10 novembro 2011

Herta Müller

Hoje é dia de Herta Müller. Vou vê-la num simpósio sobre ciganos (que na Alemanha não se chamam "ciganos", mas Roma e Sinti - "ciganos" era o carimbo com que os marcavam para o gás, ou para a prostituição forçada no bordel do KZ).

Sobre esta escritora já aqui falei (ora a brincar, ora a sério, ora impressionada). Hoje acrescento um dos seus poemas escritos com tesoura, que fazem parte de um livro delicioso: "Die Blassen Herren mit den Mokkatassen".




A fotografia vem neste site, onde se pode ouvir também a autora a ler vários dos seus poemas - vão ouvir, vão ver, garanto que devolvo o preço a quem não ficar satisfeito)


Uma tradução possível (*) do poema nesta criação:

O pior    é que    a erva    passeia    há horas    no meu vestido novo    
e    eu    sentada    no    banco de betão    uma    de cinco    em frente
ao cabeleireiro    a primeira    é    insensata    a    segunda    tem 
olhos grandes    a    terceira    é manhosa    a    quarta    e    a    quinta    
essas    sou eu    porque    por    baixo    de mim    há    uma    poça    
vejo    -me    dentro dela    e    tenho de    fazer caretas    senão    
uma    das    duas    que    eu sou   não consegue    distinguir    o     
gorro de pele    na    cabeça    da    outra    do    pássaro    morto    
na    poça


(*) eu bem sabia que me devia ter inscrito naquele curso para tradução de poesia do literarisches colloquium berlin, que além de ser gratuito é num sítio lindo na margem do Wannsee, e além disso tinha a vantagem de aprender a olhar para os poemas a traduzir como se nem eles fossem um palácio nem eu fosse um, bom, esqueçam, muuuh (mas sorridente, num prado).


09 novembro 2011

a importância de preparar mal as conferências de imprensa

A ver se consigo contar isto em duas palavras:
(ahem, não consigo, vão ser algumas mais)

Com as manifestações de segunda-feira em Leipzig, e com a famosa manifestação dos 900 mil em Berlim, o regime da RDA descobriu que se estava a desmoronar inexoravelmente, e tentou reagir com um regulamento para saídas definitivas do país, que logo um grupo alargou para incluir as simples viagens ao exterior. As coisas aconteceram muito depressa, a mão direita do Politbüro não sabia o que é que a mão esquerda do mesmo andava a fazer, e o pobre do Günter Schabowski, responsável pelas conferências de imprensa, caiu naquela trapalhada tarde e a más horas, recebeu o documento alterado sem a indicação do que se tinha falado antes e de que essas informações só eram para passar no dia seguinte, para dar tempo de avisar os guardas das fronteiras.
De modo que foi muito mal preparado para a conferência de imprensa, e foi a cena gaga que se viu (a partir do 25º segundo) e daí a nada os telejornais da Alemanha ocidental estavam a dar a notícia na RDA (ah, pois), as pessoas estavam a sair para as passagens do muro, os guardas olhavam para aquela multidão atarantados, pensando como haviam de fazer a vida negra a tanta gente ao mesmo tempo (chegaram a aventar rasgar-lhes os passaportes, e assim), nos EUA falava-se de astonishing things happening e depois o muro caiu.
E eu sentada no sofá dos pais do Joachim, e eles sentados ao meu lado: a chorar, de mão dada.

De onde se prova que o que fez avançar a História nesse dia foi - curiosamente - a falta de eficiência alemã.
Se isto não é um sinal importante - e até um trunfo de argumentação - para os países do Sul, que diz que não se organizam e são calaceiros e tal...




Tatiana Parra

Por causa da sem-se-ver, que ontem me incutiu um novo vício, cheguei à Tatiana Parra.

Para que vejam como estas coisas acontecem: andei a fazer queixa da sem-se-ver no facebook, que com gente a dar-me música assim eu me meto alegremente pelos caminhos da perdição, e tinha tanto que fazer e não dou vazão (o costume), e um amigo, o Ruben, deu a Tatiana Parra para a troca, contando isto:

Foi através da Internet, na época, o Myspace, que Tatiana Conheceu Andrés Beeuwsaert. Ele argentino, um gênio do piano. Ela brasileira, cantora de mão cheia. Tati procurou, foi até lá, e desse movimento, nasceu uma parceria que ultrapassa fronteiras e vai além da música. Eles são namorados.
oOo
Tati é uma cantora de enorme competência. Tem pouco mais de 30 anos, e já canta desde os 5.
oOo
Nessa gravação, ela mostra como a música popular pode se assemelhar à música de concerto. Foi Elis quem gravou o original, mas ela é um capítulo a parte. E Tati faz bonito. Schubert gostaria de ouvir, tenho certeza.


