Olá, Rita
O meu triângulo das Bermudas fica entre a macieira, a figueira e o diospireiro. Lá me perco tão bem que nem eu própria me encontro.
13 julho 2011
correio das ilhas (17)
Olá, Rita
Era o que mais faltava: ter relva no jardim, e o trabalho de a cuidar. A nossa troika privada manda que a erva cresça livre e seja cortada apenas no princípio do verão, quando os patrões estão para vir.
A erva e, pelo meio, a hortelã: chão suave para os pés descalços, e um aroma fresco que envolve discretamente a mesa do pequeno-almoço sob a ramada. A hortelã cresce nos sítios mais improváveis – nas juntas da eira, por exemplo. A vizinha Matilde, que é quem manda aqui, volta e meia vai e corta tudo raso. É pena : o que eu gosto daquele friso verde entre o cimento e o granito.
Era o que mais faltava: ter relva no jardim, e o trabalho de a cuidar. A nossa troika privada manda que a erva cresça livre e seja cortada apenas no princípio do verão, quando os patrões estão para vir.
A erva e, pelo meio, a hortelã: chão suave para os pés descalços, e um aroma fresco que envolve discretamente a mesa do pequeno-almoço sob a ramada. A hortelã cresce nos sítios mais improváveis – nas juntas da eira, por exemplo. A vizinha Matilde, que é quem manda aqui, volta e meia vai e corta tudo raso. É pena : o que eu gosto daquele friso verde entre o cimento e o granito.
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10 julho 2011
correio das ilhas (16)
Olá, Rita
ontem de manhã choveu muito, e à tarde fomos à praia. Sem grande esperança, só para dizer olá ao mar. Estava fenomenal: deserta, sem vento, misteriosa de neblina, com umas ondas daquelas que dão luta e nos fazem soltar gargalhadas misturadas com vertigem.
Claro que não pus creme solar, claro que como de costume dormitei com um livro em cima da cara. Agora tenho um vermelhão enorme no peito, que torna muito evidente que o meu fato de banho, alemão, em Portugal era bom era para bisavós. Até ganhar um vermelhão mais alargado por todo o peito vou ter de andar de blusas de gola alta.
De facto precisava era de um burkini, por causa de um tratamento às varizes que fiz antes de vir para Portugal, e me deixou umas marcas suspeitas nas pernas. As amigas dizem que não devo apanhar sol ali, o Joachim vem-me com estudos publicados em revistas famosas para explicar que é sub-cutâneo e não preciso de me preocupar. E eu, entre a medicina e as conversas de druidas femininas (as mais fiáveis, como se sabe) devo fazer o quê? Um burkini era boa ideia - apesar de correr o risco de deixar os mirones nas dunas fora de si, porque não há nada mais sensual que uma mulher de burkini molhado (os fundamentalistas islâmicos saíram-me uns grandes espertalhões).
Hoje é domingo, dia dos laços de ternura: almoço em casa do irmão mais velho, jantar com uma das minhas mais antigas amigas.
E como estou na famosa casa, aqui vão mais algumas fotos da dita:
ontem de manhã choveu muito, e à tarde fomos à praia. Sem grande esperança, só para dizer olá ao mar. Estava fenomenal: deserta, sem vento, misteriosa de neblina, com umas ondas daquelas que dão luta e nos fazem soltar gargalhadas misturadas com vertigem.
Claro que não pus creme solar, claro que como de costume dormitei com um livro em cima da cara. Agora tenho um vermelhão enorme no peito, que torna muito evidente que o meu fato de banho, alemão, em Portugal era bom era para bisavós. Até ganhar um vermelhão mais alargado por todo o peito vou ter de andar de blusas de gola alta.
De facto precisava era de um burkini, por causa de um tratamento às varizes que fiz antes de vir para Portugal, e me deixou umas marcas suspeitas nas pernas. As amigas dizem que não devo apanhar sol ali, o Joachim vem-me com estudos publicados em revistas famosas para explicar que é sub-cutâneo e não preciso de me preocupar. E eu, entre a medicina e as conversas de druidas femininas (as mais fiáveis, como se sabe) devo fazer o quê? Um burkini era boa ideia - apesar de correr o risco de deixar os mirones nas dunas fora de si, porque não há nada mais sensual que uma mulher de burkini molhado (os fundamentalistas islâmicos saíram-me uns grandes espertalhões).
Hoje é domingo, dia dos laços de ternura: almoço em casa do irmão mais velho, jantar com uma das minhas mais antigas amigas.
E como estou na famosa casa, aqui vão mais algumas fotos da dita:
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08 julho 2011
correio das ilhas (15)
Ola, Rita
No Minho chove: com persistencia e desconsolo.
Fizemos uma fogueira na lareira de pedra. So faltam castanhas para a sensacao de aconchego ser completa.
No Minho chove: com persistencia e desconsolo.
Fizemos uma fogueira na lareira de pedra. So faltam castanhas para a sensacao de aconchego ser completa.
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07 julho 2011
correio das ilhas (14)
Olá, Rita
amanhã vamos para o Alto Minho. Praia, canoa em Ponte de Lima, cafézinhos em Viana. Sonecas na rede estendida entre duas árvores do quintal. Muda o cenário, continua a boa vida. Uma coisa piora: a partir de agora, a cozinheira sou eu... (ai que saudades antecipadas das cozinheiras da Quinta de Santa Eufémia!)
Para a despedida do Douro, uma imagem do progresso:
amanhã vamos para o Alto Minho. Praia, canoa em Ponte de Lima, cafézinhos em Viana. Sonecas na rede estendida entre duas árvores do quintal. Muda o cenário, continua a boa vida. Uma coisa piora: a partir de agora, a cozinheira sou eu... (ai que saudades antecipadas das cozinheiras da Quinta de Santa Eufémia!)
Para a despedida do Douro, uma imagem do progresso:
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correio das ilhas (11)
Olá, Rita
Tens de fazer a viagem de comboio entre a Régua e o Pocinho, e com urgência, antes que acabe. De uma beleza indescritível: os montes cada vez mais bravios à medida que se avança para Espanha, as vinhas agonizantes de sede, os laranjais muito verdes ao longo do rio, as oliveiras a desenhar os caminhos. Aqui e ali um quinta, mais além ruínas tristes. E a literatura portuguesa a entrar-me pelos olhos dentro - eu a entender, maravilhada, o que é que os escritores do Douro querem dizer quando escrevem "fragas" e "barrancos".
Olhando a paisagem dos terraços da vinha ocorreu-me que quem escreveu o livro do Génesis não sabia nada: uma tal doçura e sensualidade não saiu da costela do homem, mas das suas mãos.
Na nossa carruagem iam alguns velhotes que falavam das glórias passadas e das misérias presentes. O costume: que é uma pouca-vergonha terem vendido a estação do Pinhão, que dizem que mandaram os azulejos para consertar mas nunca se sabe, que são todos uns mentirosos, que no tempo de Salazar não havia esta ladroagem e falta de respeito, que isto chegou a tal ponto que nem quinhentos Salazares conseguiriam endireitar. Contavam também dos restaurantes que servem belos peixinhos do rio (há um em Freixo de Numão, mesmo ao pé da estação), do passeio às gravuras de Foz Côa que se pode fazer a partir do Pocinho (são quase três horas, vai-se de jipe e depois a pé, custa cerca de 20 euros por pessoa). Ao passar no Tua começou o coro das lamentações: "Já fecharam tudo", diziam eles. "A beleza das linhas que havia, aquelas obras monumentais por penhascos e ravinas, quanta gente morreu para as fazer, e foi-se tudo: Tua, Corgo, Tâmega, Sabor". E faziam a lista com desalento, um desalento como só vi há muitos anos ao meu irmão mais velho, quando andava na quarta classe e tinha de aprender as estações e apeadeiros de todas estas linhas. Eu, dois anos mais nova, escapei a tudo isso, o que prova que a qualidade do Ensino já estava em queda livre antes do 25 de Abril.
As carruagens da CP são fechadas, as janelas não estavam propriamente bem lavadas. As fotografias são as possíveis. Mas aqui vão, para teres uma ideia do que isto é. Do que vamos perder.
Tens de fazer a viagem de comboio entre a Régua e o Pocinho, e com urgência, antes que acabe. De uma beleza indescritível: os montes cada vez mais bravios à medida que se avança para Espanha, as vinhas agonizantes de sede, os laranjais muito verdes ao longo do rio, as oliveiras a desenhar os caminhos. Aqui e ali um quinta, mais além ruínas tristes. E a literatura portuguesa a entrar-me pelos olhos dentro - eu a entender, maravilhada, o que é que os escritores do Douro querem dizer quando escrevem "fragas" e "barrancos".
Olhando a paisagem dos terraços da vinha ocorreu-me que quem escreveu o livro do Génesis não sabia nada: uma tal doçura e sensualidade não saiu da costela do homem, mas das suas mãos.
Na nossa carruagem iam alguns velhotes que falavam das glórias passadas e das misérias presentes. O costume: que é uma pouca-vergonha terem vendido a estação do Pinhão, que dizem que mandaram os azulejos para consertar mas nunca se sabe, que são todos uns mentirosos, que no tempo de Salazar não havia esta ladroagem e falta de respeito, que isto chegou a tal ponto que nem quinhentos Salazares conseguiriam endireitar. Contavam também dos restaurantes que servem belos peixinhos do rio (há um em Freixo de Numão, mesmo ao pé da estação), do passeio às gravuras de Foz Côa que se pode fazer a partir do Pocinho (são quase três horas, vai-se de jipe e depois a pé, custa cerca de 20 euros por pessoa). Ao passar no Tua começou o coro das lamentações: "Já fecharam tudo", diziam eles. "A beleza das linhas que havia, aquelas obras monumentais por penhascos e ravinas, quanta gente morreu para as fazer, e foi-se tudo: Tua, Corgo, Tâmega, Sabor". E faziam a lista com desalento, um desalento como só vi há muitos anos ao meu irmão mais velho, quando andava na quarta classe e tinha de aprender as estações e apeadeiros de todas estas linhas. Eu, dois anos mais nova, escapei a tudo isso, o que prova que a qualidade do Ensino já estava em queda livre antes do 25 de Abril.
As carruagens da CP são fechadas, as janelas não estavam propriamente bem lavadas. As fotografias são as possíveis. Mas aqui vão, para teres uma ideia do que isto é. Do que vamos perder.
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05 julho 2011
post apenas para os meus amigos do Porto e arredores
A Esperanza Spalding vai dar um concerto no Coliseu do Porto no dia 15. Vão por mim, e vão ver.
Não direi que devolvo o dinheiro se não gostarem, isso não. Mas prometo que se não gostarem, apesar de tudo continuamos amigos como dantes. Oh, tão magnânima sou!
E outra informação, esta para todos os amigos: quem me informou sobre este concerto foi a sem-se-ver. Se não conhecem esse blogue, não sabem o que estão a perder. Se forem ver e acharem que não estavam a perder nada, eu farei esforçados esforços para continuarmos amigos como antes, porque respeito muito a liberdade de expressão e tal, mas olhem que me custa... ;-)
Não direi que devolvo o dinheiro se não gostarem, isso não. Mas prometo que se não gostarem, apesar de tudo continuamos amigos como dantes. Oh, tão magnânima sou!
E outra informação, esta para todos os amigos: quem me informou sobre este concerto foi a sem-se-ver. Se não conhecem esse blogue, não sabem o que estão a perder. Se forem ver e acharem que não estavam a perder nada, eu farei esforçados esforços para continuarmos amigos como antes, porque respeito muito a liberdade de expressão e tal, mas olhem que me custa... ;-)
correio das ilhas (10)
Olá, Rita
estamos numa quinta no Douro. O rio, para estes lados, havia de se chamar Rio Lindodazulprofundo, mas como de costume ninguém me pergunta nada...
Tenho trabalhado bastante na tradução daquele livro muito divertido, numa mesa sob a vinha, junto à piscina. Quando a Merkel falou da produtividade dos portugueses, provavelmente estava a morrer de inveja destas coisas. Coitadita, uma chancelerina também não é de ferro.
Os miúdos treinam saltos especiais na piscina (é cada barrigada, bálhósdeus!) e depois desaparecem pela quinta. Reaparecem à hora das refeições, esfomeados. Hoje havia peixe assado com pimentos grelhados e um molho com cebola e azeite da quinta que nem te digo. E que dizer das batatas assadas de ontem, da tortilha do jantar? Não conheço restaurante nenhum onde a comida me saiba tão bem como aqui.
Amanhã vamos de comboio até ao Pocinho, e voltamos. Para nos despedirmos desta parte da Linha do Douro, que vai fechar. Acho bem: não faz sentido nenhum gastar um dinheirão a manter um património destes numa paisagem protegida pela UNESCO. Os turistas? Que se danem os turistas. Que vão de carro pelas curvas e contracurvas dos montes, apreciar de perto e de todos os ângulos os fantásticos postes das autoestradas da energia que agora atravessam o Douro. Viva o progresso! Porque havíamos nós de continuar a manter a paisagem protegida do Douro, só para os turistas acharem que as coisas aqui ainda são perfeitas? Não, não: realismo é que é preciso. Toca a arrancar os anéis, e se for preciso largar um ou outro dedo, pois que tudo se faça com coragem e sem anestesia. Somos um povo de valentes.
(Nem queiras saber o que ultimamente me tenho lembrado daquela linha Durango-Silverton, e do pessoal que faz viagens intercontinentais para viajar nesses comboios, e de como aquela paisagem não é em nada superior à do Douro)
estamos numa quinta no Douro. O rio, para estes lados, havia de se chamar Rio Lindodazulprofundo, mas como de costume ninguém me pergunta nada...
Tenho trabalhado bastante na tradução daquele livro muito divertido, numa mesa sob a vinha, junto à piscina. Quando a Merkel falou da produtividade dos portugueses, provavelmente estava a morrer de inveja destas coisas. Coitadita, uma chancelerina também não é de ferro.
Os miúdos treinam saltos especiais na piscina (é cada barrigada, bálhósdeus!) e depois desaparecem pela quinta. Reaparecem à hora das refeições, esfomeados. Hoje havia peixe assado com pimentos grelhados e um molho com cebola e azeite da quinta que nem te digo. E que dizer das batatas assadas de ontem, da tortilha do jantar? Não conheço restaurante nenhum onde a comida me saiba tão bem como aqui.
Amanhã vamos de comboio até ao Pocinho, e voltamos. Para nos despedirmos desta parte da Linha do Douro, que vai fechar. Acho bem: não faz sentido nenhum gastar um dinheirão a manter um património destes numa paisagem protegida pela UNESCO. Os turistas? Que se danem os turistas. Que vão de carro pelas curvas e contracurvas dos montes, apreciar de perto e de todos os ângulos os fantásticos postes das autoestradas da energia que agora atravessam o Douro. Viva o progresso! Porque havíamos nós de continuar a manter a paisagem protegida do Douro, só para os turistas acharem que as coisas aqui ainda são perfeitas? Não, não: realismo é que é preciso. Toca a arrancar os anéis, e se for preciso largar um ou outro dedo, pois que tudo se faça com coragem e sem anestesia. Somos um povo de valentes.
