12 março 2012

perpetuum mobile

Outra vez segunda-feira de manhã. Mais uma semana que começa, mais trabalho sempre novo sempre igual, mais sete vezes a pergunta "o que vou fazer para o jantar?", e tantos gestos repetidos, tantos deles vazios e tontos como a letra desta canção, uma e outra vez, uma e outra vez.
E contudo: a alegria.

(de onde vem, em que fonte bebe, que força é a sua, que atravessa manhãs cinzentas para mas iluminar por dentro?)

11 março 2012

as mãos do Thielemann, aquelas mãos...



Nocturnos de Debussy (incluindo "sereias", ao que consta a primeira vez que se experimentou um coro só em vocalizos), Messiaen (alguns Poèmes pour Mi) e a Pathétique de Tchaikovsky. Um concerto em cheio, com o maestro Christian Thielemann e o RIAS Kammerchor.

Fui ao ensaio geral na sexta-feira, e a sala estava bastante cheia. Gostei de ver lá umas cem crianças de infantários (são as que se vêem do lado direito, logo no início deste vídeo), e muitos adolescentes de várias escolas. Os adolescentes fizeram mais barulho e rebuliço que os miúdos de cinco anos mas, curiosamente, ninguém tossiu. Eu a pensar que talvez aquela sala tenha não sei quê químico que quase queima os pulmões dos espectadores, porque eles tossem como se já estivessem quase a ver as trompetes do Apocalipse, mas pelos vistos durante a manhã os químicos não estão activos. Vou ter de reformular a minha teoria.

Eu estava com uma amiga, que me falou das mãos deste maestro, e lhe imitou os movimentos com um sorriso encantado e um pequeno arpejo da voz. Fiquei atenta - e era mesmo como ela dizia: as mãos dele desenham a música com doçura. Deliciosos os momentos de piano, quando ele se esticava todo para trás na cadeira alta, deixando ondular a mão esquerda suavemente. Mas logo a seguir se erguia e agitava a batuta, ou se baixava a ficar quase de cócoras. Foi a primeira vez que vi um maestro de cócoras.

Fui assistir ao concerto nessa noite, porque o achei lindíssimo, e porque queria ver se o Thielemann se põe de cócoras quando está de casaca. Sim, põe - mais tarde, em conversa com amigos no bar, comentávamos bem-dispostos essa sua maneira de se baixar e rodar a mão esquerda como se estivesse a fazer festas a um cão. Mas também salta carregado de energia, e o seu cabelo um pouco longo acompanha o salto com algum atraso: já o maestro aterrou no estrado e ainda o cabelo vem a caminho.

A soprano Jane Archibald cantou com brio as dificílimas árias de Messiaen. Foi muito aplaudida, e numa das vezes em que voltou ao palco entrou com tanto ímpeto que um sapato lhe saltou do pé e foi bater no estrado do maestro. Era um sapato lindo, de altíssimos saltos, prateado e com cristais - ah, Cinderela!
Porque será que estas cantoras insistem em cantar em cima de andas? Afinal de contas, por baixo daqueles vestidos compridos até galochas podiam ter, que ninguém via. Será que os saltos têm um efeito especial na voz? Não deve ser: afinal a Ewa Podleś cantou que foi uma maravilha, e nem sequer estava dois centímetros acima do chão. Pois não é, com certeza: a Jane Archibald tirou o outro sapato, e cantou descalça um encore, "Le Collier". Tão bem como da primeira vez, ou melhor. Depois agarrou nos sapatos com um sorriso coquete, e saiu da sala.



Hoje à noite vai haver repetição deste concerto, que será transmitido em directo pelo digital concert hall (não sei é se a soprano vai repetir o truque do sapatinho). Garanto que não me pagam a publicidade (olha, pensando bem, podiam pagar...), mas cá vai mais um bocadinho de serviço público: Domingo, 11 de Março, às 19 horas de Lisboa. No digital concert hall, custa 10 euros e podem ver esta transmissão em directo e - durante 24 horas - os concertos que há no arquivo. 

Kony 2012


KONY 2012 from INVISIBLE CHILDREN on Vimeo.


Mais um filme recomendado pela minha filha, que me foi logo avisando que não é uma questão pacífica, porque uma pessoa se pergunta que interesses estarão por trás desta iniciativa, e se é mesmo boa ideia pressionar governos para se enviar um exército para o Uganda.
Para ver, e para pensar, de caminho, no poder de campanhas bem orquestradas que se servem do imediatismo internético.

10 março 2012

domingo, dia 11, às dez da manhã, no seu computador:



Amanhã, domingo dia 11, às dez da manhã (hora de Portugal) o Digital Concert Hall transmite em directo e gratuitamente um concerto com a Waseda Symphony Orchestra. O programa está aqui. Inclui uma peça para orquestra e tambores tradicionais.
Desta vez vai a família toda - os miúdos adoram ver estes concertos com os tambores Taiko. Espero que os tenham enormes enormes, que é quando a coreografia dos músicos fica espectacular.

(E agora me lembrei que, pateta, comprei bilhetes para o bloco G...)

Helena Araújo, aceitam-se todos os tipos de desafios, Lda.

Agora mesmo, por exemplo: estou a traduzir versos (atenção: não disse "poemas"!) de alemão para brasileiro. Onde é que eu tinha a cabeça quando aceitei fazer isto? Valha-me Santo Acordo Ortográfico, padroeiro dos tradutores mais tresloucados.



Se não tivesse o Aurélio
ia ser um caso sério


Mas como tenho, de fato
isso é o maior barato.


(Espero que o revisor
tenha sentido de humor)


***

E agora sei porque é que em 1996 entrei para uma lista de tradutores brasileiros com a intenção de aprender melhor como é que se fala no Brasil: para em 2012 poder fazer este trabalho!
(Helena Araújo, investimentos a longo prazo, Lda.)

09 março 2012

proteger a Democracia



Em Dezembro do ano passado foi noticiado que o Presidente da República, Christian Wulff, teria alguns anos antes contraído um crédito em condições vantajosas, o que fez nascer a suspeita de abuso de poder. As suas explicações foram insuficientes, a notícia de que terá tentado pressionar um jornal para não publicar a notícia tornou a sua situação ainda mais insustentável. No princípio de Janeiro, um grupo de cidadãos foi manifestar-se em frente ao palácio Bellevue, sede da Presidência. Brandiam sapatos (viva a interculturalidade) em sinal de zanga e desprezo por um homem que se agarrava ao poder como uma lapa, muito para além de todos os limites de confiança e respeito que aquele cargo exige.
As imagens chocaram o país. Entretanto, os políticos que o tinham eleito tentavam aguentar o leme sem grandes ondas (debalde, debalde). Pelo seu lado, a Procuradoria continuava a trabalhar, e quando teve material suficiente para pedir ao Parlamento o levantamento da imunidade do Presidente, este demitiu-se.

Na Alemanha, um ex-Presidente da República recebe uma renda vitalícia, e Wulff (que tem 52 anos) tem direito a cerca de 200 mil euros anuais (mais escritório, secretária e motorista). Após uns meros 20 meses como presidente, e uma saída tão sem honra como esta?! Os alemães estão perplexos e furiosos. Na impossibilidade de lhe recusar essa pensão, o Parlamento tenta, ao menos, mudar a lei para que o caso não se repita.
Também a sua despedida oficial do palácio provocou celeuma: muitos insistiram para que não se realizasse a cerimónia protocolar, com as tradicionais honras militares e uma banda de música que toca os "discos pedidos" do Presidente. Mas ele quis, os partidos que o elegeram também foram nisso, e ontem lá se fez a despedida. A seu pedido, a banda tocou "over the rainbow" e o hino da alegria, entre outros.
Muitos dos convidados não compareceram. Entre os ausentes mais notados contavam-se os quatro antigos Presidentes ainda vivos.
Sobre esta cerimónia pairavam as críticas do antigo Chanceler, Helmut Schmidt, que acusou Wulff de ter provocado graves danos no cargo que ocupou, e de ter arrastado na queda toda a classe política.
Em frente ao palácio, do outro lado do rio, nova manifestação. Desta vez com vuvuzelas, cujo som estridente se sobrepôs à música da banda.

Vuvuzelas com as cores da bandeira nacional, e um povo que exprime o seu descontentamento de forma iniludível, com frases simples e óbvias: "uma vergonha!" e "queremos dizer à elite política que nem tudo o que é legal pode ser feito" (a propósito do pensão da qual ele se recusa a abdicar). 

Eu, que sou um bocadinho "e se a sentença se anuncia bruta / mais que depressa a mão executa / pois que senão o coração perdoa", pergunto-me se não estão a ir demasiado longe. Afinal, foi um empréstimozito sem importância para comprar uma casinha, foram umas férias com amigos ricos a convite destes (depois de ter assinado um negócio público com eles, de apenas quatro milhões...), foi um telefonema parvo...

