19 abril 2012

escadas das verdades

Esta manhã lembrei-me de uma fotografia que fiz no Verão passado, perto da Sé do Porto, as Escadas das Verdades, antiga Escadas das Mentiras:



Veio a propósito desta fotografia do diário de bordo, que encontrei no facebook:



Fotografia puxa fotografia, cá vão mais algumas recordações de um dia feliz no Verão passado:







...e o Porto aqui tão perto!

a minha vida a atrapalhar a minha vida (3)

As opiniões dividem-se, uns acham que a amizade é mais importante que a homenagem, outros dizem que esta homenagem só acontece uma vez e a amizade permanece. Eu entendo as razões de todos (nem sei porque é que ainda não me convidaram para a ONU), mas depois de saber quanto custava mudar a data do voo (caramba, eu não queria comprar o avião inteiro, com hospedeiras dentro, e piloto, e tudo!) descobri que a amizade é realmente muito importante, e que homenagem nenhuma do mundo justifica desfazer um encontro que se combinou com uma amiga especial.

Plano B: eu fico em Lisboa. O Joachim tenta tirar duas horas de férias para participar na homenagem. A Christina também. Vamos escrever uma carta ao director de turma do Matthias, explicando porque é que nessa manhã o nosso filho vai faltar a algumas aulas, e convidando a turma toda a vir assistir, com a professora de História. É no 8 de Maio, dia do armistício (que aqui se chama "dia da libertação"), e estes miúdos alemães de 15 anos verão como uma rua inteira se uniu para honrar a memória dos seus antigos vizinhos, vão ouvir um kadish e poemas de Paul Celan.

Ontem falei com os vizinhos que iniciaram esta dinâmica. Convidaram um músico muito bom, vão fazer um pequeno discurso a contar como surgiu a ideia e como as pessoas da nossa rua aderiram, falarão da responsabilidade de transportar a memória na forma simbólica destas pedras-quase-túmulo com os nomes das pessoas, que se misturam às pedras da nossa calçada.

Leite negro da aurora bebemo-lo ao anoitecer / bebemo-lo ao meio-dia e de manhã bebemo-lo à noite / bebemos e bebemos / cavamos uma sepultura nos ares... 


- começou o vizinho a recitar, e a mulher dele cortou: "se lerem esse poema, fujo para a outra ponta da rua. Vai ser mais do que consigo suportar."



18 abril 2012

a minha vida a atrapalhar a minha vida (2)

 (fonte)

Devido a comentários feitos no post anterior, é necessário fazer uma pequena adenda.

Ora bem: isto não é uma pedra. Isto é uma homenagem que as pessoas da minha rua vão prestar aos trinta judeus que foram levados daqui para serem assassinados em Auschwitz. É o funeral simbólico de trinta vítimas de um crime inexplicável.

Eu estou dividida entre o dever-lhes essa homenagem (e nem que houvesse aqui cinco mil pessoas, mas não, vão ser poucos) e o prazer de passar um serão a conversar com uma pessoa que me é muito importante. Nem cheguei sequer ao ponto de me perguntar se ela me perdoa (eu sei que ela entende isto, como eu entenderia que ela não viesse almoçar a minha casa para ficar a bloquear uma rua do outro lado da cidade para impedir uma manifestação de neonazis), ainda só estou naquele egoísmo de "e eu? e eu?" - ando há tanto tempo a sonhar com esse fim de tarde do dia 7 de Maio!

Claro que a homenagem se faz sem mim. Mas uma parte de mim faz-se com esta homenagem.
E outra parte faz-se em conversas com aquela amiga.
E agora, José?

(agora, vou pensar numa terceira via, que não me obrigue a ter de escolher ou isto ou aquilo)

17 abril 2012

a minha vida a atrapalhar a minha vida

Depois do lançamento do tal livro que vocês sabem fico ainda uns dias em Portugal. Primeiro a passear o casal Kaminer, tanto e tão excelentemente que eles até começarão a pensar comprar em Portugal uma casinha para a reforma, pelo menos. Depois, a passear-me a mim própria.

Estava toda contente com este dia extra de férias em Portugal, quando a vizinha me deu uma grande novidade e eu estarreci. No dia do meu regresso, está a acontecer na nossa rua o acontecimento mais importante dos seus últimos setenta anos: vão pôr Stolpersteine, "pedras no caminho", uma por cada um dos judeus que saiu desta rua para os campos de concentração. Virá um rabino. Alguém recitará o Kadish por estes mortos. Um dos nossos vizinhos, que é judeu e meio francês, vai ler poemas do Paul Celan.
Uma dessas pedras foi paga por nós, é de algum modo uma herança para os nossos descendentes: para que eles não esqueçam que isto aconteceu um dia, a pessoas concretas com um nome, uma data de nascimento, uma morada, uma história, e a terrível violência do assassínio friamente calculado.

E eu - oh! pateta! - comprei um bilhete de maneira a ficar mais um dia em Portugal. Quando devia, tinha de, queria a todo o custo estar aqui.

relatório para um leitor deste blogue, que já me perguntou então que tal

Então, foi assim:

Primeiro fomos ver a exposição do Armin Müller-Stahl. Com vagar, porque não é todos os dias que se compra um quadro de um actor famoso. Depois de muito olhar, escolhemos estes (as fotografias estão péssimas, é só para teres uma ideia):

1. Um auto-retrato (gosto do seu ar pensativo)



2. Selbst als Narr (por um lado gosto, por outro este olhar cru inquieta-me)



3. Uma série de desenhos que ele fez sobre o guião do filme "die Buddenbrooks"






Desta série, o meu preferido é o que se segue, porque gosto dos azuis e me lembra um bocadinho o Fernando Pessoa, e gosto de imaginar o Fernando Pessoa desenhado pelo Müller-Stahl numa folha dos Buddenbrook:




4. Uma série de desenhos que ele fez sobre o guião do filme "UTZ" (gostamos ambos muito das cores)





5. Thomas Mann (a pensar)
(feito na altura em que ele representava o escritor, numa série sobre a família Mann)



Não conseguimos escolher. Eu estou cada vez mais entre o "Fernando Pessoa" e o auto-retrato. Talvez, eventualmente, o Thomas Mann (porque acho mesmo interessante olhar para o desenho que um actor fez sobre a pessoa que estava a representar. Vamos voltar lá esta semana, para comprar.
(Quem quiser dar opinião, é agora, ou cale-se para sempre, como de costume)

Saímos, descemos a avenida do 17 de Junho ao entardecer.


Fomos jantar ao Cafe am Neuen See. Tinha querido reservar uma mesa junto à janela, mas eles disseram que junto à janela não reservam. Quando lá chegámos, demo-nos conta de que eles não reservam mesa nenhuma. Sentámo-nos numa livre. Encomendámos. Uma mesa junto à janela vagou, mudámo-nos a correr para lá. Daí a bocadinho trouxeram-nos o vinho. O vinho branco fresco antes dos aperitivos?! Explicámos que ficaria morno antes de o começarmos a beber, foi para trás. Daí a bocado veio a sopa. A sopa antes dos aperitivos?! Perguntei ao empregado se estavam a ter problemas com o serviço. "Não, pelo contrário, o serviço hoje está impecável" (e eu a pensar, divertida: bom, como será nos dias normais?) e a seguir perguntou: "porquê, não estão satisfeitos com alguma coisa?" e nós explicámos a ordem pela qual queríamos receber as coisas. Ele foi buscar o aperitivo, que vinha por conta da casa, e até mandou um colega limpar finalmente a nossa mesa, que ainda tinha os pratos sujos dos clientes anteriores. O colega limpou as migalhas para o chão, por uns momentos estive de novo num restaurante do povo em Xian. Só faltava o serrim no chão.
E depois aconteceu tudo muito depressa: em menos de um minuto vieram os aperitivos, os pratos quentes, a sopa e o vinho. E até o pão.

A comida é excelente. Sopa fria de tomate com espuma de menta; salada de polvo com mousse de grão-de-bico; peixe grelhado com alecrim, com risoto de cebolinhas; e crème brûlée de chocolate com sorbet de manga. Foi a primeira vez, desde há muito, que achei que valeu a pena sair de casa para jantar num restaurante (exceptuando o restaurante do Hotel Pestana, o tal hotel que tem um parque enorme nas traseiras).
O ambiente também é muito bom. E aquele pôr-do-sol, muito discreto por trás das árvores do lago, então...


Sei que não dá pra mudar o começo. / Mas, se a gente quiser, / vai dar pra mudar o final.




Poema de Elisa Lucinda, lido por Ana Carolina. É a propósito do mensalão. Mais: é a propósito do nosso tempo, da responsabilidade de cada um, de "agarrar por uma ponta" e começar a mudar. Vai dar pra mudar o final.