(Nem queiras saber o que ultimamente me tenho lembrado daquela linha Durango-Silverton, e do pessoal que faz viagens intercontinentais para viajar nesses comboios, e de como aquela paisagem não é em nada superior à do Douro)
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04 julho 2011
correio das ilhas (9)
Olá, Rita
obrigada pela ligação ao texto do José António Saraiva, e pela série "saraiva aplicado" - o que já me ri hoje.
Obrigada, sobretudo, por me resolveres uma curiosidade que me atormenta há décadas: agora sei com quem casou a Susaninha do Quino!
Pois que sejam muito felizes, que é um gosto quando duas almas tão gémeas se encontram.
(eu sei que devia argumentar, e explicar para onde vão aqueles custos de pessoal e assim, e perguntar quem é essa classe média que faz férias em hotéis de cinco estrelas por default, mas o dia está muito bonito, e o almoço da quinta estava muito bom - embora com ingredientes baratinhos, eles provavelmente andaram a ler o José António Saraiva, ou talvez o Sarrazin quando, de cima dos seus muitos milhares de euros por mês, andou a explicar aos pobres como podiam viver com 10 euros por dia -, e portanto ficamos por aqui)
obrigada pela ligação ao texto do José António Saraiva, e pela série "saraiva aplicado" - o que já me ri hoje.
Obrigada, sobretudo, por me resolveres uma curiosidade que me atormenta há décadas: agora sei com quem casou a Susaninha do Quino!
Pois que sejam muito felizes, que é um gosto quando duas almas tão gémeas se encontram.
(eu sei que devia argumentar, e explicar para onde vão aqueles custos de pessoal e assim, e perguntar quem é essa classe média que faz férias em hotéis de cinco estrelas por default, mas o dia está muito bonito, e o almoço da quinta estava muito bom - embora com ingredientes baratinhos, eles provavelmente andaram a ler o José António Saraiva, ou talvez o Sarrazin quando, de cima dos seus muitos milhares de euros por mês, andou a explicar aos pobres como podiam viver com 10 euros por dia -, e portanto ficamos por aqui)
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03 julho 2011
correio das ilhas (8)
Olá, Rita
fim de semana em casa do meu irmão mais velho, em Guimarães. Este postal é pura baba, e nem te mostro as fotografias que ele faz. Ou os desenhos. Fico sempre dividida entre morrer de orgulho ou de inveja.
O escritório da casa está suspenso sobre a sala.Uma vez dormi naquele sofá, e lembrei-me muito do arquitecto do mosteiro da Batalha, que dormiu sob as abóbadas que tinha construído, para provar que eram seguras. O meu irmão é muito da gestão moderna, sabe delegar: ele faz, eu testo...
fim de semana em casa do meu irmão mais velho, em Guimarães. Este postal é pura baba, e nem te mostro as fotografias que ele faz. Ou os desenhos. Fico sempre dividida entre morrer de orgulho ou de inveja.
O escritório da casa está suspenso sobre a sala.Uma vez dormi naquele sofá, e lembrei-me muito do arquitecto do mosteiro da Batalha, que dormiu sob as abóbadas que tinha construído, para provar que eram seguras. O meu irmão é muito da gestão moderna, sabe delegar: ele faz, eu testo...
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correio das ilhas (7)
Olá, Rita
ontem esqueci-me de contar o momento mais engraçado do Governo Sombra: foi no intervalo, quando uma moça se dirigiu ao grupo onde estavam os excelentes governantes e alguns membros da plebe, e disse ao Carlos Vaz Marques que tinha ido ali só para o ver. Eu olhei para o Ricardo - uma estrela em queda livre! - e ofereci-me para lhe arranjar um psicólogo. Ele é muito realista: pediu que fosse dos baratos, que a vida prafrentemente não vai nunca mais ser como tem sido pratrasmente...
Se eu fosse a eles, mudava-me para Berlim: poder andar sossegado sem que ninguém queira fazer fotografias para a colecção de troféus, sem aquelas conversas penosas de "a minha filha queria fazer carreira na sua área"...
Vivendo e aprendendo: abordar as pessoas pelo seu lado "estrela" tem o seu quê de constrangedor. Prefiro abordá-las pelo seu lado "pessoa" - ou deixá-las ir, caso não tenham esse lado disponível.
ontem esqueci-me de contar o momento mais engraçado do Governo Sombra: foi no intervalo, quando uma moça se dirigiu ao grupo onde estavam os excelentes governantes e alguns membros da plebe, e disse ao Carlos Vaz Marques que tinha ido ali só para o ver. Eu olhei para o Ricardo - uma estrela em queda livre! - e ofereci-me para lhe arranjar um psicólogo. Ele é muito realista: pediu que fosse dos baratos, que a vida prafrentemente não vai nunca mais ser como tem sido pratrasmente...
Se eu fosse a eles, mudava-me para Berlim: poder andar sossegado sem que ninguém queira fazer fotografias para a colecção de troféus, sem aquelas conversas penosas de "a minha filha queria fazer carreira na sua área"...
Vivendo e aprendendo: abordar as pessoas pelo seu lado "estrela" tem o seu quê de constrangedor. Prefiro abordá-las pelo seu lado "pessoa" - ou deixá-las ir, caso não tenham esse lado disponível.
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02 julho 2011
correio das ilhas (6)
Olá, Rita
ontem o Governo Sombra esteve na Casa de Serralves.
Para que conste que a TSF é um espaço de pluralismo: mesmo antes do Governo Sombra tiveram lá o pessoal do FCP e do não sei quê Braga a falar. Até o Pinto da Costa, em pessoa! Falava tão à moda do Porto que parecia que fazia gala disso, e, pior ainda, eu tive dificuldade em compreendê-lo.
De modo que me sentei nas escadas a falar português neutro com uma amiga, mesmo junto àquele portão Arte Nova que foi uma complicação na altura em que a quinta foi comprada aos herdeiros, porque eles achavam que o portão era uma escultura e não parte da casa, e queriam fazer-se pagar por esse pequeno extra. Um belo portão, por sinal. Que fecha a parte central de uma passagem, mas tem aberturas do lado, de modo que se alguém quiser passar não precisa de arrombar. Acho muito bem pensado. Se calhar podiam fazer o mesmo com as caixas multibanco. Punham o dinheiro em cima da caixa, assim quem quisesse roubar levava sem estragar as paredes nem nada.
Ora bem: a sessão com o Pinto da Costa acabou tarde, nem deu tempo para arrefecer os cadeirões, e quis o destino, esse especialista em gracinhas de mau gosto, que o RAP se sentasse no mesmo lugar. Quando chegou aquele momento do "então, Ricardo, não sai um bibó Puôrto?!" e ele respondia "booom, se for um bibá cidade do Porto..." a minha vizinha comentou: "se ele soubesse onde está sentado..."
Falo em cadeiras, lembro-me logo do Salazar. Sim, porque já tive uma cadeira onde o Salazar esteve sentado. Tinha uma fitinha vermelha, para a distinguir das outras. Mas eu fui-me informar, e pareceu-me que ele não tinha nenhuma doença contagiosa, de modo que tirei a fitinha. Foi asneira: afinal estava provado que aquela era melhor que outras, mais resistente ao peso do poder e da responsabilidade. Não que isso sejam coisas que pesem especialmente nas minhas costas, mas nunca se sabe.
E por falar em piadas de mau gosto: andamos com um carro alugado. Dois dias depois de termos passado numa SCUT temos de ir aos correios pagar a dívida. Booom, temos três dias para o fazer. Portanto: entre o terceiro e o quinto dia depois de ter passado numa SCUT e feito um uso de, por exemplo, 25 cêntimos, tenho de ir ao correio pagar. Ainda não gastei muitos neurónios com isso, mas parece-me que terei de ir de cinco em cinco dias para as filas dos correios pagar uma dívidas. As filas já não eram muito convidativas antes desta história das SCUT, imagino como ficarão agora. Está cada vez mais difícil ser turista em Portugal. Talvez esse seja um bom argumento para voltar de vez...
ontem o Governo Sombra esteve na Casa de Serralves.
Para que conste que a TSF é um espaço de pluralismo: mesmo antes do Governo Sombra tiveram lá o pessoal do FCP e do não sei quê Braga a falar. Até o Pinto da Costa, em pessoa! Falava tão à moda do Porto que parecia que fazia gala disso, e, pior ainda, eu tive dificuldade em compreendê-lo.
De modo que me sentei nas escadas a falar português neutro com uma amiga, mesmo junto àquele portão Arte Nova que foi uma complicação na altura em que a quinta foi comprada aos herdeiros, porque eles achavam que o portão era uma escultura e não parte da casa, e queriam fazer-se pagar por esse pequeno extra. Um belo portão, por sinal. Que fecha a parte central de uma passagem, mas tem aberturas do lado, de modo que se alguém quiser passar não precisa de arrombar. Acho muito bem pensado. Se calhar podiam fazer o mesmo com as caixas multibanco. Punham o dinheiro em cima da caixa, assim quem quisesse roubar levava sem estragar as paredes nem nada.
Ora bem: a sessão com o Pinto da Costa acabou tarde, nem deu tempo para arrefecer os cadeirões, e quis o destino, esse especialista em gracinhas de mau gosto, que o RAP se sentasse no mesmo lugar. Quando chegou aquele momento do "então, Ricardo, não sai um bibó Puôrto?!" e ele respondia "booom, se for um bibá cidade do Porto..." a minha vizinha comentou: "se ele soubesse onde está sentado..."
Falo em cadeiras, lembro-me logo do Salazar. Sim, porque já tive uma cadeira onde o Salazar esteve sentado. Tinha uma fitinha vermelha, para a distinguir das outras. Mas eu fui-me informar, e pareceu-me que ele não tinha nenhuma doença contagiosa, de modo que tirei a fitinha. Foi asneira: afinal estava provado que aquela era melhor que outras, mais resistente ao peso do poder e da responsabilidade. Não que isso sejam coisas que pesem especialmente nas minhas costas, mas nunca se sabe.
E por falar em piadas de mau gosto: andamos com um carro alugado. Dois dias depois de termos passado numa SCUT temos de ir aos correios pagar a dívida. Booom, temos três dias para o fazer. Portanto: entre o terceiro e o quinto dia depois de ter passado numa SCUT e feito um uso de, por exemplo, 25 cêntimos, tenho de ir ao correio pagar. Ainda não gastei muitos neurónios com isso, mas parece-me que terei de ir de cinco em cinco dias para as filas dos correios pagar uma dívidas. As filas já não eram muito convidativas antes desta história das SCUT, imagino como ficarão agora. Está cada vez mais difícil ser turista em Portugal. Talvez esse seja um bom argumento para voltar de vez...
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01 julho 2011
correio das ilhas (5)
Olá, Rita
Acabei de descobrir que nem em Portugal posso ver os vídeos do youtube que são bloqueados pela Alemanha. Sniff sniff.
Acho que devias incluir isto na tua lista de considerações pró e contra sobre mudar para Portugal:
(sim, bem sei que já não vou a tempo com argumento tão convincente, mas pelo menos tentei...)
***
Estou a sair para ir buscar os miúdos ao aeroporto. Depois conto-te do taxista amoroso que me trouxe aqui. Não me digas que nem os preconceitos contra taxistas se me aguentam de pé? Isto estão tempos difíceis para opiniões firmes...
Acabei de descobrir que nem em Portugal posso ver os vídeos do youtube que são bloqueados pela Alemanha. Sniff sniff.
Acho que devias incluir isto na tua lista de considerações pró e contra sobre mudar para Portugal:
O passado persegue os estrangeirados retornados!
(sim, bem sei que já não vou a tempo com argumento tão convincente, mas pelo menos tentei...)
***
Estou a sair para ir buscar os miúdos ao aeroporto. Depois conto-te do taxista amoroso que me trouxe aqui. Não me digas que nem os preconceitos contra taxistas se me aguentam de pé? Isto estão tempos difíceis para opiniões firmes...
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30 junho 2011
correio das ilhas (4)
Olá, Rita
resumo do dia 4: a luz de Lisboa são os amigos.
(Mas a própria cidade é, digamos, engraçada. Hei-de ver se há outras onde o céu à saida do Metro é tão prodigiosamente azul.)
resumo do dia 4: a luz de Lisboa são os amigos.
(Mas a própria cidade é, digamos, engraçada. Hei-de ver se há outras onde o céu à saida do Metro é tão prodigiosamente azul.)
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29 junho 2011
correio das ilhas (3)
Olá, Rita
Hoje vi nêsperas à venda. Nêsperas!
Em Berlim, para encontrar nêsperas, tenho de fazer uma viagem intercontinental: de Charlottenburg a Wedding.
Hoje vi nêsperas à venda. Nêsperas!
Em Berlim, para encontrar nêsperas, tenho de fazer uma viagem intercontinental: de Charlottenburg a Wedding.
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28 junho 2011
correio das ilhas (2)
Olá, Rita
hoje ao almoço estive no oceano pacífico. Lindo: com águas muito claras, cheio de corais e peixinhos coloridos.
Depois passei a tarde na Gulbenkian. No museu pedi o áudio, e fiquei irritada com as referências frequentes a peças semelhantes, ou da mesma origem, ou do mesmo pintor, que estão no Metropolitan ou no Louvre. Primeiro, não falavam dos museus de Berlim (hihihi). Segundo, que espécie de complexo de inferioridade os leva a encostar-se assim a museus mais famosos? As peças valem o que valem, e quem não sabe apreciar, não precisa de ser informado com base numa lógica de marca. Enfim.
Hoje à noite temos prova de Castella: normal e com chá-verde.
Devia recomeçar o meu livro de dias felizes, tenho andado a juntar muito material.
hoje ao almoço estive no oceano pacífico. Lindo: com águas muito claras, cheio de corais e peixinhos coloridos.
Depois passei a tarde na Gulbenkian. No museu pedi o áudio, e fiquei irritada com as referências frequentes a peças semelhantes, ou da mesma origem, ou do mesmo pintor, que estão no Metropolitan ou no Louvre. Primeiro, não falavam dos museus de Berlim (hihihi). Segundo, que espécie de complexo de inferioridade os leva a encostar-se assim a museus mais famosos? As peças valem o que valem, e quem não sabe apreciar, não precisa de ser informado com base numa lógica de marca. Enfim.
Hoje à noite temos prova de Castella: normal e com chá-verde.
Devia recomeçar o meu livro de dias felizes, tenho andado a juntar muito material.
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a escrita ou a vida
Há muitos anos comecei a fazer um calendário especial. Tinha uma daquelas agendas sem ano e com muito espaço para cada dia. Sempre que me acontecia alguma coisa boa, apontava no dia correspondente. Queria juntar um ano inteiro de dias felizes.
Mas depois comecei a ter filhos e fui ultrapassada pela felicidade em forma de "ó manhe" e fraldas e papas e beijinhos e olhares cheios de confiança e tudo o que faz parte dessa aventura.
Tanta, que nem dava tempo para passar ao papel.
Mas depois comecei a ter filhos e fui ultrapassada pela felicidade em forma de "ó manhe" e fraldas e papas e beijinhos e olhares cheios de confiança e tudo o que faz parte dessa aventura.
Tanta, que nem dava tempo para passar ao papel.
27 junho 2011
correio das ilhas (1)
Olá, Rita
Ainda só estou há dois dias em Portugal, e já percebo bem que queiras mudar para cá. Até a mim apetecia...
