11 outubro 2011

Berlinda

Senhoras e Senhores,
tenho o prazer de apresentar a...

- ta-ta-ta-raaaa e rufar de tambores -

...a BERLINDA! A berlinda.org, mais propriamente. E passo as palavras de apresentação à própria:


Berlinda: carruagem antiga de dois assentos e quatro rodas, para o transporte da imagem de santos; estar na berlinda: ser alvo da atenção geral, ser o assunto do dia; pôr na berlinda: chamar a atenção para, focar, realçar, acentuar, dâr ênfase a, enfatizar, sublinhar.
(Do fr. berline, “berlinda“, de Berlim, cidade alemã de onde a carruagem era importada)

Berlinda.org é uma publicação online dedicada à interação cultural entre Berlim e o mundo de língua portuguesa.
Berlinda.org dirige-se por um lado aos falantes de português que queiram usufruir da rica actividade cultural de Berlim, e também aos berlinenses interessados na cultura em português. É assim um magazine cultural bilateral, para visitantes e residentes, alemães e estrangeiros, e para todos os interessados nas trocas culturais entre Berlim e o mundo de língua portuguesa.


Berlinda.org descobre a cidade na perspetiva do Outro, que é à vez alemão, português, brasileiro, angolano, moçambicano, cabo-verdiano, são tomense, guineense ou timorense. Mostra a cidade vista por dentro, relata a mestiçagem cultural que nela diariamente se vive, e salienta também aspetos endémicos, de interesse para o visitante e/ou residente.
Berlinda.org pretende ser uma plataforma para a mostra da criação artística e fenómenos culturais destes dois mundos - Berlim e o mundo que fala português, um espaço para o olhar subjetivo do Outro sobre esses fenómenos, e sobretudo um lugar para a reflexão sobre as trocas e influências mútuas daí resultantes.
Berlinda.org é um roteiro para a descoberta, uma ponte entre estes mundos.
Um lugar para várias culturas, vistas pelo olhar do Outro.

***

E diria mesmo mais: grande ideia, esta de criar um magazine de interacção cultural entre Berlim e o mundo de língua portuguesa!
E reincidiria: uma bela ponte entre estes dois mundos.

(aaah... eureka!, acabei de descobrir que a dupla Dupont/Dupond não era redizente, mas reincidente.)

E faria marcha atrás nas minhas próprias palavras: até ao ponto onde estes dois mundos se confundem e transformam mutuamente, e não se sabe mais qual é qual, e como seriam um sem o outro. Só para terem uma ideia, passeiem um bocadinho por este divertido delírio do José Eduardo Agualusa - tão plausível, em Berlim! Ou esta descrição do bairro Neuköln. E tanto mais.

Tem também um cartaz por onde passam os "nossos" artistas - a falta que isso me tem feito!
Abençoada berlinda.org, que me oferece uma Berlim mais minha.

Onde me ofereço, também: a partir de hoje contarei lá, como aqui (com marcador Berlinda.org), as minhas andanças berlindenses.

10 outubro 2011

big brother is watching your facebook

Eu até nem sou de teorias da conspiração, nem nada, mas pergunto-me se não haverá dedinho do google y sus amiguitos nesta onda de pânico que se tem gerado à volta do facebook.

Não é que o facebook precise de ajuda dos seus concorrentes para suscitar desconfianças. Por estúpida arrogância (já várias vezes demonstrada, aliás, nomeadamente com as repetidas questões muito mal esclarecidas sobre a privacidade dos dados) desrespeita regras fundamentais do funcionamento destes consumos. Como é possível mudar a lógica interna de um produto depois de o ter lançado e a funcionar, sem dar informações extremamente claras sobre o modo como agora funciona? O facto de andarmos todos desconfiados (pese embora o dedinho da concorrência, que provavelmente  andará por aí) é sinal claro de que a empresa facebook falhou redondamente no serviço aos seus clientes.
"Clientes"? Pensando bem, não sei se nós somos clientes da facebook, se somos o seu produto...

Já me faltou mais para sair do facebook. E não me sinto tentada a recomeçar tudo noutro sítio qualquer.

