07 maio 2011

o melhor governo dos portugueses


O Governo Sombra reuniu ontem em Berlim, e foi brilhante.
Podem ouvir aqui e aqui - e tenho pena de todos os que não puderam ver, porque a linguagem corporal daqueles quatro patuscos enriquece muito o programa. Pela minha parte, nunca mais os ouvirei com os mesmos olhos!

Como disse: brilhantes. Mas o melhor momento da noite foi quando eles se calaram, podem crer.
Porque à saída atravessei um bar cheio de tugas em estado de transbordante felicidade, e nunca tinha visto uma coisa assim: dezenas de portugueses com os olhos brilhantes e um sorriso rasgado, num ambiente de alegria contagiante.

E foi aí que me ocorreu a solução genial para Portugal: Governo Sombra ao poder!
Proposta sustentada por sólidos argumentos: é o único governo que não deixa os portugueses deprimidos, sendo só quatro já se poupam uns dinheiritos no salário dos governantes e seus motoristas, e de qualquer modo para trabalhar temos a troika (ou eles pensam que em meia dúzia de dias imaginam um país novinho em folha e depois se põem ao fresco e nos deixam com o seu fantástico plano de salvação nos braços? nã, nã: essa já se viu no Génesis, e não tem dado grande resultado).
Portanto: Governo Sombra ao poder!
Se a parte do pobrezinhos já está assegurada, façamos então por ser felizes.

06 maio 2011

felicidade é...

Por estes dias tenho andado bastante ocupada com uma visita governamental a Berlim. E mais não digo, excepto que vão fazer hoje na TSF uma comunicação ao povo português, a partir das seis da tarde.

Esta vida dupla está a dar cabo de mim: até às tantas em serviço patriótico, depois ir para casa, dormir a correr e acordar antes da madrugada em serviço à família. Hoje pedi licença por umas horas (não revelei a ninguém que era para dormir), pus a família fora de casa à hora do costume, e ia voltar para o tal lugar de onde nunca deveria ter saído às seis da manhã quando a vizinha da frente abriu a porta de casa. Ia sair para o jogging matinal. Enquanto falávamos sentou-se nas escadas a apertar os cordões, e eu sentei-me ao seu lado.

Há momentos assim: duas mulheres a conversar, sentadas num degrau de madeira. Quase-quase felicidade, e muito melhor que tentar recuperar umas horas de sono.

05 maio 2011

Obama e o fim da al Qaeda

Um post de Juan Cole no seu blogue Informed Comment. A ler integralmente. Alguns excertos:

The US story that the Pakistanis were not given prior notice of the operation is contradicted by the Pakistani news channel Geo, which says that Pakistani troops and plainsclothesmen helped cordon off the compound in Abbotabad. CNN is pointing out that US helicopters could not have flown so far into Pakistan from Afghanistan without tripping Pakistani radar. My guess is that the US agreed to shield the government of Prime Minister Yousuf Raza Gilani and President Asaf Ali Zardari from al-Qaeda reprisals by putting out the story that the operation against Bin Laden was solely a US one. And it may be that suspect elements of the Pakistani elite, such as the Inter-Services Intelligence, were kept out the the loop because it was feared they might have ties to Bin Laden and might tip him off.

(...)

Now that Obama has eliminated the monster Usama Bin Laden and vindicated the capability of the United States to visit retribution on its dire enemies, he can do one other great good for this country abroad. He can get us out of Iraq altogether. The US military presence there is the fruit of a poisonous tree. It will always provoke Iraqi Muslim activists, whether Sunni or Shiite or secular nationalist. And it angers the whole Arab world.

The Arab Spring has demonstrated that the Arab masses yearn for liberty, not thuggish repression, for life, not death and destruction, for parliamentary democracy, not theocratic dictatorship. Bin Laden was already a dinosaur, a relic of the Cold War and the age of dictators in which a dissident such as he had no place in society and was shunted off to distant, frontier killing fields. The new generation of young Arabs in Egypt and Tunisia has a shot at a decent life. Obama has put the US on the right side of history in Tunisia, Egypt, Syria and Libya (where I see crowds for the first time in my life waving American flags). People might want a little help from a distance, but they don’t want to see Western troops deployed in fighting units on their soil.

