13 dezembro 2011

a gaffe nossa de cada dia nos dai hoje...

Tinha dois bilhetes para o concerto da Filarmonia de ontem. Como o Joachim não podia ir, tive de arranjar outra pessoa, e desta vez calhou de ser um grande músico cá da praça. Ao vê-lo um pouco atrapalhado com os vestiários da casa, perguntei-lhe - algo incrédula, diga-se de passagem - se nunca tinha estado na Filarmonia. Ele parou um bocadinho para pensar, e respondeu: a primeira vez que toquei aqui foi há trinta anos. E o primeiro concerto deste milénio, aqui, também foi dado por mim.

Gulp.

Ontem começou uma série nova de música de outras culturas. A série do ano passado chamava-se "Alla turca", a deste ano é "Unterwegs" (a caminho), e começou com música dos nómadas. O apresentador, Roger Willemsen, pessoa famosa da televisão, dos jornais e da literatura, falava-nos dos grupos e das condições em que vivem, e alegrava-se porque a sala em que estávamos tinha a forma de uma tenda, muito apropriada para música nómada.

O primeiro grupo era do Mali: Tamikrest. Aquilo seria música de tenda? Mais parecia de garagem. Afinada, esforçada, sim, mas um pouco aquém das minhas expectativas. (Claro que já sei como é que estas coisas acabam: daqui a uns anos estão a dar concertos caríssimos e superlotados na Europa, e eu virei aqui bater com a cabeça no que acabei de escrever...)

Quando já começava a puxar da carteira para devolver o preço do bilhete à minha vítima, veio o segundo grupo, e salvou-nos a noite. Excepcional: Huun-Huur-Tu, um grupo mongol de Tuva, com instrumentos e canções tradicionais. O canto gutural, a integração de sons da natureza nas melodias e, mais que tudo, a capacidade de uma pessoa sózinha executar simultaneamente várias vozes: deixaram-me completamente rendida. Podia ter ficado lá a noite toda a ouvi-los.

Começaram com esta peça, parece que traduzido se chama "o arroto mais longo do mundo", e não se pode cantar à mesa...




Quando, alguns minutos mais tarde, um deles começou a cantar a solo, eu esfreguei olhos e orelhas, para ter a certeza que os outros não estavam a ajudar. Não, penso que não. Era mesmo ele sozinho:



Depois do concerto fomos ao bar dos artistas beber uma cerveja, e encontrámos lá o Roger Willemsen sozinho a uma mesa. Sorriu de tal maneira que me pareceu que até ficaria agradecido se nos sentássemos com ele. Sorri-lhe de volta e sentei-me um pouco mais longe, porque não tinha tido tempo de ler tudo o que dizia sobre ele no programa, e estava sem vontade de fazer mais gaffes. Uma por noite chega e sobra.

camelos

"Alá tem cem nomes. Desses, nós conhecemos noventa e nove. O último nome de Alá, só os camelos o conhecem. Por isso nos olham com arrogância, e levantam orgulhosamente a cabeça."



Caríssimo Senhor Barbeiro: quer um boneco a acompanhar a história, ou basta assim?

(Sim, bem sei: sou a sua concorrente mais complicada. No ano passado mandei um vídeo, agora mando aforismos árabes. Por este andar, um ano destes ainda sou excluída antes mesmo do início do concurso...)  

(as bolas de Berlim seguem dentro de momentos)

***

Adenda: a pedido de um cliente antigo, que protestou por eu concorrer com um camelo que nem sequer fala alemão, aqui vai a versão da mesma história, mas agora na língua dos filósofos:

"Allah hat 99 verschiedene Namen, die wir Menschen kennen. Keiner von uns kennt jedoch alle Namen. Als der Prophet Mohammed die Namen Allahs verkündete, beugte er sich am Ende vor und flüsterte den 100. Namen in das Ohr des Kamels. Seitdem ist es das einzige Tier auf Erden, das alle 100 Namen Allahs kennt. Und deswegen hat es auch so einen langen Hals und reckt den Kopf so hochmütig nach oben."

querido Pai Natal (15)

Querido Pai Natal, como estás?

Nós por cá não estamos muito bem, porque vieram ladrões e levaram a aparelhagem de som, o televisor e o aparelho de vídeo, inclusivamente o canal do Berlusconi, e só deixaram muito medo para mim e para a mamã. Por isso peço-te não apenas que nos dês de presente tudo o que eles nos roubaram, mas também que leves este medo que os ladrões nos deixaram.
Meu querido, prometo-te que me vou portar super bem, e se quiseres podes vir espiar-me!
Ciao, Rosaria.

