17 fevereiro 2012

Helena Araújo por Gerhard Richter

Hehehehe, presunção e água benta...

Uma das coisas mais engraçadas da exposição do Richter, que abriu no domingo passado em Berlim, são as placas de vidro que desfoca a imagem das pessoas. Por causa daquelas instalações, o ambiente nas salas é de alegre experimentação.







Também tem lá um espelho grande (uma obra de 1981, chamada "espelho", quem diria, que está exposta na Kunsthalle de Düsseldorf). Como está à entrada da exposição, ou talvez por não servir efeitos desfocados, o público atreve-se menos a brincar. Nos primeiros dez minutos da exposição ainda estamos todos bem comportados. Mas pouco depois, ao fim de meia hora de Richter, a criança que há em nós (alegre, comunicativa, confiante) desata a brincar na sala.

16 fevereiro 2012

para quem vive em Berlim: encontro com a equipa do filme Tabu



    • Sexta-feira
    • 20:00 até 23:00

  • ENCONTRO/TREFFEN com a equipa do filme TABU
    Em presença de / in Anwesenheit von:

    MIGUEL GOMES - Realizador/Regisseur
    LUÍS URBANO - Produtor/Produzent
    RUI POÇAS - Diretor de Fotografia/Bildgestalter
    MIGUEL MARTINS - Montagem de Som/Klanggestalter
    IVO MÜLLER - Ator/Schauspieler

    Moderation: Inês Thomas Almeida

    Organization: Kulturmagazin Berlinda.org

    No Bar - Cinema Tilsiter Lichstspiele (um dos cinemas mais antigos e carismáticos de Berlim, a trabalhar desde 1908).

    Tilsiter Lichtspiele
    Kino in Friedrichshain seit 1908
    Richard-Sorge-Str. 25a
    10249 Berlin

    Em ambiente informal, a equipa do filme TABU responderá às perguntas que lhes forem feitas pelo público.

    TABU - uma co-produção Portugal/Brasil/Alemanha/França é já um dos favoritos da Berlinale.

    É também uma ocasião única de manifestar o apoio aos cineastas - contamos com a presença de todos para apoiar o sucesso desta equipa!!

    DIVULGUEM, VENHAM E TRAGAM AMIGOS!!!!!

    WEITERLEITEN, KOMMEN UND FREUNDE MITBRINGEN!!

Richard-Sorge-Str. 25a, 10249 Berlin-Friedrichshain, Germany

e os milagres continuam...

Quando todos me diziam que o Tabu estava esgotadíssimo, arranjei seis bilhetes para domingo - e só tive de esperar três minutos na bilheteira, nem me deu tempo de ver o número do filme que ia comprar, até fiz figura de pateta a dizer à senhora o nome e a data do filme em vez de palrar disciplinadamente "4321, zwei Karten, bitte". Por essa altura estavam a enviar-me um convite para um encontro com toda a equipa do filme, amanhã à noite (para quem mora em Berlim: apareçam!). Mas acabei de saber que não vou poder ir, porque pouco depois me telefonaram a oferecer um bilhete para ir ver o Jonas Kaufmann à mesma hora, na filarmonia do costume. Há meses comprei lá um bilhete por encomenda, para um amigo, e hesitei imenso entre gastar aquela fortuna para mim, ou não gastar aquela fortuna para mim. Optei pelo evidente, porque a troikatalicoisa, e eis que agora um bilhete gratuito vem ao meu encontro. Tenho mesmo de ir ver como estavam as estrelas à hora a que eu nasci, porque isto não é normal.   

filmes portugueses na Berlinale 2012

O que por aqui se tem escrito em português:

- Na Berlinda, sobre o Tabu
- No Portugal Post, sobre o Tabu
- No Portugal Post, sobre o Rafa

(e agora com licencinha, corro para a bilheteira ver se ainda consigo ir ver estes filmes, porque começo a desconfiar que vou fazer figura de urso: o Tabu e o Rafa a ganharem o Urso de Ouro, e eu sem os ter visto no festival!)

do trapézio, sem rede

Via Rui Bebiano, cheguei a um blogue que se apresenta como "poesia passada para português".
Agarrem-me, parece-me que apanhei mais um vício.
Só para terem uma ideia de como é um caso sério, copio para aqui o post mais recente:

Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

Berta Piñan

Lição de gramática



Como se diz em ouolof a palavra fronteira, a palavra
pátria? E em soniké, como designareis o desamparo?
Se quiserdes dizer em berbere, por exemplo, "eu tive uma casa
num arrabalde de Rabat", poreis a frase nesta ordem? Como
se conjugam em bambara os verbos que conduzem ao norte,
que adjectivos se devem acrescentar à palavra mar, à palavra morte?
Se tiverdes de partir, a palavra adeus será um substantivo?
Como se pronuncia em diakhanké a palavra exílio? Há que
juntar os lábios? Doem? Que pronomes usais para aquele que espera
na praia, para o que regressa sem nada? Quando apontais para além, no sentido
de casa, que advérbio escolheis? Como se diz na vossa, na nossa língua
a palavra futuro?



(Versão minha; o original pode ser lido algures por aqui, na p. 14. Notas: 1) A versão que apresento parte do original asturiano e fez-se sem recurso a dicionário; a proximidade do asturiano com o castelhano e com o próprio português permitiu-me correr o risco calculado de tentar a transposição para o português. 2) Ouolof (palavra de ressonâncias herbertianas), soniké, berbere, bambara e diakhanké são línguas faladas por diferentes populações ou grupos étnicos de várias regiões do continente africano (do Norte, do Centro ou da África Ocidental - por exemplo, em países como o Mali ou o Senegal...). 3) Por último, com esta versão deste poema extraordinário, desejo agradecer esta tradução de um outro poema extraordinário. E, se possível, retribuir.)

15 fevereiro 2012

agenda cheia

Se me distraio, perco o pé e já nem sei que relatar sobre estes dias tão especiais que tenho vivido com os meus turistas portugueses.
Já vamos a meio da quarta-feira, e ainda não contei do concerto de Georgette Dee na segunda-feira, no teatro do Berliner Ensemble. Eu não a conhecia, mas a minha sorte é andar rodeada de gente culta e entusiasta, que não se deixa desanimar pelo meu "bom, enfim, se quiserem..." e quase me arrastou para esse teatro. Grande, grande espectáculo. Daqueles que apetece ir ver uma e outra vez, para acumular camadas diversas de encantamento.
A gravação que se segue dá uma ideia do tipo de concerto, embora não seja uma das músicas interpretadas na segunda-feira passada.



A interpretação que Georgette Dee e o pianista Terry Truck fizeram da canção "Ich bin von Kopf bis Fuß auf Liebe eingestellt" foi fascinante - só por essa já teria valido a pena. Mas houve muitas mais. E mais haverá, que não tenciono perder o rasto a esta cantora.




Terça-feira é dia de Lunchkonzert na Filarmonia. Tinham-nos avisado que o de ontem ia ser muito especial, com o pianista José Hernán Cibils, mas nós, desavisados apesar de tudo, chegámos pouco antes do início do concerto - o que foi tarde demais. Já havia 1500 pessoas no foyer, não nos deixaram entrar. Pelo que ficámos dentro do edifício - nós e talvez mais umas cem pessoas - junto à corda que nos vedava o caminho, ouvindo ao longe magníficas interpretações de peças de Piazzolla e Cobián, com arranjos para violino, piano, clarinete, contrabaixo e bandoneón. Num canto relativamente escondido, perto de nós, dois pares femininos dançavam o tango. Era evidente que estavam a contar os passos de uma coreografia que teriam na cabeça, o que era um bocadinho irritante. Mas a música sobrepunha-se a tudo isso, com momentos de uma enorme beleza. Soubesse eu dançar tango, corresse-me ele nas veias...
No fim do concerto, deixaram-nos entrar. Enquanto as pessoas iam saindo, nós avançávamos na direcção oposta, rumo ao meu lugar preferido junto ao palco - e chegamos mesmo a tempo de um encore com o qual ninguém contava. Nós ali mesmo em frente aos músicos, e um tango interpretado com tal intensidade que por momentos cheguei a acreditar que ele afinal me corre nas veias e o sei dançar. 

Nem sei porque fomos a casa, porque pouco depois já estávamos de novo dentro da sala grande, preparados para ouvir Simon Rattle a dirigir como quem nos pinta aguarelas - algumas de uma enorme serenidade (Debussy e Schönberg), outras agitadas e mesmo confusas. Esse concerto vai ser transmitido amanhã, dia 16, em directo.

