22 agosto 2012
this abuse of the sublime
“Our attitude toward religion, and toward Orthodoxy in particular, is one of respect, and for this very reason we are distressed that the great and luminous Christian philosophy is being used so shabbily. We are very angry at this abuse of the sublime”.
Nadezhda Tolokonnikova, discurso no tribunal Khamovnichesky em Moscovo
8 de Agosto de 2012
(foto daqui)
Nous ne nous ferions pas brûler pour nos opinions...
« Nous ne nous ferions pas brûler pour nos opinions ; nous ne sommes pas assez sûrs d’elles, mais nous nous ferions peut-être brûler pour le droit d’avoir et de changer nos opinions »
Nietzsche, Der Wanderer und sein Schatten
Nietzsche, Der Wanderer und sein Schatten
21 agosto 2012
visita de Estado para o povo
Este fim-de-semana a chancelaria e os ministérios estenderam o tapete vermelho e abriram as suas portas ao povo. Uma animação.
Fomos de novo à chancelaria, e deram-me uns postais fantásticos da Angela Merkel, autografados e tudo. Pedi logo uma dúzia, para dar a uns miúdos portugueses que vêm cá passar uma semana. Tenho a certeza que vão adorar, já estou a ver a cara de felicidade que vão fazer.
Achei muito curioso que este ano se dava um papel preponderante a Portugal. Tanto na exposição à entrada, onde havia fotografias de gente importante recebida naquele sítio...
...como na sala das conferências de imprensa, onde decorria um filme sobre as actividades da chancelaria, entre elas as recepções para representantes importantes de outros países - e o exemplo escolhido era sempre Portugal, sempre o Passos Coelho.
Entre tantos exemplos possíveis, e alguns até bem importantes no contexto da História alemã (como por exemplo políticos israelitas, polacos, franceses ou americanos), foram lembrar-se de Portugal. Talvez em jeito de homenagem ao bom rapazinho que faz tudo como lhe mandam?
Na exposição da entrada também havia uma foto da rainha dos Países Baixos. Esta:
(com um olho assim azul, estou em crer que há uma visagista que perdeu o emprego)
Nas paredes exteriores do edifício havia belíssimos jardins verticais, mas penso que desta vez não é Patric Blanc, é simplesmente uma sábia combinação de heras (anotei, que esta ideia ainda me vai dar muito jeito daqui a uns meses).
O edifício é muito amplo, e está cheio de obras de arte contemporânea. Esta escultura, por exemplo, chama-se "a filósofa", e é da autoria de Markus Lüpertz, artista muito apreciado por Gerhard Schröder, segundo nos disseram.
No andar de baixo há uma exposição permanente sobre cada um dos chanceleres. As vitrinas onde se expõem alguns dos presentes mais interessantes que receberam têm também uma fotografia e um pequeno texto sobre o seu período de governação. Muitos deles são um enorme motivo de orgulho para o país, e algumas das fotografias são ícones da História da Europa.
Numa vitrina havia um livro aberto, mostrando duas folhas. Fiquei a olhá-lo, como se a História se tivesse materializado à minha frente.
Num dos lados via-se o famoso cartão do Kennedy, "ish bin ein beerleener":
No outro estava a folha com a famosa passagem do discurso de Reagan: "Mr. Gorbachev, tear down this wall!" - e com as marcações feitas por ele para dar a ênfase certa a cada palavra:
E eu que só lá tinha ido para beber um cocktail nos aprazíveis jardins da chancelaria...
No relvado por trás do edifício podia-se visitar um dos helicópteros usados para levar VIPs em distâncias curtas. À frente tem uma cabine de quatro lugares, e atrás do corredor transversal tem ainda lugar para dez pessoas. A Angela Merkel, dizia um polícia, senta-se sempre virada para trás. Aha, pensei eu, quer ter sempre tudo sob controlo? Pelos vistos não enjoa quando viaja de costas, comentou ele. O Papa, esse, sentou-se virado para a frente. "Aí nessa cadeira", acrescentava, e com tal entusiasmo que me lembrei de um conjunto de cadeiras que me deram uma vez, em Portugal, e da fitinha vermelha que adornava uma delas: era onde Salazar tinha estado uma vez sentado. Ainda bem que avisam, para a mandar colar bem - que as cadeiras do Salazar não são de confiança.
Nos jardins havia a animação do costume. Este ano o tema era desporto e deficiência. Chamaram ao palco pessoas com uma impressionante força de vontade. Vimos um homem sem uma perna a jogar ping-pong, falou-se de futebol para cegos...
E mais uma atenção a Portugal: o vinho que lá serviam era ribatejano.
Da chancelaria fomos para o Ministério do Interior. O programa anunciava viagens de barco, e com o calor que fazia vinha mesmo a calhar. Infelizmente, nesse dia as viagens de barco já estavam todas reservadas. Mas não perdemos tudo: fiquei a saber que o Estado alemão tem vagas para inúmeros lugares no serviço público para estrangeiros (desde jardineiro e cozinheiro até lugares de técnicos superiores), oferece 600 horas de aulas de alemão gratuitas, bem como um curso de orientação profissional. Perguntei à senhora se podia dizer isso aos jovens portugueses que estão sem emprego, e ela disse para entrarem em contacto com os serviços responsáveis: informações gerais e formação para o serviço público.
Para o final do dia, o programa anunciava música dos Roma e Sinti. Esperei em alegre expectativa, ouvindo dentro de mim acordes do Ko to tamo peva, e eis que a "música dos Roma e Sinti" era uma rapariga a cantar jazz. Nada como surpresas destas para esvaziar as gavetas em que comodamente me instalei.
Fomos de novo à chancelaria, e deram-me uns postais fantásticos da Angela Merkel, autografados e tudo. Pedi logo uma dúzia, para dar a uns miúdos portugueses que vêm cá passar uma semana. Tenho a certeza que vão adorar, já estou a ver a cara de felicidade que vão fazer.
Achei muito curioso que este ano se dava um papel preponderante a Portugal. Tanto na exposição à entrada, onde havia fotografias de gente importante recebida naquele sítio...
...como na sala das conferências de imprensa, onde decorria um filme sobre as actividades da chancelaria, entre elas as recepções para representantes importantes de outros países - e o exemplo escolhido era sempre Portugal, sempre o Passos Coelho.
Entre tantos exemplos possíveis, e alguns até bem importantes no contexto da História alemã (como por exemplo políticos israelitas, polacos, franceses ou americanos), foram lembrar-se de Portugal. Talvez em jeito de homenagem ao bom rapazinho que faz tudo como lhe mandam?
Na exposição da entrada também havia uma foto da rainha dos Países Baixos. Esta:
(com um olho assim azul, estou em crer que há uma visagista que perdeu o emprego)
Nas paredes exteriores do edifício havia belíssimos jardins verticais, mas penso que desta vez não é Patric Blanc, é simplesmente uma sábia combinação de heras (anotei, que esta ideia ainda me vai dar muito jeito daqui a uns meses).
O edifício é muito amplo, e está cheio de obras de arte contemporânea. Esta escultura, por exemplo, chama-se "a filósofa", e é da autoria de Markus Lüpertz, artista muito apreciado por Gerhard Schröder, segundo nos disseram.
No andar de baixo há uma exposição permanente sobre cada um dos chanceleres. As vitrinas onde se expõem alguns dos presentes mais interessantes que receberam têm também uma fotografia e um pequeno texto sobre o seu período de governação. Muitos deles são um enorme motivo de orgulho para o país, e algumas das fotografias são ícones da História da Europa.
Numa vitrina havia um livro aberto, mostrando duas folhas. Fiquei a olhá-lo, como se a História se tivesse materializado à minha frente.
Num dos lados via-se o famoso cartão do Kennedy, "ish bin ein beerleener":
No outro estava a folha com a famosa passagem do discurso de Reagan: "Mr. Gorbachev, tear down this wall!" - e com as marcações feitas por ele para dar a ênfase certa a cada palavra:
E eu que só lá tinha ido para beber um cocktail nos aprazíveis jardins da chancelaria...
No relvado por trás do edifício podia-se visitar um dos helicópteros usados para levar VIPs em distâncias curtas. À frente tem uma cabine de quatro lugares, e atrás do corredor transversal tem ainda lugar para dez pessoas. A Angela Merkel, dizia um polícia, senta-se sempre virada para trás. Aha, pensei eu, quer ter sempre tudo sob controlo? Pelos vistos não enjoa quando viaja de costas, comentou ele. O Papa, esse, sentou-se virado para a frente. "Aí nessa cadeira", acrescentava, e com tal entusiasmo que me lembrei de um conjunto de cadeiras que me deram uma vez, em Portugal, e da fitinha vermelha que adornava uma delas: era onde Salazar tinha estado uma vez sentado. Ainda bem que avisam, para a mandar colar bem - que as cadeiras do Salazar não são de confiança.
Nos jardins havia a animação do costume. Este ano o tema era desporto e deficiência. Chamaram ao palco pessoas com uma impressionante força de vontade. Vimos um homem sem uma perna a jogar ping-pong, falou-se de futebol para cegos...
E mais uma atenção a Portugal: o vinho que lá serviam era ribatejano.
Da chancelaria fomos para o Ministério do Interior. O programa anunciava viagens de barco, e com o calor que fazia vinha mesmo a calhar. Infelizmente, nesse dia as viagens de barco já estavam todas reservadas. Mas não perdemos tudo: fiquei a saber que o Estado alemão tem vagas para inúmeros lugares no serviço público para estrangeiros (desde jardineiro e cozinheiro até lugares de técnicos superiores), oferece 600 horas de aulas de alemão gratuitas, bem como um curso de orientação profissional. Perguntei à senhora se podia dizer isso aos jovens portugueses que estão sem emprego, e ela disse para entrarem em contacto com os serviços responsáveis: informações gerais e formação para o serviço público.
