07 setembro 2012

"a Europa começa em Atenas"

A revista alemã Stern tem na sua edição de 30 de Agosto alguns textos interessantes sobre a crise do euro. Gostei de ler, e parece-me útil que em Portugal se saiba como é que na Alemanha se fala sobre a crise.

O primeiro é logo o editorial do chefe de redacção, Andreas Petzold. Começa assim:
(já sabem: a tradução é do irmão mais rápido do Speedy Gonzalez)

É lamentável que o palco político volta e meia seja ocupado com grande estrondo por espíritos mesquinhos da CSU e da FDP. Esses Dobrindts, Seehofers, Söders, Dörings e Röslers que repetem um discurso de saída da Grécia, e até gostariam de abandonar os outros "desmotivados" (a Espanha e a Itália) ao seu destino de devedores. Provavelmente pensarão que devem alimentar o que presumem ser o gosto dos cidadãos por soluções simples: quem não poupa, sai. Mas como é que não ocorre a estes espertinhos que, se a Grécia sair, no sul da Europa vai haver uma corrida às contas bancárias de tal ordem que fará vacilar todo o sistema do euro? E que o Banco Central Europeu pode bem ser obrigado a comprar títulos da dívida de todos os países porque fora da Europa não haverá mais compradores? Esses espertinhos são também responsáveis pela saída do espaço euro de quinze mil milhões de euros do gigante Shell. Dinheiro que falta nos circuitos financeiros europeus. Porque é que dão rédea solta a estes assassinos da confiança? É fácil de imaginar: fazem contas mesquinhas, que se traduzem em resultados nas sondagens. Completamente a leste de uma ideia da Europa. 
Contudo, valeria a pena continuar a trabalhar nesta grande ideia, como a reportagem de Jan Christoph Wiechmann mostra. Ele dedicou-se às questões que, no decorrer desta crise, têm caído no esquecimento: o que é um europeu? Sentimo-nos europeus? Que Europa queremos? O que significa para nós a Europa, para lá da união bancária e do pacto fiscal?
(...)
Após 120 entrevistas, tão diferentes como os países deste fantástico continente, ficou a sensação de que o projecto Europa continua a ser muito querido dos europeus, apesar da recessão e da crise duradoura; sentem-se insatisfeitos com Bruxelas e os conflitos entre os Estados, mas não querem regressar ao marco e à peseta; quanto mais jovens os interrogados, e quanto mais vezes estiveram no estrangeiro, maior é o desejo de uma Europa unida, na qual possam estudar, trabalhar, viver e amar sem a existência de fronteiras. Para eles, a Europa não é um tema, mas algo natural e evidente.

Algumas páginas à frente, Hans-Ulrich Jörges escreve na sua coluna:

Firmeza e acções valem a pena - pagam, literalmente, em euros e cêntimos. O anúncio feito por Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu, sobre um novo programa para a compra de títulos das dívidas públicas para estabilizar a zona euro foi um duro golpe para a especulação. Os hedgefonds - os abutres e comem-tudo dos mercados financeiros - capitularam. Tinham apostado na destruição e na queda dos valores da Bolsa, tinham vendido a prazo acções que não detinham - confiando que, no momento em que tivessem de as entregar, as comprariam abaixo do preço de venda. Devido a Draghi, perderam esse negócio com as acções europeias - e compraram. O fracasso dos especuladores contribuiu para a subida do preço das acções, em contraste com o espírito de crise europeu que imperara durante o Verão. Touché!
Podemos aprender com isso. A defesa da zona euro, incondicional e por todos os meios, de Atenas a Helsínquia, é também (e sobretudo, nestes tempos) um contributo poderoso para o combate à especulação e para civilizar os mercados. Opostamente, os discursos sobre o fim do bloco euro e o fracasso da Grécia servem os negócios dos predadores, na sua maior parte anglo-americanos. Se Atenas fosse expulsa do euro, isso seria um sinal da fragilidade europeia num momento histórico - e praticamente um convite aos abutres para se lançarem sobre a Espanha e a Itália, eventualmente até a França. Por isso é neste momento prioridade máxima defender a Europa - em toda a linha.
Ou seja: não é da Grécia que se deve fazer um exemplo, mas da especulação: todos esses fundos, bancos e multinacionais que farejam e deslocam milhares de milhões de um lado para o outro - para fora da zona de risco e para dentro dos nichos de lucros -, que já fizeram contas ao fim do euro, e até o praticam com precisão militar - o pânico das pessoas que não sabem o que lhes vai acontecer, a corrida às contas bancárias. 
Ao ouvir a vozearia que vem de Munique, perguntamo-nos o que é maior: a infâmia ou a lerdice dos seus autores. No estrangeiro, Angela Merkel é repetidamente representada com cruz suástica e em uniforme nazi. Markus Söder, que aparece em frente às câmaras no papel de sorridente crocodilo da CSU, oferece a banda sonora para estas imagens.
"Fazer da Grécia um exemplo": após 1945, este tipo de frases era considerado Lingua Tertii Imperii, indizível para os alemães. E que dizer do espírito cristão deste experiente orador de domingo, quando logo a seguir lembra a alegada sabedoria dos montanhistas que sabem cortar a corda quando a queda de um companheiro ameaça precipitá-los para o abismo?

No abismo? A Grécia não representa nem 4% do conjunto da dívida pública da zona euro. Ajudar a suportar esta dívida é um desafio demasiado grande para a força e a solidariedade europeias? É certo que a política ateniense tem de mostrar uma capacidade de acção que liberte os seus companheiros das calamidades da sua política interna; mas aos gregos já foi exigido muito mais do que qualquer outro povo europeu teria suportado. O analista financeiro ateniense Panos Panagiotou publicou um balanço no Süddeutsche Zeitung: nunca houve tal redução de salários e reformas num país desenvolvido, "o nível de vida e o poder de compra dos cidadãos desceu para metade". O banco central irlandês calcula que as restrições nas despesas e os aumentos de impostos na Grécia representam 20% do volume económico total nos dois últimos anos - cinco vezes mais que a Espanha e Portugal juntos. 
Afinal de contas, em que loucura de construção irreflectida nos perdemos? Se Atenas fosse expulsa do euro e assim deixasse de poder pagar as contas, todos os créditos de auxílio estariam perdidos - só no primeiro pacote vão 110 mil milhões de euros. Por outras palavras: se a Grécia se conseguir salvar, nós ganhamos com juros; se fracassar, perdemos tudo. Dito de forma ainda mais simples: se a Grécia sair, em vez de poupar vamos pagar. Atirado à miséria, esse país teria antes de mais direito a ajudas da União Europeia, já que continuaria a ser seu membro. A catástrofe sairia ainda mais cara.
A tão alardeada proposta de saída da Grécia é tão absurda que dói. 

A dívida pública grega ronda os 300 mil milhões de euros. Só o auxílio ao Hypo Real Estate (HRE) aumentou a dívida pública alemã em 200 mil milhões de euros. É demais para nós? Isso é grotesco. A Europa começa em Atenas - e terminará também aí, se os cegos da História levarem a melhor.   


espírito académico x saber de experiência feito

Bruxelas quer mais licenciaturas como a de Relvas, diz o Sol.
Que mais irá me acontecer?, pergunto eu. (E mais uma vez lamento a falta de seriedade dos jornalistas que inventam títulos destes. Que diabo: a vida não é uma revista à portuguesa, e o tema é demasiado sério para ser arrelvasado!)

Porquê dar um título académico a pessoas que não frequentaram a universidade? Porque não inventar outro nome para lhes reconhecer a experiência profissional? Podíamos ter licenciados e, por exemplo, emeritados (talvez precise de pensar mais uns cinco minutinhos para arranjar um nome melhor). 