 

Da "corrida de jangada" facilmente cheguei a esta "cueca de agua", encantadora:



E o Ruben acrescenta ainda esta milonga, diz que lhe lembra "le tombeau de Couperin":







(Ruben, sem-se-ver: muito obrigada!)

o inverno à porta de Potsdam

O parque do palácio Sans Souci prepara-se para o inverno.

As estátuas estão metidas em casinhas de madeira (e vejam só o que são reflexos condicionados: ao olhar para elas, quase sinto no ar o cheiro que anuncia a neve):






O pavilhão chinês também se esconde aos poucos: algumas estátuas já estão protegidas, outras - estes espantosos chineses tal como a corte da Prússia no séc. XVIII os imaginava - ainda saboreiam os últimos raios de sol antes do inverno.





(nesta fotografia não há muito sol, mas tinha de a incluir porque o vestido da "chinesa" é uma delícia)





As cubas de laranjeiras e limoeiros preparam-se para hibernar no palácio da Orangerie, as alamedas apresentam-se agora despidas.




E junto ao Neues Schloss aproveita-se esta trégua entre o fim do Verão e a chegada do gelo para fazer obras nos caminhos.

08 novembro 2011

pergunta aos utilizadores do blogger

Olá colegas,

estava aqui entretida a carregar mais uma dúzia de fotos enormes quando me avisaram que já atingi o limite de capacidade gratuito dos álbuns Picasa. Prafrentemente, é a pagar cinco dólares por ano. Não é que me incomode muito pagar cinco dólares por ano, mas gostava de saber o que decidiram fazer quando chegaram a este momento fatal da vida internética.
Será que chegou a hora de me mudar para o sapo de fotos e bagagens?

Muito obrigada desde já!

Monet na Prússia


(sim, já publiquei esta foto num post de ontem - mas tenham paciência, e deixem-me babar outra vez)

07 novembro 2011

Outono sereno


Em Potsdam, esta manhã. Gostei tanto da foto, que fui atrás do casal oferecer-me para a mandar por e-mail. Trocámos endereços, e de onde é? e há quanto tempo já mora na Alemanha?
- Vim para cá três dias antes da queda do muro.
- Ai eu foi quase a mesma coisa: num domingo fui à celebração na Marienkirche, no domingo seguinte aconteceu aquela desgraça.
- Desgraça?
- Sim, então: começaram a construir o muro. Eu nessa altura morava e trabalhava em Berlim ocidental, mas ia muito a Berlim leste. Acabou.

Conversámos mais um pouco. Eles eram de Hannover, só estavam de passagem. Tinham cabelos brancos, os olhos muito brilhantes, e um ar sereno.

Depois a minha amiga disse: "tu também te pões a jeito para o sublime te acontecer."
E se calhar tem razão.

"reconheço que há espaços de sublime que são verdade"

Esta manhã fui passear com dois amigos no parque dos palácios de Potsdam.
Estava um dia glorioso - parece que o Novembro está a tentar pedir desculpa pelo Agosto que tivemos. E as árvores outonais, todas oferecidas, punham-se a jeito para fotografias tiradas praticamente à queima-roupa: cada clicadela, cada acertadela.

A minha amiga, que frequenta este blogue mas provavelmente desconfiará que eu sou a mãe do photoshop (pelo menos), a passos tantos estacou e disse

reconheço que há espaços de sublime que são verdade


É isso mesmo.














06 novembro 2011

morar por cima do Outono


morar por cima do Outono

ou entrar por ele na cidade




(Claro que o meu caro comentador cjs daqui a nada vai aparecer aí a afirmar que "ainda ontem estive na tua rua e já não estava nada assim", e é o que vos digo, snif snif: a vida real atrapalha-me muito a dos blogues)

05 novembro 2011

looking inquiringly into the unknown

O Digital Concert Hall transmite hoje em directo a nona sinfonia de Mahler, com Simon Rattle e a Filarmónica de Berlim.

Se for como foi ontem ao vivo, vai ser... sei lá, aquele looking inquiringly into the unknown (como vem no programa, citando Adorno) vai ser um caso de "went emotional" à escala planetária: especialmente o pianissimo final, o perfeito entendimento dos instrumentos soando como se fossem um só corpo - a extinguir-se lentamente na mais perfeita paz.





(Até parece que me pagam comissão, mas não pagam, e é assim: por 9,90 euros podem assistir a este concerto e vasculhar nos arquivos do DCH durante 48 horas - se por aí estiver um Novembro de chuva, fica bem mais barato que ir para o centro comercial...)

"nunca podemos baixar os braços"

A propósito deste post do Carlos Azevedo (vão ver, tem uma foto muito engraçada para ilustrar a ideia), lembrei-me deste outro, da Snowgaze:

Mais quê?