Só de sacanagem

Meu coração está aos pulos.
Quantas vezes minha esperança
será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar?
Tudo isso que está aí no ar:
malas, cuecas que voam
entupidas de dinheiro,
do meu dinheiro, do nosso dinheiro,
que reservamos duramente para educar
os meninos mais pobres que nós, pra cuidar
gratuitamente da saúde deles
e dos seus pais.
Esse dinheiro viaja
na bagagem da impunidade
e eu não posso mais.
Quantas vezes meu amigo, meu rapaz,
minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança
vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis
existem pra aperfeiçoar o aprendiz.
Mas não é certo que a mentira
dos maus brasileiros
venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração está no escuro,
a luz é simples,
regada ao conselho simples
de meu pai, minha mãe, minha avó
e os justos que os precederam:
”Não roubarás,
devolva o lápis do coleguinha,
esse apontador não é seu, minha filha”.
Ao invés disso,
tanta coisa nojenta e torpe
tenho tido que escutar.
Até habbeas corpus preventivo
Coisa da qual nunca tinha ouvido falar
E sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste
Esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará.
Pois bem, se mexeram comigo,
com a velha e fiel fé do meu povo sofrido,
então agora eu vou sacanear:
mais honesta ainda eu vou ficar.
Só de sacanagem.
Dirão: deixa de ser boba. Desde Cabral
que aqui todo mundo rouba.
Eu vou dizer: não importa.
Será esse o meu carnaval.
Vou confiar mais e outra vez.
Eu, meu irmão, meu filho
e meus amigos vamos pagar limpo
a quem a gente deve
e receber limpo do nosso freguês.
Com o tempo a gente consegue
ser livre, ético e o escambau.
Dirão: é inútil, todo mundo aqui é corrupto,
desde o primeiro homem
que veio de Portugal.
E eu direi: não admito.
Minha esperança é imortal.
E eu repito: ouviram? Imortal.
Sei que não dá pra mudar o começo.
Mas, se a gente quiser,
vai dar pra mudar o final.

16 abril 2012

caminhante não há Kaminer... (4)

(do livro "Eu não sou um berlinense - um guia turístico para turistas preguiçosos", de Wladimir Kaminer. Título original: Ich bin kein Berliner - ein Reiseführer für faule Touristen)



A criminalidade tem vindo a estagnar há anos na capital alemã. As estatísticas criminais são alimentadas sobretudo por cenas de pancadaria, venda de droga, crimes de honra ou contra ela. Por vezes alguém rouba uma bicicleta, ou deita fogo à casa do vizinho, ou atropela uma velhinha. Os bandidos, gangsters, máfia russa ou larápios na rua são raros, e se calhar de nos cruzarmos com eles não os reconhecemos. O carteirista, espécie que faz parte de qualquer cidade turística que se preze, em Berlim encontra-se em vias de extinção, porque os berlinenses e os visitantes desta cidade só têm porcarias nas bolsas: lenços, batons, chaves, cigarros ou tabaco. Às vezes também se encontram nessas bolsas uma ou outra bretzel trincada, ou uma factura da electricidade por pagar.

Um carteirista contou-me uma vez que encontrar dinheiro numa bolsa berlinense é como ganhar o jackpot do loto. O máximo que ele conseguiu foi uma máquina fotográfica barata ou um telemóvel. Mas nem os telemóveis são bons de roubar porque, segundo reza uma antiga lenda de gatunos, os aparelhos emitem permanentemente um sinal, mesmo depois de ter tirado o cartão SIM e trocado a bateria. Desse modo, qualquer telemóvel pode ser facilmente localizado – o Estado polícia típico.

Em suma: em Berlim, os furtos não compensam. Ao contrário de Lisboa, por exemplo, onde há tempos fomos roubados logo no primeiro dia da viagem. Eu tinha comprado o guia turístico português “A metrópole do Atlântico. Longe dos circuitos turísticos” e escolhera para o nosso primeiro dia a “Rota 1. Um aspecto geral de Lisboa”. (A propósito: nesse guia estava escrito que a criminalidade em Lisboa tem vindo a estagnar nos últimos anos e quase não se nota.)
No extremo superior da rua Garrett encontra-se o café mais antigo da cidade, A Brasileira. Quem quer realmente conhecer Lisboa deve beber lá um café, um copo de vinho verde ou um sumo de laranja acabado de espremer.

Parecia-nos bem, e não queríamos de modo algum perder isto. O café estava cheio de turistas que provavelmente tinham lido o mesmo parágrafo no guia. Esfreguei os olhos, alheei-me momentaneamente do aspecto geral de Lisboa, e no mesmo instante o nosso saco berlinense desapareceu. Lenços, batons, uma câmara fotográfica barata, um porta-moedas com a imagem de Nossa Senhora e duzentos euros em notas – tudo perdido.

A empregada do café A Brasileira- que momentos antes conversara connosco num alemão irrepreensível, anotara o nosso pedido e perguntara se também queríamos comer alguma coisa - com o nervoso deixou de saber falar alemão. Só entendia português. Além disso estava muito surpreendida pelo desaparecimento do nosso saco, e explicou-nos que era a primeira vez que assistia a tal disparate de em Lisboa alguém levar alguma coisa de outra. Mas acabou por chamar a polícia.

Esta apareceu passados trinta segundos, como se tivesse estado o dia inteiro à nossa espera.

“Estão feitos uns com os outros”, suspeitou logo Olga, a minha mulher.

Os dois discretos polícias levaram-nos para o Rossio, uma praça muito bonita, que era o ponto seguinte da “Rota 1. Um aspecto geral de Lisboa”. Ali, numa loja de louças que ficava numa sala das traseiras, com uma montra enorme, ficava a esquadra da polícia. Pareciam ter-se especializado nos visitantes estrangeiros da capital portuguesa que se tinham fiado no guia “A metrópole do Atlântico. Longe dos circuitos turísticos”. Os polícias não tinham mãos a medir.

Estavam sentados atrás de cinco mesas, e tinham pequenas bandeiras cosidas na camisa. Cada bandeira representava um país cuja língua o polícia sabia falar. Havia um com duas, um com três e até um que tinha cinco bandeiras. Mas este tinha um ar muito cansado. À frente dos polícias viam-se pessoas bastante nervosas, provenientes de todo o mundo, em pé ou sentadas. Duas miúdas desatavam a chorar sincronizadamente de dois em dois minutos. Os rapazes fechavam os punhos e olhavam em volta com ar ameaçador. Um australiano subia e baixava as mãos repetidamente. A princípio, pensei que estaria a fazer alguma espécie de yoga para se acalmar. Na realidade estava a tentar descrever com toda a exactidão à polícia portuguesa o que lhe tinha sido roubado. A avaliar pelos seus movimentos, era alguma coisa muito grande e redonda, como um grande bolo em forma de coração.

À nossa frente estavam dois espanhóis que pareciam assassinos profissionais de Hollywood, perigosos e cheios de músculos. Mas afinal eram também vítimas a quem tinham roubado tudo, inclusivamente o guia turístico.

Escolhemos o único polícia com a bandeira alemã na camisa e fizemos com ele a lista - saco preto berlinense, conteúdo: um telemóvel, um pacote de lenços de papel, uma câmara fotográfica velha, um bilhete de identidade, as chaves de casa, um pacote de chicletes, um porta-moedas com a imagem de Nossa Senhora e duzentos euros.

O amável polícia explicou-nos que quase não havia furtos em Lisboa, e que nos raros casos em que isso acontecia, havia uma probabilidade de 90% de encontrarem rapidamente as coisas roubadas. Ao nosso saco até dava uma probabilidade de 99%. E a sua previsão confirmou-se: logo no dia seguinte telefonaram para o nosso hotel a avisar para irmos buscar o saco à esquadra do Rossio o mais depressa possível. Dirigimo-nos de novo à loja de louças, onde encontrámos de facto o nosso saco, por trás da montra enorme. Os lenços, as chaves, o telemóvel e até o porta-moedas com a imagem da Nossa Senhora – estava tudo lá, excepto a máquina fotográfica e os duzentos euros. Também desapareceram os talismãs que a minha mulher leva sempre no saco: a bala com que o pai dela abateu um urso em autodefesa, e a pequena pedra filosofal que me permitiu durante tanto tempo escrever histórias divertidas. E depois? Continuo a escrever. Penso que os nossos talismãs não vão trazer sorte nenhuma ao ladrão.

No demais, ficámos muito impressionados com Lisboa, e até sentimos alguma compreensão pelos larápios. Não se pode olhar para estes incidentes fora do seu contexto. Em Portugal o desemprego é muito alto, em vez de petróleo exploram vinho do Porto, o que não é coisa que qualquer um saiba fazer. Por isso, os portugueses jogam no totoloto como malucos – como se não conhecessem outra maneira de conseguir ganhar algum dinheiro. O azar é que perdem sempre. Neste momento o jackpot português já vai em muitas centenas de milhões de euros – e ninguém o ganha. Além disso, neste país há quase sempre sol. Uma luz atlântica incrivelmente forte mergulha a cidade dia após dia em tons de rosa e ouro. Em condições destas, até o mais honesto dos homens se podia tornar ladrão. Na nossa sombria Berlim dificilmente se passaria uma coisa destas – pelo contrário: aqui pode atirar o seu saco em todas as direcções, durante o tempo que quiser, por mim até pode ser no meio da multidão da Potsdamer Platz. Ninguém o rouba. E se roubar, nenhum polícia berlinense vai prometer que receberá o seu saco de volta, e muito menos com noventa e nove por cento de probabilidade. Contudo, se o seu saco for encontrado, ficará na mesma para sempre perdido em Berlim.


