11 junho 2012

o 10 de Junho de 2012 em Berlim

Há tempos surgiu a ideia de organizarmos no dia 10 de Junho uma sardinhada para os portugueses que moram em Berlim. Até se pensou em fazer um desfile de Zés Pereiras e tal pelas ruas da cidade, mas por sorte rapidamente voltámos a pôr os pés no chão - ia ser um pouco ridículo fazer tal cortejo nesta cidade no day after ao 1-0 da nossa tristeza.

O projecto, que quase foi posto de lado por nos parecer que não teria participação das pessoas, acabou por ser agarrado por dois entusiastas, que compraram o grelhador, arriscaram comprar duas caixas enormes de sardinhas e mais o carvão, e andaram a fazer publicidade de soleira da porta para aqueles que não costumam passar pelo grupo "Portugueses em Berlim" no facebook.

O resultado foi melhor ainda do que podíamos ter sonhado: dezenas de portugueses provenientes de grupos que raramente se cruzam, alguns alemães que falam português e gostam do nosso país, boa comida, muita troca de conversas, miúdos felizes a correr pelo parque à nossa volta. E as sardinhas estavam de comer e chorar por mais. O chouriço grelhado no púcaro também.

Uma alemã que se doutorou em Coimbra trouxe a sua guitarra portuguesa e tocou músicas de Carlos Paredes para nós. Por pouco não soltava uma lagriminha de comoção, ao ouvir aqueles acordes tão absolutamente nossos no parque Monbijou, no centro de Berlim.

Já combinámos que em Agosto há mais. Agora que lhe tomámos o gosto...








E como de costume, quando as coisas são perfeitas é possível sempre fazer melhor: apareceu uma massagista que nos esteve a desfazer as tensões nas costas. Saímos de lá a levitar.

10 de Junho

Para quem pensa que neste dia não vale a pena ouvir os discursos, porque é sempre mais do mesmo: desenganem-se.




***

Excertos do discurso de Jorge de Sena em 10 de Junho de 1977:

“Sejamos francos e brutais. Há neste momento, milhões de portugueses dispersos pelo mundo em mais de um continente, e não só na Europa de que são mão-de-obra. O país pensa neles, e deseja recordar-se deles. Mas o país, pura e simplesmente, na situação económica que herdou e em que se encontra e toda a gente sabe desastrosa, não pode prescindir do dinheiro deles, ou do dinheiro que eles costumam enviar para a santa terrinha, ao contrário do que faziam e fazem portugueses do território nacional, que mandavam o seu dinheiro para o anonimato dos bancos da Suíça. Deste modo, celebrar as Comunidades Portuguesas no dia do santo nacional que celebrou a expansão imperial do país é, ao mesmo tempo, um belo ideal e um cálculo muito prático. Há quem diga e quem pense que celebrações como esta – de Camões ou das comunidades – são uma compensação para a perda ou derrocada do Império oferecida ao sentimento popular, e que isso das comunidades é mesmo ainda pior: uma ideia do fascismo. Antes de mais, neste país há que pôr um basta não só ao fascismo ele mesmo, mas à mania de atribuir tudo ao fascismo, até as ideias. Porque, por esse caminho, ficamos todos sem ideias de que precisamos muito, e os fascistas ou os saudosistas deles acabam convencidos de que tinham ideias, quando ter ideias e ser fascista é uma absoluta impossibilidade intelectual e moral. O celebrar-se no presente e no passado em sua gente, o homenagear essa gente e recordá-la aonde quer que viva ou tenha vivido é um imperativo imarcescível da dignidade humana, num dos aspectos que a representa: o pertencer-se directa ou indirectamente a um povo, uma história, uma cultura, que como no caso de Portugal, foi, é e será capaz de diversificar-se em outras. Nenhum internacionalismo que se preze de ter os pés na realidade e na matéria de que somos feitos, pode negar ou ignorar essas realidades tremendas que são uma língua ou muitas, uma raça ou várias, uma cultura por mais adaptável ou capaz de absorção, que ela seja, que se identificam com um nome secular – Portugal no nosso caso, aqui e agora.”

“Tudo existe na sua obra: o orgulho e a indignação, a tristeza e a alegria prodigiosa, a amargura e o gosto de brincar, e desejo de ser-se um puro espírito de tudo isento e a sensualidade mais desbragada, uma fé inteiramente pessoal, pensada e meditada como ele a queria e não como uma instituição, e a dúvida do predestinado que se sente todavia só e abandonado a si mesmo. Leiam-no e amem-no: na sua epopeia, nas suas líricas, no seu teatro tão importante, nas suas cartas tão descaradamente divertidas. E lendo-o e amando-o (poucos homens neste mundo tanto reclamaram amor em todos os níveis, e compreensão em todas as profundidades) – todos vós aprendereis a conhecer quem sois aqui e no largo mundo, agora e sempre, e com os olhos postos na claridade deslumbrante da liberdade e da justiça. Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele. É renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu. E esquecermos que Portugal como Camões, é a vida pelo mundo em pedaços repartida.”


(Que seria de mim sem o facebook?)

10 junho 2012

na próxima encarnação quero ser minha filha


O Matthias vai passar os próximas dias neste barco, na Holanda.
É uma viagem organizada pela escola para todos os alunos do seu ano. Alugaram vários barcos destes, e em cada um deles há um capitão, um ajudante, e não sei quantos diletantes de quinze anos que são responsáveis por tudo. Por quase tudo.

Ontem o rapaz contava-me a rir que um dos grupos da cozinha queria fazer puré de batata de pacote. Poucos sabiam o que isso era, e fartaram-se de rir da ideia de fazer puré de batata de pacote, como se fosse uma piada inventada pelos outros. Os da ideia lá se defenderam como puderam, mas a turma decidiu que há um nível mínimo de qualidade que tem de ser respeitado.

No meu tempo não havia nada disto. Viagens de turma? Fizemos, pois! À casa de Camilo Castelo Branco, ao Museu Etnográfico do Porto, e outros destinos igualmente arrebatadores.

Na próxima encarnação, vou ver se arranjo de me fazer filha da mim própria que sou nesta.

PS: Estarão nesse país na altura do jogo Holanda-Alemanha. O Matthias levou a bandeira e roupa da selecção alemã. Não gosto nada da ideia de miúdos de 15 anos estarem a ver esse jogo num local público. Espero que tenham juízo, e não provoquem. Há feridas da História que ainda não fecharam completamente, e o futebol não devia ser o sal que se esfrega nelas.  

09 junho 2012

"pacto de redenção"




Agora em poucas palavras: o nome que os alemães deram a esta proposta de resolver o problema das dívidas estatais foi

pacto de amortização da dívida (Tilgungspakt)

O ingleses traduziram "Tilgung" para 

debt redemption (e abreviaram para redemption)

O jornal i publicou a notícia sobre esse pacto, traduzindo debt redemption pact para 

pacto de redenção

Muitos portugueses leram, e ficaram chocados com a arrogância dos alemães. 

Por favor avisem-me quando o jornal i escrever um texto a pedir desculpa aos seus leitores por tê-los induzido em erro - se o jornal i precisa de um desenho, encontra-o no princípio deste post. 
Trata-se de um erro inadmissível do tradutor, e um erro ainda mais inadmissível do jornalista que aceitou essa tradução sem achar estranho que a Alemanha fosse capaz de tal arrogância e mau gosto - ora, bem se devia ter lembrado que quando a esmola é grande...

08 junho 2012

querido diário



Hoje trabalhei numa oficina de poesia, a fazer uma animação para um poema.


Fascinou-me ver como pessoas que antes não se conheciam desataram a interagir de forma tão criativa e positiva. Este foi o resultado:





Ao fim da tarde, no caminho para casa, um rafeiro de pernas curtas trotava alegremente sobre ilhas de luz no passeio, e no céu as nuvens fizeram-se grandiosas como em Canyon de Chelly.