Se pensam que já chega de coisas boas, estão muito bem enganados. Ainda falta aquela parte de as coisas virem ter comigo sem eu saber ler nem escrever. Pois por estes dias, estava eu calmamente em casa a tentar correr contra o atraso do costume, quando me telefonaram a perguntar se queria ir à after party do filme Tabu, o famoso filme do Miguel Gomes que este ano foi a concurso na Berlinale (mais informações aqui). Ora, isso nem se pergunta! De modo que lá fomos nós da Filarmonia para a Ballhaus, um sítio engraçadíssimo com telefones antigos junto a cada mesa, que tocavam a cada passo porque algum brincalhão do outro lado da sala resolvia meter conversa connosco. A sala estava cheia de gente bem disposta e satisfeita com a apresentação do filme, a feijoada estava uma delícia (feijoada deliciosa em Berlim! eu bem digo que por estes dias Berlim é uma cidade de prodígios), mas nós saímos pouco antes da meia-noite, não porque o carro corresse o risco de se transformar em abóbora, mas porque esta vida de dormir cerca de cinco horas por dia ainda vai acabar mal. Disseram-me que pouco depois, quando chegou a banda, a festa ficou ainda mais animada.

Hoje não fizemos nada de especial, que a vida excessivamente boa também cansa.

a pequena esquizofrenia da cada dia nos dai hoje

Esta manhã, avançava eu cuidadosamente pela rua traiçoeira de gelo, quando me cruzei com a vizinha coreana que mora no rés-do-chão.
- Hoje agasalhou-se muito bonita, disse ela, e eu fiz-lhe um sorriso friorento, por causa das pernas de fora entre o casaco curto e as botas.
- E como vão as coisas na Bulgária?, perguntou. Ouvi dizer que estão mesmo mal.
- Na Bulgária, não sei. Será que se refere a Portugal? Estão mal, estão. Isto vem por aí uma crise que ainda vai arrastar também a Alemanha.
- Na Grécia, disse ela, as coisas estão de tal maneira que uma amiga me contou que já não há nada para comprar. Ninguém dá crédito às empresas, estas não podem funcionar, o mercado está a esvaziar-se. A sorte da minha amiga é que tem um terreno onde vai cultivando aquilo de que precisa para comer, eu até já lhe disse que fosse ao mercado trocar o que tem a mais por outras coisas de que precise.
- E isso no século XXI, comentei eu.
- É o fim do mundo, respondeu ela. E fez-me uma piscadela de olho.

gente como nós



Eu, que não me ensaio nada para largar no duche a ária da Rainha da Noite (sim, se houvesse uma Liga dos Chuveiros Anónimos sei de um que se ia lá inscrever antes de todos os outros), chego a este endaaaaaiiaiwilolueisloviuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu e dou-me conta das minhas limitações.

A Whitney Houston tinha uma voz prodigiosa, ofereceu-nos momentos musicais que são puro prazer - e sofria horrores. Perante a sua morte (e a do Michael Jackson, e a da Amy Winehouse, entre tantas outras) sinto-me de algum modo em falta: pessoas que tanto nos deram morrem vencidas pelos problemas próprios desse terrível circo de onde brotam os pedaços de sublime que nós saboreamos. Eles perdidos numa imensa tempestade de show business, criatividade e génio, ilusão e desengano, e nós, alheios ao seu sofrimento, consumindo apenas.
Eu sei: ninguém os obrigou a entrar nesse torvelinho, nem todos morrem assim, etc.
Mas estas mortes interpelam-me. Mostram-me que essas estrelas eram simplesmente seres humanos como todos os outros, gente como nós, e não receberam a ajuda de que tanto precisavam. Falhámos-lhes. 

13 fevereiro 2012

começo a desconfiar que estou num filme...

Não é possível acontecer tanta coisa boa todos os dias. Começo a desconfiar que escorreguei para dentro de um filme do Woody Allen, e não combinámos previamente o cachet. 

Ontem, por exemplo: começámos por ir visitar uma igreja de Dahlem com uma acústica extraordinária, a Jesus-Christus-Kirche, onde Karajan gravou tantos dos seus concertos. O coro da paróquia estava a ensaiar, pelo que nos sentámos a saborear a acústica daquele espaço. De caminho pudemos ver mais uma vez como os alemães são: o maestro (mais interessante ainda: a substituta do maestro, porque este abandonou a sala por uns minutos) obrigou aquele simples coro paroquiano a repetir uma frase cinco vezes, até ter a entoação pretendida e as respirações certas. Estavam a ensaiar um Pai Nosso, e eu - tranquilamente feliz no meu banco ao fundo da igreja - só me lembrava de parafrasear: o prodígio nosso de cada dia nos dai hoje.