Rosaria - Maiori (Salerno)

12 dezembro 2011

Chillida










Chillida é o autor da escultura que está em frente à Chancelaria, representando as duas Alemanhas que se buscam. As suas esculturas passam uma temporada junto ao mar, para enferrujarem rapidamente. É o que se vê na primeira foto.
Estas fotos foram feitas um pouco ao acaso, num par de minutos. Mas já sei o que vou fazer na próxima vez que a Chancelaria abrir as portas ao povo.

querido Pai Natal (14)

querido Pai Natal,


Este ano arranjaste um carro, ou continuas a andar com as renas que já estão em vias de extinção? Devias tratar de te modernizar.
Chamo-me David, sou um rapaz de cor e desejo alguma coisa para estas pobres pessoas perseguidas, que andam a fugir por aqui e por acolá.
Para mim, desejo:
O saco grande e o pequeno do Milão
Os livros sobre a história do Milão
Os DVDs do Milão
A pulseira do Milão
O teu nome verdadeiro é mesmo Pai Natal, ou é outro? Não penses que não gosto desse nome, até gosto e muito, quando for grande também me quero chamar assim!
Se existires, responde-me.

David - Milão

11 dezembro 2011

lunáticos

Ontem, em frente aos edifícios da Bauhaus em Dessau, parámos a observar a lua.
- Ainda ontem estava cheia, dizia alguém, e agora falta-lhe aquele bocado enorme.
- Só pode ser uma nuvem, respondi eu.
- Então não vês que as nuvens estão bem mais baixas?, argumentava um terceiro.

No regresso a Berlim, a lua estava cheia, magnífica. "Afinal era mesmo uma nuvem", pensei eu, vitoriosa.
"Foi um eclipse lunar", informou-me o Matthias, no skype um pouco mais tarde. Não há dúvida: que seria de mim, sem as informações que me chegam dos EUA?






(gostava de mostrar melhores fotografias, mas só tinha o telemóvel e, também para variar, estava atrasada)

espíritos omnividentes

Quando em criança me disseram - para me consolar, certamente - que não vemos as pessoas depois da sua morte, mas que elas continuam por aqui a olhar por nós, apanhei um susto: então não bastava que a minha avó morresse? Para cúmulo ficava aí invisível a observar-me quando eu metia o dedo no nariz, e outras coisinhas? Podia lá a morte ser uma passagem para a total invasão da privacidade daqueles que amamos?!

Sosseguei-me imaginando que do lado do paraíso tudo isto seria visto com um olhar benevolente. Porque não podia ser de outra forma: é impossível viver sob a permanente ameaça de espíritos omnividentes, críticos e castigadores.

Uma pessoa cresce, vai a pouco e pouco descobrindo certas verdades do mundo, e acaba por perder ou relativizar os medos da infância. Sim, que importa que a minha avó me possa ver sentada na sanita, se hoje em dia é tão fácil fotografar-me ou filmar-me em espaços que sinto privados (a minha casa, o meu carro, o meu jardim, uma casa de banho pública), gravar os meus telefonemas ou até tudo o que digo, entrar no meu computador e copiar tudo o que lá encontrarem - e divulgar depois na internet?

De modo que: voltem, almas do paraíso, pairem à vontade sobre as nuvens, olhem e devassem tudo o que vos apetecer. Perdida por mil, perdida por cem...

***

De modo que: podes voltar, Walter Gropius, quero muito que venhas ver o que o sol de inverno faz nas casas que construíste para os teus mestres da escola em Dessau: Klee e Kandinsky, Muche e Schlemmer, Feininger e Moholi-Nagy.








querido Pai Natal (13)

querido menino Jesus,

faz com que os pais não tenham de ir para a prisão.
Mas ainda não é tudo. Quero que a guerra nunca chegue à minha aldeia, porque na televisão vejo crianças que são muito magras e têm muitas doenças, porque se matam umas às outras na guerra. Queria que tu ajudasses essas crianças, e lhes desses bonecas e panelinhas, para terem alguma alegria.
Por sorte eu vivo bem, até muito bem, ainda tenho todos os meus avós. Mas se penso naqueles que são menos felizes que eu, lembro-me que também eu podia passar a ser subalimentada de um momento para o outro.
Para mim não quero pedir nada, porque a vida já me ofereceu tudo. Peço-te apenas que nada disso me falte!

Laura - Ponderano (Vicenza)

10 dezembro 2011

momentos de um 2011 (2)

No dia 11 de Setembro a Anne-Sophie Mutter tocou uma peça extra-programa em homenagem às vítimas do "9.11": Air, da suite nº3 de Bach, interpretada com uma tranquila intensidade.