Ah, o poder transformador da poesia!

Poesiefestival Berlin 2012 017a

Poesiefestival Berlin 2012 013a


Poesiefestival Berlin 2012 019a

07 junho 2012

"chegou a vez do ouro"

"Onde é que já vi isto?", perguntei eu ao meu marido, ao pequeno-almoço (sim, eu começo a carburar bastante cedo), "onde é que já vi uma cena em que alguém atira por desporto sobre pessoas que passam à sua frente?"
Estava a falar do episódio contado pelo filho dos nossos amigos, que não foi de Belém a Jericó porque lhe disseram que havia colonos israelitas que disparavam contra carros de palestinianos que passavam nessa estrada. Estava a pensar no Amon Göth, de espingarda na mão à varanda da sua residência em Auschwitz.

Com o choque, o Joachim até acordou. Ele é alemão, e começou a frequentar a escola na altura em que a Alemanha se viu obrigada, por força das interpelações dos seus jovens, a encarar sem rodeios a sua História ainda recente. Tinha seis anos quando Willy Brandt se ajoelhou no gueto de Varsóvia.
"Não é boa ideia estabelecer esse tipo de comparações, porque corres o risco de desvalorizar o Horror que foi o nazismo, e particularmente o plano frio, racional e industrial de exterminação de um povo".

Na Alemanha há um décimo primeiro mandamento, e é este:
Não invocarás o tenebroso nome do Horror em vão.

Pensei um pouco mais: não sei se havia realmente gente a disparar contra carros, ou se era boato. Não sei se eram "colonos israelitas", ou um louco solitário. Já o Amon Göth era louco, mas não solitário. Inscrevia-se num regime em que esse tipo de loucura e perversão estava institucionalizado.
A minha comparação era péssima - sem dúvida.

Vem isto a propósito de comentários que tenho ouvido em Portugal: frases como "à terceira é de vez: a Alemanha finalmente conseguiu o que tem vindo a tentar nos últimos cem anos - e desta vez sem guerra", e mais recentemente este texto do Manuel António Pina.
O que se passa em Portugal, se até a pessoas do excelente gabarito do Manuel António Pina acontece tal percalço de argumentação?



Por partes:


1. Neste site há uma síntese dos argumentos actualmente apontados por políticos alemães (de todos os partidos) para se oporem aos eurobonds. Visto deste lado, não se trata de a Alemanha dominar a Europa, mas de não se tornar refém dela.
Se hoje houvesse um referendo na Alemanha, acredito que muitos escolheriam sair do euro, e prefeririam passar mal mas saber que são senhores do seu destino, a passar mal por serem avalistas de dívidas cuja evolução desconhecem e não controlam. O povo alemão teme que os seus políticos assumam compromissos cujas consequências não têm como controlar, e que serão pagas pelos contribuintes. Em contrapartida, os políticos tentam convencer o povo de que a Alemanha tem muito a perder se o euro implodir, e sobretudo que tem uma responsabilidade histórica que não lhe permite virar as costas aos outros e tratar de si.
Por se recusarem a perder a sua própria soberania ao assinar acordos em que o orçamento do Estado alemão fica refém das políticas de endividamento dos outros países (que não querem abrir mão da sua soberania), os alemães são rotulados de imperialistas, ladrões, oportunistas, calculistas, nazis.


2. "Pacto de redenção"
Na Alemanha todos os anos se faz uma lista para escolher a palavra e a não-palavra do ano. Em 2011, a não-palavra foi Döner-Morde (assassínios dos döner). Essa expressão foi usada para para falar de um bando de neonazis que andava a matar turcos proprietários de restaurantes de döner kebap, e as críticas não tardaram: é inadmissível falar com tanta leveza de algo tão grave e tão traumatizante (quer para os turcos que vivem na Alemanha, quer para os alemães), e associar uma minoria a um elemento da sua gastronomia - especialmente inaceitável se designa um crime motivado por xenofobia.
Se a expressão "pacto de redenção" fosse usada na Alemanha, seria a grande candidata a não-palavra de 2012. Mas não há o menor risco de algum político ou economista alemão se lembrar de dar tal nome a uma proposta de solução da crise do euro, porque eles sabem bem como é inaceitável usar palavras que humilham os outros países.
(Sim, eu sei: este é o momento em que me vão lembrar o "fazer os trabalhos de casa", "pôr a bandeira a meia haste", "produtividade dos países do sul". Já falei aqui várias vezes das críticas que na Alemanha chovem sobre a Angela Merkel quando ela comete um discurso populista, e já chamei várias vezes a atenção para a necessidade de tentarem entender o contexto e o sentido das frases, em vez de as podarem da maneira que dá mais jeito para usar como bandeira que confirma os tais tiques arrogantes e imperialistas dos alemães.)

Debalde tentei encontrar o tal "pacto de redenção" em alemão. Só encontro "Tilgungspakt". Tilgung é a palavra usada nos créditos bancários para designar a amortização da dívida. Como terá sido possível passar da "amortização" alemã para a "redenção" portuguesa? Para responder a esta questão, o melhor é procurar o culpado entre os suspeitos habituais: se não forem os jornalistas, são os tradutores. Provavelmente passou-se isto: Tilgung foi traduzido para "debt redemption" em inglês, e abreviado para "redemption": European Redemption Pact. "Redemption", em inglês, tanto pode significar "redenção" como "amortização", mas o tradutor de português deve ter faltado às aulas de inglês comercial e financeiro para ir à missinha, e traduziu como lhe ocorreu sem pensar muito.

Por saber como os políticos alemães são cuidadosos com as palavras que escolhem, mais me afligiu a leitura do texto do Manuel António Pina. Bem sei que na origem do erro está uma tradução de péssima qualidade (e pergunto se será apenas grave incompetência, ou se é também um caso de má-fé e preconceito xenófobo), mas não havia necessidade de esticar ainda mais a ideia, passando da "redenção" para a "bula" (pagar o pecado com ouro), com uma pequena incursão ao lado mais negro da História alemã - como se o pior da sua História estivesse para sempre inscrito nos genes dos alemães. Não apenas o III Reich, também a cobiça imperialista, a fome insaciável dos bens alheios.

3. "As duas faces da Alemanha: a luminosa e a monstruosa"
Estamos a falar das faces da História alemã, ou estamos a falar da face do povo alemão? O que aconteceu no III Reich foi um terrível momento histórico, ou é uma doença hereditária dos alemães, que se manifesta em surtos periódicos?

A expressão "Pacto de Redenção" é repugnante. Mas, mesmo que tivesse sido forjada na Alemanha, ainda estaria a anos-luz de "Shoah", "Endlösung", "Vernichtungslager", Auschwitz, Treblinka, Buchenwald e outras - "não invocarás o tenebroso nome do Horror em vão".
Para além das palavras usadas, importa ver o conteúdo: esta proposta de resolução do problema das dívidas dos Estados, consubstanciada num Pacto de Amortização da Dívida, não é sintoma da política de "pilhagem financeira" nem de "olhos frios e cobiçosos". É apenas um mecanismo que todos conhecemos: se eu assumo o pagamento das dívidas livremente contraídas por um terceiro, posso exigir dele a entrega de uma garantia de cumprimento.
Podem dizer que no contexto actual da Europa isto é sinal de tacanhice, falta de visão política e económica, egoísmo nacional, falta de solidariedade, o que quiserem - mas não é sintoma de um plano alemão de dominar a Europa, nem há motivo para ir buscar o fantasma do período nazi da Alemanha. 


4. De todos os países envolvidos em derivas totalitárias, a Alemanha foi aquele que mais longe foi no esforço de se confrontar com a sua História, aprender com ela, e empenhar-se de forma extremamente activa, atenta e responsável para sufocar as próprias sementes dessa ideologia.
É chocante e frustrante ver que esse esforço - admirável e sem igual - é simplesmente ignorado, e que nos outros países há pessoas que criticam a Alemanha (ou os alemães?) como se o nazismo fosse um dado adquirido do carácter e do destino desta sociedade - como se lhes corresse naturalmente nas veias. Curiosa ironia: os que assim acorrentam a Alemanha a momentos do seu passado fazem-nos muitas vezes usando mecanismos da própria ideologia nazi. 