Ontem, por exemplo, a jantar com alguns dos amigos que prepararam o casamento do século (melhor dizendo: o casamento da outra dimensão), no meio de muita risota, boa música e óptima comida, cunhámos um nome: "o nosso casamento". Não saberia melhor maneira para exprimir o que aconteceu naquela festa memorável. No regresso a casa vinha tão feliz que até me apetecia conversar com o motorista do táxi.
E esta tarde aconteceu-me um desses momentos que tornam a vida muito especial. Uma conversa com alguém com quem já simpatizava muito, que conhecia dos blogues, e que se revelou muito melhor - ainda muito melhor - do que já me parecia. No regresso a casa não me deu um ímpeto de conversar com o motorista de táxi porque fui o tempo todo a decidir entre cantar "gracias a la vida" ou "com um brilhozinho nos olhos". Gracias a la vida porque hoje soube-me a tanto!
Apesar do calor (ah, as saudades que tenho das árvores de Berlim!) (não, não disse nada) fui da sede da CGD até à Gulbenkian a pé, para dar com o nariz na porta: segunda-feira. Então continuei para o Saldanha, passando por uns jacarandás já sem flores, com os ramos negros contorcidos no ar como esculturas. Lindos.
Comprei a Volta ao Mundo de Junho, com a reportagem sobre Berlim, Diziam que eu "estiquei o passo" e falavam do meu lado alemão "bem presente na forma como encaminha rapidamente o grupo para o acesso ao centro do poder da Alemanha". E depois queixam-se que a Merkel isto e aquilo. Se os portugueses acham que eu tenho um lado de eficência alemã, o que é que a Merkel não há-de pensar deles?
Em todo o caso, aprendi a lição: visitas com portugueses, em Berlim, só de Segway...
Ainda só estou há dois dias em Portugal, e já percebo bem que queiras mudar para cá. Até a mim apetecia...
Ontem, por exemplo, a jantar com alguns dos amigos que prepararam o casamento do século (melhor dizendo: o casamento da outra dimensão), no meio de muita risota, boa música e óptima comida, cunhámos um nome: "o nosso casamento". Não saberia melhor maneira para exprimir o que aconteceu naquela festa memorável. No regresso a casa vinha tão feliz que até me apetecia conversar com o motorista do táxi.
E esta tarde aconteceu-me um desses momentos que tornam a vida muito especial. Uma conversa com alguém com quem já simpatizava muito, que conhecia dos blogues, e que se revelou muito melhor - ainda muito melhor - do que já me parecia. No regresso a casa não me deu um ímpeto de conversar com o motorista de táxi porque fui o tempo todo a decidir entre cantar "gracias a la vida" ou "com um brilhozinho nos olhos". Gracias a la vida porque hoje soube-me a tanto!
Apesar do calor (ah, as saudades que tenho das árvores de Berlim!) (não, não disse nada) fui da sede da CGD até à Gulbenkian a pé, para dar com o nariz na porta: segunda-feira. Então continuei para o Saldanha, passando por uns jacarandás já sem flores, com os ramos negros contorcidos no ar como esculturas. Lindos.
Comprei a Volta ao Mundo de Junho, com a reportagem sobre Berlim, Diziam que eu "estiquei o passo" e falavam do meu lado alemão "bem presente na forma como encaminha rapidamente o grupo para o acesso ao centro do poder da Alemanha". E depois queixam-se que a Merkel isto e aquilo. Se os portugueses acham que eu tenho um lado de eficência alemã, o que é que a Merkel não há-de pensar deles?
Em todo o caso, aprendi a lição: visitas com portugueses, em Berlim, só de Segway...
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correio das ilhas,
viagens
correio das ilhas
Surpresa, surpresa! Este blogue costuma parar quando eu vou de férias, mas este ano abro uma excepção. Não direi que é por uma boa causa, mais depressa diria que é por uma boa intenção. Sim: por causa de um post que a Rita Dantas escreveu há dias (*), decidi que este ano lhe mando postalinhos de férias. Da minha ilha para a dela.
(*) Ela sabe a que post me refiro. Quem não sabe, pois vá lá cuscar à vontadinha: assim como assim, naquele blogue só se perdem os posts que não são lidos.
(*) Ela sabe a que post me refiro. Quem não sabe, pois vá lá cuscar à vontadinha: assim como assim, naquele blogue só se perdem os posts que não são lidos.
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25 junho 2011
contagem decrescente
Amanhã de madrugada saio para férias em Portugal. E muito bem, vêm mesmo a calhar, porque tenho ainda tanta tanta tanta coisa para fazer, que depois da maratona de hoje vou ficar a precisar muito de férias.
Onde estará a minha lista de livros que quero comprar em Portugal? Toca a procurar, para acrescentar mais este: O Advogado do Diabo, de Ambrose Bierce. Como é que estas pérolas me têm andado a escapar há tantas décadas?
Onde estará a minha lista de livros que quero comprar em Portugal? Toca a procurar, para acrescentar mais este: O Advogado do Diabo, de Ambrose Bierce. Como é que estas pérolas me têm andado a escapar há tantas décadas?
24 junho 2011
a tradução do amor
Eu a repetir-me quando se trata da Pina Bausch: fantástico.
E agora, um pouco de análise linguística, para não pensarem que eu conseguia sair deste post discretamente e sem divagações:
Gosto: o gesto de "I understand" (quase se vê a lampadinha a acender no cérebro)
Não gosto: o gesto de "I love" (o que estão ali a fazer aqueles punhos fechados? Se me deixassem mandar - agarrem-me, que eu.. - para "I love" cruzava as mãos sobre o coração e girava-as com delicadeza para a frente) (para "amizade" fazia o mesmo, mas só com uma mão) (ó Heleninha, e de resto está tudo bem, não tens mais nada que fazer hoje?) (tenho, tenho, então até loguinho)
23 junho 2011
alguns apontamentos sobre a reforma do ensino na Alemanha
Pediram-me notícias sobre o ambiente em redor de uma proposta de reforma do ensino alemão descrita neste artigo (em inglês). Com pliiiize e tudo: irrecusável. Pois aqui vai, mas aviso desde já que isto está longe de ser a minha área, e que agradeço todos os comentários que fizerem a corrigir e a complementar esta informação.
1. O Ensino é matéria das Länder. Não há uma política de ensino nacional. O que faz com que um aluno que já ande no segundo ano do liceu, na Turíngia, ao ir morar para Berlim tenha de voltar à escola primária (que vai até ao sexto de escolaridade), ou que as médias finais do secundário sejam impossíveis de comparar a nível nacional porque cada Estado tem o seu próprio nível de exigência - o que cria por exemplo injustiças no acesso à universidade, quando esta se baseia na nota.
2. Na maior parte dos Estados há uma selecção dos alunos ao fim da escola primária (geralmente 4 anos). Ou seja, aos 10 anos de idade, os miúdos são divididos entre os que têm estaleca para curso superior, os que em princípio terão mais jeito para uma formação técnica ou comercial, podendo eventualmente passar para o liceu (ou seja: via de acesso à universidade) se entretanto derem um bom salto no seu desenvolvimento, e os que... bom, aqui há lugar para muitos eufemismos, mas de um modo geral os atingidos sentem assim: "os que nunca hão-de ser ninguém na vida". Experimentem ser professores de uma turma de pessoas a quem aos dez anos foi dito que eles não dão mais que aquilo. E que vêm de famílias com situações complicadas, e que não tiveram pais que soubessem lutar por eles, ou porque nem sequer falam alemão ou porque estão bloqueados por alguma situação pessoal dramática.
Em suma: do meu ponto de vista, a "Hauptschule", o ramo escolar menos exigente, digamos assim, tem na prática um efeito "higiénico", porque retira das outras escolas os alunos que são vítimas de ambientes familiares muito difíceis, os que falam mal alemão, os que dão problemas. É uma leprosaria do ensino. Claro que há políticos que dizem que não, que nessa escola os alunos mais fracos não são sujeitos ao stress da concorrência e têm a possibilidade de se desenvolverem segundo as suas capacidades. Pois será, mas também conheço professores que se alegram quando os alunos fazem 14 anos porque já podem ir para programas prisionais de correcção, ou lá como isso se chama.
Ao juntar estes dois ramos, que é a proposta referida no artigo em inglês, o problema de auto-estima e de self fulfilling prophecy dos alunos de menor rendimento dilui-se um pouco, mas surgem outros, porque vai haver cada vez mais pressão dos pais para colocar os filhos no liceu. Um exemplo prático: conheço uma miúda que está a tomar ritalina para aguentar o ritmo e a exigência do liceu. Antes isso que ficar na Realschule (o ramo intermédio) "no meio daqueles brutamontes que arrumavam com a minha filha em dois tempos" - como dizia a mãe dela.
3. Há quem defenda que o "liceu" (Gymnasium) e não a Universidade é que é o viveiro de elite por excelência, e que esse é um viveiro indispensável a uma Alemanha que pouco mais tem para concorrer no mercado mundial para além das ideias e capacidades do seu povo. Aos melhores devem ser dadas todas as condições para se tornarem ainda melhores, e é errado - e contraproducente para os interesses do país - obrigá-los a marcar passo para que os alunos mais fracos consigam acompanhar. Os melhores devem ser "seleccionados" o mais cedo possível, para lhes oferecer e exigir o máximo.
Há quem argumente que as crianças têm diferentes ritmos de desenvolvimento, e que não se podem fechar as portas tão cedo. Outros ainda falam das competências sociais, e que há mais vida para além do rendimento escolar.
4. Contudo, paralelamente a este sistema de três níveis de ensino, há um tipo de escola diferente: a escola unificada, que junta todos os alunos até ao décimo de escolaridade, após o qual uns saem para cursos profissionalizantes e outros continuam para a fase final do ensino secundário, fazendo o exame final do liceu (o famoso Abi), que dará acesso à universidade.
O Spiegel dá o exemplo de uma escola destas, recentemente criada na Renânia do Norte–Westfália devido a uma mudança no governo (artigo em alemão): formas de ensino abertas, turmas pequenas e muitos assistentes sociais, do 5º ao 10º ano. A directora recebe imensos telefonemas de famílias que mesmo morando longe querem matricular os filhos nessa escola, e de pedagogos em toda a Alemanha, que querem vir participar nesse projecto.
5. A própria concepção do ensino está a mudar: do tradicional marra-despeja para uma aprendizagem individualizada em que o professor se entende não como aquele que ensina mas como aquele que acompanha o aluno no seu processo individual de aprendizagem. Nesse caso, a questão do ensino unificado versus duas ou três vias paralelas perde importância, porque os alunos podem estar todos juntos numa turma, aprendendo cada um segundo as suas capacidades pessoais. Embora possa acontecer - e acontece, conheci alguns casos na Jenaplan - que os alunos não se dêem bem com este sistema tão livre, e precisem da disciplina e da pressão do grupo para manterem um certo ritmo.
6. Em Abril de 2011 foram publicados os resultados de um grande inquérito sobre a educação, organizado pela Fundação Bertelsmann, com a possibilidade de responder em alemão, turco ou russo. Participaram 480.000 pessoas, mas só 130.000 preencheram o formulário completo, e só estas respostas foram consideradas. Síntese dos resultados, a que chamaram "dez teses e exigências" (artigo do Spiegel, em alemão) (o tradutor, Speedy Gonzalez, manda cumprimentos):
1. O Ensino é matéria das Länder. Não há uma política de ensino nacional. O que faz com que um aluno que já ande no segundo ano do liceu, na Turíngia, ao ir morar para Berlim tenha de voltar à escola primária (que vai até ao sexto de escolaridade), ou que as médias finais do secundário sejam impossíveis de comparar a nível nacional porque cada Estado tem o seu próprio nível de exigência - o que cria por exemplo injustiças no acesso à universidade, quando esta se baseia na nota.
2. Na maior parte dos Estados há uma selecção dos alunos ao fim da escola primária (geralmente 4 anos). Ou seja, aos 10 anos de idade, os miúdos são divididos entre os que têm estaleca para curso superior, os que em princípio terão mais jeito para uma formação técnica ou comercial, podendo eventualmente passar para o liceu (ou seja: via de acesso à universidade) se entretanto derem um bom salto no seu desenvolvimento, e os que... bom, aqui há lugar para muitos eufemismos, mas de um modo geral os atingidos sentem assim: "os que nunca hão-de ser ninguém na vida". Experimentem ser professores de uma turma de pessoas a quem aos dez anos foi dito que eles não dão mais que aquilo. E que vêm de famílias com situações complicadas, e que não tiveram pais que soubessem lutar por eles, ou porque nem sequer falam alemão ou porque estão bloqueados por alguma situação pessoal dramática.
Em suma: do meu ponto de vista, a "Hauptschule", o ramo escolar menos exigente, digamos assim, tem na prática um efeito "higiénico", porque retira das outras escolas os alunos que são vítimas de ambientes familiares muito difíceis, os que falam mal alemão, os que dão problemas. É uma leprosaria do ensino. Claro que há políticos que dizem que não, que nessa escola os alunos mais fracos não são sujeitos ao stress da concorrência e têm a possibilidade de se desenvolverem segundo as suas capacidades. Pois será, mas também conheço professores que se alegram quando os alunos fazem 14 anos porque já podem ir para programas prisionais de correcção, ou lá como isso se chama.
Ao juntar estes dois ramos, que é a proposta referida no artigo em inglês, o problema de auto-estima e de self fulfilling prophecy dos alunos de menor rendimento dilui-se um pouco, mas surgem outros, porque vai haver cada vez mais pressão dos pais para colocar os filhos no liceu. Um exemplo prático: conheço uma miúda que está a tomar ritalina para aguentar o ritmo e a exigência do liceu. Antes isso que ficar na Realschule (o ramo intermédio) "no meio daqueles brutamontes que arrumavam com a minha filha em dois tempos" - como dizia a mãe dela.
3. Há quem defenda que o "liceu" (Gymnasium) e não a Universidade é que é o viveiro de elite por excelência, e que esse é um viveiro indispensável a uma Alemanha que pouco mais tem para concorrer no mercado mundial para além das ideias e capacidades do seu povo. Aos melhores devem ser dadas todas as condições para se tornarem ainda melhores, e é errado - e contraproducente para os interesses do país - obrigá-los a marcar passo para que os alunos mais fracos consigam acompanhar. Os melhores devem ser "seleccionados" o mais cedo possível, para lhes oferecer e exigir o máximo.
Há quem argumente que as crianças têm diferentes ritmos de desenvolvimento, e que não se podem fechar as portas tão cedo. Outros ainda falam das competências sociais, e que há mais vida para além do rendimento escolar.
4. Contudo, paralelamente a este sistema de três níveis de ensino, há um tipo de escola diferente: a escola unificada, que junta todos os alunos até ao décimo de escolaridade, após o qual uns saem para cursos profissionalizantes e outros continuam para a fase final do ensino secundário, fazendo o exame final do liceu (o famoso Abi), que dará acesso à universidade.
O Spiegel dá o exemplo de uma escola destas, recentemente criada na Renânia do Norte–Westfália devido a uma mudança no governo (artigo em alemão): formas de ensino abertas, turmas pequenas e muitos assistentes sociais, do 5º ao 10º ano. A directora recebe imensos telefonemas de famílias que mesmo morando longe querem matricular os filhos nessa escola, e de pedagogos em toda a Alemanha, que querem vir participar nesse projecto.