If Obama can get us out of Iraq, and if he can use his good offices to keep the pressure on the Egyptian military to lighten up, and if he can support the likely UN declaration of a Palestinian state in September, the US will be in the most favorable position in the Arab world it has had since 1956. And he would go down in history as one of the great presidents. If he tries to stay in Iraq and he takes a stand against Palestine, he risks provoking further anti-American violence. He can be not just the president who killed Bin Laden, but the president who killed the pretexts for radical violence against the US. He can promote the waving of the American flag in major Arab cities. And that would be a defeat and humiliation for Bin Laden and Al-Qaeda more profound than any they could have dreamed.


Outro post muito informativo (embora gostasse que explicasse melhor como é que sabe com tanta certeza que o Bin Laden foi morto num movimento de auto-defesa): Top Ten Myths about Bin Laden’s Death.

03 maio 2011

à atenção dos portugueses que moram em Berlim (2)

Estamos todos convidados para a reunião do Governo Sombra na próxima sexta-feira no Yuma Bar, sim, já se sabe. Estamos todos convidados, por causa das coisas, e também por uma questão de abertura e transparência, que andam a fazer muita falta no governo do nosso país.

Essa parte, já se sabe. Mas: alguém me pode informar se se pode rir em voz alta? Ou se só podemos gargalhar na clandestinidade, hihihi por baixo do cachecol, quem? eu?!, eu não ri nada, foi esta menina aqui ao meu lado.

E ainda: será que pensaram em levar intérprete para a Angela Merkel? Não vá dar-se o caso de ela dizer Ja Ja a tudo, só para agradar ao público (nós), que com estas manias da integração agora um político nunca sabe quantos daqueles moreninhos podem ser eleitores, e depois chega a casa e lê a tradução e muda de opinião em menos de cinco minutos, sinal de que é uma governante muito flexível e capaz de se adaptar rapidamente a situações novas.

E mais: será que o Governo Sombra discutiu no Parlamento Sombra o que vem negociar na Alemanha? Isso preocupa-me muito, porque ainda outro dia houve uma cena do género e no fim correu um bocadinho mal, e não me dava jeito depois vir o Presidente Sombra dizer que o Governo Sombra havia de fazer humor de interesse nacional, uma solução única, uma coisa assim tipo um marmanjo a jogar futebol dentro da sala e deitar abaixo a mesinha do candeeiro, toda a gente ri e ficamos muito contentes e amigos.

uma pedra no caminho

A convite do Pedro Correia (esse simpático head hunter dos blogues), escrevi para o Delito de Opinião o texto que a seguir transcrevo. Não é bem um estéreo, é uma edição revista e aumentada: tem mais fotografias.




Os vizinhos do segundo andar deixaram uma carta em todas as caixas de correio do prédio, informando que, em 1942, uma mulher judia foi levada do nosso prédio para Theresientstadt e daí para Auschwitz, onde foi assassinada, e que em sua memória tinham encomendado uma Stolperstein, uma “pedra no caminho”.

Trata-se de uma iniciativa de um artista alemão, Gunter Demnig: em frente à última morada voluntária de vítimas do nazismo põe-se entre as pedras da calçada um pequeno bloco de betão com uma placa em metal, onde estão inscritos nome, ano de nascimento, data da deportação e da morte. Uma das intenções é devolver a essas pessoas o seu próprio nome – que no campo era substituído por um número – levando a que os passantes parem e por uns momentos se curvem perante a sua memória. No meu caminho para o metro há onze placas dessas em frente a uma só casa, e fazem-me sempre parar: Selma Sternfeld, aos 79 anos de idade arrancada à sua casa com destino a Theresienstadt. Clara e Minna Plessner, de 63 e 64 anos, imagino-as duas irmãs solteironas, assassinadas em Piaski (onde será Piaski?). Johanna Steuer, a caminho do campo de concentração com 75 anos, um martírio de duas semanas e meia até a matarem. Reparo nas datas da deportação, quase todas diferentes: vez após vez o mesmo terror, “por quem virão eles hoje?” ou “será que hoje há uma carta para mim?”