5. Em vez de haver abertura para entender a perspectiva do lado oponente (que nem oponente é - estamos no mesmo barco, só não encontrámos ainda uma solução menos má para todos), ataca-se a Alemanha. E nem se hesita em recorrer a golpes muito baixos (III Reich! Auschwitz! "Os alemães nunca nos enganaram, eles são assim, não têm emenda!") para o jogo de má-consciência e chantagem ideológica.

Em suma: a Alemanha ainda não disse que sim, que os seus contribuintes de bom grado assumem a responsabilidade do pagamento da dívida feita pelos outros países. Também tem sido bastante arrogante no modo como impõe aos outros países a realização de reformas, a revisão das leis fiscais e o combate da fuga aos impostos, bem como a luta contra a corrupção e a fuga de capitais. Recusa-se a obedecer às expectativas dos seus parceiros, e ainda tem o desplante de impor que, antes de se tornar avalista dos créditos soberanos alheios, lhe seja dada uma garantia material para o caso do não cumprimento. Perante tal comportamento, claro que é da maior pertinência lembrar a face monstruosa da Alemanha e invocar o pior da sua História - ou até incluir o pacto de amortização da dívida na categoria do Holocausto. Faz todo o sentido.

***

Custou-me muito escrever este post a propósito daquela crónica do Manuel António Pina, e de frases de outras pessoas que também estimo muito. Mas tinha de o fazer - justamente por serem pessoas que muito considero, e de quem não esperava este tipo de argumentação, não podia ficar em silêncio.
Também reconheço que chamar "pacto de redenção" a um acordo entre países europeus é um absurdo e uma provocação chocante, e bem sei como é difícil ter tempo para pesquisar e para acertar sempre e brilhantemente, quando o ritmo das crónicas é diário.
Apesar de ter tido muito mais tempo para pensar o que escrevia, sei que muitos dos meus leitores vão ter opinião diversa. Venham elas - a falar uns com os outros, de boa-fé, é que a gente se entende e avança!

um relato da Palestina (2)

A propósito do meu post anterior, houve uma troca de comentários no facebook com o Sergio Storch, cuja perspectiva informada, distanciada e pacífica enriquece muito o debate, e desenha uma resposta possível à minha questão da impotência e da falta de esperança. Por esse motivo, decidi copiá-los para aqui, apesar do registo algo informal do texto, típico das conversas no facebook.

Não conhecia o Sergio Storch - foi uma amiga comum que iniciou o debate. Pedi-lhe autorização para publicar aqui os seus comentários. Na sua resposta, apresentou assim o seu trabalho:

"Minha causa é ajudar israelenses E palestinos que atuam juntos para mudar essa situação, e faço isso numa rede que está trazendo para o Brasil - e agora começando com outros países da América Latina - pessoas que fazem depoimentos mostrando a possibilidade da convivência com paz e amizade. Se for possível fazer algo assim também na Alemanha, será muito bom. Sempre começa pequeno, mas cresce."

 

Sergio Storch: O relato é muito preciso e sensível. Mas sim, é possível ter esperança se entendermos que este relato é uma foto, e não um filme. Eu vejo também o vigor das partes sadias de ambas as sociedades. E a esperança se dá ao participar nisso, e trazer para o Brasil um pouquinho da responsabilidade pela construção do futuro. Você verá nas próximas semanas...

Um comentador: Leia, Helena Araújo - a esperança não deve ser perdida...

Sergio Storch: A comparação com o nazismo tem aparecido constantemente, e esse fato (o da comparação ser constante) é por si só um tema a ser muito aprofundado. Há tantos ângulos... Por um lado, é uma comparação equivocada e injusta, e direi por que. Por outro, sempre se pode dizer que é menos injusta do que a opressão que lá ocorre, e é verdade. E por mais um outro lado, ela alimenta a propaganda de defesa incondicional de Israel, que explora um mito, o de que os judeus não têm amigos e que ninguém tem solidariedade com eles. E agora explico por que é injusta, embora saiba que é enxugar gelo (talvez a melhor forma seja um post no blog), pois um minuto depois haverá mais alguém fazendo essa comparação: Primeiro, a escala quantitativa: por que não se faz essa comparação no caso da Síria, em que mais de 10000 já foram assassinados (na Palestina a qtde de vítimas fatais, no pico, que foi em Gaza, foi de 1600). Vítimas de discriminação? a Human Rights Watch traz vários outros países com situações mais graves, que não vêm à tona do pensamento da opinião pública. Por que? por que a Palestina tem mais exposição na opinião pública. O que eu acho muito bom, embora preferisse que todas as opressões tivessem exposição proporcional. Mas se tivessem, a quantidade de informação seria tão enorme que se banalizaria e nos dessensibilizaria. Assim, essa comparação não é justa, mas judeus que defendem direitos humanos (inclusive os que estão lá, que são muitos, o que não ocorria na Alemanha nazista, pois era fatal, o que é mais uma diferença) não vão achar mais importante provar essa injustiça do que combater a opressão. Outra diferença: história. Sim, o que ocorre hoje na opressão aos palestinos pode ser comparado, com a ressalva acima, com os primeiros anos do nazismo, com mais uma ressalva: lá essa opressão tornou-se política oficial de estado, com toda uma legislação consistente nesse sentido. Embora alguma analogia com esses primeiros anos do nazismo seja compreensível, a ideia que passa para a opinião pública - uma ideia absolutamente falseada - é a comparação com os grandes crimes do nazismo contra a humanidade, que se deram após 1941, com o genocídio sistemático e industrial. Não há comparação possível com isso. Mas, como lhe disse antes, explicar essas coisas é como enxugar gelo, pois o cidadão médio não tem o conhecimento histórico e discernimento, nem o tempo, para aceitar uma explicação que o convença do contrário. E eu me coloco na posição que disse acima: importa mais lutar contra essa opressão, por incomparável que seja com outras muito maiores, do que enxugar o gelo. E eu acredito que, em havendo muitos judeus - e israelenses - engajados nessa luta contra a opressão, essas comparações injustas deixarão de existir. Mas conto com os amigos e amigas que, uma vez sensibilizados por essas ponderações, poderão também fazê-las para os seus amigos e amigas, respondendo de forma crítica a comparações semelhantes. Teria muito mais a dizer sobre isso, mas seria excessivo...

Um comentador: A diferença é que, tendo os judeus sido vítimas do nazismo, quando repetem as mesmas táticas a comparação torna-se inevitável.

Sergio Storch : hmm, não é por isso não. E esse assunto dá muito pano pra manga. Não esquecerei de te convidar quando fizermos um debate sobre isso: por que singularizar a opressão de israelenses sobre palestinos, entre tantas outras opressões? Ambos os povos têm traumas históricos recentes: o nosso perdeu 1/3 dos seus no Holocausto; o palestino teve 1/2 do seu povo convertido em refugiados. Não é exatamente assim, mas as dimensões dos traumas são mais ou menos essas. Um jeito é ver um contra o outro. Outro jeito é ver ambos os traumas como resultado do choque frontal entre duas forças colossais: o império britânico em decadência e o Terceiro Reich, que pretendia restaurar a grandeza do Sacro Império Romano que durou séculos. Judeus e palestinos foram o algodão que estava entre os cristais.

Mas a minha explicação para a singularização acima, que sei que não é o seu caso, mas que comumente acompanha um sentimento antissemita, é a seguinte: na racionalidade ocidental, mecanicista e linear, apontar um dedo para um culpado é a solução mais tranquilizadora. É uma forma de dizermos para nós mesmos: como os outros são ruins... E faz parte do imaginário ocidental, cultivado por séculos de pregação católica (a que só foi dado fim oficial nos anos 60, com o Concíilio Vaticano II de João 23) a ideia de que judeus=judas=traição=perfídia=maldade. É o mal que, ao vermos fora de nós, nos faz acreditarmos que somos bons.