Ontem almocei com um amigo da faculdade que está por cá de férias. Férias que devia ter gozado em 2010, mas que por causa do trabalho (em Portugal, não cá) teve que adiar. E que me explicou que trabalha 10 a 12 horas por dia, no mínimo, e que apesar de estar de férias, logo às 8 da manhã tinha recebido um telefonema de trabalho que atendeu e que prontamente resolveu o problema de quem o acordou àquela hora. Engraçado, ontem à noite, um senhor engravatado ter ido à televisão dizer que os horários de trabalho têm que aumentar. Mais quê, já agora?

O Retorno - texto lido na sessão de lançamento do livro

Texto que a escritora Dulce Maria Cardoso leu na sessão de lançamento do livro "O Retorno". Encontrado na página facebook da editora tinta-da-china.



É muito bom estar aqui convosco. Mas tenho que confessar-vos uma coisa: não estou completamente aqui convosco. Cada vez que estou num hotel nunca estou completamente no presente; para mim um hotel nunca é só um hotel, nunca é só um sítio onde fico instalada por uns dias quando estou longe de casa. Um hotel é uma espécie de máquina do tempo e do espaço que me transporta sempre para outro hotel, o Hotel Paris, no Estoril, quando eu tinha 11 anos. Há precisamente 36 anos o hotel Paris era a minha casa. Quando tinha de preencher as fichas de aluna no ciclo, e mais tarde no liceu, na linha em que era pedida a morada eu escrevia Hotel Paris quarto 315. Até que uma professora me disse “não precisas de indicar o número do quarto” e eu passei a escrever apenas o meu nome, os nomes dos meus pais, a minha naturalidade Amedo, Carrazeda de Ansiães, e na morada apenas: Hotel Paris.
Também a Beatriz Costa terá indicado muitas vezes este hotel onde estamos – o Hotel Tivoli - como morada. Só que a nossa situação era diferente. O que me fez, a mim e à minha família, viver durante mais de um ano num quarto de hotel foi uma experiência alternativa e radical mas também muito diferente daquelas que experimentaram e experimentam muitos artistas que decidem viver em hotéis como seja o Hotel Chelsea. Em 1975, as pessoas que enchiam os hotéis em Portugal não eram artistas ou afins. Eram retornados. Retornados das colónias que não tinham para onde ir. Alguns deles foram encontrados mortos nos quartos, como aconteceu com alguns famosos no Hotel Chelsea. Só que em relação aos retornados não havia glamour nenhum nisso. Quem se matava, matava-se por excesso de lucidez e isso não tinha interesse nenhum. Nunca ninguém ia querer contar ou sequer lembrar o que os retornados viveram e como viveram aqueles anos.
Eu quis. Eu estava lá. Eu era um deles. Durante todos estes anos soube que um dia haveria de falar do que testemunhei, do que vivi. Falar não, escrever. Escrever e mostrar-vos. Esse dia chegou. Esse dia é hoje.
O que então se viveu foi uma espécie de espectáculo de realidade muito antes destes terem sido inventados: fez-se com que muitos milhares de pessoas abandonassem as suas casas, só lhes foi permitido trazer cinco contos, despejaram-se essas pessoas em hotéis, pensões e residenciais, que ficam a abarrotar, e deixou-se estar. Como nessa altura as maravilhas dos espectáculos de realidade ainda não tinham sido descobertas não foi “deixa-se estar a ver no que dá”, foi só “deixa-se estar”. Ainda não era um espectáculo da realidade, era só uma realidade irreal. Nós, os retornados, tínhamos segredos e sabíamos de histórias terríveis mas ninguém se interessava por isso. Não havia câmaras a registar o que acontecia, nem televisões a difundir, nem audiências nem prémios. Só concorrentes forçados. Também não havia duração pré-estabelecida para o tempo que aquilo ia durar mas toda a gente sabia que não podia durar para sempre. E o pior de tudo era não haver casa para onde voltar quando tivessemos que sair dos hotéis.
Tinhamos chegado de longe, de África, mas mais do que de continente tinhamos mudado de tempo e já não havia como regressar. As viagens no tempo são sempre só de ida. As de volta também acontecem mas nunca nos deixam despachar o corpo. Por isso mais do que estarmos encurralados num espaço estavamos encurralados num tempo.