Também da nossa casa saiu uma mulher, levada à força para Theresienstadt, e os vizinhos do segundo andar encomendaram uma pedra para o nosso caminho. Fomos falar com eles, louvar a iniciativa, pedir para participar nos 100 euros que este pequeno memorial custa, mas em vez disso deram-nos uma lista de nomes: da nossa rua minúscula levaram mais de trinta judeus para campos de concentração. Podíamos escolher um deles, sugeriram, e encomendar mais uma pedra. Temos andado a pensar nisso: é estranho adoptar uma vítima de entre seis milhões, ou mesmo de entre trinta. A mulher de 82 anos? O rapaz de 20? A família pai-mãe-filha que foi enviada para o gueto de Varsóvia? Um deles seria a herança dos nossos filhos: a “nossa” pedra, um nome resgatado para ser levado de geração em geração, dos nossos netos aos seus bisnetos.

No dia aprazado chegou o artista, segurando reverentemente o cubo, e um ajudante que trazia as ferramentas. Descemos todos e fizemos um círculo à volta do homem que, muito rápido, tirou algumas pedras, inseriu o bloco, deitou areia e cimento. O ajudante juntou a água e varreu o chão. Depois levantaram-se, nós acendemos uma vela e pousámos rosas no passeio.

Ficámos alguns minutos em silêncio. A vizinha do segundo andar chorava desamparadamente. A vizinha do terceiro andar, que descende de uma família de judeus assimilados e é muito extrovertida, começou a segredar-me legendas para o que estava a acontecer. “Temos de lembrar”, dizia ela, e repetia-se “que ninguém esqueça”, e lamentava-se “isto foi uma coisa horrível, horrível, horrível”. E eu fazia que sim com a cabeça, e deixava-a falar apesar de não querer ouvir, e tentava não chorar como a outra vizinha, tomada de uma tristeza informe por esta mulher que talvez tenha habitado as minhas salas, e foi morrer assassinada em Auschwitz.

02 maio 2011

à atenção dos portugueses que moram em Berlim:



Finalmente acontece alguma coisa de jeito nesta cidade! Finalmente há um intervalinho na nossa triste insularidade, sempre tão longe da Pátria e das coisas interessantes que lá acontecem.
E mais ainda: agora é que o caldo da Angela Merkel se entornou de vez!

Pois é assim (alvíssaras! alvíssaras!): o Governo Sombra vem à Alemanha! A Berlim, mais propriamente. E nunca mais as coisas voltarão a ser como antes.

O Governo reúne na próxima sexta-feira a partir das 19 horas, no Yuma Bar, na Reuterstrasse 63, em Neuköln.
E como a Democracia é o governo do povo (li num sítio qualquer), estão todos convidados. Pobre Angela Merkel, mal ela sabe com quem se foi meter.

coincidências

No blogue Der Terrorist, José Simões nota a coincidência das datas: o assassinato de Bin Laden e o fim do regime nazi simbolizado por uma encenação no Reichstag. Curiosamente, hoje é também o dia em que conto no blogue Delito de Opinião um episódio ligado a uma mulher judia que viveu no meu prédio.

Sim: na mesma data temos o terrorismo islâmico, o sistema nazi, e os judeus - todos vistos sempre por prismas tão diferentes.

Algum dia aprenderemos que quando começamos a abrir excepções na defesa da dignidade humana, não sabemos onde isso nos pode levar?

Osama Bin Laden 1957-2011



Vejam este filme com atenção: a lógica de Bin Laden, a lógica dos que o temem, a autofagia das teorias conspirativas. A imensa estupidez do nosso tempo, uma estupidez que a morte de Bin Laden não resolve.

Nenhuma morte deve ser motivo de alegria. Esta, nem sequer me proporciona alívio. Pelo contrário: lembro o que no primeiro século da nossa era se dizia - "sangue de mártires é semente de cristãos" -, e temo que este sangue alimente ainda mais um movimento imparável. Bin Laden está morto, mas as circunstâncias que deram força ao seu movimento continuam iguais.

O que move os terroristas? O que leva pessoas - muitas delas de famílias abastadas e bem integradas na sociedade - a escolher a violência contra inocentes?

E nós: o que nos move? Se é a plena dignidade humana, tal como esboçada na declaração universal dos direitos do Homem, então temos de procurar outras vias. Pela violência, a férrea defesa dos nossos interesses e a cega imposição da nossa lógica não chegamos lá. Aproveitemos este momento, em que o "inimigo" sofreu um forte abalo, para repensar a nossa atitude. 

