07 outubro 2011

o teu cabelo de cinza, Sulamita

Um quadro que se atirou a mim como uma bofetada, numa sala do museu Kröller-Müller:
 Anselm Kiefer: Dein aschenes Haar Sulamith, 1981

Fuga da morte

Leite negro da aurora bebemo-lo ao anoitecer
bebemo-lo ao meio-dia e de manhã bebemo-lo à noite
bebemos e bebemos
cavamos uma sepultura nos ares aonde o espaço não falta
um homem vive em casa brinca com serpentes escreve
escreve quando a noite cai na Alemanha o teu cabelo de oiro Margarida
escreve e sai de casa e brilham as estrelas e chama os cães de caça aqui aqui
apita aos seus judeus venham cá cavem uma sepultura na terra
manda que toquemos para a dança

Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te pela manhã e ao meio-dia bebemos-te ao anoitecer
bebemos e bebemos
um homem vive em casa brinca com serpentes escreve
escreve quando a noite cai na Alemanha o teu cabelo de oiro Margarida
o teu cabelo de cinza Sulamita cavamos uma sepultura nos ares aonde o espaço não falta
Ele grita cavem na terra bem fundo vocês aí vocês outros cantem e toquem
agarra no cano de aço à cinta e brande-o como são azuis os seus olhos
enterrem mais fundo a pá vocês aí vocês toquem para a dança

Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te ao meio-dia e de manhã bebemos-te ao anoitecer
bebemos e bebemos
um homem vive em casa o teu cabelo de oiro Margarida
o teu cabelo de cinza Sulamita ele brinca com serpentes

Grita toquem mais doce a Dança da Morte ela é um Senhor de Alemanha
grita toquem mais sombriamente os violinos depois hão-de subir em fumo nos ares
depois haveis de ter uma sepultura nas nuvens onde o espaço não falta

Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te ao meio-dia a morte é um Senhor de Alemanha
bebemos-te ao anoitecer e pela manhã bebemos e bebemos
a Morte é um Senhor de Alemanha como são azuis os seus olhos
há-de abater-te com uma chumbada abater-te com pontaria
um homem vive em casa o teu cabelo de oiro Margarida
açula contra nós os lebréus magros dá-nos sepultura nos ares
brinca com serpentes e sonha a morte é um Senhor de Alemanha

o teu cabelo de oiro Margarida
o teu cabelo de cinza Sulamita.

Paul Celan
Tradução de Jorge de Sena

 _________





 
Todesfuge

Schwarze Milch der Frühe wir trinken sie abends
wir trinken sie mittags und morgens wir trinken sie nachts
wir trinken und trinken
wir schaufeln ein Grab in den Lüften da liegt man nicht eng
Ein Mann wohnt im Haus der spielt mit den Schlangen der schreibt
der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldenes Haar Margarete
er schreibt es und tritt vor das Haus und es blitzen die Sterne er pfeift seine Rüden herbei
er pfeift seine Juden hervor läßt schaufeln ein Grab in der Erde
er befiehlt uns spielt auf nun zum Tanz

Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich morgens und mittags wir trinken dich abends
wir trinken und trinken
Ein Mann wohnt im Haus der spielt mit den Schlangen der schreibt
der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldenes Haar Margarete
Dein aschenes Haar Sulamith wir schaufeln ein Grab in den Lüften da liegt man nicht eng

Er ruft stecht tiefer ins Erdreich ihr einen ihr andern singet und spielt
er greift nach dem Eisen im Gurt er schwingts seine Augen sind blau
stecht tiefer die Spaten ihr einen ihr andern spielt weiter zum Tanz auf

Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich mittags und morgens wir trinken dich abends
wir trinken und trinken
ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete
dein aschenes Haar Sulamith er spielt mit den Schlangen
Er ruft spielt süßer den Tod der Tod ist ein Meister aus Deutschland
er ruft streicht dunkler die Geigen dann steigt ihr als Rauch in die Luft
dann habt ihr ein Grab in den Wolken da liegt man nicht eng

Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich mittags der Tod ist ein Meister aus Deutschland
wir trinken dich abends und morgens wir trinken und trinken
der Tod ist ein Meister aus Deutschland sein Auge ist blau
er trifft dich mit bleierner Kugel er trifft dich genau
ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete
er hetzt seine Rüden auf uns er schenkt uns ein Grab in der Luft
er spielt mit den Schlangen und träumet der Tod ist ein Meister aus Deutschland

dein goldenes Haar Margarete
dein aschenes Haar Sulamith



Paul Celan

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O poema e a sua tradução foram publicados pelo Lutz em 25.1.05, com este quadro:


Anselm Kiefer: Dein goldenes Haar Margarethe

06 outubro 2011

“stay hungry, stay foolish”

Steve's new job

Do Rui Rocha, no Delito de Opinião:


- Hi, Steve.
- Hi, God.
- How do you feel?
- I feel great, God.
- Do you need some time on your own?
- No way. I just can't wait to get started on your new project: the IGod.