Estariam uns sete graus negativos, mas um belíssimo sol. Não fossem os dedos gelados que seguravam a máquina fotográfica enquanto fotografava a casa do pastor, ao lado da igreja, e quase acreditaria estarmos no sul:




O Wannsee estava gelado. Lindo. Havia pessoas a passear sobre o lago, havia até ciclistas no gelo (teriam correntes nas rodas da bicicleta?)


 (foto do Paulo)

 (foto do Paulo)

A ponte de Glienicke, a ponte onde se trocaram espiões, estava literalmente preparada para nova filmagem de "o espião que veio do frio":



 (foto do Paulo)

No centro da cidade parte do rio Spree tinha também congelado, e na parte mantida navegável flutuavam ociosos blocos de gelo.



O filme que vimos ontem na Berlinale era o Metéora. Muito poético, com extraordinários momentos de animação. A fotografia do programa enganou-nos um bocadinho (íamos à espera de hora e meia de cenas assim, mas pelos vistos quando fizeram as filmagens havia muito nevoeiro, afinal não é só Berlim que às vezes nos troca as voltas ao cenário) - mas mesmo assim, um belo filme.



E fim de tarde na casa de chá do Tajiquistão, com russischer zupfkuchen, um bolo que dizem ser russo, mas os russos dizem que é alemão. Mais um caso de culinary legend para juntar ao kebab turco inventado em Berlim e ao burrito mexicano inventado em San Francisco.



 (foto do Paulo)

Mas o melhor de tudo é andar a passear nesta cidade com amigos que se deixam maravilhar por ela. Redescobri-la pelos olhos deles, ir deixando em cada canto visitado um pequeno tag mental "já fui feliz aqui".

(o que eu gosto dessa invenção do Luís Novaes Tito!)

11 fevereiro 2012

overdose de prodígios

Então foi assim: o dia começou com uma visita guiada à Filarmonia. Com tanta sorte que a visita foi feita em português. Com tanta sorte que na sala da música de câmara assistimos a um bocadinho de ensaio de um concerto, com tanta sorte que na sala grande também havia ensaio.
Quando estávamos a almoçar, o Simon Rattle passou por nós, mas não nos incomodou. Nem nós a ele, vá.







A seguir fomos à estreia de um dos filmes concorrentes da Berlinale: Cesare deve morire. Para o meu gosto tinha demasiado Shakespeare e pouca história dos prisioneiros que o representavam. Só quando o filme chegou ao fim é que me dei conta que a peça foi realmente representada por prisioneiros. O momento mais divertido foi quando os irmãos Taviani começaram a apresentar a equipa: "a música foi feita pelo meu filho", "a montagem por acaso foi feita pelo meu cunhado", "a produtora até há pouco tempo era nossa cunhada, mas depois houve um divórcio". Hehehehe.
O momento mais comovente foi quando o ex-prisioneiro que tivera o papel de Brutus entrou no palco, e com grande emoção falou do actor à sua esquerda, dizendo "este homem salvou-me a vida".





Depois do filme queríamos ir ver a Biblioteca ao lado do Palácio da Berlinale, onde Wim Wenders filmou algumas cenas de As Asas do Desejo. O guichet de informação já estava fechado, pelo que perguntei à porteira se podíamos entrar. Que não, que não tínhamos cartão da biblioteca, que já estava quase a fechar. "Não?! Nem para pessoas que adoram cinema, só cinco minutinhos?", perguntei eu. "Olhe", disse ela com um grande sorriso, "vá a correr deixar ali os casacos e despache-se, que daqui a vinte minutos fechamos". E lá fomos nós a correr, desvairados por aquele edifício enorme acima, um bocado perdidos. Até que - cinco minutos antes de fechar - uma funcionária veio ter connosco e nos disse que tinha visto o filme há pouco só para saber exactamente onde tinha sido filmado, e nos indicou os caminhos e as cenas. E ainda dizem que os alemães são antipáticos...