5. A própria concepção do ensino está a mudar: do tradicional marra-despeja para uma aprendizagem individualizada em que o professor se entende não como aquele que ensina mas como aquele que acompanha o aluno no seu processo individual de aprendizagem. Nesse caso, a questão do ensino unificado versus duas ou três vias paralelas perde importância, porque os alunos podem estar todos juntos numa turma, aprendendo cada um segundo as suas capacidades pessoais. Embora possa acontecer - e acontece, conheci alguns casos na Jenaplan - que os alunos não se dêem bem com este sistema tão livre, e precisem da disciplina e da pressão do grupo para manterem um certo ritmo.
6. Em Abril de 2011 foram publicados os resultados de um grande inquérito sobre a educação, organizado pela Fundação Bertelsmann, com a possibilidade de responder em alemão, turco ou russo. Participaram 480.000 pessoas, mas só 130.000 preencheram o formulário completo, e só estas respostas foram consideradas. Síntese dos resultados, a que chamaram "dez teses e exigências" (artigo do Spiegel, em alemão) (o tradutor, Speedy Gonzalez, manda cumprimentos):
- A maioria dá grande importância à instrução e formação (cerca de 2/3 dos inquiridos atribuem-lhe, pessoalmente, uma importância extraordinária).
- Para a maioria, a escola tem prioridade na área da formação. 70% entendem que é preciso investir mais. Em segundo lugar aparecem os infantários e as creches.
- Em 80% das respostas aponta-se para uma baixa ou muito baixa predisposição dos políticos para operar uma reforma no ensino. 57% acham que os professores teriam a coragem de fazer essas reformas, mas faltam incentivos para os professores mais empenhados. Segundo os autores, os próprios inquiridos estão muito entusiastas quanto a essa mudança.
- Uma das tarefas centrais do sistema educativo é permitir a ascensão social aos mais desprotegidos. Esta opinião é expressa em particular por um grande número de inquiridos com baixos níveis de formação e salarial.
- Mais de 2/3 dos inquiridos estariam dispostos a pagar mais impostos para melhorar o nível do ensino. Grande parte desses são alunos, professores e descendentes de emigrantes turcos. Só uma minoria apoia aumentos de impostos para proteger o ambiente, combater o crime e melhorar os cuidados de saúde. A maioria aceita propinas universitárias conforme o rendimento dos pais.
- Quase 90% concordam com a obrigatoriedade da frequência de um jardim infantil, e 2/3 concordam com a possibilidade de uma passagem posterior para um nível de ensino mais exigente. Quase 50% defendem que a escola unificada vá até ao 6º ano, 1/4 entende que devia ser até ao 9º ou 10º.
- 80% defendem a escola durante o dia inteiro, só 19% defendem a escola a meio-dia.
- Nove em dez querem exames finais comuns a toda a Alemanha. Segundo eles, as diferenças entre os vários Estados não contribuem para melhorar o sistema educativo.
- Nove em dez aceitam a integração de crianças com deficiência física nas turmas normais, mas cerca de 50% não se conseguem imaginar a trabalhar bem numa turma com alunos com deficiência mental ou comportamento anormal. O grupo de inquiridos com raízes turcas mostrou-se particulamente céptico quanto a isso.
- Uns 50% manifestaram-se contra uma distribuição equitativa dos recursos. Escolas em bairros problemáticos devem receber maior apoio.
o tempo das moscas gordas
Entram pelas janelas abertas, carregadas de ovos, lentas e tontas.
E eu corro atrás delas de mata-moscas em riste, tonta também.
Odeio.
E eu corro atrás delas de mata-moscas em riste, tonta também.
Odeio.
22 junho 2011
eu, médium
Na secção "conversas em dia" da coluna da direita há vários blogues que já morreram ou estão em coma profundo.
21 junho 2011
a superioridade musical dos portugueses
Ontem o meu coro ensaiou Luci Care Luci Belle, uma peça de Mozart. Esta (mas não assim, claro, não pensem que):
Trata de um mal de amor, como de costume, que é provavelmente o problema que mais contributos tem dado ao espólio artístico mundial.
Estava eu a cantar, e a achar que o Mozart não percebia nada do assunto. Devia ser muito novo, sei lá, havia de ter uns doze anos e estar a compor sobre um tema que terá lido numa revista. Pois admite-se lá que alguém que está a morrer de amor o cante numa modinha destas?
Mal de amor, o que se chama mal de amor, é assim:
os meus olhos são dois peixes
navegam numa lagoa
choram lágrimas de sangue
por uma certa pessoa
E isto cantado com uma melodia bem recheada de trilos e apogiaturas, ora vamos lá remexer na ferida como deve ser. E a duas vozes com um simples intervalo de terceira, o brutamontinhos da composição (o brutamontão é o intervalo de quinta contínuo), com a primeira voz a erguer-se estridente, bárbara. Para que não haja dúvidas que está a doer mesmo muito.
De onde se prova que Mozart, aí pelos seus doze anos, calculo eu, ainda tinha de aprender muito com os portugueses. Mas não: por causa daquela mania que eles tinham de não sair da Europa central, não chegou a contactar com a nossa cultura, perdendo assim uma oportunidade única de enriquecimento que teria com certeza projectado a música barroca para o limiar da modernidade.
Trata de um mal de amor, como de costume, que é provavelmente o problema que mais contributos tem dado ao espólio artístico mundial.
Estava eu a cantar, e a achar que o Mozart não percebia nada do assunto. Devia ser muito novo, sei lá, havia de ter uns doze anos e estar a compor sobre um tema que terá lido numa revista. Pois admite-se lá que alguém que está a morrer de amor o cante numa modinha destas?
Mal de amor, o que se chama mal de amor, é assim:
os meus olhos são dois peixes
navegam numa lagoa
choram lágrimas de sangue
por uma certa pessoa
E isto cantado com uma melodia bem recheada de trilos e apogiaturas, ora vamos lá remexer na ferida como deve ser. E a duas vozes com um simples intervalo de terceira, o brutamontinhos da composição (o brutamontão é o intervalo de quinta contínuo), com a primeira voz a erguer-se estridente, bárbara. Para que não haja dúvidas que está a doer mesmo muito.
De onde se prova que Mozart, aí pelos seus doze anos, calculo eu, ainda tinha de aprender muito com os portugueses. Mas não: por causa daquela mania que eles tinham de não sair da Europa central, não chegou a contactar com a nossa cultura, perdendo assim uma oportunidade única de enriquecimento que teria com certeza projectado a música barroca para o limiar da modernidade.
20 junho 2011
e quando parecia que já estava tudo inventado...
E quando parecia que já estava tudo inventado, vem a Lisa Ekdahl e inventa este Night and Day sem calorias.
Como Coca Cola zero, como cantar com um corpete que não deixa abrir o peito. Como se fosse preciso cantar em surdina para não despertar as crianças.
E, no entanto, gosto. Quem me entender...
Como Coca Cola zero, como cantar com um corpete que não deixa abrir o peito. Como se fosse preciso cantar em surdina para não despertar as crianças.
E, no entanto, gosto. Quem me entender...
19 junho 2011
pequeno-almoço no Ritz-Carlton
Ontem, o pai do nosso Miguelito (o Miguelito que eu queria adoptar porque é amoroso, mas depois de descobrir que ele não tem problema de dar 70 euros para comprar uma t-shirt de um clube de futebol decidi que preferia ser adoptada por ele) veio cá jantar com a sua namorada, e hoje pois lá fomos tomar o pequeno-almoço com eles, no hotel das estrelas de cinema onde ficaram alojados. Grande troca: um bocadinho de bacalhau e tal por um pequeno-almoço no Ritz-Carlton pago pelos colombianos. Estas relações económicas internacionais assim desiguais é que fazem com que a América Latina não consiga sair da cepa torta.
À porta do hotel havia um rolls-royce. "Isto promete" comentou a mais fútil das minhas costelas, mas quando entrámos no restaurante o buffet saltou-me para dentro dos olhos de tal maneira que até me esqueci de verificar se os Brangelina estariam por ali.
Para que conste: um pequeno-almoço formidável.
Só foi pena estar marcado para as 10 e nós termos chegado um bocadinho atrasados, e o pessoal ter começado a arrumar as mesas às 10:30 para ter tudo preparado para o brunch às 11. Um stress, até me lembrou a Páscoa na minha aldeia minhota, com as mesas cheias de comida boa, e eu sem saber por onde começar.
Em desespero, trouxemos montes de comida para a mesa, que acabámos por não conseguir comer. Pedimos um doggy-bag para levar os restos para casa. E quase quase pedimos que já agora aproveitassem e metessem um par de lagostas que estavam na mesa para o brunch. O pai do Miguel é um brincalhão, pouco faltou para que o fizesse.
À despedida começou a chorar. Parece que o filho dele se sente muito bem na nossa casa, e ele está muito agradecido por isso. Ando a fazer alguma coisa mal, duas, aliás:
- Não me dei conta que estava a tratar o miúdo assim tão bem. Ora, isso preocupa-me. Se não tenho a minha simpatia sob controlo, um dia destes o pessoal começa a meter conversa comigo na rua, e logo eu, que não sou nada dada a essas aberturas.
- Nunca me aconteceu chorar por causa de outras pessoas serem simpáticas para os meus filhos. Serei uma ingrata criatura?
À porta do hotel havia um rolls-royce. "Isto promete" comentou a mais fútil das minhas costelas, mas quando entrámos no restaurante o buffet saltou-me para dentro dos olhos de tal maneira que até me esqueci de verificar se os Brangelina estariam por ali.
Para que conste: um pequeno-almoço formidável.
Só foi pena estar marcado para as 10 e nós termos chegado um bocadinho atrasados, e o pessoal ter começado a arrumar as mesas às 10:30 para ter tudo preparado para o brunch às 11. Um stress, até me lembrou a Páscoa na minha aldeia minhota, com as mesas cheias de comida boa, e eu sem saber por onde começar.
Em desespero, trouxemos montes de comida para a mesa, que acabámos por não conseguir comer. Pedimos um doggy-bag para levar os restos para casa. E quase quase pedimos que já agora aproveitassem e metessem um par de lagostas que estavam na mesa para o brunch. O pai do Miguel é um brincalhão, pouco faltou para que o fizesse.
À despedida começou a chorar. Parece que o filho dele se sente muito bem na nossa casa, e ele está muito agradecido por isso. Ando a fazer alguma coisa mal, duas, aliás:
- Não me dei conta que estava a tratar o miúdo assim tão bem. Ora, isso preocupa-me. Se não tenho a minha simpatia sob controlo, um dia destes o pessoal começa a meter conversa comigo na rua, e logo eu, que não sou nada dada a essas aberturas.
- Nunca me aconteceu chorar por causa de outras pessoas serem simpáticas para os meus filhos. Serei uma ingrata criatura?
o Capitalismo em várias versões
(texto descaradamente roubado ao Carlos Barbosa de Oliveira)
CAPITALISMO AMERICANO
Você tem duas vacas.Vende uma e força a outra a produzir o leite de quatro vacas.Fica surpreso quando ela morre.
CAPITALISMO JAPONÊS
Você tem duas vacas.Redesenha-as para que tenham um décimo do tamanho de uma vaca normal eproduzam 20 vezes mais leite.Depois cria bonequinhos chamados Vaquimon e vende-os para o mundo inteiro.
CAPITALISMO BRITÂNICO
Você tem duas vacas.As duas são loucas.
CAPITALISMO HOLANDÊS
Você tem duas vacasElas vivem juntas, em união de facto, não gostam de bois e tudo bem.
CAPITALISMO ALEMÃO
Você tem duas vacas.Elas produzem leite regularmente, segundo padrões de quantidade e horáriopreviamente estabelecido, de forma precisa e lucrativa.Mas o que o alemão queria mesmo era criar porcos.
CAPITALISMO RUSSO
Você tem duas vacas.Conta-as e vê que tem cinco.Conta de novo e vê que tem 42.Conta de novo e vê que tem 12 vacas.Você pára de contar e abre outra garrafa de vodca.
CAPITALISMO SUÍÇO
Você tem 500 vacas, mas nenhuma é sua.Você cobra para guardar as vacas dos outros.
CAPITALISMO ESPANHOL
Você tem muito orgulho de ter duas vacas.
CAPITALISMO BRASILEIRO
Você tem duas vacas.Ensina uma a jogar futebol e depois exporta para a Seleção Portuguesa...
CAPITALISMO HINDU
Você tem duas vacas.Ai de quem tocar nelas.
CAPITALISMO PORTUGUÊS
Você tem duas vacas.Foram compradas através do Fundo Social Europeu.O governo cria O IVVA - Imposto de Valor Vacuum Acrescentado.Você vende uma vaca para pagar o imposto.Um fiscal vem e multa-o, porque embora você tenha pago correctamente oIVVA, o valor era pelo número de vacas presumidas e não pelo de vacas reais.O Ministério das Finanças, por meio de dados também presumidos do seuconsumo de leite, queijo, sapatos de couro, botões, presume que você tenha200 vacas. Para se livrar do sarilho, você dá a vaca que resta ao inspectordas finanças para que ele feche os olhos e dê um jeitinho...
CAPITALISMO AMERICANO
Você tem duas vacas.Vende uma e força a outra a produzir o leite de quatro vacas.Fica surpreso quando ela morre.
CAPITALISMO JAPONÊS
Você tem duas vacas.Redesenha-as para que tenham um décimo do tamanho de uma vaca normal eproduzam 20 vezes mais leite.Depois cria bonequinhos chamados Vaquimon e vende-os para o mundo inteiro.
CAPITALISMO BRITÂNICO
Você tem duas vacas.As duas são loucas.
CAPITALISMO HOLANDÊS
Você tem duas vacasElas vivem juntas, em união de facto, não gostam de bois e tudo bem.
CAPITALISMO ALEMÃO
Você tem duas vacas.Elas produzem leite regularmente, segundo padrões de quantidade e horáriopreviamente estabelecido, de forma precisa e lucrativa.Mas o que o alemão queria mesmo era criar porcos.
CAPITALISMO RUSSO
Você tem duas vacas.Conta-as e vê que tem cinco.Conta de novo e vê que tem 42.Conta de novo e vê que tem 12 vacas.Você pára de contar e abre outra garrafa de vodca.
CAPITALISMO SUÍÇO
Você tem 500 vacas, mas nenhuma é sua.Você cobra para guardar as vacas dos outros.
CAPITALISMO ESPANHOL
Você tem muito orgulho de ter duas vacas.
CAPITALISMO BRASILEIRO
Você tem duas vacas.Ensina uma a jogar futebol e depois exporta para a Seleção Portuguesa...
CAPITALISMO HINDU
Você tem duas vacas.Ai de quem tocar nelas.
CAPITALISMO PORTUGUÊS
Você tem duas vacas.Foram compradas através do Fundo Social Europeu.O governo cria O IVVA - Imposto de Valor Vacuum Acrescentado.Você vende uma vaca para pagar o imposto.Um fiscal vem e multa-o, porque embora você tenha pago correctamente oIVVA, o valor era pelo número de vacas presumidas e não pelo de vacas reais.O Ministério das Finanças, por meio de dados também presumidos do seuconsumo de leite, queijo, sapatos de couro, botões, presume que você tenha200 vacas. Para se livrar do sarilho, você dá a vaca que resta ao inspectordas finanças para que ele feche os olhos e dê um jeitinho...
maldade
Num cartaz alemão, sobre o campeonato mundial de futebol feminino:
Vamos vingar-vos, rapazes!
Quanto mais olho para isto, mais vontade de rir me dá.