Mas não. A Democracia tem de se defender, e já se defendeu demasiado tarde.
Já não estou a falar da Alemanha, mas de um outro país onde eu, se lá morasse, estaria bem capaz de organizar uma tradição de passeio diário para os lados de um palácio que eu cá sei, de vuvuzela com as cores da bandeira nacional e sapatos bem erguidos no ar.

a minha filha mandou-me ver isto

...e eu, que sou bem mandada, fui ver e concluí que é boa ideia verem também.



Uma das frases que mais me chocou neste filme: nos EUA, 99% do que se compra vai parar ao lixo em menos de meio ano.
O que me lembra os tempos em que os meus filhos andavam num jardim infantil alemão, e as festas que lá havia. Os pequenitos passavam o dia na cozinha a fazer bolos com as educadoras, os pais também levavam alguma coisa de casa. Ao olhar para as chávenas desirmanadas em que bebíamos o chá (umas de florinhas românticas, outras de horríveis riscas em castanho e laranja, dos anos setenta, outras brancas barrocas, outras de formas minimalistas) perguntava-me em quantas casas teriam andado a pedir a esmola de umas chávenas, e ria-me por dentro. No fim da festa, metíamos a louça na máquina, e deitávamos o lixo fora: meio saquito de lixo - cascas de fruta, sacos de chá, pouco mais.
Uns meses mais tarde, numa festa na escola americana, nem queria acreditar no que via. Apesar de a escola ter apenas cinquenta crianças (em vez das sessenta do infantário alemão), uma festa produzia pelo menos dez sacos de lixo daqueles enormes: toalhas de papel, guardanapos, decoração das mesas, pratos copos e talheres, os recipientes de alumínio para transportar a comida de um "to go" qualquer, os suportes para esses recipientes com as velas para os manter quentes, as embalagens disto tudo, as garrafas de bebidas, etc.
E ia tudo misturado para o saco, não se fazia o menor esforço de separar os lixos e reciclar.
A vida vem e dá-nos muitas lições. Nunca pensei que teria saudades de chávenas horríveis às riscas em castanho e laranja - mas, no meio daquela quantidade imensa de lixo, tive.

08 março 2012

finalmente a H&M...

Finalmente a H&M encontrou um costureiro daqueles de nome vistoso (embora seja a primeira vez que vejo este "Marni") (mas a H&M fez tamanho rufar de tambores visual que eu caio que nem uma patinha, como de costume, e acredito que seja um costureiro daqueles tais)
como ia dizendo: finalmente a H&M sai-se com uma colecção chamada de alta-costura que se pode ver e vestir. Já o poder comprar é a modos assim que não sei o quê, acho que hoje por mera medida de precaução orçamental não ponho o pé fora de casa.

retalhos da vida de um coro




No ano passado comecei a cantar num coro de diplomatas (sim, estou a ver se apreendo alguma coisa por osmose), e muito gostava de saber quem terá tido a brilhante ideia de fazer um coro de diplomatas, seres que, como é sabido, vêm ao mundo com uma mala na extremidade dos braços. Ou seja: os diplomatas estão sempre a despedir-se para uma temporada em países sabe-se lá quais, e justamente quando o coro se tinha habituado a ter ali um tenor ou um baixo contínuo eis que auf Wiedersehen, auf Wiedersehen, e lá fica a home front entregue a um punhado de mulheres. Que neste momento se desunham (se desvozam?) para tentar transformar em música as partituras do Laudate Pueri de Mendelssohn. Como não somos muitas, e volta e meia falta alguém, eu aprendo ora com as contralto ora com as meio-soprano, e canto onde faz mais falta. Dizem que sou o joker do coro, e o maestro já me mandou treinar para cantar as duas vozes ao mesmo tempo. Eu rio-me, e digo que sim. Afinal de contas, já vi que é possível. É só esforçar-me um bocadinho, acredito.
A peça não é fácil. Muito menos para um coro como o nosso, fundado mais em boas intenções que numa sólida formação musical: pelo ouvido é que vamos, e nem sempre chegamos ao destino. Mas nós lutamos, e às vezes até todas na mesma direcção, e quase sempre todas ao mesmo tempo, excepto eu, que quando acerto no lá bemol do 68º compasso me dá uma alegria tal que acelero e transformo em semínimas as mínimas que vêm a seguir, e de repente lá estou eu largada em sprint, meio compasso à frente das outras.
Pergunto-me porque é que o nosso maestro - que é também compositor, e no intervalo de trabalhar connosco faz uns quantos concertos importantes - gasta o seu tempo com um coro destes. Há dias em que olho para nós e me sinto no meio de um filme: quando se começa uma discussão linguística em pleno ensaio (pronunciar Krug ou Kruk, e porquê, e como, e quando, e de onde vimos e para onde vamos?); ou quando uma das cantoras começa a dizer numa voz perfeitamente controlada e com cara impassível que esta maneira de ensaiar a deixa fora de si, que é insuportável ter de avançar quando ainda não percebeu bem o tom, que aquela linha melódica é impossível e ela não lhe vê nexo, o que a deixa furiosa e só lhe apetece desistir (comparo a letra com a música dessa cena: nada daquilo faz sentido; o maestro sorri e diz "então vamos lá ensaiar esta frase outra vez", e é mais ou menos a vigésima sete vez que a cantamos); ou quando a austríaca explica à coreana que em dominum se acentua o "do" e não o "num", "ai é? tem graça, não imaginava..."; ou quando uma ou outra cantora começa a dizer que não quer cantar aquilo, prefere outra música, e quase vamos a votos. Então ponho-me a imaginar se aquilo é um filme mais Fellini ou mais Scola, e lá me engano de novo nas mínimas e nas semínimas, ou canto um ré em vez de um si, com tamanha convicção que levo o naipe inteiro comigo, pelo que no fim peço desculpa a todos. O maestro faz um sorriso paciente e encantador, assim tipo "ainda não é hoje que te mato". Uffff, penso eu.
O perigo é a minha profissão.

Volta e meia damos um pequeno concerto. Não costuma correr mal, as pessoas para quem cantamos ficam contentes, tudo está bem quando acaba bem.

07 março 2012

na berlinda, sobre Gerhard Richter

Escrevi mais um texto sobre a exposição do Richter em Berlim, aqui em português, aqui em alemão. Na famosa berlinda.org.
(Isto de só ver uma exposição por ano é um sarilho: fico meses e meses a fazer render o peixe...)


E já que estou a falar da Berlinda: o seu cartaz é o site mais completo que conheço para ficar a saber o que acontece em Berlim por conta de artistas com ligação a países que falam português. Artistas, e não só. Por exemplo, acabei de descobrir que no dia 15 estão a combinar um encontro em português ali para os lados de Wedding, com farnel partilhado. Diz que alguém vai levar rissóis: já lá estou!

isto só pode ser uma piada de mau gosto

Alguém pode fazer o favor de me confirmar que isto é uma gracinha, tipo "inimigo publico", "the onion", algo assim?



(encontrado no facebook)

Adenda: O vídeo já foi retirado de circulação, três ou quatro dias depois de começar a ser divulgado. Menos mal - e mais uma vez saúdo a iniciativa e o poder dos cidadãos. Mas incomoda que alguém "lá em cima" tenha deixado gastar dinheiro (nosso) para concretizar uma ideia tão abjecta. Não seria caso para demitir o comissário que autorizou isto? E para ir perguntar ao Durão Barroso qual é a ideia fundadora da Europa?

06 março 2012

de bem com o mundo

Deve haver uns vinte graus de diferença entre a temperatura que pressinto ao ver o céu azul e sem nuvens que me entra pelas janelas sobre as árvores, e o frio que me ataca quando desço à rua.
Não me importo: gosto da luz densa e crua destes dias de Inverno.
Mais ainda agora, ao fim da tarde - quando o horizonte se carrega de um rosa quase violeta por trás da confusão de prata antiga dos plátanos. Aconchego mais o cachecol ao pescoço, e sinto-me de bem com o mundo.

***

Em menos de duas semanas tivemos aqui uma variação de cerca de trinta graus. Custa a crer que há apenas quinze dias a neve encheu a minha rua de árvores do algodão. Hoje são apenas árvores paradas à espera da Primavera.