Para o final do dia, o programa anunciava música dos Roma e Sinti. Esperei em alegre expectativa, ouvindo dentro de mim acordes do Ko to tamo peva, e eis que a "música dos Roma e Sinti" era uma rapariga a cantar jazz. Nada como surpresas destas para esvaziar as gavetas em que comodamente me instalei.
20 agosto 2012
diz que são heroínas
Como uma pessoa se engana: a propósito da vergonhosa sharia cristã que nos vem da Rússia, andava eu a pensar que estas Pussy Riot eram umas miúdas um bocado ingénuas e amalucadas que tiveram o azar de ser apanhadas numa rede de interesses muito maiores que elas (no jornal Die Zeit chega-se até a sugerir que este processo é puro cálculo político: interessa ao Putin colar à oposição o rosto destas três punks, para que o povo se desinteresse da oposição), e afinal descubro um pensamento complexo e uma busca de pureza digna de louvor.
A propósito, traduzo parte de um artigo do semanário Die Zeit:
"Procurávamos algo simples, autêntico, e encontrámo-lo na santa inocência da nossa performance punk", disse Nadja Tolokonnikawa, a estudante de filosofia, no fantástico discurso da caixa de vidro que imediatamente se tornou num clássico da revolta artística. "Paixão, abertura e ingenuidade são superiores à hipocrisia, à mentira e ao decoro forçado, que não fazem mais que encobrir o crime."
Sócrates, Brodsky, os dissidentes da era soviética – no discurso de Tolokonnikawas todos eles são evocados como abonadores do protesto punk.
Além disso - e isto é talvez o mais comovente na actuação das três - elas tentam salvar o Cristianismo em que acreditam. Não apenas repetiram vezes sem conta os pedidos de desculpa aos crentes, muitos dos quais se sentiram ofendidos pela actuação delas. Mais ainda: a raiva contra a ligação confortável entre o kzar Putin e o patriarca ortodoxo Cirilo nasce de um resto de Fé. "O Cristianismo", disse Tolokonnikawa na sala do tribunal, "quer a busca a Verdade, o permanente esforço de sair de si próprio. Não é por acaso que Cristo se dava com prostitutas. Por isso entrámos na igreja."
Se os que detêm o poder na igreja russa-ortodoxa não vêem quão valioso é o tesouro que reside nesta discussão com o Cristianismo, feita de zanga e decepção, então não há volta a dar-lhes.
***
E aqui vai a tradução inglesa do famoso discurso:
Nadezhda Tolokonnikova
Closing Statement
8 August 2012, Khamovnichesky Courthouse, Moscow
Essentially, it is not three singers from Pussy Riot who are on trial here. If that were the case, what’s happening would be totally insignificant. It is the entire state system of the Russian Federation which is on trial and which, unfortunately for itself, thoroughly enjoys advertising its cruelty towards human beings, its indifference to their honour and dignity, the very worst that has happened in Russian history to date. To my deepest regret, this mock trial is close to the standards of the Stalinist troikas. Thus, we have our investigator, lawyer and judge. And then, what’s more, what all three of them do and say and decide is determined by a political demand for repression. Who is to blame for the performance at the Cathedral of Christ the Saviour and for our being put on trial after the concert? The authoritarian political system is to blame. What Pussy Riot does is oppositional art or politics that draws upon the forms art has established. In any event, it is a form of civil action in circumstances where basic human rights, civil and political freedoms are suppressed by the corporate state system.
Since the turn of the millennium many people, relentlessly and methodically flayed alive by the systematic destruction of liberties, have rebelled.
We were looking for authentic genuineness and simplicity and we found them in the holy foolishness of our punk performances. Passion, openness and naivety are superior to hypocrisy, cunning and a contrived decency that conceals crimes. The state’s leaders stand with saintly expressions in church but, in their deceit, their sins are far greater than ours. We’ve put on our political punk concerts because the Russian state system is dominated by rigidity, closedness and caste and the policies pursued serve only narrow corporate interests to the extent that even the air of Russia makes us ill.
We are absolutely not happy with—and have been forced into acting and living politically by—the use of coercive, strong-arm measures to handle social processes, a situation in which the most important political institutions are the disciplinary structures of the state - the security agencies, the army, the police, the special forces and the accompanying means of ensuring political stability: prisons, preventive detention and mechanisms to closely control public behaviour. Nor are we happy with the enforced civic passivity of the bulk of the population or the complete domination of executive structures over the legislature and judiciary. Moreover, we are genuinely angered by the fear-based and scandalously low standard of political culture, which is constantly and knowingly maintained by the state system and its accomplices. Look at what Patriarch Kirill has to say: “The Orthodox don’t go to rallies.” We are angered by the appalling weakness of horizontal relationships within society. We don’t like the way in which the state system easily manipulates public opinion through its tight control of the overwhelming majority of media outlets. A perfect example is the unprecedentedly shameless campaign against Pussy Riot, based on the distortion of facts and words, which has appeared in nearly all the Russian media, apart from the few independent media there are in this political system.
Even so, I can now state—despite the fact that we currently have an authoritarian political situation—that I am seeing this political system collapse to a certain extent when it comes to the three members of Pussy Riot, because what the system was counting on, unfortunately for that system, has not come to pass. Russia as a whole does not condemn us. Every day more and more people believe us and believe in us, and think we should be free rather than behind bars. I can see this from the people I meet. I meet people who represent the system, who work for the relevant agencies. I see people who are in prison. And every day there are more and more people who support us, who hope for our success and especially for our release, who say our political act was justified. People tell us, “To start with, we weren’t sure you could have done this,” but every day there are more and more people who say, “Time is proving to us that your political gesture was correct. You have exposed the cancer in this political system and dealt a blow to a nest of vipers who then turned on you.” These people are trying to make life easier for us in whatever way they can and we are very grateful to them for that...
We are grateful to all those who, free themselves, speak out in our support. There are a vast number, I know. I know that a huge number of Orthodox people are standing up for us. They are praying for us outside the courtroom, for the members of Pussy Riot who are incarcerated. We’ve seen the little booklets Orthodox people are handing out with prayers for those in prison. This alone shows that there isn’t a unified social group of Orthodox believers as the prosecution is trying to assert. No such thing exists. More and more believers are starting to defend Pussy Riot. They don’t think what we did deserves even five months in detention, much less the three years in prison the prosecutor would like. And every day, more and more people realize that if this political system has ganged up to this extent against three girls for a 30-second performance in the Cathedral of Christ the Saviour, it means the system is afraid of the truth and afraid of our sincerity and directness. We haven’t dissembled, not for a second, not for a minute during this trial, but the other side is dissembling too much and people can sense it. People can sense the truth. Truth really does have some kind of ontological, existential superiority over lies and this is written in the Bible, in the Old Testament, in particular. In the end, the ways of truth always triumph over the ways of wickedness, guile and lies. And with each day that passes, the ways of truth are more and more triumphant even though we are still behind bars and are likely to be here a lot longer yet.
Madonna performed yesterday (7 August). She appeared with “Pussy Riot” written on her back. More and more people can see that we are being held here unlawfully and on a completely false charge – I’m overwhelmed by this. I am overwhelmed that truth really does triumph over lies even though physically we are here in a cage. We are freer than the people sitting opposite us for the prosecution because we can say everything we like, and we do, but those people sitting there say only what political censorship allows them to say. They can’t speak words like “punk prayer” or "Virgin Mary, Banish Putin!” They can’t say the lines from our punk prayer that have to do with the political system. Perhaps they think it wouldn’t be a bad thing to send us to jail because we are rising up against Putin and his system as well but they can’t say so because that’s not allowed either. Their mouths are sewn shut. Unfortunately, they are mere puppets. I hope they realize this and also take the road to freedom, truth and sincerity because these are superior to stasis, contrived decency and hypocrisy. Stasis and the search for truth are always in opposition to one another and, in this case, at this trial, we can see people who are trying to find the truth and people who are trying to enslave those who want to find the truth.
Humans are beings who always make mistakes. They are not perfect. They strive for wisdom but never actually have it. That’s precisely why philosophy came into being, precisely because philosophers are people who love wisdom and strive for it, but never actually possess it and it is what makes them act and think and, ultimately, live the way they do. This is what made us go into the Cathedral of Christ the Saviour. I think that Christianity, as I’ve understood it from studying the Old and New Testaments, supports the search for truth and a constant overcoming of the self, overcoming what you used to be. It is not for nothing that Christ associated with prostitutes. He said we should help those who stumble, saying, “I forgive them” but for some reason I can’t see any of that at our trial, which is taking place under the banner of Christianity. I think the prosecutor is defying Christianity. The lawyers want nothing to do with the injured parties. Here’s how I understand this: Two days ago, Lawyer Taratukhin made a speech in which he wanted everyone to understand that he does not identify with the people he is representing. This means he’s not ethically comfortable representing people who want to send the three members of Pussy Riot to jail. Why they want to do this, I don’t know. Perhaps it is their right. The lawyer was embarrassed, the shouts of “Shame! Executioners!” had got to him, which goes to show that truth and goodness always triumph over lies and evil.
I think some higher powers are guiding the speeches of the lawyers for the other side when, time after time, they make mistakes in what they say and call us the “injured parties”. Almost all the lawyers are doing it, including Lawyer Pavlova who is very negatively disposed towards us. Nevertheless, some higher powers are causing her to say “the injured parties” about us rather than the people she’s defending, us. I wouldn’t give people labels. I don’t think there are winners or losers here, injured parties or accused. We just need to make contact, to establish a dialogue and a joint search for truth, to seek wisdom together, to be philosophers together, rather than stigmatizing and labelling people. This is one of the worst things people can do and Christ condemned it.