Bem, é uma discussão enorme e multifacetada. E mais, ela hoje se manifesta na vida concreta, na relação israelenses-palestinos, e na relação do resto do mundo com a relação israelenses-palestinos. Enquanto discutimos, estamos ainda vivendo esse fenômeno, até que acabe de fato o século 20, que ainda está nas memórias de todos que sofreram essa "era dos extremos", como caracterizou o historiador Eric Hobsbawm.

Sergio Storch: Muuuuuito pano pra manga. E acho que o momento mais alto dessa discussão será quando conseguirmos trazer para cá duas pessoas, em fevereiro de 2013: Nurit Peled-Elhanan e Samira Alayan. Cada uma delas faz a análise crítica dos estereótipos recíprocos que se faz do outro na educação israelense e na educação árabe. Elas, amigas, mostram como na educação das crianças hoje, continua-se cultivando o desprezo e o medo ao outro. Que é um pouco o que acontece no que nossas crianças de classe média aprendem sobre o outro, que é o povão, e o que as crianças do povão aprendem sobre nós. Ou seja, a relação Israel-Palestina tem relação com a relação que temos nós aqui com os que são diferentes de nós, do outro lado da cidade. E vamos lá pra Palas Athena estudar cultura de paz, que nos ensina a enxergar desse jeito.

Sergio Storch: Hmmm, aliás... venha à Palas Athena no dia 14 às 9:00. Teremos um palestrante excepcional, Azril Bacal, ativista altermundista (Um outro mundo é possível), falando de uma das pioneiras da Cultura de Paz.


Sergio Storch: Acho que vc gostará de ler o que diz este filósofo, que é irmão de um dos mais importantes ativistas isralenses (que vem sendo interrogado pela polícia de Israel por liderar a reconstrução de casas de palestinas demolidas em Jerusalém Oriental). https://www.facebook.com/groups/420088668571/permalink/10151162307158572/
FRIENDS OF HUMAN RIGHTS LEADER DR. MEIR MARGALIT

05 junho 2012

um relato da Palestina

O filho de amigos nossos esteve a trabalhar seis semanas num hospital cristão em Belém, na Palestina. Contou-nos o que ele próprio viu e viveu durante esse curto período:

O fim-de-semana em que queria ir com um vizinho palestiniano a Jericó, para dar um mergulho, e não foram porque havia colonos israelitas que se entretinham a atirar pedras e cocktails Molotov aos carros palestinianos que passavam na estrada.

As passagens nos checkpoints, e o modo cruel como os palestinianos são provocados. Viu como fizeram esperar uma ambulância com uma criança gravemente ferida, como a outros doentes foi negada a passagem para o hospital. Viu o homem que tinha de atravessar essa linha para ir a uma acção de formação, e quando pediu aos soldados se o deixavam passar logo para não chegar atrasado ao curso foi posto a esperar, sem qualquer explicação, sete horas.

Viu Jerusalém dividida em bairros segundo a religião, e pessoas que comunicam cada vez menos umas com as outras.

Viu uma Belém que até há pouco tinha mais de 90% de cristãos, e agora anda por 30%, e tendência para baixar. Porque os cristãos tentam fugir a todo o custo. Comentou que Israel está a serrar o ramo onde está sentado: os cristãos palestinianos, sendo os mais abertos à coexistência, são os primeiros a sair. Sobra uma percentagem cada vez maior de palestinianos em atitude de profundo antagonismo.

Falou da nova pirâmide religiosa que está a surgir em Israel e na Palestina: de um e outro lado, cada vez mais fundamentalistas. Porque os outros desistem, e porque os fundamentalistas (de um lado e do outro) têm muitos mais filhos.
(O que cria também uma situação caricata: há cada vez mais judeus ortodoxos em Israel, que estão dispensados do serviço militar por motivos religiosos. Se a tendência continua, quem vai defender esse país?) (Às tantas, ainda vão recrutar soldados ao lado palestiniano... - isto sou eu a brincar com coisas sérias, claro)

Mostrou fotografias do muro em Belém, tornado tela de arte urbana e atracção turística.

Criticou uma nova proposta de lei, para anular casamentos mistos entre judeus e muçulmanos. ("Anular casamentos mistos" é uma expressão que faz soar todas as campainhas de alarme na Alemanha.)

Foto após foto, mapa após mapa, frase após frase: aumentava em nós a sensação de impotência e injustiça.
Os alemães começam a ousar fazer comparações que eram, até agora, inaceitáveis. Ao ver como Israel trata os palestinianos, traçam paralelos com o modo como os nazis tratavam os judeus a partir de 1933: a interdição de entrar em certos edifícios (os palestinianos não podem usar o aeroporto de Telavive, por exemplo) (*), as agressões de populares sem motivo e sem compaixão, a violência do Estado contra os cidadãos, as leis raciais.

Não ignoro que do lado dos palestinianos não há apenas vítimas inocentes.
De facto, apesar da assimetria de forças e do número de vítimas, há de ambos os lados uma lógica simétrica de ataque ao opositor com o objectivo de o desmoralizar e traumatizar. Os bombistas suicidas não são o resultado de um acto espontâneo de desespero, mas de uma estratégia de guerrilha.

Sabendo tudo isso, a sensação de impotência só aumenta. Se me deixassem mandar...
- desta vez, se me deixassem mandar, não saberia o que fazer para acabar com esta tragédia.


(*) Adenda importante, a partir do comentário de uma leitora:
Os palestinianos israelitas podem usar o aeroporto de Telavive. A proibição de usar determinados edifícios não é uma proibição racial semelhante ao que na Alemanha dos anos 30 se fazia contra os judeus ("proibida a entrada a todos os palestinianos"), pelo que aquela comparação é inadequada.

os quadros do Armin Müller-Stahl

Porque tenho a certeza absoluta que nenhum leitor deste blogue tem conseguido dormir devido à pungente dúvida "qual dos quadros é que eles compraram, afinal?!", aqui vai o resultado:

O auto-retrato:

 (foto)


O meu "Fernando Pessoa", pintado sobre uma página do texto para a filmagem de "Die Buddenbrooks" (mas a nossa moldura está muito mais bonita que esta, não se assustem):
(foto)


"Mein Gegenüber", pintado sobre uma página do texto para a filmagem de "Utz":


Agora já só nos falta construir uma casa com paredes em número e tamanho que baste para pendurar isto tudo.


Talvez até fosse uma grande ideia começarmos a poupar para comprar um bunker como este, em Berlim, usado para guardar uma colecção privada de arte contemporânea:





(A vantagem destes bunkers é que foram construídos para durar mil anos, de modo que temos tempo q.b. para poupar o dinheiro suficiente para a aquisição. Se ele custar, digamos, dois milhões de euros, e nós conseguirmos poupar dois mil euros por ano para esse investimento, com jeitinho ainda o conseguimos comprar dentro do seu prazo de garantia.) 

04 junho 2012

Brahms, como quem diz saudades



Para quem não entende alemão:

When the silvery moon beams through the undergrowth,
And its slumbering light scatters over the lawn,
And the nightingale warbles,
I walk sadly through the wood.

Shrouded by foliage, a pair of turtledoves coo their delight to me, but I turn away, seeking darker shadows,
And a lonely tear falls.

When, O smiling image which, like the dawn, shines through my soul, shall I find you on earth? And the lonely tear flows burning down my cheek.