Nota:
Nos últimos três anos encontrámos cinco vezes uma nota de vinte euros nos Hackeschen Höfen. Caso lhe aconteça o mesmo, pode atravessar a rua, entrar nas inúmeras lojas dos arcos do S-Bahn do Hackesche Markt, e desembaraçar-se aí desse dinheiro.

15 abril 2012

este post é privado, só para certas meninas que andaram a dizer que não sei quê


Então, continuam a dizer que talicoisa, e isto e aquilo? heinhe?

(mais uma foto da série "papa-xx-.jpg")

João Quadros, sobre o peixe nosso de cada dia

(publicado aqui)

"Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) demonstram que o Pingo Doce (da Jerónimo Martins) e o Modelo Continente (do grupo Sonae) estão entre os maiores importadores portugueses."

Porque é que estes dados não me causam admiração? Talvez porque, esta semana, tive a oportunidade de verificar que a zona de frescos dos supermercados parece uns jogos sem fronteiras de pescado e marisco. Uma ONU do ultra-congelado. Eu explico.

Por alto, vi: camarão do Equador, burrié da Irlanda, perca egípcia, sapateira de Madagáscar, polvo marroquino, berbigão das Fidji, abrótea do Haiti… Uma pessoa chega a sentir vergonha por haver marisco mais viajado que nós. Eu não tenho vontade de comer uma abrótea que veio do Haiti ou um berbigão que veio das exóticas Fidji. Para mim, tudo o que fica a mais de 2.000 quilómetros de casa é exótico. Eu sou curioso, tenho vontade de falar com o berbigão, tenho curiosidade de saber como é que é o país dele, se a água é quente, se tem irmãs, etc.

Vamos lá ver. Uma pessoa vai ao supermercado comprar duas cabeças de pescada, não tem de sentir que não conhece o mundo. Não é saudável ter inveja de uma gamba. Uma dona de casa vai fazer compras e fica a chorar junto do linguado de Cuba, porque se lembra que foi tão feliz na lua-de-mel em Havana e agora já nem a Badajoz vai. Não se faz. E é desagradável constatar que o tamboril (da Escócia) fez mais quilómetros para ali chegar que os que vamos fazer durante todo o ano. Há quem acabe por levar peixe-espada do Quénia só para ter alguém interessante e viajado lá em casa. Eu vi perca egípcia em Telheiras… fica estranho. Perca egípcia soa a Hercule Poirot e Morte no Nilo. A minha mãe olha para uma perca egípcia e esquece que está num supermercado e imagina-se no Museu do Cairo e esquece-se das compras. Fica ali a sonhar, no gelo, capaz de se constipar.

Deixei para o fim o polvo marroquino. É complicado pedir polvo marroquino, assim às claras. Eu não consigo perguntar: "tem polvo marroquino?", sem olhar à volta a ver se vem lá polícia. "Queria quinhentos de polvo marroquino" - tem de ser dito em voz mais baixa e rouca. Acabei por optar por robalo de Chernobyl para o almoço. Não há nada como umas coxinhas de robalo de Chernobyl.

Eu, às vezes penso: o que não poupávamos se Portugal tivesse mar. Boa Páscoa.

Nota: O autor escreveu esta crónica segundo os princípios da Sexta-feira Santa: só peixe, sem referências a carne. E algum vinho…

a Russendisko ontem...



...foi fantástica.
Era a primeira vez depois do lançamento do filme Russendisko, o Kaffee Burger rebentava pelas costuras, mais televisão e entrevistas, e gente a querer fazer fotografias com o famoso Wladimir Kaminer. Ele estava atrás do seu balcão de DJ, bem disposto e calmo. Às vezes agarrava no microfone para cantar, ou tocava trombones e guitarras imaginários. Ou dava saltos com os braços largados sobre a cabeça. Ou - garanto que vi com estes que a terra talicoisa! - dava saltinhos de bailarina do Bolchoi. Aquele homem não existe.

Não me lembro de ter passado uma noite tão boa numa discoteca. Fantástica (eu sei, estou-me a repetir, e desta vez não é senilidade precoce, é mesmo só porque foi isso mesmo).
O Joachim comentou: "não se vê ninguém a armar-se, as pessoas estão aqui como são". Nem sequer se tinham apericaltado para a saturday night fever, vinham pelo simples prazer de dançar aquela música, tão viva e contagiante que - desconfio - é bem capaz de pôr um paralítico a saltar.

Pergunto-me como será em Lisboa, no dia 5 de Maio, com público português. E já estou a sonhar com a próxima, aqui no Kaffee Burger, em fins de Abril.

14 abril 2012

e para acabar este sábado em beleza...

Rir a bom rir por causa deste filme (encontrado na sem-se-ver)



- e depois ir dar um pezinho de salto à russendisko, para treinar aplicadamente para o grande evento, daqui a três semanas em Lisboa.



(digam-me que isto está a ser tocado em 78 rotações, por favor garantam-me isso...)

a febre planetária do "ai se eu te pego"

Cristiano Ronaldo:



Rafael Nadal:



Soldados israelitas:



E... Jesus Cristo ressuscitado:




A verdade é que, se até a Madeleine Albright dançou a Macarena na ONU...



...o melhor é não deixar a Nossa Senhora de Fátima sair de casa - sabe-se lá que músicas se lembrará de dançar na rua!

o que eu gosto de correntes...


Ó Joana Lopes: olhe que quem tem amigos assim não precisa de inimigos...
Então eu estava lá precisada de ter pelo menos nove em dez pessoas a mandar-me àquelas bandas?
Eu terei lá cara de masoquista, para me sentir feliz durante uns tempos por choverem pedradas de todos os lados?
E eis que a pergunta anterior me desperta a pior de todas as suspeitas: será que me está a chamar Saraiva - Saraiva?! Eu?! Oh, Joana!!!

Quase passei esta corrente aos meus inimigos preferidos, mas essa listinha nem às paredes confesso.
Os amigos, esses, não tenho coragem de os empurrar para uma situação de asaraivamento compulsivo. Pelo que ficamos assim. Muito agradecendo a atenção e lembrança, me despeço humildemente, com os melhores cumprimentos, e tudo, e uma piscadela de olho.

caminhante, não há Kaminer... (3)

Estava a esquecer-me de um elemento fundamental: a imagem!
Nesta nossa sociedade mediática etc. poupo-vos o bla-bla-bla mas prometo não me esquecer do multimédia nos próximos posts, e já fui acrescentar uma fotografia ao texto do Wladimir Kaminer que publiquei aqui ontem.

É esta:


O mais bonito nesta fotografia nem é .................................................... (esta parte preencham vocês, que eu sou uma mulher casada), é a legenda: "Papa-050.jpg".
A fotografia foi feita pelo filho, o Sebastian, um miúdo amoroso e brincalhão, que tem doze anos. Durante os próximos dias haverá mais fotos desta série, só para provar uma tese que me é muito querida: os filhos são os nossos melhores fotógrafos.

13 abril 2012

Roma!

(La finta prospettiva del Borromini, daqui)


Em Maio vamos passar uns dias a Roma. Será o nosso voo de despedida do aeroporto Tegel, que fechará pouco depois, quando o de Schönefeld abrir. As saudades que nos vai deixar!

Vamo-nos encontrar com amigos americanos, um casal extraordinariamente culto e divertido. Temos bilhetes para os museus do Vaticano, e eu já estou a babar mesmo antes de ouvir tocar a campainha que nos abre aquelas portas.
Tínhamos combinado ficar em casa de amigos romanos, num daqueles bairros chiques de prédios luxuosos com parque e piscina. Mas ontem os amigos americanos disseram que alugaram um apartamento com espaço para nós na Via Banchi Vecchi. Ai!

Vejo-a no mapa: ai a Via Giulia. Ai o Palazzo Farnese, ai a Galleria Spada! Ai.