E se pensam que os prodígios já acabaram, estão muito bem enganados. Ó práqui:
(se não têm tempo para ver o filme todo, podem saltar para os últimos trinta segundos)
(confesso que três horas mais tarde ainda estamos de sorriso escancarado)

sabem, o Manuel António Pina

Só para dizer que daqui a nada - às nove da noite de sábado - começa um documentário muito bom sobre ele. É na RTP2.

Documentário Manuel António Pina from Terra Líquida Filmes on Vimeo.

Outubro

A Berlinale abriu na quinta-feira passada, mas a nossa começou ontem com o filme Outubro, de Eisenstein, no Friedrichstadtpalast. Mostraram o filme original, de 1928: um estúdio de Munique trabalhou durante anos na re-correcção da História, incluindo as partes onde Trotski aparecia, e que tinham sido cortadas naquele período em que os estalinistas escreviam a História à tesourada. (Bem, se fosse só à tesourada...)

Berlinale oblige, claro: o filme foi acompanhado pela Rundfunk-Sinfonieorchester tocando ao vivo e com brilho a música original.


À saída fui entrevistada por uma câmara da Arte. Fiz um brilhante resumo do que os meus amigos tinham acabado de comentar à saída da sala (moderno, excepcional montagem, o modo extraordinário como em certas partes a música sublinha as cenas, algumas cenas inesquecíveis, a linguagem corporal do maestro, etc. e terminei com "a sala completamente cheia de um público entusiasmado, mas isso, já se sabe, é Berlim"). 
Que seria de mim sem os meus amigos: ia ficar ali a gaguejar perante a câmara de televisão, e em vez disso não me saí nada mal. Deus mos conserve, estes meus amigos: por este andar, ainda me arrisco a um lugar importante de crítica do cinema... (hehehe) (hihihi)



O filme que se segue é uma versão anterior a esta que foi apresentada ontem.


10 fevereiro 2012

state of the art

Ontem à noite estivemos dentro deste filme, a ver durante uma transmissão em directo como trabalha a equipa que faz o Digital Concert Hall. Teve momentos geniais, como aquele em que o Simon Rattle entra na sala de concertos e o grupo grita em uníssono, feito fãs de equipa de futebol: "o Simon Rattle é o nosso herói, Simon Rattle forever!" e clap-clap-clap rítmico. Lindo. Ou o realizador a marcar com o pé o compasso da música, a mão a dançar no ar como se fosse ele próprio o maestro, cantando algumas passagens enquanto acompanha a partitura e estala os dedos para mudar o plano, as exclamações "bonito!" e "bem feito!" e "esta saiu-nos muito bem!". E também o "merda! não era isto que queríamos!", e as gargalhadas.
Duas horas magníficas.

No fim, a produtora explicou que estão a aprender, a inventar uma nova estética a partir dos meios reduzidíssimos que têm (as câmaras têm de ser o mais discretas possível para não incomodar os músicos e o público, os operadores não estavam habituados a trabalhar com câmaras robotizadas, etc.). Ou seja (e com licencinha, agora tenho de babar um bocado, e beliscar-me outra vez para saber se não sonhei): ontem assistimos a uma etapa da criação de algo muito novo no mundo da música. 

Mas, para mim, o mais interessante foi falar com um realizador português sobre isso, e perceber como uma outra sensibilidade poderia ser um valor acrescentado para algo que já é excepcional.

não queremos cá gente piegas

Um pouco atrasada, mas ainda com a indignação a rubro, queria dizer a propósito do apelo que Passos Coelho fez aos portugueses, para que sejam menos piegas e trabalhem mais e melhor, que:

Não admito que um primeiro-ministro fale como um padre de aldeia no café. Exijo de um primeiro-ministro que saiba escolher as palavras (chamar "piegas" aos portugueses que estão a passar dificuldades impressionantes é inadmissível), e que faça discursos que nos apontem caminhos de futuro em vez de andar a passar a mensagem subliminar de que este povo não presta.