*suspiro*

O meu coro vai acabar daqui a duas semanas. Na próxima segunda-feira é o último ensaio, e uma semana depois damos o último concerto. De momento andamos nos "discos pedidos", a matar saudades do que vamos perder, e hoje pediram uma peça de Brahms, que eu não conhecia.
A harmonização para coro, de Burkhart M. Schürmann, que tem idade para ser meu irmão mais novo, sublinha o carácter romântico da peça, e deixa-me indecisa entre continuar a cantar ou encher-me de tristeza por tudo, pelo coro que vai morrer e pelas peças como esta que não sei quando voltarão a passar por mim - smiling tones which, like the dawn, shine through my soul.

**

Só encontrei um vídeo relativamente bom com coro - bem gostava de ter um melhor, e não o Hastings College Choir acompanhado por um lenhador ao piano. Pois, também isso: as saudades que vou ter do nosso maestro pianista!



**

Uma das cantoras disse-me que vai regressar à Sing-Akademie zu Berlin. Um coro antiquíssimo, que já era bem maduro no tempo em que Felix Mendelssohn Bartholdy com ele reanimou a Paixão segundo São Mateus de Bach, perdida em longo sono desde a morte do compositor. Berlim ataca de novo: anda uma pessoa à procura de um novo coro para dar um gostinho ao gosto pelas harmonias românticas, e mal se distrai tropeça em episódios importantes da cultura musical europeia.

Contudo, quem, como eu, conhece as suas próprias limitações, nem vai ver onde é a sede da Sing-Akademie.

E portanto:

Procura-se coro. Que cante música da Renascença até hoje, de todos os cantos do mundo, e sobretudo do período romântico. Que tenha bom ambiente, gente bem-disposta, um maestro paciente que nos explique com entusiasmo a alma da música. Que a meio de uma peça de Schumann diga: "reparem neste acorde, isto é o Magnificat de Bach, ouçam" - e toca Bach, e fá-lo com um sorriso luminoso.

Vou ter muitas saudades deste coro.

eu-tu-nós



Este vídeo, que encontrei no mural de facebook da Ana Cristina Leonardo, lembra-me uma passagem da biografia de Marcel Reich-Ranicki, que há tempos traduzi aqui:

Lembro-me de duas perguntas que fiz a Menuhin durante essa viagem de comboio [em 1960]. Queria saber quem, em sua opinião, era o maior violinista vivo. A resposta veio imediatamente: David Ojstrach – e acrescentou: “há nele um violinista cigano”, com o que se referia, obviamente, ao temperamento de Ojstrach, à alegria com que tocava e à sua originalidade. Para que eu não o entendesse mal, disse Menuhin a rir, em cada grande violinista há um pequeno cigano.


O III Reich expulsava das orquestras os músicos judeus, porque eles "degeneravam" a música. Pelo mesmo motivo, no gueto de Varsóvia, as orquestras improvisadas estavam proibidas de tocar música de arianos - só lhes permitiam interpretar os compositores judeus, eslavos e "sub-humanos" do género.
Quando o muro caiu, as orquestras da RDA foram em tournée pelo mundo, e tiveram imenso sucesso porque todos queriam ouvir como se tocava a música clássica no bloco que tinha ficado a salvo das modernices ocidentais. A música clássica tocada à moda antiga, portanto.
Há anos falava-se muito das qualidades dos músicos asiáticos: excelentes executantes, mas intérpretes que não entendiam a alma da peça (dizia-se, e eu cito mas não sei se corroboro ou não, porque nestas coisas sou um bocadinho daltónica dos ouvidos). Agora, quase não há orquestra sem asiáticos - e cada vez são mais elogiados. Será que eles entretanto conseguiram tocar a alma ocidental, ou foram os ouvidos ocidentais que se habituaram a novas maneiras de interpretar?
As experiências de diálogos interculturais abundam, e o público gosta. Por estes dias, Berlim está cheia de cartazes que anunciam um concerto de música clássica para crianças, e estão escritos em alemão e turco.



São meras ideias soltas, suscitadas por aquele vídeo. Gosto de viver num mundo onde já não se diz "fujam, que vêm aí os judeus/ciganos/turcos/asiáticos e vão estragar-nos a nossa rica cultura!"
E gosto especialmente de ver que em Berlim se convida a população de origem turca a entrar na Filarmonia, em vez de a arrumar no gueto mental da segregação e da desistência.

magia pura




Uma das cenas mais belas da minha vida aconteceu no delta do Ebro, com flamingos.
Eles estavam na água, um bando enorme deles, e de repente levantaram voo - uma nuvem rosa sobre as nossas cabeças, magia pura.

Um dia arrisco, e volto a esse lugar onde já fui feliz para além do que as palavras conseguem descrever.



(o filme foi roubado à sem-se-ver)

03 junho 2012

dia de festa na Filarmonia de Berlim

Na segunda-feira passada a Filarmonia de Berlim abriu as portas ao público. Eu não pude ir (será que já falei do meu velho problema de não dar vazão?) mas o cjs - um amigo, e comentador deste blogue - foi, fez fotografias e contou. Aqui vai o seu relato - com os meus agradecimentos, e as mãos já roxas de tanto as esfregar de satisfação por este momento de qualidade no 2 dedos de conversa.







Cheguei às 14:30 e estive vinte minutos na fila para entrar, porque a lotação era limitada a 4.000 pessoas e já só entrávamos a conta-gotas, consoante o ritmo das saídas.

Fui logo para o Foyer ouvir o resto de "Berliner Philarmoniker spielen Jazz". Adorei! Grandes clássicos intemporais, tocados por músicos que estavam a ter um gozo enorme naquilo e que, em quase todos os temas, nos brindavam com solos, principalmente de sopro.





Felizmente que se esticaram no horário previsto, pelo que, quando acabaram, deu à justa para ir a correr para o Streicherzimmer, ouvir o "Kontrabassisten-Quartett der Berliner Philarmoniker". Mais um show fabuloso, cujo ponto alto foi um medley (aposto que este termo será uma heresia na música clássica, onde terá um equivalente qualquer mais apropriado) que começava e acabava na Cavalaria Rusticana, passando pelo Hino da Alegria. O entusiasmo era tanto, que às tantas já os músicos davam gritos à cowboy e o público batia palmas a compasso.

À saída, fui ver zonas habitualmente vedadas ao público, entre elas a sala dos maestros!





Depois fui aos jardins, que eram a zona mais concorrida, não tanto pela actuação do "Trio des Konservatoriums für turkische Musik", mas porque estava um belo dia e havia tendas a vender Bratwurst, cerveja, bretzel e gelados.

De volta ao interior e no Foyer tinhamos "Trio Alwan spielt arabischen Jazz".





O programa dizia que a Grosser Saal, entre as 16:00 e as 17:30 estava fechada ao público, mas eu, como bom Português, cerca das cinco horas decidi ir lá espreitar. E em boa hora o fiz, pois só voltei a sair de lá às 20:00!
Não só estava a porta aberta, como o Simon Rattle e a Osquesta estavam a ensaiar. Sentei-me na sétima fila do bloco A, em posição central, mas suficientemente desviado para ainda ver o maestro não apenas de costas.

O ensaio durou até às 17:30 e na meia hora seguinte abriram-se as portas e a marabunta invadiu todos os cantinhos disponíveis, havendo pessoas que tentavam ficar de pé, mas que foram devolvidas à proveniência pelos seguranças.

Às 18:00 regressaram, desceu um ecrã gigante sobre o palco e começou uma estreia absoluta na Philharmonie: a orquestra tocava a Carmen enquanto no foyer, 120 jovens (Sasha Waltz & Guests) dançavam uma interpretação da mesma, havendo mesmo alturas em que a osquestra parava de tocar e até os músicos se viravam para o ecrã para acompanhar a performance dos jovens.