Se tivesse meios para isso, abria agora uma universidade privada que só daria a licenciatura a quem frequentou aulas de exigente currículo, estudou com profundidade a sua área de saber e lhe discutiu os métodos, fez vários trabalhos de investigação e participou em debates intensos com os professores e os colegas.
Que nome lhe daria: Universidade Antiga? Utopiversidade? Pequenaldeiagaulesa?


No fundo, a questão que se coloca é: o que é a universidade? Qual é o lugar da universidade no futuro? O que significa ter um título académico? A universidade é um lugar onde se vai aprender uma ferramenta e uma profissão, ou onde se pratica o pensamento com profundidade e a investigação colegial?

(Arrelvasando a questão: porque não distinguir nos títulos concedidos pela Universidade - que são, no fundo, uma validação concreta - um título académico para os que verdadeiramente estudaram, e outro, o da via profissional, digamos assim, para as pessoas que só se lembram de concluir o curso aos 37 anos ou os que, em vez de estudar, preferem cair logo na vida real e acumular experiência prática?) (desculpem, foi um momento de fraqueza, já passa)

***

O semanário Die Zeit trazia em fins de Julho passado um artigo de Heinz-Elmar Tenorth com o título "ainda precisamos da universidade?" Trata-se da versão resumida de um trabalho apresentado na Junge Akademie der Berlin-Brandenburgischen Akademie der Wissenschaften e na Leopoldina.  Questiona a especificidade do papel da universidade hoje em dia (transmissão de saber, investigação, validação - e lembra que a validação é o último bastião da universidade, e mesmo esse está prestes a ser perdido devido à pressão das instituições concorrentes). Traduzo (muito, muito apressadamente, já se sabe) a última parte do artigo:

O que podemos prometer e esperar para lá do quotidiano da formação académica e de uma investigação correcta e normal? 
Antes de mais, uma forma de vida específica, autónoma, sustentada pela comunidade de professores e alunos (societas magistrorum et scholarium), orientada pelo imperativo da investigação, organizada por temas e métodos, e financiada de tal modo que a única preocupação de cada um dos seus membros é tornar-se, na sua área de saber, o melhor de todos. Na sua praxis é naturalmente uma torre de marfim, um parque de jogos intelectual, um laboratório de ideias - também na área de Humanidades-, em concorrência e cooperação permanente com os outros institutos similares.

A universidade é indispensável para o recrutamento de elites de todo o tipo, porque não nos faltam experts, o que nos falta são experts com uma sólida formação, esses que são capazes de enfrentar um futuro desconhecido, e por isso se têm de sujeitar ao crivo dos mais elevados standards.

É um espaço de aprendizagem sem limitações de tempo, organizado simultaneamente de forma individual e colectiva, ou seja: impossível, no fundo. Ou, como nos textos de Humboldt que agora poderia citar, um mundo entre ideia e realidade, em "solidão e liberdade".

Por isso, devemos também ser realistas: a universidade nunca vai existir assim como instituição - porque havia o Estado de financiar tal coisa? A não ser que o Estado saiba que há luxos que são necessários quando as expectativas são extraordinárias - sobretudo no que diz respeito à construção de experts capazes de reflexão, à formação através da Ciência, e também à descoberta do que é novo ou ao uso sistemático das diferenças geracionais para a crítica do conhecido e contra o poder paralisante do que é velho. 

Mas esta universidade só se tornará uma ideia reguladora no quotidiano do sistema de ensino superior se pessoas e problemas, soluções e contextos forem capazes de se unir de forma produtiva, podíamos até dizer: como guerrilheiros ("Partisanen") - à semelhança do que aconteceu em 1810 em Berlim (pelo que sabemos que o encantamento não é eterno). Mas podemos tentar - agora mesmo, no seminário, na aula, no laboratório: o primeiro passo é que conta.

***

"Bruxelas quer", diz o artigo. Mas será que Bruxelas quer, pode e manda?
Não tenho conhecimento disso, mas espero sinceramente que as universidades da Europa já estejam unidas num debate sobre o sentido e o conteúdo de um título académico, que é afinal a questão do sentido e do conteúdo da própria universidade.

