22 maio 2012
o expresso do paraíso (2)
Ao pequeno-almoço, falei como uma gralha. Contei as histórias da rainha Santa Isabel e da sua tia-avó da Turíngia, outras da cidade. Eles ouviam, muito calados. Nada que eu não conheça: em casa, acordam todos como se ainda estivessem a dormir, só eu me levanto com a bateria já no máximo. Eles pareciam preocupados, e pediram desculpa por me deixarem a comer sozinha. Percebi uma hora mais tarde, quando finalmente chegaram ao salão de entrada da pousada: o Wladimir Kaminer tinha estado a telefonar para Berlim, a pedir à sogra os CDs de que precisava para a russendisko, para os levar ao vizinho, para este mandar as músicas pela internet.
Antes de sair da pousada, levei-os à torre. Subimos os degraus de mármore, parámos na sala grande que fica a meio da escalada. Cantei-lhes a canção que andava a preparar há semanas no duche (mas com outra cadência - só eu sei como é que isto se canta...):
Queria que se tornasse um momento inesquecível - a beleza da melodia, a voz enchendo aquela sala de formidável acústica - e tornou-se inesquecível, mas pelos motivos errados: eu estava tão ofegante de todos os degraus que acabara de subir, que a voz me saía nem firme nem cheia.
O Wladimir Kaminer disse: agora tu, Olga. E ela cantou, lindamente. Depois cantaram os dois.
Fiz fotografias, quase com vergonha de lhes devassar aquele momento de beleza.
Pensei que o Wladimir iria desafinar à grande, como conta no Viagem a Tralalá. Em vez disso, cantou um lindo dueto, muito certinho. Talvez seja mesmo como diz no livro: um desafinador profissional - nos momentos de lazer deixa-se disso, e canta naturalmente afinado.
Pedi autorização para publicar estas fotos. Provavelmente nem era preciso pedir. Durante a entrevista da tv, ele deu uma resposta surpreendente: deve haver milhões de fotos dele espalhadas por aí, mas não se importa, porque elas se diluem na internet. Nós a pensar que elas ficam para sempre gravadas como em pedra, e ele - fotografado centenas de vezes todos os dias - sente que se soltam dele e se perdem.
Demos um passeio pela cidade. No mercado do Rossio comprámos nêsperas e nozes. Na pastelaria em frente comprámos doces de ovos variados, que parti aos bocadinhos para provarmos todos. Adoro ter parceiros de viagem que ainda não conhecem o meu país, para lhes poder impingir estas minhas sessões de gastronomia da saudade. Como ainda estávamos no princípio da viagem e eu era muito nova, comprei também gadanhas e empadas de galinha, "para o caso de termos fome a meio da tarde".
Passeámos pelo Rossio, eles partiam as nozes umas contra as outras para as comer a cada passo. Apreciámos as janelas todas diferentes do café Águias d'Ouro, e a orgulhosa fonte do Gadanha. "Não é o mármore a maior surpresa desta cidade", revelei, "é esta água".
Também fomos à pedreira de mármore, mas estava fechada. Certa de conseguir um milagre, levei-os pelo meio do cemitério até ao muro. O meu anjo, desta vez, estava preguiçoso: em vez de uma abertura no muro, deixou apenas umas palettes empilhadas, às quais subimos (e das quais, milagre!, não caímos). Infelizmente, nem assim deu para ver o fundo daquele monumental vazio.
No caminho de regresso, não queriam acreditar que nos jazigos os caixões estavam expostos em prateleiras. Bem lhes expliquei que por dentro são de metal e estão soldados, mas puseram outra vez cara de surrealismo.
A filha deles telefonou, queria saber onde estavam. "Não faço ideia", disse a Olga, "estamos numa cidade toda feita de mármore!" A miúda largou um "Ooooh!" como se nos imaginasse na Bagdad da Sherazade. "Também quero ver isso!"
Mostrei-lhes o pátio da quinta do Carmo, a capela por onde o rei se esgueirava em busca de um amor menos místico. Seguimos para uma herdade nas imediações. Contei-lhes alguns episódios da reforma agrária, a ocupação das herdades. A ordenha mecânica oferecida pela RDA aos trabalhadores daquela herdade, que nunca foi usada, excepto quando as terras foram devolvidas aos anteriores proprietários, e a cena anedótica que se seguiu:
- Então porque é que não usaram a máquina?
- Porque dá mau sabor ao leite.
- Isso é o que se vai ver. Vamos lá passar as vacas todas pela ordenha.
Meu dito, meu feito.
- Então, prove lá - desafiaram os trabalhadores.
- Hiii, que porcaria!
- A gente bem avisou!
Pois avisou, avisou. Só ninguém se lembrou de informar que algumas das vacas tinham acabado de parir, e se tinha misturado leite com colostro. A máquina da RDA foi usada essa única vez, e nunca mais. Mais uma das tantas e tão boas intenções socialistas que se perderam por problemas de comunicação.
A herdade produz agora nozes, amêndoas e avelãs. Deram-nos uns saquinhos. As nozes, de casca fácil de partir e deliciosas, nem chegaram a ver Lisboa, excepto uma que se perdeu entre os bancos do carro.
Queríamos ir ao Marvão, mas o tempo não chegava para tanto, e as nuvens escuríssimas que nos perseguiam não convidavam a grandes passeios. Ficámo-nos pelo restaurante Tomba Lobos, na companhia de um alemão que vive há muitos anos em Portalegre.
Algumas semanas antes tinha combinado com o chefe José Júlio Vintém um menu degustação surpresa. Foi um almoço memorável, numa mesa redonda junto à janela enorme sobre o parque. Os pratos eram postos na mesa, sem nome. Perguntámos ao empregado o que era um deles, particularmente bom. Ele sorriu com ar de mistério: "daqui a bocadinho o chefe vem cá explicar tudo". O chefe apareceu, e revelou que aquilo que nos tinha sabido tão bem eram túbaros. Por uns momentos lembrei-me do Armin Meiwes (o maluco que convidou outro maluco para de comum acordo lhe comer os, ahem, túbaros - um caso tão louco, que a justiça alemã não previa - o que tornou o julgamento muito difícil) mas foi só por uns momentos. Os pratos continuavam a suceder-se, todos deliciosos ex aequo e muito bem apresentados. Hei-de lá voltar no próximo Verão, quero que a minha família experimente aqueles sabores. E, a avaliar pela maneira como três dias depois a Olga e o Wladimir ainda falavam desse restaurante, parece-me que eles levarão lá os filhos quando lhes forem mostrar a vizinha Bagdad.
No fim, fizemos fotos com o chefe (o casal Kaminer comentava que o ar do José Júlio Vintém inspira confiança: vê-se que está satisfeito com o que faz)
e com o empregado, que parece inventado de propósito para trabalhar naquele lugar: simplesmente perfeito de delicadeza, simpatia e bom humor
Já na rua, o nosso conviva perguntou se no caminho para sair da cidade podíamos parar por uns momentos na casa dele, para a sua mulher, que ajudara a preparar a ida a Portalegre mas ficara retida em casa com a filha doente, conhecer o casal. Pareceu-nos bem, e fomos. Agora, à distância, parece-me que andei a fazer entrega de escritores ao domicílio. O problema (será problema?) é que vejo nas pessoas as pessoas que são, e me esqueço muitas vezes do status que trazem consigo. As pessoas que são gostaram de parar para conhecer aquela portuguesa simpática e a miúda amorosa que os observava com olhos enormes de curiosidade.
Parámos uns momentos em Estremoz para comprar garrafões de azeite. Convenci-os a levar também um, Vila Nova. Que comprei para mim, juntamente com outro de Estremoz, o Lavrador. O Wladmir protestava: "levar três garrafões de azeite para a Alemanha? Isso é contrabando!" - parece-me que tivemos aqui um pequeno choque cultural.
Antes, ao entrar no supermercado, tínhamos tido um grande choque cultural. Eu pedira a umas miúdas ciganitas se nos trocavam uma moeda de dois euros por duas de um. "Eu tenho, mas não troco", disse uma delas, e largou um chorrilho de provocações. Mais uma cena surreal: eu tratava-as com delicadeza, elas respondiam com agressões. "Os sapatos dessa mulher são de velha", dizia uma, "e o cabelo dela, parece um homem!", acrescentava outra. "Eh, pá, vocês hoje estão mesmo simpáticas...", respondia eu. O encontro acabou com elas de olhar desafiador a espetar o pai-de-todos na nossa direcção, e nós a virar costas.
"O que é que elas têm contra mim?", perguntava a Olga.
"Aquilo é mesmo o dedo médio espetado, o que estamos a ver?", surpreendia-se o Wladimir.
E eu a tentar explicar-lhes que isto são muitos séculos de segregação e humilhações, eu a pensar se devia ter gritado, insultado e ameaçado, para elas sentirem que o mundo continuava com todas as gavetas no seu lugar certo.
Seguimos para Montemor-o-Novo, para apresentar o livro na Fonte de Letras. A sala estava cheia de gente interessante, realmente cheia, com pessoas em pé e tudo, e vou omitir agora comentários sobre o deserto a sul de Lisboa e outros temas afins. As fotografias que se seguem são do António P., a segunda está tremida por causa, provavelmente, de um terramoto que se sentiu há anos em Arraiolos. No Alentejo, como é sabido, o tempo de reacção é um pouco mais lento.
A apresentação correu bem (no blogue da Fonte de Letras há um bom resumo: a festa de babel), e o debate foi muito divertido, porque o Wladimir Kaminer, em vez de entrar em discussões do género "análise comparativa do realismo de Tralalá com o surrealismo do Daniil Harms " (isto sou eu a inventar) dá uma gargalhada, diz "outro dia estive ao telefone com a mulher do Daniil Harms" e depois conta a história milaborante da vida daquela mulher, uma permanente fuga em frente casando com quem a ajudava em cada etapa da jornada - uma espécie de síndroma de Estocolmo com sintomas Tralalá.
A Olga apareceu muito sorridente, com um copo de Hefeweizen quase cheio de vinho branco alentejano. Não compreendia aquele mundo, mas estava-lhe completamente rendida: tinha ido ao café ao lado pedir um copo de vinho branco, porque na Fonte de Letras só havia tinto, e ofereceram-lhe aquele copázio.
A seguir, juntou-se no restaurante um grupo amável, e brindámos variadíssimas vezes a tudo o que a conversa sugeria. Comer com o Wladimir Kaminer tem esse detalhe divertido: cada novo assunto da conversa merece-lhe um brinde, "aos queijos portugueses", "ao entendimento entre os povos", "às mães", ao que calhar - como se quisesse sublinhar o tema do momento. Ah, cronista.
Nessa noite, ficámos no monte Chora Cascas. Inicialmente estava previsto irmos dormir ao Pestana Palace, em Lisboa. Mas houve uma mudança de planos, a apresentação do livro em Montemor foi mudada de quinta para sexta, e era um disparate ir dormir a Lisboa para regressar a Évora na manhã seguinte. A dona do Chora Cascas, mesmo ao lado de Montemor-o-Novo, ofereceu-nos guarida. "Ofereceu guarida", é como quem diz: alojou-nos sumptuosamente. Aquele monte é indescritível.
O meu quarto era tão perfeito que quase me tentei a dormir no chão, para não quebrar o encanto do espaço. Antes de me deitar, fiquei a olhar o linho italiano dos lençóis - parecia-me um desperdício dormir nele. Devia antes ficar acordada a noite inteira, a saborear o luxo. Mas meti-me na cama, adormeci imediatamente, e foi de rajada até à manhã seguinte. Mal aproveitado linho...
Foi o segundo dia.
verificação de palavras nos comentários
Enquanto dormia entraram 17 comentários spam, a embrulhar viagra em paleio trolaró francês. Não há paciência. Lá terei de pôr outra vez o porteiro automático, pelo que peço desculpa aos comentadores.
21 maio 2012
o expresso do paraíso (1)
Fui com um amigo, o Paulo Almeida, buscar o casal Kaminer ao aeroporto. O escritor não perdeu tempo: ao fim de um minuto já estava em grande conversa com o Paulo, dizendo o que pensava do "Memorial do Convento" do Saramago (mas não será por mim que o saberão).