Era o concerto de abertura da Musikfest Berlin, e o comissário dos Berliner Festspiele foi ter com ela ao palco. Quando trouxeram flores à violinista, ela recebeu-as e ofereceu-as ao Joachim Sartorius no mesmo movimento do braço:




Gosto muito de momentos assim.

E para não deixar a minha carreira de correspondente da Caras em Berlim por mãos alheias, cá vão mais três fotografias do vestido da solista, e mais uma do panorama geral da sala.




querido Pai Natal (12)

querida Santa Lucia,

eu só quero uma única coisa para toda a família: um aparelho de vídeo, para não me aborrecer quando estou sozinha em casa ao domingo.
Queria um aparelho muito especial, de onde as pessoas saem e vêm ter comigo. Quero, por exemplo, que o Eduardo Mãos-de-Tesoura venha cortar o meu cabelo, para eu não ter de ir ao cabeleireiro.
Muitos cumprimentos e beijinhos da Stefania que gosta muito de ti.

Stefania - Agrigent

09 dezembro 2011

o Advento desperta a Turandot que há em mim


(para quem sabe pouco de ópera, uma versão alternativa: o Advento desperta a Salomé que há em mim)
(para quem sabe pouco de ópera e da Bíblia: wikipedia.com)

Dear toothfeary

Mais uma variação do tema "querido Pai Natal":


Dear toothfeary
I'v been loveing the gifts your brining me, but this time I have been waiting sence day and night for you to bring me 20 dolors or more! But please just this time please just onece. If you will not make it just give me another prity doll or animal. I'v always been waiting for you to bring me money but I am stil loveing the gifts you ave brining me. All the time Iv been trying to save money just to buy something special but I keep on runing out of money. My brother and I have to put our money together but then their is not inofe, so please just onece.
love toothfeary
from Christina

(em San Francisco, teria uns seis ou sete anos, e uma chata de uma mãe, que em vez de lhe dar dinheiro, tinha a pancada dos Folkmanis Puppets do Pier 29)

eu devia frequentar mais vezes o twitter do Kaminer

Wladimir Kaminer
A caminho do México, mudando três vezes de avião, para pôr os mexicanos a dançar. Publicidade para a cultura alemã no estrangeiro. Beso me, mutcho!
 
Wladimir Kaminer
Em Guadalajara. O sol brilha, mas não nos aproveita. Estamos na Feira do Livro, à sombra da grande literatura alemã. 
29 Nov 

Wladimir Kaminer
A Russendisko em Guadanajara foi espectacular, milhares de pessoas aos gritos, com o entusiasmo até se despiram, infelizmente eram quase todos homens. Hoje discoteca outra vez.
3 Dez

Wladimir Kaminer
Já regressei do México, mas nem sequer ia a meio de provar todas as variedades de Tequila. A pátria escolheu entre a peste e a cólera.
6 Dez

SICASAL

Passo uma mensagem que recebi por e-mail:



SICASAL Campanha de Solidariedade


Atenção: trata-se de uma empresa portuguesa que, perante esta fatalidade, teve o cuidado de comunicar que não despediria um único trabalhador, sendo que são os seus próprios colaboradores que têm trabalhado na recuperação e limpeza das suas instalações.


A Sicasal é uma empresa Portuguesa. As suas instalações fabris foram parcialmente destruídas por um enorme incêndio, pondo em causa o emprego de 150 dos seus mais de 500 trabalhadores. No meio da
tragédia, a Administração veio assegurar que ninguém seria despedido e garantiu que, nem sequer haveria perdas salariais dos seus trabalhadores.
Estes disponibilizaram-se, de imediato, para trabalharem, se necessário, 24 horas seguidas para ajudarem à retoma da produção e organizaram-se em grupos de segurança e de limpezas para obviarem uma paragem demorada da laboração da fábrica.

Que dois belos exemplos!...

Assim, surgiu a ideia de adquirirmos produtos da Sicasal e posteriormente os entregar ao Banco Alimentar. Não só ajudaríamos quem bem o merece, como quem bem o necessita.
Compra produtos enlatados da marca Sicasal e entrega-os no Banco Alimentar


CAMPANHA DE SOLIDARIEDADE
Divulga e Participa

As empresas têm sucesso, quando Administrações e trabalhadores estão todos focalizados no mesmo objectivo.
Apoiemos aqueles que merecem antes do mais a nossa consideração.
A isto chama-se "EXEMPLO A SEGUIR!!!!"

momentos de um 2011

Chega Dezembro, começa um stress criativo: fazer o álbum de fotografias do ano, para oferecer aos familiares e aos amigos mais próximos (esta é a questão mais complicada: quem são os amigos mais próximos?)