A ver vamos como é que a coisa evolui. Mas algo me diz que a arrogância e a prepotência do facebook, combinadas com esta onda de desconfiança eventualmente manipulada sabe-se lá por quem, podem estar na origem de uma nova fase das redes sociais. Para que nos lembremos, mais uma vez, que e pour se move.

***

Poroutroladomente...
Ontem partilhei no facebook um post do tipo "via Fulano via Sicrano via Beltrano", o que me suscitou uma observação:

Estas partilhas de partilhas de partilhas de partilhas do facebook lembram-me o"Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha"

Daí a nada este comentário estava a ser partilhado em vários sítios, onde começaram a pipocar comentários bem dispostos de pessoas que eu não conheço da vida real. E eu a rir-me com elas, numa boa onda. Numa óptima onda de empatia com desconhecidos.
As redes sociais também são isto, e há neste fenómeno novo algo muito positivo que me faz sentir alegria e orgulho nos seres humanos do séc. XXI.


Poroutroladomente...
Uma amiga ofereceu-me, em comentário no facebook, mais uma perspectiva para esta questão:

Facebook eu acho mais parecido com a Quadrilha original, do Drummond: 

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

09 outubro 2011

se queres ir ver, porque não queres ir ver?


Quero e não quero ver este filme. Trailer (em inglês) aqui.

08 outubro 2011

e que tal tentarmos perceber as estrelas?

Se até o Anselmo Borges fala da proposta do Oettinger de pôr as bandeiras a meia haste, as coisas estão mal. Muito eu gostava de saber o que é que os jornalistas andam a fazer, que ainda nenhum se deu ao trabalho de contextuar a frase do Oettinger, preferindo deixar-nos muito excitadinhos a olhar para o dedo que aponta uma estrela.

Aqui está a notícia do Spiegel sobre essa entrevista (do Spiegel online, traduzida por um Speedy Gonzalez ainda mais rápido que o do costume, que hoje é sábado e eu tenho mais que fazer):

Oettinger quer combater as "rotinas" gregas

EU-Energiekommissar Oettinger: "Die Behörden schaffen es nicht, ausstehende Steuern einzutreiben oder Staatsbesitz zu verkaufen"
DPA
EU-Energiekommissar Oettinger: "As repartições não conseguem cobrar os impostos devidos ou vender património do Estado"

A paciência de Günther Oettinger em relação à Grécia chegou ao fim: o comissário quer que funcionários da EU dêem uma ajuda à "administração, que pelos vistos não está a conseguir dar conta do recado", para quebrar as rotinas. Além disso, em sua opinião as bandeiras dos Estados com problemas de dívida deviam ser colocadas a meia haste nos edifícios da EU.
Berlim - G.O. (CDU) acusou a administração grega de "rotinas" e sugeriu que funcionários europeus se encarreguem da privatização de património estatal e da recolha de impostos. A "clara incapacidade da administração grega" é um problema, disse à Bild-Zeitung. "As repartições não conseguem cobrar os impostos devidos ou vender património do Estado"


Por esse motivo essas tarefas deviam ser levadas a cabo por funcionários da EU: "Era mais positivo se funcionários qualificados dos outros estados da UE trabalhassem durante um período alargado na Grécia, fazendo consultadoria e acompanhamento da execução. Eles podem agir sem ter em conta as resistências, de modo a quebrar rotinas de ineficiência".  O governo grego devia ver este processo como uma contrapartida dos apoios financeiros que recebe. "Quem exige solidariedade dos outros Estados tem de estar também aberto a ceder parte da responsabilidade durante um certo período de tempo". 