 
Trinta graus de diferença: não é que tenha ficado muito quente, mas já esteve mesmo frio! Quando lá fora os termómetros começaram a andar pelos cinco graus, desligámos os aquecedores. O Einstein explica.

breviário para a quaresma (3)

Na Alemanha, há cada vez mais menores a viver em situação de pobreza. Uma vez que, nestes tempos, o grupo etário atingido em maior número e com mais forte impacto é o das crianças e dos jovens, começou-se a falar numa "infantilização da pobreza". 
Em números absolutos, há neste país 2,8 milhões de crianças e jovens com menos de 15 anos que sofrem devido a baixos rendimentos.
Este problema pode ter consequências psicossociais para as crianças, e impedir-lhes o acesso a muitas áreas sociais e culturais, ferindo de forma duradoura a igualdade de oportunidades.

(aqui, em alemão)

***

Curioso que um calendário preparado já há meses envie hoje este texto - hoje, quando por toda a Alemanha há greves no sector público para exigir aumentos salariais de 6,5 % (e pelo menos 200 euros para os grupos de rendimentos mais baixos) para compensar a estagnação do salário real que ocorreu nos últimos dez anos (o gráfico mostra a evolução do salário líquido - parte da barra em azul escuro - e a do salário real - a curva horizontal -, bem como o aumento dos impostos sobre o rendimento e das contribuições sociais - estas aumentaram imenso, particularmente na região da antiga RDA).


(fonte)

a propósito da sugestão de retirar o Houaiss de circulação

O caso é tão absurdo que parece uma anedota: querem retirar o Houaiss de circulação devido a alguns significados do verbete "cigano". Fui ver "judeu" no Porto Editora e - ai! - espero que o procurador Cléber Eustáquio Neves não leia. Nem o Porto Editora, nem o Aurélio, nem a maior parte dos outros dicionários: são o autêntico manual de maus costumes, pior que estes só mesmo a Bíblia.  (ai! Espero que o procurador Cléber Eustáquio Neves não leia a Bíblia: ainda manda alterar o milagre das bodas da Canã, em nome da luta contra o alcoolismo...)


O Manuel António Pina sugere que de caminho se purgue também a História dos seus episódios menos agradáveis. E eu rio-me, mas começo logo a dizer que não que não, porque até sei de um sítio muito central aqui em Berlim, entre uma Universidade e uma Biblioteca, para queimar esses dicionários todos, e se o Manuel António Pina me vai de tipp-ex para a História depois temos de inventar tudo outra vez.

Eu rio-me, e no entanto ocorre-me que estes gestos são importantes para promover um debate necessário.
Agradeço então ao procurador Cléber Eustáquio Neves, e apelo a todos para que aproveitemos a sua coragem um pouco louca para falarmos - calmamente, que não há necessidade de ter uma apoplexia só por causa disto - e definirmos com mais nitidez o que deve a nossa sociedade inscrever no verbete "dicionário".

Por exemplo: um dicionário é um espelho ou um educador? Deve eventualmente criar-se uma nova classificação (biased, em inglês - bem gostaria de lhe encontrar um bom correspondente na nossa língua) que alerte para o conteúdo racista, xenófobo, machista ou outros, de determinado uso da palavra?


Adenda - muito a propósito, um post do Vítor Santos Lindegaard:

A língua: elemento de identidade, mas nem escantilhão nem espelho da cultura

05 março 2012

tão errada como as outras



Porque o Chico anda a dar concertos no Brasil, e eu aqui, e as minhas amigas vão, e eu não, e por essas e por outras hoje pensei outra vez naquela Thaís Gulin por quem ele se havia de ir embeiçar (tenho provas: 1 e 2) e que está na cara que é a moça errada para ele (3 e 4), e então pergunto: havendo tantas moças erradas neste mundo, porque é que ele foi logo justamente cair por aquela? Também podia ter caído por mim, não lhe sou menos errada que as outras.

(a minha sorte é que tenho aí uma caixinha de ibuprofen que faz maravilhas)

Daniel-Lesur

Do Cantique des Cantiques (1953):



J'entends mon bien-aimé:
voici qu'il arrive
sautant sur les montagnes,
bondissant sur les collines.

Gostava de ter encontrado no youtube algumas das passagens de que mais gostei nesta obra, para mostrar aqui no blogue. Não encontrei, mas deixo o aviso: muito bom.
Começo a correr grandes riscos de me converter a estas modernices da música!...

Eric Whitacre

Reincidi, como previa. E saí do concerto de ontem ainda mais encantada que do ensaio geral.
(Esta descoberta surpreendente até me lembra o que dizia um dos músicos da Filarmónica: nós somos conhecidos pelos nossos concertos, não pelos nossos ensaios...)


No bar dos artistas encontrei uma velha conhecida, com o seu filho. "Sabes quem é esta senhora?", perguntou ela ao rapaz. Eu atalhei: "aquela que em Abril do ano passado andou a pedir a meia Berlim uma partitura do When I'm Sixty Four para quatro vozes", e ele riu-se (pois, era uma das vítimas) mas a mãe corrigiu: "A que recebeu oito pessoas em casa, para o encontro de Taizé".
A fama que uma pessoa ganha! As empregadas da cantina do trabalho do Joachim chamam-lhe "pai do albergue" (e aviam-lhe o prato um bocadinho melhor que aos outros), e agora eu, na Filarmonia...

Como de costume no fim de um concerto, o bar estava cheio de gente com os olhos muito brilhantes. O maestro andava de um lado para o outro, dava e recebia palmadinhas nas costas. Anotem este nome: Peter Dijkstra. Não percam um concerto dele, se passar na vossa cidade.

Sentámo-nos com uma das cantoras a passar o concerto em revista, e de qual gostaste mais? ah, isso é que é difícil de dizer! e o Peter Dijkstra devia ter ficado em Berlim, mas ofereceram-lhe condições tão vantajosas em Munique... é pena, é pena. eu gostei imenso do Eric Whitacre, ah, sim, com certeza. esse é o dos coros na internet, lembram-se?

Lembrava, claro, mas não tinha ligado o nome. Em casa fui ver. É este:




O programa do concerto diz que há muito passou de segredo de insiders para ícone da música contemporânea, que é actualmente o guru da música para coros:
"A sua música, que faz passagens tão ousadas quanto conseguidas entre exigência e prazer, entre arte e divertimento, vicia as pessoas". (...) A receita: técnica afinada, sons fáceis, uma opulência de harmonias que, apesar de permanecer próxima da tonalidade, não teme golpes dissonantes e sons de cluster, sem nunca assustar realmente, vivendo de um instinto bem ao gosto hollywoodiano para efeitos associativos e altamente emocionais, para conflitos e happy endings.
As minhas influências mais importantes são Debussy, Ravel, Poulenc, e vários outros compositores franceses, mas também John Adams e Arvo Pärt. E Björk ou Radiohead - informa Whitacre, sentando-se assim entre todas as cadeiras, ou seja, no local exacto dos Crossovers."

Encontrei neste site um vídeo encantador. Também fiquei a saber que vem a Berlim dirigir um dos melhores coros da cidade, em meados de Abril. Esta cidade é um stress: estou a ver que tenho de regressar das férias da Páscoa mais cedo, para poder ir ao concerto. Aliás, é sempre assim: de cada vez que saio por uns dias, acontece cá alguma coisa imperdível.

Adenda (obrigada, sem-se-ver):

04 março 2012

voltar aos lugares onde já se foi feliz



Reincidi.
De manhã, a exposição "Panorama" do Gerhard Richter. A ver se percebo bem todas as essências...
Íamos preparados para uma boa hora de espera à porta, mas eles tinham aberto de surpresa uma hora mais cedo. Eu bem digo que a sorte...
Infelizmente não fomos os únicos a decidir ver esta exposição a um domingo de manhã. O café na roulotte à porta já custa 1,5€ em vez de 1€, as salas estavam demasiado cheias, as pessoas acotovelavam-se em frente aos quadros, e não estavam tão simpáticas como da primeira vez que lá estive. Decididamente: à semana, a meio do dia, é muito melhor.
Mas mesmo assim valeu a pena, especialmente em frente a este quadro, que se chama "a estudante" (até fiz uma fotografia do detalhe que o prova: tem óculos), quando ouvi uma mãe explicar aos seus filhos: "esta menina está sentada sem cuecas".




Fizemos nova série "nós por Richter". Gosto muito do efeito dos vidros: a aparente transparência das saias e aquelas pernas quase até ao pescoço.



 
  



Isto que à primeira vista parece uma cena incrivelmente romântica, "ah, nós e Paris...", são duas miúdas que só alugaram um aparelho áudio.


No fim, fomos para a loja do museu, que tem um complemento muito interessante para esta exposição: o Atlas do artista, que folheámos para visitar de outra forma algumas das obras mostradas na exposição. O Atlas é uma colecção de fotografias e esboços, com milhares de imagens, que ele foi organizando ao longo da vida. Nele se vê, por exemplo, uma série de fotografias onde a sua segunda mulher, Sabine, está a ler. Uma delas deu origem ao famoso "a leitora".
Também tinha um livro de John Cage chamado Silence - e eu abri, só para ver se as páginas estavam em branco. Não estavam.  