Por estes dias ando muito ocupada e escolher, de entre milhares de fotografias, as que cabem nas trinta páginas do álbum, e a escrever os textos que agradem tanto à sogra como aos amigos de mais íntimas cervejinhas. Quadraturas do círculo, here I come!

Uma vantagem deste trabalho: posso ouvir música. Tenho estado a tirar a barriga de misérias. Os ouvidos, queria eu dizer: tenho estado a tirar os ouvidos de misérias.
(Porque me lembrei eu de ser tradutora? Condutora de camião TIR era um trabalho que me convinha muito mais - numa viagenzita Porto-Moscovo aviava a edição completa do Mahler que me deram no aniversário. O monte de CDs que quero ouvir com calma está quase do tamanho do monte de livros que quero ler. E do de DVDs que quero ver. Ah, o paraíso: ouvir música, e depois aproveitar aquelas pausas forçadas à margem da auto-estrada para ler livros e ver DVDs. Porque é que eu não me lembrei de ir para camionista?...)  

Bom, já que estou a escolher fotografias, aproveito e respingo também para o blogue.
Ora cá vamos, então, minhas senhoras e meus senhores: o meu 2011 em algumas imagens.

Passagem de ano: fizemos uma fogueira no pátio, numa clareira da neve. Casacos, gorros, vinho quente. Entre os amigos, um músico peruano que tentou ensinar-nos os seus ritmos. Pobrezito, com quem ele se foi meter...

A Berlinale 2011 abriu com uma homenagem a Jafar Panahi. No fim, o público assinou um cartaz, para enviar ao realizador que o regime iraniano impediu de trabalhar.




querido Pai Natal (11)

Estou a ficar ligeiramente cansada desta série. Não é fácil procurar as palavras certas para traduzir o insuportável sofrimento que algumas das cartas revelam.

Hoje faço uma pequena incursão num outro mundo - que devia ser, afinal, o de todas as crianças:
(encontrado aqui)


What is love?

“Love is what’s in the room with you at Christmas if you stop opening presents and listen.” – Bobby, age 7

“When someone loves you, the way they say your name is different. You just know that your name is safe in their mouth.” – Billy, age 4

“Love is when my mommy makes coffee for my daddy and she takes a sip before giving it to him, to make sure the taste is OK.” – Danny, age 7

“Love is when a girl puts on perfume and a boy puts on shaving cologne and they go out and smell each other.” – Karl, age 5

“When you love somebody, your eyelashes go up and down and little stars come out of you.” – Karen, age 7

“Love is when you kiss all the time. Then when you get tired of kissing, you still want to be together and you talk more. My Mommy and Daddy are like that. They look gross when they kiss.” – Emily, age 8

“Love is when you tell a guy you like his shirt, then he wears it everyday.” – Noelle, age 7

“Love is like a little old woman and a little old man who are still friends even after they know each other so well.” – Tommy, age 6

“I know my older sister loves me because she gives me all her old clothes and has to go out and buy new ones.” – Lauren, age 4

“During my piano recital, I was on a stage and I was scared. I looked at all the people watching me and saw my daddy waving and smiling. He was the only one doing that. I wasn’t scared anymore.” – Cindy, age 8

“My mommy loves me more than anybody. You don’t see anyone else kissing me to sleep at night.” – Clare, age 6

“Love is when Mommy sees Daddy smelly and sweaty and still says he is handsomer than Brad Pitt.” – Chris, age 7

“Love is when your puppy licks your face even after you left him alone all day.” – Mary Ann, age 4

“When my grandmother got arthritis, she couldn’t bend over and paint her toenails anymore. So my grandfather does it for her all the time, even when his hands got arthritis too. That’s love.” – Rebecca, age 8

“You really shouldn’t say ‘I love you’ unless you mean it. But if you mean it, you should say it a lot. People forget.” – Jessica, age 8


“Love is when you go out to eat and give somebody most of your French fries without making them give you any of theirs.” – Chrissy, age 6

“Love is what makes you smile when you’re tired.” – Terri, age 4

08 dezembro 2011

we no speak americano

Uma gracinha para animar o feriado:

We No Speak Americano ft. Cleary & Harding from Jonny Reed on Vimeo.

Portugueses em Berlim

Um artigo na Berlinda.org informa sobre o modo como este grupo nasceu e ao que vem, e ao que vai.