18 junho 2011
eu bem vos digo que em vez de virem aqui haviam de ir ao Boas Intenções
A Rita, fantástica como sempre.
Só uma pequena amostra (mas leiam o post todo, ou melhor - conselho só para os amigos -, o blogue todo):
O meu favorito, que o Google Imagens recusou com um fervor claramente conspiratório, fotografado contra os meus montes. Naquele monte há uma freguesia chamada Mulher Boa. Eu sou de uma mais abaixo. I know, I know.
Só uma pequena amostra (mas leiam o post todo, ou melhor - conselho só para os amigos -, o blogue todo):
O meu favorito, que o Google Imagens recusou com um fervor claramente conspiratório, fotografado contra os meus montes. Naquele monte há uma freguesia chamada Mulher Boa. Eu sou de uma mais abaixo. I know, I know.
juntando o útil ao agradável
Neste site podem escrever palavras ou frases em vários idiomas, e ouvir como é a respectiva pronúncia.
Esta é a parte útil.
Depois, se quiserem divertir-se um bocadinho, podem escrever palavras ou frases num idioma e ouvir como soam noutro. Por exemplo: ponham o Alan, australiano, a dizer "o rato roeu a rolha da garrafa".
Esta era para ser a parte agradável, mas atenção: uma pessoa começa a brincar, e sem dar por ela fica com a vida toda atrasada.
Esta é a parte útil.
Depois, se quiserem divertir-se um bocadinho, podem escrever palavras ou frases num idioma e ouvir como soam noutro. Por exemplo: ponham o Alan, australiano, a dizer "o rato roeu a rolha da garrafa".
Esta era para ser a parte agradável, mas atenção: uma pessoa começa a brincar, e sem dar por ela fica com a vida toda atrasada.
17 junho 2011
a responsabilidade social do capital
Esta semana o Matthias está a fazer o estágio numa empresa, como é obrigatório no seu ano (contei aqui e aqui). Decidiu que queria estagiar na área de engenharia, perguntou aos primos engenheiros o que recomendavam, e eles indicaram um gabinete berlinense que tem muito boa fama.
Informou-se, telefonou, concorreu, insistiu - deram-lhe o lugar.
Tem trabalhado seis horas por dia, e mostra-me todo orgulhoso o projecto: vários edifícios, este é o Bismarck, este é o Palais, este é o andar que eu calculei hoje.
Está a calcular o betão necessário para as estruturas. No princípio tinha de fazer tudo manualmente, mas agora ensinaram-no a trabalhar com CAD, o que torna o processo muito mais rápido e eficiente.
- Acho admirável que as empresas tenham tempo para gastar com miúdos da vossa idade, comentei eu.
- Porquê?! Faço-lhes o trabalho de graça!, respondeu ele, muito zangado.
Digo então aqui, muito baixinho para ele não ouvir: apetecia-me ir àquela empresa dar beijinhos a todos, especialmente ao Alexander que é o seu tutor, e mais ao português simpático que trata dos computadores, porque lhe ensinam imenso e sobretudo sobretudo porque lhe dão a sensação de ter valor e ser útil.
E se calhar percebi alguma coisa mal, porque o Alexander já lhe ofereceu um emprego de Verão. Ao meu rapazinho de 14 anos.
Informou-se, telefonou, concorreu, insistiu - deram-lhe o lugar.
Tem trabalhado seis horas por dia, e mostra-me todo orgulhoso o projecto: vários edifícios, este é o Bismarck, este é o Palais, este é o andar que eu calculei hoje.
Está a calcular o betão necessário para as estruturas. No princípio tinha de fazer tudo manualmente, mas agora ensinaram-no a trabalhar com CAD, o que torna o processo muito mais rápido e eficiente.
- Acho admirável que as empresas tenham tempo para gastar com miúdos da vossa idade, comentei eu.
- Porquê?! Faço-lhes o trabalho de graça!, respondeu ele, muito zangado.
Digo então aqui, muito baixinho para ele não ouvir: apetecia-me ir àquela empresa dar beijinhos a todos, especialmente ao Alexander que é o seu tutor, e mais ao português simpático que trata dos computadores, porque lhe ensinam imenso e sobretudo sobretudo porque lhe dão a sensação de ter valor e ser útil.
E se calhar percebi alguma coisa mal, porque o Alexander já lhe ofereceu um emprego de Verão. Ao meu rapazinho de 14 anos.
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viver em Berlim
sobressalto
Estava a dormir descansadinha, quando de repente se me intromete no sossego um sonho muito nítido de chegar a casa e ver que todos os computadores tinham sido roubados.
Não passa de hoje: vou gravar todos os ficheiros importantes e as fotografias num disco externo, e escondê-lo bem longe dos computadores.
Não passa de hoje: vou gravar todos os ficheiros importantes e as fotografias num disco externo, e escondê-lo bem longe dos computadores.
16 junho 2011
serviço público para os leitores deste blogue que vivem em Berlim:
Tenho sete bilhetes para o concerto da série Zukunft@BPhil, da Filarmónica de Berlim, na Arena Berlin em Treptow (25.06.2011, 19:30, 8 euros)
Música de Rameau, maestrina Emmanuelle Haїm. Detalhes.
Para terem uma ideia do tipo de coreografia, vejam este site (concerto do ano passado, com uma peça que Wynton Marsalis compôs para esta orquestra, e interpretou com ela)
***
Quem quiser, diga já, ou cale-se para sempre. Amanhã pego nos bilhetes restantes e vendo-os no meu prédio. Estou em crer que nem do segundo andar passo.
Música de Rameau, maestrina Emmanuelle Haїm. Detalhes.
Para terem uma ideia do tipo de coreografia, vejam este site (concerto do ano passado, com uma peça que Wynton Marsalis compôs para esta orquestra, e interpretou com ela)
***
Quem quiser, diga já, ou cale-se para sempre. Amanhã pego nos bilhetes restantes e vendo-os no meu prédio. Estou em crer que nem do segundo andar passo.
Sárramagô
A Embaixada de Portugal na Alemanha e o Instituto Camões organizaram, por ocasião do 88º aniversário de Saramago, uma sessão com os seus tradutores. À parte o pormenorzito de na Alemanha não ser muito costume festejar alguma coisa com dois oitos seguidos (para quem não sabe: 8 é a oitava letra do alfabeto, o H - querem que faça um desenho?), foi uma delícia de serão.
Rainer Bettermann foi o primeiro tradutor de Saramago para alemão. A convite da Associação de Amizade Portugal-RDA viveu em Portugal de 1976 a 1981, onde trabalhou como leitor. Após o seu regresso à Turíngia, um amigo português enviou-lhe um livro com este bilhete: "tens de traduzir isto". Era o Levantado do Chão. E ele começou a traduzir, em condições que já ninguém imagina: sem dicionários decentes, sem internet. Se lhe aparecia uma palavra desconhecida, tinha de pegar em caneta e papel e selo para pedir ajuda ao autor. A resposta chegava semanas ou meses mais tarde. Esta resposta, por exemplo: "essa palavra não existe, inventei-a eu".
Sarita Brandt falou do Saramago tradutor, e da exigência que punha no seu trabalho. Detalhou: uma carteira de "cuir jaune", couro amarelo, couro amarelo, uma carteira de couro amarelo?! Não. Uma carteira de couro jalne. Sendo a mesma cor, é todo um outro objecto.
Contou também sobre o seu primeiro contacto com a escrita de Saramago. Fora convidada para um workshop sobre o escritor, para o qual devia levar a sua tradução do conto "A Cadeira" (*). Na véspera, depois de dar o jantar aos filhos e os meter na cama, sentou-se a traduzir. Trabalhou várias horas, e não conseguiu passar do primeiro parágrafo. Mas convidaram-na para ser a tradutora de Saramago. Provavelmente - digo eu - negociou um preço especial por página.
Marianne Gareis começou a traduzir Saramago no nosso tempo de internet e networking. O autor remetia para ela os tradutores das outras línguas. "Perguntem à tradutora de alemão, não lhe escapa nada", dizia ele, assim ou de outra forma. Não lhe escapa nada, é certo, nem sequer as incongruências do texto. Que fazer, nesse caso? Ir incomodar o autor, fazer de conta que não reparou, alterar ligeiramente o texto?
E que fazer quando a Morte se apaixona por um músico? Em português é caso para dizer "pois que sejam muito felizes", mas em alemão o livro ganharia significados não previstos inicialmente, porque "morte" é masculino.
Para terminar, Marianne Gareis lê uma passagem da sua tradução de As Intermitências da Morte. Na sua voz, grave e tranquila, o texto transforma-se em música de belíssima cadência.
Ando desde então a resistir ao impulso de comprar Saramago em alemão.
***
(*) Para terem uma ideia da dificuldade, tentem traduzir isto para uma língua que dominem bem:
Cadeira, (in Objecto Quase), de José Saramago.
Rainer Bettermann foi o primeiro tradutor de Saramago para alemão. A convite da Associação de Amizade Portugal-RDA viveu em Portugal de 1976 a 1981, onde trabalhou como leitor. Após o seu regresso à Turíngia, um amigo português enviou-lhe um livro com este bilhete: "tens de traduzir isto". Era o Levantado do Chão. E ele começou a traduzir, em condições que já ninguém imagina: sem dicionários decentes, sem internet. Se lhe aparecia uma palavra desconhecida, tinha de pegar em caneta e papel e selo para pedir ajuda ao autor. A resposta chegava semanas ou meses mais tarde. Esta resposta, por exemplo: "essa palavra não existe, inventei-a eu".
Sarita Brandt falou do Saramago tradutor, e da exigência que punha no seu trabalho. Detalhou: uma carteira de "cuir jaune", couro amarelo, couro amarelo, uma carteira de couro amarelo?! Não. Uma carteira de couro jalne. Sendo a mesma cor, é todo um outro objecto.
Contou também sobre o seu primeiro contacto com a escrita de Saramago. Fora convidada para um workshop sobre o escritor, para o qual devia levar a sua tradução do conto "A Cadeira" (*). Na véspera, depois de dar o jantar aos filhos e os meter na cama, sentou-se a traduzir. Trabalhou várias horas, e não conseguiu passar do primeiro parágrafo. Mas convidaram-na para ser a tradutora de Saramago. Provavelmente - digo eu - negociou um preço especial por página.
Marianne Gareis começou a traduzir Saramago no nosso tempo de internet e networking. O autor remetia para ela os tradutores das outras línguas. "Perguntem à tradutora de alemão, não lhe escapa nada", dizia ele, assim ou de outra forma. Não lhe escapa nada, é certo, nem sequer as incongruências do texto. Que fazer, nesse caso? Ir incomodar o autor, fazer de conta que não reparou, alterar ligeiramente o texto?
E que fazer quando a Morte se apaixona por um músico? Em português é caso para dizer "pois que sejam muito felizes", mas em alemão o livro ganharia significados não previstos inicialmente, porque "morte" é masculino.
Para terminar, Marianne Gareis lê uma passagem da sua tradução de As Intermitências da Morte. Na sua voz, grave e tranquila, o texto transforma-se em música de belíssima cadência.
Ando desde então a resistir ao impulso de comprar Saramago em alemão.
***
(*) Para terem uma ideia da dificuldade, tentem traduzir isto para uma língua que dominem bem:
"A cadeira começou a cair, a ir abaixo, a tombar, mas não, no rigor do termo, a desabar. Em sentido estrito, desabar sifnifica caírem as abas a. Ora, de uma cadeira não se dirá que tem abas, e se as tiver, por exemplo, uns apoios laterais para os braços, dir-se-á que estão caindo os braços da cadeira e não que desabam. Mas verdade é que desabam chuvadas, digo também, ou lembro já, para que não aconteça cair em minhas próprias armadilhas: Assim desabam bátegas, que é apenas modo diferente de dizer o mesmo, não poderiam afinal desabar cadeiras, mesmo abas não tendo? Ao menos por liberdade poética? Ao menos por singelo artifício de um dizer que se proclama estilo? Aceite-se então que desabem cadeiras, embora seja preferível que se limitem a cair, a tombar, a ir abaixo. Desabe, sim, quem nesta cadeira se sentou, ou já não sentado está, mas caindo, como é o caso, e o estilo aproveitará da variedade das palavras, que afinal, nunca dizem o mesmo, por mais que se queira. Se o mesmo dissessem, se aos grupos se juntassem por homologia, então a vida poderia ser muito mais simples, por via de redução sucessiva, até à ainda também não simples onomatopéia, e por aí fora seguindo, provavelmente até ao silêncio, a que chamaríamos o sinônimo geral ou omnivalente. Não é sequer onomatopéia, ou não é formável ela a partir deste som articulado (que não tem a voz humana sons puros e portanto inarticulados, a não ser talvez no canto, e mesmo assim conviria a ouvir de mais perto), formado na garganta do tombante ou cadente, embora não estrela, palavras ambas de ressonância heráldica que estão designando agora aquele que desaba, pois não se achou correcto juntar a este verbo a desinência paralela (ante) que perfaria a escolha e completaria o círculo. Desta maneira fica provado que não é perfeito o mundo."
15 junho 2011
mil e duzentos milhões de quilómetros
CASSINI MISSION from Chris Abbas on Vimeo.
Copiei o título e o vídeo deste post do Daniel Carrapa. Mas não copiei o texto, que é o melhor de tudo. Vão lá ler na sala dele.
(para quem não conhece: este link é uma cana de pesca - para usar a estafada expressão - e promessa de belíssimas pescarias longe do ruído do tempo)
14 junho 2011
Estrasburgo
É bem verdade que só sabemos dar valor ao que temos depois de o perder, como dizia Jean Paul.
Quando morava em Karlsruhe, ia todos os meses a Estrasburgo (quem conhece Karlsruhe vai perceber o fenómeno). Mas só agora, morando a sete ou oito horas de viagem dessa cidade, me lembrei de parar longamente em frente ao pórtico da catedral para apreciar a beleza da nudez de Adão e Eva no Paraíso (começo a compreender melhor as peregrinações da Idade Média...), para reparar nas caras surpreendentemente leves e bem-dispostas das noivas que se esqueceram de poupar o azeite das suas lâmpadas (tanta alegria até me lembrou uma t-shirt que a Christina tem, "come to the dark side, we have cookies" - levei quase dois anos para perceber a gracinha, e agora ando a pensar se faço de conta que ainda não percebi, ou se lha meto no secador muito quente e pronto, o que seria um caso prático da técnica ao serviço da moral...) (não, não disse nada, que acabei de me lembrar que o Matthias hoje de manhã disse alguma coisa sobre o lar de terceira idade que me vai arranjar, ai!, calateboca).
A caminho do Flamm's vi que o nosso querido Luc Arbogast ia na direcção da catedral. Óptimo, óptimo, pensei, vamos ter musiquinha!
Mas não. A música rave da gay pride parade enchia a cidade, não deixava muito espaço para contratenores.
Portanto: potentíssima música rave na Petite France, praça da catedral sem Luc Arbogast, e na FNAC não havia o livro que eu procurava. Arrependei-vos e tal, o fim do mundo está para breve, só pode ser. Pelo menos o fim do mundo tal como eu o conhecia.
Em compensação, o novo mundo que se vislumbra não parece mau: descobri uma gelataria minúscula que tinha gelados de figo e de violeta. Ah, violeta, violeta. Fica junto à eclusa do Quai des Moulins, podem ir à confiança.