Há dez anos passámos uma semana em Roma. O Joachim estava a trabalhar lá, e passámos com ele as férias escolares de Outono. Os miúdos tinham cinco e oito anos, e uma paciência de Job para aturar a mãe que lhes saiu em rifa.
Calcorreámos todas as ruas daquela cidade, e mais do que uma vez, porque eu queria ver certas igrejas, e elas arranjavam sempre maneira de estar fechadas quando chegávamos. Lembro-me do ar desconsolado da Christina, sentada nos degraus da igreja na Piazza di Sant’Ignazio di Loyola, olhando para as belíssimas casas da praça, que fazem pensar numa cómoda barroca, e do seu lamento: "esta cidade tem demasiadas igrejas..." Mas eu acertei finalmente com os horários, e entrámos, e divertimo-nos imenso a ver pelo lado errado a cúpula falsa da igreja de Santo Inácio de Loiola, pintada em técnica Trompe-l'œil. A visita à Basílica de São Clemente também foi muito divertida... Os miúdos pediram para ficar no claustro a descansar, enquanto nós visitávamos os três edifícios sobrepostos e nos deixávamos encantar por aquela sucessão de modos de entender o divino. No regresso a casa, ouvimos a Christina a combinar com o Matthias "damos as americanas ao pai e as outras são para nós" - tinham estado a pescar moedas no fontanário do claustro! Para eles, o melhor dia foi o da excursão a Ostia Antiga. Fartaram-se de correr e brincar às escondidas no meio das ruínas da cidade. Adoraram os vestígios da Antiguidade Clássica.
E um belo dia passámos pela Galleria Spada, essa que fica ao fundo da Via Banchi Vecchi. Queria mostrar-lhes o fantástico efeito de perspectiva do Borromini mas, para variar, essa parte estava fechada e só abria passados quinze minutos. Na caixa, o empregado foi muito simpático: que se era só para ver esse corredor nem tínhamos de pagar bilhete, e enquanto esperávamos podíamos na mesma entrar na galeria e ver os quadros expostos. Ora bem: eu queria era poder ver um bocadinho de parede, para descansar os olhos! Aquela galeria é à moda antiga: centenas de quadros por sala, moldura encostada a moldura, num excesso que cega. Parecia o Onde Está o Wally, com a diferença de eu não saber quem era o Wally. Ofuscada, arrisquei uma das minhas ousadias típicas: "como só temos dez minutos, será que me pode dizer onde estão os quadros mais famosos da colecção?" Entretanto, reparei que a Christina olhava atentamente, com aqueles seus olhos de águia, para todos os quadros da sala. "Caramba", pensei eu, toda predisposta a rebentar de orgulho, "esta minha filha gosta mesmo de cultura!" e ela, daí a bocadinho, muito feliz: "Descobri, mãe! Descobri onde estão escondidas as câmaras de filmar!"
Foi uma bela semana. Andámos imenso, contei imensas histórias aos meus filhos para lhes tornar agradável aquela maratona cultural, rimos imenso com o que víamos (que é a única maneira de conseguir que miúdos daquela idade aguentem uma semana inteira a passear por museus e igrejas e ruínas). Mas a minha recordação mais grata está ligada à Galleria Borghese. Depois de admirar a delicadeza de Bernini em Apolo e Dafne, de discutir se o Cupido do tecto combinava bem ou mal com a cena que observava, e de rir da barriguinha da Paulina Bonaparte, passámos à pinacoteca. Os miúdos deram o tilt: não estavam capazes de ver nem mais uma obra de arte. Eu é que não queria desistir do Caravaggio & Friends, ali tão perto. Combinei deixá-los sossegados num sítio, eles não saíam dali, e eu ia-me às pinturas. Fui, e vi pinturas fantásticas. O melhor quadro, porém, era o de dois miúdos pequeninos a jogar às cartas na penumbra do vão fundo de uma janela palaciana, sob o olhar enternecido de um guarda do museu.

caminhante, não há Kaminer... (2)




(Do livro "Não havia sexo no Socialismo", de Wladimir Kaminer)



Agrionemys horsfieldi e outras pechinchas socialistas

Nem tudo era mau na União Soviética. Se hoje me aparecesse alguém a oferecer uma troca de vinte e cinco anos na Moscovo socialista por cinquenta anos numa praia do Havai, eu recusaria. No socialismo aprendi a conhecer a utopia como a única realidade que se transformava em farsa teatral perante os nossos olhos. A princípio parecia muito realista, muito viva. Mas a luz começava a falhar com cada vez maior frequência, os chefes esqueciam o texto deles, a música repetia-se, e de repente toda a casa desabava e dávamos connosco num palco que tinha sido construído por uns malucos quaisquer numa região pantanosa. Durante todo esse tempo, o canto dos pássaros e o aplauso das multidões provinham de gravações.
Uma experiência destas deixa marcas. Já lá vão dezasseis anos, e a minha sede de utopia continua a crescer. Procuro-a constantemente e escrevo diligentemente sobre ela. E o que podia ter escrito no Havai, podem-me dizer? Talvez um estudo sobre cremes solares?
No Socialismo Desenvolvido a variedade de mercadorias era limitada. Em compensação, havia muitas mais pechinchas que as que um capitalismo desenvolvido poderia comportar. As nossas pechinchas não eram determinadas pela procura - a formação estatal de preços orientava-se pela ideologia. O povo era presenteado com os bens que, na opinião do Estado, lhe deviam ser necessários. Na economia planificada socialista, a produção de bens e serviços não dependia das necessidades, era antes resultado de uma decisão do Partido sobre as componentes de um plano de desenvolvimento geral. Estas pechinchas determinavam a vida de milhões de pessoas. Os óculos, por exemplo, eram muito baratos, tal como instrumentos musicais de cordas e gotas nasais. Também havia excesso de produção de pentes, escovas de dentes, antibióticos e puré de batata. Como resultado, muitos cidadãos tinham problemas de visão ou com os dentes, ou sofriam de queda de cabelo porque passavam a vida a pentear-se. Por outro lado, praticamente toda a população sabia tocar guitarra, a maior parte das pessoas tocava a versão clássica da guitarra de seis cordas, alguns tocavam até guitarra de sete cordas, o que exigia alguma virtuosidade no tratamento do polegar, e também, obviamente, a balalaica.
Um bom presente de aniversário na União Soviética era o tabuleiro de xadrez. Em cada casa havia pelo menos dois, pelo que um em cada dois cidadãos era campeão de xadrez. O alimento mais barato era o peixe congelado, no nosso “Gastronom” havia montanhas deles. Geralmente era um peixe sem nome, sem cabeça nem rabo, um não-peixe, que meio descongelado já deitava um cheiro horrível. A ninguém ocorria comer isto, mas era preciso dar-lhe um destino para não pôr em risco toda a economia planificada. E foi assim que os gatos se tornaram o animal doméstico mais popular do Socialismo.
Claro que nas cidades também havia cães, os chamados verdadeiros amigos do Homem. Mas davam muito trabalho e grandes despesas. Os cães não comiam não-peixe, para eles o Socialismo tinha previsto papas de trigo. A revista Amigo que, aliás, só tratava de cães, louvava as papas de trigo como a única alimentação correcta para os caninos. Dizia-se que as papas faziam de qualquer teckel um pitbull. Os cães não eram dessa opinião. Os maiores, em especial, evidenciavam-se na União Soviética pelo seu comportamento fora do normal: pareciam loucos, perseguiam gralhas, saltavam para os caixotes de lixo e ladravam esforçadamente alto. Além disso tinham graves problemas de digestão, ficavam sentados como águias durante horas e horas entre os arbustos, e os seus olhos vermelhos assustavam as crianças. Aparentemente, tudo isso eram efeitos colaterais das papas de trigo. As papas davam cabo do carácter dos cães.
A maioria dos gatos da União Soviética estava em grande forma. Não eram esterilizados como os seus irmãos e irmãs de peluche gordos que viviam no ocidente capitalista. O não-peixe tornava-os fortes, e ainda por cima excitava-os. Passavam o ano entretidos com jogos amorosos. Os machos fediam, e as fêmeas piavam como galinhas ou gemiam como bebés durante toda a noite. Todas as tentativas para os chamar à razão falhavam. Logo à primeira ameaça de uso de força punham-se a andar e nunca mais voltavam. Eram os únicos seres livres no Socialismo, tão livres que de facto nem se podiam chamar animais domésticos. Não viviam com as pessoas, mas ao seu lado. A única coisa que nos unia era o peixe congelado. Mais tarde, no exército, voltei a encontrar o não-peixe, já frito, em cima do meu próprio prato, e devo dizer que afinal era melhor que a sua fama.
Mas o animal doméstico realmente existente no Socialismo não era o gato, era a tartaruga. Por algum motivo que até hoje não consegui desvendar, uma tartaruga custava três rublos, ou seja, menos que uma garrafa de vodca ou tanto como um ramo de flores. Era habitual oferecer às crianças uma nova tartaruga em cada aniversário – ou até aos adultos. Tratava-se da tartaruga das estepes: a Agrionemys horsfieldi, que se encontra sobretudo no norte do Cazaquistão. Provavelmente tratar-se-ia de um barter, um negócio de troca no âmbito da economia planificada socialista. O Cazaquistão recebia máquinas e tomates e dava o que naquela república havia em abundância – entre outras coisas, tartarugas.
A tartaruga era o animal doméstico perfeito: alimentava-se de dentes-de-leão, defecava em quantidades invisíveis e passava a maior parte do ano a dormir. Não ladrava, não conseguia morder, e era bonita. Por serem de trato fácil e tão baratas, houve uma enchente de tartarugas, e deu-se um surto de experiências sem qualquer respeito por elas. Movidas pelo prazer e pela curiosidade, as crianças punham tartarugas debaixo das rodas dos carros e atiravam-nas pela janela para ver a quanto é que a sua couraça conseguia resistir. Quando brincavam na rua, levavam as tartarugas consigo. Muitas delas enterravam-se na caixa de areia do parque, e nunca mais eram vistas. Conheci um miúdo cuja tartaruga se escondeu num monte de roupa suja, e acabou cozida na máquina de lavar. Outro usou as ferramentas do pai para tentar desmontar a sua tartaruga. Pode-se dizer, com alguma propriedade, que as verdadeiras vítimas do regime soviético eram as tartarugas, e não os dissidentes - os bodes expiatórios do Socialismo Desenvolvido.
O fim da União Soviética foi também o fim das pechinchas. De um momento para o outro deixou de haver animais domésticos baratos. Os ricos abasteciam-se de animais exóticos, piranhas amestradas ou papagaios que falavam russo. Os pobres tinham mosquitos e bichos da madeira. A Agrionemys horsfieldi regressou ao seu território natural, a estepe no Norte do Cazaquistão. 