No caminho para alugar o carro, falamos sobre a situação em Portugal e o sofrimento das vítimas da austeridade e da espiral recessiva, do ressentimento em relação à Alemanha. Nada que ele não soubesse já.
Seguimos para a Tinta-da-China, onde o Lutz e a televisão nos esperavam.
Logo à primeira pergunta da entrevista percebi a sorte que é trabalhar com o Lutz. Além de ser um tradutor-intérprete muito competente, não complica. Nem sempre é fácil duas pessoas trabalharem assim, corrigindo-se mutuamente em público. Com o Lutz, isso não é problema - o objectivo é oferecer a melhor tradução possível, apenas isso.
Mais tarde, ao ouvir o áudio para fazer as legendas, reparei que me ri muitas vezes quando o Kaminer estava a chegar ao fim das frases. Imagino o trabalhão dos técnicos da rtp a tirar as minhas gargalhadas da banda sonora! Bem sei que é indesculpável, mas peço o impossível: desculpem-me! Prometo que nunca mais volto a fazer este erro. E em minha defesa tenho a dizer que os outros também se riam quando ouviam a tradução.
No fim da entrevista, veio o choque: o Kaminer deu-se conta que estávamos a contar com uma russendisko em Lisboa. Ele pensava que tínhamos combinado que não, eu pensava que tinha combinado com ele que em Montemor não se faria, mas em Lisboa sim. A Olga salvou-nos. Disse-lhe não sei quê em russo, a cara dele abriu-se, e eu senti-me como os criados naquela cena das bodas de Canaã, quando Maria lhes disse que não se preocupassem com a falta do vinho, que para tudo há uma solução.
Antes de entrar no carro, ele perguntou se podia guiar o carro, pondo olhos de miúdo em véspera de Natal.
Gulp. Só tirou a carta de condução há um ano, e já quer conduzir nas ruas de Lisboa?! Comecei a ver a notícia nos jornais "grande perda para a literatura mundial: tradutora morre em acidente de viação". Tentei um compromisso: eu tiro o carro de Lisboa, ele leva-o na auto-estrada.
Ao longo das ruas e ruelas da cidade, voltámos a um dos temas da entrevista da televisão. "Estas ruas", dizia ele, "estas casas em ruínas no meio de prédios de luxo. Como é que o jornalista se lembra de me vir falar do surrealismo das histórias que conto? As pessoas só conseguem ver o surrealismo na vida dos outros, mas não no seu próprio quotidiano, no seu país."
A estrada estava vazia. Ao volante, o Kaminer parecia um cowboy gozando o prazer de estar sozinho na imensidão da pradaria. E recomeçava: "Esta auto-estrada deserta - que é isto, senão puro surrealismo?"
Íamos a caminho do Alentejo, para jantar em casa de amigas queridas. Amigas queridíssimas, melhor dizendo: em cima do aparador estava a minha tarte preferida - quase me dava uma coisa boa no coração, ir de Berlim ao Alentejo e encontrar aquela tarte a rir-se para mim em cima de um aparador. Já propus casamento à mãe, as filhas pensam que é o golpe do baú, mas não é nada disso, é puro deleite sensual: o que eu já tenho sonhado com as noites loucas que passaremos a fazer massa areada, ai aquela massa areada da tarte de limão! Isso, e o amor à arte. Amor a um certo quadro do Manuel Amado que ela lá tem, e àquela luz excessiva que torna as sombras sólidas e os objectos imateriais.
Antes do jantar demos uma volta pela quinta. As flores em profusão, os cães felizes aos saltos em liberdade, o aroma fresco dos limões e das tangerinas que os ensinei a apanhar (torcer-lhes o pé para não furar a casca) (quem me ouve, até deve pensar que sou uma especialista).
O Kaminer perguntou se já tinha chegado ao paraíso.
Já, respondi-lhe. Começa aqui.
E não minto.
Vou omitir a descrição da tábua de queijos portugueses, da sopa aveludada, do cozido, das sobremesas. Não, que ainda se lembram também de ir pedir a cozinheira em casamento, e lá se me vai o arranjinho da massa areada.
A Olga Kaminer adorou um dos quadros na parede. A nossa anfitriã segredou-me que tentaria arranjar uma reprodução para ela, para lhe dar no dia seguinte na Fonte de Letras em Montemor-o-Novo. O que fez, e foi bonito ver a Olga muda e comovida, em lágrimas de puro esperanto.
Depois do jantar seguimos para a Pousada de Estremoz. Uma chuva torrencial, chegámos tardíssimo. A porta já estava fechada, o que me deixou um pouco preocupada, mas abriu-se quando tirávamos as malas do carro, deixando ver a cabeça do porteiro: tinha passado o serão à escuta, à nossa espera. Há lá melhor maneira de mostrar aos viajantes que são bem-vindos?
Nos quartos havia doces regionais e vinho. Atestados de boa comida e bons vinhos até à ponta dos cabelos, como vínhamos, não lhes tocámos. Ainda lavei as minhas botas urbanas, todas enlameadas do laranjal, e tratei de ir dormir, extenuada.
Foi o primeiro dia.
Earthart e Markham
Por causa da Amelie Earthart que hoje há 75 anos iniciou o seu voo à volta do mundo ao longo do equador (e desapareceu misteriosamente) lembrei-me da Beryl Markham, outra pioneira da aviação.
Escreveu o West with the Night, apontamentos sobre o meio colonial que era o seu, os seus contactos com a população e a natureza quenianas, as aventuras da aviação e as tricas da sua sociedade.
Será que existe em português? Emprestaram-mo na Califórnia, e desde então tenho pena de não o ver na minha estante, à mão de semear para mais uns momentos de deleite. Quero voltar àquela noite em que ela, ainda miúda, se resolveu meter com um porco selvagem. Uma descrição deliciosa.
Só para verem do que ela era capaz, aqui vão alguns bocadinhos de fina literatura:
“There are as many Africas as there are books about Africa -- and as many books about it as you could read in a leisurely lifetime. Whoever writes a new one can afford a certain complacency in the knowledge that his is a new picture agreeing with no one else's, but likely to be haugthily disagreed with by all those who believed in some other Africa. ... Being thus all things to all authors, it follows, I suppose, that Africa must be all things to all readers.
Africa is mystic; it is wild; it is a sweltering inferno; it is a photographer's paradise, a hunter's Valhalla, an escapist's Utopia. It is what you will, and it withstands all interpretations. It is the last vestige of a dead world or the cradle of a shiny new one. To a lot of people, as to myself, it is just 'home.”
**
“All this, and discontent too! Otherwise, why am I sitting here dreaming of England? Why am I gazing at this campfire like a lost should seeking a hope when all that I love is at my wingtips? Because I am curious. Because I am incorrigibly, now, a wanderer.”
**
“There are all kinds of silences and each of them means a different thing. There is the silence that comes with morning in a forest, and this is different from the silence of a sleeping city. There is silence after a rainstorm, and before a rainstorm, and these are not the same. There is the silence of emptiness, the silence of fear, the silence of doubt. There is a certain silence that can emanate from a lifeless object as from a chair lately used, or from a piano with old dust upon its keys, or from anything that has answered to the need of a man, for pleasure or for work. This kind of silence can speak. Its voice may be melancholy, but it is not always so; for the chair may have been left by a laughing child or the last notes of the piano may have been raucous and gay. Whatever the mood or the circumstance, the essence of its quality may linger in the silence that follows. It is a soundless echo.”
começo a acreditar que o desemprego pode ser uma fantástica oportunidade...
A Gui Castro Felga explica, no post "o quase baile da vassoura" (de onde tirei a foto).
Vinte e cinco por cento de desempregados entre os mais jovens é capaz de ser uma fantástica oportunidade de mudar alguma coisa no país. É só eles lembrarem-se de fazer um baile da vassoura todas as semanas, é só repetirem-se as imagens de gente jovem e pacífica a querer recuperar para uso comunitário edifícios abandonados e propositadamente danificados...
Água mole em pedra dura.
autofagia
É muito triste ver o modo como a própria esquerda critica o Manifesto para uma Esquerda Livre.
Porque será que perdem tempo a criticar detalhes (as palavras usadas, ou a hora a que foi feita a apresentação, ah, esta esquerda caviar) e se comprazem com textos irónicos sobre a salvação da esquerda?
Porquê a manobra de meter tal iniciativa numa gaveta definitivamente etiquetada?
Porquê o trabalho de cobrir a iniciativa de ridículo?
Porquê a recusa liminar do debate alargado à esquerda?
Porque é que a esquerda tem esta tendência de se devorar a si própria?
Podem dizer que sou a maior ingénua do país. Mas continuo a acreditar que Portugal só tem a ganhar com um grupo de pessoas inteligentes, informadas e sérias, que se juntem a pensar e a debater novos rumos, com base em princípios claros e à margem de interesses partidários.
Penso até que o maior desafio deste grupo será existir e agir sem se tornar refém dos partidos de esquerda.
Desejo-lhes boa sorte. Desejo-nos boa sorte. E bom trabalho.
(foto)
20 maio 2012
19 maio 2012
pedir desculpa
Parece que o Relvas já pediu desculpa ao jornal Público por ter chantageado uma jornalista, ameaçando que ia revelar factos da vida privada dela.
Agora só falta pedir-me desculpa a mim, e a mais todos os portugueses, explicar o que lhe passou pela cabeça para se lembrar de tamanho disparate, e tentar recuperar a nossa confiança política.
Tudo o que fique abaixo de uma longa entrevista na tv, em directo, é inaceitável.
Mas o realmente certo, a única saída possível, era ele ir para a rua imediatamente e pelo seu próprio pé.
Vou espreitar os jornais online, provavelmente já aconteceu.
Agora só falta pedir-me desculpa a mim, e a mais todos os portugueses, explicar o que lhe passou pela cabeça para se lembrar de tamanho disparate, e tentar recuperar a nossa confiança política.
Tudo o que fique abaixo de uma longa entrevista na tv, em directo, é inaceitável.
Mas o realmente certo, a única saída possível, era ele ir para a rua imediatamente e pelo seu próprio pé.
Vou espreitar os jornais online, provavelmente já aconteceu.
"coiso"
Está tudo louco, ou quê?
O país está a desabar (bom, isto é especialidade nossa: muito depois de ter batido no fundo, continuamos a desabar aparatosamente) e nós entretemo-nos a rir por causa de um "coiso" que escapou a um ministro?
Quem nunca teve um lapso desses em público, atire a primeira pedra.
Quanto aos outros: era mais construtivo concentrarmo-nos no debate sério e exigente sobre o que está a acontecer no país. De tanto transformarmos os nossos políticos (todos os nossos políticos) em anedotas ambulantes, perdemos as referências democráticas. Alguém se dará ao trabalho de pedir contas a um fantoche?
Talvez tenha começado antes, não sei dizer, mas parece-me que a época em que o Santana Lopes foi primeiro-ministro inaugurou uma nova era no debate político, introduzindo o escárnio automático. Pode ser divertido, e até se pode pensar que o ridículo mata, mas esta nossa tendência de olhar para os políticos como se fossem palhaços acrescenta-lhes impunidade a cada nova gargalhada. O ridículo está a matar, antes de mais, a democracia.
18 maio 2012
Dietrich Fischer-Dieskau
Talvez não exagere se disser que não tem havido semana em que não me cruze com o Dietrich Fischer-Dieskau. Ainda ontem, por exemplo, o escolhi para mostrar uma canção de Schumann que o meu coro anda a ensaiar (será que se ria por dentro, como nós, na parte de dar o coração mil vezes?). E no sábado passado, na Berliner Dom, ao folhear o programa do War Requiem de Britten, que ia ouvir, li que quando esta peça foi apresentada pela primeira vez, para celebrar a reconstrução da catedral de Coventry, um ainda muito jovem Dietrich Fischer-Dieskau foi convidado como solista, juntamente com um inglês e uma russa - Britten quis juntar na música os países que se guerrearam, em sinal de paz e esperança.
Podia escolher uma canção do seu repertório - diziam há pouco no noticiário que eram mais de 3.000. Mas prefiro oferecer-lhe uma passagem do "seu" War Requiem:
Let us sleep now...
- In paradisum deducant te Angeli
Descansa agora. E continuará a cruzar-se connosco, semana após semana.