***

Por exemplo: o que andamos a fazer na Líbia?

01 maio 2011

análise sociológica (2)

Eis que o dia já há muito passou o seu zénite quando aqui a especialista se dá conta que passou o Primeiro de Maio a fazer posts sobre o The Royal Wedding. Ai!

E como se não bastasse: este é o dia que o Vaticano escolheu para beatificar o Papa João Paulo II.

Suspeito que já faltou mais para o fim do mundo tal como o conhecemos...



(Emboramente: imagino que a data escolhida agrade muito aos membros do Solidarność.)

em síntese, e para terminar, é isto:

(foto encontrada aqui)

Agora já sabemos que a História avança em círculos, e que Rafael passou por Londres no dia 29 de Abril de 2011, pouco antes de acrescentar este detalhe à sua famosa Madonna Sistina:

 

análise sociológica

(espero que o jpt não passe por aqui, e não veja este título bombástico: ainda me dá um zero honoris causa em Sociologia, e é merecido)

O grande vencedor do The Royal Wedding foi o povo inglês: produziu uma bela noiva, uma elegantíssima mãe da noiva, um digníssimo pai da noiva, um irmão da noiva que foi um excelente leitor, uma madrinha e dama-de-honor como nunca se viu (esta parte merece eco: comonuncaseviu nuncaseviu seviu sviu) (repararam naquele sensualíssimo mas discreto menear das ancas quando subiu ao altar? até a Marilyn Monroe empalideceu lá na sua sepultura). Gente que descende de mineiros, e duas ou três gerações mais tarde faz esta excepcional figura. O american dream no coração da Monarquia Britânica! Viva o povo inglês.

Já o povo sul-africano, enfim, como direi: a entrada da Chelsey Davy na igreja parecia um casting para o papel da Thénardier em Les Misérables.

***

Um bocadinho de veneno em pé de página: que cara terão feito certas pessoas que lá na terra dos Middleton se riram muito quando o príncipe acabou o namoro? E os que rebolavam de gozo ao dizer Waitie-Katie? Nas entrelinhas dos sorrisos daquela família era isto que se lia: "ri melhor quem ri no fim". Aprendam, pessoas.


a Rita, a Kate e o William

A Rita, com aquele seu ar de "eu?! eu só estava aqui a fazer tempo enquanto não vou almoçar..." escreveu o post mais engraçado que li sobre the Royal Wedding.

Eu a ler, e a pensar: eh, lá, ela também reparou nisto (III, V, VII, VIII, XX, XXII, XXIII, XXX)?! será que estamos definitivamente telepáticas?

Não, definitivamente telepáticas não estamos. Ainda me falta muito para conseguir produzir comentários sensacionais como estes: IV, IX, X, XIV, XXVI.

Rita, só para ti, aqui vão os comentários que não passaram no twitter: a mulher do David Cameron levava um "fascinator" minúsculo. Tinham pedido às senhoras que não exagerassem nos chapéus, porque só havia 0,25 m² por pessoa e aqueles apetrechos tiram a vista aos que estão atrás, mas elas, ó pra mim era o que faltava, zimbas. O broche da rainha era da rainha-mãe - para a tornar simbolicamente presente nesta festa (e eu, desde que vi o King's speech, acho bem). A baby-sitter era não propriamente dama-de-honor (cheira-me que com o novo acordo ortográfico estes hífenes desaparecem todos, o que é muito inteligente: gasta-se menos tinta da impressora; de onde se prova que o acordo ortográfico é muito ecológico - poupa nos hífenes e nas consoantes mudas. Olha, tem graça: acabei de descobrir o único aspecto positivo dessa trapalhada) mas madrinha.

30 abril 2011

análise comparada

O casamento do século (até ver, e sem contar com os casamentos dos meus amigos), foi bonitinho - gostei especialmente de ver o Elton John a cantar pelo livro de cânticos, melhor que isso só mesmo imaginar o Saramago muito atinado a repetir com os outros meninos B-A-BA B-E-BE -, mas...

