Akademie der Wissenschaften e na Leopoldina.  Questiona a especificidade do papel da universidade hoje em dia (transmissão de saber, investigação, validação - e lembra que a validação é o último bastião da universidade, e mesmo esse está prestes a ser perdido devido à pressão das instituições concorrentes). Traduzo (muito, muito apressadamente, já se sabe) a última parte do artigo:

O que podemos prometer e esperar para lá do quotidiano da formação académica e de uma investigação correcta e normal? 
Antes de mais, uma forma de vida específica, autónoma, sustentada pela comunidade de professores e alunos (societas magistrorum et scholarium), orientada pelo imperativo da investigação, organizada por temas e métodos, e financiada de tal modo que a única preocupação de cada um dos seus membros é tornar-se, na sua área de saber, o melhor de todos. Na sua praxis é naturalmente uma torre de marfim, um parque de jogos intelectual, um laboratório de ideias - também na área de Humanidades-, em concorrência e cooperação permanente com os outros institutos similares.

A universidade é indispensável para o recrutamento de elites de todo o tipo, porque não nos faltam experts, o que nos falta são experts com uma sólida formação, esses que são capazes de enfrentar um futuro desconhecido, e por isso se têm de sujeitar ao crivo dos mais elevados standards.

É um espaço de aprendizagem sem limitações de tempo, organizado simultaneamente de forma individual e colectiva, ou seja: impossível, no fundo. Ou, como nos textos de Humboldt que agora poderia citar, um mundo entre ideia e realidade, em "solidão e liberdade".

Por isso, devemos também ser realistas: a universidade nunca vai existir assim como instituição - porque havia o Estado de financiar tal coisa? A não ser que o Estado saiba que há luxos que são necessários quando as expectativas são extraordinárias - sobretudo no que diz respeito à construção de experts capazes de reflexão, à formação através da Ciência, e também à descoberta do que é novo ou ao uso sistemático das diferenças geracionais para a crítica do conhecido e contra o poder paralisante do que é velho. 

Mas esta universidade só se tornará uma ideia reguladora no quotidiano do sistema de ensino superior se pessoas e problemas, soluções e contextos forem capazes de se unir de forma produtiva, podíamos até dizer: como guerrilheiros ("Partisanen") - à semelhança do que aconteceu em 1810 em Berlim (pelo que sabemos que o encantamento não é eterno). Mas podemos tentar - agora mesmo, no seminário, na aula, no laboratório: o primeiro passo é que conta.

***

"Bruxelas quer", diz o artigo. Mas será que Bruxelas quer, pode e manda?
Não tenho conhecimento disso, mas espero sinceramente que as universidades da Europa já estejam unidas num debate sobre o sentido e o conteúdo de um título académico, que é afinal a questão do sentido e do conteúdo da própria universidade.

06 setembro 2012

mudam-se os tempos


Pensava que aquela coisa horrorosa a que as nossas mães chamavam cinta tinha desaparecido para sempre. E desapareceu. Agora é uma coisa super sexy, a que se chama shaping dress.

Mudam-se os tempos, mais que as vontades.

(do site da H&M)

05 setembro 2012

nós



Às vezes o segredo está mesmo na simplicidade.
Como este filme: mostra 101 rostos. E nem é preciso um minuto para me deixar rendida à minha espécie, presa de uma imensa ternura.

Ao ver estas pessoas ocorre-me a canção do Caetano Veloso, Terra. Esse desmedido carinho, essa acção de graças.
Somos nós. Nós de uma rede.

robinhoodismo


Hoje (mais uma vez) caí na asneira de percorrer os murais dos amigos no facebook. Pérolas e mais pérolas. Apetecia-me roubar tudo, levar para o meu mural para mostrar a outros amigos.
Estes ímpetos de RobinHoodismo fazem-me sentir um bocado parva. Mas que era preciso afinar um sistema de franchising no facebook, ai isso era!