12 abril 2012

caminhante, não há Kaminer... (1)



Meti-me numa aventura enorme, da qual tenho andado a contar detalhes aos bochechos. Para ver se me entendem, desta vez vou explicar tudo, tim-tim por tim-tim:

Há meses traduzi para português o livro de um escritor russo, agora berlinense, que escreve em alemão. Vai sair em breve, e chama-se Viagem a Tralalá.
Já tinha ouvido falar do autor (e como não? é um dos mais lidos na Alemanha) mas ainda não tinha lido nada dele. Achei o livro muito inteligente e divertido, e deu-me imenso prazer traduzir. Como tinha algumas dúvidas sobre certas passagens do texto, tentei entrar em contacto com ele. Os meus e-mails ficaram sem resposta, mas por sorte cruzei-me com ele num sarau (o teatro cheio, o público a rir ininterruptamente durante duas horas inteiras - este Kaminer é um excelente humorista) e marcámos um encontro para a semana seguinte. Era o dia 1 de Setembro, e ele abriu a conversa com uma onda de nostalgia: "Na União Soviética, as aulas começavam sempre a 1 de Setembro. Aqui em Berlim, essa data é móvel. Coitadas das crianças, não têm uma data certa para o seu ódio." Tirei as dúvidas, falámos de Portugal, onde ele já fez férias. Mais tarde encontrei-me com a Olga Kaminer, à porta do Kaffee Burger em dia de Russendisko, para lhe dar um CD dos Deolinda, como prometera (se tiverem uma ideia melhor, digam agora ou calem-se para sempre. Sem-se-ver, eu sei: oquestrada. Vou tratar disso.), a que se seguiram alguns e-mails e encontros. Devo dizer, grata, que raramente um tradutor literário terá sido tão bem tratado pelo escritor.

O livro vai sair em breve. No jogo decisivo agenda do Kaminer x lançamento em Portugal, ganhei eu (mas não conto o truque - o Pinto da Costa é um menino do coro, comparado comigo) (ai! o que eu fui dizer ! Sem-se-ver: o Pinto da Costa é um menino do coro! o Pinto da Costa é um menino do coro!) (hihihi)
De 3 a 6 de Maio o Wladimir e a Olga Kaminer vão andar por Portugal. E eu terei a sorte de andar com eles, mostrando-lhes o país e contando-lhes as milhentas histórias que não se contam aos turistas - desde a da rainha Santa Isabel da Pousada onde irão dormir, parenta da princesa Santa Isabel da Turíngia que também fez um milagre das rosas, até ao orgulho das gentes do Marvão, que vêem as costas dos pássaros quando estes voam. E muitas outras, claro.
Por bem saber como a insularidade é triste, estou a fazer a minha parte do trabalho para ser possível uma sessão especial Wladimir Kaminer em Montemor-o-Novo. Depois conto os detalhes, mas em princípio será na sexta-feira, dia 4 de Maio, ao fim do dia, na livraria Fonte de Letras.
O grande lançamento será na Feira do Livro em Lisboa, às 19:00 de Sábado, dia 5 de Maio. A seguir, às dez da noite, vai haver Russendisko na Pensão do Amor.

Ora bem, a Russendisko: não sei se estão a ver. A Russendisko é uma daquelas histórias incontornáveis da Berlim que, após a queda do muro, se reinventa tão maluca como sempre. O Kaminer levou a Russendisko ao México, e de repente havia seis mil pessoas a dançar ("com o entusiasmo, começaram a tirar a roupa. Infelizmente eram quase todos homens."). Também a levou a um encontro nacional de católicos alemães, e comentou no seu twitter: "Os católicos são loucos - começam a dançar antes mesmo de haver música."
E agora vai haver Russendisko em Lisboa.

Tenho andado à procura de informação em português sobre o Wladimir Kaminer. Há pouca, mesmo muito pouca. Por isso, começo uma nova série:

caminhante não há Kaminer, faz-se Kaminer ao blogar

Durante as próximas semanas vou deixar aqui pequenos textos do Wladimir Kaminer, muitos deles traduzidos à pressa pelo vosso amigo Speedy Gonzalez, e todas as informações que entretanto forem aparecendo. Espero que gostem.

de poema em poema, ao encontro de um rumo para este dia

Aos saltos na net pela manhã, cruzo-me com Robert Frost a ler o seu poema "The Road not Taken". 

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other,


Ai! Ou isto ou aquilo, ou isto ou aquilo - Deus estava um bocadinho falho de imaginação naquela semana em que criou o mundo. Custava-lhe alguma coisa ter imaginado um mundo onde é possível seguir simultaneamente por duas estradas?

Robert Frost escolhe um dos caminhos, mas continua a pensar no outro. Onde é que já li isto?
Ah, Sebastião da Gama:

Trago no sangue o mistério
daquele resto de estrada
que não andei...

E era talvez ali
que eu ia ser feliz:

ali
que viriam as Fadas pra contar-me
os contos lindos das Princesas
e de Palácios
e de Florestas
que ficaram por contar;
ali que havia de abrir-se
o tal jardim
com flores que nunca morrem
ou, se morrem, há-de ser
na pujança da frescura
por medo de envelhecer...
Mas não passei além da curva...
O meu alento
já dobrou o joelho desistiu.
E eu sei tão bem que há Glória que me chama
e que tudo que digo aqui, ou faço,
é só arremedar, adivinhar,
o que, pra lá da curva que não passo,
havia de fazer ou de dizer!
E eu sei tão bem
que sem tomar nas mãos a Glória apetecida
me não contento!...

- Por que é que tu és só pressentimento,
minha vida?


Ora aqui está, mais um para o Clube dos Quase: Mário de Sá Carneiro no centro, Sebastião da Gama à sua direita, e eu à esquerda dos dois.

Quase


Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...


Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...


Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!


De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...


Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...


Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...


Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...


Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...


Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir... Onde acoitar-me?...
Os braços duma cruz
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar...


Como te compreendo, Mário de Sá Carneiro! Pois também eu sonho e adio, e me consumo na saudade do que podia ter sido.

Mas hoje deixo-me de lirismos portugueses, e vai ser assim:

Two roads diverged in a wood, and I---
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.


(Graças ao Robert Frost, que me envia pelo caminho menos percorrido, é hoje! É hoje que vou finalmente pagar aquelas facturas, escrever as outras, arrumar a minha mesa.)

Mirel Wagner


Para ouvir aqui (mas vão com cuidado, deitem pedrinhas pelo caminho para saberem como voltar para trás) (eu, apesar de ter quarenta e oito horas a correr no Digital Concert Hall, não estou a conseguir sair)

Do mesmo site: Mirel Wagner is a 23 year old singer/songwriter, born in Ethiopia and raised in Espoo, Finland. Since age 16 she's writing gloomy Blues and Folk songs, stripped down to the bone. It's just about her airy but rough voice and a minimalistic guitar picking. Avoiding theatralic gestures effortlessly her music has a unique intensity and emotional weight.

11 abril 2012

podia ter escolhido ser gay, mas em vez disso optou por envergonhar a família desta maneira

Finalmente percebi porque é que o José António Saraiva escreve aqueles textos inacreditáveis: só pode ser para se demarcar da família. Ele próprio explica muito bem aqui como é que os jovens são vítimas desse fenómeno. Espero a próxima crónica, onde ele explicará porque é que, no seu caso, o fenómeno subsiste numa idade tão tardia.

Cá para nós: tenho alguma pena dos adultos da família dele. Pois se para os contestar podia ter escolhido ser contra a guerra colonial, a tortura nas prisões da PIDE, a censura nos jornais, se podia andar de cabelo comprido, ou até decidir ser gay, afinal foi-se lembrar de os provocar publicando textos de brilhante retórica como este autêntico "todos os índios andam em fila indiana, pelo menos o que eu vi naquele elevador acho que andava"?!
Isto não se faz a ninguém, e muito menos à família que tanto nos ama.