E o tempo armadilha mais e de forma mais terrível do que o espaço. Era preciso inventar uma saída: uma saída e uma casa. Porque apesar de escrever Hotel Paris na linha da morada nas fichas de aluna, o Hotel Paris nunca foi a minha casa. Só podemos chamar casa a um sítio a que sentimos pertencer. Não podemos chamar casa a sítio que nos rejeita. Um sítio ou outra coisa qualquer. Mas talvez a essência da vida seja isso mesmo: procurar a nossa casa, um sítio a que se pertença. Um sítio ou outra coisa qualquer. Se houve alguma utilidade na experiência por que passei enquanto retornada essa foi com certeza uma delas: tornar-me consciente dessa necessidade.
Em relação à questão da armadilha do tempo e do espaço sempre achei, aliás, que ela se evidenciou de forma material em mim. Comigo foi assim: nasci em Trás-os-montes, na verdade não propriamente no tal Amedo, Carrazeda de Ansiães, que escrevia nas fichas de aluna e que continuo a ter de escrever sempre que me pedem a naturalidade, mas sim numa outra aldeia ali perto: Fonte Longa. A razão de a minha mãe ter trocado o bonito nome da aldeia onde eu nasci e que era também a aldeia onde ela tinha nascido e vivido – Fonte Longa - e me ter registado como sendo de uma outra com o sombrio nome de Amedo, tem que ver com o facto de Amedo ser a aldeia do meu pai. Isto tudo porque o meu pai não estava connosco quando eu nasci. Mas para que não sobrassem dúvidas que esteve presente nove meses antes a minha mãe achou que era conveniente que fosse a terra dele e aquela onde fui concebida que constasse na minha identificação. E assim ficou registado Amedo. A medo ou não o meu pai havia entretanto partido para Luanda. A minha mãe e a minha irmã ficaram para trás à minha espera. Depois de ter nascido esperámos ainda mais seis meses e metemo-nos então a caminho. O meu pai esperava-nos em Luanda. O meu pai e uma vida nova. Durou pouco mais de dez anos.
Mas vinha isto a propósito de durante esses dez anos o meu corpo não ter parado de crescer. Quando fomos obrigados a voltar para cá nas vésperas de fazer onze anos eu era uma verdadeira matulona. Chegada aqui o corpo parou de crescer e desde então fiquei convencida que afinal o funcionamento dos nossos corpos não é muito diferente do dos bolos: se alguém abre a porta do forno de forma imprudente ou antes da altura certa, não há nada a fazer, o bolo não cresce mais. Tive até sorte de não ter mirrado. Deixar o calor de Luanda para o frio do outono em Lisboa – eu não sabia sequer o que era o frio – tinha mesmo de atrofiar-me o crescimento. No mínimo. É assim que na minha identificação consta Amedo em vez de Fonte Longa e uma altura de 1,64 em vez do 1,80 que me estava destinado.
Sempre culpei o frio por o meu corpo ter parado de crescer. O frio ou a desilusão. Porque para quem vivia nas colónias a metrópole era uma espécie de paraíso distante onde tudo era maravilhoso. Chegar aqui em 1975, ainda mais nas condições em que chegámos, foi quase devastador. Um dos capítulos de “O retorno” que mais escrevi e re-escrevi é o da chegada aqui. Das muitas e muitas páginas acabou por sobrar apenas uma frase: “Então a metrópole afinal é isto”. A desilusão é uma página quase em branco.
Mas nós, os retornados, nunca fomos muito reais. A improbabilidade de tudo aquilo por que estavamos a passar dava-me uma sensação de desrealização: aquilo não podia ser verdade. Como era possível que a vida que tinhamos vivido até ali tivesse acabado assim abruptamente? Como é que nos tinhamos vindo todos embora sem nada? Como é que não tendo nada estávamos instalados em hoteis? Tenho a certeza de que se à ingenuidade infantil de então tivesse sido possível juntar a cultura mediática de hoje ter-me-ia convencido de que fazia parte da equipa de um novo programa televisivo, talvez um “Querido, mudei o hotel”. A razão para se ter obrigado os portugueses a regressar de África sem nada, para depois instalá-los em hotéis, muitos deles de luxo, só podia ser essa: os retornados eram a equipa de trabalhadores do um projecto megalómano “Querido, mudei o hotel”. A revolução e a descolonização eram apenas uma fachada. A verdadeira motivação era esta: recrutar de forma gratuita uma equipa que iria mudar em pouco tempo os hotéis em Portugal. Não era com certeza por acaso que o nome de um dos principais responsáveis pela revolução era Otelo. Não há coincidências. Os retornados revelaram-se uma equipa profissional e eficaz e o projecto “Querido, mudei o hotel” foi um sucesso: em pouquíssimo tempo, o luxo dos hotéis desapareceu e tudo ficou mais conforme com o ambiente proletário que então se vivia. Por uns tempos, claro.