(e ó pra mim a imaginar um Deus desenhado por Steve Jobs: devia ser capaz de nos pôr a olhar para o da Capela Sistina como algo arcaico e balofo...)

se é para ser Holanda, não tem de ser sempre Amesterdão... (5)

Se é para ser Holanda, não tem de ser sempre coffee shop...
Isso é o que eu penso, mas dois polícias da alfândega alemã parece que têm outra opinião, porque logo a seguir à fronteira vieram no meu encalço e fizeram sinal para os seguir. Não é nada agradável ter um carro da polícia à nossa frente com o letreiro "follow me": uma pessoa sente-se envergonhada em plena auto-estrada perante todos os camionistas que tinha vindo a humilhar em ultrapassagens sucessivas, que chatice, lá se nos vai o cool todo.
E lá fui eu rodar a passo de caranguejo atrás do carro deles, e lá me levaram para um descampado, onde me pediram os documentos e quiseram ver o que trazia no carro.
Os miúdos, que vinham a dormir (é a maneira que arranjam para sobreviver à música que gosto de ouvir quando conduzo), acordaram aflitos. Por uns momentos pensei "aimêdês, e se eles fizeram uma palermice de adolescentes, o que é que eu faço?"

Os polícias começaram a olhar para as malas e os sacos, iam vasculhar num deles mas desistiram quando chegaram à parte das toalhas molhadas, e optaram por me perguntar se tinha alguma substância perigosa ou armas. E eu, tentando honestamente ser-lhes útil e para isso fazendo um rápido brain storming e chegando à conclusão que o mais perigoso que trazia eram provavelmente as meias sujas, disse-lhes que não, quase com um ar condoído por estarem a perder tempo com tão mau cliente.

Disseram-me como podia regressar à auto-estrada, e foram-se embora fazendo uma manobra proibida por cima da linha contínua. Ah, valentes! No carro, a Christina riu-se: uma mãe com dois filhos, é mesmo o perfil mais certeiro de traficante.

Depois os miúdos adormeceram de novo, e eu pus-me a pensar em hipóteses teóricas: se eles tivessem encontrado nas coisas dos meus filhos alguma coisa que não deveria estar lá, como é que eu deveria ter reagido?

"some kind of fruit company"



Não é grande homenagem, eu sei - mas hoje sinto-me um bocadinho Forrest Gump: ligeiramente ao lado da notícia.
O Steve Jobs!

se é para ser Holanda, não tem de ser sempre Amesterdão... (4)

Não tem de ser sempre Amesterdão, Haia também já é mais que bom.
O plano inicial era ficar alguns dias com amigos que moram em Haia - passear de bicicleta pelas dunas, ir ver outra vez a casa do Maurício de Nassau, onde há uns Vermeer lindos y otras cositas mas, ir passar um ou dois dias a Amesterdão (sim, que o título desta série não é um fundamentalismo). Mas ficámos apenas uma noite, por causa do calateboca-que-aqui-há-senhoras do visto do Matthias.

Os nossos amigos: ela é holandesa, ele americano - e filho do casal em casa de quem o Matthias vai ficar. Resolveu fazer uma surpresa aos pais, acordou-os para skyparmos um bocadinho. O computador em cima do piano, os netos numa excitação total a mostrar habilidades aos avós, nós pelo meio. E o casal estremunhado, no outro lado do mundo, no ecrã do computador: sorriam felizes e abanavam a cabeça perante tanta confusão, pareciam uma fotografia dos livros do Harry Potter.

***

No regresso à Alemanha parámos no museu Kröller-Müller. Já me tinham falado muito dele - do passeio de bicicleta pelo parque, das esculturas espalhadas pelo meio das árvores, da paisagem no Outono ("que não sabemos se devemos olhar para as pinturas ou para as janelas"). Mas este ainda não chegou em toda a sua glória, o dia estava cinzento,  nós estávamos com alguma pressa: não houve nem bicicletas nem dilemas pintura/janelas. Havemos de voltar lá na Primavera, e havemos de voltar lá no Outono.




