15 agosto 2011

13.08.1961 - 13.08.2011 (14)

Do meio da multidão sobressaía o portador de um cartaz contra o aborto. De um lado lia-se:

"Pobres vítimas do muro"
-----------------------------------------
Psst: dos 1000 que todos os dias 
são mortos antes de nascer
- ao abrigo da lei -
não se fala aqui!

e do outro lado:

Porque é que os políticos 
não exemplificam aqui os "joguinhos" 
que querem recomendar às crianças 
no âmbito da "Educação Sexual"?

Incomodava muito, pois está claro que incomodava muito. A maior parte dos assistentes fez de conta que não via, ignorava o homem ostensivamente. Alguns tentaram falar com ele:




Uma pessoa gritou: "O senhor está a incomodar todos. Não é o lugar nem a hora para tematizar esse assunto. Leve o seu cartaz para outra rua."
Em vão. Ele retorquiu que neste país há liberdade de expressão, e continuou a avançar em direcção ao palco, onde começou a fazer uma pequena palestra justamente à hora de começar a conversa com testemunhas da construção do muro.


Muitos desviaram o olhar. Alguns começaram a vaiá-lo. E eu com eles, claro - Buuuuh! Buuuuuh! -, no que fui secundada pelas pessoas à minha volta.
Sentia-me invadida. Sentia-me profundamente agredida pelo sarcasmo daquelas aspas: "pobres vítimas do muro". Não queria ouvir o que aquele homem fazia questão de me dizer. E por isso gritava bem alto:
- Buuuh! Buuuuh!
Ele acabou por se ir embora.  Uma rapariga, com a cara desfigurada de raiva e escárnio, ainda lhe atirou pelas costas: "Já cá faltava a hipocrisia da nossa sociedade!"
Eu fiquei, um pouco envergonhada: não teria sido mais civilizado ignorá-lo ostensivamente enquanto falava? Talvez olhar para trás, conversar com a pessoa ao lado? Com o meu Buuuh!, que se ateou aos alemães que estavam perto de mim, contribuí para o avanço e amadurecimento da Democracia, ou para um pequeno retrocesso?

Que isto de civil courage e tal é muito bonito, mas o verdadeiro desafio é corrigir situações que consideramos incorrectas sem humilhar ou interpelar agressivamente o antagonista.

13.08.1961 - 13.08.2011 (13)

O centro de documentação tem uma torre com miradouro que permite ver a o segmento da faixa da morte que não foi destruído. Imagino que tenha sido um desafio para os arquitectos: uma torre de vigia para observar outra torre de vigia...




Olhando para a área ocupada pelo memorial, sinto uma grande admiração pela cidade de Berlim, que se dá ao luxo de "desperdiçar" tanto terreno que poderia render inúmeros milhões se fosse vendido para construção. 


Nesta fotografia pode ver-se bem um detalhe da perfeição do sistema: na faixa da morte a terra era arada frequentemente, de modo a que as pegadas dos fugitivos ficassem marcadas.

13.08.1961 - 13.08.2011 (12)


O partido "die Linke" deixou uma coroa de flores onde se lia simplesmente "in memoriam". Alguém deixou junto à faixa um papel assinado onde estava escrito:

"...dos soldados da fronteira que foram mortos?
E as vítimas?"

Sim, neste dia também se lembraram as vítimas entre os soldados da fronteira. Oito no total, mortos por fugitivos ou os seus ajudantes, por friendly fire ou até por soldados do lado ocidental (como Peter Göring, atingido por um tiro inimigo quando disparava para matar um rapaz de 14 anos que fugia a nado).
Aqui encontra-se informação detalhada (em alemão) sobre cada um deles.

Dias como estes são uma provocação para o partido "die Linke", porque não se sabe de que lado do muro está realmente. Terem escolhido um mero "in memoriam" para juntar ao seu ramo de flores é bastante significativo da sua posição ambígua. 

13.08.1961 - 13.08.2011 (11)

Os mais altos representantes políticos do país deixaram flores junto à inscrição do memorial:



A alguns metros dali, ao longo do muro original, outros deixaram também flores: partidos, associações, quem quisesse.





14 agosto 2011

13.08.1961 - 13.08.2011 (10)

Na Bernauer Straße havia também uma igreja evangélica, que servia as populações de Mitte (Berlim leste) e Wedding (Berlim ocidental). Era a Versöhnungskirche, a Igreja da Reconciliação. Quando o muro foi construído, a população de Wedding, em Berlim ocidental, deixou de a poder frequentar. Em 1985 a igreja foi simplesmente destruída, em nome "do asseio e da visibilidade". Para fazer uma faixa da morte limpinha e escorreita, compreende-se...




Depois da queda do muro, a antiga comunidade recebeu o terreno de volta e construiu uma capela, a muitos títulos simbólica: recuperando o nome "da Reconciliação", faz-se ponte entre o passado e o futuro em plena faixa da morte,  mistura elementos modernos com peças antigas que sobreviveram da igreja inicial, reflecte as preocupações ecológicas do início deste século - o núcleo interior, fechado, tem grossas paredes em barro ao qual se misturaram restos da antiga igreja, inclui um sistema colector de água da chuva e renuncia a sistema de aquecimento -, enquanto o seu espaço circundante, em forma igualmente elíptica, é delimitado por uma vedação em lamelas verticais de madeira, ficando semi-aberto ao exterior.
A propósito da escolha de paredes em barro, disseram-me que os berlinenses estavam fartos de pedras - mesmo que não seja verdade, acho graça à ideia.

(foto daqui)
(foto daqui)





 

Foi nesta capela que, nas primeiras seis horas do dia 13 de Agosto de 2011, se leram as biografias de algumas vítimas do muro.

13.08.1961 - 13.08.2011 (9)

Teria sido possível escapar a um certo toque de reality TV neste ano da graça de 2011? Suspeito que não.

O ponto alto do entertainment ocorreu quando fizeram subir ao palco dois homens que não se conheciam ainda, mas apareciam juntos numa fotografia famosa que agora faz parte do memorial, exibida na parede de uma das casas que o enquadram.
E a conversa pateta:
- Então, agora que finalmente se conhecem, o que vão fazer?
- Olhe, com a idade que tínhamos na fotografia não podíamos beber álcool, de modo que agora vamos tratar de recuperar os copos perdidos...

Berlinenses, hehehe.



13.08.1961 - 13.08.2011 (8)




Um dos elementos centrais deste cinquentenário, na Bernauer Straße, foi a conversa com testemunhas da época. Na primeira dessas conversas juntaram um habitante de Berlim ocidental, uma pessoa que ficou em Berlim leste e duas que fugiram.

O de Berlim ocidental contou como a sua rua, directamente na fronteira, se tornou cada vez mais silenciosa - o fim do mundo.

Um dos que fugiu contou a aventura desse dia: a 13 de Agosto de 1961 tinha 17 anos, durante várias horas procurou com a mãe um ponto por onde escapar, e foram visitar um pastor protestante, a quem a mãe queria pedir opinião. Este sentiu-se muito desconfortável com a questão, e desconversou, "que não se preocupe, que as coisas vão melhorar". A mãe agradeceu, e mal se apanhou na rua decidiu: "hoje, ou nunca!" Esperaram pela noite no sotão de uma casa contígua ao cemitério que ficava na fronteira. Quando tentaram fugir, deram-se conta de que havia um desnível de mais de cinco metros. Por sorte havia uma ruína de guerra sobre a qual puderam avançar, na direcção de uma árvore que lhes permitiu a descida. No cemitério não havia soldados ("o regime respeitou bastante os espaços da Igreja", comentou ele, e lembrei-me de episódios semelhantes, por exemplo quando nas manifestações de 1989 em Leipzig as pessoas se refugiavam em casas da Igreja para fugir à Polícia) e eles foram avançando às escuras, até que avistaram ao longe um cartaz publicitário e concluíram que iam na direcção certa. No fim da conversa, ofereceram-lhe uma cópia desse cartaz feito bússola.


O que não fugiu contou as dificuldades diárias: tudo aquilo que era elemento central da sua vida de rapazinho (a escola, os amigos, o cinema do bairro) ficou inacessível, do lado de lá do muro. A princípio não levaram isso muito a sério - era a terceira vez que os acessos a Berlim ocidental eram vedados. E como viviam na Bernauer Straße, o acesso à casa fazia-se pela parte ocidental da cidade, na zona de ocupação francesa. Mostrando os documentos de moradores, os polícias deixavam-nos sair do leste para poderem entrar na sua casa (que ficava também no leste). Maior foi o choque quando descobriram que o muro viera para ficar, e para lhes mudar irreversivelmente a vida.

 


A segunda fugitiva apontou para a fotografia atrás de si, e contou: olhem, esta sou eu, tinha 16 anos. Ao almoço os meus pais disseram que fugiríamos daí a duas horas, e que durante esse tempo devíamos embalar tudo aquilo que nos fosse suficientemente importante para levar. Quando estávamos prontos, o meu pai começou a passar-nos as coisas pela janela, e nós corríamos de um lado para o outro da rua, para pôr tudo a salvo. Dois homens que passavam de bicicleta começaram a ajudar-nos. O meu pai estava de cabeça perdida: chegou a trazer à janela um prato de vidro cheio de fruta. A minha mãe ralhou, "para que precisamos nós disso?" e ele levou o prato para a cozinha. Trouxemos muitas coisas, até o meu porquinho da Índia e o periquito. Foi o único pássaro que fugiu para a liberdade dentro de uma gaiola.

O público, que ouvia atento e consternado, desatou a rir.
 


Mais tarde, vê-la-ia de novo falando com outras pessoas, sobre as fundações de uma das casas derrubadas, com a célebre fotografia na mão.




13.08.1961 - 13.08.2011 (7)

A parte nova do memorial do muro de Berlim, inaugurada ontem, tem barras de metal a marcar o ponto onde o muro passava, e marcas no chão para assinalar o local onde ficavam as casas derrubadas. Também há uma parte onde foram postas a descoberto as fundações dos edifícios.
Essas casas da Bernauer Straße ficavam no leste, mas davam para o ocidente: ao sair para a rua, as pessoas estavam em Berlim ocidental. Brincava-se até com o facto de, ao assomar à janela, terem o traseiro no leste e a cabeça no ocidente.
Como se vê numa das fotografias, o muro foi construído a mais de um metro da fronteira (a parede exterior da casa). É que havia um espaço para se fazer a manutenção do lado ocidental. Havia até portas para os soldados (escolhidos a dedo, claro) passarem para fazer as obras necessárias.








13.08.1961 - 13.08.2011 (6)


Fugir! Arriscar tudo.


13.08.1961 - 13.08.2011 (5)

Série de fotografias de uma exposição na Capela da Reconciliação:





13.08.1961 - 13.08.2011 (4)

Fotografias de uma exposição na Capela da Reconciliação:






13.08.1961 - 13.08.2011 (3)

De todos os filmes e fotografias sobre a cidade de Berlim dividida, o que mais me impressiona são as imagens das famílias separadas.

Como as que se podem ver a partir do minuto 2:00 deste filme, em francês, que a Shyznogud postou no Jugular.

Ontem, na parte nova do memorial e no centro de documentação, fotografei as imagens que mostro a seguir. De uma insuportável dor.






13.08.1961 - 13.08.2011 (2)

Discurso de Klaus Wowereit, o presidente da câmara de Berlim, por ocasião do cinquentenário da construção do muro de Berlim, junto ao memorial do muro na Bernauer Straße:

(aqui em alemão, tradução do Speedy Gonzalez)

("presidente da câmara" não é uma expressão muito correcta. Berlim é um dos Estados alemães, e o seu presidente tem as mesmas funções de um ministro-presidente. Um dia, quando não for o Speedy Gonzalez a traduzir, hei-de averiguar como é que isto se traduz para português.)



„Hoje lembramos o dia mais triste da História recente de Berlim. A Bernauer Straße tornou-se o símbolo mais forte da tragédia da divisão da nossa cidade.

Tudo mudou com o dia 13 de Agosto de 1961. A construção do muro atingiu os berlinenses em cheio. Perplexos, fomos testemunhas do modo como o Estado da SED cimentava a divisão da cidade. Estávamos chocados e desesperados. Muitas pessoas tentaram ainda no último momento fugir para o Ocidente. Ainda hoje essas imagens nos perturbam, porque nos revelam o desejo de liberdade dos berlinenses e documentam a desumanidade e a injustiça do muro.

Pessoalmente, esta amarga experiência é-me um estímulo para não desistir nunca na luta contra pensamentos e actos totalitários, independentemente da capa e dos disfarces ideológicos que possam usar.

Mais de 100 pessoas morreram entre 1961 e 1989 ao longo dos 155 km da fronteira à volta de Berlim ocidental, porque tentaram conquistar a liberdade. Mas este sonho de liberdade terminou duramente sob uma chuva de balas dos soldados da fronteira da RDA.

No dia 13 de Agosto de 1961 os governantes da RDA encarceraram o seu povo, roubando a dezenas de milhares de pessoas a sua perspectiva de vida [refere-se aos residentes de Berlim leste que trabalhavam em Berlim ocidental]. Com esta acção o regime SED ganhou tempo, mas já naquele momento se anunciava a bancarrota de um sistema do qual as pessoas fugiam.

Hoje, 50 anos depois da construção do muro, lembramos as vítimas da fronteira da RDA, mas também todos os que – em Bautzen, Hohenschönhausen ou nos outros locais do horror – foram vítimas de injustiças porque queriam ser livres. Lembramos a perseverância de tantos berlinenses que, apesar de todas as dificuldades, continuaram a acreditar no futuro da nossa cidade e deram tudo para o conseguir. Pensamos em todas as melhorias que Willy Brandt, como presidente da câmara e como chanceler conseguiu, bem como os seus sucessores. Lembramos hoje tantas pessoas que, de todo o mundo, estiveram com os berlinenses durante esses tempos difíceis. Recordemos John F. Kennedy, que nos deu alento com a sua frase: ‚Ich bin ein Berliner.’

A nossa gratidão dirige-se hoje muito em especial aos membros dos movimentos de direitos humanos da RDA, aos quais a Igreja Evangélica ofereceu o tão importante espaço de liberdade e deu tanto encorajamento. A revolução pacífica e a vitória dos movimentos europeus de libertação contra a ditadura comunista na Polónia, na Hungria e na Checoslováquia: eles aplanaram o caminho para o fim da nossa divisão. E é a sobretudo a Michail Gorbatschow, nosso cidadão honorário, que devemos o facto de esta ter sido uma transição pacífica.

Quando o muro caiu, a 9 de Novembro de 1989, os berlinenses mal podiam acreditar em tamanha felicidade. Abraçados uns aos outros, festejavam o fim dessa triste época de encarceramento e espaço exíguo. E o mundo festejava connosco.

Isso foi há pouco menos de 22 anos. Desde então, Berlim transformou-se a uma velocidade vertiginosa, e é hoje considerada uma das metrópoles mais excitantes do mundo. Podemos orgulhar-nos disso. Contudo, também há pessoas no Leste da Alemanha cuja vida foi duramente atingida por estas transformações. Essas pessoas merecem a nossa solidariedade, e as suas realizações merecem o nosso respeito.

Não merecem qualquer compreensão, em contrapartida, aqueles que glorificam com nostalgia a divisão operada pelo muro. O muro era parte de um sistema ditatorial, um Estado sem Direito. É assustador que ainda hoje alguns afirmem que a SED tinha boas razões para construir o muro. Não! Para a injustiça, para o desrespeito dos direitos humanos, para mortos devido ao muro e ao arame farpado não há qualquer bom motivo e qualquer justificação.

O muro passou à história, mas não o podemos esquecer. Quem se confronta com este tema torna-se mais sensível aos problemas da injustiça e das ideologias totalitárias. Aqui, na Bernauer Straße, encontramo-nos num ponto central dos acontecimentos de 13 de Agosto de 1961. A autenticidade deste local lembra a história do muro de Berlim. E hoje acrescentámos ao memorial uma parcela importante [refere-se à parte do memorial que foi inaugurada ontem, entre a Ackerstrasse e a capela da Reconciliação, onde estão marcadas as paredes exteriores dos edifícios destruídos para estender a faixa da morte]. Com mais de meio milhão de visitantes por ano, é o mais visitado memorial das injustiças da SED. No entanto, inquéritos feitos à população revelam repetidamente que a falta de interesse e a ignorância em relação à divisão alemã e à construção do muro têm vindo a crescer.

Hoje, 50 anos após a construção do muro, é a hora de dar nas escolas um espaço alargado a este tema, de pais falarem com os seus filhos sobre o que experienciaram nessa época, e de procurarmos o diálogo com testemunhas desse tempo que vivem ainda entre nós.

Um jornal diário de Berlim escreveu no dia 14 de Agosto de 1961: ‚os berlinenses nunca esquecerão este dia.’ Hoje, no cinquentenário da construção do muro, eu acrescento: é responsabilidade de todos nós manter a memória viva e passá-la às próximas gerações, para que tal injustiça não se repita nunca mais. “

13 agosto 2011

13.08.1961 - 13.08.2011 (1)

Hoje, cinquenta anos após o início da construção do muro, milhares de berlinenses pararam para lembrar esse duro capítulo da sua História. E nós com eles, na Bernauerstrasse, local onde decorreram as cerimónias mais importantes (aqui, um filme com um pequeno resumo, em alemão).

Antes do raiar do dia, entre a meia-noite e as seis da manhã, foram lidas na Capela da Reconciliação as biografias de pessoas que morreram ao tentar passar o muro, o que foi transmitido em directo por uma estação de rádio. 

Nós chegámos já depois dos discursos dos políticos e da homenagem junto ao memorial, mas a tempo de participar no minuto de silêncio que se realizou ao meio-dia. Depois cantou-se o hino ("Unidade, Direito e Liberdade para a pátria alemã" - como se tivesse sido escrito de propósito para esta ocasião ) e uma antiga canção revolucionária que não perde a actualidade: die Gedanken sind frei (os pensamentos são livres).


Seguiu-se um bailado no novo espaço do memorial do muro de Berlim, na área da faixa da morte entre a Ackerstrasse e a Igreja da Reconciliação: participantes de várias idades tematizavam a história daquela rua. (amanhã tentarei pôr aqui um vídeo onde se vê parte do bailado - de momento ainda não está disponível na internet)

Depois os figurões foram-se embora, e nós pudemos sentar-nos nas cadeiras deles para assistir a conversas muito interessantes com testemunhas da época. Os primeiros convidados contaram como viveram esse dia 13 de Agosto e os seguintes. Outros temas: ajuda para os refugiados, desafios à política, resistência e ajuda à fuga dos "sitiados", resgate/tráfico humano por motivos humanitários, testemunhos dos Aliados, etc. 

Gosto da maneira como os alemães trabalham a sua Memória com palavras e gestos dignos, simples e claros. Como Klaus Wowereit, o representante máximo da cidade, que no seu discurso lembrou que em circunstância alguma se pode desculpar esta violência do Estado contra os seus cidadãos. Como os que hoje passaram filmes que documentavam a história do muro, chamaram testemunhas para fazer depoimentos perante o povo da cidade e convidaram todos a unir as suas vozes entoando canções de profundo significado simbólico e histórico.

Nos próximos posts continuarei a escrever sobre este tema.

13.08.1961













O muro de Berlim foi construído em 1961. Praticamente ontem, apenas 13 anos antes do 25 de Abril. 
Todos conhecemos as imagens da construção e das fugas, das pessoas que de um e do outro lado do muro acenavam aos familiares e amigos. Só em Berlim foram assassinados pelo menos 136 fugitivos, no resto do país terão sido várias centenas.
Um filme de animação mostra a máquina bem afinada da "faixa da morte" (aqui, em alemão - mas as imagens falam por si).

Hoje quero lembrar o sofrimento de amigos meus: o pai que fugiu e ajudou outros a fugir, e o preço pago pelos avós, que foram parar às prisões da Stasi. Os piqueniques combinados secretamente, feitos em mesas contíguas em parques da autoestrada, para que as irmãs separadas pudessem ver - disfarçadamente, de relance - os sobrinhos que iam nascendo e crescendo. E, ainda antes da construção do muro, o jovem casal que saiu para Berlim Ocidental com o filho bebé no carrinho, e só trazia uma fralda para lhe mudar. Mais nada, para não levantar suspeitas aos soldados da fronteira.
E tantos como eles.

12 agosto 2011

e lá vou eu outra vez...

Ainda nem bem cheguei a Berlim, ainda nem bem digeri todos os sabores destas férias (sim, que tenho aqui trabalhinho até Outubro, pelo menos) e já ando com a cabeça em viagens outras. A culpa é de um link que passaram no facebook, com fotografias de astronomia.

Olho para esta

e sonho com uma viagem à Noruega, a um fiorde secreto e perfeito que ainda hei-de inventar.

E depois vejo esta

e lembro uns belíssimos dias de Indian Summer que passei em Yosemite: enchi os olhos, maravilhei-me - e quase vi as estrelas tal e qual, de tanto que abria e fechava os olhos para confirmar que não estava a sonhar...
É um dos lugares aonde prefiro não voltar, porque não sei se consigo repetir aquela sensação de deslumbramento feliz.

estranha ascensão e queda de um mito fugaz

Más notícias para quem foi deste post da Rita para este post da io e aqui veio parar em busca da "bela e sensual no seu vestido vermelho": o famoso vestido vermelho desapareceu na viagem entre o Porto e Berlim. A última vez que foi visto ia muito abraçado a uma garrafa de Moscatel da Quinta do Vallado.


11 agosto 2011

correio das ilhas (46)

Olá, Rita

este é o último postal desta viagem. Já estou em Berlim. Mas não, ainda não cheguei.
Como habitualmente, não me apetece escrever nos dias que se seguem às férias de Verão.
Tu sais hoje para Corfu - mandas-me um postalito?

Beijo, Helena

08 agosto 2011

correio das ilhas (45)

Olá, Rita

lembras-te daquela vez que comprei uma balança na IKEA do Porto e a fui devolver porque só podia estar avariada? Pois é, este ano foi o espelho do meu quarto que se avariou. Coitado, tem mais de cem anos, é natural que comece a ver as coisas distorcidas.

(esta gastronomia da saudade, que se atira a mim durante as férias, ainda vai acabar mal)
(ou ela, ou eu)

07 agosto 2011

correio das ilhas (44)

Olá, Rita

A chuva limpa o ar, deixa as montanhas à volta de Ponte de Lima com uma nitidez que chega a ser dolorosa de linda: as casas muito bem desenhadas contra as encostas, a filigrana das árvores na crista dos montes, tão exacta que quase se vêem os ninhos.

Passei umas horas na vila, em casa de um amigo, cuscando com ele na vida do Chico Buarque e no novo CD. Sabes que o Chico tem nova paixão? Pois, a interessada, como de costume...

O CD está uma maravilha - um vintage, dizia o meu amigo, e é isso mesmo. E o Chico, pela primeira vez, em vez de cantar sobre a minha vida canta sobre a dele (confesso que foi uma surpresa). Aparece transparente e vulnerável, apaixonado mas sem acreditar. Tenho de rever as minhas opiniões sobre o amor depois dos quarenta - se calhar depois dos sessenta muda outra vez.

A miúda tem graça, embora não corra grandes riscos de ganhar algum prémio Nobel. E embora fique mais bonita de perfil, ou com a cara a três quartos, que de frente. O que, no caso, não faz mal: ouvindo "Essa pequena" imagino que ele só a veja de lado, ou de costas, que se há coisa que lhes falta é o tal ponto comum de que o Saint-Exupéry falava. Ó aqui:

Meu tempo é curto e o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela
Mas, eu sou tão feliz com ela.

Meu dia voa e ela não acorda
Vou até a esquina e ela quer ir pra Flórida
Acho que não sei direito o que é que ela fala
Mas, não canso de contemplá-la.

Pois: contemplá-la de lado, que é como ela fica melhor. Nem ele se cansa, nem nós, que estivemos a saborear o vídeo do dueto "Se eu soubesse" (uma delícia aquelas vozes combinadas!) e mais a entrevista no Jô Soares que é longa, mas vale a pena, sobretudo porque a gente vai rindo com um Jô completamente rendido à moça (e até esqueço a dor de cotovelo) (aqui e aqui).

E depois vem o Chico e pergunta:

Não sei para que
Outra história de amor a essa hora

E volta à solidão, insuportável:

Pois sem você
O tempo é todo meu
Posso até ver o futebol
Ir ao museu, ou não
Passo o domingo olhando o mar
Ondas que vêm
Ondas que vão

Gosto do CD, gosto muito, mas dá-me uma espécie de tristeza por aquele homem concreto - o Chico - que se nos revela sozinho em frente ao mar.

06 agosto 2011

correio das ilhas (43)

Olá, Rita

Este fim-de-semana há festa cá na terra. Ontem adormeci embalada pelas alegres canções de "aquele querido mês de Agosto", taliqual, que os altifalantes fanhosos me faziam chegar em ondas incertas.
Hoje é noite de ranchos. Vou ver, nem que chova. E chove, oh, se chove.
Para a loucura ser completa, só falta mesmo o Augusto Canário a cantar à desgarrada com a Irene de Gaia. Mas melhor que isso, visceralmente melhor, foi uma cena a que assisti na Senhora da Agonia do ano passado: um rapaz a tocar concertina, e um grupo de homens com as hormonas ao rubro a aviar brejeiríssimas quadras, muito aplaudidas pelo público feminino (apesar de um ou outro "ai os malcriados!"). A minha romaria de Viana, já tão apetecida por causa dos Zés-Pereiras ao meio-dia de sábado na praça da República, e por causa da beleza das mulheres orgulhosas, carregadas de ouro, ganhou um novo charme, mais aleatório - sei lá eu onde e quando é que vai dar aos homens para começarem novo chorrilho de brejeirices muito berradas de tintol?

E assim vai a vida. Na próxima quarta-feira regresso a Berlim. Regresso ou vou? Não sei - ando.

05 agosto 2011

correio das ilhas (42)

Olá, Rita

ontem estive a almoçar com amigos em Matosinhos. Um homem e duas mulheres. Chegámos ao fim, e quem pagou a conta? O homem.
Já me aconteceu várias vezes, e não sei que me parece.
Para mais agora, em tempo de crise. Prevejo grandes convulsões sociais. Pois, que eu bem sei onde isto pode levar - lembrou-me logo um amigo em San Francisco que era bissexual e quando a bolha dot-com rebentou quase se viu na miséria e teve de se tornar homossexual porque sair com mulheres ficava muito caro.

03 agosto 2011

correio das ilhas (41)

Olá, Rita

fique registado, neste estranho verão de 2011, que no dia 3 de Agosto fui à praia e estava formidável.

Enquanto esperava pela vizinha para lhe dar boleia para a praia (que bom ter uma vizinha por quem esperar para ir para a praia!) vi umas laranjas a espreitar pelas folhas da nespereira. E foi assim que descobri que no meu quintal anda uma laranjeira enrolada com uma nespereira, uma pouca-vergonhice vegetal que nem te digo nem te conto.

02 agosto 2011

correio das ilhas (40)

Olá, Rita

comprei o Duetos,do Chico Buarque, e ando a babar. Fico bem disposta logo à primeira canção: "Façamos (Vamos Amar)" com Elza Soares. Nós as duas no carro a cantar com a voz muito cheia "façamos!", maravilha. Descobri que canto melhor no carro que no duche. Melhor, diz ela? Queria dizer: menos mal. Mas a Elza não se importa, é boa moça.

E por falar em menos mal: comprei o CD da Luísa Sobral. Acho que não devia pagar IVA, porque quase não tem valor acrescentado: a voz dela, muito soft, sobre músicas que são receitas conhecidas.

Esgotou-se-me o orçamento para estas alegrias. Agora, se vejo a FNAC, fico com vontade de ganir baixinho como os cães que esperam o dono à porta do supermercado.

***

Hoje estive na Livraria Lello, no Porto. Desconfio que desde que os supermercados começaram a vender livros, as livrarias começaram a vender quinquilharia. Que tristeza! Se me deixassem mandar (agarrem-me, já me conhecem!) usava aquele espaço para vender boa literatura portuguesa em línguas estrangeiras. Isso, e guias turísticos também em estrangeiro. Assim como assim, aquela casa está cheia de turistas que obviamente não vão comprar livros portugueses. E esses, os livros portugueses, vendem-se nos supermercados, não é preciso ir ao centro do Porto... (Piadinha, claro: havia lá bons livros que não há nos supermercados. Mas aquele público não os consegue ler.)

01 agosto 2011

correio das ilhas (39)

Olá, Rita

As férias aproximam-se do fim. Desde o princípio sabia que iam ser curtas, e não me enganei. Tenho a sensação que os próximos dez dias vão passar ainda mais depressa que os n dias anteriores (nem digo quantos, que ainda me metem um processo por atentado aos bons costumes).

No fim de semana encontrei alguns dos meus amigos mais antigos. Confirma-se: uma das vantagens de envelhecer são esses amigos feitos cada vez mais raiz connosco. Era um encontro de reflexão teológica, e confirma-se também isto: só sei que nada sei. Quase me deu vontade de rir ao pensar no modo como amigos ateus ou agnósticos olham para mim, imaginando que a Fé me dá todas as respostas e de brinde mapas detalhados para o caminho. Ah, isso é que era bom! Corrijo: ah, isso é que era mau!

Em conversa com algumas dessas amigas contei que tinha preparado o tal jantar para amigos em casa da io. Do que eu me fui lembrar! Ficaram logo muito interessadas, e se também fazia o mesmo na casa delas, e se também arrumava casas ao domicílio. Suspeito que encontrei mais um nicho de mercado.

Não está tempo para praia. Vou-me estender na rede, debaixo da figueira, a aviar a resma de livros que me emprestaram para ler estas férias.