We have been subjected to abuse during this trial. Who would have thought that one man and the state system he controls would once again be capable of entirely wanton evil? Who would have thought that history and Stalin’s fairly recent Great Terror, in particular, would teach us nothing at all? It makes you want to weep to see how the methods of the medieval inquisition are brought out by the law-enforcement and judicial system of the Russian Federation, which is our country. Since the time of our arrest, however, we can no longer weep. We’ve forgotten how to cry. At our punk concerts we used to shout out in desperation to the best of our abilities about the iniquities of the authorities and now we’ve been robbed of our voice.
Throughout this whole trial, they have refused to hear us and I mean hear us, which involves understanding and, moreover, thinking. I think every individual should strive to attain wisdom, to be a philosopher, not just people who happen to have studied philosophy. That’s nothing. Formal education is nothing in itself and Lawyer Pavlova is constantly trying to accuse us of not being sufficiently well-educated. I think though that the most important thing is the desire to know and to understand, and that’s something people can do for themselves outside of educational establishments.The trappings of academic degrees don’t mean anything in this instance. Someone can have a vast fund of knowledge and for all that not be human. Pythagoras said that ‘the learning of many things does not teach understanding’. Unfortunately, that’s something we are forced to observe here. We’re just part of the scenery, a bit of wildlife, just bodies brought into the courtroom. If, after many days of asking, talking and doing battle our petitions are examined, they are inevitably rejected.
The court, on the other hand—and unfortunately for us and for our country—listens to the prosecutor who repeatedly distorts our comments and statements with impunity in a bid to neutralize them. There is no attempt to conceal this breach in an adversarial system. They even seem to be showing it off. On 30th July, the first day of the trial, we presented our response to the charges against us. Prior to that we were in prison, in confinement. We can’t do anything there: we can’t make statements, we can’t film, we don’t have Internet. We can’t even give our lawyer any papers because that’s banned too. Our first chance to speak came on 30th July. The document we’d written was read out by defence lawyer Volkova because the court refused outright to let the defendants speak. We called for contact and dialogue rather than conflict and opposition. We reached out a hand to those who, for some reason, assume we are their enemies. In response they laughed at us and spat in our outstretched hands. “You’re disingenuous,” they told us. But they needn’t have bothered. Don’t judge others by your own standards. We were, as always, sincere in saying exactly what we thought, out of childish naïvety, sure, but we don’t regret anything we said, even on that day. We are reviled but we do not intend to speak evil in return. We are in desperate straits but do not despair. We are persecuted but not forsaken. It’s easy to humiliate and crush people who are open, but when I am weak, then I am strong.
Listen to us rather than to Arkady Mamontov talking about us. Don’t twist and distort everything we say. Let us enter into dialogue and contact with the country, which is ours too, not just Putin’s and the Patriarch’s. Like Solzhenitsyn, I believe that in the end, words will shatter concrete. Solzhenitsyn wrote, “the Word is more ancient than concrete. The Word is not to be taken lightly. In just the same way, noble people will suddenly spring up and their word will shatter concrete.”
Katya, Masha and I are in jail but I don’t consider that we’ve been defeated. Just as the dissidents weren’t defeated. When they disappeared into psychiatric hospitals and prisons, they passed judgement on the country. The art of creating an image of an era knows no winners or losers. The OBERIU poets remained artists to the very end, impossible to explain or understand. They were purged in 1937. Vvedensky wrote: “We like what can’t be understood, What can’t be explained is our friend.” According to the death certificate, Aleksandr Vvedensky died on 20 December 1941. We don’t know the cause, whether it was dysentery in the train after his arrest or a bullet from a guard. It was somewhere on the railway line between Voronezh and Kazan. Pussy Riot are Vvedensky’s disciples and his heirs. His principle of ‘bad rhyme’ is our own. He wrote: “It happens that two rhymes will come into your head, a good one and a bad one and I choose the bad one. It will be the right one.” What can’t be explained is our friend. The elitist, sophisticated occupations of the OBERIU poets, their search for sense at the edge of meaning was ultimately realized at the cost of their lives, swept away in the senseless Great Terror that’s impossible to explain. At the cost of their own lives, the OBERIU poets unintentionally demonstrated that their feeling of meaninglessness and alogism as the raw nerve of the period was correct, but at the same time led art into the realm of history. The cost of taking part in creating history is always staggeringly high for people, for their very lives. But that taking part is the very spice of human life. Being poor while bestowing riches on many; having nothing but possessing everything. It is believed that the OBERIU dissidents are dead, but they live on. They are persecuted but they do not die.
Do you remember why the young Dostoyevsky was given the death sentence? All he had done was to get carried away with socialist theories—and at the Friday meetings of a friendly circle of free thinkers at Petrashevsky’s, he became acquainted with works by Charles Fourier and George Sand. At one of the last meetings, he read out Belinsky’s letter to Gogol, which was packed, according to the court, and, please note, “with childish utterances against the Orthodox Church and the supreme authorities”. After all his preparations for the death penalty and ten dreadful, impossibly frightening minutes waiting to die, as Dostoyevsky himself put it, the announcement came that his sentence had been commuted to four years hard labour followed by military service.
Socrates was accused of corrupting youth through his philosophical discourses and of not recognizing the gods of Athens. Socrates had a connection to a divine inner voice and was by no means a theomachist, something he often said himself. What did that matter, however, when he had angered the influential people of the city with his critical, dialectical and unprejudiced thinking? Socrates was sentenced to death and, refusing to run away, although he was given that option, he calmly drank down a cup of hemlock and died.
Have you forgotten the circumstances under which Stephen, follower of the Apostles, ended his earthly life? “Then they secretly induced men to say, ‘We have heard him speak blasphemous words against Moses and against God.’ And they stirred up the people, the elders and the scribes, and they came upon him and dragged him away, and brought him before the Council. And they put forward false witnesses who said, ‘This man incessantly speaks against this holy place, and the Law.’” He was found guilty and stoned to death.
And I hope everyone remembers what the Jews said to Christ: “We're stoning you not for any good work, but for blasphemy.” And finally it would be well worth remembering this description of Christ: “He is possessed of a demon and out of his mind.”
I believe that if leaders, tsars, elders, presidents and prime ministers, the people and the judges really understood what “I desire mercy, not sacrifice” meant, they would not condemn the innocent. Our leaders are currently in a hurry only to condemn and not at all to show mercy. Incidentally, we thank Dmitry Anatolievich Medvedev for his latest wonderful aphorism. If Medvedev gave his presidency the slogan: “Freedom is better than non-freedom”, then, thanks to Medvedev’s felicitous saying, Putin’s third term has a good chance of being known by a new aphorism: “Prison is better than stoning.”
I would like you to think carefully about the following reflection by Montaigne from his Essays written in the 16th century. He wrote: “You are holding your opinions in too high a regard if you burn people alive for them.” Is it worth accusing people and putting them in jail on the basis of totally unfounded conjectures by the prosecution?
Since in actual fact we never were, and are not, motivated by religious hatred and hostility, there is nothing left for our accusers to do other than to draw on the aid of false witnesses. One of them, Motilda Ivashchenko, was ashamed and didn’t show up in court. That left false witness by [Vsevolod] Troitsky, [Igor] Ponkin and Mrs [Vera] Abramenkova. And there is no evidence of any hatred or enmity on our part other than this expert examination. For this reason, if it is honourable and just, the court must rule the evidence inadmissible because it is not a strictly scientific or objective text but a filthy, lying bit of paper from the medieval days of the inquisition. There is no other evidence that can even remotely suggest a motive.
The prosecution is reluctant to produce excerpts from the texts of Pussy Riot interviews because they are primary evidence of this lack of motive. For the umpteenth time, I will quote this excerpt. I think it’s important. It was from an interview with “Russky Reporter”, given the day after the concert at the Cathedral of Christ the Saviour: “Our attitude toward religion, and toward Orthodoxy in particular, is one of respect, and for this very reason we are distressed that the great and luminous Christian philosophy is being used so shabbily. We are very angry that at this abuse of the sublime”. It still makes us angry and we find it very painful to watch.
The lack on our part of any show of hatred or enmity has been attested by all the character witnesses examined by the defence. In addition to all the other character statements, I’d like you to consider the findings of the investigation’s psychiatric and psychological tests I had to undergo in detention. The expert’s findings were as follows: the values to which I am committed in my life are justice, mutual respect, humanity, equality and freedom. That’s what the expert said, someone who doesn’t know me and Investigator Ranchenko would probably have very much liked him to write something different. It would appear, however, that there are more people who love and value the truth, and the Bible’s right about that.
Finally, I’d like to quote a Pussy Riot song because, strange as it may seem, all our songs have turned out to be prophetic, including the one that says: “The KGBchief, their number one saint, will escort protestors off to jail” – that’s about us. What I’d like to quote now, however, is the next line: “Open the doors, off with the military insignia, join us in a taste of freedom.”
(Project team: Agnes Parker: translation/Eja Werner: coordination)
Carmen no Wannsee
Na quinta-feira passada fui à abertura da Carmen de Bizet nos Seefestspiele, junto ao Wannsee.
O relatório completo (enfim, mil palavritas dele) pode ser lido na Berlinda, de onde roubei esta fotografia.
No relatório não falei disso, mas conto aqui: o Westerwelle e o seu marido são lindos como tudo (vão lá ver à Berlinda, vão lá ver que não estou a mentir). Admito que ter tantas câmaras de fotógrafos viradas para eles os faça brilhar mais que de costume, mas não vamos entrar em pormenores: são lindos, pronto. Também gostei muito da naturalidade com que passaram e foram recebidos: um par, simplesmente, e não se fala mais nisso.