Daqui a bocadinho vou reincidir outra vez, e voltar à Filarmonia. É que o concerto do RIAS Kammerchor é mesmo muito bom, e o ensaio geral soube-me a pouco. Quero ouvir outra vez a música de Escher para um poema de Emily Dickinson:

To make a prairie it takes a clover and one bee,
One clover, and a bee.
And revery.
The revery alone will do,
If bees are few.

E o cântico dos cânticos, de Yean-Ives Daniel-Lesur. E as canções tão divertidas de Poulenc (nunca tinha ouvido um cantor profissional a arrotar no palco, mas é assim que eles terminam a Chanson à boire).

E mais esta, de Whitacre:

hope, faith, life, love, 
dream, joy, truth, soul

e.e. cummings

03 março 2012

mundos outros


No domingo passado fomos a uma feira de vinhos, e como a sorte continua apaixonada por mim (garanto que não sei como é que estas coisas me acontecem!) não demorou muito até nos vermos sentados à mesa de um stand de vinhos franceses, com um pratinho de Pata Negra bem cortado e algumas garrafas de Bordéus e Borgonha que andavam entre os 80 e os 180 euros cada uma. É que se não tivesse estado lá, não acreditava.
Eu pensava que não saberia distinguir entre vinhos de, digamos, vinte euros, e vinhos de duzentos. Mas se calhar sei: quando é extraordinariamente equilibrado, quando parece que não pode ter passado pela terra, nem pelo lagar, nem pelas barricas (mas, atenção, não estou a falar daquelas beberagens tecnicamente perfeitas que eles inventam para os lados de Napa e Sonoma), em suma: quando é um vinho que parece que não é deste mundo, pode ser que seja um desses mesmo bons.

A sorte? Deu-lhe paixão assolapada! No fim da feira, ofereceram-nos todas as garrafas abertas. Trouxemos para casa três caixas com restos e restinhos, e também garrafas quase cheias de alguns dos vinhos mais preciosos. Como já estão abertas, tivemos que as aviar e a eito, começando pelo mais caro. Foi uma semana de stress, mas nós não viramos as costas aos desafios...

A sorte, dizia eu? Hoje assisti a um ensaio do RIAS, para o concerto de amanhã. Cantam a capella, e é um concerto lindo. Tal como aquele vinho de duzentos euros: não é bem deste mundo.



i thank You God for most this amazing
day:for the leaping greenly spirits of trees
and a blue true dream of sky; and for everything
which is natural which is infinite which is yes

(i who have died am alive again today,
and this is the sun's birthday; this is the birth
day of life and of love and wings: and of the gay
great happening illimitably earth)

how should tasting touching hearing seeing
breathing any--lifted from the no
of all nothing--human merely being
doubt unimaginable You?

(now the ears of my ears awake and
now the eyes of my eyes are opened)


e. e. cummings

breviário para a quaresma (2)

Penso que a China se encontra num momento muito interessante. O poder e o centro, tal como são comummente entendidos, desapareceram repentinamente devido à internet, à política mundial e à economia. A tecnologia da internet tornou possível libertar as pessoas dos antigos valores e sistemas – algo que nunca antes foi possível.
Estou inteiramente convencido que a técnica criou um mundo novo... Vivemos um tempo realmente fantástico.


Ai Weiwei







(de um calendário de quaresma, do Misereor)

02 março 2012

"mas que voz!"



Carlos,
Obrigada pela sugestão para o concerto com a Ewa Podles! Foi ontem, na Filarmonia. Cantou apenas uma ária (a que começa neste vídeo no 27º minuto), e deixou toda a sala rendida. A sua voz, quase masculina, começou por me surpreender, para logo a seguir me encantar: que modulação! E que impressionante interpretação da mulher que procura o seu noivo no campo da batalha. Mais que uma mulher, parecia que daquele chão se levantava toda a terra russa em busca do seu jovem noivo.
Na cadeira ao meu lado, um russo chorava. No fim, pediu-me o programa, perguntou-me quem era a cantora. "Ewa Podles?! Polaca?!" - estava para lá de tudo, incapaz de apreender mais do que o milagre daquela voz. "Mas que voz!", repetia ele uma e outra vez. Mesmo depois do intervalo, ao sentar-se, de novo: "mas que voz!"

Assustou-me ver a dificuldade com que se move. Subiu os degraus do palco lenta e pesadamente, muito a custo. No fim, quando voltou à sala, já não subiu ao palco. Que se passará com ela?


Paulo,
o Eisenstein persegue-me (e eu gosto): depois do Outubro, com o Frank Strobel e a Rundfunk-Sinfonieorchester Berlin,  no Friedrichstadtpalast, ouvi ontem a música que Prokofjew fez para o "Alexander Newski", de 1938, com a Deutsches Sinfonie Orchester Berlin e o seu novo maestro, Tugan Sokhiev. Por vezes fechava os olhos e imaginava como seriam as cenas de Eisenstein em diálogo com esta música. Mas o mais curioso foi sentir a xenofobia e o nacionalismo a atravessar descaradamente as frases musicais: a dureza dos sons dos alemães, o lirismo dos russos. Por esses dias, o Estaline já não estava muito virado para a Internacional...

Depois do intervalo tocaram a quarta sinfonia do Schostakowitsch. Comecei a olhar para a porta, ali tão perto, tão tentadora. Lia no programa que o seu autor terá dito "Não fujo às dificuldades. Pode ser mais cómodo e seguro avançar por caminhos já feitos, mas é maçador, desinteressante e inútil", e lamentava que ele tivesse escolhido ir a corta-mato. Mais à frente lia sobre a opção de uma orquestra gigantesca, embora desnecessária, tentava perceber do que ouvia o que era gigantesco, e porquê desnecessário, lembrava a crítica do Karajan (tu sabes, daquela conversa no bar dos artistas), que dizia que os programas deviam ser abolidos, porque as pessoas se põem a ler aqueles disparates em vez de ouvir, e se lêem que no terceiro andamento há um rufar dos tímbales ficam o tempo todo à espera do rufar dos tímbales e no fim é o que levam desse concerto: um rufar dos tímbales no terceiro andamento.  
Mas fiquei até ao fim, e ainda bem que fiquei: gostei muito do segundo andamento, e daquela marcha fúnebre no início do terceiro, cujo tema vai passeando pelos vários naipes.  

No programa tinham também uma imagem da montagem vertical de uma sequência: tom e imagem. Por sorte encontrei algo semelhante na internet:


  (daqui)

Agora estou a pensar se vou ouvir o Thielemann no próximo domingo, ou se compro por 10 euros 24 horas no Digital Concert Hall e ouço a transmissão directa em casa, e aproveito para vasculhar mais um bocadinho naquele arquivo. 

a nova Brasileira em Coimbra: arte x café


No facebook, um amigo comentava: reabriu assim porque não conseguiram pô-la mais feia. Hahaha.

Mas eu saúdo a originalidade da ideia de confrontar o minimalismo branco com o barroco dos móveis. O uso de uma cor homogeneizador para libertar a essência das formas. O espaço democrático igualitário, onde cada pessoa inscreverá a sua cor. O painel com a fotografia dos grãos de café a preto e branco, sim, preto e branco: que melhor alegoria para as conversas de café?

(Isto sou eu a tentar uma carreira relâmpago como crítica de arte contemporânea. Dêem-me uma lixeira, devolvo-vos uma peça que vale milhões!)

Quase a propósito, aqui vai um bocadinho de uma entrevista de Gerhard Richter, num suplemento do jornal "Die Welt", aquando da inauguração da sua exposição Panorama em Berlim (aqui, em alemão):

- (...) não pode levar a sério pessoas que pagam vinte milhões de dólares por um quadro seu?
- Nos últimos anos deixei de ser tão sensível a isso. Recebi da Art Basel um caderno, uma espécie de revista para os super-ricos, que mostra em que é que essas pessoas gastam o dinheiro. Fortunas imensas para as suas jóias, as casas, as festas e os iates. Irreal, e repugnante. Foi então que me ocorreu que o dinheiro que pagam por um quadro se pode ver como um investimento quase razoável. Mas a ideia de entrar na casa deles e ver onde têm os quadros pendurados, isso é que nem pensar. 

01 março 2012

salvar a rádio

Mais um texto para assinar, cujo link me chegou esta manhã. Está tão bem formulado, que até pedi ao Speedy Gonzalez para dar aqui uma mãozinha e traduzir (o melhor que puder, e desculpem qualquer coisinha) este belo naco de prosa da cidadania.