Findo o espectáculo, vieram os discursos que precederam o leilão do piano de cauda de Alfred Brendel: o da introdução ao tema e ao homenageado; o do próprio, que disse que estava ali, mais do que uma parte da vida dele, uma parte dele próprio; e uma longa conversa feita pelo Director da Unicef, a favor de quem o leilão revertia, e que a todos tentou sensibilizar, alertar, convencer, arregimentar e levar a contribuir para ajudar as criancinhas da Somália, do Darfur e do Quénia. Veio então o Director da Christie`s amenizar a coisa, dizendo que todos podíamos participar no leilão e quiçá, levar o piano para casa por mil euros, mas que tomássemos bem conta das criancinhas, pois qualquer movimento braçal seria entendido como uma licitação e eles sabiam onde nós morávamos, estavam a filmar tudo e não abriam as portas sem se passar o cheque. Desanuviado o ambiente, começou o leilão propriamente dito, que não durou nem cinco minutos: a partir dos € 50.000 as licitações passaram a ser só entre o comprador final e alguém que estava do outro lado de uma linha telefónica, mas como o cavalheiro presente cobria imediatamente todas as ofertas telefónicas, rapidamente se chegou aos € 80.000 finais.

 

E o grande final foi com uma sandwich de Edvard Grieg em Antonín Dvorák, mas sem direito a standing ovation, que já era tarde e a malta no dia seguinte trabalhava.

Eu, que não tenho problemas desses, ainda fiquei a deambular mais um bocado pela Philharmonie enquanto esta esvaziava, de maneiras que, quando saí, já não havia ninguém a pedir que devolvesse a chapinha que recebi à entrada. De modos que, sendo sabido que eu não percebo uma única palavra de alemão, optei por fazer uma tradução livre de "die Einlasskarte bitte beim Verlassen das Hauses am Ausgang zurückgeben" por "guarda-me religiosamente durante um ano e vais ver que, como recompensa, não precisarás de fazer fila em 2013", pelo que a enfiei logo no cofre assim que regressei a casa.






E pronto, não é o mesmo que ir ao Vaticano, mas também não se pode esperar mais de uma viagem de dez minutos de bicicleta e por este preço.






ADENDA (a partir de um comentário do cjs, que bem merece vir completar o texto):


Já que se tornou um post, importa realçar que o mais agradável e interessante de tudo, foi ver todos aqueles fantásticos músicos ali disponíveis, descontraídos e informais, em perfeita comunhão com os visitantes. Desde a "farda", ao gozo evidente com que tocavam - acabando sempre as actuações a rirem-se e a abraçarem-se, até à disponibilidade para interagir connosco, tudo contribuiu para criar uma empatia extraordinária.

Eis o exemplo perfeito, daquele que foi o momento mais original e delicioso de todo o dia: numa das pausas da orquestra, um bebé começou a chorar. O primeiro violino virou-se para o público com um sorriso cúmplice e começou a tocar - muito baixinho - a mais famosa e internacional das canções de embalar. E o bebé calou-se...

mais uma vez se prova que a História (melhor dizendo: a história) avança em círculos

(daqui) 



Contaram hoje no noticiário da noite da ZDF que a rainha Isabel II já viu muitas comemorações imponentes na sua vida, mas nunca algo como o que hoje aconteceu no Tamisa, um cortejo de mil barcos a sulcar lentamente as suas águas. Da última vez que tal coisa se viu foi em 1662, quando a D. Catarina de Bragança casou com Carlos II. O casamento não foi muito feliz, e não houve filhos, mas o rei lá se foi arranjando por fora. Dessa boa vida houve muitos descendentes, um dos quais ia hoje no barco da rainha: Camila Parker-Bowles. "E assim se fecha um círculo", rematavam os brincalhões.




Do cortejo retive sobretudo a imagem daquele barco com sinos que dialogavam com os sinos dos locais por onde passavam. Grande ideia!


coda recorrente





NOMÉS PER A TU

Amor, t'estimo, i tant t'estimo
que en l'amor meu ets mesura.
Tu has obert límits al meu vol,
que amb serenor declinava,
i avui em crec prop de la plenitud,
només perquè me la imagines tu.
Amor t'estima tant i tot l'amor meu.

I buscaré només per a tu,
amb la ignorància de sempre,
paraules dites pels amants
des de l'albada dels segles,
i per l'engany del meu amor creuré
reinventar el llenguatge a cada gest.
Engany d'amor i veritat de l'engany.

Amor d'etern recomençar,
que empenys la meva aventura,
que proa et fas del meu vaixell,
quan la mar veus embranzida,
en qui allibero antiga esclavitud,
per qui confesso aquesta servitud.
Amor esclau i llibertat de l'amor.

Há muitos anos que gosto desta canção, e lhe sei as estrofes de cor. Mas estas não me são igualmente importantes - o peso de cada uma varia conforme a fase da minha vida.

(a lapalissade de cada dia nos dai hoje, ámen)

boa noite

Antes de ir dormir resolvi ouvir esta música



e agora não vou dormir, porque a estou a ouvir em repeat.

(Mais me valia ter escolhido um rock daqueles valentes, já tinha desligado há muito.)

02 junho 2012

Roma! (8)



Quase me ia esquecendo de falar do Vaticano, e das multidões que atravessam a basílica de São Pedro fazendo fotografias e filmes a torto e a direito. Agora usam o iPad, é muito engraçado vê-los a fotografar com um tabuleiro. O ambiente dentro da igreja é mais ou menos como o da Estação de São Bento do Porto, só que em São Bento não se olha tanto para os azulejos, nem há tantos fotógrafos - mas a pressa é a mesma.
Por causa da celebração do Pentecostes, parte do recinto estava fechado ao público. Foi pena, porque eu queria mostrar à Linda e ao Robert a cara da sobrinha do Papa Urbano VIII em trabalho de parto no baldaquino de Bernini, feito com o bronze do Panteão. Também lhes queria mostrar a Giulia Farnese, a amante do Papa Alexandre VI, no túmulo do seu irmão, o Papa Paulo III (um protegido de Alexandre VI, mas o melhor é não começar a lavar essa roupa suja aqui, senão nunca mais acabo o post). Era suposto a Giulia Farnese figurar nesse túmulo como a Verdade, nua portanto, mas acabaram por lhe pôr umas roupinhas de bronze em cima da pele de mármore. O manto diáfano da fantasia...

Claro que no séc. XVI não se estava a inventar nada de novo, coitados, se era para inovar no capítulo da imoral, dos maus costumes e do nepotismo haviam de ter nascido bem mais cedo. Já muitos séculos antes, nos tempos da Pax Romana, fizeram um altar para o imperador Augusto (um quase-deus, para que conste que os Papas também não inventaram nada) e nele um imponente friso com os membros da sua família.





Gosto muito do ar do pequeno Caio César, da sua mãozinha que prende o manto do adulto à sua esquerda, da mão protectora pousada sobre a sua cabeça. Só podia ser a mão da Fortuna porque, além de ter chegado a imperador, ainda teve a sorte de morrer antes de ver nascer um sobrinho seu, este gorduchinho aqui em baixo,


- que até tem um ar amoroso, mas era o Calígula.
Razão tinha o padre Américo: não há rapazes maus (eles estragam-se é depois de grandes).

***

A vantagem de não nos deixarem ir ver o que já conhecemos é que sobra mais tempo para explorar o desconhecido. Como quase metade da basílica estava fechada ao público, ficamo-nos pela metade do lado da entrada.  E foi assim que descobri o João XXIII, com máscara de cera a esconder o rosto, o Papa de corpo inteiro ("incorrupto!", dizia um guarda, muito orgulhoso), numa vitrina mesmo à nossa frente. Há algo mórbido nestas coisas, e eu gosto. Fiquei por ali a ver a cara dele, e a cara dos turistas que estavam numa fila movediça, pessoas que nem sequer paravam enquanto faziam as fotografias, quanto mais parar para ver.


Tinha sapatos vermelhos, como os que tanto criticam ao Ratzinger. Mas, pergunto eu: que outra cor dava bem com o resto da indumentária? Afinal de contas o Vaticano está rodeado de Itália, há toda uma tradição de design e bom gosto que é preciso manter. 