Chegada da noiva é assim:



Momento musical único num casamento é assim:



Beijo(s) é assim (a partir de 4:20 e 5:00):



E ainda está para nascer duas vezes quem conseguir superar isto:

 

"Queridos amigos: quero começar por agradecer ao povo sueco, porque me deu o meu príncipe".

troco uma informação por outra

Informação que quero receber: como é que se tira o detergente de lavar a louça que saiu da garrafa e se espalhou na alcatifa do carro?

Informação que dou para troca: Sauerland, de onde acabei de chegar, não significa "terra azeda" mas "terra do sul" - é Plattdeutsch. Aposto que estavam todos mortinhos por ficar a saber isto, e não tarda nada vão chover comentários sobre como tirar o malfadado detergente da malfadada alcatifa.

Obrigada, obrigada.

(Depois de resolver esse problema ponho algumas fotografias da "terra do sul" - que fica a norte, claro: só para que conste que tudo é relativo, e nem os pontos cardeais escapam)

25 abril 2011

canção de amor para o meu país

O título do post é de uma canção de Lluis Llach, que também canta este poema de Miquel Marti i Pol. "Agora mesmo", um poema que parece escrito para este momento de Portugal:

Ara Mateix
Ara mateix enfilo aquesta agulla
amb el fil d'un propòsit que no dic
i em poso a apedaçar. Cap dels prodigis
que anunciaven taumaturgs insignes
no s'ha complert, i els anys passen de pressa.
De res a poc, i sempre amb vent de cara,
quin llarg camí d'angoixa i de silencis.
I som on som; més val saber-ho i dir-ho
i assentar els peus en terra i proclamar-nos
hereus d'un temps de dubtes i renúncies
en què els sorolls ofeguen les paraules
i amb molts miralls mig estrafem la vida.
De res no ens val l'enyor o la complanta,
ni el toc de displicent malenconia
que ens posem per jersei o per corbata
quan sortim al carrer. Tenim a penes
el que tenim i prou: l'espai d'història
concreta que ens pertoca, i un minúscul
territori per viure-la. Posem-nos
dempeus altra vegada i que se senti
la veu de tots solemnement i clara.
Cridem qui som i que tothom ho escolti.
I en acabat, que cadascú es vesteixi
com bonament li plagui, i via fora!,
que tot està per fer i tot és possible.

Miquel Marti i Pol

23 abril 2011

a Paixão segundo S. João e Bach

Parece-me que ganhei um novo vício: o Bach-Chor da Kaiser Wilhelm Gedächtnis Kirche, um coro com cinquenta anos e cerca de oitenta cantores,

(e quase metade deles homens, vi com estes que a terra e tal, podem crer, valhósdeus! - e agora suspiro, com uma pontinha de inveja, que bem sei como é difícil arranjar homens para os coros, ali estão quarenta e no meu coro, hã? - de momento, zero)

interpreta em ritmo quinzenal cantatas de Bach para acompanhar os serviços religiosos. E, se querem saber tudo: a entrada é gratuita.

Ontem cantaram a Paixão segundo S. João. Aaaaah.
Pois lá fomos, e encontrámos amigos que tinham feito gazeta à missa de Sexta-Feira Santa, considerando que aquele concerto era cerimónia suficiente. Espertos, pensámos nós, e anotámos logo a ideia para o próximo ano.

Antes de começar, o maestro pediu ao público que no fim não aplaudisse "mesmo que tivessem vontade de o fazer..." - o público riu (mas discretamente - foi quando desconfiei que não eram apenas os nossos amigos que faziam daquele concerto o momento espiritual do dia).

Às vezes achei a interpretação demasiado bombástica. Eles provavelmente sabem melhor que eu como se deve cantar aquilo, mas pronto, não cantam Bach à minha maneira, é o que é... 
Outras vezes, achei sublime. Gostei especialmente dos momentos de puro mob, quando o coro dava voz à multidão enfurecida, "crucifica-o! crucifica-o!" ou "não escrevas, não escrevas, não escrevas Rei dos Judeus". E também daquele momento do mais cínico fundamentalismo "nós temos uma lei! nós temos uma lei! nós temos uma lei!"
Já lá vão três séculos, já lá vão dois milénios, e permanece tão actual.

Bach integrou nas suas oratórias e cantatas melodias e textos já existentes, vindos sobretudo da época da Reforma, e que ainda hoje são cantadas nas igrejas. O que complica a vida do público, porque temos de nos reprimir para não cantar com o coro. E talvez fosse essa a ideia, no tempo em que Bach presidia à execução na sua igreja em Leipzig, e as oratórias eram parte da celebração religiosa com o povo.