Aquele discurso está cheio de disparates. Por exemplo, as pessoas fazerem uma ponte enquanto a troika trabalhava: as sociedades têm regras, e enquanto essas regras forem válidas, não há que ter vergonha de viver segundo elas. A troika trabalhou durante essa ponte, como os bombeiros, os hospitais e os restaurantes: nesses dias trabalha quem tem de trabalhar nesses dias. Não é por a troika, os médicos e os bombeiros estarem a trabalhar que o resto do pessoal deve deixar de fazer o que sempre fez. Até que as regras mudem, claro. Mas não antes disso, e muito menos movidos por uma espécie de má consciência.
Outro disparate inadmissível: aquela coisa de nos lembrar que temos de exigir qualidade aos produtos portugueses. Ele está a insultar inúmeros portugueses que trabalham com brio e entusiasmo, muitas vezes em condições que outros povos nunca aceitariam, para produzir o melhor possível. Olho para Portugal, e vejo imensos exemplos admiráveis de empresas que produzem inovação e qualidade. Porque é que o primeiro-ministro português precisa de dizer que temos de exigir qualidade, insinuando que os portugueses vivem de vender gato por lebre? Porque é que ele não falou, em vez disso, da qualidade de tanto do que já se faz em Portugal? Porque é que o nosso primeiro-ministro diz "“Temos de incutir em quem produz exigência e qualidade. Sabemos produzir com qualidade e devemos premiar aqueles que o fazem” e vez de dizer “Temos motivos para nos orgulhar de muito do que já é feito em Portugal. Sabemos produzir com qualidade e devemos continuar a premiar aqueles que o fazem.”?
Outro erro gravíssimo: dizer " ter pena dos alunos, coitadinhos, que sofrem tanto para aprender" não é maneira de um primeiro-ministro equacionar o debate sobre a Educação. Simplesmente: não é admissível que tenha um discurso tão pouco articulado sobre esta questão fulcral.  

Perante estas frases que são sintoma de uma catastrófica ausência de sentido de Estado, penso no célebre discurso do Churchill, o "We shall go on to the end. We shall fight in France, we shall fight on the seas and oceans, we shall fight with growing confidence and growing strength in the air, we shall defend our island, whatever the cost may be."
Era um tipo de discurso assim (ou melhor: era uma atitude assim, era uma cultura política assim) que eu queria ouvir ao nosso primeiro-ministro. E não este discurso piegas, medíocre e contraprodutivo que ele fez. Vergonhoso.

09 fevereiro 2012

tenho aqui dois turistas que ainda se arriscam a morrer de nervos

Primeiro, porque os obrigo a levantarem-se de madrugada para irmos comprar bilhetes para a Berlinale. Eles pensavam que vinham cá fazer férias.

Depois, porque os nossos dias têm sido tão cheios de prodígios que até eu me sinto tentada a beliscar-me para ver se não estou a sonhar. Por exemplo, daqui a bocadinho: vamos assistir ao trabalho da equipa do Digital Concert Hall durante uma transmissão em directo deste concerto. Ou isto: passear num Tiergarten branco e mudo, com mil estrelas de neve a cair na nossa roupa. E ainda é só o segundo dia das férias deles.

07 fevereiro 2012

ainda a propósito do concurso do Aventar

O blogue a barriga de um arquitecto escreveu a propósito do concurso do Aventar uma reflexão sobre o que andamos a fazer por aqui.
Vale a pena ler (eu e as minhas lapalissades...)

Gostei imenso de saber que um blogue sobre arquitectura já andou entre os 50 blogues portugueses mais lidos. São coisas assim que me fazem acreditar no meu país.

***

Estive de férias, só agora vi o resultado. 255 votos! Descontando as 250 vezes que fui eu própria votar em mim (aposto que ninguém desconfiou), aqui deixo um abraço aos cinco leitores que se deram ao trabalho de ir lá fazer um clique. É bom saber que desse lado há pessoas que gostam tanto disto que até perdem tempo para o afirmar da forma mais anónima - e portanto gratuita - possível. Vocês são boa gente, é o que é!