Adenda: The Voice That Made You Fall in Love With Lieder
Podia escolher uma canção do seu repertório - diziam há pouco no noticiário que eram mais de 3.000. Mas prefiro oferecer-lhe uma passagem do "seu" War Requiem:
Let us sleep now...
- In paradisum deducant te Angeli
Descansa agora. E continuará a cruzar-se connosco, semana após semana.
Adenda: The Voice That Made You Fall in Love With Lieder
Wladimir Kaminer e José Riço Direitinho no Público de hoje
Vejo aqui que a entrevista do José Riço Direitinho ao Kaminer saiu no Público de hoje.
Agora é só esperar que fique online, depois falamos.
senhora Helena
Um amigo comentava recentemente no facebook, a propósito da tomada de posse do governo francês, composto apenas por Madame Fulana e Monsieur Sicrano, que só em Portugal se insiste no uso dos títulos académicos. Como o compreendo! Há muito que saboreio a facilidade do Herr e da Frau na Alemanha, e noto o desaparecimento do "Fräulein". Tão mais simples!
Mas como fazer em Portugal?
O nosso complicadíssimo sistema de castas e as respectivas marcas linguísticas impedem uma solução simples e rápida de aplicar. Omitir os títulos académicos podia até ser fácil, mas o que devemos usar em vez deles? Há que libertar as palavras da sua carga: a Dona Maria, que já foi rainha, não tem necessariamente de ser a empregada de limpeza; o Senhor João não tem de ser necessariamente o sapateiro (também pode ser o canalizador).
Há vários anos, o José Vítor Malheiros (salvo erro) escreveu uma crónica onde comentava que num serviço telefónico de assistência ao cliente tinha sido tratado como "Senhor José". Imagino que alguém nas empresas tenha decidido simplificar, dando instruções para que se tratem os clientes por senhor e senhora, seguido do nome próprio. Admiro esse esforço de modernização dos costumes, e penso que o tema devia ser debatido, para tentar encontrar uma solução elegante, permitindo simultaneamente que a sociedade portuguesa se questione e prepare para usar novas formas de tratamento.
Senhor e Senhora, Senhor e Dona? Senhor Manuel ou Senhor Gomes? Dona Maria ou Senhora Maria ou Senhora Gomes?
Em Portugal há uma dificuldade suplementar: geralmente as mulheres são tratadas pelo primeiro nome, os homens pelo apelido. Quando vivia em Portugal, eu era a Dra. Helena. Nunca ninguém se teria lembrado de me chamar Dra. Araújo - quando muito, Dra. Helena Araújo para me distinguir de outra Dra. Helena. Mas mais provavelmente seria "a Dra. Helena, aquela alta".
Ora, passar de Dr. Manuel Gomes para Senhor Manuel Gomes é relativamente fácil, mas de Dra. Helena para Senhora Helena, isso aí é descer muitos degraus de casta...
Resumindo e concluindo, chego à parte de que mais gosto: se me deixassem mandar (hehehe) sugeria que se passasse a tratar as pessoas por Senhor e Senhora, seguido do nome próprio e do apelido. Senhora Helena Araújo, pronto.
Talvez soe estranho, mas é melhor que as milhentas cenas gagas do nosso quotidiano, quando tentamos descobrir se a pessoa que temos de apresentar é doutora, engenheira, arquitecta ou o quê. E seria uma mudança que reduziria a necessidade de fazer cursos universitários ao domingo, no fax do professor, e acho muito bem, que o domingo devia ser dia de descanso.
Mas como fazer em Portugal?
O nosso complicadíssimo sistema de castas e as respectivas marcas linguísticas impedem uma solução simples e rápida de aplicar. Omitir os títulos académicos podia até ser fácil, mas o que devemos usar em vez deles? Há que libertar as palavras da sua carga: a Dona Maria, que já foi rainha, não tem necessariamente de ser a empregada de limpeza; o Senhor João não tem de ser necessariamente o sapateiro (também pode ser o canalizador).
Há vários anos, o José Vítor Malheiros (salvo erro) escreveu uma crónica onde comentava que num serviço telefónico de assistência ao cliente tinha sido tratado como "Senhor José". Imagino que alguém nas empresas tenha decidido simplificar, dando instruções para que se tratem os clientes por senhor e senhora, seguido do nome próprio. Admiro esse esforço de modernização dos costumes, e penso que o tema devia ser debatido, para tentar encontrar uma solução elegante, permitindo simultaneamente que a sociedade portuguesa se questione e prepare para usar novas formas de tratamento.
Senhor e Senhora, Senhor e Dona? Senhor Manuel ou Senhor Gomes? Dona Maria ou Senhora Maria ou Senhora Gomes?
Em Portugal há uma dificuldade suplementar: geralmente as mulheres são tratadas pelo primeiro nome, os homens pelo apelido. Quando vivia em Portugal, eu era a Dra. Helena. Nunca ninguém se teria lembrado de me chamar Dra. Araújo - quando muito, Dra. Helena Araújo para me distinguir de outra Dra. Helena. Mas mais provavelmente seria "a Dra. Helena, aquela alta".
Ora, passar de Dr. Manuel Gomes para Senhor Manuel Gomes é relativamente fácil, mas de Dra. Helena para Senhora Helena, isso aí é descer muitos degraus de casta...
Resumindo e concluindo, chego à parte de que mais gosto: se me deixassem mandar (hehehe) sugeria que se passasse a tratar as pessoas por Senhor e Senhora, seguido do nome próprio e do apelido. Senhora Helena Araújo, pronto.
Talvez soe estranho, mas é melhor que as milhentas cenas gagas do nosso quotidiano, quando tentamos descobrir se a pessoa que temos de apresentar é doutora, engenheira, arquitecta ou o quê. E seria uma mudança que reduziria a necessidade de fazer cursos universitários ao domingo, no fax do professor, e acho muito bem, que o domingo devia ser dia de descanso.
17 maio 2012
cenas do meu quotidiano
Uma amiga minha não estava a conseguir ver filmes no youtube. Disse-lhe que os meus filhos podiam eventualmente dar uma ajudinha.
- Pago em rissóis!, anunciou ela, que pelos vistos já me conhece bem demais.
Os miúdos ficaram muito interessados (filho de peixe...). Eu avisei logo que queria um rissol de comissão. O Matthias repetia a frase - "ein Rissol für die Vermittlung" - e ria-se, ria-se.
Foi, resolveu o problema, recebeu o pagamento em rissóis congelados.
Combinou comigo um pagamento para lhos fritar: três, e mais o da comissão.
É o que dá ele especializar-se nos serviços tecnológicos, e eu nos trabalhos braçais. Vai por aqui uma disparidade de salários quase como entre os chefes do PSI-20 e os trabalhadores.
PS. Os rissóis são (eram...) uma delícia! Espero que a minha amiga volte a ter problemas com o computador muito em breve. (hihihi)
- Pago em rissóis!, anunciou ela, que pelos vistos já me conhece bem demais.
Os miúdos ficaram muito interessados (filho de peixe...). Eu avisei logo que queria um rissol de comissão. O Matthias repetia a frase - "ein Rissol für die Vermittlung" - e ria-se, ria-se.
Foi, resolveu o problema, recebeu o pagamento em rissóis congelados.
Combinou comigo um pagamento para lhos fritar: três, e mais o da comissão.
É o que dá ele especializar-se nos serviços tecnológicos, e eu nos trabalhos braçais. Vai por aqui uma disparidade de salários quase como entre os chefes do PSI-20 e os trabalhadores.
PS. Os rissóis são (eram...) uma delícia! Espero que a minha amiga volte a ter problemas com o computador muito em breve. (hihihi)
se eu fosse um passarinho...
Deu a Primavera no meu coro.
Cantamos "se eu fosse um passarinho" (os antigos é que a sabiam toda: se eu fosse um passarinho, voava para ti / etc. etc. / em sonhos estou contigo, e falo-te / etc. etc. / de noite, a todas as horas / o meu coração acorda / a pensar em ti / a pensar que mil vezes / me darás o teu coração - ah, malandrotes!) (mas, pensando bem, que seria de esperar de uma colectânea de poemas chamada "a trompa mágica do rapaz"?)
Cantamos "canção rústica" (depois do baile o moço leva a mocinha a casa por um caminho alumiado pelos pirilampos, beija-lhe o dirndl, segreda-lhe não sei quê ao ouvido, e ambos pensam "aaai, abençoado mês de Maio" - e provavelmente vai cada um para sua casa pensar nas mil maneiras de se entregarem o coração um ao outro, mas sobre esta parte a canção é omissa.)
Cantamos, e enquanto cantamos rimos, que estas letras não são para menos. A seguir, o maestro manda-nos para o Laudate Pueri, para ganhar juízo.
O meu coro vai acabar dentro de algumas semanas. Morte anunciada há muito, por falta de membros - também, quem se teria lembrado de fazer um coro de diplomatas, gente que nunca pára muito tempo no mesmo sítio? Na segunda-feira passada, enquanto cantava "sit nomen domini benedictum" e me alegrava por ter conseguido chegar com elegância a um certo mi que lá tem, fui invadida por uma suave tristeza, saudades antecipadas de tudo: das melodias, dos risos, daquela sala de um edifício ministerial da RDA com as mesas reservadas para nomes estranhos e bandeirinhas de países que mal sabia que existem.
Vou sentir falta de tudo isto.
Cantamos "se eu fosse um passarinho" (os antigos é que a sabiam toda: se eu fosse um passarinho, voava para ti / etc. etc. / em sonhos estou contigo, e falo-te / etc. etc. / de noite, a todas as horas / o meu coração acorda / a pensar em ti / a pensar que mil vezes / me darás o teu coração - ah, malandrotes!) (mas, pensando bem, que seria de esperar de uma colectânea de poemas chamada "a trompa mágica do rapaz"?)
Cantamos "canção rústica" (depois do baile o moço leva a mocinha a casa por um caminho alumiado pelos pirilampos, beija-lhe o dirndl, segreda-lhe não sei quê ao ouvido, e ambos pensam "aaai, abençoado mês de Maio" - e provavelmente vai cada um para sua casa pensar nas mil maneiras de se entregarem o coração um ao outro, mas sobre esta parte a canção é omissa.)
Cantamos, e enquanto cantamos rimos, que estas letras não são para menos. A seguir, o maestro manda-nos para o Laudate Pueri, para ganhar juízo.
O meu coro vai acabar dentro de algumas semanas. Morte anunciada há muito, por falta de membros - também, quem se teria lembrado de fazer um coro de diplomatas, gente que nunca pára muito tempo no mesmo sítio? Na segunda-feira passada, enquanto cantava "sit nomen domini benedictum" e me alegrava por ter conseguido chegar com elegância a um certo mi que lá tem, fui invadida por uma suave tristeza, saudades antecipadas de tudo: das melodias, dos risos, daquela sala de um edifício ministerial da RDA com as mesas reservadas para nomes estranhos e bandeirinhas de países que mal sabia que existem.
Vou sentir falta de tudo isto.
16 maio 2012
Riccardo Chailly e a Gewandhausorchester na Konzerthaus
O crime não compensa. Ou a infidelidade, melhor dizendo. Ontem fui infiel à Filarmonia, e arrependi-me amargamente. Para a primeira peça, o concerto para piano em sol maior, de Ravel, sentámo-nos em lugares altos, em frente ao palco, do lado direito. Com binóculos e tudo, claro. Mas a Hélène Grimaud tinha a vasta cabeleira solta sobre a cara, o que nos roubou metade do prazer da sua música.
Fosse na Filarmonia, e ao menos podíamos ter-lhe visto os dedos, a partir dos blocos por cima do piano.
Enfim...
Deixassem-me mandar, e era isto que mandava: as pianistas devem ter o cabelo curto como a Maria João Pires, ou apanhado em rabo-de-cavalo como a Grimaud em alguns dos seus melhores concertos, ou ao menos um ganchinho, ao menos um ganchinho.
Deixassem-me mandar, e punha uma câmara na cara da pianista, para transmitir em écrãs gigantes na sala toda.
(Ah, mas quando ela inclinava a cabeça para trás, e procurava anjos por trás dos candeeiros, e o seu rosto se libertava, iluminado, aaaah...) (E o Ravel, aaaah, e a clarinetista, aaaah, e o flautista, aaaah.)