Aquelas estrelas e aquelas quem-me-dera-ser-estrela deram-me muito que pensar. Por exemplo, uma miúda com um nome artístico estranho e uma imagem muito bem composta. O seu acompanhante tinha um problema no pé e precisava de muletas. No fim do intervalo, vi-a passar por mim muito elegante na sua gabardina às bolinhas, subindo agilmente os vários lanços de escadas. Atrás dela, o rapaz esforçava-se para subir à mesma velocidade, fazia os degraus aos pares a uma velocidade espantosa. Confesso que não entendi: se eu estivesse com dificuldade de andar, não me sujeitava a saltitar de muletas centenas de metros e dezenas de degraus para ir a uma recepção para VIPs. Ficava sentada na minha cadeira, e pedia que me trouxessem o espumante e os rissóis (e alguns VIPs, se possível). Não há dúvida: não sei sofrer tudo o que a Arte exige, nunca hei-de chegar a estrela.
Também me chocou a cena do Malkovich a contar uma história qualquer ao Westerwelle, no meio de uma explosão de flashes. Ele já deve ter décadas de experiência nisso, eu é que não, e fiquei a olhar boquiaberta para todo aquele artifício. E depois dizem que é na internet que as relações são virtuais.
No meio de tanta confusão, o melhor momento foi o da entrada em cena do Artur Brauner, um director de produção quase centenário. O tom mudou inteiramente. Os fotógrafos chamavam-no em tom amistoso, quase com ternura. Vinha com uma mulher jovem, muito vistosa, e alguém perguntou “Artur, como se chama a tua acompanhante?”. Ele hesitou, alguém atrás de mim riu-se maldosamente, comentou: “não me digam que não sabe o nome dela!” - mas ela curvou-se, repetiu-lhe delicadamente a pergunta junto ao ouvido, e respondeu directamente que era sua nora. Uma jornalista foi conversar com ele, apertava-lhe a mão com carinho. O Artur Brauner: tem 94 anos, conseguiu escapar ao Holocausto fugindo para a União Soviética, depois da guerra criou em Berlim Ocidental os estúdios da sua CCC-Film, onde foram feitos mais de 500 filmes.
Já podia ter voltado para casa depois de o ver. Mas fiquei por ali, e valeu bem a pena. Aquela Carmen combina na perfeição com o lago Wannsee.
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As fotografias não têm a qualidade técnica do costume, porque a nossa máquina fotográfica anda com achaques e só pude recorrer ao telemóvel. Aliás: ao iPod do Matthias, que tem um estojo muito bonito, verde com macaquinhos. Para o Westerwelle, o Malkovich e todos os outros deve ter sido uma cena de gritos: do lado de lá da barreira do tapete vermelho, uma madura como eu a brandir macaquinhos contra um fundo verde. Vou-lhes analisar melhor o sorriso - às tantas, estavam a rir-se de mim...
18 agosto 2012
Wladimir Kaminer, sobre as Pussy Riot
Ontem, para o noticiário da noite, a ZDF convidou Wladimir Kaminer, o escritor russo que vive em Berlim, a comentar a notícia da prisão das Pussy Riot. Para ver o vídeo, gravado ontem em São Petersburgo, carreguem na imagem.
Tradução (rapidíssima, que hoje é sábado e está um sol fantástico):
"Dois anos de prisão por cantarem durante trinta segundos numa igreja - foi o que deram hoje às três miúdas do Pussy Riot. De mais a mais na Rússia, cujo povo se considera o último mensageiro do cristianismo, o último povo do mundo a ser cristianizado - é pena que seja justamente Putin quem vai agora neste barco. Mas pelo menos a partir de hoje ficámos a saber de que é que este regime tem medo: não é da oposição política, não é da opinião do Ocidente - este regime só tem medo de raparigas que sabem cantar. Esta sentença deixou-me furioso. Contava com uma sentença muito mais leve. Para ser sincero, acreditei que as três sairiam hoje em liberdade. Penso que era a última possibilidade para o governo russo conseguir sair deste beco sem saída. Eles não aproveitaram essa oportunidade, e a consequência é que os protestos passam para um patamar mais elevado. Cada vez mais jovens vão para a rua manifestar-se, muitos dos que até agora não se interessavam por política foram despertados por este caso. As miúdas do Pussy Riot levaram a política para dentro de cada casa, de cada apartamento - e por isso deviam receber os maiores elogios. Só é pena que, em vez de voltarem para casa, para os seus maridos e filhos, têm de ir para a cadeia. Mas a última palavra ainda está por dizer."
***
"Sabem cantar", bom, é como quem diz...
Parafraseando a tão célebre tirada sobre liberdade de expressão: não gosto do modo como cantas, não gosto dos sítios que escolhes para cantar - mas seria capaz de dar a vida para que tu possas continuar a cantar.
"Dar a vida", bom, é como quem diz...
E no entanto, se não nos empenharmos a fundo na denúncia de atropelos destes, estamos a abrir mão da nossa dignidade - e o que vale a vida, se a vivemos como ratos?
Isto não é só a Rússia, e não é só Putin. O Kaminer começa por lembrar a responsabilidade dos cristãos: é inadmissível que em nome dos sentimentos religiosos feridos se mandem estas mulheres para a cadeia. Será que o Vaticano e os bispos das igrejas protestantes já tiveram uma conversa fraterna sobre o assunto com o patriarca de Moscovo? E nós, cristãos de todo o mundo: qual é a nossa posição pública perante esta traição à mensagem de Jesus Cristo?
(foto encontrada aqui)
Tradução (rapidíssima, que hoje é sábado e está um sol fantástico):
"Dois anos de prisão por cantarem durante trinta segundos numa igreja - foi o que deram hoje às três miúdas do Pussy Riot. De mais a mais na Rússia, cujo povo se considera o último mensageiro do cristianismo, o último povo do mundo a ser cristianizado - é pena que seja justamente Putin quem vai agora neste barco. Mas pelo menos a partir de hoje ficámos a saber de que é que este regime tem medo: não é da oposição política, não é da opinião do Ocidente - este regime só tem medo de raparigas que sabem cantar. Esta sentença deixou-me furioso. Contava com uma sentença muito mais leve. Para ser sincero, acreditei que as três sairiam hoje em liberdade. Penso que era a última possibilidade para o governo russo conseguir sair deste beco sem saída. Eles não aproveitaram essa oportunidade, e a consequência é que os protestos passam para um patamar mais elevado. Cada vez mais jovens vão para a rua manifestar-se, muitos dos que até agora não se interessavam por política foram despertados por este caso. As miúdas do Pussy Riot levaram a política para dentro de cada casa, de cada apartamento - e por isso deviam receber os maiores elogios. Só é pena que, em vez de voltarem para casa, para os seus maridos e filhos, têm de ir para a cadeia. Mas a última palavra ainda está por dizer."
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"Sabem cantar", bom, é como quem diz...
Parafraseando a tão célebre tirada sobre liberdade de expressão: não gosto do modo como cantas, não gosto dos sítios que escolhes para cantar - mas seria capaz de dar a vida para que tu possas continuar a cantar.
"Dar a vida", bom, é como quem diz...
E no entanto, se não nos empenharmos a fundo na denúncia de atropelos destes, estamos a abrir mão da nossa dignidade - e o que vale a vida, se a vivemos como ratos?
Isto não é só a Rússia, e não é só Putin. O Kaminer começa por lembrar a responsabilidade dos cristãos: é inadmissível que em nome dos sentimentos religiosos feridos se mandem estas mulheres para a cadeia. Será que o Vaticano e os bispos das igrejas protestantes já tiveram uma conversa fraterna sobre o assunto com o patriarca de Moscovo? E nós, cristãos de todo o mundo: qual é a nossa posição pública perante esta traição à mensagem de Jesus Cristo?
(foto encontrada aqui)
17 agosto 2012
mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...
Quem diria que em apenas duas décadas a Rússia havia de mudar tanto que, em vez de perseguir as pessoas que insistem em drogar-se com o ópio do povo, mete na cadeia as que provocam e desrespeitam a religião?
Por este andar, ainda havemos de ver o Putin de joelhos em Fátima, é o que vos digo.
***
A fotografia foi tirada da notícia do Spiegel, informando que as Pussy Riot foram consideradas culpadas de comportamento de rowdy por motivos religiosos. O Tagesschau acrescenta que o seu Rowdytun foi motivado por ódio religioso, e que os actos das três mulheres feriram brutalmente os sentimentos religiosos dos fiéis presentes na catedral, segundo a juíza Marina Syrowa.
Como traduzir Rowdytun? Na wikipedia encontrei informações muito curiosas (que traduzo muito rapidamente, sem me dar ao cuidado de verificar o vocabulário jurídico):
O conceito Rowdytum abrangia, na RDA, o "desrespeito consciente dos valores e sistemas de normas socialistas", por parte de jovens, supondo-se que era um comportamento "dirigido pelo Ocidente", que se evidenciava, por exemplo, no consumo de rock 'n' roll ocidental.
Do código de Direito Penal da RRDA: "Quem fizer parte de um grupo que, movido por desrespeito da ordem pública ou das regras da vida comunitária socialista, tenha comportamento agressivo, ameaçador ou insultuoso, ou danifique com intenção maliciosa bens móveis ou imóveis, será castigado com penas de prisão até cinco anos."
Acrescentam ainda que esta figura jurídica também existe na Rússia (já dá o exemplo das Pussy Riot) e que na Alemanha reunificada é usado ocasionalmente para classificar o comportamento criminoso de certo condutores.