O museu conquistou-me. Mostra sobretudo pintura holandesa e francesa. E é a segunda maior colecção privada de Van Gogh (a seguir à da sua própria família).  

Estes quadros, por exemplo (em fotografias fraquinhas):


- "porque me olhas assim?" -
(todos os retratados por Van Gogh me olhavam assim neste museu, hei-de verificar como se portam nos outros)




Ou esta mistura de natureza e arte:


 Ou esta composição de Isaac Israels, em 1916, completada por mim em 2011, agora chamada: Mata Hari e Helena Araújo (hehehe):


O museu estava cheio de miúdos das escolas. Uns em grupos com o professor, outros sentados sob as pinturas, muito concentrados a tentar reproduzir uma delas, alguns a fotografar pormenores de cada quadro. Gostei especialmente de ver os professores: tinham os miúdos inteiramente atentos, sem precisarem de levantar a voz ou ralhar.








Também havia alguns turistas, obviamente. E eu a olhar para eles e para os quadros, tentando decidir qual era o mais interessante.



05 outubro 2011

se é para ser Holanda, não tem de ser sempre Amesterdão... (3)

Ainda não falei dos holandeses de Zeeland: uns simpáticos atenciosos e sem complicações.
Por exemplo: um senhor que estava sentado num banco ao lado do caixote do lixo, e levantou a tampa quando me viu chegar com as mãos cheias de coisas, algumas delas para deitar fora.

Ou o modo como tratam os cães (disseram-me que até os cães holandeses são diferentes, mais calmos e simpáticos). Ou o modo como não se chateiam por eu distraidamente impedir o caminho a quem passa de bicicleta.

Só não entendi uma coisa: se eu, com esta minha cara de portuguesa, lhes falava em inglês, porque é que me respondiam em alemão? 

se é para ser Holanda, não tem de ser sempre Amesterdão... (2)

Sábado: praia de manhã, Middelburg à tarde. Uma delícia de cidade, com imensas lojas pequeninas. Também algumas lojas das cadeias internacionais do costume, mas nessas ninguém nos obriga a entrar.

Uma sorte já não ter filhos pequeninos, porque as lojas de coisas para crianças nem vos digo nem vos conto. Uma sorte ter filhos grandes com juízo, que aceitam que talvez não seja boa ideia dar 70 euros por uma camisola, apesar de ser lindíssima. Um azar a Hema ter-se-me atravessado no caminho: é onde mais gosto de me desgraçar quando vou à Holanda, e fui mais uma vez seduzida sem dó nem piedade. Uma sorte as lojas fecharem às cinco da tarde, sempre se mantiveram os estragos a um nível relativamente comportável.




Demos um passeio de barco nos canais da cidade, com um condutor que palrava animadamente em holandês, e a gente só percebia "oppassen!", que era para ter cuidado porque o barco ia passar por uma ponte muito baixa. "Ponte baixa" é como quem diz: um eufemismo. Suponho que na Alemanha não deixavam construir pontes assim, ou então não deixavam barcos de passageiros passar por baixo delas.
A viagem foi uma autêntica aventura: o condutor, pelo meio de uma huis assim e uma huis assado, metia um "oppassen! oppassen!", a ponte cada vez mais perto, e nós, zimbas, como tartarugas a encolher a cabeça para dentro do casaco. E a rir.






Subimos à torre "Lange Jan", e os rapazes contaram os degraus. Chegados ao topo, tinham números diferentes. Por causa das dúvidas, enquanto descia contei também. Eram duzentos e sete. Mas tenho a certeza que na subida foram pelo menos quatrocentos.



Esta cidade, que parece tão bonitinha e antiga, sofreu uma grande destruição devido aos bombardeamentos alemães, primeiro, e depois aos dos aliados. Foi reconstruída quase de raiz por volta dos anos cinquenta do século passado (mas não lhe encontrei asneiras como em Weimar, onde há um edifício com uma fachada quinhentista e outra comunista; bom, em Roma também há o Collegio di Propaganda Fide, com uma fachada de Bernini e outra de Borromini, de modo que o melhor é não dizer muito mal de Weimar e das reconstruções à maneira da RDA, porque o exemplo vem de longe e de cima). Na igreja havia um quadro cronológico das destruições da torre: incêndios medievais, raios renascentistas e barrocos, e - ai! - aviões alemães. Ao passar pelo monumento que lembrava aquela tragédia, optámos por falar português. Disfarça, disfarça. 