A seguir ao intervalo, mudámos de lugar. Não sei que me passou pela cabeça para sugerir tal coisa, porque a plateia na Konzerthaus fica muito abaixo do palco, e é plana. Sim, ouvimos bem a soprano, o que é importante na quarta sinfonia de Mahler, mas... lá está, na Filarmonia tinha sido outra coisa. Para mim, feroz adepta dos efeitos audiovisuais, não tem comparação.
(Aaaaah, aquele terceiro andamento, aaaah, bem me podia ser o 11º mandamento, "ouvirás para sempre esta música, e darás graças".) (E o quarto, aaaah...) (Aquela maluquice de texto, o São Pedro feito mirone, os leitões assados a correrem pela rua, as santas a dançar, todas excepto as que cozinhavam e as que riam.) (Quem me dera a mim ir parar com a alma ao paraíso do Mahler.)
O princípio do terceiro andamento (continua aqui e aqui):
O quarto:
E aqui está de novo o quarto andamento, num concerto em que ligaram o turbo:
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depois do jogo é antes do jogo
O meu "projecto Kaminer" está quase a chegar ao fim. Por estes dias sairão os posts sobre as viagens venturosas. Se os encontrar, ponho aqui links para as entrevistas ao Sol, à Time Out e ao Público. Não as percam - sobretudo a do Público: o José Riço Direitinho é daqueles jornalistas que se nota à vista desarmada que já tem muitos anos de virar estes frangos, e com que mestria os vira!
E então adieu, fim do jogo.
Depois do jogo é antes do jogo: começa a ser tempo de me atirar de cabeça ao novo projecto que tenho já há meses na linha de montagem. Tem a ver com um filme, e mais uma vez me dou conta da sorte que é morar em Berlim e ter uma biblioteca fantástica como a Staatsbibliothek zu Berlin. O tema não é propriamente dos mais falados nos nossos dias, mas numa primeira abordagem encontrei mais de 150 títulos (vá, metade deles era em russo e turco, não conta).
Ontem peguei no meu primeiro monte, dez livros, e sentei-me em frente à janela enorme virada para a praça do Kulturforum. Lá fora o sol misturava-se ao tenro verde das árvores (também esta), fazendo fascinantes efeitos de luz contra o azul chumbo das nuvens (bem sei que se diz "plúmbeo azul", mas hoje não é domingo). Esta cidade não tem paisagens de beleza perfeita como, por exemplo, quando se atravessa o tabuleiro superior da ponte D. Luís, da Gaia para o Porto, mas uma pessoa não tem de ser picuinhas, e bem se pode dar por feliz com estas folhas transparentes de sol, e com a coincidência de estar a trabalhar para um filme na mesma sala onde Wim Wenders fez algumas cenas de As Asas do Desejo.
ah, harpista!
Harpa.
"Harpa, por Park Stickney" era o que se lia no programa do Lunchkonzert de ontem, e mais nada. Por falta de tempo para me informar, preparei-me para uma hora de música bucólica, como a água que corre, etc., e até disse a um amigo, em resposta à mensagem dele informando que não podia ir, que não tinha mal nenhum porque aquilo não era música para gente máscula. Nem sequer me apressei para chegar a horas ao concerto - do que me viria a arrepender, e muito.
Ao entrar na Filarmonia, a Pantera Cor-de-Rosa veio ao meu encontro.
- Isto é harpa?!, pensei. Mas que som incrível!
Improvisações sobre Debussy. Debussy e bossa nova?!
Queen. Caravan.
Por cima de tudo, o seu humor. A cada apresentação da peça seguinte, o público ria e aplaudia. Mesmo se estivesse a ser tratado como uma criança grande ("Se algum dia ouvirem a peça para orquestra e a reconhecerem, não pensem "ai o malandro do Debussy que roubou isto ao Park Stickney!" porque foi mais ao contrário. E atenção: é suposto durar cerca de 10 minutos, don't panic.")
No fim, foi rodeado por inúmeros fãs. Miúdos que lhe falavam em francês, e pediam para ele assinar os seus cadernos da escola. Uma mulher que lhe pegou na mão, lhe tocou os dedos para sentir os calos. Amigos ("o quê, ainda não foste para o Brasil?"), vizinhos de Nova Iorque ("podíamos aproveitar para combinar um jantarzinho lá em casa").
Comprei um CD dele para uma amiga, que adora harpa. Levei-lho, para o assinar, "to Paula".
Disse-me que adorava nomes com vários aa: Paula, Lara...
Disse-lhe que me chamo Helena. Riu-se. Ficámos assim.
o que a televisão não conta
O Wladimir Kaminer apareceu no Câmara Clara de ontem.
O problema é o de sempre: nunca ninguém me pergunta nada.
Por exemplo, aquela história do sonho dele, em criança. Perguntaram-lhe: como é que se sente melhor, em frente a uma folha de papel branca, ou a pôr CDs na russendisko? Ele respondeu "nem uma coisa nem outra", pensou um bocadinho mais e desatou a rir. Olhava para a Olga, e ria mais ainda. E depois: "o meu sonho, já desde a infância, era..."
É pena não ter sido possível dar esse contexto de riso e olhares de cumplicidade à frase "das limpezas, ocupa-se a minha mulher".
Claro que agora me vão responder: ó Heleninha, não percebes nada de televisão, ó Heleninha, mas reparaste ao menos que bonito que ficou aquele filme que brinca com os módulos gráficos da capa? Pois não percebo, pois reparei. Mas, contudomente...
(E agora, a revelação do dia: das limpezas, ocupa-se um "homem a dias" russo, que pela descrição deve ser fantástico. Fantástico em muitos aspectos, e calateboca.) (E mais uma revelação do dia: ganhar dinheiro sem trabalhar é uma maneira de dizer. Nos dias a seguir à viagem, enquanto eu tentava recuperar do cansaço, o Kaminer participou numa conferência sobre o Matthias Rust - sim, era ele que estava no posto de radar quando aquele rapaz saiu num aviãozinho da Alemanha Ocidental para ir aterrar na Praça Vermelha -, foi a Estrasburgo, a Praga e a Bona. Este foi o seu programa de terça a sábado.) (Aliás: ele só arranjou tempo para ir a Portugal durante a Feira do Livro de Lisboa por uma enorme coincidência: o filho fazia anos no princípio de Maio, e não conseguia decidir se queria festejar na quarta ou no sábado. O pai deixou a semana mais ou menos livre, para poder estar presente na data que o filho escolhesse. O miúdo marcou para quarta, o sábado estava livre. Depois foi só desmarcar uma ou outra coisita...) (Não sei se a tinta-da-china acredita em Deus, mas como se vê Deus deve ter um grande amor à tinta-da-china.)
O problema é o de sempre: nunca ninguém me pergunta nada.
Por exemplo, aquela história do sonho dele, em criança. Perguntaram-lhe: como é que se sente melhor, em frente a uma folha de papel branca, ou a pôr CDs na russendisko? Ele respondeu "nem uma coisa nem outra", pensou um bocadinho mais e desatou a rir. Olhava para a Olga, e ria mais ainda. E depois: "o meu sonho, já desde a infância, era..."
É pena não ter sido possível dar esse contexto de riso e olhares de cumplicidade à frase "das limpezas, ocupa-se a minha mulher".
Claro que agora me vão responder: ó Heleninha, não percebes nada de televisão, ó Heleninha, mas reparaste ao menos que bonito que ficou aquele filme que brinca com os módulos gráficos da capa? Pois não percebo, pois reparei. Mas, contudomente...
(E agora, a revelação do dia: das limpezas, ocupa-se um "homem a dias" russo, que pela descrição deve ser fantástico. Fantástico em muitos aspectos, e calateboca.) (E mais uma revelação do dia: ganhar dinheiro sem trabalhar é uma maneira de dizer. Nos dias a seguir à viagem, enquanto eu tentava recuperar do cansaço, o Kaminer participou numa conferência sobre o Matthias Rust - sim, era ele que estava no posto de radar quando aquele rapaz saiu num aviãozinho da Alemanha Ocidental para ir aterrar na Praça Vermelha -, foi a Estrasburgo, a Praga e a Bona. Este foi o seu programa de terça a sábado.) (Aliás: ele só arranjou tempo para ir a Portugal durante a Feira do Livro de Lisboa por uma enorme coincidência: o filho fazia anos no princípio de Maio, e não conseguia decidir se queria festejar na quarta ou no sábado. O pai deixou a semana mais ou menos livre, para poder estar presente na data que o filho escolhesse. O miúdo marcou para quarta, o sábado estava livre. Depois foi só desmarcar uma ou outra coisita...) (Não sei se a tinta-da-china acredita em Deus, mas como se vê Deus deve ter um grande amor à tinta-da-china.)
15 maio 2012
top two
A tinta-da-china (um dia destes hei-de decidir como escrever isto: Tinta-da-China, Tinta-da-china, tinta-da-china - mas hoje é demasiado cedo para tomar decisões para todo o meu futuro) tem no facebook um top ten dos títulos mais vendidos na Feira do Livro. Viagem a Tralalá vem em segundo lugar, a seguir a O Retorno.
Mesmo antes de saber isso, quis apostar com a equipa da editora que a primeira edição esgotava em menos de um mês. Infelizmente eles não são parvos, e não apostaram. Triste vida, ainda não foi desta que enriqueci sem esforço.
**
É surpreendente a quantidade e diversidade de pessoas que me falam do Wladimir Kaminer. Há tempos, num intervalo de um ensaio geral de Música Antiga na Konzerthaus, uma senhora já de certa idade contou-me que ofereceu o livro Russendisko a quase todos os seus amigos. E vai a Portugal com ele? que grande sorte!, dizia ela com um sorriso sonhador. Também os mais novos, os amigos dos meus filhos, se interessam e querem saber como foi. Por estes dias, parece que todos os caminhos vão dar ao Kaminer.
Aqui em Berlim, as pessoas que não me conhecem bem vão-me pondo alguma etiqueta que me diferencie das outras que também conhecem mal. "Kaminer" é uma delas. "Blogue" é outra (ouço-as dizer "ela tem um blogue" como se eu fosse poderoooosa). "Taizé" é a terceira. Porque a seguir ao Natal tivemos oito participantes do encontro de Taizé a dormir na nossa casa, e veio cá a televisão e o Tageszeitung, ficamos a ser conhecidos por - parece-me - quase todos os berlinenses. Nos sítios mais díspares apresentam-me como "sabes? aquela que teve oito portugueses em casa, durante o encontro de Taizé, até te mandei o artigo de jornal". Sim, parece que toda a gente leu o artigo, e gostou. Cinco meses depois, a chefe da pequena cantina onde o Joachim almoça ainda abre um sorriso enorme quando o vê, chama-lhe "pai do albergue" e avia-lhe o prato melhor que aos outros. O artigo, curiosamente, começava a falar do Tralalá: Helena Araújo devia estar sentada em frente ao computador. O prazo para entrega da tradução que tem em mãos está a chegar ao fim. Mas, em vez disso, ao meio-dia desta quarta-feira está na cozinha em frente a uma panela enorme com água, para fazer spaghetti. Na sala de jantar há oito convidados esfomeados, que chegaram às seis da manhã num autocarro vindo de Portugal. (aqui)
Kaminer, blogue, Taizé. Se as pessoas soubessem como sou muito menos que essas etiquetas em que me arrumam, e muito mais...
14 maio 2012
manifesto para uma esquerda livre
Alguma coisa está a mexer em Portugal.
Acredito que é com iniciativas destas que se pode começar a mudar a sociedade: onde dois ou três se reunirem para pensar e debater, já se deu um pequeno passo em frente.
Copiei o texto para aqui, o resto podem ver no site.
(e muito gostava de saber o que aconteceu à minha assinatura, que não aparece lá) (ADENDA:) (ah, afinal já está - provavelmente não actualizam a lista de minuto a minuto) (ainda bem que não passei meia hora a assinar uma e outra vez, depois iam achar que Berlim está cheia de clones meus) (ia ser bonito, ia, dez ou vinte do meu quilate em Berlim - os novos anos loucos desta cidade)
Acredito que é com iniciativas destas que se pode começar a mudar a sociedade: onde dois ou três se reunirem para pensar e debater, já se deu um pequeno passo em frente.