Muito haveria ainda para brincar sobre esta crónica, mas prefiro dizer apenas algo fundamental, a propósito da frase: "O que se passa é que os gays têm cada vez menos receio de se assumirem, cada vez menos receio de revelarem as suas inclinações, tendo orgulho (e não vergonha) de serem como são."

Não é orgulho de serem como são, é orgulho de terem a coragem de se assumir como são. De terem a coragem de assumir algo que ainda há poucas décadas era motivo de prisão (e até tortura e morte) e inúmeras humilhações sustentadas pela própria Lei. Falar do orgulho deles é falar do opróbrio que sobre nós recai, por lhes termos infligido essas terríveis e continuadas ofensas à sua integridade física e psíquica. 

Pode ser que eu esteja demasiado a leste, mas não tenho notícia de alguma vez em Portugal se ter pedido publicamente desculpa aos homossexuais pelas perseguições e humilhações que lhes foram e lhes são ainda feitas. Como se a nossa sociedade ainda não se tivesse dado conta do modo preconceituoso, ignorante, vergonhoso e indigno como trata essas pessoas.
Começa a ser tempo.

"viagem a Tralalá"



Há dias recebi o pdf do livro já paginado, comecei a ler - e foi difícil parar. Está uma delícia.

O mais interessante é que o livro me continua surpreendente e muito divertido, apesar de conhecer - de a ter tocado, de a ter pesado, de a ter rejeitado e retomado, "ah, és mesmo tu que eu quero!" - cada uma das suas palavras. Também pode ser um sintoma de senilidade precoce, é verdade, mas estava capaz de acreditar que o humor  do Kaminer é tão bom que sobreviveu incólume ao meu trabalho de dissecação e transposição para outra língua.

(Eu sei, pareço uma deslumbradinha. E ainda nem contei do orgulho que senti ao ver o meu nome num daqueles livros-lindos que a tinta-da-china faz.)

10 abril 2012

adorrro o arrrr deste gato

E é apenas um de milhentos, uma de milhentas gargalhadas, neste site que encontrei no facebook.



The secret of Mona Lisa’s smile revealed!

Mona Lisa’s smile is a mystery no more.

recordações de uma Páscoa

- Um aleluia da Inês de Barros Baptista: que me perdoem os crentes, que buscam na liturgia a redenção dos pecados e na hóstia o encontro com deus, a mim faz-me sentido o mundo inteiro e cada um dos seres que o habitam morrendo e ressuscitando a cada dia que passa, faz-me sentido o céu mudando de tonalidade ao longo do dia, a comunhão de todos os seres numa essência comum, faz-me sentido experienciar deus nos gestos mais simples do quotidiano.

- Um sorriso pleno de ternura: a minha afilhada de 12 anos a esconder com os irmãos os ovos de chocolate para os pais e a avó procurarem. O tempo passa, e a vida reinventa-se de uma novidade para além de todas as expectativas.

- A segunda de Mahler, no Digital Concert Hall. Ah, a Bernarda Fink!
(ah, esse extraordinário mês de Fevereiro!)

- O paraíso, onde mais seria de esperar: segunda-feira pascal no Fim de Semana Alucinante.

começo a desconfiar dos meus poderes

Assisti ao Sporting - Benfica com amigos, num restaurante português. Três do Sporting, três do Benfica, e eu, que não percebo nada de bola mas queria comer bacalhau na telha.
Antes do início do jogo demos palpites. Sem pensar, atirei: 1-0.

Desculpem, benfiquistas, foi sem querer.
De nada, sportinguistas, foi sem querer.

(começo a desconfiar dos meus poderes, e mais ainda: por este andar, ainda acabo dentro de um aquário, a fazer de polvo Paul) 

08 abril 2012

e para acabar o dia serenamente...




(encontrado aqui)




ressurreição (2)

Anunciavam mau tempo para hoje, mas o sol não lê jornais. Acordou-me cedo, iluminou o quarto e o livro que li vagarosamente: "como se desenha uma casa", de Manuel António Pina.

Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.

A missa do meio-dia na minha paróquia era com orquestra e coro: missa solemnis de Schubert. Fui uma hora antes, para arranjar um bom lugar, e levei Rilke comigo. Abri o livro ao acaso, justamente nos poemas para frontispícios de casas:

- 1914 -
Neste ano, de destruições tão duro,
Me ergo pura, e me entrego ao futuro.


Em mil novecentos e catorze / me fizeram /
devindo ainda, em frente olhei / confiei sempre:
quem confia, permanece.


 
(Uma casa é as ruínas de uma casa - do meio de ruínas nasce a casa - "quem confia, permanece")

 
Passei ao Livro de Horas, parei num dos primeiros poemas: 

A minha vida a vivo em anéis crescentes
que sobre as coisas se estendem.
Mesmo que não feche o último,
não importa: tento.

Voo em volta de Deus, a torre antiga,
um voo de mil anos, circulando;
e ainda não sei: se sou falcão, 
tempestade, ou canto.
 
A missa começou. Poucas palavras, bela música. Mas logo no Gloria comecei a ficar irritada com duas miúdas que de pé, junto a uma coluna, palravam animadamente. Os adultos perto dela pareciam surdos: ninguém as mandava calar. "Estas crianças não têm mãe?", pensei eu, cada vez mais alemã. Tinham mãe, tinham, e estava a cantar no coro. Tive uma inspiração de pacifismo: arranjei lugares para as sentar separadas. Fiz-lhes sinal para se virem sentar, mas elas devem ter percebido a intenção, nem se mexeram. Os adultos também perceberam, e sorriram-me. Pelo menos compreendem-me, pensei, e já me custou menos aturar aquela barulheira por cima do Schubert.

"O Homem da Páscoa", dizia o padre na homilia, "tem a Páscoa nas pernas: levanta-se após cada queda, sabe que a vida não é um sofá. E tem a Páscoa nos olhos: olha para o passado e reconhece quando voltou à vida e avançou. Tem a Páscoa nas mãos: mãos de agir, de criar e dar vida. Tem a Páscoa nos ouvidos: o caminho para Deus é um caminho de escuta. Tem a Páscoa no coração: confia que não vive em vão, porque a Páscoa vive nele."
As miúdas foram-se embora. O Schubert continuou. Eu pensava na ressurreição que nos atravessa a vida: em vez de certeza, uma busca atenta e tranquila.

Depois do almoço fomos com um amigo ver o terreno onde vamos construir uma casa: aqui me ergo pura, e me entrego ao futuro.
Regressámos por um caminho junto ao lago: hoje estava especialmente belo, oferecia-se todo como uma promessa.

ressurreição (1)

Por ser domingo da ressurreição, reguei as plantas.
O maldito hibisco que me persegue desde o nascimento da Christina (presente da empresa onde trabalhava na altura) hoje teve direito a dose dupla. Quantas horas da minha vida terei já gasto a dar de beber a esse insaciável sequioso? Quero ver-me livre dele - e tantas vezes o esqueço, quase de propósito, quase má. Para me apiedar depois do ar miserável das suas folhas murchas. Passa-me a vida a ressuscitar, o malandro.  

07 abril 2012

sorria, você está a perder peso

Disseram-me que beber a água de tremoços secos (postos de molho na véspera) faz muito bem ao metabolismo e ajuda a emagrecer.
Disseram-me (outros - e é o mal de pedir duas opiniões) que tremoços secos têm alcalóides e beber a sua água é como tomar uma droga.

Ora bem: isto é um dois em um! Além de nos ajudar a perder aqueles quilitos que só existem na nossa cabeça, permite-nos atravessar os dias com um sorriso nos lábios.

Tremocinhos, cá vou eu!
(Tenho o saco na cozinha há meses, mas todas as noites me esqueço de pôr os tremoços de molho. Preciso - pelo menos até entrar num esquema de habituação - de arranjar maneira de me lembrar disso. É mesmo, até ver, o único ponto fraco desta dieta sorridente.)

06 abril 2012

Russendisko em Lisboa (3)

É oficial: sábado, dia 5 de Maio, a partir das 10 da noite. Podem marcar na agenda. Mas previno já que o Kosmonaut Petrov, se aparecer lá, é meu! (só abro uma excepção para a Rita e a Leonor)

rapaz de onze anos sugere forma para a Grécia não pôr em risco a sua estabilidade e o crescimento se sair da zona euro

A notícia que veio no DN:

Prémio económico

Rapaz de 11 anos sugere forma para Grécia sair do euro

Jurre Hermans é um jovem holandês, agora com 11 anos, e juntou-se ao coro de pessoas que apelam à saída da Grécia da moeda única. O holandês ganhou uma menção honrosa no prémio económico Wolfson para o melhor plano de contingência em caso de um ou vários estados-membros saírem da zona euro.
O jovem de Breedenbroek, no leste do país, ganhou 100 euros em vouchers pelo seu plano extremamente simples para a saída da república helénica do bloco monetário, explica o The Guardian. Herman sugeriu que os gregos deviam ser forçados a trocar os seus euros por dracmas, para que o Governo grego pague as suas dívidas com os euros que recolher.