06 setembro 2012

mudam-se os tempos


Pensava que aquela coisa horrorosa a que as nossas mães chamavam cinta tinha desaparecido para sempre. E desapareceu. Agora é uma coisa super sexy, a que se chama shaping dress.

Mudam-se os tempos, mais que as vontades.

(do site da H&M)

05 setembro 2012

nós



Às vezes o segredo está mesmo na simplicidade.
Como este filme: mostra 101 rostos. E nem é preciso um minuto para me deixar rendida à minha espécie, presa de uma imensa ternura.

Ao ver estas pessoas ocorre-me a canção do Caetano Veloso, Terra. Esse desmedido carinho, essa acção de graças.
Somos nós. Nós de uma rede.

robinhoodismo


Hoje (mais uma vez) caí na asneira de percorrer os murais dos amigos no facebook. Pérolas e mais pérolas. Apetecia-me roubar tudo, levar para o meu mural para mostrar a outros amigos.
Estes ímpetos de RobinHoodismo fazem-me sentir um bocado parva. Mas que era preciso afinar um sistema de franchising no facebook, ai isso era!

04 setembro 2012

o passeio dos alegres (8)

Quarta-feira era o último dia do grupo completo, e resolvemos regressar ao Wannsee, onde já tínhamos estado no primeiro dia.
Passámos pelo terreno onde vamos construir uma casa, para eles contarem aos paizinhos meus amigos. Mas não desataram a fazer aaaah e ooooh, ai, esta juventude! (pais que me estão a ler: da próxima vez treinem-lhes melhor as interjeições de entusiasmo sem limites)

Fomos apanhar o S-Bahn para Wannsee na estação de Grunewald, e aproveitei para lhes mostrar um memorial do Holocausto pouco conhecido dos turistas: Gleis 17, o cais de onde se fizeram as deportações de judeus para os campos de concentração. As datas, o número de pessoas deportadas e o seu destino estão marcadas em placas postas lado a lado ao longo da linha. Procurámos as datas dos nossos aniversários, e as dos nossos pais. É um reflexo natural ir em busca de algo que nos liga ao que estamos a ver, mas ler que no dia dos meus anos saíram 900 judeus para Theresienstadt é um elo desconfortável.
É Berlim: onde a nossa vida se mistura à dos outros e à História.




A viagem de Charlottenburg ao Wannsee não é longa. O comboio atravessa a floresta e pára junto ao lago. Continua-se para a Liebermann-Villa de autocarro (é o 114). Falei-lhes deste pintor proveniente de uma família de industriais judeus muito abastada, que tinha casa junto à porta de Brandeburgo e mandou fazer, mesmo em frente ao lago, um luxuoso refúgio para os fins-de-semana e meses de Verão. Aproveitei as fotos na loja do museu para lhes falar do escândalo do quadro em que Liebermann representou Jesus como um rapazinho judeu.








Passeámos pelos jardins, os meus meninos fizeram milhares de fotografias de flores (e muito boas, mas poupo os meus leitores, que este blogue, sendo muita coisa, ainda não é um calendário das edições paulistas), eu  encantei-me com umas couves azuis que lá tinham plantado, fomos até ao lago...
...e foi então - talvez à décima quinta vez que visito aquele museu - que me caiu a ficha: estávamos num daqueles famosos jardins de pintor, como o de Monet em Giverny, o de Renoir em Cagnes-sur-Mer, o de Nolde em Seebüll! Apressei-me a contar isso aos miúdos, mas num tom neutro, como se desde sempre o tivesse sabido. 