Em suma: os crimes permanecem os mesmos, as regras da vida comunitária socialista é que mudaram para melhor - agora já se protege com unhas e dentes a sensibilidade dos cristãos ortodoxos. Aquelas miúdas ucranianas que se despem como forma de protesto político deviam ficar atentas - não vá a Justiça do seu país decidir metê-las na cadeia para proteger a sensibilidade dos fundamentalistas islâmicos e dos judeus ultra-ortodoxos.
16 agosto 2012
o seu a seu dono (2)
Em Israel, um ultra-ortodoxo terá cuspido numa menina de oito anos por esta ir a caminho da escola vestida de forma imprópria. Dois humoristas pegaram no "ai se eu te pego" e fizeram uma paródia com esta letra:
Shikse, Shikse
Como você se veste?
Eu sou um ser humano saudável
Como você não tem vergonha?
Sua Shikse, sua Shikse
Puta (desculpem) sem respeito
Se vê seu cotovelo
Isso me atrapalha a estudar
Saí pra fora do KOLEL
Só queria um pouco de ar
De repente passou uma mulher de 8 anos
Cuspi e falei pra ela olá
O senhor não queria pegar na bunda dela
(Ela passou por acaso perto da mão dele)
Não foi ele não
Foi ela que colocou a bunda na mão dele
Não foi ele não.
(Pode-se ler mais sobre o caso no Globo.)
o seu a seu dono
(foto recortada daqui)
Via facebook fico a saber que judeus ultra-ortodoxos inventaram uns óculos especiais para homens que não suportam a visão de mulheres vestidas de forma leviana.
Finalmente uma boa notícia! Porque é que haviam de ser sempre as mulheres a pagar o preço do que se passa na(s) cabecinha(s) de alguns homens?
(Imaginei que seriam óculos de Penafiel para os homens - e que bem lhes ficariam! muito melhor que as burkas nas mulheres - mas afinal são apenas vidros baços. Como sempre, ninguém me pergunta nada...)
(foto daqui - vale a pena ler todo o post)
início da época 2012/2013
(daqui)
A sorte: cheguei atrasada e sem bilhete, porque me tinha demorado no Hackescher Markt com uns palhaços acrobatas e os sem-abrigo que participavam alegremente na performance (Berlim!). A três minutos do início do concerto, um vendedor na rua perguntou-me se queria um bilhete na segunda fila, por metade do preço. O bilhete tinha marcado "preço: 0", mas ele dizia que eram quarenta.
- Por metade, não, que eu não tencionava gastar tanto.
- Quanto queria gastar?
- Beeem... dez euros.
Dez euros. Abençoadas aulas de regateio que a minha irmã me dava na feira de Barcelos.
(Mas gostava de saber onde é que ele foi buscar bilhetes na segunda fila a zero euros...)
A beleza: o Heath Quartett com Michael Collins e o seu clarinete. Dois quintetos para clarinete de que gosto imenso - o "Stadler", de Mozart, e o *depois vejo que superlativos posso usar aqui para dizer que é uma peça que dá vontade de uivar à lua* quinteto em si menor para cordas e clarinete de Brahms.
O quarteto de cordas era muito bom - houve passagens do Mozart em que me perguntei se teriam realmente pautas, ou se estariam a ver imagens felizes, porque os instrumentos conversavam uns com os outros com tal leveza, transcendência e bom humor, que não era possível estarem a ler aquela música a partir de códigos sobre cinco linhas: claves, compassos, mínimas, semínimas, trilos e pausas.
E Michael Collins, um dia que o apanhe a jeito, hei-de perguntar-lhe que truque tem para tocar aquelas frases de um lirismo sublime sem parar para respirar. Terá uma bomba de oxigénio disfarçada sob o fato?
A época começou bem, e continuará melhor. Amanhã é a Carmen no lago Wannsee, na próxima semana regresso à Filarmonia. Só é pena não terem inventado ainda um esticador de dias, bom jeito me faria.
15 agosto 2012
fotocópias?
No caso dos documentos relativos à compra dos submarinos, que desapareceram do Ministério da Defesa, talvez a polícia de Munique possa dar uma ajudazinha, talvez tenha por lá algumas fotocópias que possa disponibilizar à polícia portuguesa. Se precisarem do endereço para fazer o pedido, posso tentar arranjar.
Esta notícia (de onde tirei a foto), escolhida à sorte de uma série de notícias semelhantes em jornais alemães, é de 20.12.2011, e diz que dois chefes da empresa Ferrostaal foram condenados por suborno de pessoas com responsabilidades no funcionalismo público (outro dia tratarei de arranjar melhor tradução para "Amtsträger") para vender submarinos. Os dois chefes ficaram em liberdade condicional, a empresa teve de pagar 140 milhões de euros de multa (cerca de 10% do seu facturamento anual). Ambos confessaram ter pago subornos em Portugal e na Grécia no valor de 62 milhões de euros, para conseguirem os lucrativos contratos de venda dos submarinos.
Não percebo nada de Direito, por isso pergunto:
- Quando um suspeito perde (ou altera) documentos fundamentais do processo, o ónus da prova não se inverte? Não passa a ser o suspeito quem tem de provar a sua inocência?
- Se estes empresários já confessaram ter pago luvas para conseguir o contrato de venda de submarinos aos portugueses, e sendo certo que não as pagaram ao porteiro do Ministério, não é possível chamá-los a depor no processo português para saber quem recebeu esse dinheiro?
14 agosto 2012
imagens do homem, imaginária da mulher
A Helena Sacadura Cabral está cheia de razão quando critica que o DN tenha publicado fotos de Assunção Esteves em biquíni, durante as férias.
(o link é para o post, e não para as fotografias em biquíni) (os mirones que me desculpem)
A primeira questão que surge é óbvia: o que levará um jornal a publicar fotografias de um alto dignitário da nação em fato-de-banho, quando este está de férias e não a concorrer a um concurso de misses ou a dar uma entrevista na praia?
A reacção de Helena Sacadura Cabral, contudo, obriga a pensar para além disso: o que a leva a sugerir - no ano da graça de 2012 - que com fotografias destas se poderia pretender "menorizar" um cargo ou uma pessoa, ou "insidiar algo"?
Em 2009, e a propósito da capa de uma revista americana, o jornal Die Welt fez um artigo sobre a dignidade dos presidentes (ou dos políticos) quando postos a nu desta maneira.
O link desse texto dá acesso a fotografias de vários políticos (homens) - uns apanhados desprevenidos, outros a posar. Também se pode ver a Hillary Clinton a dançar com o marido, ambos em fato de banho.
Sabe-se que o Putin gosta de encenar fotos das férias (ou seja: entende que o seu tronco nu não o menoriza, antes pelo contrário), e que o Sarkozy teve honras de retoque da fotografia. E, se não me engano, o photoshop também tem prestado bons serviços ao Putin.
Ou seja: parece haver aqui uma zona cinzenta, em que as próprias pessoas usam as férias para construir propositadamente uma determinada imagem que sirva interesses de ordem política (o local de férias, a mistura com o povo, o tipo de roupa usado, etc.) ou, pelo menos, não parecem importar-se muito com a publicação dessas imagens.
A capa do Obama em tronco nu deu origem a imensas reacções, umas muito entusiásticas, outras muito críticas: para uns, o corpo do homem é - digamos - mais um caso de proud to be American; para os outros, a sua exibição nos meios de comunicação social coloca a questão dos limites do pudor e da pertinência dessa informação visual.
O artigo do jornal Die Welt fala também da primeira fotografia desse tipo, que - segundo o autor - teve consequências graves para a República de Weimar:
Em tradução mais que rápida:
Em 1919 ocorreu um autêntico escândalo dos calções de banho, envolvendo Friedrich Ebert, o primeiro presidente da recém criada República de Weimar. O político socialista, presidente há apenas meio ano, está numa praia do Báltico ao lado do seu ministro da Defesa, Gustav Noske, ambos em calções de banho. A fotografia, que foi publicada na capa da "Illustrierten Zeitung" com o inocente título "Ebert e Noske em veraneio", tornou-se rapidamente um símbolo. "Aha!", resmungava o povo desconfiado, "então é este o fato novo do rei. O homem está nu, só isso. Este presidente não passa de um substituto pelintra do Kaiser". E a partir daí manteve-se em silêncio quando o chefe representativo visitava o seu país: nem fileiras jubilosas, nem meninas a oferecer flores.
Obviamente, monárquicos e outros opositores deram uma ajudinha ao sentir do povo. Com postais como este, "antes e depois", onde o Kaiser, em traje militar, aparece sobreposto à foto dos veraneantes:
Ebert, que começou por achar graça ao fait divers, rapidamente se deu conta da gravidade do caso e tratou de processar uma série de entidades. Mas ficou indelevelmente marcado.
Segundo o Spiegel (aqui, em alemão), o caso mexeu de tal modo com a sociedade que Hitler teve o cuidado de nunca se deixar apanhar em tais preparos. Segundo Henriette von Schirach, terá dito "Um homem de Estado não faz uma coisa dessas. Onde iria parar a veneração por Napoleão se houvesse esse tipo de imagens dele?"
Mas isso era no tempo em que o povo gostava de pompa e circunstância, venerava os chefes e gostava de os trazer nos píncaros do imaginário da Hola. No nosso tempo, o que mais há nas páginas foleiras dos jornais é fotografias de governantes em calções de banho, e não provocam grandes protestos. Também se vêem volta e meia fotografias de futuras rainhas em biquíni - desde que os futuros reis começaram a poder escolher a companheira entre os plebeus de todo o mundo, as revistas cor-de-rosa andam com algum "valor acrescentado", passe o machismo da expressão.
Pergunto-me então porque é maior o escândalo quando o alto dignitário na praia é uma mulher, e por que motivo há-de encerrar isso uma tentativa de menorização da pessoa ou do cargo. Parece-me que é mais que a questão do direito à imagem de uma pessoa pública - é a questão do corpo feminino idealizado. Se essa senhora tivesse um corpinho como uma supermodelo de 20 anos, ou como o do Sarkozy depois de retocado, talvez não se falasse em "menorização".