Numa coluna na zona da entrada da basílica o Robert descobriu um quadro com três figurões, que nos apontou com ar escarninho. Contou-nos a história de um católico com pretensões ao trono inglês, e das suas investidas para o conquistar. "A trouble maker, not more than a trouble maker, and here is he now!", comentava ele com desprezo.

Preferi ir descansar os olhos na Pietà. Um muro de dois metros de espessura separava-me dela - era mais um grupo enorme. Mas nada de grave, que a vantagem destas hordas de turistas é que rapidamente desandam para a atracção seguinte - e num instante a Linda e eu estávamos em frente à Pietà, a saborear com todo o vagar a expressão daquela mulher, o abandono daquele corpo, enquanto nas nossas costas deslizavam as massas de turistas.
"É tão consolador", dizia ela. "Apetecia vir cá todos os dias receber dela esta tranquilidade reconfortante".
Melhor ainda que estar à frente da Pietà, é estar à frente da Pietà com uma amiga a trocar impressões. Há muitos anos, num comboio na Catalunha, ouvi um brasileiro dizer que viajar sozinho é muito triste, "porque uma pessoa não tem com quem se maravilhar". Como o compreendo bem!

Saímos para o sol, seguimos para a fila dos que queriam subir à cúpula. Ao fim de cinco minutos desistimos - preferíamos ir passear na cidade. Quando nos preparávamos para sair, o indiano à minha frente perguntou para que era aquela fila. Senti-me como na RDA, quando as pessoas viam uma fila e automaticamente se alinhavam, sem saber o que ia ser posto à venda. O indiano não fazia a menor ideia do que havia para ver, e onde e como. Mas eu não me ri muito alto, que bem sei com que telhas é feito o meu telhado.

E depois: Roma!





01 junho 2012

havia os fortes, havia os bonitos, e havia...

Finalmente a entrevista do José Riço Direitinho ao Wladimir Kaminer está disponível online.
Copio-a para aqui, só porque gostei muito de tudo: de assistir à interacção entre o entrevistador e o entrevistado (traduzidos pelo Lutz e por mim), e do resultado final que aqui repasso.
Não vou chover no molhado elogiando o trabalho deste entrevistador, mas apetecia-me.

Para terem algum valor acrescentado - porque tenho a certeza que já todos leram o texto e como sempre eu sou a última a saber das coisas - conto um momento especial desta entrevista.
Quando o Wladimir Kaminer contou a sua para nós já famosa alegoria do paraíso perdido, das pessoas que tentam recriar o paraíso de memória e acabam a construir pequenos infernos todos diferentes uns dos outros, o José Riço Direitinho disparou "qual é a diferença entre o português e o alemão?"
O Wladimir saiu-se com aquela síntese de Ulisses e Penélope (impressionante para quem não tem como conhecer bem o nosso país), e a mim, apanhada em falso de extraordinária surpresa, e com o à-vontade acumulado por vários copitos de tinto bebido a desoras com aquele grupinho, escorregou-me um thumbs up com ambas as mãos. Um autêntico "YES! Granda golo!"
Ele riu-se.


Havia os fortes, havia os bonitos, e havia Wladimir Kaminer





16.05.2012 - José Riço Direitinho
Primeiro criou as Russendisko, festas que quase 20 anos depois se tornaram míticas em Berlim. Depois começou a contar histórias e passou-as para livro. O escritor russo passou por Lisboa para apresentar Viagem a Tralalá
Vindo de Moscovo, onde estudou engenharia de som para teatro e rádio, o russo Wladimir Kaminer (n. 1967) conseguiu que, poucos meses antes da queda do Muro de Berlim, a RDA lhe concedesse asilo humanitário e lhe desse um passaporte. Com a reunificação alemã, manteve a nova nacionalidade. Tornou-se conhecido em Berlim quando, nos anos 90, começou a organizar as Russendisko, festas bastante animadas em que, como DJ, passava música pop russa e ucraniana. Durante anos, manteve numa rádio alemã um programa popular, Wladimirs Welt [0 Mundo de Wladimir]. Entretanto, e desde 2000, publicou 18 livros de histórias - em que o burlesco e o pícaro das sociedades da antiga União Soviética, da Rússia e das comunidades dos emigrantes de Leste são retratados com ironia e muito humor. Com eles, tornou-se um dos autores de língua alemã mais lidos.

Kaminer passou por Lisboa para apresentar o livro Viagem a Tralalá (Tinta-da-China) e, claro, também para uma das suas míticas Russendisko, desta vez na Pensão Amor. Umas horas antes, falou com o Ípsilon.



Qual foi a importância das histórias na sua vida? Havia a tradição familiar de contar histórias?
A arte de contar histórias foi para mim uma estratégia de sobrevivência desde a escola, desde o jardim infantil. Havia crianças mais fortes, outras mais bonitas, e eu, que contava histórias. Nessa altura, cheguei a inventar a existência de um tio que eu dizia ser um apresentador de filmes ocidentais em sessões muito restritas para os membros do partido. E eu contava, esses filmes, inventados, aos meus colegas.

Quando decidiu ser escritor?
Com toda a honestidade: nunca quis ser escritor. Nem hoje [risos]. Mas tudo começou com um convite, em 1998, por parte de um grupo alemão, para eu fazer uma conferência num café sobre os cosmonautas russos, que eram milhares, apesar de terem sido poucos os que foram para o espaço. Eles tinham cidades só para eles e para as suas famílias, podiam fumar cigarros ocidentais, e tinham direito aos melhores enchidos [risos]. Os meus pais tinham uma casa de férias perto de uma dessas cidades, e em criança eu e outros trepámos a vedação e fomos ver como eles viviam. Foi essa história que eu contei na conferência, e as pessoas gostaram, acharam graça. Então o líder do grupo, e dono do café, que me tinha contratado, pediu-me para eu fazer outras conferências. Perguntei: e o assunto? E ele respondeu-me: não interessa. Foi assim que comecei a escrever.

Nos seus três livros publicados em Portugal [Militärmusik, Russendisko, e Viagem a Tralalá], escreve sempre sobre a realidade, sobre a sua vida ou a daqueles que se relacionam consigo. O que é que há de ficção naquilo que escreve?
Agora já me arrisco a exagerar, a modificar um pouco as histórias. Mas no início nem me atrevia a mudar os nomes. Tenho muitas vezes a sensação de que a realidade tem traços tão surreais e fantasmagóricos que não é preciso inventar nada. Não preciso da ficção. Vivemos todos numa grande história, que começou antes de nós e que se vai prolongar para além de nós. O meu papel como escritor - como contador - da minha pequena história é encontrar o meu lugar nessa história grande. Recorrendo a uma metáfora: quando no Éden as pessoas quiseram conhecer o mundo, foram expulsas para terem esse conhecimento que tanto ambicionavam; ao mesmo tempo tentaram fazer no mundo jardinzinhos à semelhança do Éden, mas o que conseguiram criar, em cada canto, foi sempre um pequeno inferno, com alguns traços paradisíacos, é certo. Mas não se podem confundir os infernos, não se pode confundir o inferno português com o alemão.

Quais são as diferenças?
O inferno alemão é um bocadinho como nas festas da Russendisko, escuro, apertado, cheio de gente suada. O inferno português é mais poético, é como a história de Ulisses e de Penélope: uma parte dos portugueses saiu do país e a outra parte ficou à espera. Portugal descobriu o mundo mas perdeu-se nele.

A sociedade russa tem mais histórias burlescas do que as outras?
Eu não queria generalizar. A Rússia é um país que se enfeitiçou a si próprio. Como a Bela Adormecida, que dorme, dorme, e não quer acordar. A Rússia tem uma história complicada. Enquanto outros países, como Portugal, se abriram ao mundo, a Rússia ficou a cozer no seu próprio caldo, e isso deu um resultado estranho.