Iniciativa para a Cultura na Rádio


Carta Aberta 


Cara Senhora Intendente,

as informações que nos chegam das redacções da WDR 3, e também da imprensa, sobre novos cortes no programa não nos provocam a menor preocupação, porque temos a certeza de que não autorizará projectos tão mal pensados, e acabará com eles de uma penada: o corte de 32 minutos de noticiário político em "Journal", o desaparecimento de um espaço semanal para música e literatura, a transformação do actual magazine cultural "Resonanzen", transmitido todos os dias úteis, num programa de repetições, e o fim do programa dos domingos "Resonanzen weltweit" dedicado ao estrangeiro - para referir apenas algumas das "bagatelas" anunciadas por esta reforma. 

Esperamos que, na qualidade de Intendente, se sinta obrigada a respeitar a missão do serviço público, e não perca de vista a proporcionalidade dos meios: o que se pouparia na rádio WDR 3 não passa de uma gota no oceano dos custos de transmissão televisiva de jogos de futebol profissional, ou do custo dos processos de autodescoberta de caríssimos moderadores nos programas da tarde, financiados pelas taxas da rádio e da televisão - para dar apenas dois exemplos.

Já as modificações realizadas nos últimos dez anos na WDR-Rádio Cultura representam uma grande fragilização: o feuilleton político do "Diário Crítico", os saraus literários, as recensões, as gravações originais em "Documentos e Debates", programas de debate como "questões do tempo, questões polémicas" ou "conversas no posto emissor", bem como features e leitura de textos literários - tudo isso foi cortado, encurtado, desmontado ou passado para outra plataforma.

As consequências desta política são catastróficas. Um programa cultural empobrece, e nem sequer é verdade que a opção de reduzir os programas específicos de qualidade para aumentar a música de fundo permite ganhar mais ouvintes. Pelo contrário: o número de ouvintes baixou. Por esse motivo, também a Senhora Intendente terá de concluir que a transformação paulatina de um programa cultural exigente em tranches de consumo fácil  ("culture to go") é mais do que apenas um processo nocivo: é um fracasso. E a continuação de uma ideia errada não resolve os problemas que criou. Estamos, portanto, convencidos, que os novos planos para desfazer o WDR 3 já foram há muito atirados para o seu caixote do lixo. Só falta que o afirme publicamente. E imediatamente. Sublinhando também, por exemplo, os seguintes cinco pontos como critérios básicos da sua política de programação:

1. A Rádio Cultura deve estar virada para o ouvinte; não lhe deve ser demasiado banal nem o deve contentar, mas despertar o seu interesse, mostrar conexões e oferecer perspectivas invulgares. A Rádio Cultura dá vida a um conceito abrangente de cultura.

2.  Para isso, a Rádio Cultura tem de levar muito a sério o objecto das suas notícias e reflexões, e confrontar-se com a complexidade dos temas. O que exige não apenas autores e redactores competentes, mas também a defesa dos espaços de emissão adequados.

3. A Rádio Cultura tem de dar impulsos. Transmite cultura, produz cultura e faz parte da cultura. Conflitos, controvérsias e temas explosivos são-lhe intrínsecos. Não pode oferecer apenas serviços, porque a arte, a literatura, o teatro, a música e a ciência são mais do que meros bens de consumo. A análise e a crítica acompanham e promovem o desenvolvimento cultural.

4. A Rádio Cultura oferece orientação sobre problemas do presente e do futuro, apresenta possibilidades de acção. É um médium contemporâneo. A limitação da política aos noticiários de hora a hora é insuficiente.  

5. A Rádio Cultura abre perspectivas especiais sobre a política, o que exige espaços de emissão tanto locais como globais para noticiários, comentários e análises. Por esse motivo, a rádio pública tem uma rede de correspondentes, e não deixa a formação da consciência política apenas nas mãos das empresas de comunicação nacionais e internacionais.

Para a WDR 3, isso significa que:

- os programas sobre política se mantêm e são alargados;
- as análises, as críticas e os noticiários culturais são reforçados - por meio do apoio à competência em cada área e da criação de novos espaços de emissão (em vez de novos cortes);
- se mantém e desenvolve o magazine cultural "Resonanzen", concebido como feuilleton, com o seu olhar sobre o mundo a partir da perspectiva cultural e política (em vez de o transformar num programa de repetições);
- os programas de música e literatura não serão reduzidos.  

A WDR 3 devia marcar pontos com a sua especificidade, apostar de novo em documentações e produções culturais nos períodos de emissão mais vantajosos - e fazer gala disso.

Com medidas como estas poderia responder às críticas infelizmente merecidas que apontam para os crescentes empobrecimento, superficialidade e até imbecilização dos programas da rádio pública. A prova do contrário está nas suas mãos.

Colónia, Fevereiro 2912

breviário para a quaresma (1)

Muitas vezes gostaria de não ser uma rapariga africana, mas uma libra inglesa...
Uma moeda tem a liberdade de viajar para um país seguro, e nós temos a liberdade de a ver partir. É isto o triunfo dos homens, a que se chama globalização. Uma rapariga como eu é controlada à chegada, mas uma libra pode saltar por cima da cancela e escapar aos homens em uniforme com boné, para entrar num táxi que já está à espera.
- Para onde quer ir, Madam?
- Para a civilização ocidental, e depressinha.

Little Bee

***

Nesta quaresma, a Misereor envia todos os dias por e-mail um pequeno texto (eu recebo em alemão, inscrevi-me aqui) subordinado ao tema "Viver com dignidade. Dar às crianças um futuro". Em vez de nos propor as habituais privações voluntárias desta época litúrgica (não beber álcool, tornar-se vegan por umas semanas, não comer doces, ou outros do género), propõe que tiremos uns minutos por dia para pensar num futuro diferente: construído pela atenção aos outros, a disponibilidade para agir, a procura da justiça, a abertura para mudar de vida, a resistência.

tudo tão bonito, Rita

"Tudo tão bonito, Rita" era o comentário que queria escrever no post the museum of me, no - como já adivinharam (e que outro blogue podia ser?!) - Boas Intenções.

Mas ele não me aceita comentários. Nem como conta google, nem como nome+URL, nem como anónima.

Também me acontece com outros blogues.
Por isso aqui deixo um aviso-ameaça à internet: vocês vejam lá o que andam a fazer, porque por este andar ainda recomeço a telefonar aos amigos!

29 fevereiro 2012

vendo as coisas de lá para cá...



Na Jonasnuts encontrei hoje um vídeo que me surpreendeu. Grande truque! Vejam até ao fim, garanto que vale a pena gastar esses dois minutos.
Fiquei a pensar em qual das leituras me sinto tentada a acreditar mais facilmente. Depois conto a que resultados cheguei. Para já, uma conclusão rápida: há de tudo neste supermercado de Deus...

o que eu gosto desta cidade!

(mesmo quando chove)
(e se chove! "mai plou prou" não é propriamente o problema de Berlim)








28 fevereiro 2012

a internet tomando sempre novas qualidades

Na Alemanha, o youtube não passa uma série de vídeos que estão protegidos por direitos de autor.
É insuportável: os amigos dizem "ouve isto!", eu vou ouvir, e dou com um écran preto. Não me importava de ter uma espécie de conta corrente no youtube para pagar os vídeos que vejo - não quero roubar nada a ninguém, só queria poder ver os vídeos de que se fala por aí.
Para contornar o problema, costumo escrever o nome do artista e o da canção no google, escolho "vídeos" e procuro nos outros sites de filmes.
Hoje tentei isso, e dei-me conta que o google já não tem "vídeos", só tem "youtube".

O google que se cuide: agora começa a ir longe demais. Se quer deixar de ser uma boa máquina de busca, pois muito bem: teremos de recorrer a outros serviços.

A propósito: por onde andará o Altavista? (olha, olha, o Altavista tem a opção "vídeos", olha, olha, via Altavista encontrei num instante o que queria!)

bom dia!

A minha manhã começou com um e-mail muito especial, de alguém que está a passar uma difícil fase na sua vida e tenta atravessá-la com dignidade e optimismo. "Acredito mesmo que a vida só nos impõe aquilo que conseguimos suportar", diz ela, acrescentando logo a seguir palavras de compreensão para quem não consegue, por um ou outro motivo, carregar o seu fardo. Como a compreendo! E quantas vezes já olhei para trás e me perguntei com surpresa de onde me terá vindo a força para o tanto que carreguei.
Pensando nela, e também num amigo muito querido que não desiste de procurar a água no deserto que vem atravessando há anos, aqui deixo um bocadinho de serenidade:



É a Dame Janet Baker, acompanhada ao violino por Mr. Darcy (sim, aquele violinista só pode ser o Mr. Darcy).


Morgen!