Copiei o texto para aqui, o resto podem ver no site.
(e muito gostava de saber o que aconteceu à minha assinatura, que não aparece lá) (ADENDA:) (ah, afinal já está - provavelmente não actualizam a lista de minuto a minuto) (ainda bem que não passei meia hora a assinar uma e outra vez, depois iam achar que Berlim está cheia de clones meus) (ia ser bonito, ia, dez ou vinte do meu quilate em Berlim - os novos anos loucos desta cidade)
Esta é uma iniciativa política de pessoas livres, unidas pelos ideais da esquerda e pela prática democrática. Aberta a todos os cidadãos, com ou sem partido. Acreditamos que apenas a expressão de uma forte vontade cívica, por parte de cada um de nós, poderá dar a resposta adequada aos problemas do nosso tempo.
Manifesto para uma esquerda livre
Portugal afunda-se, a Europa divide-se e a Esquerda assiste, atónita.
As raízes desta crise estão no desprezo do que é público, no desperdício de recursos, no desfazer do contrato social, na desregulação dos mercados, na desorientação dos governos, na desunião europeia e na degradação da democracia.
Em Portugal e na Europa, a direita domina os governos, as instituições e boa parte do debate público. A direita concerta-se com facilidade, tem uma agenda ideológica e um programa para aplicar. A direita proclama que o estado social morreu e que os direitos, a que chamam adquiridos, são para abater.
Em Portugal e na Europa, a esquerda está dividida entre a moleza e a inconsequência. Esta esquerda, às vezes tão inflexível entre si, acaba por deixar aberto o caminho à ofensiva reacionária em que agora vivemos, e à qual resistimos como podemos. Resistir, contudo, não basta.
É necessário reconstruir uma República Portuguesa digna da palavra República e construir uma União Europeia digna da palavra União.
É preciso propor aos portugueses, como aos outros europeus, um horizonte mais humano de desenvolvimento, um novo caminho para a economia e um novo pacto de justiça social.
É possível fazê-lo. Uma esquerda corajosa deve apresentar alternativas concretas e decisivas para romper com a austeridade e sair da crise, debatidas de forma aberta e em plataformas inovadoras.
A democracia pode vencer a crise. Mas a democracia precisa de nós.
Apelamos a todos aqueles e aquelas que se cansaram de esperar – que não esperem mais.
É a nós todos que cabe construir:
UMA ESQUERDA MAIS LIVRE, com práticas democráticas efetivas, sem dogmas nem cedências sistemáticas à direita, liberta das suas rivalidades, do sectarismo e do feudalismo político que a paralisa. Uma esquerda de cidadãos dispostos a trabalhar em conjunto para que o país recupere a esperança de viver numa sociedade próspera e solidária.
UM PORTUGAL MAIS IGUAL, socialmente mais justo, que respeite o direito ao trabalho condigno e combata as injustiças e desigualdades que o tornam insustentável. Um país decidido a superar a crise com uma estratégia de desenvolvimento económico e social, com uma economia que respeite as pessoas e o ambiente, numa democracia mais representativa e mais participada, com um Estado liberto dos interesses particulares que o parasitam.
UMA EUROPA MAIS FRATERNA, à altura dos ideais que a fundaram, transformada pelos seus cidadãos numa verdadeira democracia. Uma Europa apoiada na solidariedade e na coesão dos países que a formam. Uma Europa que ambicione um alto nível de desenvolvimento económico, social e ambiental. Uma União que faça do pleno emprego um objetivo central da sua política económica, que dê um presente digno aos seus cidadãos e um futuro promissor às suas gerações jovens.
(Link para assinar o manifesto: aqui)
Kaminer no programa Câmara Clara
Acabei de receber a informação de que a entrevista vai para o ar amanhã, terça-feira.
(Espero que vá mesmo, senão ainda vão pensar que eu ando feita com a televisão pública para lhes arranjar picos de audiência)
(Espero que vá mesmo, senão ainda vão pensar que eu ando feita com a televisão pública para lhes arranjar picos de audiência)
carpe diem
Andava há dias a pensar se devia comprar bilhetes para o concerto de amanhã: Riccardo Chailly, Hélène Grimaud, Ravel e Mahler, tudo perfeito excepto o preço.
Depois o Bernardo Sassetti morreu, eu dei-me conta de nunca o ter visto num palco, tive um ataque de carpe diem, comprei os bilhetes para a Hélène Grimaud, a minha conta bancária contorceu-se com uma cãibra, talvez deva repensar tudo isto.
No entretanto, preparo-me para o concerto:
Depois o Bernardo Sassetti morreu, eu dei-me conta de nunca o ter visto num palco, tive um ataque de carpe diem, comprei os bilhetes para a Hélène Grimaud, a minha conta bancária contorceu-se com uma cãibra, talvez deva repensar tudo isto.
No entretanto, preparo-me para o concerto:
13 maio 2012
uma espécie de consolo
(do blogue sem-se-ver)
Contou-me um amigo, a propósito de ter caído acidentalmente de uma grande altura, que naqueles poucos segundos viu muitas cenas da sua vida. Uma revelação que me traz uma espécie de consolo: no meio da tristeza, imagino um corpo a cair desamparado - atravessado e beijado pelos momentos mais felizes da sua vida. Amparado, afinal.
Wladimir Kaminer no programa Câmara Clara
Quando estive a fazer as legendas para este programa disseram-me que a entrevista iria para o ar no dia 13. Confesso que não perguntei, para confirmar - mas pode ser que seja hoje o dia. Se não for, a troca também não é nada má: ouvir o Anselmo Borges debater se o monoteísmo conduz ao fundamentalismo.
(Eu diria que não, que também há muito fundamentalismo entre os que acreditam em Deus mais Maria mais os anjos e os santos. Mas como nunca ninguém me pergunta nada...)
A fotografia foi descaradamente roubada da página de facebook da tinta-da-china. E se olharem com atenção, vão ver o autêntico gato escondido com a perna de fora.
para a Sara
O Joachim e eu, a Christina e eu, o Matthias e eu, os pais do teu pai e eu, os pais da tua mãe e eu, os irmãos dos teus pais e eu, a Mena a Matilde e eu, os amigos dos vossos pais e eu, os meus amigos (quando lhes contar) e eu, o Faial e eu, a Matilde e eu, o mundo inteiro e eu, o teu anjo da guarda e eu
te damos as boas-vindas
anda conhecer a vida
eu digo que ela é gostosa
e que tu a fazes ainda mais especial, Sara.
(Gostei desse teu sentido de humor, Sara malandrinha, esse deixar-nos todos a pensar que nascerias a treze de Maio - mas não: um timing fantástico, uma excelente gestão do suspense. És grande, miúda: ainda agora nasceste, e já nos fazes sorrir com as tuas proezas.)
11 maio 2012
Bernardo Sassetti
Nunca esta música me pareceu tão triste - tão desamparadamente triste, tão irrecuperavelmente triste - como hoje.
passeando por aí
Passeando por aí, encontrei um filme recomendado pela Jonasnuts, um caso de animação muito bem misturada com o poema:
Noutra curva do caminho, este texto do Tolan, que copio integralmente porque quero voltar a ele uma e outra vez:
No meu local de trabalho, em 20 e tal colegas, talvez só 2 ou 3 mais próximos soubessem da minha situação familiar, para preservar a normalidade. Lembro-me que um dia tive mesmo de calar uma dessas pessoas que me perguntava pelo meu pai todos os dias e tive de lhe dizer não tem cura, é certinho que vai morrer e ela ficou meio em estado de choque por eu estar a fazer o start up ao windows enquanto lhe dizia aquilo mas depois pelo menos deixou-me sossegado a mim, ao meu pai e ao nosso glioblastoma de estimação. A morte foi varrida das casas para os hospitais e temos uma relação algo neurótica com ela. Se alguém sobrevive a uma doença é porque a venceu. Venceu a adversidade. Não consigo pensar assim, uma vez que implica que os outros, os que morreram, não venceram. A vitória é relativa, cada um terá a sua. A minha será não ser maricas nestas ocasiões porque era precisamente esse o meu instinto. Uma vez, em Santa Maria, fiquei petrificado a ver o meu pai ter um ataque de epilepsia, nem me consegui mexer e depois dos enfermeiros se precipitarem sobre ele, saí da sala e vim fumar um cigarro na rua, a tremer. A minha mãe não era mariquinhas, fazia tudo, assistia a tudo, tratava de tudo. Na neurocirurgia lembro-me de ver um miúdo magrinho e franzino, com cicatrizes da operação no crânio e uns olhos enormes. Andava por ali a arrastar os chinelos, curioso, a espreitar para os quartos, como um pequeno fantasma de pijama extralargo. Os pais ofereciam-lhe peluches e forçavam sorrisos debaixo daquelas luzes néon frias. Ele tinha o mesmo tipo de tumor do meu pai. Apesar de imagens assim serem provavelmente comuns em sítios assim, não são comuns para quem neles entra pelas primeiras vezes. E o certo é que saía de lá com a sensação de ver o mundo todo do avesso, como uma criança de seis anos que está a ser traumatizada com filmes do Ingmar Bergman e do Romero.
O que é a vitória? Condicionam-nos para as vitórias erradas toda a vida. Não ser feliz e são é apenas um dos fracassos. Os modelos são de saúde e força. A publicidade vende uma felicidade de plástico, impossível de atingir, a tecnologia faz progressos diários mas a maior parte das vezes fúteis, é ela que cria a sua própria necessidade: precisamos de mais memória, mais ecrã, mais comunicação e por aí fora. Parece que resolvemos tudo ou estamos em vias de resolver. E depois, no que respeita a cancro, apesar dos tímidos avanço da ciência, mergulhamos numa espécie de obscurantismo primitivo, num grande mistério que decorre com regularidade em locais como o IPO ou a neurocirurgia de Santa Maria. Depois do funeral, os dias seguem-se, indiferentes, fica um buraco, um vazio. Se tivermos de pensar em coisas positivas disto, há algumas. A minha mãe ficou muito mais forte. Também se descobriram amigos novos e uma solidariedade até ali invisível. De facto não estamos sozinhos, é isso que sinto ao ler uma crónica do Miguel Esteves Cardoso sobre a sua querida Maria João ou como me sentia na sala de espera da radioterapia do IPO que nunca estava vazia. Também se relativiza mais a noção de "ter azar" ou outro tipo de desgostos como aqueles próprios dos desamores. O funeral é bonito e catártico, aparecem pessoas de que gostamos sem termos de as convidar como sucede nos casamentos e nos aniversários, conhecemos outras pessoas que gostavam do nosso pai e que estão, misteriosamente, ali, vindas de um passado que nos é desconhecido. De resto não se aprende muito. Pode-se pensar numa revelação do que é importante na vida e de todas essas tretas, de sentimentos que muitas vezes se encontram diluídos porque as ambiguidades próprias das relações humanas, especialmente entre família, desaparecem perante o fatalismo da separação em vida. Assim, a sensação de estar sentado ao lado do meu pai a ver as folhas de um pomar a agitarem-se com o vento e cães a correr, passa de visita de rotina de domingo, para o grau de momento sagrado. Mas não é uma lição necessária, é até bastante dispensável. A consciência do momento sagrado advém da consciência da sua inevitável perda. Se para essa consciência é necessário pormo-nos a pensar que todas as pessoas que amamos podem morrer a qualquer momento e que caminhamos sobre o gelo fino da saúde, vamos ser, no mínimo, uma companhia um pouco deprimente. Só somos eternos quando esquecemos que somos mortais. Gostava muito de poder dizer que uma coisa dessas faz uma pessoa ficar mais sábia mas fiquei sem vontade de fazer perguntas, eu que fazia tantas e pensava tanto. Desde 2008 que não meto os pés num médico porque acredito que quando estamos fodidos eles não nos conseguem ajudar e só nos vão dizer para deixarmos de beber e de fumar. É irracional, eu sei e estou a tratar disso. Abrir a caixa de correio tornou-se um suplício porque detesto essa ideia de existir um mundo que exige coisas de mim mas depois não consegue curar a merda de um cancro a um filho, quanto mais a um pai. Às vezes dou comigo melancólico em momentos felizes e simples porque não os posso partilhar com ele e queria, como quando o Benfica joga bem. Ele ia gostar muito da Plaft sem o admitir e depois ia manifestar-me a sua perplexidade por ela gostar de mim, ia tentar descortinar o seu problema, alguma coisa que explicasse aquela improbabilidade. Tendo em conta a personalidade de ambas as criaturas, não me custa adivinhar que em pouco tempo iriam interagir num tom sarcástico tendo por alvo a minha pessoa amuada e as suas idiossincrasias. Também ia gostar do carro alemão sem o admitir e ia manifestar a sua perplexidade por me terem dado um carro assim, quem é que eu tinha enganado, quando é que vão descobrir. Depois ia abrir e fechar a porta para ver se o fabrico é bom, examinar o motor, tecer considerações obscuras de engenheiro, mexer nas coisas perante os meus protestos, com sorte não me desmontava aquilo às peças para examinar e descobrir falhas ou sinais de má manutenção. E pronto, este texto não tem conclusão, mas há temas assim também e uma pessoa se quer conclusões depois acaba por não começar nada.