O que me incomoda, claro. Preferia que no nosso escândalo não houvesse essa quota-parte de repúdio devido à diferença entre este corpo concreto e a imaginária do feminino no nosso tempo, nem houvesse lugar a esta necessidade paternalista ou cavalheiresca de proteger a mulher - as mulheres com um corpo diferente do da Elle Macpherson ("the body"). Como se um corpo de mulher com o aspecto normal da idade que se tem fosse motivo de vergonha.
Em termos de igualdade, ainda temos muito para andar.
(o link é para o post, e não para as fotografias em biquíni) (os mirones que me desculpem)
A primeira questão que surge é óbvia: o que levará um jornal a publicar fotografias de um alto dignitário da nação em fato-de-banho, quando este está de férias e não a concorrer a um concurso de misses ou a dar uma entrevista na praia?
A reacção de Helena Sacadura Cabral, contudo, obriga a pensar para além disso: o que a leva a sugerir - no ano da graça de 2012 - que com fotografias destas se poderia pretender "menorizar" um cargo ou uma pessoa, ou "insidiar algo"?
Em 2009, e a propósito da capa de uma revista americana, o jornal Die Welt fez um artigo sobre a dignidade dos presidentes (ou dos políticos) quando postos a nu desta maneira.
O link desse texto dá acesso a fotografias de vários políticos (homens) - uns apanhados desprevenidos, outros a posar. Também se pode ver a Hillary Clinton a dançar com o marido, ambos em fato de banho.
Sabe-se que o Putin gosta de encenar fotos das férias (ou seja: entende que o seu tronco nu não o menoriza, antes pelo contrário), e que o Sarkozy teve honras de retoque da fotografia. E, se não me engano, o photoshop também tem prestado bons serviços ao Putin.
Ou seja: parece haver aqui uma zona cinzenta, em que as próprias pessoas usam as férias para construir propositadamente uma determinada imagem que sirva interesses de ordem política (o local de férias, a mistura com o povo, o tipo de roupa usado, etc.) ou, pelo menos, não parecem importar-se muito com a publicação dessas imagens.
A capa do Obama em tronco nu deu origem a imensas reacções, umas muito entusiásticas, outras muito críticas: para uns, o corpo do homem é - digamos - mais um caso de proud to be American; para os outros, a sua exibição nos meios de comunicação social coloca a questão dos limites do pudor e da pertinência dessa informação visual.
O artigo do jornal Die Welt fala também da primeira fotografia desse tipo, que - segundo o autor - teve consequências graves para a República de Weimar:
Em tradução mais que rápida:
Em 1919 ocorreu um autêntico escândalo dos calções de banho, envolvendo Friedrich Ebert, o primeiro presidente da recém criada República de Weimar. O político socialista, presidente há apenas meio ano, está numa praia do Báltico ao lado do seu ministro da Defesa, Gustav Noske, ambos em calções de banho. A fotografia, que foi publicada na capa da "Illustrierten Zeitung" com o inocente título "Ebert e Noske em veraneio", tornou-se rapidamente um símbolo. "Aha!", resmungava o povo desconfiado, "então é este o fato novo do rei. O homem está nu, só isso. Este presidente não passa de um substituto pelintra do Kaiser". E a partir daí manteve-se em silêncio quando o chefe representativo visitava o seu país: nem fileiras jubilosas, nem meninas a oferecer flores.
Obviamente, monárquicos e outros opositores deram uma ajudinha ao sentir do povo. Com postais como este, "antes e depois", onde o Kaiser, em traje militar, aparece sobreposto à foto dos veraneantes:
Ebert, que começou por achar graça ao fait divers, rapidamente se deu conta da gravidade do caso e tratou de processar uma série de entidades. Mas ficou indelevelmente marcado.
Segundo o Spiegel (aqui, em alemão), o caso mexeu de tal modo com a sociedade que Hitler teve o cuidado de nunca se deixar apanhar em tais preparos. Segundo Henriette von Schirach, terá dito "Um homem de Estado não faz uma coisa dessas. Onde iria parar a veneração por Napoleão se houvesse esse tipo de imagens dele?"
Mas isso era no tempo em que o povo gostava de pompa e circunstância, venerava os chefes e gostava de os trazer nos píncaros do imaginário da Hola. No nosso tempo, o que mais há nas páginas foleiras dos jornais é fotografias de governantes em calções de banho, e não provocam grandes protestos. Também se vêem volta e meia fotografias de futuras rainhas em biquíni - desde que os futuros reis começaram a poder escolher a companheira entre os plebeus de todo o mundo, as revistas cor-de-rosa andam com algum "valor acrescentado", passe o machismo da expressão.
Pergunto-me então porque é maior o escândalo quando o alto dignitário na praia é uma mulher, e por que motivo há-de encerrar isso uma tentativa de menorização da pessoa ou do cargo. Parece-me que é mais que a questão do direito à imagem de uma pessoa pública - é a questão do corpo feminino idealizado. Se essa senhora tivesse um corpinho como uma supermodelo de 20 anos, ou como o do Sarkozy depois de retocado, talvez não se falasse em "menorização".
O que me incomoda, claro. Preferia que no nosso escândalo não houvesse essa quota-parte de repúdio devido à diferença entre este corpo concreto e a imaginária do feminino no nosso tempo, nem houvesse lugar a esta necessidade paternalista ou cavalheiresca de proteger a mulher - as mulheres com um corpo diferente do da Elle Macpherson ("the body"). Como se um corpo de mulher com o aspecto normal da idade que se tem fosse motivo de vergonha.
Em termos de igualdade, ainda temos muito para andar.
13 agosto 2012
espelho meu, espelho meu
Espelho meu, espelho meu,
haverá quem receba mais bela correspondência de férias que eu?
(Obrigada, Carla. Ia dizer-te da vontade que tive outra vez de largar tudo e ir conhecer a tua Mouraria, mas há-de haver mais férias. E talvez também me queiras vir mostrar uma Berlim transformada pelos teus olhos, que dizes?)
haverá quem receba mais bela correspondência de férias que eu?
(Obrigada, Carla. Ia dizer-te da vontade que tive outra vez de largar tudo e ir conhecer a tua Mouraria, mas há-de haver mais férias. E talvez também me queiras vir mostrar uma Berlim transformada pelos teus olhos, que dizes?)
retalhos da vida de uma guerra fria
Faz hoje 51 anos que começaram a construir o muro de Berlim. No ano passado fiz uma série sobre a cerimónia do cinquentenário desse triste momento. Quem não leu, e estiver interessado, pode ver aqui: Muro de Berlim - 50 anos.
Ao pequeno-almoço, o Matthias perguntava-me algo sobre a chantagem que a França fez para a Alemanha entrar no Euro - o preço a pagar para autorizarem a reunificação. Respondi-lhe com uma piscadela de olho que nas relações internacionais não há chantagens, há compromissos, e ele riu-se. Mas percebeu os motivos e os medos dos franceses e da Europa: afinal de contas, a reunificação ocorreu apenas quarenta e cinco anos após o fim da guerra. Meio século é um período muito curto, e esse meio século mais ainda: um tempo de aceleração da História.
Ontem, enquanto passeava por alguns lugares de morte do muro de Berlim (de morte mesmo, pura e crua, resultado de ordens para atirar sobre os que tentavam escapar à "República Democrática" - e foi há apenas 23 anos, envolvendo pessoas que provavelmente hoje cruzam o meu caminho), lembrei-me do mais recente não-escândalo português: as escutas nos aparelhos de ar condicionado. Não estou maluquinha para ir meter a colher entre estes ex-marido e mulher (o PCP e a Zita Seabra, no caso). Só queria lembrar, a quem tenta ridicularizar e menorizar a insinuação das escutas nos aparelhos de ar condicionado, que a Guerra Fria aconteceu realmente, que ninguém estava a brincar em serviço, que o que seria de surpreender é que, no momento em que Portugal vacilava entre os dois blocos, não houvesse escutas instaladas quer por russos quer por americanos. Além disso, caro Ferreira Fernandes e caro autor deste vídeo engraçado, os aparelhos de ar condicionado não são apenas aquela coisa que faz barulho. Exigem instalações, feitas por técnicos que entram nos edifícios, prendem os aparelhos à parede e os ligam à electricidade. Digo eu, que nem vejo esses filmes, mas procuro "wanzen" e "stasi" no google imagens e fico logo cheia de ideias sobre como é que estas coisas se podem fazer. Para rejeição da hipótese, convenhamos que arranjaram teses muito fraquinhas.
De facto, não me interessa se as escutas eram instaladas pelos técnicos dessa empresa, ou de outra - embora o assunto seja do interesse das pessoas atingidas pela insinuação, e interessará ao país e aos historiadores, para conhecer estes detalhes da guerra fria. O que me incomoda, e muito, é o modo como estes assuntos se tratam em Portugal: insinuações (ou, outras vezes, notícias), rebatidas com argumentos ad hominem e anedotas para ridicularizar o assunto em vez de o enfrentar e debater com seriedade.
Ao pequeno-almoço, o Matthias perguntava-me algo sobre a chantagem que a França fez para a Alemanha entrar no Euro - o preço a pagar para autorizarem a reunificação. Respondi-lhe com uma piscadela de olho que nas relações internacionais não há chantagens, há compromissos, e ele riu-se. Mas percebeu os motivos e os medos dos franceses e da Europa: afinal de contas, a reunificação ocorreu apenas quarenta e cinco anos após o fim da guerra. Meio século é um período muito curto, e esse meio século mais ainda: um tempo de aceleração da História.