Und morgen wird die Sonne wieder scheinen
und auf dem Wege, den ich gehen werde,
wird uns, die Glücklichen sie wieder einen
inmitten dieser sonnenatmenden Erde…
und zu dem Strand, dem weiten, wogenblauen,
werden wir still und langsam niedersteigen,
stumm werden wir uns in die Augen schauen,
und auf uns sinkt des Glückes stummes Schweigen...


Uma tradução possível (tirada daqui, onde há outras)

Tomorrow!
 And tomorrow the sun will shine again
And on the way which I shall follow
She will again unite us lucky ones
As all around us the earth breathes in the sun
Slowly, silently, we will climb down
To the wide beach and the blue waves
In silence, we will look in each other's eyes
And the mute stillness of happiness will sink upon us

 Já há dias tinha posto aqui a mesma canção, mas por Jonas Kaufmann e Helmut Deutsch.

27 fevereiro 2012

e o Óscar vai para...

Os fantásticos livros voadores do senhor Lessmore (melhor curta-metragem de animação):

25 fevereiro 2012

Digital Concert Hall

(foto daqui)


Mão amiga (ah, o que eu esperei para poder começar um post assim: "mão amiga") enviou-me uma crítica no NY Times sobre o concerto que a Filarmónica de Berlim deu no Carnegie Hall, e que nós tínhamos visto no dia 14 aqui na filarmonia.
O quê?!, pergunto-me eu, então eu não reparei que "in this context Debussy seemed the most radical of all. The barely contained eroticism of the score came seeping through the beguiling, dreamy surface in this plush, taut and boldly spacious performance"?!
Tenho de regressar a esse concerto, e agora com ouvidos de ver.  

E é aqui que entra o momento de publicidade (*) ao Digital Concert Hall, que permite ver via internet (no computador ou na televisão) concertos na Filarmonia de Berlim. Fazem cerca de 30 transmissões em directo por ano, e têm um arquivo cada vez maior com excelentes concertos, documentários, entrevistas, etc.


Um passe de 48 horas, que dá direito - durante esse período, ou seja: 48 horas consecutivas - a um concerto em directo e acesso a todos os arquivos, custa 9,90 €.
Uma assinatura mensal, automaticamente renovável mas que pode ser cancelada em qualquer momento, custa 14,90€.
E a assinatura anual custa 149 €.

Ontem ao fim da tarde comecei a saborear as 48 horas de música, e já não quero outra coisa. Isto é incomparavelmente melhor do que andar a calcorrear o youtube em busca de gravações com qualidade e sem interrupções. E agora mesmo vou ouvir o Debussy, que a crer nos americanos está pejadinho de erotismo, quem diria.

Algo me diz que vou perder o amor a 14,9 € por mês.


(*) Enfim, nem sei bem se é publicidade, se é serviço público.

delirar é preciso

Apesar de um ou outro (*) devaneio, continuo parada pelo Elfenlied de Hugo Wolf (primeiro excerto que aparece neste vídeo).
Ai, este aiapopaia aiapopai...
(que em alemão se escreve eiapopeia mas, se eu escrevesse assim, depois iam ouvir o vídeo e não sabiam do que é que eu estava a falar) (isto até parece aquela discussão que anda por aí sobre ler pizza, pronunciar pisa, e eventualmente escrever em português "piteça" - puseram-se a mexer na ortografia, abriram a caixa de Pandora, e um dia destes até eu começo a ter dúvidas se devo escrever correctamente ou corretamente - que é como quem diz: irradamente...) (estava a brincar, escusam de bater)

Adiante. O que eu cá vinha dizer é que no ensaio geral deste concerto vi a Camilla Tilling a cantar com um vestido Boden igualzinho taliqual ao meu (que comprei numa daquelas incursões que faço aos descontos de 70%). Mas não coincidimos nos mocassins: ela estava de botas. 
De onde se conclui que ainda me falta muito para chegar a cantora lírica. 


(*) Para que este post não seja apenas um delírio pateta, aqui vai um bocadinho de serviço público:
Gravação pouco conhecida com  Zeca Afonso e Fancisco Fanhais, divulgada aqui, onde se pode ler: 
"República" foi gravado em Roma, em 30 de Setembro e 1 de Outubro de 1975, nos Estúdios das Santini Edlzioni. Álbum de solidariedade para com o jornal República e a Reforma Agrária, editado em 1975, com interpretações de Zeca e de Francisco Fanhais. Editado por iniciativa conjunta do Manifesto e das organizações Lotta Continua e Vanguardia Operaria, nunca foi distribuído em Portugal. O produto da venda dos discos destinava-se ao apoio da Comissão de Trabalhadores do Jornal "República" ou, caso o jornal fosse entretanto extinto, ao Secretariado Provisório das Cooperativas Agrícolas de Alcoentre.
Inclui um tema inédito, Foi no Sábado Passado, escrito a propósito de uma manifestação de solidariedade com a revolução portuguesa, realizada em Roma. Os outros temas são Para não dizer que não falei de flores, do brasileiro Geraldo Vandré, Se os teus olhos se vendessem, Canta camarada, Eu hei-de ir colher macela, O pão que sobra à riqueza, Vampiros, Senhora do Almortão, Letra para um hino e Ladaínha do Arcebispo." - Viriato Teles

(encontrado no mural do facebook de um amigo)

24 fevereiro 2012

saudades

O meu amigo foi-se embora ontem, e todos cá em casa sentimos a sua falta, depois destas duas semanas de vida boa partilhada.
Eu, então: quem me fará agora um café às dez da manhã, com quem cantarei o Avé Maria com terríveis portamentos e intervalos de terceira esganiçados entremeados de gargalhadas, quem me ensinará as notas certas do princípio de ich bin der Welt abhanden gekommen? Como olharão para mim o Caspar David Friedrich e o Karl Friedrich Schinkel da Alte Nationalgalerie, se já não tenho os olhos dele para me ajudarem a ver?

E além disso Berlim ficou cinzenta, e chove.

já que por aqui se tem falado na responsabilidade dos cidadãos...

Eis outro exemplo de como é possível fazer mais do que simplesmente encolher os ombros e lamentar com desprezo que "são todos iguais, este país não tem conserto..."

Eu vim para cá, pretensiosamente, propor a vocês uma revolução. No caminho, mais ao estilo brasileiro, pensei numa reforma. E numa crise de humildade que acomete os jornalistas ao sábado, quando eles não trabalham, eu quero propor mesmo é uma reflexão que talvez - quem sabe - se transforme numa mobilização mais tarde.

(são quinze minutos, mas valem a pena: este Juca Kfouri combina muito bem bom humor com seriedade)

portugueses em Berlim

Ontem conheci alguns leitores deste blogue.
E é sempre a mesma sensação de vertigem: eles existem, eles são reais, aimêdês, que responsabilidade!
Um dia destes ainda passo a escrever os meus posts debaixo da cama.

***

Foi numa reunião de um grupo chamado Portugueses em Berlim, que junta pessoas com ideias para ajudar, animar e pôr em contacto os portugueses que vivem nesta cidade. A reunião de ontem foi extremamente produtiva: 2012 promete! Nestes momentos, fico sempre surpreendida com a disponibilidade e a generosidade das pessoas. Sendo tão mais fácil ficar em casa à espera que outros façam, estes dão-se ao trabalho de percorrer longas distâncias para virem a reuniões intermináveis de onde sairão comprometidos para muitas horas de trabalho.

Ontem, ao olhar para aquelas caras, vi pelo avesso o meu país sangrado de tantas pessoas inteligentes, flexíveis e dinâmicas.

23 fevereiro 2012

Elfenlied de Hugo Wolf

No concerto do sábado passado, na Filarmonia de Berlim, ouvi pela primeira vez o Elfenlied de Hugo Wolf (do Sonho de uma Noite de Verão, de Shakespeare), e fiquei encantada.
Acabei de descobrir (toda satisfeita) que o filme de publicidade a este concerto no Digital Concert Hall mostra uma parte desta canção (pensei que só passariam excertos da Segunda de Mahler, que foi a parte forte, fortíssima, do programa). Quem quiser ouvir: é seguir este link.

tradutores

22 fevereiro 2012

o outro


Este post, da Carla R., dá muito que pensar. Gosto especialmente da imagem da nossa televisão cheia de "índios".

ceteris paribus

Retomando a discussão sobre as culpas da Alemanha nos problemas brutais com os quais a Grécia está a ser confrontada, proponho um exercício de análise ceteris paribus: imaginemos que hoje a dívida era integralmente perdoada à Grécia, e que este país começava amanhã mesmo com um dracma novinho em folha, sem dívidas mas também sem a UE como fiador para as dívidas novas que eventualmente queira fazer. Numa análise ceteris paribus (*) - ou seja, não havendo qualquer alteração no funcionamento das restantes economias -, como estaria a Grécia daqui a dez anos?