Oettinger contra uma saída da Grécia
Oettinger sugeriu que as sanções fossem alteradas de modo a serem uma "provocação" para os governos. Por exemplo, deixar as bandeiras dos países em causa a meia haste em frente aos edifícios da UE. "Duvido que as sanções até agora propostas atinjam os seus objectivos", disse Oettinger. Não faz sentido ameaçar um Estado com multas em dinheiro se este continuar a não conseguir cumprir os critérios do endividamento. "É impossível ir ao bolso de um homem nu".
Contudo, pronunciou-se insistentemente contra a saída da Grécia da zona euro. "Isso iria dividir a Europa e seria um terrível sinal. Criar-se-ia a impressão de que a UE não é capaz de estabilizar um país relativamente pequeno. A partir daí, os credores e os mercados perderiam toda a confiança em nós."
Recentemente surgiram na zona euro vozes a favor de fortes castigos para países endividados como a Grécia. O ministro das finanças holandês, Jan Kees de Jager, sugeriu que os países que não respeitassem as regras orçamentais comunitárias fossem banidos da zona euro. E o ministro das finanças alemão, Wolfgang Schäuble (CDU), disse que o governo em Atenas recebe ajuda mas "a Grécia tem de saber se está capaz de preencher as condições necessárias para pertencer a uma moeda comum".


O detalhe das bandeiras a meia haste é uma estupidez. Mas maior estupidez é a nossa, que nos prendemos a isso e ignoramos os pontos essenciais que Oettinger está a apontar - e não digo que concordo com ele, digo que há aqui muito material para debater.
Sobre as propostas de penalizar os países incumpridores, já muito foi dito - em suma, a questão não é apenas "cumprir", mas corrigir a situação estrutural que conduziu a este incumprimento (o pecado original do euro e as desigualdades nas estruturas económicas, etc.). Sobre as "rotinas" e os "maus hábitos" da Grécia, sugiro a leitura deste artigo: libertemos a Grécia das suas elites. O que levanta questões fundamentais sobre a soberania dos países e a própria Democracia na Europa: que fazer quando um povo continua a eleger políticos que já mostraram não serem capazes de quebrar estruturas de corrupção, ou que manifestam tiques antidemocráticos (não é só o buraco orçamental, é também, por exemplo, eleger deputados xenófobos ou cujo passado na Stasi não foi devidamente averiguado)? Como é possível coexistirmos todos na casa europeia, se há diferenças tão grandes quer nas estruturas económicas quer no próprio entendimento do funcionamento democrático e das regras de um Estado de Direito? Até que ponto poderemos partilhar um destino comum e solidário sem abrir mão das soberanias nacionais?

07 outubro 2011

rostos da Renascença


No fim-de-semana queremos ir ver a exposição Rostos da Renascença (sigam o link, é mesmo muito interessante), no Bode Museum, que já tem os bilhetes VIP e early-bird esgotados, todas as visitas guiadas esgotadíssimas e, para tentar responder à procura, alargou o horário de abertura até às 10 da noite de quinta a domingo.

Parece-me que vem por aí mais um estudo sociológico sobre os berlinenses e os turistas.
Um trabalho de campo, entenda-se: nas longas filas para comprar os bilhetes. 


***

Também queremos ir ver e uma retrospectiva de Hokusai, no Martin-Gropius-Bau. Teve tanta procura que resolveram prolongar até fins de Outubro. A ver vamos se também dará para um estudo sociológico à frente da bilheteira...(sniff, sniff) (ensino gratuito e coisas assim, e o resultado é isto: demasiada gente interessada em consumos culturais, uma maçada...)

Todesfuge

A Fuga da Morte, lida pelo seu autor, Paul Celan:




Der Tod ist ein Meister aus Deutschland
Como traduzir "Meister" nesta frase?
Jorge de Sena optou por a morte é um Senhor de Alemanha.
Pergunto-me de onde vem aquele de (será erro de transcrição?) - mas essa é uma questão secundária.
Esta morte não é um Senhor, esta morte é um Meister. Na Alemanha, o uso do nome Meister para os artesãos está fortemente regulado. Só se pode chamar assim quem fez uma intensa aprendizagem, apresentou a sua "obra-prima", e passou os exames finais. Um Meister é um especialista da sua área, uma pessoa capaz de fazer o seu trabalho de modo competente, escrupuloso, meticuloso, consciencioso. Um trabalho honesto e limpo, garantido por diploma.
A morte é um mestre da Alemanha.

Pergunto-me porque é que Celan se lembrou dos artesãos, quando o pior do trabalho braçal foi cinicamente delegado para as próprias vítimas. Esta morte foi concebida em palacetes berlinenses, desenhada por mãos macias e brancas, preparada com a mais exacta eficiência, traduzida em palavras escolhidas a escalpelo.
A morte é um pensador da Alemanha. 