outra vez a Berlinale

Ontem de manhã, estava eu atrapalhada a correr contra o atraso do costume, toca o telefone: era o Joachim a avisar que já tinham começado a vender bilhetes para a Berlinale.
Larguei tudo, corri para o primeiro autocarro. Este ano o Urania, mais perto da minha casa, não participa, pelo que corri das suas portas fechadas para o segundo autocarro, em direcção à Potsdamer Platz, onde fui encontrar os programas enormes, as filas enormes e uma grande animação. As duas senhoras à minha frente eram muito simpáticas: em menos de dois minutos já estávamos à conversa, e a combinar quem compra bilhetes extra para quem (sim: cada pessoa só pode comprar dois para cada filme, de modo que a Berlinale contribui muito para provocar momentos de solidariedade espontânea entre os berlinenses), e uma contava que tinha passado o fim-de-semana a estudar o programa e tencionava ver trinta filmes em dez dias (várias vezes até quatro por dia!), e a outra dizia que uma das coisas giras da Berlinale são as conversas durante a espera em frente às caixas. Eu concordei logo, embora ontem não estivesse para muita conversa, porque tinha acabado de abrir o programa, me faltavam os dois dias anteriores de estudo com afinco, e precisava de tomar imensas decisões à revelia dos interessados.
Ao fim de meia hora rendi-me à evidência: o filme de abertura não é o Russendisko, mas um francês - sobre uma aia da Maria Antonieta. "E agora?", pensei eu? Tinha sonhado tanto com essa estreia, e nada! Comecei a ver que outros filmes me interessariam. O "Cinema Culinário" tinha uma sessão fantástica: um documentário sobre o problema da água, mais um jantarzinho feito por um dos melhores cozinheiros de Berlim (eh, lá, se tiver a ver com o tema do filme ainda vai ser tudo cozido no vapor...) e a autêntica Erin Brockowich (não a Julia Roberts) a falar com o público sobre a sua luta em defesa do meio ambiente. Escrevi um SMS ao Joachim, a perguntar se inça, e ele respondeu todo entusiasmado que sim, que era fantástico, mas infelizmente calhava no dia em que temos um colega dele convidado para jantar em nossa casa. Continuei a estudar o programa, agora quase com desespero.
Daí a pouco abriram as caixas, e as primeiras pessoas da fila, miúdas que estavam ali há 36 horas, desatavam a guinchar histericamente à medida que conseguiam comprar os almejados bilhetes. "Desde a Berlinale que foi aberta pelos Rolling Stones que não via nada disto", dizia uma pessoa ao meu lado. "Mas porque é que se alegram tanto por causa de um filme histórico sobre a Maria Antonieta?", intrigava-se uma segunda. "Não é esse, é um Bollywood com Shah Rukh Khan", esclarecia uma terceira. "Aaaaah, falem-me a cantar", pensei eu. Mais à frente, as miúdas continuavam em guinchos estridentes, saltavam e abraçavam-se.
Eu estava cada vez mais perdida no meio do programa. Como escolher entre tanta oferta? As vizinhas ajudavam, diziam os que tinham escolhido e porquê, diziam-me onde encontrar alguns deles, por exemplo o realizado pela Angelina Jolie. Eu começava a gatinhar com alguma segurança por aquele labirinto, mas acabei por optar pelo plano B: ir para casa estudar o programa com calma, e com os demais interessados.
Ao fim da tarde, um amigo mandou-me um e-mail a falar sobre a Berlinale, e a cada meia frase escrevia "Angelina Jolie". Quando chegou à parte do

"E pronto, acho que é tudo. Tenho a ideia que tinha qualquer coisa para dizer sobre a Angelina Jolie, mas não me lembro, é porque não deve ser importante. Aliás, nem sei porque é que me lembrei dela agora. Ah, já sei! É porque ela é a mulher do Brit Pitt e eu ia-te perguntar se não vais tentar conhecê-lo. É que se tiveres vergonha de ir sozinha, podes contar aqui com o amigo para te acompanhar e te ajudar a desinibir-te. É evidente que para mim não tem interesse nenhum, porque eu não aprecio homens, mas os amigos são para as ocasiões."

caiu finalmente a ficha: talvez já fosse possível comprar logo no primeio dia bilhetes para o "in the land of blood and honey" da Angelina Jolie, e talvez aquelas miúdas tenham passado lá a noite não por causa do Bollywood, mas por causa de um filme sobre a guerra na Bósnia. Esta juventude interessa-se muito por história e política, é um gosto vê-los assim entusiasmados!
Comecei a pensar na melhor maneira de dar esta triste notícia ao meu amigo, mas a Stern TV salvou-me: as miúdas estavam lá mesmo por causa do Khan, pelos vistos interessam-se mais pelos problemas sociais da Índia que pelos da Bósnia. Ainda podemos ter alguma esperança, mas algo me diz que, se queremos bilhetes para o "in the land of blood and honey", que serão postos à venda amanhã, mais nos vale ir hoje ao meio-dia para aquela fila...