Noutra curva do caminho, este texto do Tolan, que copio integralmente porque quero voltar a ele uma e outra vez:
o fantasma de pijama
Ler as crónicas do Miguel Esteves Cardoso a propósito do cancro da mama que atacou a sua mulher Maria João e que, entretanto, já criou metástases no pulmão e no cérebro, mexeu comigo. Estão lá as descrições da radioterapia no IPO, a neurocirurgia do hospital de Santa Maria e aquela sensação de passar para um negativo da vida. O meu pai morreu com um tumor cerebral em Fevereiro de 2008, um ano depois do diagnóstico. Eu escrevi, no blogue que tinha então, vários textos sobre isso, desabafos. Se por um lado sentia algum receio de exibicionismo, por outro lado era uma necessidade, ajudava-me (este não foge à regra) e podia ajudar outras pessoas apenas pela ideia de partilha. Foi um inferno mas foi mais duro para a minha mãe que era casada com o meu pai há mais de 30 anos. O diagnóstico que recebemos logo depois da primeira biopsia era de um ano de vida no máximo e a opção que ficou limitava a escolha entre mais qualidade e menos tempo, ou retirar-lhe um bloco do cérebro para viver mais uns meses como um vegetal. Se o diagnóstico tivesse nem que fosse 0,1% de esperança, ter-me-ia agarrado a isso com unhas dentes e espero que ela exista no caso da Maria João. No do meu pai não tinha e havia que encarar isso de frente. Os amigos e familiares mais próximos entendiam a situação, mas as pessoas de uma esfera mais distante tinham dificuldades. Não por culpa deles (bem intencionados) mas por não termos a crueldade de encavacar aqueles que, cheios de boas intenções, perguntavam se ele “está melhor” de um glioblastoma agressivo. As pessoas também precisam de uma reserva de fé para as suas próprias vidas e temos de ser modelos.No meu local de trabalho, em 20 e tal colegas, talvez só 2 ou 3 mais próximos soubessem da minha situação familiar, para preservar a normalidade. Lembro-me que um dia tive mesmo de calar uma dessas pessoas que me perguntava pelo meu pai todos os dias e tive de lhe dizer não tem cura, é certinho que vai morrer e ela ficou meio em estado de choque por eu estar a fazer o start up ao windows enquanto lhe dizia aquilo mas depois pelo menos deixou-me sossegado a mim, ao meu pai e ao nosso glioblastoma de estimação. A morte foi varrida das casas para os hospitais e temos uma relação algo neurótica com ela. Se alguém sobrevive a uma doença é porque a venceu. Venceu a adversidade. Não consigo pensar assim, uma vez que implica que os outros, os que morreram, não venceram. A vitória é relativa, cada um terá a sua. A minha será não ser maricas nestas ocasiões porque era precisamente esse o meu instinto. Uma vez, em Santa Maria, fiquei petrificado a ver o meu pai ter um ataque de epilepsia, nem me consegui mexer e depois dos enfermeiros se precipitarem sobre ele, saí da sala e vim fumar um cigarro na rua, a tremer. A minha mãe não era mariquinhas, fazia tudo, assistia a tudo, tratava de tudo. Na neurocirurgia lembro-me de ver um miúdo magrinho e franzino, com cicatrizes da operação no crânio e uns olhos enormes. Andava por ali a arrastar os chinelos, curioso, a espreitar para os quartos, como um pequeno fantasma de pijama extralargo. Os pais ofereciam-lhe peluches e forçavam sorrisos debaixo daquelas luzes néon frias. Ele tinha o mesmo tipo de tumor do meu pai. Apesar de imagens assim serem provavelmente comuns em sítios assim, não são comuns para quem neles entra pelas primeiras vezes. E o certo é que saía de lá com a sensação de ver o mundo todo do avesso, como uma criança de seis anos que está a ser traumatizada com filmes do Ingmar Bergman e do Romero.
O que é a vitória? Condicionam-nos para as vitórias erradas toda a vida. Não ser feliz e são é apenas um dos fracassos. Os modelos são de saúde e força. A publicidade vende uma felicidade de plástico, impossível de atingir, a tecnologia faz progressos diários mas a maior parte das vezes fúteis, é ela que cria a sua própria necessidade: precisamos de mais memória, mais ecrã, mais comunicação e por aí fora. Parece que resolvemos tudo ou estamos em vias de resolver. E depois, no que respeita a cancro, apesar dos tímidos avanço da ciência, mergulhamos numa espécie de obscurantismo primitivo, num grande mistério que decorre com regularidade em locais como o IPO ou a neurocirurgia de Santa Maria. Depois do funeral, os dias seguem-se, indiferentes, fica um buraco, um vazio. Se tivermos de pensar em coisas positivas disto, há algumas. A minha mãe ficou muito mais forte. Também se descobriram amigos novos e uma solidariedade até ali invisível. De facto não estamos sozinhos, é isso que sinto ao ler uma crónica do Miguel Esteves Cardoso sobre a sua querida Maria João ou como me sentia na sala de espera da radioterapia do IPO que nunca estava vazia. Também se relativiza mais a noção de "ter azar" ou outro tipo de desgostos como aqueles próprios dos desamores. O funeral é bonito e catártico, aparecem pessoas de que gostamos sem termos de as convidar como sucede nos casamentos e nos aniversários, conhecemos outras pessoas que gostavam do nosso pai e que estão, misteriosamente, ali, vindas de um passado que nos é desconhecido. De resto não se aprende muito. Pode-se pensar numa revelação do que é importante na vida e de todas essas tretas, de sentimentos que muitas vezes se encontram diluídos porque as ambiguidades próprias das relações humanas, especialmente entre família, desaparecem perante o fatalismo da separação em vida. Assim, a sensação de estar sentado ao lado do meu pai a ver as folhas de um pomar a agitarem-se com o vento e cães a correr, passa de visita de rotina de domingo, para o grau de momento sagrado. Mas não é uma lição necessária, é até bastante dispensável. A consciência do momento sagrado advém da consciência da sua inevitável perda. Se para essa consciência é necessário pormo-nos a pensar que todas as pessoas que amamos podem morrer a qualquer momento e que caminhamos sobre o gelo fino da saúde, vamos ser, no mínimo, uma companhia um pouco deprimente. Só somos eternos quando esquecemos que somos mortais. Gostava muito de poder dizer que uma coisa dessas faz uma pessoa ficar mais sábia mas fiquei sem vontade de fazer perguntas, eu que fazia tantas e pensava tanto. Desde 2008 que não meto os pés num médico porque acredito que quando estamos fodidos eles não nos conseguem ajudar e só nos vão dizer para deixarmos de beber e de fumar. É irracional, eu sei e estou a tratar disso. Abrir a caixa de correio tornou-se um suplício porque detesto essa ideia de existir um mundo que exige coisas de mim mas depois não consegue curar a merda de um cancro a um filho, quanto mais a um pai. Às vezes dou comigo melancólico em momentos felizes e simples porque não os posso partilhar com ele e queria, como quando o Benfica joga bem. Ele ia gostar muito da Plaft sem o admitir e depois ia manifestar-me a sua perplexidade por ela gostar de mim, ia tentar descortinar o seu problema, alguma coisa que explicasse aquela improbabilidade. Tendo em conta a personalidade de ambas as criaturas, não me custa adivinhar que em pouco tempo iriam interagir num tom sarcástico tendo por alvo a minha pessoa amuada e as suas idiossincrasias. Também ia gostar do carro alemão sem o admitir e ia manifestar a sua perplexidade por me terem dado um carro assim, quem é que eu tinha enganado, quando é que vão descobrir. Depois ia abrir e fechar a porta para ver se o fabrico é bom, examinar o motor, tecer considerações obscuras de engenheiro, mexer nas coisas perante os meus protestos, com sorte não me desmontava aquilo às peças para examinar e descobrir falhas ou sinais de má manutenção. E pronto, este texto não tem conclusão, mas há temas assim também e uma pessoa se quer conclusões depois acaba por não começar nada.
o expresso do paraíso (0)
Durante os próximos dias tentarei descrever (se a tanto me ajudar o engenho e arte, e tempo) a aventura em que meti o Wladimir e a Olga Kaminer nestes primeiros dias de Maio.
Foi um tempo muito rico de impressões e momentos fantásticos, e eles gostaram tanto que já estão a combinar nova viagem a Portugal comigo. Querem correr todas as Pousadas, começando pela de Óbidos, num daqueles quartos nas torres. E eu quero ver a cara deles ao entrar na Pousada de Santa Maria do Bouro. Hei-de levá-los também ao Douro, têm de provar o leite-creme da Aninhas, os bolinhos de bacalhau que ela faz com claras batidas em castelo para ficarem mais fofos. E o vinho, claro, o vinho. Quando a Olga provar um moscatel jovem do Vallado, aquele vinho com aroma doce e sabor seco, vai deixar de jurar que o melhor vinho do mundo é o verde. Que também é, claro, mas ex aequo com outros que eu cá sei.
Dias espantosos, é certo, mas para mim o verdadeiro paraíso aconteceu à margem dos meus ilustres parceiros de viagem.
A alegria de reencontrar amigos de para sempre. Os abraços, os sorrisos. O meu bolo preferido pousado num aparador (deve ser alergia, ou: como explicar que uma tarte de limão me ponha os olhos cheios de água?). A incrível ajuda que recebi de tantas pessoas para que esta viagem corresse o melhor possível. A tranquilidade do meu taxista preferido, o gosto de lhe dar confiança. E duas amigas sentadas num sofá, uma manta colorida sobre as pernas, e um "então?" mágico que me desata as palavras.
Não criei nada, as coisas acontecem-me assim, mas olho para estes dias com um sentimento de plenitude, felicidade e satisfação: e viu que era bom.
10 maio 2012
"pick your fights"
Este miúdo cresceu numa casa onde se faz música de câmara às quintas-feiras. Por onde passam alguns dos melhores músicos do mundo - especialmente na área da música antiga. Aprendeu a tocar flauta, mas do que ele realmente gostava era das aulas de circo. Aos seis anos escolheu a escola de circo dos chineses, por ser mais exigente que a dos russos.
Para lhe poderem pagar a escola secundária com os métodos pedagógicos mais adequados às suas necessidades, os pais contraíram um empréstimo bancário (coisas dos EUA, claro - na mesma altura, os meus filhos andavam numa escola semelhante, uma experiência pedagógica integralmente paga pelo Estado alemão). Quando chegou ao fim do ensino secundário, decidiu que queria ser artista de circo.
Os pais encolheram os ombros. "É suficientemente novo para começar agora esta carreira, e iniciar uma segunda, mais tarde", disseram.
Foram eles que me ensinaram uma das máximas mais importantes na comunicação com os meus filhos: "pick your fights". Tivessem eles insistido na flauta, no curso universitário, na realização das suas próprias expectativas, não tínhamos agora este exame de fim de curso. Esta beleza.
russendisko na Pensão Amor (3)
Tradutores de todo o mundo, morrei de inveja: onde já se viu tão bom entendimento entre um escritor e a sua tradutora?