10 junho 2011
podia ser o dia mundial dos cantores de duche
Hoje é o dia dos prodígios: festeja-se o aniversário de um imortal (primeiro prodígio) e ele vai passá-lo inteirinho a cantar só para mim, só ao meu ouvido, que é a sua especialidade e missão (segundo prodígio).
Podem crer.
Obrigada, João Gilberto: por essa guitarra maravilhosa, e por essa maneira de cantar que, por parecer tão fácil, nos leva a ousar shows intimistas no duche.
(Isto é um elogio, não tenham dúvidas - não é qualquer um que consegue elevar comuns mortais ao estrelato de si próprio)
Podem crer.
Obrigada, João Gilberto: por essa guitarra maravilhosa, e por essa maneira de cantar que, por parecer tão fácil, nos leva a ousar shows intimistas no duche.
(Isto é um elogio, não tenham dúvidas - não é qualquer um que consegue elevar comuns mortais ao estrelato de si próprio)
hoje somos todos Bo Obama
Não sei se terá sido de alguma coisa que puseram nos rissóis (talvez nos croquetes, talvez nos bolinhos de bacalhau), não sei se terá sido daquela água com limão e gelo com um sabor intenso que eu não consegui identificar apesar de ter tentado muitas e muitas vezes, não sei, mas a verdade é que na comemoração do 10 de Junho deste ano, aqui na insularidade, no meio de tantos portugueses engraçados, interessantes e simpáticos, me senti em casa.
Eureka!, deve ser isto a raça.
Sim, digamo-lo sem pejo. Agora que temos um presidente, um governo e uma maioria de direita, já podemos ousar palavras tão castiças e plenas de significados como esta: raça.
Comemoremos então a raça portuguesa, e em especial os exemplares que na diáspora conquistaram importantes posições de protagonismo: hoje somos todos Bo Obama!
***
Parece que afinal não era a raça, era o respeitinho. Constou que estava ali "a do blogue", e toda a gente tratou de se portar bem com medo do próximo post que eu pudesse escrever.
(A ver se os meus filhos começam a ler este blogue, desconfio que tenho por aqui recursos disciplinares mal aproveitados)
Eureka!, deve ser isto a raça.
Sim, digamo-lo sem pejo. Agora que temos um presidente, um governo e uma maioria de direita, já podemos ousar palavras tão castiças e plenas de significados como esta: raça.
Comemoremos então a raça portuguesa, e em especial os exemplares que na diáspora conquistaram importantes posições de protagonismo: hoje somos todos Bo Obama!
***
Parece que afinal não era a raça, era o respeitinho. Constou que estava ali "a do blogue", e toda a gente tratou de se portar bem com medo do próximo post que eu pudesse escrever.
(A ver se os meus filhos começam a ler este blogue, desconfio que tenho por aqui recursos disciplinares mal aproveitados)
09 junho 2011
fazendo a minha História
Ainda outro dia estávamos cheios de medo do bug do milénio, e já passou a primeira década do século. Olhando para trás, vejo momentos memoráveis: o dia em que o Matthias se riu pela primeira vez de uma anedota - uma gargalhada aberta de neurónios; o musical que nos revelou a voz da Christina; o sol de Arches National Park a nascer na nossa tenda, a desaparecer por trás do Delicate Arch; o 11 de Setembro em San Francisco: a notável reacção da escola dos miúdos, a oração dessa tarde na paróquia universitária, com o Evangelho lido por estudantes árabes, a oração ecuménica em frente ao City Hall perante uma multidão de pessoas de todas as confissões unidas num mesmo desejo de Paz; o encontro com sobreviventes de Buchenwald. Entre tantos outros momentos especiais.
De todas essas horas de vigília ergue-se uma, a mais solitária, que - como no poema de Rilke - sorrindo diferente das suas irmãs se oferece silenciosamente ao eterno.
Aconteceu durante as comemorações da libertação de Buchenwald, de que falei ontem. Pediram-me para acompanhar um sobrevivente judeu numa visita à cidade. Um homem que, tendo apenas quinze anos no fim da guerra, fora testemunha de Auschwitz e sofrera os terríveis transportes. Íamos passeando, e ele entretecia a sua própria história no que víamos: se a guia mostrava uma praça, ele lembrava-se de a ter visitado com os outros miúdos do campo após a libertação; se ela falava da passagem de Wagner pela cidade, ele contava o momento mágico em que o Navio Fantasma ecoou entre as barracas. Falámos das comemorações, e ele criticava: o ambiente de feira, os sobreviventes usados como decoração. Que teria sido muito mais digno se tivessem repetido a formatura na parada do campo, em memória desse momento solene após a libertação, quando se alinharam voluntariamente uma última vez para cantar o hino dos prisioneiros. Eu ouvia-o, com uma pena imensa por sentir que se desperdiçara uma oportunidade única. E então começou a cantar:
O Buchenwald, ich kann dich nicht vergessen,
weil du mein Schicksal bist.
Wer dich verließ, der kann es erst ermessen.
wie wundervoll die Freiheit ist!
(Oh Buchenwald, não posso esquecer-te,
porque és a minha sina.
Só quem te abandonou pode realmente saber
como é maravilhosa a liberdade!)
(melodia)
De todas as horas da última década, é esta o meu solitário: algum dia esquecerei a súbita frescura da sua voz, a melodia, a comoção com que entoava "liberdade"?
***
Anos mais tarde, Anne Sofie von Otter fez um CD com músicas de Theresienstadt. Canta muito bem, mas não é a mesma coisa. Não é a mesma coisa.
De todas essas horas de vigília ergue-se uma, a mais solitária, que - como no poema de Rilke - sorrindo diferente das suas irmãs se oferece silenciosamente ao eterno.
Aconteceu durante as comemorações da libertação de Buchenwald, de que falei ontem. Pediram-me para acompanhar um sobrevivente judeu numa visita à cidade. Um homem que, tendo apenas quinze anos no fim da guerra, fora testemunha de Auschwitz e sofrera os terríveis transportes. Íamos passeando, e ele entretecia a sua própria história no que víamos: se a guia mostrava uma praça, ele lembrava-se de a ter visitado com os outros miúdos do campo após a libertação; se ela falava da passagem de Wagner pela cidade, ele contava o momento mágico em que o Navio Fantasma ecoou entre as barracas. Falámos das comemorações, e ele criticava: o ambiente de feira, os sobreviventes usados como decoração. Que teria sido muito mais digno se tivessem repetido a formatura na parada do campo, em memória desse momento solene após a libertação, quando se alinharam voluntariamente uma última vez para cantar o hino dos prisioneiros. Eu ouvia-o, com uma pena imensa por sentir que se desperdiçara uma oportunidade única. E então começou a cantar:
O Buchenwald, ich kann dich nicht vergessen,
weil du mein Schicksal bist.
Wer dich verließ, der kann es erst ermessen.
wie wundervoll die Freiheit ist!
(Oh Buchenwald, não posso esquecer-te,
porque és a minha sina.
Só quem te abandonou pode realmente saber
como é maravilhosa a liberdade!)
(melodia)
De todas as horas da última década, é esta o meu solitário: algum dia esquecerei a súbita frescura da sua voz, a melodia, a comoção com que entoava "liberdade"?
***
Anos mais tarde, Anne Sofie von Otter fez um CD com músicas de Theresienstadt. Canta muito bem, mas não é a mesma coisa. Não é a mesma coisa.
08 junho 2011
os de Buchenwald e os de Weimar
A pedidos, aqui vão dois posts velhos de 6 anos sobre a interacção entre a população de Weimar (nomeadamente: eu) e os sobreviventes de Buchenwald, quando se comemoravam 60 anos da libertação daquele campo de concentração.
Muitas escolas secundárias desta região participaram nas comemorações dos 60 anos da libertação de Buchenwald.
Em muitos casos, foram os próprios alunos que tomaram a iniciativa e organizaram tudo autonomamente. Tive oportunidade de ver o dossier que os alunos mais velhos da escola da Christina apresentaram à directora e fiquei surpreendida pela qualidade do trabalho de preparação, desde o enunciado dos objectivos ao nível de detalhe.
Na reunião de pais para preparar a participação da turma da Christina, a maioria entendeu que os alunos ainda eram demasiado novos para serem directamente confrontados com os antigos prisioneiros. Foi nessa reunião, aliás, que me desaconselharam oferecer a nossa
casa para receber alguns dos convidados, porque seriam "uns velhotes amargos" (pois é, há aqui ainda muito trabalho a fazer, e não apenas com as crianças das escolas...). Foram apresentadas várias propostas, como pedir aos alunos que fizessem uma lista do que levariam consigo se fossem obrigados a abandonar para sempre a sua casa, só pudessem carregar um pequeno saco, e tivessem 5 minutos para decidir. Mas é como tudo na vida: a gente fala, fala, e depois a professora decide que cada aluno vai fazer um poster sobre o campo de concentração, e que a turma vai assinalar o dia com uma caminhada por Weimar conduzida pelos próprios alunos, visitando os lugares que de algum modo estão relacionados com Buchenwald.
No domingo em que os ex-prisioneiros regressaram a Buchenwald, encontrámos alguns alunos de outras cidades que os entrevistavam para publicar no jornal da escola.
As perguntas estavam muito bem elaboradas, e os alunos agiam com seriedade e respeito, acompanhados a uma distância discreta pelo professor.
Uma das pessoas do gabinete de informação de Buchenwald contou-me que o momento mais belo das comemorações passou quase despercebido: "Os alunos de alguns liceus juntaram-se e resolveram lançar papagaios de papel ao fim da tarde; eu dizia-lhes que era melhor soltarem pombas, mas eles fizeram questão de prestar a homenagem com papagaios de papel, e acabaram por ter razão. Um vento frio varria a colina, e os três papagaios em cores diferentes esvoaçavam sobre o campo enquanto alunos liam textos escolhidos para falar do passado, do presente e do futuro."
Difíceis percursos interiores
No dia 11 de Abril de 2005 comemoram-se os 60 anos da libertação de Buchenwald. A cidade de Weimar conta com a visita de cerca de 500 sobreviventes, e fez um apelo para que os munícipes os recebam nas suas casas. Falei com algumas pessoas sobre isso, e as respostas foram sobretudo evasivas: "não, não é comigo" ou "não te metas nisso, são velhotes amargos que às tantas ainda se vão sentar na tua sala a pedir contas pelo que se passou há 70 anos".
O que me inquietava não era abrir a casa a desconhecidos, ou mesmo correr o risco de sofrer uma acusação surda.
O que me inquietava era não saber como falar com alguém que, tendo sido sistematicamente exposto a uma situação de desespero extremo, foi levado a abrir uma espécie de comporta interior das trevas. Como será a vida depois de ter estado na sala de espera da morte, sabendo que, para escapar, foi preciso arranjar maneira de passar para trás dos outros na fila de espera?
E como é que eu comunico com alguém que foi desgraçadamente atirado para este calvário, conseguiu sobreviver, e teve de se reconstruir como ser humano?
O que me inquietava não era abrir a casa a desconhecidos, ou mesmo correr o risco de sofrer uma acusação surda.
O que me inquietava era não saber como falar com alguém que, tendo sido sistematicamente exposto a uma situação de desespero extremo, foi levado a abrir uma espécie de comporta interior das trevas. Como será a vida depois de ter estado na sala de espera da morte, sabendo que, para escapar, foi preciso arranjar maneira de passar para trás dos outros na fila de espera?
E como é que eu comunico com alguém que foi desgraçadamente atirado para este calvário, conseguiu sobreviver, e teve de se reconstruir como ser humano?
Estava neste impasse quando me lembrei de alguns dos mais famosos sobreviventes de Buchenwald: Jorge Semprún e Elie Wiesel. Ah, com esses não seria problema falar, embora tenha sido justamente Elie Wiesel quem me descreveu o modo como a luta pela sobrevivência, sob a acção dessa máquina de horror sistemático, os desumanizava.
Percebi assim que o meu problema não era propriamente o percurso de ida-e-volta do inferno de cada uma dessas pessoas, mas a sensação de desconforto perante essa abstracção que dá pelo nome de "der Jude". E lembrei-me do que uma rapariga da Juventude Hitleriana disse, algo como: "Aprendi no seio da minha família que era possível ser anti-semita sem que isso abalasse a relação com os judeus nossos conhecidos. Era necessário perseguir e neutralizar "o Judeu", sem que isso tivesse alguma consequência para o velho senhor Lewy, ou Rosel Cohn."
Problema resolvido: oferecemos a nossa casa, ofereci os meus serviços de tradutora, e em Abril vou estar muito atenta para fixar bem o nome de cada uma das pessoas com quem falar. Tentarei ignorar as categorias "judeu", "sobrevivente", "preso político", "trabalhador forçado", "vítima de um horror inqualificável", para me concentrar na procura do velho senhor Lewy, de Rosel Cohn.
Buchenwald nas escolas
Muitas escolas secundárias desta região participaram nas comemorações dos 60 anos da libertação de Buchenwald.
Em muitos casos, foram os próprios alunos que tomaram a iniciativa e organizaram tudo autonomamente. Tive oportunidade de ver o dossier que os alunos mais velhos da escola da Christina apresentaram à directora e fiquei surpreendida pela qualidade do trabalho de preparação, desde o enunciado dos objectivos ao nível de detalhe.
Na reunião de pais para preparar a participação da turma da Christina, a maioria entendeu que os alunos ainda eram demasiado novos para serem directamente confrontados com os antigos prisioneiros. Foi nessa reunião, aliás, que me desaconselharam oferecer a nossa
casa para receber alguns dos convidados, porque seriam "uns velhotes amargos" (pois é, há aqui ainda muito trabalho a fazer, e não apenas com as crianças das escolas...). Foram apresentadas várias propostas, como pedir aos alunos que fizessem uma lista do que levariam consigo se fossem obrigados a abandonar para sempre a sua casa, só pudessem carregar um pequeno saco, e tivessem 5 minutos para decidir. Mas é como tudo na vida: a gente fala, fala, e depois a professora decide que cada aluno vai fazer um poster sobre o campo de concentração, e que a turma vai assinalar o dia com uma caminhada por Weimar conduzida pelos próprios alunos, visitando os lugares que de algum modo estão relacionados com Buchenwald.
No domingo em que os ex-prisioneiros regressaram a Buchenwald, encontrámos alguns alunos de outras cidades que os entrevistavam para publicar no jornal da escola.
As perguntas estavam muito bem elaboradas, e os alunos agiam com seriedade e respeito, acompanhados a uma distância discreta pelo professor.
Uma das pessoas do gabinete de informação de Buchenwald contou-me que o momento mais belo das comemorações passou quase despercebido: "Os alunos de alguns liceus juntaram-se e resolveram lançar papagaios de papel ao fim da tarde; eu dizia-lhes que era melhor soltarem pombas, mas eles fizeram questão de prestar a homenagem com papagaios de papel, e acabaram por ter razão. Um vento frio varria a colina, e os três papagaios em cores diferentes esvoaçavam sobre o campo enquanto alunos liam textos escolhidos para falar do passado, do presente e do futuro."
Jorge Semprún
Daqui a 10 anos, - dizia Semprún quando se comemoravam 60 anos da libertação de Buchenwald - já não haverá testemunhas deste crime, e cabe a nós passar testemunho da memória.
Sugeriu que cada família escolhesse uma vítima de Buchenwald para preservar o seu nome.