Termina com informações importantes:

O grupo Portugueses em Berlim está aberto a todos os portugueses que vivam na capital da Alemanha. Os interessados podem juntar-se ao grupo através de uma página de internet e de uma mailing list que promove a troca rápida de informação a todos os membros. Também existe uma página de divulgação no Facebook.


querido Pai Natal (10)

Pai Natal, posso contar contigo?
No ano passado escrevi-te um dia antes do Natal a dizer que presente queria receber. Disse que queria uma boneca chamada "my bebi", mas tu deste-me uma boneca que brilha à noite, e dessa eu não preciso. Até me faz medo, é como um fantasma, essa podias dar às crianças pobres ou às do asilo que limpam os pára-brisas dos carros.
Agora espero que tu este Natal não te enganes de novo, porque eu quero ter a "my bebi", e se não ma puderes trazer deixa-me um recado a explicar porque é que, na tua opinião, eu não a mereci, por exemplo, porque fui má para os outros meninos na escola?

Fiorenza - Volterra (Pisa)

07 dezembro 2011

aviso muito importante a quem passa recibos verdes e é simultaneamente trabalhador por conta de outrém

O Rui Bebiano alerta:

Todos os trabalhadores independentes, emissores de «recibos verdes», estão a ser notificados pelo Instituto de Segurança Social do dever de pagarem a sua contribuição para a segurança social segundo parâmetros que são enviados em circular a cada um deles. Quem já desconta por ser trabalhador por conta de outrem – do Estado, por exemplo – está isento. Mas atenção (...): a partir de agora terá de pagar na mesma se não enviar no devido tempo para a Segurança Social, anualmente (e o prazo deste ano está quase a fechar), um comprovativo da sua condição de isento pelo facto de… pagar já para outra entidade.

Também explica como fazer para evitar o pagamento em duplicado da Segurança Social. Aqui, muito bem explicado

amigos e conhecidos

Nos seus livros, Kaminer conta histórias que se passaram com ele, com os seus amigos, com os seus conhecidos. Ele faz a distinção claramente: Andrej, o meu amigo; Thomas, um conhecido.
Na Alemanha, amigos, só se tem dois ou três - os mais sortudos chegam talvez aos quatro ou aos cinco. Os outros são conhecidos, vizinhos, colegas de trabalho, pais da escola. 
Em Portugal diz-se muito facilmente amigo. Quando cheguei à Alemanha, toda a gente se impressionava com as dezenas de amigos que eu tinha.

E agora: em português, o Thomas é amigo ou conhecido do Kaminer?

É sobretudo uma questão retórica, não se preocupem a responder como se o futuro da tradução mundial dependesse disto. Queria apenas fazer um apontamento sobre a dificuldade na tradução de culturas, que é muito mais que a tradução de palavras e ideias.

Um exemplo bem mais interessante é o da tradução do Antigo Testamento para o grego: como adaptar o universo e o imaginário de um povo nómada ao de um povo urbano?
E é para não falar numa tradução do Evangelho para inglês, na Idade Média, que há anos me passou pelas mãos: o conteúdo foi adaptado ao local e à época. Assim tipo: Jesus feito rei Artur e os discípulos feitos cavaleiros da távola redonda. 

oração para o Advento

"...
Porém o tempo crescia.
E Gaspar escutava o crescer do tempo... E debruçado sobre o tempo Gaspar pensava: «Que pode crescer dentro do tempo senão a justiça?»
Ajoelhado no terraço Gaspar olhava o céu da noite. Olhava a alta e vasta abóbada nocturna, escura e luminosa, que simultaneamente mostrava e escondia.
E disse:
- Senhor, como estás longe e oculto e presente! Oiço apenas o ressoar do teu silêncio que avança para mim e a minha vida apenas toca a franja límpida da tua ausência. Fito em meu redor a solenidade das coisas como quem tenta decifrar uma escrita difícil. Mas és tu que me lês e me conheces. Faz que nada do meu ser se esconda. Chama à tua claridade a totalidade do meu ser para que o meu pensamento se torne transparente e possa escutar a palavra que desde sempre me dizes.
Primeiro pareceu a Gaspar que a estrela era uma palavra, uma palavra de repente dita na muda atenção do céu...
E foi para seguir essa estrela que Gaspar abandonou o seu palácio".

Que bela oração de Advento. Que liberdade para caminhar.

***

Encontrado no mural de um amigo, no facebook. Texto de Sophia de Melo Breyner, do conto "Os Três Reis do Oriente".