***

Ora bem: tinham de formular a notícia desta maneira? Tinham mesmo de escrever assim?
Para já, o rapaz "não se juntou ao coro de pessoas que apelam à saída da Grécia da moeda única". O rapaz respondeu à pergunta do concurso, que era: "No caso de um Estado sair da zona euro, como pode continuar a assegurar a estabilidade e o crescimento?"
Também não acho muita graça à formulação: "o holandês" - é uma criança, não é "um holandês". Será que esta formulação é inocente? Havia necessidade?
Aqui fique dito mais uma vez: em Portugal há cada vez mais um despudorado discurso de xenofobia contra os países ricos do centro da Europa. 

A resposta do miúdo: obrigar as pessoas do país a trocar todos os seus euros pela nova moeda nacional, e com esses euros pagar a dívida. Numa primeira fase, não estão a perder nada - e o que acontecer com a nova moeda é aquilo que o país for capaz de fazer de si próprio. Eu, num momento de maior cinismo, estaria capaz de apostar que, se todas as poupanças e especialmente as grandes fortunas do país estivessem em dracmas e não pudessem ser convertidos noutra divisa, a economia nacional e a moeda iriam viver uma extraordinária fase de pujança...

A ideia parece-me interessante. Se a Grécia voltasse à dracma, era muito melhor recomeçar sem dívidas e com uma moeda que obriga todos a uma verdadeira co-responsabilização, em vez de deixar que os mais ricos ponham as suas reservas em euros num local seguro e livre de impostos, e os mais pobres paguem o preço horroroso desta crise. Eu não teria problemas em exigir essa troca de euros por dracmas às pessoas e empresas que enriqueceram à custa da corrupção e da manipulação das leis, ou às pessoas que têm um excelente nível de vida mas curiosamente nunca ganham o suficiente para pagar impostos. Incluiria um montante máximo de euros per capita que estariam ao abrigo dessa troca, para proteger as poupanças da classe média. E parece-me que os pobres não ficariam nada prejudicados por essa troca de euros que não têm por dracmas que não têm. Com a vantagem de o Estado não ter de pagar juros e capital emprestado, e poder aplicar todos os seus rendimentos ao serviço do povo grego. Depois era só preciso começar a cobrar impostos como deve ser...

...este é o momento em que bato com a mão na mesinha de cabeceira e acordo: a medida não pode ser aplicada porque os proprietários dos euros saberiam como escapar-lhe. Como souberam antes ganhá-los à custa do endividamento crescente do Estado.

(Também deve haver outra dificuldade, ligada às reservas de ouro - hei-de investigar isso.)

vinte bibliotecas e uma estante

Vinte bibliotecas privadas, e uma estante:


(Ooops! Quase ia escrevendo "vinte e uma bibliotecas", mas consegui cair em mim a tempo de evitar a anedota do ano) (e contudomente... estava a olhar para essas bibliotecas, e para este espaço onde me sento e trabalho, e numa satisfação de sexta-feira ensolarada dei-lhe o número vinte e um)

Sexta-Feira Santa

Ao contrário do que por aí se conta, naquela sexta-feira fatídica do princípio da nossa Era, os judeus não escolheram entre o Filho de Deus e um salteador.
Aos habitantes da capital, Jerusalém, foi dado a escolher entre um chefe da guerrilha contra a ocupação romana e um parolo da província - para mais, um tipo esquisito sobre o qual se contavam histórias estranhas. Eles optaram pelo que lhes era mais próximo e servia melhor os seus interesses imediatos.
No princípio da nossa Era, houve uma escolha entre "nós" e "eles". O "outro" foi entregue para ser crucificado.


(fonte)

 
(fonte)

05 abril 2012

o caso da mãe que se não tivesse filhos como estes não lhes seria boa mãe

O Matthias decidiu ir fazer um pequeno estágio de alguns dias no gabinete de um arquitecto amigo nosso, para perceber melhor em que consiste esse trabalho. Falou com o patrão, marcou a data, comprei-lhe o bilhete do comboio, fez as malas.
Na manhã em que ele saía eu não estava em casa - andava a cansar um casal de turistas que teve o azar de cair nas minhas mãos (mas desenvolveram rapidamente o tal síndroma de Estocolmo: ao fim do dia, estourados, ainda nos estivemos a encher de chocolate na Fassbender & Rausch no Gendarmenmarkt, e eles estavam gratos!) - e às tantas, ali por volta da Friedrichstrasse, toca o meu telemóvel. Era o Matthias:

- Mãe, vou sair agora de casa e estou a ligar-te para confirmar que não me esqueci de nada. 
- Deixa cá ver: tens o bilhete do comboio? as chuteiras? escova de dentes?
- Sim. Achas que me estou a esquecer do cartão de desconto para o bilhete do comboio?
- Aiiiiiiiiii, esqueci-me completamente de te dar isso!!! Obrigada por teres pensado nesse detalhe fundamental. Procura na gaveta etc. etc.

Que seria de mim sem os meus filhos para me ajudarem a ajudá-los?...

"e tente utilizar a língua portuguesa de uma forma mais suave"

Pergunta:
isso e posivel subir fotos na wikipedia poe exemplo uma de mim pra meu perfil.... como tudo artisa o conhezido têm? alguiem pode me dizer sim posso ou não , obrigado! sou novo en neste tema! quero aprender como meixer na wikipedia.. sem fazer erros e que fechem minha conta! obrigado

Resposta:
Embora seja possível não deve ser feito. Não confunda a Wikipédia com redes sociais. Páginas de usuários ou artigos não são perfis do Facebook, MySpace ou Orkut, e não devem ser utilizados para promoção de artistas. E tente utilizar a língua portuguesa de uma forma mais suave.

(encontrado no Café dos Novatos da wikipedia em português - estava capaz de apostar que só um brasileiro poderia inventar tão simpático eufemismo para apontar um erro sem ofender)

Já agora, e se ainda estão aí: fui ao Café dos Novatos ver se alguém me explica como mudar a classificação da entrada "Wladimir Kaminer" em português. Dei um jeitinho à tradução que lá estava, e agora chateia-me continuar a ler que

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A tradução deste artigo ou se(c)ção está abaixo da qualidade média aceitável.
É possível que tenha sido feita por um tradutor automático ou por alguém que não conhece bem o português ou a língua original do texto.

Ó pra isto, alguém anda a insinuar que eu tenho cara de tradutor automático. Ah, insultos é que não! Vou já fazer queixa ao simpático do Café dos Novatos que deu aquela resposta, e pedir-lhe que sugira à wikipedia que use a língua portuguesa de uma forma mais suave quando falar do meu trabalho...

Outra solução, talvez mais simples, seria alguém fazer o favor de me informar como é que posso tirar aquele aviso. E, já agora, como pôr uma fotografia mais bonitinha, que a que lá está não faz justiça ao homem (desconfio até que foi lá posta pela Olga Kaminer, para acalmar os ímpetos das fãs).

a linha e o linho



É a sua vida que eu quero bordar na minha
Como se eu fosse o pano e você fosse a linha
E a agulha do real nas mãos da fantasia
Fosse bordando, ponto a ponto, nosso dia-a-dia

E fosse aparecendo aos poucos nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, nosso amor
O ziguezague do tormento, as cores da alegria
A curva generosa da compreensão
Formando a pétala da rosa da paixão

A sua vida, o meu caminho, nosso amor
Você a linha, e eu o linho, nosso amor
Nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado a casa, a estrada, a
correnteza
O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza

Gilberto Gil

***

Diz que ele estava num hotel em Paris, e não conseguia dormir. Então agarrou na guitarra e fez isto. Imagino os turistas nos quartos em volta: "malditos brasileiros que não têm horas!"  (hihihihi)

04 abril 2012

Russendisko em Lisboa (2)

O post de hoje sobre a Russendisko do e pelo Wladimir Kaminer, um post cheio de informações sobre o que foi, o que é e o que vai ser o acontecimento do ano em Lisboa (ou quase, vá), foi escrito pela Rita. Vão lá ver.

(E só cá para nós: imaginam um escritor que vendeu, só de um dos seus títulos, 1,3 milhões de exemplares, a fazer de DJ? Isto é Berlim no seu melhor!) (ainda por cima é bonito como poucos escritores, mas essa parte da história vai ficar mais para o meio do mês, que de momento tenho muitos outros afazeres)

03 abril 2012

vocês desculpem e tenham paciência, mas se eu não disser nada...

Vocês desculpem e tenham paciência, mas se eu não disser nada ainda rebento de orgulho. O caso não é para menos.