Dentro da casa havia uma exposição sobre a pintura de jardins de Liebermann e de Nolde. Espero que da outra vida não haja janelas para esta, porque ainda se arranja um sarilho no Além: estes dois pintores, inimigos em vida, têm agora os seus retratos e quadros frente a frente!
Nolde teve um papel importante nos conflitos geracionais entre impressionistas e expressionistas que dilaceraram o grupo da Secessão Berlinense, de que Liebermann era presidente. À entrada da exposição vêem-se auto-retratos dos dois, justamente com a opinião que tinham um do outro:
Liebermann: "Nolde... só sabe fazer garatujos crus, devia ter-se ficado pelos retoques de postais com que começou a sua carreira."
Nolde: "Liebermann fez um discurso sem calor, com palavras cortantes como ácido."
Estava-se no princípio do séc.XX. Em breve os nazis subiriam ao poder. Em Maio de 1933, no dia em que os nazis queimaram os livros dos autores indesejados do regime, Liebermann renuncia a todos os seus cargos públicos, porque já não vê reconhecido o princípio de a arte ser independente da política e da origem do artista. Morre poucos anos depois. A sua viúva, Martha, é forçada a vender a casa do lago. Suicidar-se-á em 1943, aos 87 anos, após receber uma ordem de deportação.  
Nolde, por seu turno, vê-se a si próprio como o pintor por excelência do III Reich. Os nazis têm outra opinião, e proíbem-no de pintar. Nolde refugia-se na sua casa junto ao Mar do Norte, em Seebüll, e trabalha clandestinamente nos quadros não-pintados.


(Emil Nolde)

Comparámos os quadros dos dois, e gostámos de ambos. A luz sábia nos quadros de Liebermann, por um lado, a extraordinária energia dos jardins do Nolde, por outro. 
As senhoras da caixa foram amorosas. Além de terem deixado entrar metade do grupo sem pagar, ainda deram um postal a cada um, à saída. O museu é o resultado de uma iniciativa cultural privada, e todas elas são voluntárias que trabalham gratuitamente para tornar este projecto possível.

Da casa do Liebermann seguimos para a casa da Conferência de Wannsee, praticamente ao lado. Combinámos que seria uma visita rápida, apesar da exposição extremamente informativa e completa, que pede para ficarmos longamente em cada sala. Mas dois museus numa manhã é demais - mesmo para mim! - pelo que lhes fiz um pequeno resumo do que se passou ali, e só lhes mostrei alguns dos textos e das fotos mais importantes. Uma das fotos mais inesperadas é da Leni Riefenstahl, a excelente cineasta do regime nazi. Nessa imagem vê-se a expressão de horror no rosto da realizadora quando é testemunha do assassínio de um grupo de judeus. A partir desse momento deixou de trabalhar para os nazis, mas nunca se demarcou publicamente deles, e nunca foi reabilitada. Vejo essa fotografia, e reconcilio-me com aquela mulher: afinal era um ser humano, tinha consciência e coração.




(a sala onde foi feita a reunião e está exposta a respectiva acta) 






Mesmo ao lado da casa da Conferência de Wannsee há um sítio óptimo para almoçar. Optámos pelas famosas salsichas com batatas fritas no terraço em frente ao lago, em vez da tortilha no restaurante junto ao cais dos barcos à vela.







Regressámos a Berlim. Eu fui para casa trabalhar, e o grupo seguiu para a Coluna da Vitória. Alguns valentes subiram todos aqueles degraus, e valeu a pena:







Depois saíram pela cidade, por lojas que não sei. 


Ao jantar contaram histórias mirabolantes do que viram nas lojas, de um kindle novo, sei lá. E riram, de tudo e da minha maneira de falar com o Fox. Ingratas criaturas, é o que é.
(...as saudades que cá deixaram!)


Ajudaram-me a preparar um calendário de advento para mandar à Christina, e fizeram fotografias, provavelmente para mostrarem em casa, a ver se os pais se inspiram...