Ontem, enquanto passeava por alguns lugares de morte do muro de Berlim (de morte mesmo, pura e crua, resultado de ordens para atirar sobre os que tentavam escapar à "República Democrática" - e foi há apenas 23 anos, envolvendo pessoas que provavelmente hoje cruzam o meu caminho), lembrei-me do mais recente não-escândalo português: as escutas nos aparelhos de ar condicionado. Não estou maluquinha para ir meter a colher entre estes ex-marido e mulher (o PCP e a Zita Seabra, no caso). Só queria lembrar, a quem tenta ridicularizar e menorizar a insinuação das escutas nos aparelhos de ar condicionado, que a Guerra Fria aconteceu realmente, que ninguém estava a brincar em serviço, que o que seria de surpreender é que, no momento em que Portugal vacilava entre os dois blocos, não houvesse escutas instaladas quer por russos quer por americanos. Além disso, caro Ferreira Fernandes e caro autor deste vídeo engraçado, os aparelhos de ar condicionado não são apenas aquela coisa que faz barulho. Exigem instalações, feitas por técnicos que entram nos edifícios, prendem os aparelhos à parede e os ligam à electricidade. Digo eu, que nem vejo esses filmes, mas procuro "wanzen" e "stasi" no google imagens e fico logo cheia de ideias sobre como é que estas coisas se podem fazer. Para rejeição da hipótese, convenhamos que arranjaram teses muito fraquinhas.
De facto, não me interessa se as escutas eram instaladas pelos técnicos dessa empresa, ou de outra - embora o assunto seja do interesse das pessoas atingidas pela insinuação, e interessará ao país e aos historiadores, para conhecer estes detalhes da guerra fria. O que me incomoda, e muito, é o modo como estes assuntos se tratam em Portugal: insinuações (ou, outras vezes, notícias), rebatidas com argumentos ad hominem e anedotas para ridicularizar o assunto em vez de o enfrentar e debater com seriedade.
um domingo em Berlim
O Verão tem andado esquisito, mas ontem estava um dia lindo e resolvemos ir até ao Mauerpark ver o Karaoke. Levámos o Fox - porque, como diz o ditado que acabo de inventar, de pequenino se faz um berlino.
O anfiteatro estava cheio, a abarrotar. Um amigo, habitué destas tardes de domingo, comentava que nunca o vira com tanta gente. Contou também que a autarquia andou a criar problemas àquele festival espontâneo. Queriam pôr regras: o artista só podia fazer no máximo doze Karaokes por temporada, com datas fixas, e tinha de impedir o comércio de bebidas por vendedores ambulantes. O problema principal, diziam eles, é que aquele festival provoca muito lixo, que fica muito caro limpar o parque todas as semanas, e seria preferível usar esse dinheiro em infantários, por exemplo. Compreendo o argumento, claro, mas algo me diz que os autarcas não lêem os guias turísticos de Berlim, e não sabem o valor do que acontece no seu bairro. Não tardou muito, porém, e ficaram a saber: houve uma vaga internacional de protestos, tão abrangente (desde os blogues aos jornais) e com tal força que as autoridades cederam. O Karaoke voltou ao Mauerpark no formato inicial: de Abril a Outubro, aos domingos a partir das três da tarde, se estiver bom tempo.
Uma das coisas de que gosto mais na Alemanha é que o poder tem ouvidos para ouvir, e sensatez para repensar as suas decisões.
Estes fenómenos muito especiais de Berlim - o Karaoke do irlandês Gareth Lennon, a Russendisko do russo Wladimir Kaminer, por exemplo - dão-me simultaneamente uma sensação de segurança (a segurança que nasce dos rituais) e insegurança. Tudo isto faz parte do quotidiano berlinense, e tudo pode terminar de um momento para o outro. Portanto: carpe diem.
Foi o que fizemos ontem. Agarrámos no Fox e lá fomos nós assistir ao Karaoke. Teve momentos muito divertidos: cantores horríveis, muito aplaudidos pelo público; cantores muito bem-dispostos, autênticos entertainers; um grupo de mascarados que veio cantar uma palermice para filmar e passar no casamento da irmã de um deles, daqui a duas semanas; um rapaz vestido de tigre que cantou um tema do Lion King enquanto ia tirando a roupa (quando pensámos que tinha chegado ao fim, porque já estava em cuecas, ele começou a tirar as cuecas - "isto só mesmo em Berlim!", pensámos nós entre gargalhadas - mas afinal tinha outras cuecas por baixo).
O parque estava cheio de artistas, em performances várias. Sabia que estava lá um grupo excelente da escola de circo de San Francisco, porque tinha convidado um deles para almoçar connosco, e ele recusou dizendo que ia para o Mauerpark fazer as suas acrobacias. Óptimo!, pensei eu. Mas não me lembrei do tamanho do parque, e da dificuldade em encontrar um grupo no meio daquela imensidão de gente. E assim perdemos um grande show gratuito de circo, para o qual noutras alturas já pagámos bilhetes a preços chorudos.
Acontece-me várias vezes nas ruas de Berlim parar em frente a um grupo pensando que da próxima vez que os vir vou ter de pagar dezenas de euros pelo bilhete. É aproveitar, é aproveitar enquanto só custam 1 ou 2 euros, às vezes 5, largados na caixa da guitarra. Carpe diem, lá está.
Esta miúda, por exemplo, que cantava lindamente e juntou muito público à sua volta. Será que conseguirá dar o salto para as salas de espectáculos?
No Mauerpark há uma "feira da ladra" cheia de velharias e quase-antiguidades, muitas relíquias da RDA e da guerra. Pergunto-me quanto daquilo será roubado, e que tipo de pessoas comprará material do exército alemão da II GM. Numa das extremidades da feira, do lado da rua, há um Biergarten simpático. Tem lá uma tabuleta enorme avisando que é self-service, "Selbstbedienung".
"Selbstbedienungsladen" é uma expressão alemã engraçada para descrever a atitude de alguém que se serve de algo segundo os seus interesses, à revelia das regras. "Das ist kein Selbstbedienungsladen!" ("Isto não é uma loja de self-service!") é o que dizem os alemães, furiosos, quando alguém começa a atropelar as regras e os princípios para ter algum ganho pessoal.
Saímos do Mauerpark, e fomos para o carro, estacionado num terreno baldio onde antes fora o corredor da morte. Havia lá uma casa que nos deixou intrigados: será que as vedações do rés-do-chão foram feitas na altura da guerra fria? A casa teria estado vazia durante as três décadas do muro? Quanta História haverá numa casa semi-arruinada banhada pelo sol de um domingo de Verão?
Ia fazer mais uma fotografia - provavelmente a melhor da minha vida, mostrando a casa antiga, o lugar do muro, a casa nova construída sobre o corredor da morte - quando o Matthias gritou que o Fox ia a correr na direcção da rua, e eu me baixei para o apanhar, de modo que a fotografia saiu assim:
(eu quando me distraio até me acontecem umas fotografias muito giras)
No regresso a casa parámos para apreciar a luz do fim da tarde no edifício do Parlamento Alemão:
Na rotunda Großer Stern o sol batia em cheio na "Elsa Dourada". Os berlinenses são uns brincalhões, inventam nomes malucos e carinhosos para os seus edifícios mais importantes.
Depois do jantar fomos outra vez para a zona de Prenzlauer Berg, para uma "Wellness Performance". Outra maluquice, como só se imagina em Berlim. Mas isso conto noutro post, porque este já vai longo, e além disso tenho aí um trabalhinho à minha espera.
Melhor seria eu fazer um cartaz para pôr atrás do meu monitor, com os dizeres:
Vai trabalhar, Helena!
11 agosto 2012
"momentos fantásticos" em Portugal, sugeridos por um semanário alemão
Ao pequeno-almoço, o Joachim comentou: "alguém em Portugal está a trabalhar muito bem."
Não sabemos quem é, mas está: já é o segundo texto que, no espaço de poucas semanas, o semanário Die Zeit publica sobre sítios especiais de Portugal. "É favor pisar as flores!", sobre o Trilho dos Pescadores, no Alentejo litoral, e "Ora então, boa noite!" sobre o Dark Sky também no Alentejo. Artigos tão bem escritos que dá vontade de largar tudo e partir para lá.
No caso do "Boa noite" foi o que fizemos, nas férias passadas. Um dia que tenha mais tempo, traduzo esse artigo e publico aqui - mas de momento tenho muito que fazer com as traduções para a vida real, e muito que lazer com o fim-de-semana (hoje, por exemplo, é um stress: Tuna dos Estudantes de Medicina de Coimbra aqui em Berlim, curiosamente num centro comercial português, seguido de uma há muito ansiada ida aos Gorillas, teatro de improvisação do melhor - a ver se não me esqueço dos lenços de papel porque já sei que vou chorar a rir). Adiante.
Um dia destes, portanto, traduzo o artigo sobre as novas ofertas turísticas no Alentejo para pessoas que se interessam por astronomia. E escrevo um postal de férias (sim, sempre a inovar: escrever os postais de férias depois de ter regressado a casa) sobre os dias fantásticos que passámos sob o dark sky de Monsaraz e de Moura.
Mas para já, e para quem não sabe o que fazer com os próximos dias, aqui vai uma sugestão: vão até Moura, para andar de canoa ao anoitecer. É organizado por "Break! Momentos Fantásticos", e garanto que este nome é um understatement do melhor. Também podem andar de dia, claro (parece que organizam descidas de rápidos e coisas assim, parece que afinal não é preciso ir à América para fazer estas coisas giras).