Ó pra isto, que bonito:


E estava capaz de largar a lapalissade do dia: se lerem o livro, vão perceber porque é que tem esta capa.
(hehehe, há muito tempo que uma lapalissade não me saía tão bem)


Passo a palavra ao Goethe Institute:


Wladimir Kaminer - Viagem a Tralalá

Lançamento e Russendisko

Lançamento
05.05.2012, 19h00
Feira do Livro de Lisboa
Alemão com tradução simultânea em português
Entrada livre
+351 2188245-11
biblioteca@lissabon.goethe.org
 
Lançamento e Russendisko com a presença do autor. 
 
«Há três maneiras de ver o mundo: a optimista, a pessimista e a do Wladimir Kaminer.»

Wladimir Kaminer sentiu-se sempre atraído por terras estranhas porque, como ele próprio diz, «lá de onde eu venho a vida é imprópria para viver». Talvez o seu tio Boris tenha pensado o mesmo quando vivia banido no Cazaquistão, razão pela qual teve dificuldade em acreditar que mais tarde o considerassem um herói do trabalho e o deixassem sair da Rússia para ir conhecer Paris, a cidade do amor e da torre Eiffel. Mas o governo soviético cuidou de evitar que o tio Boris alimentasse ideias contraproducentes, e este acabou com os olhos arregalados ao descobrir o que verdadeiramente se passava naquela cidade. De olhos arregalados ficarão também dois turistas de Berlim na Crimeia, ao depararem com as botas chamuscadas de um Joseph Beuys cujo avião foi abatido sobre essa península durante a Segunda Guerra.

Viagem a Tralalá é, na verdade, uma montanha russa de viagens loucas por todo o mundo que cortam a respiração até ao mais destemido leitor.

Wladimir Kaminer nasceu em Moscovo em 1967 e vive em Berlim desde 1990. Publica regularmente textos em vários jornais e revistas alemães, e organiza eventos como a sua entretanto famosa «Russendisko». O livro com esse nome tornou-o rapidamente um dos autores alemães mais populares e solicitados.

O Goethe-Institut apoia este evento.

***

E viram que bonitinha aquela frase «lá de onde eu venho a vida é imprópria para viver»?
É minha filha. Em português, é minha filha. Deu-me algum trabalho, e por isso a reconheci à primeira - apesar de já não a ver desde o ano passado.

arquitectura de garagens



Encontrei no mural de facebook de um amigo esta fotografia, a que ele chamou

"Oporto's Guggenheim #1"

- e eu que já nem me lembrava do siloauto! Continua fascinante.

Ouvi há tempos do arquitecto Souto Moura: quando a obra é boa, é da cidade; quando é má, é do arquitecto. Ontem, na cúpula do Reichstag, ao apontar o Hansaviertel para um casal de turistas, pensei de novo nessa frase. Sei que todos eles são projectos de nomes muito sonantes da arquitectura do séc. XX, mas não os fixei - pois se essas casas são tão nossas!

Também não sei o nome do arquitecto que fez a garagem do Comércio do Porto. Nas fotografias que tirei deste site, parece que há 100 anos de diferença entre os carros e o edifício.


Pensando bem, há muitas garagens públicas com uma arquitectura excepcional. Será que, por ser um edifício inventado apenas lá para meados do século passado para uma necessidade só então surgida, foi possível partir para novas formas, sem ter de passar por alguma espécie de corte com o passado?

Na praça da Galiza em Viana do Castelo, à direita da ponte antiga quando se entra na cidade, há uma garagem que sempre me fascinou (entre outras coisas, por um cartaz do homem Michelin que lá tinha nos anos sessenta). Curioso: eu teria não mais de seis ou sete anos, e já achava que havia naquele edifício algo muito especial. Será que a qualidade, quando é grande, até aos olhos de uma criança se revela?

02 abril 2012

Russendisko em Lisboa (1)

Podem começar a ir treinando - vai ser em princípios de Maio.



(esta música aparece no filme Russendisko, que acabou de sair - até podem ver aqui no trailer, por volta do segundo 43, mas não sei se é boa ideia tentarem fazer isto em casa. Eu, de tanto treinar este abanar da cabeça, já estou com as ideias todas chocalhadas) (e os meus filhos atiram-se para o chão a rir, é muito giro ter filhos adolescentes)

imprescindível, diria eu



E acrescentaria: o melhor filme do ano. No gume da navalha entre o riso e o desespero.

(Também vimos The Artist: muito bons actores, formal e esteticamente fantástico - mas o conteúdo é fraquinho.)

dia de Portugal na Filarmónica de Berlim (3)

No fim do Édouard Lalo, enquanto aplaudíamos e o violinista entrava e saía do palco, a amiga sentada ao meu lado apontou-me o homem que lhe abria a porta para os bastidores: aquele senhor é o responsável pelas partituras, e contou-me que o Alexandre da Costa tem uma surpresa formidável para nós.
- O quê? O quê?
- Jimi Hendrix.
- Não, enganou-se de certeza!
Para tirar teimas, aplaudimos com mais entusiasmo ainda, não fosse ele desistir do encore. Ele voltou ao palco, e era mesmo Jimi Hendrix.

Gostei de saber antes, para saborear mais longamente o efeito surpresa.
(não sei se me entendem)

01 abril 2012

dia de Portugal na Filarmónica de Berlim (2)

Dia de Portugal, sim, e também das Comunidades Portuguesas que ali se juntaram para ouvir um grande concerto.

Abriu com Joly Braga Santos - provavelmente a primeira vez que se ouviu um compositor português naquela sala. A segunda peça era de Édouard Lalo, primorosamente interpretada por um violinista canadiano, Alexandro da Costa. Pensávamos que era filho de portugueses, mas não. Neto de um português, com enorme mistura de culturas na família - que resulta num violinista de uma extraordinária versatilidade e subtileza. Muito simpático, também, e com grande sentido de humor: quem imaginaria que o encore seria do "great composer Jimi Hendrix"? A sala delirou.



Depois do intervalo, a Sheherazade de Nikolai Rimsky-Korsakov.
Pena que não foi o Alexandre da Costa a tocar a parte da Sheherazade. O primeiro violino era bom, sem dúvida, mas como não seriam aqueles arabesques tocados pelo solista da peça anterior?

O maestro Cesário Costa tem uma maneira muito agradável de dirigir, suave e expressiva. Gostei especialmente da sua interpretação do príncipe Kalendar, e da princesa (aqui, pela Sinfónica de San Francisco, com Pierre Monteux).

Em suma: um programa equilibrado com um bonito toque ibérico, boas interpretações, público muito satisfeito, portugueses radiantes.

(até me esqueci dos rissóis)

1º de Abril

Esta manhã, ao ligar o computador, senti que o tapete sob a cadeira estava esquisito. Levantei-o, para descobrir que a Walpurgisnacht entrou nesta lusa casa:


O cursor não funcionava. Estranho, estranho. Era óbvio que isto era gracinha do rapaz, mas não o queria acordar. Liguei o computador dele, tem agora uma senha. Bom, o que tem de ser...
Fui ao seu quarto, acordei-o, ele soltou um "April April!" muito alegre, disse-me para virar o rato de pernas para o ar, salvo seja, e "boa noite", virou-se para o lado e continuou a dormir.
O rato tinha um papelinho colado na barriga:


Eles quando são bebés são amorosos, e tal, mas à medida que crescem vão ficando cada vez melhores.
Começo a ficar muito curiosa de me ver mãe de adultos - "the most enjoyable pleasure", dizia o outro.

hoje é dia de Portugal na Filarmónica de Berlim

Às quatro da tarde há um concerto com um maestro português, um compositor português e um violinista filho de portugueses.
Também vai haver quatro portugueses entre o público, pelo menos.
A ver se o bar serve rissóis. Devia, devia.

Mais informações: aqui, sobre o concerto, e aqui uma entrevista ao maestro Cesário Costa.

o ovo e a galinha


(fotografia encontrada aqui; vale a pena ler esse post e os comentários: 
parece que afinal há vida inteligente nas universidades)


A praxe em Coimbra foi suspensa devido a um inaceitável excesso de violência física. Se fossem ver a violência psíquica, suspendiam-na por cem anos - mas como ninguém me pergunta nada...

No meu segundo ano na universidade participei em "piquetes anti-praxe" à porta da faculdade, avisando os caloiros que não precisavam de entrar nesse dia no edifício, porque não estavam a perder nada, muito pelo contrário: lá dentro havia energúmenos a dar impunemente largas ao seu sadismo. E lembro-me bem da minha perplexidade perante os olhos brilhantes daqueles miúdos, sobretudo os das raparigas: eles queriam mesmo passar por isso!
Depois saíam com ordinarices pintadas na cara, cortes no cabelo, os casacos estragados com uma pasta de água e farinha, encharcados em água de limpar o chão, vítimas de mil e uma maldades - e isto foi há quase trinta anos, quando esse disparate que é a praxe começou a ser restaurado e a alastrar ao país - e faziam uma cara alegre, como se ser vítima de humilhação gratuita e sádica fosse um marco fundamental da sua entrada na Universidade.

No ano seguinte, vingavam-se. Nesses tempos do faroeste via-se perfeitamente como o nível de violência e sadismo aumentava de ano para ano.