(Na sexta-feira seguinte levei o calendário a uma amiga da Christina que ia daí a uns dias para a Bolívia, para ela o levar. Quando soube que era um calendário de advento, virou-se para a mãe e perguntou: "também me fazes um?" A mãe suspirou, porque tinha apenas um dia para tratar disso. Se continuo assim, torno-me persona non grata numa série de famílias.)

mais problemas com nozes



(vídeo encontrado aqui, também na Waldbühne, com 12.000 pessoas em 2010)

Acabei de descobrir (e, caramba, ainda tenho o coração aos saltos!) que tenho três bilhetes para o Leonard Cohen na Waldbühne, amanhã.
Claro que tenho uma boa desculpa: já os comprei em Maio, desde então aconteceu tanta coisa que uma pessoa despista-se um bocadinho. Mas é uma desculpa que não me satisfaz. Tenho de me organizar melhor com os bilhetes, para um dia destes não ter um desgosto. Nem quero pensar na cara que teria feito ao abrir o jornal na quinta-feira e ver as imagens do concerto naquele palco fantástico, para me lembrar - só então! - que podia ter estado lá.

a pergunta que desde ontem não quer calar



A propósito do que ontem copiei da wikipedia sobre o Buzz Aldrin a comungar na lua: como raio é que um gajo de escafandro consegue meter alguma coisa à boca?

03 setembro 2012

ó meu deus, e se desses as nozes aos outros?



Estive a ver o programa da Musikfest Berlin 2012. É o ano de John Cage e de eleições, os EUA vão estar na berlinda. Por exemplo: Porgy and Bess com Simon Rattle, Eight Poems of Emily Dickinson de Aaron Copland, Amériques de Varèse com a Konzertgebow, Nixon in China com a BBC Symphony Orchestra. Mas também as "14 maneiras de descrever a chuva" de H. Eisler. E se fosse só isso, mas é muito mais!

Ó meu deus, eu não dou vazão. E a minha conta bancária também não, diga-se de passagem.

blue moon



Este ano havia uma blue moon (nome que se dá a uma lua cheia se acontece duas vezes no mesmo mês), e foi justamente a data escolhida para o funeral do Neil Armstrong.

Ia descambar para um post todo melado e assim (afinal de contas, o Neil Armstrong foi o primeiro de uma longa série de celebridades que me passaram despercebidas - enquanto ele saltava lentamente pela lua, eu encantava-me com o meu carioca de limão), mas fui dar uma voltinha pelo Buzz Aldrin na Wikipedia, e só me dá vontade de rir:

"Aldrin, a Presbyterian, was the first person to hold a religious ceremony on the Moon. After landing on the Moon, he radioed Earth: "I'd like to take this opportunity to ask every person listening in, whoever and wherever they may be, to pause for a moment and contemplate the events of the past few hours, and to give thanks in his or her own way." He gave himself Communion on the surface of the Moon, but he kept it secret because of a lawsuit brought by atheist activist Madalyn Murray O'Hair over the reading of Genesis on Apollo 8. Aldrin, a church elder, used a pastor's home Communion kit given to him by Dean Woodruff and recited words used by his pastor at Webster Presbyterian Church. Webster Presbyterian Church, a local congregation in Webster, Texas, (a Houston suburb near the Johnson Space Center) possesses the chalice used for communion on the Moon, and commemorates the event annually on the Sunday closest to July 20. Aldrin, a Freemason, also carried to the Moon a special deputization from Grand Master J. Guy Smith, with which to claim Masonic territorial jurisdiction over the Moon on behalf of the Grand Lodge of Texas."

Pobre lua: logo na primeira visita, foi invadida pela bandeira dos EUA, a Igreja e a Maçonaria!
(Só falta mesmo a troika.)

02 setembro 2012

Usedom


Todos os anos, lá para fins de Agosto, fazemos um fim-de-semana com alguns amigos numa ilha no mar Báltico. Desta vez o Joachim estava nos EUA, a Christina na Bolívia, o Matthias em casa com o Fox ("animais não entram") e com planos para ir ver a IFA com os amigos, pelo que fui sozinha, e sem vontade nenhuma de me lançar aos trezentos quilómetros de caminho. Foi estranho fazer a mala para partir para este encontro sem a minha família: de novo fui visitada pela sensação de um ciclo que chega ao fim - a minha vida vai passando por mim, e eu a olhar para ela como se me fosse alheia.