Só que em 1975 não havia televisão em Angola e eu nem sabia bem o que isso era. Mas tinha a ingenuidade que quase todas as crianças têm. E por isso a maneira que encontrei de lidar com toda aquela irrealidade foi transformar-me em personagem, tentar convencer-me de que eu era a protagonista de uma história de aventuras. Uma história de aventuras bastante menos verosímil do que as da colecção dos Cinco ou das Gémeas do Colégio de Santa Clara mas ainda assim passível de ser contada. Por isso tinha de estar atenta e decorar tudo. E foi isso que fiz: decorei tudo.
Com o tempo, muitos anos depois, apercebi-me de uma coisa terrível: eu tinha decorado aquilo a que assistira mas não apenas no sentido de ter memorizado tudo, eu tinha também decorado aquilo a que assistira no sentido em que se decora uma casa: para embelezá-la, para nos sentirmos confortáveis nela. E isso era terrível porque aquilo com que nos sentimos confortáveis é quase sempre improdutivo. O que fazer então com todo aquele material semi-amansado que guardava em mim? Como devolver-lhe a pureza, recuperar-lhe a verdade? Como utilizá-lo de forma a ser justa para com o que acontecera? Foram precisas mais de três décadas para ter a certeza de que estava pronta. Não me interessava contar a minha história mas sim usar o que tinha vivido e testemunhado para criar uma ficção que pudesse contribuir para que de futuro o sofrimento por que muitos passámos pudesse ser evitado.
Espero tê-lo conseguido. Tentar entender aquilo por que passamos quando uma perda se dá - negação, atracção, consumação, espera, desespero, aceitação, luto, sobrevivência – faz com que possamos estar alertados para os danos que uma perda causa e que evitemos contribuir para que outras aconteçam. Ou pelo menos, não podendo evitar que aconteçam, podemos tentar minimizar o sofrimento associado.
Esta festa também faz com que me lembre da primeira festa a que fui, na metrópole. Naquela altura os retornados eram facilmente identificaveis pelos de cá: pela forma como nos vestiamos – roupas que tinhamos trazido de lá e que não eram habituais aqui ou roupa que nos era dada por organizações de caridade e que nunca era apropriada – pelo tom de pele, pelo sotaque. Eramos facilmente identificaveis e ninguém se queria dar connosco: tínhamos estado em África a explorar os pretos e tinhamos condutas reprováveis. Nunca era convidada para os aniversários dos meus colegas. Via os outros serem convidados e eu não. E ficava triste. Não é fácil lidar com a rejeição. Até que um dia houve uma colega que me convidou. Nem consegui dormir, tão contente fiquei. Preparei-me para a festa, entusiasmada. Pensava nas festas de Luanda e mal podia esperar que o dia chegasse. Mas o dia chegou e a festa resumia-se a um gira-discos colocado em cima de uma cama, à volta da qual pouco espaço havia para dançar, e a um lanche em que o grande atractivo eram pratinhos com bolachas Maria empilhadas e moles. Percebi imediatamente que não queria aquelas festas. Passar de rejeitado ao que rejeita por vezes demora menos de nada.
Já ninguém consegue identificar e reconhecer os retornados. É o que se chama integração: deixa-se de dar conta daquilo que eram os elementos estranhos. Será porque eles deixaram de ser distintos ou porque passaram a usar uma máscara que faz com que ninguém seja já capaz de reconhece-los como estranhos? Estou convencida de que estarmos integrados, retornados ou não, tem mais que ver com combinarmos usar todos a mesma máscara. Despidos da mesma farda, sentimo-nos mais ameaçados ou mais ameaçadores. Raramente queremos isso.
Hoje aparentemente estamos em paz. Em crise mas em paz. Portugal é um pouco como o filho da Silvana, uma das personagens do romance: por um lado, filho da prudência ou cobardia de quem se deixa ficar e aceita continuar a servir, por outro, filho da infantilidade ou ousadia de quem quer partir e não se conforma com o que lhe é oferecido. E a pairar sobre estas duas forças contraditórias que determinam talvez uma certa esquizofrenia do país, as suspeitas de ilegitimidade, bastardia e infertilidade.
Quanto ao contributo que os retornados poderão ter dado para este Portugal acho que não me engano muito se vos disser: Queridos, mudámos o país. Pelo menos um bocadinho.