Uma das coisas engraçadas de viver em Berlim é que nada disto é importante: se não consigo bilhetes para o filme seguido de debate com a Erin Brockowich, não faz mal. Outros há. Idem para o filme da Angelina Jolie. Idem para inúmeros concertos e peças de teatro, debates e momentos mais ou menos históricos. Se perder este, outros há: todos os dias de cada ano.

06 fevereiro 2012

postais de férias

Esta era a paisagem das nossas manhãs, a caminho da pista. Todos os dias dizia "oooh, que bonito", mas quando sacava da máquina de fotografar já íamos longe. No último dia, a meio do "ooooh" lembrei-me de pedir ao Joachim que desse meia volta para fazer um pequeno repeat, e fotografei finalmente a cena. Com a janela aberta, o carro em movimento, eu sem luvas, e mais de vinte graus negativos. E o pessoal dentro do carro a protestar por causa do frio. (Homens... não sabem que a beleza obriga a fazer alguns sacrifícios...)


A famosa ferrovia rética: um comboio vermelho que corta a paisagem branca entre algumas das montanhas mais altas da Europa. Um percurso vertiginoso, pontes lindíssimas e - claro - classificado património da humanidade (este, a CP já não fecha).











Subimos a Muottas Muragl no funicular, à hora do pôr-do-sol. No regresso, a lua ia já alta sobre o cume da montanha.




Quem se terá lembrado de levar as cadeiras das praias do norte da Alemanha para aquelas encostas? É estranho, mas é confortável. E que belo sítio para trabalhar para o bronze!

À entrada da cidade havia uma cascata congelada. Na primeira foto, a pessoa vestida de vermelho dá uma ideia do tamanho do conjunto. Muitos metros acima há um aventureiro a escalar o gelo.



À noite acendiam holofotes na pista junto a Pontresina, e nós jantávamos olhando pela janela as silhuetas em rapidíssimo slalom.


Oh, que calma vai caindo...

laudate pueri



Esta é a peça que o meu coro está a ensaiar neste momento. Umas vezes não consigo acompanhar porque estou ocupada a inventar uma quarta voz (sim, eu e o Mendelssohn trabalhamos muito em grupo, ele começa e eu vou completando à medida do engenho da arte e da criatividade), e outras vezes tenho dificuldade em acompanhar porque me comove (sim, o Mendelssohn conhece o mapa dos meus nervos mais sensíveis).

01 fevereiro 2012

de noite também é bonito


Comer fondue de queijo em frente a esta janela, e beber Alvarinho quase como se quisesse esquecer alguma coisa.


Bem no centro de Samedan descobriram aguas termais. Fizeram umas termas com spa em andares. Criatividade e boa arquitectura, na praca principal, no meio de casas quinhentistas. Nao choca nada.






Na aldeia vizinha, Pontresina, ha tambem aguas termais e uma piscina de agua agradavelmente quente no meio da neve.

como na vida



Escolhes a direcção: vou por ali. Olhas para a pista à tua frente. Centras-te em ti: sentes os pés bem assentes nos esquis, encontras o teu ponto de equilíbrio. Divides a pista em segmentos – o que podes fazer de cada vez. Lanças-te. O corpo inclinado na direcção que queres seguir. Uma curva de cada vez, tu consegues, tu consegues. Sempre consciente das tuas forças, és tu quem manda nos esquis, és tu quem decide a velocidade. Não ignores as tuas arestas – precisas delas nas situações mais difíceis, permitem-te manter a direcção que é a tua. Não olhes nunca para trás, excepto se decidires mudar abruptamente de direcção: por atenção aos que vêm atrás de ti, para não lhes cortar o caminho. De vez em quando fazes uma curta pausa para descansar, juntas forças novas. Aprecias a pista – o percurso já percorrido, o que falta ainda - e a paisagem à tua volta.
Chegas ao teu destino. Escolhes nova direcção Lanças-te – e desta vez procurarás também a elegância.

Moral da história: ...e depois vem um filho dizer-te com toda a delicadeza: se quiseres, vou à tua frente para te ensinar a esquiar melhor. Vai, ensina, faz-se espelho para perceberes o que estás a fazer mal. Então começas a pôr em causa tudo o que sabias. Recomeças.


Helena Araújo, vinte e dois anos a juntar experiencias em pistas azuis e sabe Deus, tentando agora uma nova carreira como redactora de almanaques.