Sempre que leio textos como este lembro-me de alguns amigos ateus ou agnósticos, que acham que eu, como católica, tenho todas as respostas já pré-cozinhadas. Mal sabem eles deste tactear tocando a franja límpida de uma ausência.

querido Pai Natal (9)

Queridíssima Santa Lucia,

um bom desejo que eu tenho, e que quero que seja realizado, é que a escola desapareça da face da terra. Se não conseguires, traz-me alguns presentes materiais como o marido da Barbie, que se chama Ken. Quando brinco com ela não posso brincar que eles casam ou vão à discoteca, e então não é tão divertido.
Não te conheço, mas quero confiar em ti. Este Natal também gostava de ter a casa e a rulote da Barbie, assim as coisas da boneca não ficavam espalhadas por todos os lados e mamã não ia ralhar por causa da desarrumação. Como é que consegues pagar os presentes de todos?
Desculpa estar a pedir tantos brinquedos, mas a culpa é dos fabricantes de brinquedos, porque fazem tantos. Para o meu papá uma mola da roupa, para ele não ressonar.
A tua amiga favorita Sabina


Sabina - Poggio Mirteto (Rieti)

06 dezembro 2011

unir pedaços do mundo



Hoje, no Luchkonzert da Filarmonia: Duo Koko "fusão de jazz impressionista e moderna música clássica" (com Taiko Saito, japonesa, na marimba, e Niko Meinhold, alemão, ao piano), Martin Stegner (membro da Filarmónica de Berlim, viola) e Cymin Samawatie e Ralf Schwarz (da banda Cyminology). Cymin Samawatie nasceu na Alemanha, filha de imigrantes iranianos. Nas suas composições traz para o jazz poemas de grandes poetas persas: Hafis, Rumi, Kahyyam. Ralf Schwarz é o contrabaixista da banda.

Gostei especialmente de uma composição de Cymin que combinava o salmo 130 com a sura 91. E assim se juntaram naquele foyer Japão, Pérsia e Alemanha, e em improvisos de jazz se uniram pedaços do mundo.

***

Korokoro (Shuntaro Tanikawa, *1931)

O coração paira
para cá,
para lá.
Paira e encontra
um outro coração.
Às vezes fundem-se
como duas gotas de orvalho
sobre uma folha
na primeira luz da manhã.

***

A japonesa era extraordinariamente magra. Ao ver a sua cintura fina como uma folha de papel - vá, talvez duas - imaginei que uma gravidez a rebentaria, literalmente. Qual não foi o meu espanto quando, no fim do concerto, ela voltou ao palco com uma filha ao colo. Qual não foi o meu espanto quando a vi depois, fora do palco, com dois filhos ao colo!
Helena Araújo: zero a anatomia.




(Raramente tirei uma fotografia tão má como esta: não se vê o bebé que a mãe tem no braço esquerdo, e está desfocada. Mas está bem assim mesmo: não gostaria de publicar aqui a cara das crianças, e dá para ver a finíssima cintura da mãe.)

***

De um Lunchkonzert semelhante, há cerca de um ano:

 

Do mesmo concerto, vendo-se bem Martin Stegner na viola:



Aqui, um concerto com o Duo Koko:

querido Pai Natal (8)

Querida Befana,

o meu nome é Fatima, tenho oito anos e não tenho a certeza se devo acreditar em ti ou não. Estou farta dos meninos da escola que dizem que tu não existes. Na minha cabeça só ouço: "a Befana existe, a Befana não existe, a Befana existe..." E quando perguntei à minha mãe, ela só fez um sorriso esquisito.

Agora vou-te contar como sou. Sou inteligente, um bocado redondinha e tenho muito apetite, porque gosto de comer, um nariz de batatinha, loura mas com cabelo comprido. Na minha família há um problema sério, e a culpa é minha, porque estamos sempre a discutir por causa de eu roer as unhas: eu tento lutar contra isso, mas é mais forte que eu e no fim acabo a roer as unhas outra vez. A seguir fico muito aflita e tento desfazer a asneira: se me pudesses ajudar, para eu não roer mais as unhas!
Claro que para isso é preciso um feitiço. O que te proponho: eu continuo a roer, mas quando a mamã ou o papá olharem, tu fazes com que elas pareçam compridas: eu ia rebentar de felicidade e podia continuar a viver sem ter de evitar isso. O meu coraçãozinho está cheio de preocupações. Fatima

PS: Se existes, dá-me uma prova.


Fatima - Pádua

festa de Natal de portugueses para portugueses e com portugueses (3)

Aqui podem ver algumas fotos.

05 dezembro 2011

festa de Natal de portugueses para portugueses e com portugueses (2)

Em síntese, foi isto: o mundo é um lugar bom.
Impressionante como um grupo de patuscos
     (hehehe para o "compatriota", que não acha graça nenhuma a este nome que nos dei)
um grupo sem estatutos nem hierarquias, composto por pessoas muito diferentes mas igualmente atarefadas, conseguiu organizar uma festa tão bonita, com tão bom ambiente e tanta qualidade.