Quase ia fazer disto um postal de férias (o tempo óptimo, os mergulhos no mar, os passeios na floresta, bla bla bla) mas quero falar do que foi realmente especial:

O jogo que fizemos ontem, em que adivinhávamos como um de nós reagiria em determinada situação (por exemplo: era distribuidor de pizzas e deixava cair uma ao chão - metia-a de novo na caixa ou ia buscar uma nova? ou: depois de ter recebido do seguro o dinheiro para substituir a bicicleta roubada, a polícia dizia que encontrara a roubada, mas estava toda partida - devolvia o dinheiro ao seguro, ou dizia à polícia que a bicicleta não era aquela?), e que nos proporcionou belas gargalhadas (agora já sei em casa de quem é que não devo comer pizza...)

A manhã de domingo na praia - depois dos risos e das confissões do jogo de sábado, o grupo atingiu um estado de tranquilidade sem palavras. Passámos a manhã estendidos na areia a ler jornais e livros, cada um por si, num silêncio de pura harmonia.

No regresso a Berlim, dei boleia a dois dos casais. Palavra puxa palavra, viemos boa parte da viagem a falar de depressão e burn out. Os dois homens chegaram a estar internados para tratamento contra a depressão, e contaram as suas experiências com muita abertura e simplicidade.

Mas que terei eu feito para me acontecerem tantas vezes momentos assim especiais?
(A minha vida vai passando por mim, e eu a olhar para ela como se fosse um presente.)

31 agosto 2012

o passeio dos alegres (7)


Para terça-feira estava previsto irmos ao campo de concentração de Sachsenhausen, um campo de concentração que era também escola dos SS, a 60 km de Berlim. Por isso, às dez da manhã estávamos junto ao semáforo histórico da Potsdamer Platz, para sair com os guias (espanhol e inglês) em direcção à cidade de Oranienburg.
A visita guiada é bastante completa: começam por falar do fim de primeira guerra mundial, das várias crises ao longo dos anos vinte, da rapidez com que Hitler, a partir de uma eleição democrática, toma para si poderes de excepção e se instala no poder. Já tínhamos visto isso na exposição na cúpula do Reichstag, no dia anterior: a 30 de Janeiro Hindenburg nomeia-o chanceler, a 27 de Fevereiro o Reichstag está a arder, Hitler está perto e entra no edifício, fazendo no meio das chamas um discurso excitado sobre a ameaça comunista e a necessidade de a combater sem dó nem piedade. Declara-se o estado de sítio, Hitler recebe poderes excepcionais para os próximos trinta dias, dos quais nunca mais abrirá mão. Os comunistas e os socialistas são metidos na cadeia, e é criado o primeiro campo de concentração, Dachau.
Em Oranienburg usa-se uma antiga fábrica de cerveja para meter os primeiros presos políticos. Em 1936 faz-se um campo de concentração que deve ser "modelar".
Um campo modelo: a forma triangular; as barracas dispostas em leque; a organização dos espaços de forma a ser facilmente ampliado; a construção de fábricas à volta do campo para usar a mão-de-obra escrava; a torre sobre a porta da entrada, da qual um único homem com uma metralhadora pode controlar todo o campo; os nomes cínicos dos edifícios (A o da entrada, Z o dos fornos crematórios, do falso gabinete médico e da câmara de gás, "entras pelo A, sais pelo Z").
A guia começa por nos falar do contributo do campo de Sachsenhausen para a qualidade da nossa vida: a tuberculose, a pílula, os psicofármacos (antidepressivos, estimulantes) - muitos medicamentos que empresas farmacêuticas alemãs puseram no mercado após a guerra foram desenvolvidos usando os prisioneiros desse campo como cobaias.
Quase duas horas mais tarde explicará um refinado detalhe da máquina nazi: o dispositivo para matar soldados russos com um tiro da nuca. Já o conhecia de Buchenwald, mas não tinha ainda percebido porque matavam uns assim, com tanto cuidado para eles não repararem que iam morrer, enquanto outros eram simplesmente fuzilados, e até obrigados a cavar a sua própria sepultura antes de serem assassinados.
Os soldados russos eram levados ao bloco Z, onde um "médico" lhes fazia uma curta inspecção. Os que tinham dentes de ouro eram marcados, e levados para uma sala onde eram encostados a uma barra de medição da altura. Por trás dessa barra abria-se uma portada estreita, um soldado apontava a arma à nuca do prisioneiro e matava-o. Os outros, os sem marca, eram fuzilados numa vala junto ao bloco Z. Aquele complexo sistema de salas, corredores e paredes à prova de som foi planeado e construído para resolver um problema: como tirar facilmente ouro aos russos que eram prisioneiros de guerra. As pessoas que sabem que vão ser assassinadas ficam tensas, e torna-se mais difícil abrir o maxilar ao cadáver. A câmara de gás também não servia, porque o gás estraga os metais preciosos.
A guia falou também das fases do campo. Os nazis começaram com algum cuidado, tentando dar um certo ar de legalidade à coisa, mas com o passar dos anos acabaram por perder qualquer noção dos limites. A partir de 1942 sentiam-se omnipotentes e sem lei, faziam o que lhes apetecia. Por essa altura, já a quantidade diária de alimento que em 1936 era dada a cada homem tinha de chegar para três e até cinco. Sobreviventes contaram que o pior de todos os castigos era pô-los a trabalhar na cantina dos soldados ou perto dela: o aroma da comida normal era para eles a pior das torturas.
Os meus jovens portugueses ouviram, fizeram algumas perguntas, muitas fotografias.