(E eis como Helena Araújo, ainda antes das dez da manhã do dia 7 de Outubro de 2011, consegue corrigir simultaneamente Jorge de Sena e Paul Celan. Hoje acordei com a mania das grandezas.)


O teu cabelo de oiro Margarida / O teu cabelo de cinza Sulamita
Na wikipedia alemã explicam este par antagónico de forma muito interessante. Fazendo de conta que hoje é Natal, aqui vai um presentinho do Speedy Gonzalez:
Nas duas linhas finais deste poema que se assemelha a uma fuga, as formas de polifonia e contraponto surgem com clareza. Os "motivos gémeos" aparecem em paralelo, mas com conteúdos antagónicos. Kiesel e  Stepp chamam a esta interdependência uma "polifonia aparente", Felstiner  resume: "- mas a unissonância é desafinada". Enquanto a maior parte dos poemas esgotam a força das suas imagens antes do fim, a Fuga da Morte termina com um grande plano da Sulamita bíblica, do Cântico dos Cânticos. Mas não se trata da noiva amada cujos cabelos lembram os mantos púrpura dos reis; o cabelo de cinza da Sulamita é uma imagem para as vítimas judias da Shoah, às mãos dos nazis. Do outro lado, o grande plano de uma figura feminina muito conhecida da poesia clássica e romântica, rodeada pela aura do germanismo: Margarete, Gretchen, a amada do Fausto de Goethe: "o teu cabelo de oiro Margarida", onde ressoa a Loreley de Heinrich Heine: "ela penteia o seu cabelo de oiro".

Franz Pforr, Maria e Sulamita, 1811, Sammlung Georg Schäfer, Schweinfurt
Este par alegórico existe na longa tradição das pinturas cristãs para representar a Synagoga, vencida e cega, e a Ecclesia triunfante, muitas vezes também representada por Maria, a mãe de Jesus: em "situações de proximidade e oposição", em "alegorias de pedra à porta de antigas igrejas" (...)
Celan tomou o contraste das "noivas ideais" do Antigo e do Novo Testamento, mas fez (segundo Theo Buck) uma mudança paradigmática, trocando Maria ou Ecclesia por Margarethe, a imagem idealizada da jovem de cabelo loiro alemã.
A representação conjunta das duas mulheres, no poema de Celan, costuma ser interpretada como uma acusação. As duas figuras aparecem em oposição e não em comunhão. John Felstiner sintetiza: „O ideal alemão e o judaico não poderão coexistir.“ Também Buck entende que o poema termina em tensão entre as culturas, com dissonância em vez de harmonia. Apesar dos esforços do nacional-socialismo para criar uma identidade ariana, é Sulamita quem tem a última palavra. Depois de um último olhar para o seu cabelo tornado cinza, resta apenas o silêncio.
O stretto final da fuga, no qual as duas figuras femininas se interligam em contraponto, é por vezes interpretado como uma indicação de que também Gretchen é vítima: tentada pelas mentiras de Fausto, acaba num cárcere, enlouquecida. Também a Margarethe do verso final é a amada que recebe declarações de amor: "um homem (...) escreve ao anoitecer para a Alemanha o teu cabelo de oiro Margarida". Quem ama é simultaneamente o horrível exterminador, que chama os seus judeus com assobios e os obriga a tocar para a dança. Desse modo, o poema insere-se na tradição da poesia da dança da morte, na qual se chama mestre à morte, e também na tradição de peças musicais segundo o motivo "a morte e a rapariga". (...) Esta representação estética por meio de citações escondidas da história da literatura e da música dá uma visibilidade ainda mais aguda ao horror do acontecimento histórico.

o teu cabelo de cinza, Sulamita

Um quadro que se atirou a mim como uma bofetada, numa sala do museu Kröller-Müller:
 Anselm Kiefer: Dein aschenes Haar Sulamith, 1981

Fuga da morte

Leite negro da aurora bebemo-lo ao anoitecer
bebemo-lo ao meio-dia e de manhã bebemo-lo à noite
bebemos e bebemos
cavamos uma sepultura nos ares aonde o espaço não falta
um homem vive em casa brinca com serpentes escreve
escreve quando a noite cai na Alemanha o teu cabelo de oiro Margarida
escreve e sai de casa e brilham as estrelas e chama os cães de caça aqui aqui
apita aos seus judeus venham cá cavem uma sepultura na terra
manda que toquemos para a dança

Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te pela manhã e ao meio-dia bebemos-te ao anoitecer
bebemos e bebemos
um homem vive em casa brinca com serpentes escreve
escreve quando a noite cai na Alemanha o teu cabelo de oiro Margarida
o teu cabelo de cinza Sulamita cavamos uma sepultura nos ares aonde o espaço não falta
Ele grita cavem na terra bem fundo vocês aí vocês outros cantem e toquem
agarra no cano de aço à cinta e brande-o como são azuis os seus olhos
enterrem mais fundo a pá vocês aí vocês toquem para a dança

Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te ao meio-dia e de manhã bebemos-te ao anoitecer
bebemos e bebemos
um homem vive em casa o teu cabelo de oiro Margarida
o teu cabelo de cinza Sulamita ele brinca com serpentes

Grita toquem mais doce a Dança da Morte ela é um Senhor de Alemanha
grita toquem mais sombriamente os violinos depois hão-de subir em fumo nos ares
depois haveis de ter uma sepultura nas nuvens onde o espaço não falta

Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te ao meio-dia a morte é um Senhor de Alemanha
bebemos-te ao anoitecer e pela manhã bebemos e bebemos
a Morte é um Senhor de Alemanha como são azuis os seus olhos
há-de abater-te com uma chumbada abater-te com pontaria
um homem vive em casa o teu cabelo de oiro Margarida
açula contra nós os lebréus magros dá-nos sepultura nos ares
brinca com serpentes e sonha a morte é um Senhor de Alemanha

o teu cabelo de oiro Margarida
o teu cabelo de cinza Sulamita.

Paul Celan
Tradução de Jorge de Sena

 _________





 
Todesfuge

Schwarze Milch der Frühe wir trinken sie abends
wir trinken sie mittags und morgens wir trinken sie nachts
wir trinken und trinken
wir schaufeln ein Grab in den Lüften da liegt man nicht eng
Ein Mann wohnt im Haus der spielt mit den Schlangen der schreibt
der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldenes Haar Margarete
er schreibt es und tritt vor das Haus und es blitzen die Sterne er pfeift seine Rüden herbei
er pfeift seine Juden hervor läßt schaufeln ein Grab in der Erde
er befiehlt uns spielt auf nun zum Tanz

Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich morgens und mittags wir trinken dich abends
wir trinken und trinken
Ein Mann wohnt im Haus der spielt mit den Schlangen der schreibt
der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldenes Haar Margarete
Dein aschenes Haar Sulamith wir schaufeln ein Grab in den Lüften da liegt man nicht eng

Er ruft stecht tiefer ins Erdreich ihr einen ihr andern singet und spielt
er greift nach dem Eisen im Gurt er schwingts seine Augen sind blau
stecht tiefer die Spaten ihr einen ihr andern spielt weiter zum Tanz auf

Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich mittags und morgens wir trinken dich abends
wir trinken und trinken
ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete
dein aschenes Haar Sulamith er spielt mit den Schlangen
Er ruft spielt süßer den Tod der Tod ist ein Meister aus Deutschland
er ruft streicht dunkler die Geigen dann steigt ihr als Rauch in die Luft
dann habt ihr ein Grab in den Wolken da liegt man nicht eng

Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich mittags der Tod ist ein Meister aus Deutschland
wir trinken dich abends und morgens wir trinken und trinken
der Tod ist ein Meister aus Deutschland sein Auge ist blau
er trifft dich mit bleierner Kugel er trifft dich genau
ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete
er hetzt seine Rüden auf uns er schenkt uns ein Grab in der Luft
er spielt mit den Schlangen und träumet der Tod ist ein Meister aus Deutschland

dein goldenes Haar Margarete
dein aschenes Haar Sulamith



Paul Celan

_________



O poema e a sua tradução foram publicados pelo Lutz em 25.1.05, com este quadro:


Anselm Kiefer: Dein goldenes Haar Margarethe

06 outubro 2011

“stay hungry, stay foolish”

Steve's new job

Do Rui Rocha, no Delito de Opinião:


- Hi, Steve.
- Hi, God.
- How do you feel?
- I feel great, God.
- Do you need some time on your own?
- No way. I just can't wait to get started on your new project: the IGod.


(e ó pra mim a imaginar um Deus desenhado por Steve Jobs: devia ser capaz de nos pôr a olhar para o da Capela Sistina como algo arcaico e balofo...)

se é para ser Holanda, não tem de ser sempre Amesterdão... (5)

Se é para ser Holanda, não tem de ser sempre coffee shop...
Isso é o que eu penso, mas dois polícias da alfândega alemã parece que têm outra opinião, porque logo a seguir à fronteira vieram no meu encalço e fizeram sinal para os seguir. Não é nada agradável ter um carro da polícia à nossa frente com o letreiro "follow me": uma pessoa sente-se envergonhada em plena auto-estrada perante todos os camionistas que tinha vindo a humilhar em ultrapassagens sucessivas, que chatice, lá se nos vai o cool todo.
E lá fui eu rodar a passo de caranguejo atrás do carro deles, e lá me levaram para um descampado, onde me pediram os documentos e quiseram ver o que trazia no carro.
Os miúdos, que vinham a dormir (é a maneira que arranjam para sobreviver à música que gosto de ouvir quando conduzo), acordaram aflitos. Por uns momentos pensei "aimêdês, e se eles fizeram uma palermice de adolescentes, o que é que eu faço?"

Os polícias começaram a olhar para as malas e os sacos, iam vasculhar num deles mas desistiram quando chegaram à parte das toalhas molhadas, e optaram por me perguntar se tinha alguma substância perigosa ou armas. E eu, tentando honestamente ser-lhes útil e para isso fazendo um rápido brain storming e chegando à conclusão que o mais perigoso que trazia eram provavelmente as meias sujas, disse-lhes que não, quase com um ar condoído por estarem a perder tempo com tão mau cliente.

Disseram-me como podia regressar à auto-estrada, e foram-se embora fazendo uma manobra proibida por cima da linha contínua. Ah, valentes! No carro, a Christina riu-se: uma mãe com dois filhos, é mesmo o perfil mais certeiro de traficante.

Depois os miúdos adormeceram de novo, e eu pus-me a pensar em hipóteses teóricas: se eles tivessem encontrado nas coisas dos meus filhos alguma coisa que não deveria estar lá, como é que eu deveria ter reagido?

"some kind of fruit company"



Não é grande homenagem, eu sei - mas hoje sinto-me um bocadinho Forrest Gump: ligeiramente ao lado da notícia.
O Steve Jobs!

se é para ser Holanda, não tem de ser sempre Amesterdão... (4)

Não tem de ser sempre Amesterdão, Haia também já é mais que bom.
O plano inicial era ficar alguns dias com amigos que moram em Haia - passear de bicicleta pelas dunas, ir ver outra vez a casa do Maurício de Nassau, onde há uns Vermeer lindos y otras cositas mas, ir passar um ou dois dias a Amesterdão (sim, que o título desta série não é um fundamentalismo). Mas ficámos apenas uma noite, por causa do calateboca-que-aqui-há-senhoras do visto do Matthias.

Os nossos amigos: ela é holandesa, ele americano - e filho do casal em casa de quem o Matthias vai ficar. Resolveu fazer uma surpresa aos pais, acordou-os para skyparmos um bocadinho. O computador em cima do piano, os netos numa excitação total a mostrar habilidades aos avós, nós pelo meio. E o casal estremunhado, no outro lado do mundo, no ecrã do computador: sorriam felizes e abanavam a cabeça perante tanta confusão, pareciam uma fotografia dos livros do Harry Potter.

***

No regresso à Alemanha parámos no museu Kröller-Müller. Já me tinham falado muito dele - do passeio de bicicleta pelo parque, das esculturas espalhadas pelo meio das árvores, da paisagem no Outono ("que não sabemos se devemos olhar para as pinturas ou para as janelas"). Mas este ainda não chegou em toda a sua glória, o dia estava cinzento,  nós estávamos com alguma pressa: não houve nem bicicletas nem dilemas pintura/janelas. Havemos de voltar lá na Primavera, e havemos de voltar lá no Outono.




O museu conquistou-me. Mostra sobretudo pintura holandesa e francesa. E é a segunda maior colecção privada de Van Gogh (a seguir à da sua própria família).  

Estes quadros, por exemplo (em fotografias fraquinhas):


- "porque me olhas assim?" -
(todos os retratados por Van Gogh me olhavam assim neste museu, hei-de verificar como se portam nos outros)




Ou esta mistura de natureza e arte:


 Ou esta composição de Isaac Israels, em 1916, completada por mim em 2011, agora chamada: Mata Hari e Helena Araújo (hehehe):


O museu estava cheio de miúdos das escolas. Uns em grupos com o professor, outros sentados sob as pinturas, muito concentrados a tentar reproduzir uma delas, alguns a fotografar pormenores de cada quadro. Gostei especialmente de ver os professores: tinham os miúdos inteiramente atentos, sem precisarem de levantar a voz ou ralhar.








Também havia alguns turistas, obviamente. E eu a olhar para eles e para os quadros, tentando decidir qual era o mais interessante.



05 outubro 2011

se é para ser Holanda, não tem de ser sempre Amesterdão... (3)

Ainda não falei dos holandeses de Zeeland: uns simpáticos atenciosos e sem complicações.
Por exemplo: um senhor que estava sentado num banco ao lado do caixote do lixo, e levantou a tampa quando me viu chegar com as mãos cheias de coisas, algumas delas para deitar fora.

Ou o modo como tratam os cães (disseram-me que até os cães holandeses são diferentes, mais calmos e simpáticos). Ou o modo como não se chateiam por eu distraidamente impedir o caminho a quem passa de bicicleta.

Só não entendi uma coisa: se eu, com esta minha cara de portuguesa, lhes falava em inglês, porque é que me respondiam em alemão? 

se é para ser Holanda, não tem de ser sempre Amesterdão... (2)

Sábado: praia de manhã, Middelburg à tarde. Uma delícia de cidade, com imensas lojas pequeninas. Também algumas lojas das cadeias internacionais do costume, mas nessas ninguém nos obriga a entrar.

Uma sorte já não ter filhos pequeninos, porque as lojas de coisas para crianças nem vos digo nem vos conto. Uma sorte ter filhos grandes com juízo, que aceitam que talvez não seja boa ideia dar 70 euros por uma camisola, apesar de ser lindíssima. Um azar a Hema ter-se-me atravessado no caminho: é onde mais gosto de me desgraçar quando vou à Holanda, e fui mais uma vez seduzida sem dó nem piedade. Uma sorte as lojas fecharem às cinco da tarde, sempre se mantiveram os estragos a um nível relativamente comportável.




Demos um passeio de barco nos canais da cidade, com um condutor que palrava animadamente em holandês, e a gente só percebia "oppassen!", que era para ter cuidado porque o barco ia passar por uma ponte muito baixa. "Ponte baixa" é como quem diz: um eufemismo. Suponho que na Alemanha não deixavam construir pontes assim, ou então não deixavam barcos de passageiros passar por baixo delas.
A viagem foi uma autêntica aventura: o condutor, pelo meio de uma huis assim e uma huis assado, metia um "oppassen! oppassen!", a ponte cada vez mais perto, e nós, zimbas, como tartarugas a encolher a cabeça para dentro do casaco. E a rir.






Subimos à torre "Lange Jan", e os rapazes contaram os degraus. Chegados ao topo, tinham números diferentes. Por causa das dúvidas, enquanto descia contei também. Eram duzentos e sete. Mas tenho a certeza que na subida foram pelo menos quatrocentos.



Esta cidade, que parece tão bonitinha e antiga, sofreu uma grande destruição devido aos bombardeamentos alemães, primeiro, e depois aos dos aliados. Foi reconstruída quase de raiz por volta dos anos cinquenta do século passado (mas não lhe encontrei asneiras como em Weimar, onde há um edifício com uma fachada quinhentista e outra comunista; bom, em Roma também há o Collegio di Propaganda Fide, com uma fachada de Bernini e outra de Borromini, de modo que o melhor é não dizer muito mal de Weimar e das reconstruções à maneira da RDA, porque o exemplo vem de longe e de cima). Na igreja havia um quadro cronológico das destruições da torre: incêndios medievais, raios renascentistas e barrocos, e - ai! - aviões alemães. Ao passar pelo monumento que lembrava aquela tragédia, optámos por falar português. Disfarça, disfarça. 

Jantámos no restaurante Amizade - Vriendshap, que fica numa esquina da praça do mercado. Recomendo tudo, excepto o preço. Mas a verdade é que qualquer restaurante na Holanda é caríssimo, e já comi pior em restaurantes mais caros. 

se é para ser Holanda, não tem de ser sempre Amesterdão... (1)

Para o encontro anual da família do meu marido escolhemos desta vez a Holanda. Não é propriamente o local mais central, mas os miúdos pediram mar, e os crescidos acharam bem. A data estava marcada há um ano (sim, são todos alemães) e alguém deve ter andado a mover influências no andar de cima, porque não há memória de um princípio de Outubro radioso como o que tivemos.

Escolhemos a praia de Domburg, uma pequena cidade na região de Zeeland.
Mais propriamente: ficámos num castelo construído no século XIII, com fosso de água e tudo (confesso que o fosso cheio de água me impressionou, estava sempre à espera de ver crocodilos, e assim, e o capitão Gancho) e agora transformado em albergue relativamente barato. Enfim, barato... um quarto para quatro pessoas (dois beliches) com casa de banho custa cerca de 120 euros por noite (ou seja: afinal o capitão Gancho apareceu, estava sentado junto à caixa). Os interessados podem ler mais aqui: Hostel Domburg.



  


- vista da janela do quarto, mesmo em cima do fosso: e se as coisas pousadas no parapeito da janela caíssem para o lado de fora? a vida na Idade Média era mesmo muito difícil! -



- a sala do bar -


- o pátio da frente, com uma tília milenária - 




À parte as camas serem fracotas e o pequeno-almoço bastante simples, é tudo uma maravilha. E para chegar à praia, basta caminhar ao longo do lago, depois atravessar uma pequena floresta de carvalhos (carvalhos junto ao mar?! porque é que o D.Diniz não se lembrou de uma coisa destas? ficam umas florestas muito catitas), e já está - é logo ali, um passeio de cinco minutos.







Em tempos houve na cidadezinha de Domburg uma colónia de pintores. O caminho ao longo da costa está assinalado como "Mondriaan route", em homenagem aos muitos quadros que aquela paisagem  inspirou ao artista. E não, não eram apenas traços e blocos de cores... (mas podiam ter sido, de facto a praia está dividida em barras paralelas) (olha... não me digam que acabei de descobrir onde é que o Mondriaan foi buscar aquela ideia de dividir os quadros com linhas geométricas?!...)


 - Piet Mondriaan, 1909, praia de Domburg (fotografia muito mal tirada no museu Kröller-Müller, mas é o que foi possível arranjar) -


- no quadro anterior falta uma figura feminina, digo eu, mas é o problema do costume: ninguém me deixa mandar. Contudo, parte da culpa é minha: cheguei atrasada, o Mondriaan cansou-se de esperar (um impaciente, esse rapaz) - 


Para terminar em beleza, jantámos mexilhões da península num restaurante com vista para este pôr-do-sol.


E para ser ainda mais perfeito, depois do jantar a família ficou sentada no pátio do castelo, quase às escuras, ouvindo a Christina a tocar guitarra e a cantar, cantando com ela.

Recostei-me na cadeira, olhei para o céu cheio de nítidas estrelas (sempre que vejo o céu na Europa assim, lembro-me de Chaco e fico com vontade de rir da nossa figura...), olhei para o bando de primos encantados à volta da minha filha tão grande, e lembrei-me de uma frase que ouvi há anos, de um americano mais velho: "the most grateful pleasure is to have grown-up kids". Lá chegaremos, e parece-me que sim, que vai ser um muito grateful pleasure.