Jorge: vai em paz, não esqueceremos. Olha:
I.
9.4.05
"estas coisas são para guardar no coração"
Este é o fim-de-semana em que faz 60 anos que o campo de concentração de Buchenwald foi libertado pelos americanos.
A cidade acolhe os últimos sobreviventes, cerca de 500, e entre eles Jorge Semprún.
Esta manhã fui com a Christina a uma celebração ecuménica junto ao que resta da estação de caminho-de-ferro. Começámos por perder o shuttle, e hesitámos em usar o táxi, que custava 14 euros. A minha filha pediu "por favor, mãe, pago-te metade do preço com a minha mesada" - às vezes tenho a sensação que ando a fazer alguma coisa certa.
Estava um frio terrível, a chuva pousava nos nossos guarda-chuvas e transformava-se em gelo. A tremer de frio, olhando os quatro religiosos (um bispo católico, dois pastores da igreja luterana, um pope da igreja ortodoxa russa) naquele cenário estranho, recortados contra a névoa do descampado, imaginei como seria há 60 anos estar completamente exposto à prepotência e ao sadismo dos comandantes, obrigado a permanecer em formatura na parada, com frio e fome, por tempo indeterminado.
Foi estranho não haver um rabi presente. Mas foi importante o gesto unânime de pedir perdão, por parte dos cristãos - pelos actos, e pelas omissões.
No fim da celebração, um dos presentes avançou para o microfone num gesto espontâneo e começou a contar, em russo, apontando para os lugares com uma mímica plena de dor e emoção. O pope traduzia: "cheguei aqui com 16 anos, a estação estava cheia de nevoeiro, trabalhei ali, e ali, depois fui transferido" (e os gestos, e o silêncio e as lágrimas entre as palavras) "eu sou testemunha do que se passou aqui, eu vi, eu estive aqui!"
Segredei à Christina "se quiseres, podes dar-lhe a tua rosa", e ela queria, mas não sabia como, nem o queria interromper. A senhora que estava atrás de nós empurrou-a para a frente e, quase sem saber como, ela viu-se à frente daquele homem que chorava, ofereceu-lhe uma rosa, abraçou-o longamente.
"Porque é que ele chorou tanto quando lhe dei a rosa, mãe?"
(Se eu soubesse fazer as coisas para os media, tinha-lhe puxado o carapuço do casaco para trás, para lhe verem a cara. Mas não percebo nada disso, e agora vai haver por aí dúzias de fotografias de um sobrevivente russo abraçado a um casaco vermelho...)
Fui para Buchenwald sem máquina fotográfica, e amanhã voltarei lá, de novo de mãos a abanar.
Porque, como me dizia depois a Christina, "estas coisas são para guardar no coração."
II.
13.4.05
auto-retrato sumário
"E você é o quê?", perguntou-me o sobrevivente judeu.
Apanhada desprevenida, respondi a primeira coisa que me ocorreu: "uma pessoa."
"Sim, mas o que está a fazer em Buchenwald, porque se interessa por Buchenwald?"
Ia responder "para aprender a ser pessoa", mas percebi que não lhe interessavam metafísicas.
Arranjei uma outra razão qualquer, disse-lhe que Buchenwald está ligada à história da minha família desde que, nos primeiros dias da nossa vida em Weimar, me enganei no caminho para o supermercado, fui parar ao campo de concentração, e o Matthias de 5 anos perguntou "que terias feito se vivesses nessa altura?"
"E você explicou-lhes que aqui morriam pessoas apenas porque nasceram num grupo que os alemães decidiram exterminar?" (a sua voz tremia, mal conseguia articular
as palavras)
"Expliquei - e disse-lhes que imaginassem como seria alguém decidir matá-los por serem filhos de uma portuguesa."
"Você está a dar uma boa educação aos seus filhos."
(A Christina acha que não, mas isso é outra história.)
III
Pedimos aos nossos filhos que escrevam e façam desenhos sobre o que viveram este fim de semana, para criarmos um álbum de testemunho. Eles fazem parte da última geração que viu e falou com estas pessoas.
O Matthias foi buscar papel e caneta, fartou-se de discutir comigo porque queria fazer um rascunho e depois passar a limpo e eu dizia que isso não é tão importante, mas ele estava cheio de receios, e às tantas perguntou-me:
Achas que comece a carta com "Meus queridos filhos"?
Depois escreveu isto:
BUCHENWALD
No Domingo passado estive com a minha família em Buchenwald porque, há 60 anos, quando Hitler estava no poder, os americanos libertaram o campo de concentração.
No Domingo, dois prisioneiros sobreviventes tornaram-se amigos nossos. Chamam-se Nikita e Emil, e são amigos.
O meu pai descobriu que o Nikita tinha um cancro da pele. O meu pai queria operá-lo imediatamente. A operação demorou mais tempo do que tinha sido previsto, e no fim o meu pai veio em três jornais. Algum sangue espalhou-se para a região do olho, que ficou todo negro. No comboio, o Emil disse ao Nikita: "Quando fores ter com a tua mulher, dizes-lhe que quem te fez isso foram os bandidos."
IV
15.4.05
Despedida
Regressam a casa. Na plataforma da estação, esperam pelo comboio. O Nikita, o Emil, o Pjotr - o sobrevivente a quem a Christina deu a rosa no fim da oração ecuménica.
Sem tradutor, falamos assim: ele russo, eu português. De que adianta falar alemão, se ele também não entende? Ao menos o português é mais parte de mim (e tem um som mais próximo do russo).
Sem tradutor, sorrimos um para o outro.
Falei aqui há algumas semanas da dificuldade de não saber como falar com pessoas que sofreram o indescritível. Agora sei que é fácil: uma rosa, um abraço, um sorriso.
Olhos nos olhos, encontrar a pessoa para lá do peso de um número e de uma história que nos envergonha e horroriza.
E devolver-lhe o nome: este é o Pjotr.
V
Escolher um nome
De todos, o mais esquecido: Willy Blum. O ciganito que foi enviado para Auschwitz em vez da "criança na mala de cartão", o herói inventado pelo romance de Bruno Apitz. Assassinado pelos nazis, traído pela máquina de propaganda comunista.
07 junho 2011
já estou há uns dias sem fazer um link para a Rita, isto é um desmazelo inqualificável
Do melhor que li sobre as eleições: queridas pessoas que estão para aí muito espantadas porque quarenta e três por cento dos eleitores se estiveram nas tintas para as eleições
Aproveito para me gabar um bocadinho, concretamente: o jeitão que tenho para estar no sítio certo no momento certo. Eu aqui a passear descansadinha pela vida, assim como quem está entretido a ver autocarros passar, e eis que me encontro neste outro post, sobre o voto registado. Eu, num post da Rita, e desta vez não é ela a bater-me por sei lá o quê que eu terei escrito! O céu é o limite.
Vou digerir esta para a Filarmonia. Hoje estão a dar quintetos e trios de cordas de Haydn e Brahms.
Aproveito para me gabar um bocadinho, concretamente: o jeitão que tenho para estar no sítio certo no momento certo. Eu aqui a passear descansadinha pela vida, assim como quem está entretido a ver autocarros passar, e eis que me encontro neste outro post, sobre o voto registado. Eu, num post da Rita, e desta vez não é ela a bater-me por sei lá o quê que eu terei escrito! O céu é o limite.
Vou digerir esta para a Filarmonia. Hoje estão a dar quintetos e trios de cordas de Haydn e Brahms.
02 junho 2011
inquérito Nova Evangelização
Repasso aqui as minhas respostas ao inquérito que o Religionline está a fazer, no contexto do debate sobre a Nova Evangelização.
1 - No decreto de criação do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, o Papa refere as "transformações sociais" das últimas décadas e as suas causas complexas: progressos da ciência e da técnica, ampliação dos espaços de liberdade, mudanças económicas, miscigenação étnica e cultural, interdependência entre os povos. Que consequências tiveram estas transformações sociais na experiência religiosa? Só o "deserto interior" de que fala o Papa nesse texto?
A expressão "deserto interior" surpreendeu-me de tal modo que cheguei a
desconfiar que fosse erro de tradução ou de palavras fora do seu contexto...
Mas parece que não. Decididamente, o Papa e eu não frequentamos os mesmos
lugares e a mesma História. O meu mundo está cheio de pessoas que, não sendo
necessariamente cristãs, se empenham na procura de um sentido e a traduzem
em gestos de humanidade.
Deserto interior? Estou com o Padre Américo: "não há rapazes maus".
O facto de não chamarem Jesus Cristo à fonte que inspira os seus gestos, e
não irem à missa periodicamente, não significa que as pessoas vivam em
"deserto interior". Inversamente, frequentar a Igreja e alardear a Fé não é
garantia de nada - como prova, aliás, o modo desastroso como a Hierarquia
lidou com o horror da pedofilia.
Eu teria até um certo pudor em usar estas palavras a partir do interior da
Igreja. Não é preciso vasculhar muito no seu caixote de lixo para encontrar
situações de deserto interior que emanam da própria ortodoxia católica. O
exemplo habitual é o da Inquisição mas, infelizmente, há muitos outros, tais
como o caso Mortara, em meados do séc. XIX, ou o caso da educadora de
infância de um jardim infantil católico, na Alemanha de fins do séc. XX, que
foi despedida por estar grávida sem ter a situação familiar esclarecida (não
se queria dar maus exemplos às criancinhas, compreensível...).
A terrível perversão das "criadas" e dos "afilhados" dos padres, com a qual
a Igreja tem convivido pacatamente ao longo dos séculos, é um cruel exemplo
dos limites daquele diagnóstico: algumas das transformações sentidas como
ameaça (a revolução sexual, a moral sexual, os chamados ataques à família
tradicional) criaram nas pessoas uma consciência da sua dignidade e da
justiça que não permite continuar a aceitar passivamente escândalos como
estes.
E vou mais longe: estas transformações sociais são uma excelente
oportunidade de renovação da Igreja, e um desafio assustador. No espaço de
liberdade, exigência, capacidade de escrutínio e crítica que é o nosso mundo
actual, ninguém deve obediência, generosa tolerância e muito menos
respeitinho à Igreja Católica. Mas como pode esta - lugar de pecado como o
próprio mundo - ser exemplar de modo a conquistar o respeito de um mundo
livre, profundamente crítico e que a sente como um elemento hostil?
2 - Como é que a Igreja pode fazer uma leitura dos sinais dos tempos de modo a acolher as marcas de Deus que estão presentes na sociedade? A secularização pode ser vista como um sinal dos tempos? De que forma?
Olho à minha volta, e vejo que alguma espécie de Bem toca os gestos das
pessoas. Vejo milhentos impulsos de generosidade e humanidade, inúmeros
voluntários que oferecem muito do seu tempo para servir os necessitados, a
dedicação com que tantas ONG tentam tornar o nosso mundo mais justo e mais
humano. Vejo no Burning Man (provavelmente o festival mais louco dos EUA)
que o espaço da meditação e espiritualidade é um dos mais frequentados. O
Deus em que acredito anda por aí, e suspeito até que se diverte com o uso de
heterónimos.
Talvez a secularização seja sinal de um Espírito Santo feito tempestade:
quando a sociedade se emancipa e confronta a Igreja com as suas próprias
contradições e fragilidades, obrigando-a a um esforço de renovação, a
sacudir a tralha acumulada e anacrónica, a concentrar-se no único fulcro
possível: Jesus Cristo.
3 - A expressão "nova evangelização" tem-se prestado a vários equívocos e a interpretações diversas. Tem sentido utilizá-la? Como poderia ser definida? Deve ser vista apenas como uma forma de a Igreja sair das suas crises ou também como desafio a repensar-se a estrutura eclesial?
"Nova evangelização"?! Eu gostava da antiga, aquela que se resumia à frase
"vede como eles se amam".
Em todo o caso, uma evangelização não pode ser uma operação de cosmética, de
gestão da crise, de reacção. Num mundo em que uma insuportável transparência
anda a par com exigências e críticas implacáveis, só fará sentido se for um
esforço profundo e muito honesto de se reencontrar com Cristo no coração do
nosso tempo. Um esforço que atinge tanto a tradição e as estruturas internas
da Igreja como a sua maneira de estar e agir no mundo.
4 - Também no decreto de criação do Conselho, o Papa cita a sua primeira encíclica, Deus Caritas Est: "No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, com isto, a orientação decisiva." A Igreja não tem estado demasiado centrada numa "decisão ética" reduzida a uma moral ou em questões de disciplina e de regras internas e, menos, na Pessoa de Jesus Cristo?
Eu ia dizer que sim, que ça va sans dire, mas depois lembrei-me que também
sou Igreja, e que alguns padres e bispos que muito admiro também são Igreja.
A Igreja somos nós todos, é um lugar de imensa diversidade e pluralidade de
experiências. Se uns se prendem mais à "decisão ética" outros entregam a
vida ao serviço do encontro com Jesus. Se uma parte da Igreja endurece num
fundamentalismo dogmático, outros (e com certeza também alguns dos
"fundamentalistas") vão ao encontro daqueles que vivem na mais horrível
miséria, levam a luz de Cristo ao mundo, em gestos simples e despojados.
Penso na Comunidade de Sant'Egídio, nas Missionárias da Caridade, na
Comunidade de Taizé, e em tantos outros exemplos.
5 - O Papa diz que falar de "nova evangelização" não implica que haja "uma única fórmula igual para todas as circunstâncias". A Conferência Episcopal Portuguesa lançou um debate sobre estratégias e métodos de evangelização para concluir em 2011. Neste quadro, que "fórmulas" deveriam ser encontradas para Portugal? Que prioridades e com que linguagem?
Estrangeirada que sou, não me peçam para falar sobre Portugal. Dou, em vez
disso, um resumo de um debate a que assisti recentemente num grupo de leigos
católicos alemães, sobre caminhos de futuro para a Igreja:
Dois problemas centrais atravessam a Igreja: a crescente polarização, sobre
a qual pouco se tem reflectido, e a ausência da cultura do diálogo (nas duas
vertentes: horizontal e vertical) que por vezes chega a tomar a forma de
bloqueio. A Hierarquia padece de uma arrogância que a impede de reconhecer a
igualdade dos cristãos e de aceitar que a Igreja é antes de mais o povo de
Deus.
A renovação, necessária e inadiável, passa pela igualdade, pelo respeito
mútuo, pela participação de todos. Só assim se conseguirá uma ordem interna
estável e se ganhará credibilidade perante o exterior.
Motivos para os bloqueios:
- imagem teológica que os bispos têm de si próprios
- passividade dos leigos, que aceitam essa autoridade dos bispos sem
questionarem quais são as suas bases, esquecendo que os portadores primários
de autoridade são as comunidades e não os bispos
- passividade dos leigos, que não estudam as escrituras e não se entendem
como sujeito actuante da sua própria Fé
A Igreja e o Reino de Deus (que é hoje o mundo secularizado): o mundo fugiu
da Igreja porque foi maltratado por ela, que, ao concentrar-se em si própria
esquecendo os que sofrem, provocou ainda mais sofrimento. A Igreja tem de se
voltar para o mundo. Cristo fala do Reino de Deus, e não da Igreja. Esta não
é um objectivo em si própria, existe para cumprir uma missão importante. O
diálogo, se não for entendido como serviço, não passará de umbiguismo e
auto-reflexão.