04 setembro 2012

o passeio dos alegres (8)

Quarta-feira era o último dia do grupo completo, e resolvemos regressar ao Wannsee, onde já tínhamos estado no primeiro dia.
Passámos pelo terreno onde vamos construir uma casa, para eles contarem aos paizinhos meus amigos. Mas não desataram a fazer aaaah e ooooh, ai, esta juventude! (pais que me estão a ler: da próxima vez treinem-lhes melhor as interjeições de entusiasmo sem limites)

Fomos apanhar o S-Bahn para Wannsee na estação de Grunewald, e aproveitei para lhes mostrar um memorial do Holocausto pouco conhecido dos turistas: Gleis 17, o cais de onde se fizeram as deportações de judeus para os campos de concentração. As datas, o número de pessoas deportadas e o seu destino estão marcadas em placas postas lado a lado ao longo da linha. Procurámos as datas dos nossos aniversários, e as dos nossos pais. É um reflexo natural ir em busca de algo que nos liga ao que estamos a ver, mas ler que no dia dos meus anos saíram 900 judeus para Theresienstadt é um elo desconfortável.
É Berlim: onde a nossa vida se mistura à dos outros e à História.




A viagem de Charlottenburg ao Wannsee não é longa. O comboio atravessa a floresta e pára junto ao lago. Continua-se para a Liebermann-Villa de autocarro (é o 114). Falei-lhes deste pintor proveniente de uma família de industriais judeus muito abastada, que tinha casa junto à porta de Brandeburgo e mandou fazer, mesmo em frente ao lago, um luxuoso refúgio para os fins-de-semana e meses de Verão. Aproveitei as fotos na loja do museu para lhes falar do escândalo do quadro em que Liebermann representou Jesus como um rapazinho judeu.








Passeámos pelos jardins, os meus meninos fizeram milhares de fotografias de flores (e muito boas, mas poupo os meus leitores, que este blogue, sendo muita coisa, ainda não é um calendário das edições paulistas), eu  encantei-me com umas couves azuis que lá tinham plantado, fomos até ao lago...
...e foi então - talvez à décima quinta vez que visito aquele museu - que me caiu a ficha: estávamos num daqueles famosos jardins de pintor, como o de Monet em Giverny, o de Renoir em Cagnes-sur-Mer, o de Nolde em Seebüll! Apressei-me a contar isso aos miúdos, mas num tom neutro, como se desde sempre o tivesse sabido. 





Dentro da casa havia uma exposição sobre a pintura de jardins de Liebermann e de Nolde. Espero que da outra vida não haja janelas para esta, porque ainda se arranja um sarilho no Além: estes dois pintores, inimigos em vida, têm agora os seus retratos e quadros frente a frente!
Nolde teve um papel importante nos conflitos geracionais entre impressionistas e expressionistas que dilaceraram o grupo da Secessão Berlinense, de que Liebermann era presidente. À entrada da exposição vêem-se auto-retratos dos dois, justamente com a opinião que tinham um do outro:
Liebermann: "Nolde... só sabe fazer garatujos crus, devia ter-se ficado pelos retoques de postais com que começou a sua carreira."
Nolde: "Liebermann fez um discurso sem calor, com palavras cortantes como ácido."
Estava-se no princípio do séc.XX. Em breve os nazis subiriam ao poder. Em Maio de 1933, no dia em que os nazis queimaram os livros dos autores indesejados do regime, Liebermann renuncia a todos os seus cargos públicos, porque já não vê reconhecido o princípio de a arte ser independente da política e da origem do artista. Morre poucos anos depois. A sua viúva, Martha, é forçada a vender a casa do lago. Suicidar-se-á em 1943, aos 87 anos, após receber uma ordem de deportação.  
Nolde, por seu turno, vê-se a si próprio como o pintor por excelência do III Reich. Os nazis têm outra opinião, e proíbem-no de pintar. Nolde refugia-se na sua casa junto ao Mar do Norte, em Seebüll, e trabalha clandestinamente nos quadros não-pintados.