(e se me der para isso, ainda ponho aqui cópias dos e-mails, só para constar a paciência que ele teve a responder-me a todas as perguntas de "é melhor escrever tralalá, trelelé, trilili, trololó ou trululu?") (não, é melhor não, é melhor não) (ainda me vinham com discussões de terminologia, "ó Helena, e porque é que não optaste por Tralali?", "não, Viagem a Tiroliro é que era", "mas que falta de imaginação, está-se mesmo a ver que o certo, em português, era Viagem ao Malhão-Malhão")
(fotografia da Carla R.)
russendisko na Pensão Amor (2)
Editoras de todo o mundo, morrei de inveja: onde já se viu tão bom entendimento entre um escritor e a sua Editora?
(e é pena não haver fotografias do jantar que antecedeu a festa, nem gravações das conversas que lá foram feitas - adianto apenas que o escritor estava muito bem impressionado com a competência e, de um modo geral, as qualidades profissionais da equipa da tinta-da-china)
(fotografia da Carla R.)
russendisko na Pensão Amor
Haverá imagem mais simbólica, para a festa de lançamento de um livro sobre sonhos não realizados, que esta rua cheia de gente que queria entrar na russendisko, e não entrou?
A Olga Kaminer morria de pena deles. "Abram-lhes a porta!", dizia ela. "O chão aguenta!".
Não sei se o chão aguentava. Houve momentos em que me lembrei do grande terramoto de Lisboa.
A sala estava apinhada. Gente a dançar, a saltar, a rir. Um ambiente bastante semelhante ao da russendisko em Berlim, mas com uma grande diferença para melhor: desta vez a Olga não tinha funções de organizadora, pelo que pôde ir para o palco dançar a seu bel-prazer. Às vezes o marido acompanhava-a. O público delirava. E não era caso para menos.
Nos bastidores suava-se, e era por outros motivos. Devido a um mal-entendido, o Wladimir Kaminer estava convencido que não ia fazer russendisko nenhuma, enquanto nós não pensávamos noutra coisa. De modo que quando ele, ao chegar a Lisboa, percebeu a confusão que se tinha armado, tratou de ligar à sogra, para levar os CDs ao vizinho, para este os carregar todos para a internet, para o Lutz os baixar, etc. (por falar nisso, agora me ocorre que seria simpático levar uma caixa de trufas ao vizinho, e outra à sogra) (e outra ao Lutz). O Lutz entregou as cópias em CD, e foi à vida dele com a pen no bolso. O Kaminer começou a russendisko com os CDs que por acaso tinha trazido de casa, pelo caminho deu-se conta de que as cópias não passavam no equipamento, e lá fui eu à procura do Lutz. Mais fácil seria encontrar uma agulha num palheiro... Finalmente o Lutz apareceu, aaah que alívio, e parecia o Shining: a pen também não estava a funcionar. Conseguimos chamar o especialista da casa, tudo se resolveu. Enquanto isso, o Wladimir Kaminer dançava com a sua Olga, cantava desafinado com toda a alma, mudava as músicas. Como se tudo corresse às mil maravilhas, como se não estivesse mais ou menos a cinco minutos de se lhe acabar a música.
A russendisko foi até à uma da manhã. Depois entrou outro DJ, um profissional, e nós fomos descansar, porque no dia seguinte já tínhamos lugar marcado no expresso do paraíso.
(Há por aí mais um filme, e os belos amigos que são os meus andam-me a pressionar para o publicar. Mas eu, ah, digo-lhes logo que tirem daí a ideia.)
(vídeos e fotografias da Carla R., excepto o que não foi publicado, que é do Paulo Almeida)
A Olga Kaminer morria de pena deles. "Abram-lhes a porta!", dizia ela. "O chão aguenta!".
Não sei se o chão aguentava. Houve momentos em que me lembrei do grande terramoto de Lisboa.
A sala estava apinhada. Gente a dançar, a saltar, a rir. Um ambiente bastante semelhante ao da russendisko em Berlim, mas com uma grande diferença para melhor: desta vez a Olga não tinha funções de organizadora, pelo que pôde ir para o palco dançar a seu bel-prazer. Às vezes o marido acompanhava-a. O público delirava. E não era caso para menos.
Nos bastidores suava-se, e era por outros motivos. Devido a um mal-entendido, o Wladimir Kaminer estava convencido que não ia fazer russendisko nenhuma, enquanto nós não pensávamos noutra coisa. De modo que quando ele, ao chegar a Lisboa, percebeu a confusão que se tinha armado, tratou de ligar à sogra, para levar os CDs ao vizinho, para este os carregar todos para a internet, para o Lutz os baixar, etc. (por falar nisso, agora me ocorre que seria simpático levar uma caixa de trufas ao vizinho, e outra à sogra) (e outra ao Lutz). O Lutz entregou as cópias em CD, e foi à vida dele com a pen no bolso. O Kaminer começou a russendisko com os CDs que por acaso tinha trazido de casa, pelo caminho deu-se conta de que as cópias não passavam no equipamento, e lá fui eu à procura do Lutz. Mais fácil seria encontrar uma agulha num palheiro... Finalmente o Lutz apareceu, aaah que alívio, e parecia o Shining: a pen também não estava a funcionar. Conseguimos chamar o especialista da casa, tudo se resolveu. Enquanto isso, o Wladimir Kaminer dançava com a sua Olga, cantava desafinado com toda a alma, mudava as músicas. Como se tudo corresse às mil maravilhas, como se não estivesse mais ou menos a cinco minutos de se lhe acabar a música.
A russendisko foi até à uma da manhã. Depois entrou outro DJ, um profissional, e nós fomos descansar, porque no dia seguinte já tínhamos lugar marcado no expresso do paraíso.
(Há por aí mais um filme, e os belos amigos que são os meus andam-me a pressionar para o publicar. Mas eu, ah, digo-lhes logo que tirem daí a ideia.)
(vídeos e fotografias da Carla R., excepto o que não foi publicado, que é do Paulo Almeida)
09 maio 2012
este foi o momento do lançamento do livro em que a Helena se sentiu em casa e no meio de amigos, e começou a dizer os disparates do costume
"Não traduzas isto para o Kaminer, Lutz", diz ela.
"Só cá para nós", diz ela - em público.
E continua a dizer disparates, como se estivesse a ser entrevistada para a playboy. Sim, é o mundo ao contrário: a playboy com modelos muito compostinhas de cuecas, enquanto na feira do livro, perante crianças e tudo, é isto)
Esses e outros momentos altos, todos do mesmo quilate.
Não sei quem se terá lembrado de pôr aquele cartaz por trás dos livros, mas parece que adivinhou. Sim, só me faltava comê-los...
(Não sei que é que o Lutz traduziu, que no fim da sessão o escritor deu-me uma palmada nas costas e disse, todo satisfeito: "nós fazemos isto muito bem, havemos de repetir") (Isto é uma indirecta para uma Editora que eu conheço, mas disfarcem, disfarcem)
"Só cá para nós", diz ela - em público.
E continua a dizer disparates, como se estivesse a ser entrevistada para a playboy. Sim, é o mundo ao contrário: a playboy com modelos muito compostinhas de cuecas, enquanto na feira do livro, perante crianças e tudo, é isto)
Esses e outros momentos altos, todos do mesmo quilate.
Não sei quem se terá lembrado de pôr aquele cartaz por trás dos livros, mas parece que adivinhou. Sim, só me faltava comê-los...
(Não sei que é que o Lutz traduziu, que no fim da sessão o escritor deu-me uma palmada nas costas e disse, todo satisfeito: "nós fazemos isto muito bem, havemos de repetir") (Isto é uma indirecta para uma Editora que eu conheço, mas disfarcem, disfarcem)
lançamento do livro "viagem a tralalá" na feira do livro, em Lisboa
Chegámos atrasados devido às entrevistas (três de seguida), de tal maneira que o filho do Lutz enviou um sms, preocupado: "onde é que vocês se meteram? a praça está cheia!"
A praça estava cheia, apesar do frio e do mau tempo. Parece que a literatura tem futuro.
(a dupla magnífica: Wladimir Kaminer e Lutz Brückelmann)
(fotos de "o homem com a câmara de filmar", da Carla R. e do Paulo C.)
cenas de uma apresentação de um livro em Montemor-o-Novo
Esta fotografia está mal focada, e não foi tirada do fundo da sala (para trás do fotógrafo havia ainda umas quantas pessoas sentadas e a pé, até à porta) mas dá para ver que afinal a região a sul do Tejo está longe de ser deserta. Uma alegria.
(com o meu agradecimento ao António P. pelas fotografias)
o russo
Este post é copiado inteirinho do blogue kaputt 2.0.
Só porque me fartei de rir quando o li, e porque me apetece guardá-lo para mais tarde recordar.
Só porque me fartei de rir quando o li, e porque me apetece guardá-lo para mais tarde recordar.
Podemos apaixonar-nos por um escritor porque lemos um ou dois livros que nos tocaram particularmente, ou porque lemos todos os livros desse escritor e não conseguimos parar e isso mudou a nossa maneira de ser, ou ainda porque soubémos de um ou outro pormenor da sua vida que nos emocionou profundamente.
A Helena decidiu inovar. Ela fez-nos apaixonar por Wladimir Kaminer antes de sequer tocarmos o chão de uma livraria onde, eventualmente, se poderá encontrar um livro dele.
Existem as agências matrimoniais que casam russas com ocidentais e depois existe a Helena. Muito mais à frente.
Hoje às 19h, vai-se lançar para o nosso mundo o Viagem a Tralalá na Feira do Livro. O Kaminer vai lá estar, a Helena vai lá estar, o livro vai lá estar.
Claro que podem também optar por ficar em pantufas a ver televisão.
we are friends
Texto inédito do Wladimir Kaminer, sobre uma visita sua a Portugal.
(estou curiosa para ler o que escreverá desta vez)
(estou curiosa para ler o que escreverá desta vez)
07 maio 2012
a pele que habito
Por estes dias, não queria estar na pele de mais ninguém - a minha está mesmo muito boa.
03 maio 2012
01 maio 2012
o meu mundo é um lugar cheio de gente boa
A instantes de iniciar a aventura "Kaminer em Portugal, 2012" quero agradecer toda a ajuda que me tem sido dada. Nos últimos meses tenho estado rodeada por uma rede cada vez mais densa de pessoas que me fazem sugestões, estabelecem contactos e oferecem o seu tempo com uma enorme generosidade. Graças ao vosso trabalho, a visita do Wladimir Kaminer a Portugal anuncia-se como algo realmente especial.
Vocês fazem-me sentir muito feliz, comovida e grata.
Muito obrigada.
Vocês fazem-me sentir muito feliz, comovida e grata.
Muito obrigada.
viagens
Estão a chover links no meu post "preparativos para a viagem". Obrigada a todos!
Um deles deixou-me com vontade de nem começar a viagem, para ler primeiro tudo o que propõe, e só sair depois (quer dizer: e regressar depois - ir morar definitivamente para Portugal). É o Lisbon Lux Maganize. Agarrem-me, que eu...
Para que não pensem que me ia escapar mais um post sem falar de russos, ó pra isto: a Carla R. está a viajar na Rússia, e é um prazer viajar com ela:
- fecha a boca, sorri
- apenas mais um elogio à mochila
- a idiota
(Carla, sabes que estiveste em São Petersburgo na mesma altura que os Kaminer? Provavelmente estava anunciado por toda a cidade: Владимир Каминер. Não leste?)
Um deles deixou-me com vontade de nem começar a viagem, para ler primeiro tudo o que propõe, e só sair depois (quer dizer: e regressar depois - ir morar definitivamente para Portugal). É o Lisbon Lux Maganize. Agarrem-me, que eu...
Para que não pensem que me ia escapar mais um post sem falar de russos, ó pra isto: a Carla R. está a viajar na Rússia, e é um prazer viajar com ela:
- fecha a boca, sorri
- apenas mais um elogio à mochila
- a idiota
(Carla, sabes que estiveste em São Petersburgo na mesma altura que os Kaminer? Provavelmente estava anunciado por toda a cidade: Владимир Каминер. Não leste?)
mais entrevistas com o Wladimir Kaminer
Um amigo mandou-me o link para uma entrevista que Kaminer deu ao Comércio do Porto em 2003, quando a Cavalo de Ferro publicou em Portugal o Militärmusik. Pode ler-se aqui.