Quando a última nota se extinguiu, só os que tinham chegado atrasados bateram palmas e, pelo silêncio obstinado dos outros, perceberam rapidamente que deviam ficar quietos. Pelo que o arrebatamento não foi quebrado. Aaaah, que coisa boa: sair de um concerto assim sem o alvoroço dos aplausos.

"o inevitável é inviável"

Não vou falar propriamente do novo manifesto, que pode ser lido aqui, mas apenas de um facto curioso: o seu terceiro ponto, que abaixo transcrevo, é algo que também na Alemanha suscita cada vez mais queixas.
Concretamente: contra a Angela Merkel, que vai ao Parlamento defender determinadas políticas afirmando que são inevitáveis. Ainda outro dia ela teimava que o pacote de medidas para ajudar os países do euro que estão em dificuldades é - adivinharam! - inevitável. E o pessoal protesta, que inevitável é a avó dela e tal, e que não há nada mais anti-democrático que vir com propostas que não admitem discussão.
Parece que andamos todos ao mesmo, mas de lados diferentes do espelho. 

"Por fim, o terceiro e mais inquietante eixo desta ofensiva anti-Abril assenta na imposição de uma ideia de inevitabilidade que transforma a política mais numa ratificação de escolhas já feitas do que numa disputa real em torno de projectos diferenciados. Este discurso ganhou terreno nos últimos tempos, acentuou-se bastante nas últimas semanas e tenderá a piorar com a transformação do país num protectorado do FMI. Um novo vocabulário instala-se, transformando em «credores» aqueles que lucram com a dívida, em «resgate financeiro» a imposição ainda mais acentuada de políticas de austeridade e em «consenso alargado» a vontade de ditar a priori as soluções governativas. Esta maquilhagem da língua ocupa de tal forma o terreno mediático que a própria capacidade de pensar e enunciar alternativas se encontra ofuscada."

22 abril 2011

telegrama para quem veio passar as férias da Páscoa a Berlim

(este post tem um destinatário concreto, mas pode ser que aproveite a outros - ora então, para todos: bom proveito, e boas férias!)

Algumas propostas para gozar este bom tempo:

-- Sábado de manhã: mercado na Karl-August-Platz (Charlottenburg) ou Kollwitzplatz (Prenzlauer Berg).

-- Domingo à tarde: assistir ao karaoke no Mauerpark - é um ambiente fantástico.

-- Qualquer dia, excepto segundas: ir de S-Bahn até Wannsee, ir de autocarro até à casa do Max Liebermann (tem de momento uma exposição de pinturas suas de motivos marítimos) e tomar um cafézito no seu terraço, em frente ao lago. Seguir a pé até à casa da Conferência de Wannsee, e almoçar ou jantar numa barraquinha com esplanada, que fica ao nível do lago, mesmo ao lado (esquerdo) dessa casa. Eu encomendo sempre uma espécie de tortilha com presunto que se chama Bauernfrühstück.

-- Terça-feira, entre as 12:00 e as 18:30: mercado dos turcos no Maybachufer. Comer Gözleme. Ou ir ao Defne, um restaurante turco fantástico no Planufer, mesmo ao lado, e comer o polvo deles, o mais macio que conheço. Ou ir ao italiano (il Casolare) também no Planufer, mas que costuma estar sempre muito cheio - toda a comida é muito boa, e as pizzas são famosas.

-- Terça-feira, 13:00 (é melhor chegar meia hora antes): concerto gratuito no foyer da Filarmonia. Programa do dia 26.03:
    Ukrainischer Kammerchor CREDO, Kiew
    Bogdan Plish  Leitung
      Erzbischof Ionafau -  Ausgewählte Gesänge aus der Tschernobyl-Liturgie (cânticos escolhidos da Liturgia de Tchernobyl)
      Valentin Bibick - Gesänge aus der Oper Die Flucht (temas da ópera "a fuga")

-- A qualquer hora e dia: sentar-se na relva entre a estação S-Bahn Hackesche Markt e o rio, em frente à ilha dos museus.

Queria incluir fotografias, e contar histórias, mas estou com muito stress de lazer. Fica para outra vez.

o que procuro?