(Emil Nolde)

Comparámos os quadros dos dois, e gostámos de ambos. A luz sábia nos quadros de Liebermann, por um lado, a extraordinária energia dos jardins do Nolde, por outro. 
As senhoras da caixa foram amorosas. Além de terem deixado entrar metade do grupo sem pagar, ainda deram um postal a cada um, à saída. O museu é o resultado de uma iniciativa cultural privada, e todas elas são voluntárias que trabalham gratuitamente para tornar este projecto possível.

Da casa do Liebermann seguimos para a casa da Conferência de Wannsee, praticamente ao lado. Combinámos que seria uma visita rápida, apesar da exposição extremamente informativa e completa, que pede para ficarmos longamente em cada sala. Mas dois museus numa manhã é demais - mesmo para mim! - pelo que lhes fiz um pequeno resumo do que se passou ali, e só lhes mostrei alguns dos textos e das fotos mais importantes. Uma das fotos mais inesperadas é da Leni Riefenstahl, a excelente cineasta do regime nazi. Nessa imagem vê-se a expressão de horror no rosto da realizadora quando é testemunha do assassínio de um grupo de judeus. A partir desse momento deixou de trabalhar para os nazis, mas nunca se demarcou publicamente deles, e nunca foi reabilitada. Vejo essa fotografia, e reconcilio-me com aquela mulher: afinal era um ser humano, tinha consciência e coração.




(a sala onde foi feita a reunião e está exposta a respectiva acta) 






Mesmo ao lado da casa da Conferência de Wannsee há um sítio óptimo para almoçar. Optámos pelas famosas salsichas com batatas fritas no terraço em frente ao lago, em vez da tortilha no restaurante junto ao cais dos barcos à vela.







Regressámos a Berlim. Eu fui para casa trabalhar, e o grupo seguiu para a Coluna da Vitória. Alguns valentes subiram todos aqueles degraus, e valeu a pena:







Depois saíram pela cidade, por lojas que não sei. 


Ao jantar contaram histórias mirabolantes do que viram nas lojas, de um kindle novo, sei lá. E riram, de tudo e da minha maneira de falar com o Fox. Ingratas criaturas, é o que é.
(...as saudades que cá deixaram!)


Ajudaram-me a preparar um calendário de advento para mandar à Christina, e fizeram fotografias, provavelmente para mostrarem em casa, a ver se os pais se inspiram...


(Na sexta-feira seguinte levei o calendário a uma amiga da Christina que ia daí a uns dias para a Bolívia, para ela o levar. Quando soube que era um calendário de advento, virou-se para a mãe e perguntou: "também me fazes um?" A mãe suspirou, porque tinha apenas um dia para tratar disso. Se continuo assim, torno-me persona non grata numa série de famílias.)

mais problemas com nozes



(vídeo encontrado aqui, também na Waldbühne, com 12.000 pessoas em 2010)

Acabei de descobrir (e, caramba, ainda tenho o coração aos saltos!) que tenho três bilhetes para o Leonard Cohen na Waldbühne, amanhã.
Claro que tenho uma boa desculpa: já os comprei em Maio, desde então aconteceu tanta coisa que uma pessoa despista-se um bocadinho. Mas é uma desculpa que não me satisfaz. Tenho de me organizar melhor com os bilhetes, para um dia destes não ter um desgosto. Nem quero pensar na cara que teria feito ao abrir o jornal na quinta-feira e ver as imagens do concerto naquele palco fantástico, para me lembrar - só então! - que podia ter estado lá.

a pergunta que desde ontem não quer calar



A propósito do que ontem copiei da wikipedia sobre o Buzz Aldrin a comungar na lua: como raio é que um gajo de escafandro consegue meter alguma coisa à boca?

03 setembro 2012

ó meu deus, e se desses as nozes aos outros?



Estive a ver o programa da Musikfest Berlin 2012. É o ano de John Cage e de eleições, os EUA vão estar na berlinda. Por exemplo: Porgy and Bess com Simon Rattle, Eight Poems of Emily Dickinson de Aaron Copland, Amériques de Varèse com a Konzertgebow, Nixon in China com a BBC Symphony Orchestra. Mas também as "14 maneiras de descrever a chuva" de H. Eisler. E se fosse só isso, mas é muito mais!