Dulce Maria Cardoso

04 novembro 2011

o retorno



Um livro que começa com "mas" já ganhou:

Mas na metrópole há cerejas.

Entrei no livro curiosa, antecipando o melhor. Mesmo assim, não estava preparada para o que ele me fez: de repente, a minha própria história vinha à tona:

a miúda que na aula de ginástica disse que em África não se dançava assim como o Regadinho que a professora nos ensinava a executar disciplinadamente, e a professora "então na próxima aula trazes um disco teu", e ela trouxe, e dançou com a alegria no corpo todo, e nós maravilhadas a abrir os olhos para um mundo completamente desconhecido

as irmãs que andavam na minha turma, e contaram que os pais as foram buscar à escola para fugirem - nem sequer puderam ir a casa buscar os objectos mais queridos, despedir-se

e contaram mais: que na rua lhes apontavam armas à cabeça - diziam o nome das armas, um nome que eu não conhecia e já esqueci. Eu ouvia, mas não entendia - nem o nome das armas, nem o que é isso de ter uma apontada à cabeça. Naquela altura tinha 10, 11 anos, sabia da vida o que acontecia na minha geografia pacata, e mais o que via nas tardes de cinema, onde não havia armas apontadas à cabeça de miúdas como eu a caminho da escola. Elas, aquelas duas irmãs que tinham mais ou menos a minha idade, sabiam muito mais do que as tardes de cinema, e eu a ouvi-las no recreio da escola não soube ver e entender o horror que elas transportavam consigo

a prima da minha mãe, que conseguira trazer um contentor, e se queixava a nós: que eles a obrigaram a fazer uma lista exaustiva do que trazia, até a quantidade de agulhas de coser quiseram saber, e que ali estava tudo o que sobrara de uma vida de trabalho, e depois a tragédia: os vários serviços de porcelana chinesa no chão da sala, porque ainda não tinha armários, e a criança que passou a correr e caiu em cima deles - as peças desirmanadas, e era tudo o que nos tinha sobrado de uma vida

o meu tio que foi preso, e viu matarem um homem só por causa do seu relógio

os meus primos, que no Alentejo, a caminho de um Natal em família no Algarve, louvavam a cor da terra deles - "é vermelha, de um vermelho vivo" "um bocadinho como aquela ali, mas mais bonita" - e eu descobria por eles a cor de uma saudade muito funda quase desesperada

Um livro como um arqueólogo: desenterrando página a página o que estava esquecido, escondido no fundo de mim. Refazendo a peça a partir dos bocados, unidos agora à luz da distância e da experiência de meia vida.
E a delícia de um texto escorreito, servindo-se de palavras e frases aparentemente simples para dizer as ideias e os sentimentos mais complexos. Como se fosse fácil, como se tivesse de ser mesmo assim, como se já estivesse escrito algures, escrito em sangue, mesmo antes de ter sido imaginado.

os medos secretos dos alemães


(texto publicado na Berlinda, onde também está disponível em alemão)


De onde virá a famosa “deutsche Angst”, o medo alemão?

Para Gabriele Baring, terapeuta familiar e autora do livro “Os medos secretos dos alemães”, recentemente publicado, as causas têm de ser procuradas nos terríveis acontecimentos do século XX que, por não terem sido verbalizados nas famílias, deixaram profundas marcas nas pessoas.
Numa apresentação na livraria Dussmann, perante uma sala tão superlotada que algumas pessoas tiveram de ficar à porta, Gabriele Baring falou longamente do modo como o não-dito atravessa as famílias ao longo das gerações, e condiciona os actos das pessoas. Sustentou que é um fenómeno que atinge toda a sociedade alemã (“e os que dizem que não sofrem nada disso são os mais atingidos”), dando exemplos de como se manifesta até no topo da pirâmide política, e tem efeitos sobre o destino da nação.

“E os outros povos?” – é a primeira questão que, perante uma afirmação destas, ocorre ao ouvinte. Os russos também deviam sofrer da mesma Angst, ou não? Talvez a resposta resida no impedimento da verbalização: sendo certo que as duas guerras mundiais do século XX devastaram vários países europeus, e não apenas a Alemanha, este país impôs-se um silêncio sobre o seu próprio sofrimento que, combinado com sentimentos de culpa e de vergonha, criou um mal-estar profundo e geralmente ignorado, que se foi transmitindo de geração em geração. O silêncio, esse cancro: sobre a colaboração do pai ou do avô com o regime nazi, sobre as atrocidades da guerra (as sofridas, as infligidas a outros), sobre as violações em massa. A terapeuta afirma que é procurada por pessoas com uma enorme variedade de sintomas, e que, na grande maioria dos casos, se chega à conclusão que esses problemas radicam nos traumas que a guerra deixou. Curiosamente, os descendentes dos criminosos acusam sintomas semelhantes aos dos descendentes das vítimas.

A palestra prossegue para o campo dos políticos: quantas das suas decisões não se destinarão, no fundo, a homenagear um pai que desapareceu demasiado cedo, morto em combate? Focou com mais detalhe o caso de Karl-Theodor zu Guttenberg, nascido numa família cujo nome transporta pesadas obrigações, neto de resistentes, criado longe da mãe: os seus erros idiotas poderiam ser obra de um impulso inconsciente para se libertar dos grilhões do passado familiar.

Como curar esta Angst? Gabriele Baring propõe uma abordagem das constelações familiares. Servindo-se da teoria dos campos morfogenéticos de Rupert Sheldrake, vai buscar informações familiares transportadas nos genes ou nas células das pessoas. Explica, de modo simples, como funciona este trabalho com um grupo: uma pessoa escolhe, de entre aquele grupo, representantes para membros da sua própria família. Essas pessoas contam o que sentem (inclusivamente sintomas físicos), fazendo revelações surpreendentemente próximas da realidade dos familiares referidos, que o próprio sujeito central em muitos casos desconhecia. A verbalização e o confronto com alguns actores da história familiar, ainda que por interposta pessoa, permitem um reajustamento e uma libertação.