E se acontecesse o mesmo a Portugal: com o nosso escudo, e sem fiadores externos para os nossos créditos, onde estaríamos daqui a dez anos? 


(*) Ceteris paribus: partindo do princípio que este perdão da dívida não provocava falências em cadeia dos bancos e das seguradoras (reduzindo a zero o dinheiro existente nas contas das instituições, das empresas e dos particulares), que os seguros privados de saúde e os seguros de reforma não eram afectados, que os bancos continuavam a financiar sem problemas a actividade das empresas, que o Euro não estourava, em suma, partindo do princípio que o não pagamento destas dívidas não mergulhava as economias ocidentais numa segunda Grande Depressão.

21 fevereiro 2012

"tu és polícia, tu és ladrão"

Belos tempos, quando a gente sabia distinguir sem dificuldades os dois lados da sociedade.
Depois uma pessoa cresce, e perde as certezas. Por exemplo, agora mesmo. Quem explica isso tudo muito bem é a Jonasnuts, a quem eu peço desculpa por só agora aparecer a dar eco ao seu esforço.

Resumindo muito: vem por aí uma nova lei que parte do princípio que qualquer pessoa que tem um computador ou um telemóvel é um pirata, e para evitar que grave sem pagar conteúdos cujos direitos de propriedade estão protegidos, o Estado decide que o melhor é pagar à cabeça, quando compra o computador ou o telemóvel. E como se paga uma taxa fixa por unidade da capacidade instalada, quanto maior a capacidade da coisa, maior a taxa paga.

Se entendem que isto é uma ilegalidade de todo o tamanho que corre o risco de ser aprovada pelo nosso Parlamento, se querem fazer alguma coisa para que não passarmos a ser roubados de forma descarada mas legal, vão ler a petição e assinem. E façam barulho, o mais possível. Ou isso, ou daqui a uns tempos termos de ir todos a Andorra comprar os CDs para gravar as fotos e os filmes com as gracinhas dos nossos filhos.

20 fevereiro 2012

urgente: à atenção de todos os que gostam de música clássica

 
O Digital Concert Hall, onde estou registada e do qual recebo periodicamente uma newsletter a contar novas andanças da Filarmónica de Berlim, enviou-me hoje um inquérito para preencher online. Foram apenas cinco minutos, e no fim ofereceram-me 48 horas para andar a vasculhar nos arquivos da casa. Vão lá ver, é de babar a fazer concorrência às cataratas do Niágara. Estou à espera que incluam o concerto a que assisti no sábado passado, e inscrevo-me para os meus dois dias de paraíso. É que nem é bem pelo Mahler, é porque quero muito voltar a ouvir as canções do Hugo Wolf (aquele seu Elfenlied, ai, aquele seu Elfenlied!)

Para quem não está ainda inscrito, e gostava de receber este presente, talvez não seja tarde: entrem no Digital Concert Hall, registem-se, depois recebem um email para confirmar, confirmam e dizem que querem receber a newsletter. Pode ser (não sei, estou simplesmente a desejar que tudo corra pelo melhor) que recebam o tal inquérito, e vocês preenchem, e no fim recebem um código para dois dias seguidos de prazer.
("dois dias seguidos de prazer", até parece que estou a falar daquelas pastilhinhas azuis...)

um crocodilo melancólico


Depois dos dois prémios que o filme recebeu na Berlinale, já se deve ter escrito tanto e tão bem sobre ele que escuso de tentar dizer coisas inteligentes a fazer de conta que percebo muito disto. Acrescento apenas este texto da Berlinda.org, onde se fala de um encontro com a equipa do filme, e alguns comentários pessoais:

Tabu é óptimo para estes tempos de crise: três filmes num só, todos eles excelentes - uma óptima relação preço/qualidade/quantidade. Gostei muito do primeiro - um bocadinho de poesia aonde apetece voltar -, e gostei imenso do humor fino que atravessa todos os três. Fiquei a pensar no retrato do catolicismo da Pilar, e fartei-me de rir com a imagem que dão dos jovens de Taizé. Mas o que mais me impressionou foram os retratos da criada Santa e da velha Aurora: duas rectas paralelas vivendo sob o mesmo tecto, com tanto de dependência como de insuperável distância.
Hei-de regressar a este filme, porque deixou em mim inúmeros ecos que pedem um reencontro com a matéria original.

***

Ontem foi dia de Portugal e das comunidades portuguesas aqui para os lados da minha vida.
O dia começou com o Tabu no palácio da Berlinale, continuou num pequeno café lá perto a comer pastéis de nata, onde um grupo de oito portugueses em alegre animação fez uma algazarra tal que vai ser preciso rever essa ideia de que Berlim é uma cidade sossegada e silenciosa. E terminou com um pequeno concerto do Carlos Bica, num espaço muito engraçado, muito retro-RDA, e mais umas cervejinhas em português, olhando para uma das igrejas mais antigas de Berlim e, mesmo ao lado, a enorme torre da televisão.
Em português, Berlim fica ainda mais fascinante.

19 fevereiro 2012

e como te correu ontem a segunda de Mahler, Heleninha?

Correu mal. Ainda não tinha começado, e já tinham acabado comigo, por causa do Elfenlied, a partir do "sonho de uma noite de verão" de Shakespeare, do compositor Hugo Wolf. Aquela orquestra a sublinhar o belíssimo diálogo entre a soprano e o coro, três contra uma: fiquei KO.


E depois veio o Mahler. Ora bem: nunca ninguém lhes disse que não se bate em quem já está no chão?
Muito menos daquela maneira. 

E o Simon Rattle sofreu ainda mais. Eu via-o de frente, os esgares impressionantes que fazia, a cara roxa. Acho que vou aprender umas técnicas de primeiros socorros, nunca se sabe.

Jonas Kaufmann, "para mais tarde recordar"

Algumas das canções que mais me tocaram, do concerto da sexta-feira passada:



A excelência do pianista Helmut Deutsch, e o perfeito modo como se combina com a excelência do cantor na interpretação deste "Morgen".



O vídeo é fraquinho, provavelmente feito com telemóvel, mas mostra alguns momentos interessantes. Por exemplo: no fim da primeira canção, "Ach weh mir unglückhaftem Mann", Jonas Kaufmann faz um gesto com as mãos que põe o público a rir. Essa foi uma das surpresas maiores da noite: o humor, ora da parte do cantor, ora da do pianista, que nos provocou várias gargalhadas. E tem a "Freundliche Vision", a última destas quatro canções, que quero voltar a ouvir na voz dele, uma e outra vez.

O melhor é parar de cuscar no youtube, e ir acrescentar mais um CD à minha lista de um-dia-destes-perco-a-cabeça-e-cá-vai-disto na amazon:

O Paulo também contou sobre este concerto no seu blogue, e deixou lá um link para um pequeno documentário onde se apresentam algumas das peças que o Jonas Kaufmann cantou.

Ultimamente o valkirio e o 2 dedos de conversa têm um caso de estereofonia. Quem passa por aqui, deve ir também lá - vão ver que o Paulo não me deixa mentir quando falo do Kaufmann, da Georgette Dee, ou dos prodígios (este e este e este, por exemplo) que nos vão acontecendo. Agora estou muito curiosa para saber como correu a segunda de Mahler ao Paulo, que ouvimos ontem juntos.

Gerhard Richter em Berlim







Hoje podia ter feito uma fotografia para acrescentar a estas, uma mesmo muito "Gerhard Richter em Berlim": em frente à Neue Nationalgalerie, por volta da uma da tarde, havia uma fila de centenas de pessoas. Chuva, frio (3ºC), vento. E uma fila interminável e sinuosa em frente à entrada.
Portanto, a quem interessar possa: o melhor é irem durante a semana, de manhã, e talvez porem-se na fila uma hora antes de abrir a bilheteira. Só é pena perder o efeito de cores e reflexos do anoitecer dentro daquele edifício. E vão quanto antes, porque com o passar dos dias as filas vão ficando cada vez maiores. Uma outra ideia é ir ao fim do dia, cerca de duas horas antes do fecho da exposição.

18 fevereiro 2012

sábados assim

Manhã de sábado na Filarmonia: a saborear o trabalho de Simon Rattle com a sua orquestra - o difícil ensaio de uma orquestra em que parte dos músicos estão fora da sala e não vêem o maestro, o modo como este pede aos músicos que tornem realidade aquilo que ele sonhou. A ouvir a Bernarda Fink, maravilhosa. A conversar no intervalo com os músicos, a regressar em conversa com uma das solistas ao concerto de ontem, do Jonas Kaufmann (e o mesmo encantamento, a mesma admiração - mas por parte de alguém que sabe, que também já cantou Ich atmet' einen linden Duft! e conhece as passagens difíceis, e sabe elogiar o modo como Jonas Kaufmann as resolve). A ver Simon Rattle avançar na nossa direcção com um enorme sorriso (garanto que por um momento acreditei que me ia dar um beijinho, e foi uma sorte não ter dado, que depois não sei quantos dias ia ficar sem lavar a cara). A almoçar por ali, conversando com uma amiga sobre o tempo em que ela cantava com Karajan, das diferenças de trabalhar com um Abbado ou um Rattle.