Visões de futuro:
- Diálogo com as comunidades, o ecumenismo, o mundo: é necessário tomar
todos em consideração para entender o alcance da necessidade de reformas
dentro da Igreja.
- Fim da profunda discriminação das mulheres. O que é que a Igreja não
perdeu em todos estes séculos em que arredou do seu seio um grupo tão
importante? Só quando houver igualdade homem/mulher dentro da Igreja será
possível esta ter um olhar abrangente e equilibrado sobre o mundo.
- Estatuto das comunidades: o consenso é indispensável. O diálogo não deve
ser orientado pela Hierarquia, mas realizado com a participação de todos em
condições de igualdade. Todas as comunidades são sinodais e conciliares.
- Já não vivemos no feudalismo e no absolutismo: que autoridade pode ter um
bispo que não foi escolhido pela sua comunidade?
- Os leigos têm de se empenhar mais na Igreja. Não basta dizer mal dos
padres e da Hierarquia, há que assumir a sua quota parte de responsabilidade
e agir: "onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome".
- Confiança nos jovens: nas suas capacidades teológica, de solidariedade e
de empenhamento.
- Desclericalização dos cargos/serviços.
- Conexão ao tempo presente, solidariedade com os que sofrem, opção pela
pobreza.
- Diálogo público, abrangente e transparente. Sem se esquivar às questões
mais incómodas, sem temer (a renovação exige a coragem de experimentar),
realizado em conjunto (procurando especialmente a participação dos mais
jovens), procurando soluções parcelares que evitem o enquistamento em
trincheiras ideológicas, e sem desistir. Acreditar sempre que o espírito de
Jesus Cristo nos acompanha neste caminho.
1 - No decreto de criação do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, o Papa refere as "transformações sociais" das últimas décadas e as suas causas complexas: progressos da ciência e da técnica, ampliação dos espaços de liberdade, mudanças económicas, miscigenação étnica e cultural, interdependência entre os povos. Que consequências tiveram estas transformações sociais na experiência religiosa? Só o "deserto interior" de que fala o Papa nesse texto?
A expressão "deserto interior" surpreendeu-me de tal modo que cheguei a
desconfiar que fosse erro de tradução ou de palavras fora do seu contexto...
Mas parece que não. Decididamente, o Papa e eu não frequentamos os mesmos
lugares e a mesma História. O meu mundo está cheio de pessoas que, não sendo
necessariamente cristãs, se empenham na procura de um sentido e a traduzem
em gestos de humanidade.
Deserto interior? Estou com o Padre Américo: "não há rapazes maus".
O facto de não chamarem Jesus Cristo à fonte que inspira os seus gestos, e
não irem à missa periodicamente, não significa que as pessoas vivam em
"deserto interior". Inversamente, frequentar a Igreja e alardear a Fé não é
garantia de nada - como prova, aliás, o modo desastroso como a Hierarquia
lidou com o horror da pedofilia.
Eu teria até um certo pudor em usar estas palavras a partir do interior da
Igreja. Não é preciso vasculhar muito no seu caixote de lixo para encontrar
situações de deserto interior que emanam da própria ortodoxia católica. O
exemplo habitual é o da Inquisição mas, infelizmente, há muitos outros, tais
como o caso Mortara, em meados do séc. XIX, ou o caso da educadora de
infância de um jardim infantil católico, na Alemanha de fins do séc. XX, que
foi despedida por estar grávida sem ter a situação familiar esclarecida (não
se queria dar maus exemplos às criancinhas, compreensível...).
A terrível perversão das "criadas" e dos "afilhados" dos padres, com a qual
a Igreja tem convivido pacatamente ao longo dos séculos, é um cruel exemplo
dos limites daquele diagnóstico: algumas das transformações sentidas como
ameaça (a revolução sexual, a moral sexual, os chamados ataques à família
tradicional) criaram nas pessoas uma consciência da sua dignidade e da
justiça que não permite continuar a aceitar passivamente escândalos como
estes.
E vou mais longe: estas transformações sociais são uma excelente
oportunidade de renovação da Igreja, e um desafio assustador. No espaço de
liberdade, exigência, capacidade de escrutínio e crítica que é o nosso mundo
actual, ninguém deve obediência, generosa tolerância e muito menos
respeitinho à Igreja Católica. Mas como pode esta - lugar de pecado como o
próprio mundo - ser exemplar de modo a conquistar o respeito de um mundo
livre, profundamente crítico e que a sente como um elemento hostil?
2 - Como é que a Igreja pode fazer uma leitura dos sinais dos tempos de modo a acolher as marcas de Deus que estão presentes na sociedade? A secularização pode ser vista como um sinal dos tempos? De que forma?
Olho à minha volta, e vejo que alguma espécie de Bem toca os gestos das
pessoas. Vejo milhentos impulsos de generosidade e humanidade, inúmeros
voluntários que oferecem muito do seu tempo para servir os necessitados, a
dedicação com que tantas ONG tentam tornar o nosso mundo mais justo e mais
humano. Vejo no Burning Man (provavelmente o festival mais louco dos EUA)
que o espaço da meditação e espiritualidade é um dos mais frequentados. O
Deus em que acredito anda por aí, e suspeito até que se diverte com o uso de
heterónimos.
Talvez a secularização seja sinal de um Espírito Santo feito tempestade:
quando a sociedade se emancipa e confronta a Igreja com as suas próprias
contradições e fragilidades, obrigando-a a um esforço de renovação, a
sacudir a tralha acumulada e anacrónica, a concentrar-se no único fulcro
possível: Jesus Cristo.
3 - A expressão "nova evangelização" tem-se prestado a vários equívocos e a interpretações diversas. Tem sentido utilizá-la? Como poderia ser definida? Deve ser vista apenas como uma forma de a Igreja sair das suas crises ou também como desafio a repensar-se a estrutura eclesial?
"Nova evangelização"?! Eu gostava da antiga, aquela que se resumia à frase
"vede como eles se amam".
Em todo o caso, uma evangelização não pode ser uma operação de cosmética, de
gestão da crise, de reacção. Num mundo em que uma insuportável transparência
anda a par com exigências e críticas implacáveis, só fará sentido se for um
esforço profundo e muito honesto de se reencontrar com Cristo no coração do
nosso tempo. Um esforço que atinge tanto a tradição e as estruturas internas
da Igreja como a sua maneira de estar e agir no mundo.
4 - Também no decreto de criação do Conselho, o Papa cita a sua primeira encíclica, Deus Caritas Est: "No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, com isto, a orientação decisiva." A Igreja não tem estado demasiado centrada numa "decisão ética" reduzida a uma moral ou em questões de disciplina e de regras internas e, menos, na Pessoa de Jesus Cristo?
Eu ia dizer que sim, que ça va sans dire, mas depois lembrei-me que também
sou Igreja, e que alguns padres e bispos que muito admiro também são Igreja.
A Igreja somos nós todos, é um lugar de imensa diversidade e pluralidade de
experiências. Se uns se prendem mais à "decisão ética" outros entregam a
vida ao serviço do encontro com Jesus. Se uma parte da Igreja endurece num
fundamentalismo dogmático, outros (e com certeza também alguns dos
"fundamentalistas") vão ao encontro daqueles que vivem na mais horrível
miséria, levam a luz de Cristo ao mundo, em gestos simples e despojados.
Penso na Comunidade de Sant'Egídio, nas Missionárias da Caridade, na
Comunidade de Taizé, e em tantos outros exemplos.
5 - O Papa diz que falar de "nova evangelização" não implica que haja "uma única fórmula igual para todas as circunstâncias". A Conferência Episcopal Portuguesa lançou um debate sobre estratégias e métodos de evangelização para concluir em 2011. Neste quadro, que "fórmulas" deveriam ser encontradas para Portugal? Que prioridades e com que linguagem?
Estrangeirada que sou, não me peçam para falar sobre Portugal. Dou, em vez
disso, um resumo de um debate a que assisti recentemente num grupo de leigos
católicos alemães, sobre caminhos de futuro para a Igreja:
Dois problemas centrais atravessam a Igreja: a crescente polarização, sobre
a qual pouco se tem reflectido, e a ausência da cultura do diálogo (nas duas
vertentes: horizontal e vertical) que por vezes chega a tomar a forma de
bloqueio. A Hierarquia padece de uma arrogância que a impede de reconhecer a
igualdade dos cristãos e de aceitar que a Igreja é antes de mais o povo de
Deus.
A renovação, necessária e inadiável, passa pela igualdade, pelo respeito
mútuo, pela participação de todos. Só assim se conseguirá uma ordem interna
estável e se ganhará credibilidade perante o exterior.
Motivos para os bloqueios:
- imagem teológica que os bispos têm de si próprios
- passividade dos leigos, que aceitam essa autoridade dos bispos sem
questionarem quais são as suas bases, esquecendo que os portadores primários
de autoridade são as comunidades e não os bispos
- passividade dos leigos, que não estudam as escrituras e não se entendem
como sujeito actuante da sua própria Fé
A Igreja e o Reino de Deus (que é hoje o mundo secularizado): o mundo fugiu
da Igreja porque foi maltratado por ela, que, ao concentrar-se em si própria
esquecendo os que sofrem, provocou ainda mais sofrimento. A Igreja tem de se
voltar para o mundo. Cristo fala do Reino de Deus, e não da Igreja. Esta não
é um objectivo em si própria, existe para cumprir uma missão importante. O
diálogo, se não for entendido como serviço, não passará de umbiguismo e
auto-reflexão.
Visões de futuro:
- Diálogo com as comunidades, o ecumenismo, o mundo: é necessário tomar
todos em consideração para entender o alcance da necessidade de reformas
dentro da Igreja.
- Fim da profunda discriminação das mulheres. O que é que a Igreja não
perdeu em todos estes séculos em que arredou do seu seio um grupo tão
importante? Só quando houver igualdade homem/mulher dentro da Igreja será
possível esta ter um olhar abrangente e equilibrado sobre o mundo.
- Estatuto das comunidades: o consenso é indispensável. O diálogo não deve
ser orientado pela Hierarquia, mas realizado com a participação de todos em
condições de igualdade. Todas as comunidades são sinodais e conciliares.
- Já não vivemos no feudalismo e no absolutismo: que autoridade pode ter um
bispo que não foi escolhido pela sua comunidade?
- Os leigos têm de se empenhar mais na Igreja. Não basta dizer mal dos
padres e da Hierarquia, há que assumir a sua quota parte de responsabilidade
e agir: "onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome".
- Confiança nos jovens: nas suas capacidades teológica, de solidariedade e
de empenhamento.
- Desclericalização dos cargos/serviços.
- Conexão ao tempo presente, solidariedade com os que sofrem, opção pela
pobreza.
- Diálogo público, abrangente e transparente. Sem se esquivar às questões
mais incómodas, sem temer (a renovação exige a coragem de experimentar),
realizado em conjunto (procurando especialmente a participação dos mais
jovens), procurando soluções parcelares que evitem o enquistamento em
trincheiras ideológicas, e sem desistir. Acreditar sempre que o espírito de
Jesus Cristo nos acompanha neste caminho.
hoje, com o DN e o JN, não percam: uma edição histórica (para mim, pelo menos)
Aviso à navegação: a Volta ao Mundo que relata a apoteótica viagem do Governo Sombra a Berlim vem hoje com o DN e o JN.
Consta que falam lá de mim. Pois claro que estou em pulgas para ler, e pois claro que espero que seja uma menção honrosa. Caso contrário da próxima vez que cá me aparecerem digo-lhes que lhes vou mostrar coisas giras e espeto com eles na coutada dos neonazis, que é para aprenderem a usar o manto diáfano da fantasia em vez de se armarem em arautos da verdade...
***
Ricardo: ;-) ;-) ;-)
01 junho 2011
o que me vale é a eficiência alemã
Um amigo americano pediu-me há meses que lhe comprasse um CD especialíssimo que nem sequer está à venda na Dussmann.
Que quando a prima dele viesse a Berlim me trazia o dinheiro e levava o CD. E eu, sim senhora, é para daqui a meses, depois trato disso.
A prima chegou ontem. Vai-se embora no domingo. Amanhã é feriado. Ai!
Hoje às 8:25 escrevi ao agente de vendas a perguntar se me podia enviar o CD e se ele chegava até ao próximo sábado.
Às 8:31 recebi a resposta: sim, posso enviar, apesar do feriado chega com certeza até sábado.
Às 8:34 novo e-mail: "o CD já vai a caminho!" e um pdf com a factura.
É tamanha a gratidão, que acho que vou fazer imediatamente o pagamento, em vez de o adiar por uns dias, como de costume.
(se querem saber tudo: Stimmwerck canta peças de Heinrich Finck)
(para a io: um dos membros do Stimmwerck é o Franz Vitzthum, que fez o "Ich will in Friede fahren")
Que quando a prima dele viesse a Berlim me trazia o dinheiro e levava o CD. E eu, sim senhora, é para daqui a meses, depois trato disso.
A prima chegou ontem. Vai-se embora no domingo. Amanhã é feriado. Ai!
Hoje às 8:25 escrevi ao agente de vendas a perguntar se me podia enviar o CD e se ele chegava até ao próximo sábado.
Às 8:31 recebi a resposta: sim, posso enviar, apesar do feriado chega com certeza até sábado.
Às 8:34 novo e-mail: "o CD já vai a caminho!" e um pdf com a factura.
É tamanha a gratidão, que acho que vou fazer imediatamente o pagamento, em vez de o adiar por uns dias, como de costume.
e depois dizem que comer legumes é saudável
A primeira informação que recebemos era mais ou menos assim:
Socorro, estamos a ser atacados por pepinos assassinos!
Que era na região de Hamburgo, que não devíamos comprar legumes produzidos no norte da Alemanha.
(pequeno aparte para o pessoal autovitimizante das teorias da conspiração: notem que a primeira reacção não foi contra os PIGS, foi contra os agricultores alemães)
Muito em segredo, amigos revelaram-nos que parece que o problema vinha dos produtos biológicos. Aqueles adubos naturais...
Fiquei logo com a consciência aliviada por ter andado a comprar no Lidl e no Aldi, locais onde se corre pouco risco de comprar biológico, transfair e sustentável.
Na secção de frutas e legumes do supermercado ia uma agitação inusitada:
- Tem a certeza que isto vem de Espanha?
- É o que está escrito na caixa...
- Ai, então levo. Alemão é que nem pensar!
- Pois...
Levei também.
Daí a nada os agricultores alemães estavam a queixar-se dos prejuízos brutais. O que me preocupa pouco: de certeza que têm óptimos seguros para cobrir este tipo de danos.
A seguir, descobriram que eventualmente terá havido contaminação de produtos agrícolas durante uma manobra de descarga no porto de Hamburgo. Depois, disse-se que seriam produtos espanhóis. Ai!, espero que aquela caixa no supermercado com carimbo "origem: Espanha" fosse uma trafulhice deles para escoar os produtos alemães...
O Instituto Robert Koch diz que não tem que saber: basta não comer saladas. Protestos gerais (enfim, quase gerais) cá em casa.
E agora afinal a culpa não é dos pepinos. Até tremo quando abro o frigorífico, só de pensar que pode estar lá escondido um assassino.
Para grandes males, a Literatura oferece grandes remédios. Desta vez, sigo o exemplo do Adrian Mole ("Literatura", disse ela, hihihi), e passo a alimentar-me exclusivamente de Mars até que este caso seja desvendado.
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