Ainda agora me custa a acreditar que uma coisa tão especial nos nasceu das mãos, e da contribuição gratuita de tantos: artistas excelentes que participaram sem cobrar cachet, uma incansável equipa no serviço de comes e bebes, um público que trouxe bolos deliciosos (muito eu gostava de saber quem fez aquele pão-de-ló caseiríssimo, há que anos não comia uma crostinha assim). 

Em breve haverá no facebook e na berlinda.org fotos e vídeos, mas para já deixo aqui um gostinho. (infelizmente o meu fotógrafo preferido chegou um pouco mais tarde, e por isso faltam fotos das crianças no palco - aquelas dinâmicas de grupos de miúdos são sempre muito engraçadas e enternecedoras - e da Madalena Leal de Faria a cantar canções de Natal)

Projecto deLavoisier: um grupo ainda desconhecido, com um projecto muito interessante, aplaudido de tal maneira que a organização teve de aceitar que eles cantassem mais do que o tempo previsto para cada grupo.



Ópera, com Inês Thomas Almeida (Mezzosoprano), Mónica Monteiro (Soprano), David Santos (Piano)
Estava na sala quando eles fizeram o teste de som. Arrancaram com este dueto (no vídeo, é a partir de 1:19), e eu a parar tudo, os milhentos papéis esquecidos na mão, a pensar "não vais chorar, pois não, Heleninha?" - não, mas foi por pouco.





Quando elas começaram a cantar, a sala estava muito agitada. As crianças corriam à volta das cadeiras, as pessoas conversavam. Apesar dos psssst, havia uma barulheira desagradável. Mas ao fim de um minuto aconteceu um momento de milagre: as pessoas perceberam a qualidade do que estava a acontecer no palco, deixaram-se tocar pela música, e todos se calaram. Nem as crianças se ouviam. Conseguiram encantar um público extremamente diverso, onde haveria com certeza pessoas que pouco apreciam a música clássica. E deixaram toda a gente bem-disposta com o seu dueto dos gatos - nunca o vi interpretado de forma tão hilariante.


A seguir ao intervalo, Jazz: Carlos Bica (Contrabaixo) e Carsten Daerr (Piano)
E eu a perguntar-me, como o miúdo no regresso do dentista, "Is this real life?!"  

 

A seguir, um ar de Vaudeville com Lúcia Vicente. Felizmente já não havia crianças na sala...
"Is this real life?", hehehe



Para terminar, o Trio Fado.
Fado com violoncelo, muito bonito.



E depois discoteca, e conversas animadas até altas horas da noite. Esta manhã foi difícil levantar.
Em síntese, foi isto (no português muito particular do Joachim): "os portugueses que moram em Berlim e não vieram a esta festa devem ter os pirolitos avariados".

querido Pai Natal (7)

Querido Pai Natal,

Como decidi ser polícia, traz-me o material necessário: pistolas e algemas, boné de polícia, sirene e formulários de interrogatório. Gosto desta profissão porque podes ver os assaltos de perto, apanhas os ladrões e bates-lhes até eles confessarem o roubo e os tiros nos velhos que recebem reforma. Assim  triunfa a Justiça e nós levamo-los para a esquadra para os encher de pancada. Quando a tareia chega ao fim o juiz dá-lhes a cadeira eléctrica e fica o assunto resolvido.
É assim que se acaba com o crime e somos nós quem acaba com ele. O meu pai é obrigado a vender aquela coisa, mas não é um criminoso, ele diz que senão rebentamos todos de fome. Ele é varredor de ruas, mas só ganha meia leca. Além disso não pode ir para o trabalho porque é muito longe e tem de se levantar cedo, por isso é que está sempre doente, mas é só a fazer de conta. Cá nos vamos aguentando, mas não tenho coisas de polícia. Também quero a ambulância da Cruz Vermelha, era bom se trouxesses a que tem sirene, mas tens de trazer também a metralhadora para os criminosos, depois posso andar a toda a velocidade e dar tiros e feliz natal.

de Gennaro Giovanni

Giovanni - Noccera Inferiore (Salerno)

04 dezembro 2011

querido Pai Natal (6)

Querido menino Jesus,

como é que fazer para ser tão pequenino no Natal e já estares pronto na Páscoa? E no Carnaval vais de três mosqueteiros ou de Batman? Tu sabes da nossa tragédia, que o papá já não está aqui. A mamã diz que não vai haver Natal, mas nós os filhos pensamos que bem podíamos receber dois ou três pequenos presentes, mesmo se é uma tragédia. Os avós telefonam e dizem que tu levas os presentes para casa deles, mas eu e o Graziano queremos que também os tragas para cá, como dantes, quando o papá estava aqui e nos ajudava a montar o Lego e a pista de corridas. É mesmo uma tragédia!
Também queremos dar um presente de Natal bonito à mamã, que passa o dia na cama a ver vendas de tapetes e coisas na televisão, que nunca compra. Ora então, menino Jesus, já que és como nós e tens a mamã Madonna, traz presentes à nossa mamã, que passa a vida na cama a ver televisão, mas nem sequer vê os filmes, só as vendas pela televisão, e dá-lhe a cozinha em aço inox, as jarras prateadas e os tapetes persas. Talvez ela então abra e diga oooooh!!!! que lindos tapetes. Para nós não precisas de trazer nada, o mais importante é para a mamã. Jesusinho, estamos nas tuas mãos, mas é mesmo verdade que eles as furaram com pregos?