Há já muitos anos que escreve em alemão. Alguns psicanalistas dizem que a nossa verdadeira língua é aquela em que sonhamos. Já sonha em alemão?
Se sonho com os impostos, sonho em alemão. Mas se sonho com o socialismo, só pode ser em russo [risos].

O humor é uma forma de disfarçar a melancolia?
É uma maneira de ultrapassar o trágico da vida.

A ideia de querer ser presidente da Câmara de Berlim, em 2006, foi séria ou uma brincadeira?
Não foi uma piada, foi uma provocação política consciente da impossibilidade. Queria chamar a atenção para algumas coisas, sobretudo o facto de que Berlim não pode ser apenas uma cidade para turistas.

Como é que vê a Berlim actual comparada com a dos anos 90, altura em lá chegou?
Há algo naquela cidade que faz com que ela se consiga reinventar quase permanentemente. Já mudou muitas vezes desde a queda do Muro. O próprio centro está em mudança constante, de um bairro para outro. Só uma comunidade humana flexível e aberta é capaz de sobreviver bem a isto.

Vive no bairro de Prenzlauer Berg quase desde que chegou a Berlim. Na altura, esse era o bairro dos artistas underground, da música, dos bares. Hoje é o mais trendy e um dos mais caros da cidade. Aqueles que na altura tocavam em bares ilegais hoje chamam a polícia se houver barulho depois das 10h da noite. Os artistas aburguesaram-se?
Os artistas que continuaram artistas, os verdadeiros, os que quiseram manter-se jovens, que recusaram ser adultos, mudaram-se para outros bairros. Quem ficou foram os outros, os que se tornaram advogados, professores, engenheiros. E isso, para além da intolerância e da arrogância, trouxe um aumento exponencial de restaurantes indianos no bairro [risos]... e de restaurantes mexicanos, cujos empregados indianos são os mesmos dos [restaurantes] goeses, mas usam agora bonitos sombreros.

festival de poesia de Berlim

Ando há três dias para escrever um post a dizer que não dou vazão. Que tenho tanto para fazer que nem sei por onde começar. Que me dava jeito (estabelecer prioridades é comigo!) arranjar uma gastroenterite de três dias, para os passar na casa de banho a aviar o monte de revistas e jornais que lá tem e já vai em mais de meio metro (ai, melhor seria uma gastrorenterite de cinco dias - acabei de descobrir dois Die Zeit na sala).

(Não acredito que consegui abrir um post chamado "festival de poesia" falando de gastroenterite! O melhor é mudar de linha, muitas linhas) (começar de novo / e contar comigo)




Andava a pensar que não dou vazão, e eis que sou atropelada pelo festival de poesia de Berlim 2012, a décima terceira edição. Começa hoje, vai até 9 de Junho.
Esta noite há um "fogo-de-artifício da poesia" - poetas de vários países lêem os seus poemas na língua original.
Weltklang is a concert of voices, tongues and verses. The stars of international poetry come to Weltklang – Night of Poetry to provide a definition of where poetry is now. The poets read in their own languages without simultaneous translation. An anthology is being specially published for this event, providing translations of the poems into German. Weltklang – Nacht der Poesie brings together various poetic viewpoints. The evening shows the broad spectrum of international poetry and its contemporary power.  

Sábado é dia de conversas entre os poetas e os seus tradutores, e de renshi.eu.

Será que alguém me arranja uma clonagem de mim própria, em 24 horas e a preço de amigo? É que amanhã quero estar em quatro sítios ao mesmo tempo: em casa, a trabalhar / a gozar o fim-de-semana com a família / nas sessões com os tradutores / no renshi.eu.

Pois, o renshi.eu: pediram a um poeta de cada país da UE (27 + 1, a Croácia) a participação num poema em cadeia. Antes de apresentarem o resultado final, os poetas falam sobre a situação no seu país e a ligação da poesia à política. Portugal está representado por Filipa Leal, que participará na sessão da Embaixada do Luxemburgo.

Young poets on the crisis in Europe, on poetry and politics
Europa is in the middle of an existential crisis. The dream of a unified continent is becoming a financial nightmare, with the visions of the founding fathers lying shattered amid neoliberal crisis management. Europe of its citizens is becoming the Europe of the bean counters. Only money matters, values are no longer important. The future of the idea of Europe is at stake.
For the poesiefestival berlin young poets from all 27 EU member states and the accession state Croatia are writing a renshi. In this chain poem they refer and relate to each other in literary terms, sounding out in their own artistic manner the highs and lows of Europe's many voices.  renshi.eu casts a critical eye, unclouded by market and political concerns, on what makes Europe tick now. On 2 June 2012, the poets will be presenting their work in a community poetic-political reading performance.
renshi.eu started in Greece, the epicentre of the current economic crisis but also the birthplace of European culture and democracy. Five groups of five or six  poets worked in the various countires in parallel on five different renshi strands, with each strand originating from a poem by Greek poet Yannis Stiggas.
Each part of the renshi was taken up by the next poet in line, varied, commented on. To finish, the chain poem then returned to its source, andYannis Stiggas wrote a final stanza for the five strands reflecting the traces his lines had left in the writing and thinking of the other poets.
The focus throughout was constantly on what the poets took in their countries to be Europe's status quo: international politics, day-to-day problems, but also the big designs, bedded on the figures and myths of this old and ever new idea. Using the previous poet as a starting point provided many diverse transformations revealing the characteristic features and power of the image-worlds, the density of allusion and the sounds of contemporary European verse. A polylog in poems has been created, a conversation on equal terms about past, present and future, about European values, crisis and utopia - a parliament of poets has convened. The European Parliament has undertaken patronage.

This is the place gentlemen
 
Many fathoms beneath nothingness
our hair
enmeshed in its roots
my son my son Absalom
you will not have had a pendulum’s sway
as it is
we import time from Greenwich
because our time
has holes that are black and unfilled
you call out to love
and an echo comes back to you bloodied
it has myriad hands that were sliced off
not the hands of sculptures
   they later all
turned to stone
Yannis Stiggas
(Translation: Peter Constantine)


No domingo há um colóquio sobre tradução de poesia. Entre outras coisas.

Na segunda-feira a festa continua, na terça complica-se e de que maneira: Nikola Madzirov (o João Luís Barreto Guimarães falou dele aqui) às seis e meia, oficina de tradução de poesia brasileira às oito - mas é o dia 5 de Junho, já tenho a agenda marcada a vermelho.
Em Berlim há de tudo, há demasiada oferta de tudo, mas falta-lhe o principal: um gabinete de clonagem. Isso é que era!
Por sorte há mais Brasil na quarta-feira. É só Brasil, na quarta-feira. 
Na quinta-feira há Fatima Miranda. Entre outras coisas.



Na sexta-feira nem vou ver o que há. O que não tem remédio, remediado está, e na sexta-feira há o baile de finalistas da Christina, está marcado a vermelho há meses.
Ai! Fui ver: falar de poesia na escola / Síria / filme com Wisława Szymborska
- Meu reino por uma clonagenzinha! (nasci demasiado cedo, é o que é)

No sábado há uma feira da poesia no parque e um Poesie@Pecha Kucha (já lá estou, nem que tenha de deitar a minha agenda ao lixo!).
O festival termina com a entrega de prémios aos miúdos vencedores do concurso "a poesia une".

More than five hundred children and young people from Germany and Poland have followed the call of the 'Poetry Unites - Send us your Favourite Poem' contest and sent in texts on their favourite poems and the role they have played in their lives and their dreams. The mixed German and Polish jury each selected three winners, whose stories have been made into films by film maker Ewa Zadrzyńska. The winners will be able to meet at the awards ceremony, and the short films will be given their première.

Gosto muito da ideia encerrar o festival trazendo ao palco os mais novos e as suas histórias pessoais de amor à poesia.

(Se souberem da tal empresa de clonagem, agradeço, e já nem peço preço de amigo, nem nada)