O moderador pede-lhe que leia nova passagem do livro, e ela escolhe uma passagem difícil: o abuso sexual de crianças dentro da família. Defende que só um acordo tácito da mãe, mesmo que não consciente, permite ao pai ou companheiro abusar da criança. Fala de casos terríveis, em que este “contrato familiar” passa da avó para a mãe, e desta para a filha. E que só a verbalização e o tratamento destes traumas permite quebrar o ciclo vicioso que atravessa as gerações.

“Nesse caso, teremos de alargar o banco dos tribunais, para que caibam todos os antepassados do réu?”, provoca o moderador. A autora sorri, e concorda: “Boa ideia!” Mas corrige logo a seguir, em tom sério: “Obviamente, cada pessoa responde pelos seus actos. O que não podemos é ignorar que somos muito menos livres do que pensamos.”

No público levantam-se algumas vozes de resistência:
- Mas que generalização disparatada! Está a insinuar que todos os alemães são doentes?
- Sim, todos os alemães precisam de se confrontar com as histórias silenciadas da sua família, é a resposta. E fala de um conhecido seu, um excelente profissional, que terá lido mais de cem livros sobre Hitler, mas não conseguiu ler o diário que o seu avô escreveu durante a guerra.

O moderador despede-se: prometeu à família que estaria em casa nessa noite, e – acrescenta, rindo - tem medo de perder o avião. O debate prossegue. O método da constelação familiar é muito elogiado. Pergunta-se: quantas das pessoas nesta sala conhecem a história da sua família? Nem metade dos presentes. Gabriele Baring insiste: é muito importante terem a coragem de se confrontar com essa história, vão ver que encontram pessoas muito simpáticas nas vossas raízes. Contudo, tenham cuidado com o terapeuta de constelação familiar, assegurem-se que é um bom profissional. Se não o puderem fazer comigo – remata, com um sorriso.

A sessão termina, mas algumas questões ficam em aberto. Será este um problema exclusivamente alemão? E a sociedade portuguesa? Que traumas da guerra colonial atravessarão as gerações? Que traumas terão deixado os surtos de emigração, as terríveis feridas que abriram nas famílias? A simples fuga em massa, em meados do século passado, dos campos para o litoral urbano?

***

Adenda - em conversa sobre isto, ofereceram-me um interessante artigo sobre os retornados e o não verbalizado: Os retornados estão a abrir o baú.

03 novembro 2011

dias de magia (3)

- Qual é a diferença entre psicanálise e espiritualidade?, perguntaram.
- Essa é fácil, respondo eu. A psicanálise envia-me em busca de mim, a espiritualidade envia-me em busca do Deus que habita no mais fundo de mim.

***

De regresso a casa, dou-me conta que começo a reparar nos momentos bons do meu dia. Uma senhora que no supermercado me olha nos olhos, nos olhos mesmo, e sorri. Por exemplo.

E mudo de perspectiva: melhor que anotar momentos, é criá-los para os outros. Sorrir nos olhos das pessoas. Por exemplo.

(e eis como depois de velha me dá para escuteira...)
(quanto me faltará para chegar à fase de obrigar velhinhas a atravessar a rua?)

dias de magia (2)



Primeiro dia

Chegar. No aeroporto, a enorme surpresa e a alegria de sermos recebidos por uma amiga que julgávamos em Portugal. Em casa, queijo e vinho pela noite adentro, conversas e risos.
E o olhar dos amigos: atento e perscrutador, procurando-me até ao fundo dos olhos - como fazia o meu pai, para concluir "pareces bem, cachopa".
Estou bem. Rodeada de gente que busca o chão dos meus olhos, estou o melhor possível.


Segundo dia

Amigos oferecem-se para trocar de quarto connosco - recebemos deles a floresta, as estrelas que nos entram pela janela.
Conversamos sobre as nossas vidas, as nossas angústias e alegrias. Falamo-nos e ouvimo-nos com confiança e atitude de profunda aceitação.

Aller en profondeur pour toucher l'universel.

Lá fora, a paisagem em tranquila transformação. A luz desliza pelas árvores, ilumina por dentro pedaços de amarelo e laranja. Não faço fotografias, não me quero perder da conversa. Uma mãe conta como diz o amor através da comida. Como, ao fim do dia, acolhe com aromas de bolo no forno essa filha que anda perdida em muito sofrimento. Como inventa um perfeito equilíbrio nas tartes de legumes para os filhos comerem no intervalo das aulas: pedaços de ternura na sacola.