Martina, e o meu irmãozinho Graziano, que ainda não sabe escrever mas me diz as coisas. Temos esperança que nos ajudes. Ciao.

Martina - Manduria (Tarent)

03 dezembro 2011

festa de Natal de portugueses para portugueses e com portugueses

(Sendo capaz de fazer títulos destes, não sei porque é que não me pedem a mim para escrever os discursos do presidente da república no "dia da raça"...)

Ando há que tempos para contar esta história, e afinal não vou ter tempo para os detalhes. Resumidamente: há meses chegou a Berlim um compatriota nosso que achou estranho os portugueses que moram nesta cidade não saberem uns dos outros. Curiosamente, ele chegou aqui mais ou menos na altura em que eu me tinha dado conta do mesmo: quando andei aflita para tentar avisar os portugueses que podiam assistir a um Governo Sombra em directo.
Só que, perante o mesmo problema, eu desenrasquei como pude (tens a minha eterna gratidão, Rita!) e ele deitou mãos à obra. Começou a falar com uns e outros, a organizar umas reuniões e tal, e meia dúzia de meses mais tarde já há uma mailing-list no Google e um grupo "Portugueses em Berlim" no facebook, por onde passam informações, pedidos de ajuda, ofertas de emprego, ofertas de apartamento, ofertas de ajuda a imigrantes, o que calha.
(Viesse o Governo Sombra agora a Berlim, podíamos encher o Olympia Stadion. Ou quase, vá.)

E amanhã há festa. Com comidas portuguesas (yes: rissóis!) e bebidas portuguesas (espero que haja Sumol de laranja) e artistas portugueses que vão participar gratuitamente. E até público português que vai ajudar também: a vender os rissóis e o mais que for preciso.
Amanhã, domingo 4 de Dezembro, em Berlim, vai ser dia de matar saudades dos sons e dos sabores que nos são tão familiares. A entrada é livre.

Tudo isto porque alguém acreditou e começou a fazer, e porque outros embarcaram generosamente no sonho. Por estas e por outras é que eu acredito que o mundo está cheio de gente boa.

***

Programa:

Parte I

15:00 – Abertura
15:30 – Apresentação das crianças alunas da Escola Europeia Bilingue Português / Alemão
16:00 – Canções de Natal – Madalena Leal de Faria (Soprano) e David Santos (Piano)
16:15 – Projecto DeLavoisier (Música)
16:45 – Apresentação de projetos de portugueses em Berlim
17:00 – Ópera – Inês Thomas Almeida (Mezzosoprano), Mónica Monteiro (Soprano), David Santos (Piano)

17:20 – Intervalo

Parte II

18:00 – Jazz – Carlos Bica (Contrabaixo) e Carsten Daerr (Piano)
18:30 – Vaudeville – Lúcia Vicente (Dança)
18:45 – Apresentação de projetos de portugueses em Berlim. Distribuição de presentes às crianças e entrega de um quadro do artista Carlos Martins.
19:00 – Trio Fado
20:00 – Discoteca – DJ Atom
23:00 – Encerramento da Festa de Natal

A Festa de Natal terá lugar na Werkstatt der Kulturen, na Wissmannstraße 32, 12049 Berlim.

eles por eles

Gravações em rolo de papel para pianolas:

"Bridal Procession" - Edvard Grieg (1843-1907)


Prelude in C Sharp Minor - Rachmaninov


Etude Op.8 No.12 - Alexander Scriabin


Toccata in D minor Op.11 - Prokofiev


Piano Sonata - Igor Stravinsky (1925)


Arabesque no.2 - Debussy


Original Rags -Scott Joplin (1899)


Rhapsody In Blue - Gershwin



Um pequeno extra: Rachmaninoff toca Rimsky-Korsakov "Scheherazade" (1º mvmt)

Ku'damm, às cinco da tarde





Sim: às cinco da tarde já é noite. Sim: está um frio de rachar.
Mas: centenas de plátanos iluminados no Ku'damm ajudam - e de que maneira - a atravessar Dezembro com uma espécie de alvoroço leve.