Aquelas horas passadas no rio Argila, assistindo ao nascer das estrelas à nossa volta, foram um dos momentos mais especiais das férias passadas. Tanto, que no próximo ano tencionamos voltar. E agora, de novo por causa do Die Zeit e de alguém que em Portugal anda a fazer o seu trabalho muito bem feito, talvez com um pequeno desvio de três dias para uma caminhada pelo Trilho dos Pescadores.
e ao quarto dia, sinais de vida
"A Bolívia é um país lindíssimo, pelo menos o que vi até agora. As pessoas do meu projecto são muito simpáticas e receberam-nos muito bem. Um voluntário mostrou-nos a cidade e comprou-nos telemóveis. (...) De momento estamos a dormir no andar por cima do infantário, o que é engraçado, mas esperamos poder mudar em breve para uma casa que fica apenas a dois quarteirões da escola. Tem mais quartos, que são ligados por um pátio. Além disso, os quartos têm uma vista fantástica, e redes onde nos deitamos a saborear a vista dos Andes, para lá do pátio."
10 agosto 2012
servir o pessimismo de hora a hora
Durante as férias em Portugal reparei que as notícias na rádio começavam sempre com os fracassos dos portugueses nos jogos olímpicos:
"Boa tarde, são duas da tarde, uma nos Açores. Fulano falhou a prova X. A medalha de ouro foi para o país Y. Etc. etc. etc., e no fim das descrições detalhadas do falhanço, já quase em jeito de post scriptum: mas Fulano quebrou o record europeu nesta modalidade."
Insuportável, a todos os níveis: porque um fracasso numa prova desportiva não é notícia para abrir um noticiário, porque abrir sucessivamente os noticiários com fracassos é deprimente, porque não davam o devido valor ao esforço do atleta. Há necessidade de fazer as notícias assim?
Visto de fora, parece um país a apostar numa self-fulfilling prophecy para dar toda a força ao complexo de inferioridade que o mantém encurralado.
"Boa tarde, são duas da tarde, uma nos Açores. Fulano falhou a prova X. A medalha de ouro foi para o país Y. Etc. etc. etc., e no fim das descrições detalhadas do falhanço, já quase em jeito de post scriptum: mas Fulano quebrou o record europeu nesta modalidade."
Insuportável, a todos os níveis: porque um fracasso numa prova desportiva não é notícia para abrir um noticiário, porque abrir sucessivamente os noticiários com fracassos é deprimente, porque não davam o devido valor ao esforço do atleta. Há necessidade de fazer as notícias assim?
Visto de fora, parece um país a apostar numa self-fulfilling prophecy para dar toda a força ao complexo de inferioridade que o mantém encurralado.
por sorte há as AA!
Estava triste Helena posta no sossego da saudade, eis que toca o telefone. Era uma amiga, a contar que a filha dela, da idade da Christina, vai fazer uma viagem de um ano ali para os lados da Ásia. E que o filho mais velho arranjou um apartamento e sai agora da casa dos pais.
Não me digam que não estou sozinha?! Não me digam que estas coisas também acontecem aos outros?!
Vamos criar um grupo de AA, Abalroadas Anónimas: para entreajuda, troca de informações sobre telemóveis e outros meios de comunicação dos confins para os confins do mundo, conversas sobre como nos continua a vida nestes momentos em que se torna mais evidente que a vida não é nossa, nós é que somos parte ínfima dela.
(Viva as AA!)
***
Ainda sem notícias da Christina. Se tudo correr como planeado, hoje começa a última etapa da viagem: de autocarro, 17 horas a subir da bacia do Amazonas para os Andes. Disse-lhe que sugerisse ao chefe do grupo que fossem de avião. Custa 40 euros, demora trinta minutos, e tem menos probabilidade de chocarem com um autocarro em contramão.
Não me digam que não estou sozinha?! Não me digam que estas coisas também acontecem aos outros?!
Vamos criar um grupo de AA, Abalroadas Anónimas: para entreajuda, troca de informações sobre telemóveis e outros meios de comunicação dos confins para os confins do mundo, conversas sobre como nos continua a vida nestes momentos em que se torna mais evidente que a vida não é nossa, nós é que somos parte ínfima dela.
(Viva as AA!)
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Ainda sem notícias da Christina. Se tudo correr como planeado, hoje começa a última etapa da viagem: de autocarro, 17 horas a subir da bacia do Amazonas para os Andes. Disse-lhe que sugerisse ao chefe do grupo que fossem de avião. Custa 40 euros, demora trinta minutos, e tem menos probabilidade de chocarem com um autocarro em contramão.
relativismo triunfante
Um cão que se chama raposa e pensa que é gato.
(horas e horas a dormir no meu regaço enquanto trabalho)
07 agosto 2012
previsão do tempo para hoje em Berlim
21º, céu pouco nublado. Possibilidade de chuvas torrenciais e inundações a meio do dia.
A Christina sai hoje para o seu ano de serviço social. Disseram-me que a viagem de São Paulo para a Bolívia é feita em lamas, mas parece que não. Afinal de contas estamos no séc. XXI, em menos de cinco dias chega lá, via Paraguai e não sei quê, e mais umas 17 horas em autocarro para subir os Andes.
O desgraçado que planeou esta viagem assim que não me apareça pela frente, porque não sei o que seria capaz de lhe fazer.
A gente sabe que tudo isto faz parte, que é a ordem natural das coisas, mas a verdade é que hoje se começa a fechar um ciclo importante da minha vida. É estranho e doloroso. Na nossa construção familiar vai faltar uma parte e em seu lugar, durante este ano, fica uma espécie de buraco negro: denso de saudade.
A Christina sai hoje para o seu ano de serviço social. Disseram-me que a viagem de São Paulo para a Bolívia é feita em lamas, mas parece que não. Afinal de contas estamos no séc. XXI, em menos de cinco dias chega lá, via Paraguai e não sei quê, e mais umas 17 horas em autocarro para subir os Andes.
O desgraçado que planeou esta viagem assim que não me apareça pela frente, porque não sei o que seria capaz de lhe fazer.
A gente sabe que tudo isto faz parte, que é a ordem natural das coisas, mas a verdade é que hoje se começa a fechar um ciclo importante da minha vida. É estranho e doloroso. Na nossa construção familiar vai faltar uma parte e em seu lugar, durante este ano, fica uma espécie de buraco negro: denso de saudade.
06 agosto 2012
trabalhar ao som de música assim (5)
Estou outra vez a traduzir software. Paga muito mais que tradução literária, mas...
O que me vale é que por estes dias há uma miúda engraçada a viver connosco. Tem estado a estudar, e volta e meia faz um intervalinho para se sentar ao piano. Então a casa enche-se de música assim:
(Finalmente percebi aquela do grupo folclórico do Relvas: era o que ele fazia para descansar do árduo estudo!)
O que me vale é que por estes dias há uma miúda engraçada a viver connosco. Tem estado a estudar, e volta e meia faz um intervalinho para se sentar ao piano. Então a casa enche-se de música assim:
(Finalmente percebi aquela do grupo folclórico do Relvas: era o que ele fazia para descansar do árduo estudo!)
novas do new kid
Depois de ter testado a resistência das meias da Christina e de uma sandália minha, de ter vencido uma garrafa de plástico e uma embalagem de rede (ainda temos de a prender ao corrimão das escadas, não vá ele lembrar-se que é o Dumbo), de ter feito um cocó no jornal (porque o levámos para lá in extremix) e de ter tentado engravidar um boneco de peluche, adormeceu no meio do caos que criou ao pé da minha mesa.
Aproveito para trabalhar a toda a velocidade.
(Ahem... trabalhar a toda a velocidade ou fazer um apontamento no blog?)
(Ai, parece-me que isto vai ficar um baby blog do pior!)
new kid on the block
(primeiras fotos do bicho, quando ainda estava muito triste por ter sido tirado à mãe e à sua família) (isto, faz-se cada maldade!...)
(a última é o retrato de um leão que se prepara para saltar sobre a sua casa de banho preferida...) (*suspiro*)
Os miúdos andam a pedir um cão há anos. E nós que não, que o trabalho, que o levar à rua, que as férias, que as viagens, que o pobre bichinho. Mas neste Verão o Matthias apresentou um argumento irrefutável: a Christina vai-se embora, e ele fica sozinho.
Em Portugal soubemos de uma família que tinha dois cachorrinhos para dar. Este, e a sua irmã. Olhei para este e disse ao Matthias "vai-te dar um trabalho enorme!"
A irmã era muito sossegada e meiga. Deitava-se no nosso colo e abria para nós uns olhos tristes imensos. Este corria pelo terreiro, provocava o gato, fugia com a bola, corria para nós, desafiava-nos para brincar. Vai dar um trabalho enorme, mas é este, é este, é este!
Um brincalhão, alegre e irrequieto. Muito esperto, e também muito meigo. Não podia ser outro.
Agora sinto-me um pouco assustada de responsabilidade: se tudo correr bem, vai viver connosco muitos anos. Muitos anos a cuidar dele, a organizar a nossa vida tendo sempre em conta o seu bem-estar.
Bom: já é tarde para pensar nisso. Alea jacta est. E o bichinho é uma maravilha.
- Ah, parece que se vai chamar Fox.
04 agosto 2012
postal
Querida Ana Paula,
Muito obrigada pelo livro que me enviaste pela Paula C.
Folheei-o, e pareceu-me que vai ser um sumarento vício.
Só não sei porque mereço tanta sorte - mas a livro dado não se olha o carma...
Regressei ontem a Berlim, e ainda não cheguei realmente.
Um beijinho, Helena
Muito obrigada pelo livro que me enviaste pela Paula C.
Folheei-o, e pareceu-me que vai ser um sumarento vício.
Só não sei porque mereço tanta sorte - mas a livro dado não se olha o carma...
Regressei ontem a Berlim, e ainda não cheguei realmente.
Um beijinho, Helena
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