Ó meu deus, eu não dou vazão. E a minha conta bancária também não, diga-se de passagem.

blue moon



Este ano havia uma blue moon (nome que se dá a uma lua cheia se acontece duas vezes no mesmo mês), e foi justamente a data escolhida para o funeral do Neil Armstrong.

Ia descambar para um post todo melado e assim (afinal de contas, o Neil Armstrong foi o primeiro de uma longa série de celebridades que me passaram despercebidas - enquanto ele saltava lentamente pela lua, eu encantava-me com o meu carioca de limão), mas fui dar uma voltinha pelo Buzz Aldrin na Wikipedia, e só me dá vontade de rir:

"Aldrin, a Presbyterian, was the first person to hold a religious ceremony on the Moon. After landing on the Moon, he radioed Earth: "I'd like to take this opportunity to ask every person listening in, whoever and wherever they may be, to pause for a moment and contemplate the events of the past few hours, and to give thanks in his or her own way." He gave himself Communion on the surface of the Moon, but he kept it secret because of a lawsuit brought by atheist activist Madalyn Murray O'Hair over the reading of Genesis on Apollo 8. Aldrin, a church elder, used a pastor's home Communion kit given to him by Dean Woodruff and recited words used by his pastor at Webster Presbyterian Church. Webster Presbyterian Church, a local congregation in Webster, Texas, (a Houston suburb near the Johnson Space Center) possesses the chalice used for communion on the Moon, and commemorates the event annually on the Sunday closest to July 20. Aldrin, a Freemason, also carried to the Moon a special deputization from Grand Master J. Guy Smith, with which to claim Masonic territorial jurisdiction over the Moon on behalf of the Grand Lodge of Texas."

Pobre lua: logo na primeira visita, foi invadida pela bandeira dos EUA, a Igreja e a Maçonaria!
(Só falta mesmo a troika.)

02 setembro 2012

Usedom


Todos os anos, lá para fins de Agosto, fazemos um fim-de-semana com alguns amigos numa ilha no mar Báltico. Desta vez o Joachim estava nos EUA, a Christina na Bolívia, o Matthias em casa com o Fox ("animais não entram") e com planos para ir ver a IFA com os amigos, pelo que fui sozinha, e sem vontade nenhuma de me lançar aos trezentos quilómetros de caminho. Foi estranho fazer a mala para partir para este encontro sem a minha família: de novo fui visitada pela sensação de um ciclo que chega ao fim - a minha vida vai passando por mim, e eu a olhar para ela como se me fosse alheia.

Quase ia fazer disto um postal de férias (o tempo óptimo, os mergulhos no mar, os passeios na floresta, bla bla bla) mas quero falar do que foi realmente especial:

O jogo que fizemos ontem, em que adivinhávamos como um de nós reagiria em determinada situação (por exemplo: era distribuidor de pizzas e deixava cair uma ao chão - metia-a de novo na caixa ou ia buscar uma nova? ou: depois de ter recebido do seguro o dinheiro para substituir a bicicleta roubada, a polícia dizia que encontrara a roubada, mas estava toda partida - devolvia o dinheiro ao seguro, ou dizia à polícia que a bicicleta não era aquela?), e que nos proporcionou belas gargalhadas (agora já sei em casa de quem é que não devo comer pizza...)

A manhã de domingo na praia - depois dos risos e das confissões do jogo de sábado, o grupo atingiu um estado de tranquilidade sem palavras. Passámos a manhã estendidos na areia a ler jornais e livros, cada um por si, num silêncio de pura harmonia.

No regresso a Berlim, dei boleia a dois dos casais. Palavra puxa palavra, viemos boa parte da viagem a falar de depressão e burn out. Os dois homens chegaram a estar internados para tratamento contra a depressão, e contaram as suas experiências com muita abertura e simplicidade.

Mas que terei eu feito para me acontecerem tantas vezes momentos assim especiais?
(A minha vida vai passando por mim, e eu a olhar para ela como se fosse um presente.)