Depois fomos espreitar a Dussmann, mas antes de entrar fizemos um pacto de estabilidade financeira: combinámos que nenhum de nós comprava fosse o que fosse. Apreciámos longamente o jardim vertical do Patrick Blanc, que desde há cerca de um mês existe nessa livraria, mesmo por trás da esfinge. Fiquei hoje a saber que a esfinge da Dussmann não é um pastiche qualquer de novo rico, mas uma peça de 1475 a.C. - empréstimo do museu egípcio àquela livraria. Mais uma vez admirei esta cidade cujas instituições sabem unir esforços para se promoverem mutuamente, multiplicando-nos as surpresas e o gosto de aqui estar.

Daqui a nada sairemos para o concerto: Mahler, sinfonia nº2. Já sei o que me espera, ainda não começou e já estou feliz.


 

Jonas Kaufmann

(foto do Paulo)

Ontem, na sala enorme da Filarmonia, Jonas Kaufmann e o pianista Helmut Deutsch encantaram. Verdade seja dita, já sabíamos ao que íamos. Mas de facto não, não sabíamos. Jonas Kaufmann absolutamente em forma, uma combinação perfeita com o pianista, um trabalho muito sério mas atravessado por toques de leveza e humor dos dois músicos que faziam o público aplaudir com palmas e gargalhadas.
Começou com Liszt, o que não teria sido a minha primeira escolha, mas nunca me perguntam nada e depois dá nisto (no fim diziam-me, com alguma maldade, que foi só para aquecer a voz), seguiu para Mahler. No Ich bin der Welt abhanden gekommen o coro da tuberculose galopante resolveu acompanhá-lo, e destruiu toda a beleza do momento. Estas pessoas não se tocam? Se estão prestes a largar os pulmões boca fora, porque não vão logo para o hospital? Porque não ficam no quentinho do lar a beber um chá com mel? Se eu fosse cantora lírica (hihihi) garanto que parava a meio da peça e pedia às pessoas que saíssem da sala. E adiante. Depois de Liszt e Mahler, Duparc e Strauss: excelente. 

Se o concerto correspondeu às nossas altíssimas expectativas, os encore superaram-nas largamente. Quarenta e cinco minutos, uma canção e outra e outra, quase todas Strauss. A Freundliche Vision, o terceiro encore, deixou-me muda e paralisada, tal como a vizinha do lado: olhávamo-nos em silêncio, fascinadas por tanta beleza. A minha companheira de sortilégio é cantora profissional, agora já na reforma, e entre palmas comentava os pormenores técnicos - que perfeição, que bela resolução das passagens mais difíceis, que não conhece nenhum tenor que faça com tanta leveza aqueles crescendos com a voz a ressoar dentro da testa - e eu ouvia-a, deliciada. Depois do terceiro encore, já me preparava para abandonar a sala satisfeitíssima da vida, aparecem de novo o cantor com o pianista, que trazia folhas na mão. O público delirou. Mais palmas, ele canta Zueignung, mais palmas, mais um regresso ao palco, então pronto, vamos embora. E eis que o pianista regressa, e tem de novo folhas. Quinto encore?! Gritámos como adolescentes em frente ao Justin Bieber. Dein ist mein ganzes Herz, o público ri-se. Mais dois encores, sexto, sétimo, e os aplausos não paravam, o público aglomerava-se em pé à frente do palco. Jonas Kaufmann volta à sala, pede-nos para fazer silêncio, e diz: "Vocês apanharam-me desprevenido. Não contava com isto, e não sei que mais cantar. Garanto que já não tenho mesmo mais nada na manga. Vamos fazer um acordo: eu vou cantar algo que ainda não conheço bem, e por isso vou ficar junto ao pianista a ler a pauta, e vocês, em troca, param de bater palmas e vão para casa."
Gargalhada geral.
Cantou o oitavo extra da noite, nós fizemos um aplauso intenso e breve, e saímos.

Depois de alguma hesitação, acabámos em frente ao camarim do artista. Meia dúzia de pessoas apenas, uma sorte. Quando ele saiu, pudemos felicitá-lo com calma, perguntar quando vai a Lisboa, e ele "já não vou há tanto tempo, e é uma cidade tão bonita", e nós a insistir que tem de ir, e a pedir autógrafos.

Parámos a beber um espumante no bar dos artistas. Um músico da orquestra passou por nós e lançou : "depois disto, amanhã, no fim da segunda de Mahler, o Simon Rattle vai ter de dar como encore a terceira!" e alguém retorquiu a rir "não, vai repetir a segunda, até nós percebermos tudo..."
Estávamos por ali em conversa feliz, quando apareceu outro amigo, que se sentou à nossa mesa a contar histórias do tempo Karajan.
- Conte como o conheceu, pediram.
- Uiiii, isso é um longa história. Deixe cá ver...  Os Osterfestspiele de Salzburg oferecem a pessoas que têm um bilhete especial um concerto suplementar, uma espécie de ensaio geral. Num desses concertos, a orquestra tocava Pini di Roma, de Respighi, uma peça onde às tantas aparece um rouxinol, tocado ou por uma flauta, ou mesmo com uma gravação. O Karajan explicou que o rouxinol tem de cantar para a fêmea que está no choco, para que ela não adormeça e não esmague os ovinhos sob o peso do seu corpo.
("Cantar para não deixar dormir o parceiro?", pensei eu. "Uma boa ressonadela também resolve o problema...")
- Eu achei aquela história estranha, continuou ele. De regresso a Berlim, escrevi ao Jardim Zoológico a perguntar se me confirmavam essa teoria. Alguns dias depois recebi uma carta de página e meia a explicar imensas coisas sobre a vida dos rouxinóis, e a informar que de facto essa história de cantar para manter a fêmea acordada não era correcta. Que havia eu de fazer? Reenviei esta carta ao Karajan: olha, aqui, este sou eu, estive lá, ouvi aquilo, pensei assim, fiz, responderam como aqui está escrito. Passadas algumas semanas, recebo uma carta, hohohohoho, uma carta com cabeçalho "Herbert von Karajan".
- Hohohoho, repetia ele, e de novo vivia a emoção que sentira naquele dia, ao abrir um envelope e ver uma folha de papel timbrado "Herbert von Karajan".
- Dizia-me ele que se divertira imenso com a minha carta, e agradecia a informação. Hohohoho. Eu tinha amigos na orquestra, contei-lhes a história, e alguns meses mais tarde, quando o maestro contou durante um ensaio o incidente do rouxinol, eles responderam que já conheciam a história, e o maestro disse "então quero conhecer esse senhor" - e convidou-me para me encontrar com ele depois de um concerto. Para me acalmarem, porque eu vinha com o coração aos saltos, os meus amigos disseram-me que seria coisa de dez minutos, e num instante passava. Quais quê! Quarenta minutos: o motorista à porta à espera, o pessoal com o casaco do maestro, os amigos... e ele ali, sentado comigo, a conversar a conversar. Até que finalmente disse "acho que agora estou a precisar de uma cama", e se foi embora.

Também nós nos fomos embora, que já era meia-noite. Não sem antes combinar ir ao ensaio geral da segunda de Mahler, que foi hoje de manhã. Mas isso já é história para outro post.
Ultimamente as coisas boas sucedem-se a uma velocidade de tal modo vertiginosa, que eu nem tenho tempo de me aperceber do que está a acontecer, quanto mais de contar...

Bertolt Brecht e Helena Araújo (ahem... ahem...)



Morgens und abends zu lesen

Der, den ich liebe
Hat mir gesagt
Daß er mich braucht.
Darum
Gebe ich auf mich acht
Sehe auf meinen Weg und
Fürchte mich vor jedem Regentropfen
Daß er mich erschlagen könnte.

- Bertolt Brecht



Para ler de manhã e à noite

Aquele que amo
Disse-me
Que precisa de mim.
Por isso
Tomo cuidado
Vejo por onde ando e
Temo que cada gota de chuva
Me possa ser fatal. 

- Bertolt Brecht

(tradução pelo irmão do Speedy Gonzalez - aquele que, além de não ter tempo, não sabe traduzir poesia)


E agora, tã tã tã tããããã... um poema de Helena Araújo, parafraseando o Mestre:


Aquele que estimo
Disse-me
Que fico muito bonita
Com as pernas por fora
Do casaco de Inverno.
Desde então
Tenho rapado um frio
Que nem vos digo
Nem vos conto.