Jantámos no restaurante Amizade - Vriendshap, que fica numa esquina da praça do mercado. Recomendo tudo, excepto o preço. Mas a verdade é que qualquer restaurante na Holanda é caríssimo, e já comi pior em restaurantes mais caros. 

se é para ser Holanda, não tem de ser sempre Amesterdão... (1)

Para o encontro anual da família do meu marido escolhemos desta vez a Holanda. Não é propriamente o local mais central, mas os miúdos pediram mar, e os crescidos acharam bem. A data estava marcada há um ano (sim, são todos alemães) e alguém deve ter andado a mover influências no andar de cima, porque não há memória de um princípio de Outubro radioso como o que tivemos.

Escolhemos a praia de Domburg, uma pequena cidade na região de Zeeland.
Mais propriamente: ficámos num castelo construído no século XIII, com fosso de água e tudo (confesso que o fosso cheio de água me impressionou, estava sempre à espera de ver crocodilos, e assim, e o capitão Gancho) e agora transformado em albergue relativamente barato. Enfim, barato... um quarto para quatro pessoas (dois beliches) com casa de banho custa cerca de 120 euros por noite (ou seja: afinal o capitão Gancho apareceu, estava sentado junto à caixa). Os interessados podem ler mais aqui: Hostel Domburg.



  


- vista da janela do quarto, mesmo em cima do fosso: e se as coisas pousadas no parapeito da janela caíssem para o lado de fora? a vida na Idade Média era mesmo muito difícil! -



- a sala do bar -


- o pátio da frente, com uma tília milenária - 




À parte as camas serem fracotas e o pequeno-almoço bastante simples, é tudo uma maravilha. E para chegar à praia, basta caminhar ao longo do lago, depois atravessar uma pequena floresta de carvalhos (carvalhos junto ao mar?! porque é que o D.Diniz não se lembrou de uma coisa destas? ficam umas florestas muito catitas), e já está - é logo ali, um passeio de cinco minutos.







Em tempos houve na cidadezinha de Domburg uma colónia de pintores. O caminho ao longo da costa está assinalado como "Mondriaan route", em homenagem aos muitos quadros que aquela paisagem  inspirou ao artista. E não, não eram apenas traços e blocos de cores... (mas podiam ter sido, de facto a praia está dividida em barras paralelas) (olha... não me digam que acabei de descobrir onde é que o Mondriaan foi buscar aquela ideia de dividir os quadros com linhas geométricas?!...)


 - Piet Mondriaan, 1909, praia de Domburg (fotografia muito mal tirada no museu Kröller-Müller, mas é o que foi possível arranjar) -


- no quadro anterior falta uma figura feminina, digo eu, mas é o problema do costume: ninguém me deixa mandar. Contudo, parte da culpa é minha: cheguei atrasada, o Mondriaan cansou-se de esperar (um impaciente, esse rapaz) - 


Para terminar em beleza, jantámos mexilhões da península num restaurante com vista para este pôr-do-sol.


E para ser ainda mais perfeito, depois do jantar a família ficou sentada no pátio do castelo, quase às escuras, ouvindo a Christina a tocar guitarra e a cantar, cantando com ela.

Recostei-me na cadeira, olhei para o céu cheio de nítidas estrelas (sempre que vejo o céu na Europa assim, lembro-me de Chaco e fico com vontade de rir da nossa figura...), olhei para o bando de primos encantados à volta da minha filha tão grande, e lembrei-me de uma frase que ouvi há anos, de um americano mais velho: "the most grateful pleasure is to have grown-up kids". Lá chegaremos, e parece-me que sim, que vai ser um muito grateful pleasure.

começar o dia assim

Esta manhã começou cedo, com serviço do táxi Araújo.

Enquanto atravessava a cidade cinzenta, ouvia deliciada este antídoto que a rádio oferecia (obrigadinha, ó RBB Kulturradio):



Oh lovely Art, in how many grey hours,
When life's fierce orbit ensnared me,
Have you kindled my heart to warm love,
Carried me away into a better world!

How often has a sigh escaping from your harp,
A sweet, sacred chord of yours
Opened up for me the heaven of better times,
Oh lovely Art, for that I thank you!


(Schubert: "An die Musik"; tradução tirada da wikipedia)


Ao passar em frente à Chancelaria, uma gargalhada: há uma placa enorme a apontar na sua direcção, e diz "massagens".
Não é gracinha de algum artista de rua - ficou ali esquecida depois da maratona.

Em suma: há piores maneiras de começar o dia.

04 outubro 2011

quase perfeito

Passar umas horas com Van Gogh, regressar a Berlim ao som desta música.
Dizem que a perfeição não existe, mas eu às vezes desconfio.



(amanhã conto mais)