Se tivesse tempo, traduzia uma que ele deu à Playboy (hehehe) (a entrevista em alemão está aqui). Mas o meu tempo, não sei que lhe aconteceu, tem-se feito raro. Passo apenas alguns bocadinhos (traduzidos pelo irmão mais novo do Speedy Gonzalez, ainda mais rápido que o outro):
Playboy: Wladimir Kaminer, em breve vai sair um filme baseado no seu primeiro livro, Russendisko, onde se fala da sua vida quando veio para a Alemanha - e de verdadeiras amizades entre homens. De que vive uma amizade entre homens?
Wladimir Kaminer: Da necessidade. Numa situação de bem-estar, de felicidade, às vezes os amigos afastam-se. A verdadeira amizade nasce em situações difíceis da vida.
Playboy: Como quando veio da Rússia para Berlim?
Kaminer: Sim, era uma situação de necessidade. A vida anterior tinha desaparecido para sempre, e a nova ainda não tinha contornos claros. Não conhecíamos o nosso mundo, e o que devíamos fazer nele.
Playboy: O que era especial na Berlim do início dos anos 90?
Kaminer: As pessoas viviam uma situação única no mundo: simultaneamente no socialismo e no capitalismo; saboreavam as vantagens dos dois sistemas sem sentirem as suas desvantagens.
O táxi pára - chegámos. A mesa no restaurante japonês de luxo já está preparada. Não temos muito tempo, porque a festa vai começar em breve. Começamos por encomendar as bebidas. Kaminer pede um Bordeaux.
Playboy: Quando veio para Berlim, vivia num quarto sem casa de banho, em algumas alturas também não teve emprego. Como é que um escritor aguenta o desemprego?
Kaminer: Do ponto de vista intelectual, o desemprego era para mim um grande alívio. O Estado subvencionava-me para eu me entregar a tempo inteiro à minha paixão.
Playboy: Passar o dia a recolher histórias e a escrevê-las.
Kaminer: Sim. O problema eram aqueles cursos que passavam a vida a oferecer-nos. Insistiam em transformar os artistas desempregados como nós em trabalhadores sérios. Uma vez veio um talhante tentar entusiasmar-nos para um curso. Quarenta actores de certa idade e um jovem talhante em ascensão, com um cartaz onde estavam desenhadas as partes do corpo de uma vaca. Contou-nos como a profissão de talhante é entusiasmante e interessante - nada diferente da de um actor.
Playboy: Olhando agora para trás, uma fase divertida.
Kaminer: Sim, como todas as fases da vida. Nunca é apenas mau. Escrevi sobre o meu tempo no exército russo. As pessoas ficaram chocadas: Como, senhor Kaminer? Perante tantos jovens soldados que foram torturados na sua passagem pelo exército, como consegue escrever que foi um tempo divertido?!
O restaurante todo está a ouvir. Kaminer nota-o: "Parece-me que estou a falar demasiado alto." É verdade. Continua a falar, em tom mais contido.
Claro que foi uma época terrível. A nossa vida é uma tragédia, estamos permanentemente a ser confrontados com desafios maiores que nós. Mas só conseguimos avançar se identificarmos o lado divertido desta tragédia.
Playboy: Durante o período de desemprego, tinha esperança de que alguma vez se tornaria alguém?
Kaminer: Nunca tive a sensação de que tinha de me tornar alguém na vida, nunca quis ser especial. Vejo-me como contador de histórias. No fundo, não são as minhas histórias, mas as que a vida escreve. Eu sou apenas um médium.
Kaminer: Nunca tive a sensação de que tinha de me tornar alguém na vida, nunca quis ser especial. Vejo-me como contador de histórias. No fundo, não são as minhas histórias, mas as que a vida escreve. Eu sou apenas um médium.
Kaminer: Eu era um dissidente, por completo, e desde o princípio: na escola, estava perfeitamente convencido que o sistema comunista nos armava ratoeiras, e em vez de nos ensinar inglês nos ensinava outra língua qualquer, para que mais tarde ninguém do mundo capitalista nos conseguisse entender. Também no exército fui um péssimo soldado, passava a vida a pôr tudo em causa, o que os oficiais não suportavam. Por isso passei alguns dias na cadeia.
Playboy: Depois veio para Berlim – onde ficou até hoje. Porque não quis regressar à Rússia quando a União Soviética deixou de existir?
Kaminer: Não penso que seja possível regressar atrás na vida. É sempre a avançar. E quero ficar em Berlim, porque é a única metrópole da Alemanha. Não consigo viver na província. As cidades da província são pequenas, mas têm a mania das grandezas. Mas nada disso são temas para a Playboy.
Playboy: Quer falar sobre sexo? Com todo o gosto. Se no socialismo todos são iguais, têm o mesmo dinheiro, as mesmas casas e as mesmas roupas, sobra mais tempo para bom sexo?
Kaminer: Não. O sistema não previa sexo, porque custa muita energia humana, que é necessária à construção da sociedade socialista. O sexo devia ser usado apenas para produzir futuros trabalhadores, e não para ter prazer. Eu, como crítico do regime, via o sexo também como uma maneira óbvia de lutar contra a ditadura. Por isso tentámos, nos nossos tempos de juventude hippie, ter tanto sexo como possível.
Playboy: Muito bem. (...)
fazer os trabalhos de casa
(jornal Público)
Por causa deste artigo, decidi publicar hoje um texto que ando a preparar há alguns dias, mas por falta de tempo não terminei ainda.
Na Alemanha, o Estado garante que o nível de vida dos mais pobres não desça abaixo de um determinado limiar de dignidade. Isso inclui: habitação (com as despesas inerentes, inclusivamente aquecimento), saúde (os mais pobres têm acesso aos seguros de saúde públicos, iguais para todos, e - apesar de alguns cortes que tem havido - ainda excelentes), uma mensalidade de mais de 300 euros para despesas de alimentação e vestuário, um ou outro extra (electrodomésticos, curas termais, etc.; um médico pode receitar uma estadia de várias semanas num hotel, com acompanhamento especial para crianças, no caso de uma mãe com depressão), cursos de reorientação profissional para os desempregados, etc.
Paralelamente, há imensas instituições de apoio social que dão às pessoas roupas (muitas vezes novas), refeições saudáveis, etc., sem fazer perguntas humilhantes. Muitas dessas instituições de solidariedade social são das Igrejas (Caritas, Misereor, etc.).
No caso de estas pessoas terem filhos, o Estado redobra os cuidados, porque tem de evitar que a pobreza se transmita às gerações seguintes. De facto, e para lá do célebre artigo primeiro da Constituição ("a dignidade humana é intangível"), é (vou dizer isto da pior maneira possível) uma questão económica vital: os pobres ficam muito caros, e o país não se pode dar ao luxo de (continuo a dizer isto da pior maneira possível) desperdiçar cabeças e talentos. Para além do abono de família (que anda entre os 170 e os 210, mais euro menos euro, por cada filho até aos 18 anos ou até terminar os seus estudos) os filhos dos mais pobres têm apoios especiais que lhes permitam desenvolver o melhor possível as suas aptidões, e os seus pais desempregados têm tratamento prioritário na agência de emprego, porque é fundamental que as crianças cresçam num ambiente estruturado pelo valor positivo do trabalho. Curiosamente, este pacote de apoios especiais aos filhos dos pobres foi criado na altura em que o Estado andava a impor budgets de austeridade a todos os seus serviços. A palavra de ordem nessa época (de alguma recessão económica na sequência da crise financeira de 2008) era: poupar valentemente em tudo, excepto no futuro - as crianças, a educação e a investigação são o futuro da Alemanha.
São estes os trabalhos de casa básicos que cada país devia fazer. Uma vez estabelecido como princípio europeu intocável (também podia dizer mundial, mas até para a utopia há limites) que os Estados não podem deixar cair ninguém abaixo de um determinado limiar de dignidade, podia depois discutir-se cortes orçamentais, tudo o que fosse preciso - desde que não fosse feito à custa dos mais pobres.
É este o trabalho de casa que os governos dos países com dívidas não fizeram: explicar a quem os quer ajudar a resolver os problemas que há um limiar de sofrimento abaixo do qual não se pode descer. Tenho a certeza que um país como a Alemanha teria compreendido essa argumentação, porque se baseia nos seus próprios valores. Uma vez assegurado o respeito por estes princípios, venham todas as troikas do mundo, que não nos metem medo.
Quanto aos restantes trabalhos de casa, a Alemanha também os faz. Provavelmente estas informações não chegam a Portugal, mas nos últimos anos tem sido assim:
- O décimo terceiro mês na função pública já foi cortado há séculos.
- Já começaram a falar em expropriar bens privados para pagar as dívidas. É apenas uma sugestão, mas já aconteceu no século passado várias vezes, não apenas no pós-guerra, mas também nos anos noventa, quando foram buscar dinheiro às empresas alemãs para pagar dívidas do Holocausto, ou na crise financeira de 2008 que foi corrigida em grande parte à custa das reservas dos bancos Sparkassen, que não tinham entrado em delírios especulativos e por isso tinham uma situação sólida - a Angela Merkel exigiu que eles pagassem as dívidas dos bancos tresloucados, para evitar que houvesse falências em cadeia.
- Quando, há alguns anos, se viu que não havia como pagar as reformas, tendo em conta a pirâmide etária, aumentou-se a idade da reforma (para 67, e um ano destes irá para os 69); as reformas já são bastante inferiores ao salário que se tinha, não têm tido aumentos anuais, discutiu-se imenso um novo imposto sobre esses rendimentos; a minha geração sabe que vai ter uma velhice miserável, e anda a tratar de seguros complementares. Criou-se um imposto novo para pagar os cuidados continuados dos idosos. Criou-se um imposto para ajudar a pagar as despesas da reunificação. Fez-se uma reforma importante no imposto sobre as heranças. Criaram-se taxas moderadoras para o uso dos serviços de saúde. Alguns cuidados profilácticos passaram a ser pagos integralmente pelo paciente.
- As fugas aos impostos são um crime severamente punido. Não há VIPeza que lhes valha: se forem apanhados, pagam multas descomunais e, se for caso para isso, vão parar à cadeia. Apesar de haver sérias dúvidas sobre a legalidade do processo, os governos compram os CDs com dados de clientes de bancos do Liechtenstein e da Suíça, fornecem uma identidade falsa ao espião, e multam e prendem os faltosos.
- Durante anos, os salários alemães não aumentaram. Houve casos de empresas em crise cujos trabalhadores aceitaram reduzir o horário de trabalho e o salário para não haver despedimentos.
- As pessoas controlam e denunciam casos de abuso do sistema social. Pessoas que recebem subsídio de desemprego ou apoio da segurança social, e fazem biscates sem declarar esses rendimentos, são denunciadas e punidas. As empresas são controladas e punidas (não é por acaso que o escândalo dos submarinos vendidos a Portugal foi descoberto e investigado pela Alemanha).
Pode ser que eu tenha uma imagem mal focada de Portugal, mas parece-me que tem faltado coragem política para fazer estes trabalhos de casa. Lembro-me, por exemplo, do barulho que a oposição fez quando o governo PS tentou aumentar a idade da reforma. Parece-me que, devido a jogos de poder, foram adiadas reformas fundamentais. E agora as consequências desses jogos de tocata e fuga caíram com toda a brutalidade sobre os portugueses, e de forma particularmente pesada sobre os mais pobres. A sorte dos políticos das últimas décadas é que eu sou muito do Paz e Amor, caso contrário a minha vontade era metê-los todos na cadeia. Podem olhar para o espelho muito orgulhosos e descansadinhos da vida, prestaram um lindo serviço aos portugueses.
Mas os próprios portugueses têm também a sua quota-parte de responsabilidade. A corrupção em pequena escala (já que "todos o fazem"...), a fuga aos impostos como desporto nacional, o desinteresse nas coisas da Polis. A vidinha, o salve-se quem puder. Como se "este país" não fosse o resultado do esforço de nós todos, mas apenas da culpa dos outros.
Este post fica incompleto. Falta falar do que é preciso mudar no sistema capitalista para o aguentar mais uns tempos...
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