  






Nesta foto vemos imagens de soldados russos pouco antes de serem assassinados. Os retratos foram feitos para uma exposição nazi sobre o rosto do inimigo. Como é possível olhar para estes rostos e ver neles algo de ameaçador e desumano? Como é possível usar estes extraordinários retratos para propaganda? Quer dizer: como estará lavado o cérebro de uma pessoa para ver nestes rostos aquilo que os nazis queriam que eles vissem?


No mesmo campo onde tabuletas avisam que quem passar aquela linha será morto sem aviso prévio, há na cozinha subterrânea desenhos humorísticos alusivos aos trabalhos que ali se faziam: lavar as batatas e os legumes para fazer a mistela a que chamavam sopa. As batatas largavam um fedor insuportável, vinham podres e muito sujas, a sopa não saía muito melhor. Mas um dos prisioneiros encheu as paredes de desenhos alegres, como se estivesse na Disneyland. Disseram-me que não se conhece bem a origem dos desenhos, e que até podiam ter sido feitos na segunda fase do campo, sob ocupação russa.   



Regressámos a Berlim, com uma paragem para almoçar numa loja cujo nome para sempre calarei.
Saímos na Oranienbruger Straße, perto do Tacheles.






Depois fomos passear para os pátios junto à estação de Hackesher Markt: os famosos Hackesche Höfe, o pátio alternativo ao lado e, logo a seguir, o restaurante Pan Asia com o seu agradável terraço.



















À saída, um deles perguntava: porque é que em Lisboa não há coisas assim?
(Deve ser uma boa mistura de muitos factores: a "terra de ninguém" em que se tornaram muitos prédios de Berlim Leste, uma extraordinária vitalidade na cultura underground da cidade, o carácter brincalhão dos berlinenses e a leveza com que aceitam experiências diferentes...)


Antes de regressar a casa fomos ainda fazer a fotografia da praxe à porta de Brandenburgo, ver o banco feito pelo Frank Gehry, a arquitectura maluca da Academia das Artes.
Este grupinho tinha óptimos fotógrafos: