A parte nova do memorial do muro de Berlim, inaugurada ontem, tem barras de metal a marcar o ponto onde o muro passava, e marcas no chão para assinalar o local onde ficavam as casas derrubadas. Também há uma parte onde foram postas a descoberto as fundações dos edifícios.
Essas casas da Bernauer Straße ficavam no leste, mas davam para o ocidente: ao sair para a rua, as pessoas estavam em Berlim ocidental. Brincava-se até com o facto de, ao assomar à janela, terem o traseiro no leste e a cabeça no ocidente.
Como se vê numa das fotografias, o muro foi construído a mais de um metro da fronteira (a parede exterior da casa). É que havia um espaço para se fazer a manutenção do lado ocidental. Havia até portas para os soldados (escolhidos a dedo, claro) passarem para fazer as obras necessárias.
14 agosto 2011
13.08.1961 - 13.08.2011 (3)
De todos os filmes e fotografias sobre a cidade de Berlim dividida, o que mais me impressiona são as imagens das famílias separadas.
Como as que se podem ver a partir do minuto 2:00 deste filme, em francês, que a Shyznogud postou no Jugular.
Ontem, na parte nova do memorial e no centro de documentação, fotografei as imagens que mostro a seguir. De uma insuportável dor.
Como as que se podem ver a partir do minuto 2:00 deste filme, em francês, que a Shyznogud postou no Jugular.
Ontem, na parte nova do memorial e no centro de documentação, fotografei as imagens que mostro a seguir. De uma insuportável dor.
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13.08.1961 - 13.08.2011,
muro de Berlim
13.08.1961 - 13.08.2011 (2)
Discurso de Klaus Wowereit, o presidente da câmara de Berlim, por ocasião do cinquentenário da construção do muro de Berlim, junto ao memorial do muro na Bernauer Straße:
(aqui em alemão, tradução do Speedy Gonzalez)
("presidente da câmara" não é uma expressão muito correcta. Berlim é um dos Estados alemães, e o seu presidente tem as mesmas funções de um ministro-presidente. Um dia, quando não for o Speedy Gonzalez a traduzir, hei-de averiguar como é que isto se traduz para português.)
„Hoje lembramos o dia mais triste da História recente de Berlim. A Bernauer Straße tornou-se o símbolo mais forte da tragédia da divisão da nossa cidade.
Tudo mudou com o dia 13 de Agosto de 1961. A construção do muro atingiu os berlinenses em cheio. Perplexos, fomos testemunhas do modo como o Estado da SED cimentava a divisão da cidade. Estávamos chocados e desesperados. Muitas pessoas tentaram ainda no último momento fugir para o Ocidente. Ainda hoje essas imagens nos perturbam, porque nos revelam o desejo de liberdade dos berlinenses e documentam a desumanidade e a injustiça do muro.
Pessoalmente, esta amarga experiência é-me um estímulo para não desistir nunca na luta contra pensamentos e actos totalitários, independentemente da capa e dos disfarces ideológicos que possam usar.
Mais de 100 pessoas morreram entre 1961 e 1989 ao longo dos 155 km da fronteira à volta de Berlim ocidental, porque tentaram conquistar a liberdade. Mas este sonho de liberdade terminou duramente sob uma chuva de balas dos soldados da fronteira da RDA.
No dia 13 de Agosto de 1961 os governantes da RDA encarceraram o seu povo, roubando a dezenas de milhares de pessoas a sua perspectiva de vida [refere-se aos residentes de Berlim leste que trabalhavam em Berlim ocidental]. Com esta acção o regime SED ganhou tempo, mas já naquele momento se anunciava a bancarrota de um sistema do qual as pessoas fugiam.
Hoje, 50 anos depois da construção do muro, lembramos as vítimas da fronteira da RDA, mas também todos os que – em Bautzen, Hohenschönhausen ou nos outros locais do horror – foram vítimas de injustiças porque queriam ser livres. Lembramos a perseverância de tantos berlinenses que, apesar de todas as dificuldades, continuaram a acreditar no futuro da nossa cidade e deram tudo para o conseguir. Pensamos em todas as melhorias que Willy Brandt, como presidente da câmara e como chanceler conseguiu, bem como os seus sucessores. Lembramos hoje tantas pessoas que, de todo o mundo, estiveram com os berlinenses durante esses tempos difíceis. Recordemos John F. Kennedy, que nos deu alento com a sua frase: ‚Ich bin ein Berliner.’
A nossa gratidão dirige-se hoje muito em especial aos membros dos movimentos de direitos humanos da RDA, aos quais a Igreja Evangélica ofereceu o tão importante espaço de liberdade e deu tanto encorajamento. A revolução pacífica e a vitória dos movimentos europeus de libertação contra a ditadura comunista na Polónia, na Hungria e na Checoslováquia: eles aplanaram o caminho para o fim da nossa divisão. E é a sobretudo a Michail Gorbatschow, nosso cidadão honorário, que devemos o facto de esta ter sido uma transição pacífica.
Quando o muro caiu, a 9 de Novembro de 1989, os berlinenses mal podiam acreditar em tamanha felicidade. Abraçados uns aos outros, festejavam o fim dessa triste época de encarceramento e espaço exíguo. E o mundo festejava connosco.
Isso foi há pouco menos de 22 anos. Desde então, Berlim transformou-se a uma velocidade vertiginosa, e é hoje considerada uma das metrópoles mais excitantes do mundo. Podemos orgulhar-nos disso. Contudo, também há pessoas no Leste da Alemanha cuja vida foi duramente atingida por estas transformações. Essas pessoas merecem a nossa solidariedade, e as suas realizações merecem o nosso respeito.
Não merecem qualquer compreensão, em contrapartida, aqueles que glorificam com nostalgia a divisão operada pelo muro. O muro era parte de um sistema ditatorial, um Estado sem Direito. É assustador que ainda hoje alguns afirmem que a SED tinha boas razões para construir o muro. Não! Para a injustiça, para o desrespeito dos direitos humanos, para mortos devido ao muro e ao arame farpado não há qualquer bom motivo e qualquer justificação.
O muro passou à história, mas não o podemos esquecer. Quem se confronta com este tema torna-se mais sensível aos problemas da injustiça e das ideologias totalitárias. Aqui, na Bernauer Straße, encontramo-nos num ponto central dos acontecimentos de 13 de Agosto de 1961. A autenticidade deste local lembra a história do muro de Berlim. E hoje acrescentámos ao memorial uma parcela importante [refere-se à parte do memorial que foi inaugurada ontem, entre a Ackerstrasse e a capela da Reconciliação, onde estão marcadas as paredes exteriores dos edifícios destruídos para estender a faixa da morte]. Com mais de meio milhão de visitantes por ano, é o mais visitado memorial das injustiças da SED. No entanto, inquéritos feitos à população revelam repetidamente que a falta de interesse e a ignorância em relação à divisão alemã e à construção do muro têm vindo a crescer.
Hoje, 50 anos após a construção do muro, é a hora de dar nas escolas um espaço alargado a este tema, de pais falarem com os seus filhos sobre o que experienciaram nessa época, e de procurarmos o diálogo com testemunhas desse tempo que vivem ainda entre nós.
Um jornal diário de Berlim escreveu no dia 14 de Agosto de 1961: ‚os berlinenses nunca esquecerão este dia.’ Hoje, no cinquentenário da construção do muro, eu acrescento: é responsabilidade de todos nós manter a memória viva e passá-la às próximas gerações, para que tal injustiça não se repita nunca mais. “
(aqui em alemão, tradução do Speedy Gonzalez)
("presidente da câmara" não é uma expressão muito correcta. Berlim é um dos Estados alemães, e o seu presidente tem as mesmas funções de um ministro-presidente. Um dia, quando não for o Speedy Gonzalez a traduzir, hei-de averiguar como é que isto se traduz para português.)
„Hoje lembramos o dia mais triste da História recente de Berlim. A Bernauer Straße tornou-se o símbolo mais forte da tragédia da divisão da nossa cidade.
Tudo mudou com o dia 13 de Agosto de 1961. A construção do muro atingiu os berlinenses em cheio. Perplexos, fomos testemunhas do modo como o Estado da SED cimentava a divisão da cidade. Estávamos chocados e desesperados. Muitas pessoas tentaram ainda no último momento fugir para o Ocidente. Ainda hoje essas imagens nos perturbam, porque nos revelam o desejo de liberdade dos berlinenses e documentam a desumanidade e a injustiça do muro.
Pessoalmente, esta amarga experiência é-me um estímulo para não desistir nunca na luta contra pensamentos e actos totalitários, independentemente da capa e dos disfarces ideológicos que possam usar.
Mais de 100 pessoas morreram entre 1961 e 1989 ao longo dos 155 km da fronteira à volta de Berlim ocidental, porque tentaram conquistar a liberdade. Mas este sonho de liberdade terminou duramente sob uma chuva de balas dos soldados da fronteira da RDA.
No dia 13 de Agosto de 1961 os governantes da RDA encarceraram o seu povo, roubando a dezenas de milhares de pessoas a sua perspectiva de vida [refere-se aos residentes de Berlim leste que trabalhavam em Berlim ocidental]. Com esta acção o regime SED ganhou tempo, mas já naquele momento se anunciava a bancarrota de um sistema do qual as pessoas fugiam.
Hoje, 50 anos depois da construção do muro, lembramos as vítimas da fronteira da RDA, mas também todos os que – em Bautzen, Hohenschönhausen ou nos outros locais do horror – foram vítimas de injustiças porque queriam ser livres. Lembramos a perseverância de tantos berlinenses que, apesar de todas as dificuldades, continuaram a acreditar no futuro da nossa cidade e deram tudo para o conseguir. Pensamos em todas as melhorias que Willy Brandt, como presidente da câmara e como chanceler conseguiu, bem como os seus sucessores. Lembramos hoje tantas pessoas que, de todo o mundo, estiveram com os berlinenses durante esses tempos difíceis. Recordemos John F. Kennedy, que nos deu alento com a sua frase: ‚Ich bin ein Berliner.’
A nossa gratidão dirige-se hoje muito em especial aos membros dos movimentos de direitos humanos da RDA, aos quais a Igreja Evangélica ofereceu o tão importante espaço de liberdade e deu tanto encorajamento. A revolução pacífica e a vitória dos movimentos europeus de libertação contra a ditadura comunista na Polónia, na Hungria e na Checoslováquia: eles aplanaram o caminho para o fim da nossa divisão. E é a sobretudo a Michail Gorbatschow, nosso cidadão honorário, que devemos o facto de esta ter sido uma transição pacífica.
Quando o muro caiu, a 9 de Novembro de 1989, os berlinenses mal podiam acreditar em tamanha felicidade. Abraçados uns aos outros, festejavam o fim dessa triste época de encarceramento e espaço exíguo. E o mundo festejava connosco.
Isso foi há pouco menos de 22 anos. Desde então, Berlim transformou-se a uma velocidade vertiginosa, e é hoje considerada uma das metrópoles mais excitantes do mundo. Podemos orgulhar-nos disso. Contudo, também há pessoas no Leste da Alemanha cuja vida foi duramente atingida por estas transformações. Essas pessoas merecem a nossa solidariedade, e as suas realizações merecem o nosso respeito.
Não merecem qualquer compreensão, em contrapartida, aqueles que glorificam com nostalgia a divisão operada pelo muro. O muro era parte de um sistema ditatorial, um Estado sem Direito. É assustador que ainda hoje alguns afirmem que a SED tinha boas razões para construir o muro. Não! Para a injustiça, para o desrespeito dos direitos humanos, para mortos devido ao muro e ao arame farpado não há qualquer bom motivo e qualquer justificação.
O muro passou à história, mas não o podemos esquecer. Quem se confronta com este tema torna-se mais sensível aos problemas da injustiça e das ideologias totalitárias. Aqui, na Bernauer Straße, encontramo-nos num ponto central dos acontecimentos de 13 de Agosto de 1961. A autenticidade deste local lembra a história do muro de Berlim. E hoje acrescentámos ao memorial uma parcela importante [refere-se à parte do memorial que foi inaugurada ontem, entre a Ackerstrasse e a capela da Reconciliação, onde estão marcadas as paredes exteriores dos edifícios destruídos para estender a faixa da morte]. Com mais de meio milhão de visitantes por ano, é o mais visitado memorial das injustiças da SED. No entanto, inquéritos feitos à população revelam repetidamente que a falta de interesse e a ignorância em relação à divisão alemã e à construção do muro têm vindo a crescer.
Hoje, 50 anos após a construção do muro, é a hora de dar nas escolas um espaço alargado a este tema, de pais falarem com os seus filhos sobre o que experienciaram nessa época, e de procurarmos o diálogo com testemunhas desse tempo que vivem ainda entre nós.
Um jornal diário de Berlim escreveu no dia 14 de Agosto de 1961: ‚os berlinenses nunca esquecerão este dia.’ Hoje, no cinquentenário da construção do muro, eu acrescento: é responsabilidade de todos nós manter a memória viva e passá-la às próximas gerações, para que tal injustiça não se repita nunca mais. “
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13.08.1961 - 13.08.2011,
muro de Berlim
13 agosto 2011
13.08.1961 - 13.08.2011 (1)
Hoje, cinquenta anos após o início da construção do muro, milhares de berlinenses pararam para lembrar esse duro capítulo da sua História. E nós com eles, na Bernauerstrasse, local onde decorreram as cerimónias mais importantes (aqui, um filme com um pequeno resumo, em alemão).
Antes do raiar do dia, entre a meia-noite e as seis da manhã, foram lidas na Capela da Reconciliação as biografias de pessoas que morreram ao tentar passar o muro, o que foi transmitido em directo por uma estação de rádio.
Nós chegámos já depois dos discursos dos políticos e da homenagem junto ao memorial, mas a tempo de participar no minuto de silêncio que se realizou ao meio-dia. Depois cantou-se o hino ("Unidade, Direito e Liberdade para a pátria alemã" - como se tivesse sido escrito de propósito para esta ocasião ) e uma antiga canção revolucionária que não perde a actualidade: die Gedanken sind frei (os pensamentos são livres).
Seguiu-se um bailado no novo espaço do memorial do muro de Berlim, na área da faixa da morte entre a Ackerstrasse e a Igreja da Reconciliação: participantes de várias idades tematizavam a história daquela rua. (amanhã tentarei pôr aqui um vídeo onde se vê parte do bailado - de momento ainda não está disponível na internet)
Depois os figurões foram-se embora, e nós pudemos sentar-nos nas cadeiras deles para assistir a conversas muito interessantes com testemunhas da época. Os primeiros convidados contaram como viveram esse dia 13 de Agosto e os seguintes. Outros temas: ajuda para os refugiados, desafios à política, resistência e ajuda à fuga dos "sitiados", resgate/tráfico humano por motivos humanitários, testemunhos dos Aliados, etc.
Gosto da maneira como os alemães trabalham a sua Memória com palavras e gestos dignos, simples e claros. Como Klaus Wowereit, o representante máximo da cidade, que no seu discurso lembrou que em circunstância alguma se pode desculpar esta violência do Estado contra os seus cidadãos. Como os que hoje passaram filmes que documentavam a história do muro, chamaram testemunhas para fazer depoimentos perante o povo da cidade e convidaram todos a unir as suas vozes entoando canções de profundo significado simbólico e histórico.
Nos próximos posts continuarei a escrever sobre este tema.
Antes do raiar do dia, entre a meia-noite e as seis da manhã, foram lidas na Capela da Reconciliação as biografias de pessoas que morreram ao tentar passar o muro, o que foi transmitido em directo por uma estação de rádio.
Nós chegámos já depois dos discursos dos políticos e da homenagem junto ao memorial, mas a tempo de participar no minuto de silêncio que se realizou ao meio-dia. Depois cantou-se o hino ("Unidade, Direito e Liberdade para a pátria alemã" - como se tivesse sido escrito de propósito para esta ocasião ) e uma antiga canção revolucionária que não perde a actualidade: die Gedanken sind frei (os pensamentos são livres).
Seguiu-se um bailado no novo espaço do memorial do muro de Berlim, na área da faixa da morte entre a Ackerstrasse e a Igreja da Reconciliação: participantes de várias idades tematizavam a história daquela rua. (amanhã tentarei pôr aqui um vídeo onde se vê parte do bailado - de momento ainda não está disponível na internet)
Depois os figurões foram-se embora, e nós pudemos sentar-nos nas cadeiras deles para assistir a conversas muito interessantes com testemunhas da época. Os primeiros convidados contaram como viveram esse dia 13 de Agosto e os seguintes. Outros temas: ajuda para os refugiados, desafios à política, resistência e ajuda à fuga dos "sitiados", resgate/tráfico humano por motivos humanitários, testemunhos dos Aliados, etc.
Gosto da maneira como os alemães trabalham a sua Memória com palavras e gestos dignos, simples e claros. Como Klaus Wowereit, o representante máximo da cidade, que no seu discurso lembrou que em circunstância alguma se pode desculpar esta violência do Estado contra os seus cidadãos. Como os que hoje passaram filmes que documentavam a história do muro, chamaram testemunhas para fazer depoimentos perante o povo da cidade e convidaram todos a unir as suas vozes entoando canções de profundo significado simbólico e histórico.
Nos próximos posts continuarei a escrever sobre este tema.
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13.08.1961 - 13.08.2011,
muro de Berlim,
viver em Berlim
13.08.1961
O muro de Berlim foi construído em 1961. Praticamente ontem, apenas 13 anos antes do 25 de Abril.
Todos conhecemos as imagens da construção e das fugas, das pessoas que de um e do outro lado do muro acenavam aos familiares e amigos. Só em Berlim foram assassinados pelo menos 136 fugitivos, no resto do país terão sido várias centenas.
Um filme de animação mostra a máquina bem afinada da "faixa da morte" (aqui, em alemão - mas as imagens falam por si).
Hoje quero lembrar o sofrimento de amigos meus: o pai que fugiu e ajudou outros a fugir, e o preço pago pelos avós, que foram parar às prisões da Stasi. Os piqueniques combinados secretamente, feitos em mesas contíguas em parques da autoestrada, para que as irmãs separadas pudessem ver - disfarçadamente, de relance - os sobrinhos que iam nascendo e crescendo. E, ainda antes da construção do muro, o jovem casal que saiu para Berlim Ocidental com o filho bebé no carrinho, e só trazia uma fralda para lhe mudar. Mais nada, para não levantar suspeitas aos soldados da fronteira.
E tantos como eles.
12 agosto 2011
e lá vou eu outra vez...
Ainda nem bem cheguei a Berlim, ainda nem bem digeri todos os sabores destas férias (sim, que tenho aqui trabalhinho até Outubro, pelo menos) e já ando com a cabeça em viagens outras. A culpa é de um link que passaram no facebook, com fotografias de astronomia.
Olho para esta
e sonho com uma viagem à Noruega, a um fiorde secreto e perfeito que ainda hei-de inventar.
E depois vejo esta
e lembro uns belíssimos dias de Indian Summer que passei em Yosemite: enchi os olhos, maravilhei-me - e quase vi as estrelas tal e qual, de tanto que abria e fechava os olhos para confirmar que não estava a sonhar...
É um dos lugares aonde prefiro não voltar, porque não sei se consigo repetir aquela sensação de deslumbramento feliz.
Olho para esta
e sonho com uma viagem à Noruega, a um fiorde secreto e perfeito que ainda hei-de inventar.
E depois vejo esta
e lembro uns belíssimos dias de Indian Summer que passei em Yosemite: enchi os olhos, maravilhei-me - e quase vi as estrelas tal e qual, de tanto que abria e fechava os olhos para confirmar que não estava a sonhar...
É um dos lugares aonde prefiro não voltar, porque não sei se consigo repetir aquela sensação de deslumbramento feliz.
estranha ascensão e queda de um mito fugaz
Más notícias para quem foi deste post da Rita para este post da io e aqui veio parar em busca da "bela e sensual no seu vestido vermelho": o famoso vestido vermelho desapareceu na viagem entre o Porto e Berlim. A última vez que foi visto ia muito abraçado a uma garrafa de Moscatel da Quinta do Vallado.
11 agosto 2011
correio das ilhas (46)
Olá, Rita
este é o último postal desta viagem. Já estou em Berlim. Mas não, ainda não cheguei.
Como habitualmente, não me apetece escrever nos dias que se seguem às férias de Verão.
Tu sais hoje para Corfu - mandas-me um postalito?
Beijo, Helena
este é o último postal desta viagem. Já estou em Berlim. Mas não, ainda não cheguei.
Como habitualmente, não me apetece escrever nos dias que se seguem às férias de Verão.
Tu sais hoje para Corfu - mandas-me um postalito?
Beijo, Helena
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correio das ilhas,
viagens
08 agosto 2011
correio das ilhas (45)
Olá, Rita
lembras-te daquela vez que comprei uma balança na IKEA do Porto e a fui devolver porque só podia estar avariada? Pois é, este ano foi o espelho do meu quarto que se avariou. Coitado, tem mais de cem anos, é natural que comece a ver as coisas distorcidas.
(esta gastronomia da saudade, que se atira a mim durante as férias, ainda vai acabar mal)
(ou ela, ou eu)
lembras-te daquela vez que comprei uma balança na IKEA do Porto e a fui devolver porque só podia estar avariada? Pois é, este ano foi o espelho do meu quarto que se avariou. Coitado, tem mais de cem anos, é natural que comece a ver as coisas distorcidas.
(esta gastronomia da saudade, que se atira a mim durante as férias, ainda vai acabar mal)
(ou ela, ou eu)
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correio das ilhas,
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07 agosto 2011
correio das ilhas (44)
Olá, Rita
A chuva limpa o ar, deixa as montanhas à volta de Ponte de Lima com uma nitidez que chega a ser dolorosa de linda: as casas muito bem desenhadas contra as encostas, a filigrana das árvores na crista dos montes, tão exacta que quase se vêem os ninhos.
Passei umas horas na vila, em casa de um amigo, cuscando com ele na vida do Chico Buarque e no novo CD. Sabes que o Chico tem nova paixão? Pois, a interessada, como de costume...
O CD está uma maravilha - um vintage, dizia o meu amigo, e é isso mesmo. E o Chico, pela primeira vez, em vez de cantar sobre a minha vida canta sobre a dele (confesso que foi uma surpresa). Aparece transparente e vulnerável, apaixonado mas sem acreditar. Tenho de rever as minhas opiniões sobre o amor depois dos quarenta - se calhar depois dos sessenta muda outra vez.
A miúda tem graça, embora não corra grandes riscos de ganhar algum prémio Nobel. E embora fique mais bonita de perfil, ou com a cara a três quartos, que de frente. O que, no caso, não faz mal: ouvindo "Essa pequena" imagino que ele só a veja de lado, ou de costas, que se há coisa que lhes falta é o tal ponto comum de que o Saint-Exupéry falava. Ó aqui:
Meu tempo é curto e o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela
Mas, eu sou tão feliz com ela.
Meu dia voa e ela não acorda
Vou até a esquina e ela quer ir pra Flórida
Acho que não sei direito o que é que ela fala
Mas, não canso de contemplá-la.
Pois: contemplá-la de lado, que é como ela fica melhor. Nem ele se cansa, nem nós, que estivemos a saborear o vídeo do dueto "Se eu soubesse" (uma delícia aquelas vozes combinadas!) e mais a entrevista no Jô Soares que é longa, mas vale a pena, sobretudo porque a gente vai rindo com um Jô completamente rendido à moça (e até esqueço a dor de cotovelo) (aqui e aqui).
E depois vem o Chico e pergunta:
Não sei para que
Outra história de amor a essa hora
E volta à solidão, insuportável:
Pois sem você
O tempo é todo meu
Posso até ver o futebol
Ir ao museu, ou não
Passo o domingo olhando o mar
Ondas que vêm
Ondas que vão
Gosto do CD, gosto muito, mas dá-me uma espécie de tristeza por aquele homem concreto - o Chico - que se nos revela sozinho em frente ao mar.
A chuva limpa o ar, deixa as montanhas à volta de Ponte de Lima com uma nitidez que chega a ser dolorosa de linda: as casas muito bem desenhadas contra as encostas, a filigrana das árvores na crista dos montes, tão exacta que quase se vêem os ninhos.
Passei umas horas na vila, em casa de um amigo, cuscando com ele na vida do Chico Buarque e no novo CD. Sabes que o Chico tem nova paixão? Pois, a interessada, como de costume...
O CD está uma maravilha - um vintage, dizia o meu amigo, e é isso mesmo. E o Chico, pela primeira vez, em vez de cantar sobre a minha vida canta sobre a dele (confesso que foi uma surpresa). Aparece transparente e vulnerável, apaixonado mas sem acreditar. Tenho de rever as minhas opiniões sobre o amor depois dos quarenta - se calhar depois dos sessenta muda outra vez.
A miúda tem graça, embora não corra grandes riscos de ganhar algum prémio Nobel. E embora fique mais bonita de perfil, ou com a cara a três quartos, que de frente. O que, no caso, não faz mal: ouvindo "Essa pequena" imagino que ele só a veja de lado, ou de costas, que se há coisa que lhes falta é o tal ponto comum de que o Saint-Exupéry falava. Ó aqui:
Meu tempo é curto e o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela
Mas, eu sou tão feliz com ela.
Meu dia voa e ela não acorda
Vou até a esquina e ela quer ir pra Flórida
Acho que não sei direito o que é que ela fala
Mas, não canso de contemplá-la.
Pois: contemplá-la de lado, que é como ela fica melhor. Nem ele se cansa, nem nós, que estivemos a saborear o vídeo do dueto "Se eu soubesse" (uma delícia aquelas vozes combinadas!) e mais a entrevista no Jô Soares que é longa, mas vale a pena, sobretudo porque a gente vai rindo com um Jô completamente rendido à moça (e até esqueço a dor de cotovelo) (aqui e aqui).
E depois vem o Chico e pergunta:
Não sei para que
Outra história de amor a essa hora
E volta à solidão, insuportável:
Pois sem você
O tempo é todo meu
Posso até ver o futebol
Ir ao museu, ou não
Passo o domingo olhando o mar
Ondas que vêm
Ondas que vão
Gosto do CD, gosto muito, mas dá-me uma espécie de tristeza por aquele homem concreto - o Chico - que se nos revela sozinho em frente ao mar.
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06 agosto 2011
correio das ilhas (43)
Olá, Rita
Este fim-de-semana há festa cá na terra. Ontem adormeci embalada pelas alegres canções de "aquele querido mês de Agosto", taliqual, que os altifalantes fanhosos me faziam chegar em ondas incertas.
Hoje é noite de ranchos. Vou ver, nem que chova. E chove, oh, se chove.
Para a loucura ser completa, só falta mesmo o Augusto Canário a cantar à desgarrada com a Irene de Gaia. Mas melhor que isso, visceralmente melhor, foi uma cena a que assisti na Senhora da Agonia do ano passado: um rapaz a tocar concertina, e um grupo de homens com as hormonas ao rubro a aviar brejeiríssimas quadras, muito aplaudidas pelo público feminino (apesar de um ou outro "ai os malcriados!"). A minha romaria de Viana, já tão apetecida por causa dos Zés-Pereiras ao meio-dia de sábado na praça da República, e por causa da beleza das mulheres orgulhosas, carregadas de ouro, ganhou um novo charme, mais aleatório - sei lá eu onde e quando é que vai dar aos homens para começarem novo chorrilho de brejeirices muito berradas de tintol?
E assim vai a vida. Na próxima quarta-feira regresso a Berlim. Regresso ou vou? Não sei - ando.
Este fim-de-semana há festa cá na terra. Ontem adormeci embalada pelas alegres canções de "aquele querido mês de Agosto", taliqual, que os altifalantes fanhosos me faziam chegar em ondas incertas.
Hoje é noite de ranchos. Vou ver, nem que chova. E chove, oh, se chove.
Para a loucura ser completa, só falta mesmo o Augusto Canário a cantar à desgarrada com a Irene de Gaia. Mas melhor que isso, visceralmente melhor, foi uma cena a que assisti na Senhora da Agonia do ano passado: um rapaz a tocar concertina, e um grupo de homens com as hormonas ao rubro a aviar brejeiríssimas quadras, muito aplaudidas pelo público feminino (apesar de um ou outro "ai os malcriados!"). A minha romaria de Viana, já tão apetecida por causa dos Zés-Pereiras ao meio-dia de sábado na praça da República, e por causa da beleza das mulheres orgulhosas, carregadas de ouro, ganhou um novo charme, mais aleatório - sei lá eu onde e quando é que vai dar aos homens para começarem novo chorrilho de brejeirices muito berradas de tintol?
E assim vai a vida. Na próxima quarta-feira regresso a Berlim. Regresso ou vou? Não sei - ando.
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05 agosto 2011
correio das ilhas (42)
Olá, Rita
ontem estive a almoçar com amigos em Matosinhos. Um homem e duas mulheres. Chegámos ao fim, e quem pagou a conta? O homem.
Já me aconteceu várias vezes, e não sei que me parece.
Para mais agora, em tempo de crise. Prevejo grandes convulsões sociais. Pois, que eu bem sei onde isto pode levar - lembrou-me logo um amigo em San Francisco que era bissexual e quando a bolha dot-com rebentou quase se viu na miséria e teve de se tornar homossexual porque sair com mulheres ficava muito caro.
ontem estive a almoçar com amigos em Matosinhos. Um homem e duas mulheres. Chegámos ao fim, e quem pagou a conta? O homem.
Já me aconteceu várias vezes, e não sei que me parece.
Para mais agora, em tempo de crise. Prevejo grandes convulsões sociais. Pois, que eu bem sei onde isto pode levar - lembrou-me logo um amigo em San Francisco que era bissexual e quando a bolha dot-com rebentou quase se viu na miséria e teve de se tornar homossexual porque sair com mulheres ficava muito caro.
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03 agosto 2011
correio das ilhas (41)
Olá, Rita
fique registado, neste estranho verão de 2011, que no dia 3 de Agosto fui à praia e estava formidável.
Enquanto esperava pela vizinha para lhe dar boleia para a praia (que bom ter uma vizinha por quem esperar para ir para a praia!) vi umas laranjas a espreitar pelas folhas da nespereira. E foi assim que descobri que no meu quintal anda uma laranjeira enrolada com uma nespereira, uma pouca-vergonhice vegetal que nem te digo nem te conto.
fique registado, neste estranho verão de 2011, que no dia 3 de Agosto fui à praia e estava formidável.
Enquanto esperava pela vizinha para lhe dar boleia para a praia (que bom ter uma vizinha por quem esperar para ir para a praia!) vi umas laranjas a espreitar pelas folhas da nespereira. E foi assim que descobri que no meu quintal anda uma laranjeira enrolada com uma nespereira, uma pouca-vergonhice vegetal que nem te digo nem te conto.
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02 agosto 2011
correio das ilhas (40)
Olá, Rita
comprei o Duetos,do Chico Buarque, e ando a babar. Fico bem disposta logo à primeira canção: "Façamos (Vamos Amar)" com Elza Soares. Nós as duas no carro a cantar com a voz muito cheia "façamos!", maravilha. Descobri que canto melhor no carro que no duche. Melhor, diz ela? Queria dizer: menos mal. Mas a Elza não se importa, é boa moça.
E por falar em menos mal: comprei o CD da Luísa Sobral. Acho que não devia pagar IVA, porque quase não tem valor acrescentado: a voz dela, muito soft, sobre músicas que são receitas conhecidas.
Esgotou-se-me o orçamento para estas alegrias. Agora, se vejo a FNAC, fico com vontade de ganir baixinho como os cães que esperam o dono à porta do supermercado.
***
Hoje estive na Livraria Lello, no Porto. Desconfio que desde que os supermercados começaram a vender livros, as livrarias começaram a vender quinquilharia. Que tristeza! Se me deixassem mandar (agarrem-me, já me conhecem!) usava aquele espaço para vender boa literatura portuguesa em línguas estrangeiras. Isso, e guias turísticos também em estrangeiro. Assim como assim, aquela casa está cheia de turistas que obviamente não vão comprar livros portugueses. E esses, os livros portugueses, vendem-se nos supermercados, não é preciso ir ao centro do Porto... (Piadinha, claro: havia lá bons livros que não há nos supermercados. Mas aquele público não os consegue ler.)
comprei o Duetos,do Chico Buarque, e ando a babar. Fico bem disposta logo à primeira canção: "Façamos (Vamos Amar)" com Elza Soares. Nós as duas no carro a cantar com a voz muito cheia "façamos!", maravilha. Descobri que canto melhor no carro que no duche. Melhor, diz ela? Queria dizer: menos mal. Mas a Elza não se importa, é boa moça.
E por falar em menos mal: comprei o CD da Luísa Sobral. Acho que não devia pagar IVA, porque quase não tem valor acrescentado: a voz dela, muito soft, sobre músicas que são receitas conhecidas.
Esgotou-se-me o orçamento para estas alegrias. Agora, se vejo a FNAC, fico com vontade de ganir baixinho como os cães que esperam o dono à porta do supermercado.
***
Hoje estive na Livraria Lello, no Porto. Desconfio que desde que os supermercados começaram a vender livros, as livrarias começaram a vender quinquilharia. Que tristeza! Se me deixassem mandar (agarrem-me, já me conhecem!) usava aquele espaço para vender boa literatura portuguesa em línguas estrangeiras. Isso, e guias turísticos também em estrangeiro. Assim como assim, aquela casa está cheia de turistas que obviamente não vão comprar livros portugueses. E esses, os livros portugueses, vendem-se nos supermercados, não é preciso ir ao centro do Porto... (Piadinha, claro: havia lá bons livros que não há nos supermercados. Mas aquele público não os consegue ler.)
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01 agosto 2011
correio das ilhas (39)
Olá, Rita
As férias aproximam-se do fim. Desde o princípio sabia que iam ser curtas, e não me enganei. Tenho a sensação que os próximos dez dias vão passar ainda mais depressa que os n dias anteriores (nem digo quantos, que ainda me metem um processo por atentado aos bons costumes).
No fim de semana encontrei alguns dos meus amigos mais antigos. Confirma-se: uma das vantagens de envelhecer são esses amigos feitos cada vez mais raiz connosco. Era um encontro de reflexão teológica, e confirma-se também isto: só sei que nada sei. Quase me deu vontade de rir ao pensar no modo como amigos ateus ou agnósticos olham para mim, imaginando que a Fé me dá todas as respostas e de brinde mapas detalhados para o caminho. Ah, isso é que era bom! Corrijo: ah, isso é que era mau!
Em conversa com algumas dessas amigas contei que tinha preparado o tal jantar para amigos em casa da io. Do que eu me fui lembrar! Ficaram logo muito interessadas, e se também fazia o mesmo na casa delas, e se também arrumava casas ao domicílio. Suspeito que encontrei mais um nicho de mercado.
Não está tempo para praia. Vou-me estender na rede, debaixo da figueira, a aviar a resma de livros que me emprestaram para ler estas férias.
As férias aproximam-se do fim. Desde o princípio sabia que iam ser curtas, e não me enganei. Tenho a sensação que os próximos dez dias vão passar ainda mais depressa que os n dias anteriores (nem digo quantos, que ainda me metem um processo por atentado aos bons costumes).
No fim de semana encontrei alguns dos meus amigos mais antigos. Confirma-se: uma das vantagens de envelhecer são esses amigos feitos cada vez mais raiz connosco. Era um encontro de reflexão teológica, e confirma-se também isto: só sei que nada sei. Quase me deu vontade de rir ao pensar no modo como amigos ateus ou agnósticos olham para mim, imaginando que a Fé me dá todas as respostas e de brinde mapas detalhados para o caminho. Ah, isso é que era bom! Corrijo: ah, isso é que era mau!
Em conversa com algumas dessas amigas contei que tinha preparado o tal jantar para amigos em casa da io. Do que eu me fui lembrar! Ficaram logo muito interessadas, e se também fazia o mesmo na casa delas, e se também arrumava casas ao domicílio. Suspeito que encontrei mais um nicho de mercado.
Não está tempo para praia. Vou-me estender na rede, debaixo da figueira, a aviar a resma de livros que me emprestaram para ler estas férias.
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29 julho 2011
correio das ilhas (38)
Olá, Rita
tu pensa-me bem se queres mesmo voltar para Portugal, tu vê-me lá bem se ainda podes dar o dito por não dito no senhorio e no emprego, que isto, desculpa lá que te diga, não é só sol e bom tempo e muitos feriados (ao contrário do que consta na Alemanha) (hihihi) (antes que os mirones que andam a ler estes postais me caiam em cima, ó aqui o contraditório) porque olha o que me aconteceu ontem:
Tudo começou com a io, que costuma ser uma moça precavida e conscienciosa, a convidar-me para vir a casa dela preparar um jantar para alguns amigos. Estás-me a ver isto? A io, que recebe como poucos, e eu, que também recebo como poucos, mas no outro extremo da escala. Ela estaria talvez a sofrer um momento de fragilidade e atracção do abismo, sei lá, a experimentar novas rimas como "comer mal" com "frugal", desconfio. Será caso para lhe sugerir que procure ajuda de um profissional?
Pois comecei a pensar no que faria, eu a 3000 km de distância dos meus livros de cozinha tão prestáveis nestes momentos. Fui ver o que havia no frigorífico, ah, óptimo, muito melancia e muito melão, e ala para a internet, de quem os meus livros de cozinha ultimamente têm cada vez mais ciúmes, e são todos justificados.
Fiz uma listinha simples: melão com presunto, melancia mexicana (com sumo de lima, piri-piri moído e sal grosso), salada de tomate com laranja e menta (de facto, para bem ser, é salada de menta com tomate e laranja), arroz basmati com frango à tailandesa em leite de coco. E fruta para a sobremesa, que eu ao fim de cinco semanas na culinária da saudade ando a precisar de abater algum do valor acrescentado, os outros convivas que me desculpem e tenham paciência.
Agarrei na minha lista de compras minúscula e fui para o Continente do Colombo, convencida de que ali tinha a garantia de encontrar tudo o que queria. Como me enganava. Menta? Que é lá isso? Vai de erva cidreira, e muita sorte. Gengibre, ainda vá, apesar de velhinho e mirrado. Mas folhas de lima, vai no Batalha. Troquei por erva príncipe. Faltava o molho de peixe tailandês. Três quilómetros à frente, encontrei molho de ostras. Ahem, não era bem isso... "Aaaah, molho de peixe? Já tivemos uma caixinha da Knorr", disse a empregada. Da Knorr. Eu não queria fazer bouillabaisse, queria fazer frango tailandês. Mas o molho de peixe, nada. Desisti. Plano B - que não tinha. Cirandando, cheguei à secção da peixaria, onde encontrei um salmão a rir-se para mim. E que tal peixe cru à moda do Tahiti? Ózanos que não como disso, e é tão bom: marina-se o peixe em sumo de lima, e rodelas de pepino em sal. Escoa-se o sumo de lima ao peixe e a água ao pepino, mistura-se, junta-se leite de coco, sal e pimenta, e alguma cenoura raspada para dar cor. Aimêdês, só de pensar enche-se-me a boca de água. Já na fila para ser atendida, lembrei-me de telefonar à ASAE, que me atendeu um bocado aflita, "agora não posso, diz lá", "desculpa, era só para saber se tu compravas salmão ou atum no Continente para comer cru", "aaah, cru?!!!!", "pronto, está bem, plano C". Também não tinha. Já andava por lá há mais de meia hora, arrastando o meu triste cesto com uma embalagem de erva cidreira e mainada, quando de repente me deparei com um frasco de molho teriyaki, a minha arma secreta nos dias em que não sei o que cozinhar. Atão, vá. Uns bifinhos de coiso qualquer, acompanhados por uma salada de beterrabas e pimentos grelhados. Deixa cá ver os ingredientes: beterrabas cozidas, um frasco de pimentos grelhados, cebolinhas, aneto congelado, limão biológico para lhe raspar a casca. Comecei pelo aneto congelado, mas ao fim de dez quilómetros só encontrei salsa e cebola. Então e o mangericão, o cebolinho, o "cinco ervas" para fazer aquele molho de Frankfurt? Por sorte, dois quilómetros à frente encontrei aneto fresco. Até parecia dia de Natal, juro-te! Cebolinhas também não havia, mas encontrei cebolinho e échalote, o que, em havendo criatividade e boa-vontade, dá para desenrascar.
Voltei para casa cansada e chateada. Comecei a preparar as coisas. Dei-me conta de que a melancia estava a caminho de Schnaps (sou uma esquisita). Fui a outro supermercado comprar mais melancia - e fui de carro, tu pensa bem no que vais fazer! que eu ao fim de cinco semanas já vou de carro a um supermercado que ficava mais perto que o meu berlinense aquele ali logo ao virar da esquina! - e pelo caminho comecei a ter pena dos convivas que iam ficar sem doce à sobremesa só por causa do meu valor acrescentado. De modo que procurei queijo ricotta para fazer aquele bolo corso sempre-a-aviar, um ricotta, quatro ovos, açúcar, aguardente, raspa de limão, e não encontrei. Para complicar, os limões não têm qualquer indicação sobre os produtos usados na casca.
Em suma: desde a minha primeira ida ao supermercado em San Francisco (onde fiquei horas a tentar perceber aquelas listas de ingredientes que tinham metros de comprimento, e onde ainda hoje estaria se no entretanto não tivesse descoberto o Trader Joe's) que não havia memória de uma passagem tão frustrante pelo supermercado. É bem verdade que a partir de 1989 eu comecei a evoluir numa direcção e o meu país noutra, tu pensa-me bem se queres mesmo voltar para um país que já não é como tu eras quando saíste em peregrinação e diáspora.
***
E depois do jantar fomos aos fados, um mundo que me é ainda mais estranho que este meu país de 2011, e tive a sorte de ser iniciada por dois garbosos connaisseurs, de modo que tudo está bem quando acaba bem.
PS. Se fizeres alguma receita de gaspacho de melancia tirada da internet, cuidado. À que fiz faltava alguma coisa. Talvez menta. Menta?! *suspiro* lá vamos nós outra vez...
tu pensa-me bem se queres mesmo voltar para Portugal, tu vê-me lá bem se ainda podes dar o dito por não dito no senhorio e no emprego, que isto, desculpa lá que te diga, não é só sol e bom tempo e muitos feriados (ao contrário do que consta na Alemanha) (hihihi) (antes que os mirones que andam a ler estes postais me caiam em cima, ó aqui o contraditório) porque olha o que me aconteceu ontem:
Tudo começou com a io, que costuma ser uma moça precavida e conscienciosa, a convidar-me para vir a casa dela preparar um jantar para alguns amigos. Estás-me a ver isto? A io, que recebe como poucos, e eu, que também recebo como poucos, mas no outro extremo da escala. Ela estaria talvez a sofrer um momento de fragilidade e atracção do abismo, sei lá, a experimentar novas rimas como "comer mal" com "frugal", desconfio. Será caso para lhe sugerir que procure ajuda de um profissional?
Pois comecei a pensar no que faria, eu a 3000 km de distância dos meus livros de cozinha tão prestáveis nestes momentos. Fui ver o que havia no frigorífico, ah, óptimo, muito melancia e muito melão, e ala para a internet, de quem os meus livros de cozinha ultimamente têm cada vez mais ciúmes, e são todos justificados.
Fiz uma listinha simples: melão com presunto, melancia mexicana (com sumo de lima, piri-piri moído e sal grosso), salada de tomate com laranja e menta (de facto, para bem ser, é salada de menta com tomate e laranja), arroz basmati com frango à tailandesa em leite de coco. E fruta para a sobremesa, que eu ao fim de cinco semanas na culinária da saudade ando a precisar de abater algum do valor acrescentado, os outros convivas que me desculpem e tenham paciência.
Agarrei na minha lista de compras minúscula e fui para o Continente do Colombo, convencida de que ali tinha a garantia de encontrar tudo o que queria. Como me enganava. Menta? Que é lá isso? Vai de erva cidreira, e muita sorte. Gengibre, ainda vá, apesar de velhinho e mirrado. Mas folhas de lima, vai no Batalha. Troquei por erva príncipe. Faltava o molho de peixe tailandês. Três quilómetros à frente, encontrei molho de ostras. Ahem, não era bem isso... "Aaaah, molho de peixe? Já tivemos uma caixinha da Knorr", disse a empregada. Da Knorr. Eu não queria fazer bouillabaisse, queria fazer frango tailandês. Mas o molho de peixe, nada. Desisti. Plano B - que não tinha. Cirandando, cheguei à secção da peixaria, onde encontrei um salmão a rir-se para mim. E que tal peixe cru à moda do Tahiti? Ózanos que não como disso, e é tão bom: marina-se o peixe em sumo de lima, e rodelas de pepino em sal. Escoa-se o sumo de lima ao peixe e a água ao pepino, mistura-se, junta-se leite de coco, sal e pimenta, e alguma cenoura raspada para dar cor. Aimêdês, só de pensar enche-se-me a boca de água. Já na fila para ser atendida, lembrei-me de telefonar à ASAE, que me atendeu um bocado aflita, "agora não posso, diz lá", "desculpa, era só para saber se tu compravas salmão ou atum no Continente para comer cru", "aaah, cru?!!!!", "pronto, está bem, plano C". Também não tinha. Já andava por lá há mais de meia hora, arrastando o meu triste cesto com uma embalagem de erva cidreira e mainada, quando de repente me deparei com um frasco de molho teriyaki, a minha arma secreta nos dias em que não sei o que cozinhar. Atão, vá. Uns bifinhos de coiso qualquer, acompanhados por uma salada de beterrabas e pimentos grelhados. Deixa cá ver os ingredientes: beterrabas cozidas, um frasco de pimentos grelhados, cebolinhas, aneto congelado, limão biológico para lhe raspar a casca. Comecei pelo aneto congelado, mas ao fim de dez quilómetros só encontrei salsa e cebola. Então e o mangericão, o cebolinho, o "cinco ervas" para fazer aquele molho de Frankfurt? Por sorte, dois quilómetros à frente encontrei aneto fresco. Até parecia dia de Natal, juro-te! Cebolinhas também não havia, mas encontrei cebolinho e échalote, o que, em havendo criatividade e boa-vontade, dá para desenrascar.
Voltei para casa cansada e chateada. Comecei a preparar as coisas. Dei-me conta de que a melancia estava a caminho de Schnaps (sou uma esquisita). Fui a outro supermercado comprar mais melancia - e fui de carro, tu pensa bem no que vais fazer! que eu ao fim de cinco semanas já vou de carro a um supermercado que ficava mais perto que o meu berlinense aquele ali logo ao virar da esquina! - e pelo caminho comecei a ter pena dos convivas que iam ficar sem doce à sobremesa só por causa do meu valor acrescentado. De modo que procurei queijo ricotta para fazer aquele bolo corso sempre-a-aviar, um ricotta, quatro ovos, açúcar, aguardente, raspa de limão, e não encontrei. Para complicar, os limões não têm qualquer indicação sobre os produtos usados na casca.
Em suma: desde a minha primeira ida ao supermercado em San Francisco (onde fiquei horas a tentar perceber aquelas listas de ingredientes que tinham metros de comprimento, e onde ainda hoje estaria se no entretanto não tivesse descoberto o Trader Joe's) que não havia memória de uma passagem tão frustrante pelo supermercado. É bem verdade que a partir de 1989 eu comecei a evoluir numa direcção e o meu país noutra, tu pensa-me bem se queres mesmo voltar para um país que já não é como tu eras quando saíste em peregrinação e diáspora.
***
E depois do jantar fomos aos fados, um mundo que me é ainda mais estranho que este meu país de 2011, e tive a sorte de ser iniciada por dois garbosos connaisseurs, de modo que tudo está bem quando acaba bem.
PS. Se fizeres alguma receita de gaspacho de melancia tirada da internet, cuidado. À que fiz faltava alguma coisa. Talvez menta. Menta?! *suspiro* lá vamos nós outra vez...
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28 julho 2011
correio das ilhas (37)
Olá, Rita
ontem andei a passear com uma amiga sob o magnífico céu estrelado da planície alentejana. Até me perguntei o que fui fazer para Chaco em 2009, se as estrelas afinal vêm ter comigo aqui mesmo.
(A malandra da galinha da vizinha, aquela galinha gorda indecente, é o que é...)
Vi várias estrelas cadentes, lindas, mas nunca a tempo de formular um pedido. É que tínhamos muito que conversar, e entre o acabar a frase, fazer oh, e pensar no que queria, já ela tinha desaparecido. Ao fim de seis ou sete, desisti de contar com elas. Vou ter de me desenrascar sozinha.
ontem andei a passear com uma amiga sob o magnífico céu estrelado da planície alentejana. Até me perguntei o que fui fazer para Chaco em 2009, se as estrelas afinal vêm ter comigo aqui mesmo.
(A malandra da galinha da vizinha, aquela galinha gorda indecente, é o que é...)
Vi várias estrelas cadentes, lindas, mas nunca a tempo de formular um pedido. É que tínhamos muito que conversar, e entre o acabar a frase, fazer oh, e pensar no que queria, já ela tinha desaparecido. Ao fim de seis ou sete, desisti de contar com elas. Vou ter de me desenrascar sozinha.
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27 julho 2011
correio das ilhas (36)
Olá, Rita
passo os dias numa herdade perto de Évora e as noites numa perto de Estremoz.
Em Évora, não saio do tanque. Um tanque de pedra, lindo-lindo, no meio de montes de antiquíssimos sobreiros. Almoçamos à sombra de uma nespereira que cobre todo o terraço junto ao tanque. E que belos petiscos! Já pedi casamento à cozinheira, mas ela ficou de pensar. Terá talvez desconfiado que seria um casamento por interesse. E eu a sonhar, lúbrica, com as nossas noites loucas a preparar massa areada.
Em Estremoz, os meus filhos dormem nos quartos que foram em tempos uma capela. Abençoados.
A mim, deram-me um belíssimo, cheio de móveis tradicionais alentejanos azuis. É uma casa com alma, com inúmeras salas, e mais quartos e recantos, fotografias que contam histórias de outros tempos, vestígios de amigos e da própria História. E pilhas de livros por todos os lados. Pomo-nos à conversa, e toca de ir buscar um livro para ver isto, confirmar aquilo. Enquanto que a internet, essa, vem a passo de caracol cansado. Entre a minha Évora e o meu Estremoz devem andar uns cinquenta anos de diferença, pelo menos.
Depois do jantar saio para passear sob o céu estrelado. Um exagero de nítida beleza. À minha frente estende-se a planície até Portalegre, iluminada aqui e além. A minha amiga diz "um belo sítio para vir varrer as teias de aranha". E é verdade.
(Se eu fosse a eles, cobrava bilhetes para sessões de "terapia da alma" - umas cadeiritas confortáveis, silêncio absoluto, cinco euros cada hora) ("Helena Araújo - inventam-se nichos de mercado onde mais ninguém se lembraria, Lda.")
passo os dias numa herdade perto de Évora e as noites numa perto de Estremoz.
Em Évora, não saio do tanque. Um tanque de pedra, lindo-lindo, no meio de montes de antiquíssimos sobreiros. Almoçamos à sombra de uma nespereira que cobre todo o terraço junto ao tanque. E que belos petiscos! Já pedi casamento à cozinheira, mas ela ficou de pensar. Terá talvez desconfiado que seria um casamento por interesse. E eu a sonhar, lúbrica, com as nossas noites loucas a preparar massa areada.
Em Estremoz, os meus filhos dormem nos quartos que foram em tempos uma capela. Abençoados.
A mim, deram-me um belíssimo, cheio de móveis tradicionais alentejanos azuis. É uma casa com alma, com inúmeras salas, e mais quartos e recantos, fotografias que contam histórias de outros tempos, vestígios de amigos e da própria História. E pilhas de livros por todos os lados. Pomo-nos à conversa, e toca de ir buscar um livro para ver isto, confirmar aquilo. Enquanto que a internet, essa, vem a passo de caracol cansado. Entre a minha Évora e o meu Estremoz devem andar uns cinquenta anos de diferença, pelo menos.
Depois do jantar saio para passear sob o céu estrelado. Um exagero de nítida beleza. À minha frente estende-se a planície até Portalegre, iluminada aqui e além. A minha amiga diz "um belo sítio para vir varrer as teias de aranha". E é verdade.
(Se eu fosse a eles, cobrava bilhetes para sessões de "terapia da alma" - umas cadeiritas confortáveis, silêncio absoluto, cinco euros cada hora) ("Helena Araújo - inventam-se nichos de mercado onde mais ninguém se lembraria, Lda.")
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26 julho 2011
25 julho 2011
correio das ilhas (34)
Olá, Rita
ontem desafiaram-me: se seria homem para escrever no blogue o que estava a dizer depois do terceiro copinho da festa. Beeem, não me provoquem! Era mais ou menos isto: se o Bin Laden tivesse sido enterrado, a esta hora estava com tamanha dor de cotovelo e a dar tantas voltas na tumba que ainda acordava os mortos do lado.
E mais não digo, porque as vítimas do massacre da Noruega não deixam. Excepto isto: é interessante ver os cristãos a andar nos mocassins dos muçulmanos. Sabes?, aquela coisa de "cristianismo não é isto" e "o Islão não é isto". Talvez esta tragédia horrível acabe por ter um pequeno efeito positivo no diálogo entre as culturas.
ontem desafiaram-me: se seria homem para escrever no blogue o que estava a dizer depois do terceiro copinho da festa. Beeem, não me provoquem! Era mais ou menos isto: se o Bin Laden tivesse sido enterrado, a esta hora estava com tamanha dor de cotovelo e a dar tantas voltas na tumba que ainda acordava os mortos do lado.
E mais não digo, porque as vítimas do massacre da Noruega não deixam. Excepto isto: é interessante ver os cristãos a andar nos mocassins dos muçulmanos. Sabes?, aquela coisa de "cristianismo não é isto" e "o Islão não é isto". Talvez esta tragédia horrível acabe por ter um pequeno efeito positivo no diálogo entre as culturas.
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24 julho 2011
correio das ilhas (33)
Olá, Rita
esta semana estive nas edições tinta-da-china, e tive mais um daqueles meus momentos ovo de Colombo: como é que isto não me ocorreu antes?! é evidente que quem faz livros tão bons e tão bonitos só podia ser gente muito especial. Em menos de três gargalhadas já estavam na minha gaveta "gracias a la vida".
(Alguns dos mirones que andam a ler estes postaizitos vão agora, provavelmente, comentar: "olha aqui a Helena a dar graxa à patroa!" - coitados, não sabem nada. Nada de nada. Até dava vontade de ir lá com eles enfiar-lhes a evidência pelos olhos adentro. Aliás -- saia agora um pequeno tratado teológico à minha moda --, aquela frase "felizes os que acreditam sem ver" é um disparate. Felizes os que viram, porque quem não viu não sabe o que está a perder - por muito que acredite. E quem viu, ...vá, calateboca, que agora ia dizer coisas que até a mim pareceriam graxa!)
esta semana estive nas edições tinta-da-china, e tive mais um daqueles meus momentos ovo de Colombo: como é que isto não me ocorreu antes?! é evidente que quem faz livros tão bons e tão bonitos só podia ser gente muito especial. Em menos de três gargalhadas já estavam na minha gaveta "gracias a la vida".
(Alguns dos mirones que andam a ler estes postaizitos vão agora, provavelmente, comentar: "olha aqui a Helena a dar graxa à patroa!" - coitados, não sabem nada. Nada de nada. Até dava vontade de ir lá com eles enfiar-lhes a evidência pelos olhos adentro. Aliás -- saia agora um pequeno tratado teológico à minha moda --, aquela frase "felizes os que acreditam sem ver" é um disparate. Felizes os que viram, porque quem não viu não sabe o que está a perder - por muito que acredite. E quem viu, ...vá, calateboca, que agora ia dizer coisas que até a mim pareceriam graxa!)
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correio das ilhas (32)
Olá, Rita
a Amy Winehouse. Uma miúda. Via-a trucidada nas capas das revistas, e tinha sempre a certeza que ela conseguiria dar a volta por cima, milhões de quilómetros por cima daquela súcia.
Sinto-me triste por ela, pelos meus filhos que a sabiam de cor, e pelo Lutz, que há três anos viu o seu concerto em Lisboa e escreveu um post inesquecível. Este, que transcrevo integalmente:
Amy em Lisboa
A rapariga não devia andar de saltos altos. Não sabe. Talvez sabe quando está sóbria, embora duvido. Há mulheres que andam de saltos altos a vida toda, sem jamais o aprender: nunca deixam de dar a noção ao observador que estão a balançar num equilíbrio precário. Aqui não é só a noção, é o caso, mesmo. Esta rapariga franzina de cabeleira enorme e com estas pernas magras não se mexe muito seguro no Palco do Mundo.
Vê-se que hoje também não se entende com o equipamento. O microfone está alto de mais, não, agora está demasiado baixo. Solta-o, quer repô-lo, mas então a maldita coisa não quer voltar a prender no pé. A guitarra - enfia com dificuldade o cinto da guitarra no ombro - porquê é que a peça faz nenhum som? Ah, não está ligada à PA. Ora, vem um rapaz e tenta pôr o cabo. Quando consegue, já é tarde. Paciência.
É verdade que também a voz não está grande coisa hoje, para isso pode-se pedir desculpa. O público entende. O que vale é que os rapazes da banda são bons profissionais, aguentam as confusões todas.
Está sempre a mexer no vestido. Parece que está desconfortável, embora o vestido está largo, até muito largo no decote para o peito que tem. Puxa a bainha da saia para cima, já pela quarta vez. Ah, está a coçar-se! Entre as pernas. Também mexe no decote, outra vez. O que é que ela tirou de lá? Algo de comer? Será que vai cantar de boca cheia? Essa mancha é chocolate? Não, uma tatuagem. Talvez não vi bem. Em todo o caso, há coisas que ainda continuam enfiados no decote, como aquele lenço preto que está meio a sair acima do peito esquerdo. Tudo isso é um pouco obsceno, um pouco indecente, mas não, não é para provocar, não é para seduzir. Não é mesmo calculado, muito pelo contrário. Por outro lado, aquilo não a parece embaraçar.
Entretanto vai-se na quarta canção. Depois um cover: A Message to You, Rudy, dos Specials. Há muito que já o não ouvi. Tem um belo groove: ideal para continuar no fundo enquanto se apresenta a banda. Amy começa pelo saxofonista, o músico mais a direita. - «ta-ta-ta-ta ta-taaa - A Message to You, Rudy» - A canção acabou. Esqueceu-se de apresentar os outros. Não faz mal.
Agora acocora-se atrás de uma coluna do palco. O que está lá a fazer? Xixi? Não, reaparece com um copo de vinho. Parece Fanta, o que há no copo. Ainda tropece mesmo, os membros da banda ajudam-na a levantar-se. No fim, pede desculpas, diz que devia ter cancelado mas que adorou ter estado aqui, apesar de ter uma «bad voice» hoje. Já o disse antes. Explica que tem de acabar já, não há mais tempo, porque começou atrasada. Soa como achasse que era bem feito assim, o castigo justo. Para ela. E para o público? Mas que adorou. E ainda vai tocar o Lenny Kravitz.
Um desastre de concerto. Curto, caótico, sem voz, sem garra. Mas o público perdoa. E eu também. Ela é destes raros artistas que mesmo no fracasso, no desleixo imperdoável aos mortais, ainda nos deixam algo que é dos deuses. Sou novo de mais para ter visto a Janis, o Jimi Hendrix, o Jim Morrison, calhou que nunca vi o Kurt Cobain. Vi a Amy Winehouse. Ela tem 24. Vamos ver se se safa. Não aposto alto. Mas nem todos que os deuses amam têm de morrer cedo. Talvez daqui a trinta anos poderá dizer o que Jimmy Page disse: «Sabia que a nossa música iria durar, mas não pensava que eu ia durar. Primeiro achei que estaria morto aos trinta, depois aos quarenta, entretanto tenho cinquenta e cinco e ainda ando por aqui.»
a Amy Winehouse. Uma miúda. Via-a trucidada nas capas das revistas, e tinha sempre a certeza que ela conseguiria dar a volta por cima, milhões de quilómetros por cima daquela súcia.
Sinto-me triste por ela, pelos meus filhos que a sabiam de cor, e pelo Lutz, que há três anos viu o seu concerto em Lisboa e escreveu um post inesquecível. Este, que transcrevo integalmente:
Amy em Lisboa
A rapariga não devia andar de saltos altos. Não sabe. Talvez sabe quando está sóbria, embora duvido. Há mulheres que andam de saltos altos a vida toda, sem jamais o aprender: nunca deixam de dar a noção ao observador que estão a balançar num equilíbrio precário. Aqui não é só a noção, é o caso, mesmo. Esta rapariga franzina de cabeleira enorme e com estas pernas magras não se mexe muito seguro no Palco do Mundo.
Vê-se que hoje também não se entende com o equipamento. O microfone está alto de mais, não, agora está demasiado baixo. Solta-o, quer repô-lo, mas então a maldita coisa não quer voltar a prender no pé. A guitarra - enfia com dificuldade o cinto da guitarra no ombro - porquê é que a peça faz nenhum som? Ah, não está ligada à PA. Ora, vem um rapaz e tenta pôr o cabo. Quando consegue, já é tarde. Paciência.
É verdade que também a voz não está grande coisa hoje, para isso pode-se pedir desculpa. O público entende. O que vale é que os rapazes da banda são bons profissionais, aguentam as confusões todas.
Está sempre a mexer no vestido. Parece que está desconfortável, embora o vestido está largo, até muito largo no decote para o peito que tem. Puxa a bainha da saia para cima, já pela quarta vez. Ah, está a coçar-se! Entre as pernas. Também mexe no decote, outra vez. O que é que ela tirou de lá? Algo de comer? Será que vai cantar de boca cheia? Essa mancha é chocolate? Não, uma tatuagem. Talvez não vi bem. Em todo o caso, há coisas que ainda continuam enfiados no decote, como aquele lenço preto que está meio a sair acima do peito esquerdo. Tudo isso é um pouco obsceno, um pouco indecente, mas não, não é para provocar, não é para seduzir. Não é mesmo calculado, muito pelo contrário. Por outro lado, aquilo não a parece embaraçar.
Entretanto vai-se na quarta canção. Depois um cover: A Message to You, Rudy, dos Specials. Há muito que já o não ouvi. Tem um belo groove: ideal para continuar no fundo enquanto se apresenta a banda. Amy começa pelo saxofonista, o músico mais a direita. - «ta-ta-ta-ta ta-taaa - A Message to You, Rudy» - A canção acabou. Esqueceu-se de apresentar os outros. Não faz mal.
Agora acocora-se atrás de uma coluna do palco. O que está lá a fazer? Xixi? Não, reaparece com um copo de vinho. Parece Fanta, o que há no copo. Ainda tropece mesmo, os membros da banda ajudam-na a levantar-se. No fim, pede desculpas, diz que devia ter cancelado mas que adorou ter estado aqui, apesar de ter uma «bad voice» hoje. Já o disse antes. Explica que tem de acabar já, não há mais tempo, porque começou atrasada. Soa como achasse que era bem feito assim, o castigo justo. Para ela. E para o público? Mas que adorou. E ainda vai tocar o Lenny Kravitz.
Um desastre de concerto. Curto, caótico, sem voz, sem garra. Mas o público perdoa. E eu também. Ela é destes raros artistas que mesmo no fracasso, no desleixo imperdoável aos mortais, ainda nos deixam algo que é dos deuses. Sou novo de mais para ter visto a Janis, o Jimi Hendrix, o Jim Morrison, calhou que nunca vi o Kurt Cobain. Vi a Amy Winehouse. Ela tem 24. Vamos ver se se safa. Não aposto alto. Mas nem todos que os deuses amam têm de morrer cedo. Talvez daqui a trinta anos poderá dizer o que Jimmy Page disse: «Sabia que a nossa música iria durar, mas não pensava que eu ia durar. Primeiro achei que estaria morto aos trinta, depois aos quarenta, entretanto tenho cinquenta e cinco e ainda ando por aqui.»
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23 julho 2011
correio das ilhas (31)
Olá, Rita
as férias do Joachim estão a terminar. No domingo lá volta ele para a vida real. Eu sigo com os miúdos para o Alentejo (eles tem um cão em Estremoz, e outras amizades caninas em Évora, pelo que o Alentejo é-lhes sinónimo de aventuras mil, e um vê-se-te-avias de festinhas e muito amor para dar). Na quinta-feira é a vez da Christina regressar. O Matthias e eu ficamos ainda uns dias - primeiro perto de Coimbra (mais amigos! isto é cá um stress...) e depois na Casa do Padeiro, para dar uma nova oportunidade à praia e ao meu triângulo das Bermudas.
Para trás ficam três semanas à nossa maneira de férias portuguesas, com família e amigos, muitos bons encontros e boas conversas. Não é que se descanse muito, mas não é bem para isso que venho a Portugal (o Joachim tem outra opinião, e isto seria tema não para um post mas para um tratado dos casamentos interculturais, que começaria com um conselho às jovens portuguesas: "não se casem com estrangeiros!" - que seria depois traduzido para alemão, com um conselho aos jovens de lá: "não se casem com portuguesas, porque elas nas férias fazem um rally Portugal que vos deixa doidos"). Adiante.
Fizemos de novo aquele encontro anual da família e dos amigos que conhecemos desde que nascemos, os filhos dos amigos dos nossos pais. Estas festas deixam-me de coração cheio, e agradavelmente surpreendida: que estranha matéria é a destas amizades que nos predispõe a gostar dessas pessoas que passamos anos sem ver, e dos companheiros que escolheram, e dos seus filhos? Se o que nos une são momentos que, de tão antigos, já esquecemos, de onde nos vem esta confiança e esta vontade de partilhar pontes?
E agora com licencinha e adeuzinho, que temos muito que passear.
as férias do Joachim estão a terminar. No domingo lá volta ele para a vida real. Eu sigo com os miúdos para o Alentejo (eles tem um cão em Estremoz, e outras amizades caninas em Évora, pelo que o Alentejo é-lhes sinónimo de aventuras mil, e um vê-se-te-avias de festinhas e muito amor para dar). Na quinta-feira é a vez da Christina regressar. O Matthias e eu ficamos ainda uns dias - primeiro perto de Coimbra (mais amigos! isto é cá um stress...) e depois na Casa do Padeiro, para dar uma nova oportunidade à praia e ao meu triângulo das Bermudas.
Para trás ficam três semanas à nossa maneira de férias portuguesas, com família e amigos, muitos bons encontros e boas conversas. Não é que se descanse muito, mas não é bem para isso que venho a Portugal (o Joachim tem outra opinião, e isto seria tema não para um post mas para um tratado dos casamentos interculturais, que começaria com um conselho às jovens portuguesas: "não se casem com estrangeiros!" - que seria depois traduzido para alemão, com um conselho aos jovens de lá: "não se casem com portuguesas, porque elas nas férias fazem um rally Portugal que vos deixa doidos"). Adiante.
Fizemos de novo aquele encontro anual da família e dos amigos que conhecemos desde que nascemos, os filhos dos amigos dos nossos pais. Estas festas deixam-me de coração cheio, e agradavelmente surpreendida: que estranha matéria é a destas amizades que nos predispõe a gostar dessas pessoas que passamos anos sem ver, e dos companheiros que escolheram, e dos seus filhos? Se o que nos une são momentos que, de tão antigos, já esquecemos, de onde nos vem esta confiança e esta vontade de partilhar pontes?
E agora com licencinha e adeuzinho, que temos muito que passear.
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correio das ilhas (30)
Olá, Rita
ontem tive o meu momento Marilyn Monroe: só para que saibas que o respiradouro do metro no largo do Camões funciona.
A vantagem de acontecer uma coisa destas quando se tem muito mais do que vinte anos é que uma pessoa atravessa a rua a rir tanto como os condutores parados no semáforo, porque de facto a situação é hilariante. E pronto.
ontem tive o meu momento Marilyn Monroe: só para que saibas que o respiradouro do metro no largo do Camões funciona.
A vantagem de acontecer uma coisa destas quando se tem muito mais do que vinte anos é que uma pessoa atravessa a rua a rir tanto como os condutores parados no semáforo, porque de facto a situação é hilariante. E pronto.
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20 julho 2011
correio das ilhas (29)
Olá, Rita
o pintor já anda nas uvas quilhäo-de-galo. Talvez ainda as consiga provar maduras antes de regressar a Berlim. Aqui do fundo do quintal vejo as árvores de fruto, dezenas delas (e o que custa a poda, e a limpeza do terreno?!) mas nenhuma dá fruto quando eu cá estou. Triste vida.
E ainda há quem se atreva a insinuar que eu tenho uma costela alemä...
o pintor já anda nas uvas quilhäo-de-galo. Talvez ainda as consiga provar maduras antes de regressar a Berlim. Aqui do fundo do quintal vejo as árvores de fruto, dezenas delas (e o que custa a poda, e a limpeza do terreno?!) mas nenhuma dá fruto quando eu cá estou. Triste vida.
E ainda há quem se atreva a insinuar que eu tenho uma costela alemä...
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correio das ilhas (28)
Olá, Rita
na segunda-feira passada estive pela primeira vez na Casa da Música, para ver o concerto da Maria Rita.
Bela voz - e esplêndida fêmea, no melhor sentido da expressão
E que dizer da voz dela quando falava, aquela sua maneira simples de comunicar, aquele registo quente e um pouco grave? Uma delícia.
(E mais isto, que é apenas um detalhe, mas impressionou-me muito: o modo como ela dançava e saltava e andava até em marcha atrás sobre aqueles sapatos de saltos vertiginosos. Uma grande artista!...)
na segunda-feira passada estive pela primeira vez na Casa da Música, para ver o concerto da Maria Rita.
Bela voz - e esplêndida fêmea, no melhor sentido da expressão
E que dizer da voz dela quando falava, aquela sua maneira simples de comunicar, aquele registo quente e um pouco grave? Uma delícia.
(E mais isto, que é apenas um detalhe, mas impressionou-me muito: o modo como ela dançava e saltava e andava até em marcha atrás sobre aqueles sapatos de saltos vertiginosos. Uma grande artista!...)
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correio das ilhas (27)
Olá, Rita
O imperador morreu, viva o imperador?
Fritz the Emperor, o pintainho que pelos vistos faria hoje uma semana, morreu ontem. A vizinha Matilde adivinhou: que piava muito, que andava numa aflicäo... viu-o a abrir as asas, diz ela, e soube logo que ia morrer. E os outros parece que väo pelo mesmo caminho. Ai!
Em desespero de causa, o Matthias quer dar um nome novo à Frida. Que o que os mata é o nome, diz ele.
A Matilde diz que näo, que o problema é o frio. Assim pequeninos, deviam estar debaixo de uma lämpada que os mantenha quentes.
Da próxima vez, já sabemos. Em vez de comprarmos aqueles novelinhos amorosos, compramos os mais espigados, tipo adolescentes feiosos, mas resistentes.
Mais uma achega à teoria dos amores que matam: näo é muito boa ideia quando o coracäo se orienta apenas pela estética.
O imperador morreu, viva o imperador?
Fritz the Emperor, o pintainho que pelos vistos faria hoje uma semana, morreu ontem. A vizinha Matilde adivinhou: que piava muito, que andava numa aflicäo... viu-o a abrir as asas, diz ela, e soube logo que ia morrer. E os outros parece que väo pelo mesmo caminho. Ai!
Em desespero de causa, o Matthias quer dar um nome novo à Frida. Que o que os mata é o nome, diz ele.
A Matilde diz que näo, que o problema é o frio. Assim pequeninos, deviam estar debaixo de uma lämpada que os mantenha quentes.
Da próxima vez, já sabemos. Em vez de comprarmos aqueles novelinhos amorosos, compramos os mais espigados, tipo adolescentes feiosos, mas resistentes.
Mais uma achega à teoria dos amores que matam: näo é muito boa ideia quando o coracäo se orienta apenas pela estética.
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correio das ilhas (26)
Olá, Rita
espero que o clima näo tenha a menor importancia na tua decisäo de vir para Portugal. É que os alemäes da troika, ao que parece, trouxeram o pacote completo para aproximar o nosso país do standard da Europa central. Näo é que eu entenda a lógica económica e social subjacente às medidas, e muito menos a vantagem de terem trazido para cá o veräo alemäo. Mas a verdade é que näo me lembro de um Julho assim chuvoso e ventoso. Näo me estou a queixar, claro. Se é preciso passar também por isto para endireitar o país, vamos lá! ;-)
Hoje amanheceu com sol, e por isso adeuzinho, temos de nos despachar para a praia enquanto dura. Estou a trabalhar arduamente para anular aquela mancha vermelha em V no meu decote, aquela que apanhei no primeiro dia de praia, quando adormeci ao sol com o fato de banho de bisavó alemä. E lá vou eu.
espero que o clima näo tenha a menor importancia na tua decisäo de vir para Portugal. É que os alemäes da troika, ao que parece, trouxeram o pacote completo para aproximar o nosso país do standard da Europa central. Näo é que eu entenda a lógica económica e social subjacente às medidas, e muito menos a vantagem de terem trazido para cá o veräo alemäo. Mas a verdade é que näo me lembro de um Julho assim chuvoso e ventoso. Näo me estou a queixar, claro. Se é preciso passar também por isto para endireitar o país, vamos lá! ;-)
Hoje amanheceu com sol, e por isso adeuzinho, temos de nos despachar para a praia enquanto dura. Estou a trabalhar arduamente para anular aquela mancha vermelha em V no meu decote, aquela que apanhei no primeiro dia de praia, quando adormeci ao sol com o fato de banho de bisavó alemä. E lá vou eu.
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correio das ilhas (25)
Olá, Rita
há muitos anos, ainda antes de tu nasceres, havia uma série que se chamava "viver no campo". As cenas do telefone eram muito divertidas, porque para falar com o mundo o homem tinha de subir ao poste da linha telefónica.
Penso nisso sempre que agarro no portátil e vou para o fundo do quintal apanhar a internet da vizinha.
há muitos anos, ainda antes de tu nasceres, havia uma série que se chamava "viver no campo". As cenas do telefone eram muito divertidas, porque para falar com o mundo o homem tinha de subir ao poste da linha telefónica.
Penso nisso sempre que agarro no portátil e vou para o fundo do quintal apanhar a internet da vizinha.
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16 julho 2011
correio das ilhas (24)
Olá, Rita
já lá vai o tempo em que eu ficava contente por comprar um polo Lacoste por 5 euros. Aliás, agora estou mais para exigir que me paguem se é para eu fazer publicidade a marcas, e quase morro de embaraço empático quando vejo pessoas brandindo enormes D&G ou LV em uivos de falsete. Por isso - e era aqui que queria chegar - só vou à área dos ciganos na feira de Barcelos para lhes ouvir a música. Belas cantorias. Depois sigo para o quarteirão dos lavradores, e naquelas mulheres de lenço na cabeça, fio de ouro ao pescoço e sulcos fundos no rosto retomo o ambiente da infância na aldeia da avó, lembro o cesto que ela arranjava para a feira de São Roque aos sábados: forrado a panos de linho feitos à mão por alguma antepassada, os ovos delicadamente pousados sobre os feijões. Outros tempos.
Na quinta-feira passada andámos também pelo corredor onde vendiam animais. Os miúdos apaixonaram-se pelos pintainhos que nem 24 horas haviam de ter. Comprámos para a vizinha Matilde (boa desculpa). Cada um podia escolher o seu, e eu escolhi também: um preto. No carro, regressando a casa, trataram de começar o processo de bonding (sobre guardanapos de papel, claro, que eles gostam de animais domésticos mas não são parvos) e baptizaram-nos. Deram àquelas coisinhas fofas e aflitas nomes pomposos como Herbert Bonaparte, Fritz the Emperor, e assim. Eu queria chamar Ovelhanegra ao meu novelinho escuro, mas eles ficaram muito chocados, e preferiram Elsa. Também pode ser: assim como assim, vai acabar arroz de cabidela. E com jeitinho podia alugá-la (-lo?) nas festas de São Bartolomeu do Mar, um euro para cada voltinha à igreja (gosto muito destas manifestações de religiosidade popular, e penso que devem ser incentivadas ou, pelo menos, protegidas. A ver se a Elsa cresce a tempo de participar activamente neste fenómeno cultural).
Os bichinhos estão agora no galinheiro da vizinha, tentando acalmar-se como podem depois das manifestações de ternura de que são vítimas a intervalos regulares. Punha aqui algumas das fotografias que a Christina fez (Herbert Bonaparte contemplando sabe-se lá o quê do alto dos joelhos dela, coisas assim) mas ela desapareceu com a máquina fotográfica e eu estou demasiado em férias para ir tratar de resolver esse assunto. A Matilde diz-me com jeitinho diplomático: "ainda os matam com mimo". Sim, literalmente. Mas eles não percebem: pode lá o amor matar? São muito novos - e espero que não apanhem com a dura realidade pela proa, que eu estou a contar com o the Emperor para uma canjinha das boas.
já lá vai o tempo em que eu ficava contente por comprar um polo Lacoste por 5 euros. Aliás, agora estou mais para exigir que me paguem se é para eu fazer publicidade a marcas, e quase morro de embaraço empático quando vejo pessoas brandindo enormes D&G ou LV em uivos de falsete. Por isso - e era aqui que queria chegar - só vou à área dos ciganos na feira de Barcelos para lhes ouvir a música. Belas cantorias. Depois sigo para o quarteirão dos lavradores, e naquelas mulheres de lenço na cabeça, fio de ouro ao pescoço e sulcos fundos no rosto retomo o ambiente da infância na aldeia da avó, lembro o cesto que ela arranjava para a feira de São Roque aos sábados: forrado a panos de linho feitos à mão por alguma antepassada, os ovos delicadamente pousados sobre os feijões. Outros tempos.
Na quinta-feira passada andámos também pelo corredor onde vendiam animais. Os miúdos apaixonaram-se pelos pintainhos que nem 24 horas haviam de ter. Comprámos para a vizinha Matilde (boa desculpa). Cada um podia escolher o seu, e eu escolhi também: um preto. No carro, regressando a casa, trataram de começar o processo de bonding (sobre guardanapos de papel, claro, que eles gostam de animais domésticos mas não são parvos) e baptizaram-nos. Deram àquelas coisinhas fofas e aflitas nomes pomposos como Herbert Bonaparte, Fritz the Emperor, e assim. Eu queria chamar Ovelhanegra ao meu novelinho escuro, mas eles ficaram muito chocados, e preferiram Elsa. Também pode ser: assim como assim, vai acabar arroz de cabidela. E com jeitinho podia alugá-la (-lo?) nas festas de São Bartolomeu do Mar, um euro para cada voltinha à igreja (gosto muito destas manifestações de religiosidade popular, e penso que devem ser incentivadas ou, pelo menos, protegidas. A ver se a Elsa cresce a tempo de participar activamente neste fenómeno cultural).
Os bichinhos estão agora no galinheiro da vizinha, tentando acalmar-se como podem depois das manifestações de ternura de que são vítimas a intervalos regulares. Punha aqui algumas das fotografias que a Christina fez (Herbert Bonaparte contemplando sabe-se lá o quê do alto dos joelhos dela, coisas assim) mas ela desapareceu com a máquina fotográfica e eu estou demasiado em férias para ir tratar de resolver esse assunto. A Matilde diz-me com jeitinho diplomático: "ainda os matam com mimo". Sim, literalmente. Mas eles não percebem: pode lá o amor matar? São muito novos - e espero que não apanhem com a dura realidade pela proa, que eu estou a contar com o the Emperor para uma canjinha das boas.
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correio das ilhas (23)
Olá, Rita
tenho andado a ser feliz na FNAC. Ontem numa do Porto, hoje em Guimarães. Passado o choque inicial dos electrodomésticos e assim, passado o choque secundário de nenhuma ter o "meu livro" (de onde se prova que foi um best seller: esgotou que foi uma coisa espantosa...), chego à secção de CDs portugueses e brasileiros e começo a babar. Hoje a felicidade foi tanta que a minha carteira começou a ter palpitações (pobrezinha: nas férias fica com os nervos em franja). De modo que agarrei em mim pelo cachaço, e amandei-me para fora daquele antro de perdição. Bem contra a minha vontade, mas isso já se sabe que os desvios do vício são assim.
(os desvios do vício são os desvícios?)
tenho andado a ser feliz na FNAC. Ontem numa do Porto, hoje em Guimarães. Passado o choque inicial dos electrodomésticos e assim, passado o choque secundário de nenhuma ter o "meu livro" (de onde se prova que foi um best seller: esgotou que foi uma coisa espantosa...), chego à secção de CDs portugueses e brasileiros e começo a babar. Hoje a felicidade foi tanta que a minha carteira começou a ter palpitações (pobrezinha: nas férias fica com os nervos em franja). De modo que agarrei em mim pelo cachaço, e amandei-me para fora daquele antro de perdição. Bem contra a minha vontade, mas isso já se sabe que os desvios do vício são assim.
(os desvios do vício são os desvícios?)
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correio das ilhas (22)
Olá, Rita
atravessando o rio Lima ao fim do dia pela ponte nova, junto a Viana, sou apanhada pelo azul profundo da água, o verde das ilhas ocasionais, o verde mais pujante das margens. Beleza pura, diria eu - cega à paisagem industrial, ao desconcerto do casario, à nódoa do porto marítimo.
E de repente tenho outra vez cinco anos, e encosto o nariz ao couro vermelho do assento da frente do carro para ouvir melhor a minha mãe
...os soldados recusaram-se a atravessar o rio porque, vendo-o tão estranhamente belo, tinham a certeza que era o Letes, o rio do esquecimento. Mas o centurião atravessou-o a nado, e do lado de lá chamou-os todos, cada um pelo seu nome...
e dou-me conta de que, independentemente do que hoje façam à sua paisagem, a beleza deste rio entrou para dentro de mim há muitos anos, e nada a poderá alterar.
atravessando o rio Lima ao fim do dia pela ponte nova, junto a Viana, sou apanhada pelo azul profundo da água, o verde das ilhas ocasionais, o verde mais pujante das margens. Beleza pura, diria eu - cega à paisagem industrial, ao desconcerto do casario, à nódoa do porto marítimo.
E de repente tenho outra vez cinco anos, e encosto o nariz ao couro vermelho do assento da frente do carro para ouvir melhor a minha mãe
...os soldados recusaram-se a atravessar o rio porque, vendo-o tão estranhamente belo, tinham a certeza que era o Letes, o rio do esquecimento. Mas o centurião atravessou-o a nado, e do lado de lá chamou-os todos, cada um pelo seu nome...
e dou-me conta de que, independentemente do que hoje façam à sua paisagem, a beleza deste rio entrou para dentro de mim há muitos anos, e nada a poderá alterar.
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14 julho 2011
correio das ilhas (21)
Olá, Rita
Como se estivesse de férias, parei a tradução do livro. Não que traduzir aquele livro seja realmente trabalho, porque é muito divertido, mas aqui, na Casa do Padeiro, só há internet ao fundo do quintal, sob a ramada junto às laranjeiras. Apanha-se o wireless da vizinha, e é um sítio engraçado para escrever um ou outro post, mas não para traduzir um livro.
A Christina já escolheu o seu cantinho preferido para trabalhar – anda a ler um livro para a escola, e faz apontamentos no computador. Ao fim da tarde, este alpendre é o melhor lugar para um happy hour com amigos, ao som do passaredo, à luz dourada que se derrama sobre as copas das árvores e vem bater quase horizontal na velha parede e sobre nós, sentados nos degraus de granito que o dia aqueceu.
Essa luz do pôr-do-sol que transforma a buganvília e nos atrasa o jantar porque nos distraímos a olhar pela janela da cozinha.
Dito desta maneira, quase me pergunto porque tenciono voltar para a Alemanha daqui a umas semanas…
Como se estivesse de férias, parei a tradução do livro. Não que traduzir aquele livro seja realmente trabalho, porque é muito divertido, mas aqui, na Casa do Padeiro, só há internet ao fundo do quintal, sob a ramada junto às laranjeiras. Apanha-se o wireless da vizinha, e é um sítio engraçado para escrever um ou outro post, mas não para traduzir um livro.
A Christina já escolheu o seu cantinho preferido para trabalhar – anda a ler um livro para a escola, e faz apontamentos no computador. Ao fim da tarde, este alpendre é o melhor lugar para um happy hour com amigos, ao som do passaredo, à luz dourada que se derrama sobre as copas das árvores e vem bater quase horizontal na velha parede e sobre nós, sentados nos degraus de granito que o dia aqueceu.
Essa luz do pôr-do-sol que transforma a buganvília e nos atrasa o jantar porque nos distraímos a olhar pela janela da cozinha.
Dito desta maneira, quase me pergunto porque tenciono voltar para a Alemanha daqui a umas semanas…
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correio das ilhas (20)
Olá, Rita
uma leitora deste blogue, a "Interessada", deixou um poema de Eugénio de Andrade num post anterior (obrigada, Interessada! Como é que sabia que este é um dos meus - poucos - poetas?)
As Amoras
O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
[ Eugénio de Andrade ]
Outro dia, depois da praia e da internet, o Matthias e o amigo que veio com ele soltaram-se pelas silvas ao longo dos caminhos como dois cabritos felizes - em busca de amoras. Chegaram a casa todos arranhados e com uma caixinha cheia delas, a fazer contas aos bolos e às compotas que podiam fazer. Mas nós fomos mais rápidos: näo passaram do jantar.
uma leitora deste blogue, a "Interessada", deixou um poema de Eugénio de Andrade num post anterior (obrigada, Interessada! Como é que sabia que este é um dos meus - poucos - poetas?)
As Amoras
O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
[ Eugénio de Andrade ]
Outro dia, depois da praia e da internet, o Matthias e o amigo que veio com ele soltaram-se pelas silvas ao longo dos caminhos como dois cabritos felizes - em busca de amoras. Chegaram a casa todos arranhados e com uma caixinha cheia delas, a fazer contas aos bolos e às compotas que podiam fazer. Mas nós fomos mais rápidos: näo passaram do jantar.
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13 julho 2011
correio das ilhas (19)
Olá, Rita
No verão passado deixámos apalavrado com o senhor José que pintava a casa por dentro, tratava do bicho da madeira, arranjava a chaminé. Que sim, que sim, mas o tempo passava e nada, e nada. Tentámos as mentiras habituais, «olhe que vamos aí no Natal», pois sim : à terceira vez, já não cai nessa. Acabou por fazer a chaminé na altura em que nós começávamos a fazer as malas. Tão à pressa que não teve tempo de ir comprar tinta branca, e pintou a fachada com uma amarela que tinha. O resultado é tão louco, que me apetece deixar ficar assim mesmo.
No verão passado deixámos apalavrado com o senhor José que pintava a casa por dentro, tratava do bicho da madeira, arranjava a chaminé. Que sim, que sim, mas o tempo passava e nada, e nada. Tentámos as mentiras habituais, «olhe que vamos aí no Natal», pois sim : à terceira vez, já não cai nessa. Acabou por fazer a chaminé na altura em que nós começávamos a fazer as malas. Tão à pressa que não teve tempo de ir comprar tinta branca, e pintou a fachada com uma amarela que tinha. O resultado é tão louco, que me apetece deixar ficar assim mesmo.
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correio das ilhas (18)
Olá, Rita
O meu triângulo das Bermudas fica entre a macieira, a figueira e o diospireiro. Lá me perco tão bem que nem eu própria me encontro.
O meu triângulo das Bermudas fica entre a macieira, a figueira e o diospireiro. Lá me perco tão bem que nem eu própria me encontro.
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correio das ilhas (17)
Olá, Rita
Era o que mais faltava: ter relva no jardim, e o trabalho de a cuidar. A nossa troika privada manda que a erva cresça livre e seja cortada apenas no princípio do verão, quando os patrões estão para vir.
A erva e, pelo meio, a hortelã: chão suave para os pés descalços, e um aroma fresco que envolve discretamente a mesa do pequeno-almoço sob a ramada. A hortelã cresce nos sítios mais improváveis – nas juntas da eira, por exemplo. A vizinha Matilde, que é quem manda aqui, volta e meia vai e corta tudo raso. É pena : o que eu gosto daquele friso verde entre o cimento e o granito.
Era o que mais faltava: ter relva no jardim, e o trabalho de a cuidar. A nossa troika privada manda que a erva cresça livre e seja cortada apenas no princípio do verão, quando os patrões estão para vir.
A erva e, pelo meio, a hortelã: chão suave para os pés descalços, e um aroma fresco que envolve discretamente a mesa do pequeno-almoço sob a ramada. A hortelã cresce nos sítios mais improváveis – nas juntas da eira, por exemplo. A vizinha Matilde, que é quem manda aqui, volta e meia vai e corta tudo raso. É pena : o que eu gosto daquele friso verde entre o cimento e o granito.
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10 julho 2011
correio das ilhas (16)
Olá, Rita
ontem de manhã choveu muito, e à tarde fomos à praia. Sem grande esperança, só para dizer olá ao mar. Estava fenomenal: deserta, sem vento, misteriosa de neblina, com umas ondas daquelas que dão luta e nos fazem soltar gargalhadas misturadas com vertigem.
Claro que não pus creme solar, claro que como de costume dormitei com um livro em cima da cara. Agora tenho um vermelhão enorme no peito, que torna muito evidente que o meu fato de banho, alemão, em Portugal era bom era para bisavós. Até ganhar um vermelhão mais alargado por todo o peito vou ter de andar de blusas de gola alta.
De facto precisava era de um burkini, por causa de um tratamento às varizes que fiz antes de vir para Portugal, e me deixou umas marcas suspeitas nas pernas. As amigas dizem que não devo apanhar sol ali, o Joachim vem-me com estudos publicados em revistas famosas para explicar que é sub-cutâneo e não preciso de me preocupar. E eu, entre a medicina e as conversas de druidas femininas (as mais fiáveis, como se sabe) devo fazer o quê? Um burkini era boa ideia - apesar de correr o risco de deixar os mirones nas dunas fora de si, porque não há nada mais sensual que uma mulher de burkini molhado (os fundamentalistas islâmicos saíram-me uns grandes espertalhões).
Hoje é domingo, dia dos laços de ternura: almoço em casa do irmão mais velho, jantar com uma das minhas mais antigas amigas.
E como estou na famosa casa, aqui vão mais algumas fotos da dita:
ontem de manhã choveu muito, e à tarde fomos à praia. Sem grande esperança, só para dizer olá ao mar. Estava fenomenal: deserta, sem vento, misteriosa de neblina, com umas ondas daquelas que dão luta e nos fazem soltar gargalhadas misturadas com vertigem.
Claro que não pus creme solar, claro que como de costume dormitei com um livro em cima da cara. Agora tenho um vermelhão enorme no peito, que torna muito evidente que o meu fato de banho, alemão, em Portugal era bom era para bisavós. Até ganhar um vermelhão mais alargado por todo o peito vou ter de andar de blusas de gola alta.
De facto precisava era de um burkini, por causa de um tratamento às varizes que fiz antes de vir para Portugal, e me deixou umas marcas suspeitas nas pernas. As amigas dizem que não devo apanhar sol ali, o Joachim vem-me com estudos publicados em revistas famosas para explicar que é sub-cutâneo e não preciso de me preocupar. E eu, entre a medicina e as conversas de druidas femininas (as mais fiáveis, como se sabe) devo fazer o quê? Um burkini era boa ideia - apesar de correr o risco de deixar os mirones nas dunas fora de si, porque não há nada mais sensual que uma mulher de burkini molhado (os fundamentalistas islâmicos saíram-me uns grandes espertalhões).
Hoje é domingo, dia dos laços de ternura: almoço em casa do irmão mais velho, jantar com uma das minhas mais antigas amigas.
E como estou na famosa casa, aqui vão mais algumas fotos da dita:
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08 julho 2011
correio das ilhas (15)
Ola, Rita
No Minho chove: com persistencia e desconsolo.
Fizemos uma fogueira na lareira de pedra. So faltam castanhas para a sensacao de aconchego ser completa.
No Minho chove: com persistencia e desconsolo.
Fizemos uma fogueira na lareira de pedra. So faltam castanhas para a sensacao de aconchego ser completa.
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07 julho 2011
correio das ilhas (14)
Olá, Rita
amanhã vamos para o Alto Minho. Praia, canoa em Ponte de Lima, cafézinhos em Viana. Sonecas na rede estendida entre duas árvores do quintal. Muda o cenário, continua a boa vida. Uma coisa piora: a partir de agora, a cozinheira sou eu... (ai que saudades antecipadas das cozinheiras da Quinta de Santa Eufémia!)
Para a despedida do Douro, uma imagem do progresso:
amanhã vamos para o Alto Minho. Praia, canoa em Ponte de Lima, cafézinhos em Viana. Sonecas na rede estendida entre duas árvores do quintal. Muda o cenário, continua a boa vida. Uma coisa piora: a partir de agora, a cozinheira sou eu... (ai que saudades antecipadas das cozinheiras da Quinta de Santa Eufémia!)
Para a despedida do Douro, uma imagem do progresso:
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correio das ilhas (11)
Olá, Rita
Tens de fazer a viagem de comboio entre a Régua e o Pocinho, e com urgência, antes que acabe. De uma beleza indescritível: os montes cada vez mais bravios à medida que se avança para Espanha, as vinhas agonizantes de sede, os laranjais muito verdes ao longo do rio, as oliveiras a desenhar os caminhos. Aqui e ali um quinta, mais além ruínas tristes. E a literatura portuguesa a entrar-me pelos olhos dentro - eu a entender, maravilhada, o que é que os escritores do Douro querem dizer quando escrevem "fragas" e "barrancos".
Olhando a paisagem dos terraços da vinha ocorreu-me que quem escreveu o livro do Génesis não sabia nada: uma tal doçura e sensualidade não saiu da costela do homem, mas das suas mãos.
Na nossa carruagem iam alguns velhotes que falavam das glórias passadas e das misérias presentes. O costume: que é uma pouca-vergonha terem vendido a estação do Pinhão, que dizem que mandaram os azulejos para consertar mas nunca se sabe, que são todos uns mentirosos, que no tempo de Salazar não havia esta ladroagem e falta de respeito, que isto chegou a tal ponto que nem quinhentos Salazares conseguiriam endireitar. Contavam também dos restaurantes que servem belos peixinhos do rio (há um em Freixo de Numão, mesmo ao pé da estação), do passeio às gravuras de Foz Côa que se pode fazer a partir do Pocinho (são quase três horas, vai-se de jipe e depois a pé, custa cerca de 20 euros por pessoa). Ao passar no Tua começou o coro das lamentações: "Já fecharam tudo", diziam eles. "A beleza das linhas que havia, aquelas obras monumentais por penhascos e ravinas, quanta gente morreu para as fazer, e foi-se tudo: Tua, Corgo, Tâmega, Sabor". E faziam a lista com desalento, um desalento como só vi há muitos anos ao meu irmão mais velho, quando andava na quarta classe e tinha de aprender as estações e apeadeiros de todas estas linhas. Eu, dois anos mais nova, escapei a tudo isso, o que prova que a qualidade do Ensino já estava em queda livre antes do 25 de Abril.
As carruagens da CP são fechadas, as janelas não estavam propriamente bem lavadas. As fotografias são as possíveis. Mas aqui vão, para teres uma ideia do que isto é. Do que vamos perder.
Tens de fazer a viagem de comboio entre a Régua e o Pocinho, e com urgência, antes que acabe. De uma beleza indescritível: os montes cada vez mais bravios à medida que se avança para Espanha, as vinhas agonizantes de sede, os laranjais muito verdes ao longo do rio, as oliveiras a desenhar os caminhos. Aqui e ali um quinta, mais além ruínas tristes. E a literatura portuguesa a entrar-me pelos olhos dentro - eu a entender, maravilhada, o que é que os escritores do Douro querem dizer quando escrevem "fragas" e "barrancos".
Olhando a paisagem dos terraços da vinha ocorreu-me que quem escreveu o livro do Génesis não sabia nada: uma tal doçura e sensualidade não saiu da costela do homem, mas das suas mãos.
Na nossa carruagem iam alguns velhotes que falavam das glórias passadas e das misérias presentes. O costume: que é uma pouca-vergonha terem vendido a estação do Pinhão, que dizem que mandaram os azulejos para consertar mas nunca se sabe, que são todos uns mentirosos, que no tempo de Salazar não havia esta ladroagem e falta de respeito, que isto chegou a tal ponto que nem quinhentos Salazares conseguiriam endireitar. Contavam também dos restaurantes que servem belos peixinhos do rio (há um em Freixo de Numão, mesmo ao pé da estação), do passeio às gravuras de Foz Côa que se pode fazer a partir do Pocinho (são quase três horas, vai-se de jipe e depois a pé, custa cerca de 20 euros por pessoa). Ao passar no Tua começou o coro das lamentações: "Já fecharam tudo", diziam eles. "A beleza das linhas que havia, aquelas obras monumentais por penhascos e ravinas, quanta gente morreu para as fazer, e foi-se tudo: Tua, Corgo, Tâmega, Sabor". E faziam a lista com desalento, um desalento como só vi há muitos anos ao meu irmão mais velho, quando andava na quarta classe e tinha de aprender as estações e apeadeiros de todas estas linhas. Eu, dois anos mais nova, escapei a tudo isso, o que prova que a qualidade do Ensino já estava em queda livre antes do 25 de Abril.
As carruagens da CP são fechadas, as janelas não estavam propriamente bem lavadas. As fotografias são as possíveis. Mas aqui vão, para teres uma ideia do que isto é. Do que vamos perder.
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05 julho 2011
post apenas para os meus amigos do Porto e arredores
A Esperanza Spalding vai dar um concerto no Coliseu do Porto no dia 15. Vão por mim, e vão ver.
Não direi que devolvo o dinheiro se não gostarem, isso não. Mas prometo que se não gostarem, apesar de tudo continuamos amigos como dantes. Oh, tão magnânima sou!
E outra informação, esta para todos os amigos: quem me informou sobre este concerto foi a sem-se-ver. Se não conhecem esse blogue, não sabem o que estão a perder. Se forem ver e acharem que não estavam a perder nada, eu farei esforçados esforços para continuarmos amigos como antes, porque respeito muito a liberdade de expressão e tal, mas olhem que me custa... ;-)
Não direi que devolvo o dinheiro se não gostarem, isso não. Mas prometo que se não gostarem, apesar de tudo continuamos amigos como dantes. Oh, tão magnânima sou!
E outra informação, esta para todos os amigos: quem me informou sobre este concerto foi a sem-se-ver. Se não conhecem esse blogue, não sabem o que estão a perder. Se forem ver e acharem que não estavam a perder nada, eu farei esforçados esforços para continuarmos amigos como antes, porque respeito muito a liberdade de expressão e tal, mas olhem que me custa... ;-)
correio das ilhas (10)
Olá, Rita
estamos numa quinta no Douro. O rio, para estes lados, havia de se chamar Rio Lindodazulprofundo, mas como de costume ninguém me pergunta nada...
Tenho trabalhado bastante na tradução daquele livro muito divertido, numa mesa sob a vinha, junto à piscina. Quando a Merkel falou da produtividade dos portugueses, provavelmente estava a morrer de inveja destas coisas. Coitadita, uma chancelerina também não é de ferro.
Os miúdos treinam saltos especiais na piscina (é cada barrigada, bálhósdeus!) e depois desaparecem pela quinta. Reaparecem à hora das refeições, esfomeados. Hoje havia peixe assado com pimentos grelhados e um molho com cebola e azeite da quinta que nem te digo. E que dizer das batatas assadas de ontem, da tortilha do jantar? Não conheço restaurante nenhum onde a comida me saiba tão bem como aqui.
Amanhã vamos de comboio até ao Pocinho, e voltamos. Para nos despedirmos desta parte da Linha do Douro, que vai fechar. Acho bem: não faz sentido nenhum gastar um dinheirão a manter um património destes numa paisagem protegida pela UNESCO. Os turistas? Que se danem os turistas. Que vão de carro pelas curvas e contracurvas dos montes, apreciar de perto e de todos os ângulos os fantásticos postes das autoestradas da energia que agora atravessam o Douro. Viva o progresso! Porque havíamos nós de continuar a manter a paisagem protegida do Douro, só para os turistas acharem que as coisas aqui ainda são perfeitas? Não, não: realismo é que é preciso. Toca a arrancar os anéis, e se for preciso largar um ou outro dedo, pois que tudo se faça com coragem e sem anestesia. Somos um povo de valentes.
(Nem queiras saber o que ultimamente me tenho lembrado daquela linha Durango-Silverton, e do pessoal que faz viagens intercontinentais para viajar nesses comboios, e de como aquela paisagem não é em nada superior à do Douro)
estamos numa quinta no Douro. O rio, para estes lados, havia de se chamar Rio Lindodazulprofundo, mas como de costume ninguém me pergunta nada...
Tenho trabalhado bastante na tradução daquele livro muito divertido, numa mesa sob a vinha, junto à piscina. Quando a Merkel falou da produtividade dos portugueses, provavelmente estava a morrer de inveja destas coisas. Coitadita, uma chancelerina também não é de ferro.
Os miúdos treinam saltos especiais na piscina (é cada barrigada, bálhósdeus!) e depois desaparecem pela quinta. Reaparecem à hora das refeições, esfomeados. Hoje havia peixe assado com pimentos grelhados e um molho com cebola e azeite da quinta que nem te digo. E que dizer das batatas assadas de ontem, da tortilha do jantar? Não conheço restaurante nenhum onde a comida me saiba tão bem como aqui.
Amanhã vamos de comboio até ao Pocinho, e voltamos. Para nos despedirmos desta parte da Linha do Douro, que vai fechar. Acho bem: não faz sentido nenhum gastar um dinheirão a manter um património destes numa paisagem protegida pela UNESCO. Os turistas? Que se danem os turistas. Que vão de carro pelas curvas e contracurvas dos montes, apreciar de perto e de todos os ângulos os fantásticos postes das autoestradas da energia que agora atravessam o Douro. Viva o progresso! Porque havíamos nós de continuar a manter a paisagem protegida do Douro, só para os turistas acharem que as coisas aqui ainda são perfeitas? Não, não: realismo é que é preciso. Toca a arrancar os anéis, e se for preciso largar um ou outro dedo, pois que tudo se faça com coragem e sem anestesia. Somos um povo de valentes.
(Nem queiras saber o que ultimamente me tenho lembrado daquela linha Durango-Silverton, e do pessoal que faz viagens intercontinentais para viajar nesses comboios, e de como aquela paisagem não é em nada superior à do Douro)
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04 julho 2011
correio das ilhas (9)
Olá, Rita
obrigada pela ligação ao texto do José António Saraiva, e pela série "saraiva aplicado" - o que já me ri hoje.
Obrigada, sobretudo, por me resolveres uma curiosidade que me atormenta há décadas: agora sei com quem casou a Susaninha do Quino!
Pois que sejam muito felizes, que é um gosto quando duas almas tão gémeas se encontram.
(eu sei que devia argumentar, e explicar para onde vão aqueles custos de pessoal e assim, e perguntar quem é essa classe média que faz férias em hotéis de cinco estrelas por default, mas o dia está muito bonito, e o almoço da quinta estava muito bom - embora com ingredientes baratinhos, eles provavelmente andaram a ler o José António Saraiva, ou talvez o Sarrazin quando, de cima dos seus muitos milhares de euros por mês, andou a explicar aos pobres como podiam viver com 10 euros por dia -, e portanto ficamos por aqui)
obrigada pela ligação ao texto do José António Saraiva, e pela série "saraiva aplicado" - o que já me ri hoje.
Obrigada, sobretudo, por me resolveres uma curiosidade que me atormenta há décadas: agora sei com quem casou a Susaninha do Quino!
Pois que sejam muito felizes, que é um gosto quando duas almas tão gémeas se encontram.
(eu sei que devia argumentar, e explicar para onde vão aqueles custos de pessoal e assim, e perguntar quem é essa classe média que faz férias em hotéis de cinco estrelas por default, mas o dia está muito bonito, e o almoço da quinta estava muito bom - embora com ingredientes baratinhos, eles provavelmente andaram a ler o José António Saraiva, ou talvez o Sarrazin quando, de cima dos seus muitos milhares de euros por mês, andou a explicar aos pobres como podiam viver com 10 euros por dia -, e portanto ficamos por aqui)
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03 julho 2011
correio das ilhas (8)
Olá, Rita
fim de semana em casa do meu irmão mais velho, em Guimarães. Este postal é pura baba, e nem te mostro as fotografias que ele faz. Ou os desenhos. Fico sempre dividida entre morrer de orgulho ou de inveja.
O escritório da casa está suspenso sobre a sala.Uma vez dormi naquele sofá, e lembrei-me muito do arquitecto do mosteiro da Batalha, que dormiu sob as abóbadas que tinha construído, para provar que eram seguras. O meu irmão é muito da gestão moderna, sabe delegar: ele faz, eu testo...
fim de semana em casa do meu irmão mais velho, em Guimarães. Este postal é pura baba, e nem te mostro as fotografias que ele faz. Ou os desenhos. Fico sempre dividida entre morrer de orgulho ou de inveja.
O escritório da casa está suspenso sobre a sala.Uma vez dormi naquele sofá, e lembrei-me muito do arquitecto do mosteiro da Batalha, que dormiu sob as abóbadas que tinha construído, para provar que eram seguras. O meu irmão é muito da gestão moderna, sabe delegar: ele faz, eu testo...
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