Ce n'est pas le bout du tunnel, c'est aujourd'hui.

Depois do jantar, a música: uma canção de Clarika na voz de uma amiga e na sua guitarra (e que linda mensagem). George Brassens, les Croquants. Estamos na França, temos cinquenta anos e tanto que nos une.






Terceiro dia

Acordo cedo, agasalho-me à pressa e saio de máquina fotográfica na mão. Atravesso a floresta rapidamente, inquieta dos ruídos da noite (e se me aparece agora uma enorme javalia com javalizinhos?), inquieta de chegar demasiado tarde ao espectáculo da madrugada. Chego a tempo. O céu está tomado por uma poderosa carga de nuvens, o sol vai escalando os montes a custo, arde em pequenas nuvens tresmalhadas, mostra-se por uns minutos, encanta-me as árvores e o caminho da floresta com a sua luz rasa e dourada, e esconde-se de novo.







Ao pequeno-almoço:
- O que é um egoísta?
- É alguém que não pensa em mim.


Mostro as fotografias, toda orgulhosa. O Joachim sugere "amanhã, podias experimentar a preto e branco".
"Amanhã?! Pensas que vai haver amanhã?"


Olho pela janela enorme, e não vejo paisagem, mas vida: árvores, pássaros, insectos. Vida intensa e densa, respiração.

Notre seule chance c'est l'ésprit de remise en question.






Quarto dia

Ao pequeno-almoço duas amigas, professoras, falam do trabalho com os alunos pequeninos. Como fazê-los tomar consciência do seu corpo? "O que se passa agora mesmo no teu corpo?" "A respiração!" "E o que é preciso para respirar?" "Reflectir!" "A sério?!", e a digestão, o coração que bate, "Tudo isso no meu corpo? tanta coisa!" O yoga infantil, a aprendizagem do corpo como caixa-de-ressonância, a aprendizagem do grupo na improvisação da música e na busca de um ritmo comum. Ouço-as, deliciada: a escola como local de prazer, de missão humanitária, de entrega com alegria.

À hora do lanche o nevoeiro abre, liberta a encosta verde do monte.
"Oh, que calma vai caindo".





Prier c'est d'abord cesser de faire autre chose.
Quand on demande à Dieu, la première réponse c'est la paix - même si le problème n'est pas résolu.


Depois do jantar, o jogo: sentados numa roda de cadeiras, temos de mudar de lugar permanentemente, tentando impedir que o que está de pé consiga sentar-se numa cadeira momentaneamente vazia. Temos cinquenta anos, dores de costas, e rimos e caímos das cadeiras, e damos connosco sentados nos joelhos dos outros, uma e outra vez, dizemos brejeiros que ça c'est angoissant.


Quinto dia

Levanto-me cedo. Saio para a floresta, já sem medo dos bichos da noite. O céu está limpo, hoje as nuvens estão pousadas no vale. O sol virá mais tarde, sinos de aldeias longínquas anunciam-no já, e eu espero: os pés encharcados do orvalho da floresta, as mãos geladas, o coração sereno, comovida de beleza.




Será que nos lembramos do que acontece de bom ao longo do nosso dia? Uma proposta: anotar diariamente cinco momentos bons. Mudar a perspectiva: do derrotismo para a consciência do bem que habita a minha vida.
No meio da fragilidade, perder o medo. Há um caminho de vida para mim - não um caminho de fuga às dificuldades, mas de acolher a minha vida, dizer-lhe "sim!" - não tenho outra vida senão esta que me foi dado viver neste dia. E é neste dia que posso acolher o "sim!" de Deus.

Criar sistemas anti-rotina: não estamos condenados a repetir. Podemos começar sempre. 

S.Paulo: "sois filhos, e não escravos". 


Antes da partida, trocamos informações.

Filmes: Et maintenant, on va où?; Habemus Papam; También la lluvia; We want sex equality; Louise-Michel; Poulet aux prunes; Lantana; El secreto de sus ojos; Le gamin au vélo; A separation; La Guerre est déclarée.

Livros: Pietro De Paoli;  L'origine de la violence; Olivier Le Gendre (Confession d'un cardinal); Maurice Bellet (Minuscule traité acide de spiritualité); Madeleine Delbrêl (La joie de croire); Deux petits pas sur le sable mouillé; Une femme fuyant l’annonce.

Terminou. Continua. Germina em nós. 

02 novembro 2011

dias de magia

Assim, e melhor ainda:






em estágio para a próxima sexta-feira

nada como ir a França para resolver questões existenciais

Ah, país da psicanálise e da elegância do discurso, que tão bem sabe responder a todas as questões essenciais!


Pois foi lá que fiquei a saber por uma Paris Match (abençoada seja!) que o ursinho que a Angela Merkel deu ao Sarkozy é Steiff, mas dos fofinhos.