I have climbed highest mountains
I have run through the fields
Only to be with you
Only to be with you
I have run
I have crawled
I have scaled these city walls
These city walls
Only to be with you

But I still haven't found what I'm looking for
But I still haven't found what I'm looking for

I have kissed honey lips
Felt the healing in her fingertips
It burned like a fire
This burning desire

I have spoke with the tongue of angels
I have held the hand of a devil
It was warm in the night
I was cold as a stone

But I still haven't found what I'm looking for
But I still haven't found what I'm looking for

I believe in the Kingdom Come
Then all the colors will bleed into one
Bleed into one
But yes I'm still running

You broke the bonds
And you loosed the chains
Carried the cross
Of my shame
Oh my shame
You know I believe it

But I still haven't found what I'm looking for
But I still haven't found what I'm looking for
But I still haven't found what I'm looking for

21 abril 2011

pequeníssimo ensaio sobre a transversalidade de Bach

(detalhe da Nikolaikirche - foto daqui)

A Paixão segundo S. João foi ouvida pela primeira vez em Leipzig, na Nikolaikirche - a igreja onde nasceu o movimento pacífico que muito contribuiu para a queda do muro. Amanhã vou ouvi-la na Gedächtniskirche, a ruína de uma igreja que, no coração de Berlim, não deixa esquecer o que aqui aconteceu durante a segunda guerra mundial.
Um Bach que atravessa a História da Alemanha.





(melhor seria ter-lhe chamado "pequeníssimo ensaio sobre a transversalidade de Jesus Cristo")

elogio da Marta

No meio de tanto desânimo e tanta queixa, misturados com cinismo e venenos, aparece um post assim, que nos faz acreditar que nem tudo está perdido - e podemos começar hoje mesmo, por nós próprios:

A Marta dos questionários

20 abril 2011

a energia mais barata do mundo


Vinte e cinco anos depois do acidente de Tchernobyl, vai ser construído um sarcófago gigante para substituir o primeiro, que foi construído à pressa nos meses que se seguiram ao acidente e já apresenta sinais de corrosão. Ontem foi acordado um pacote de 500 milhões de euros, e isso é apenas cerca de um terço do montante necessário.
Já há quem diga que se devia fazer o mesmo em Fukuxima.

Aqui pode-se ver uma animação do projecto: uma obra fascinante. 

(Se eu tivesse dinheiro disponível, jogava na indústria do ferro e do betão - anuncia-se-lhes um grande futuro)

19 abril 2011

o casamento



(anúncio inspirado neste vídeo)

alvíssaras!

A boa notícia do dia: há uma dieta para emagrecer baseada em comer tanto quanto se quer, ou até mais. De duas em duas horas: toca a fazer mais dieta.
O meu irmão disse-me ontem que perdeu dois quilos em pouco tempo. Sem nunca ter sentido fome.
Quem quiser o nome do médico, eu vendo.
(hihihi)

Claro que não é tudo perfeito: acabaram-se os refogadinhos, os azeitinhos, essas coisinhas.
Portanto, plano B: troco o nome daquele médico por receitas de comidas saborosas e sem gordura.

18 abril 2011

the Royal Concertgebouw Orchestra + Mariss Jansons + Janine Jansen

Até ao dia 15 de maio pode-se ver neste site (está em inglês) o concerto que decorreu na Filarmonia por ocasião da recente visita da rainha Beatriz à Alemanha.


Programa:

Felix Mendelssohn
Violin Concerto in E minor
Janine Jansen Violin


Johannes Brahms
Symphony No. 4 in E minor


E ainda este extra:

The arrival of Her Majesty Queen Beatrix of the Netherlands, Their Royal Highnesses Prince Willem-Alexander and Princess Máxima, and the German President Christian Wulff and his wife Bettina


Claro que foi esta a parte que eu vi primeiro e tenho a dizer que:



- Já vi jogadores de futebol entoarem o hino alemão com mais alma do que esta orquestra.

- Os efeitos especiais estiveram fantásticos. Repararam naquela parte em que os tambores entram em cheio e o vestido da rainha começa a cintilar?

- Tive um bocadinho de vergonha ao reparar que ninguém na sala cantou o hino alemão (errado: havia uma senhora vestida de verde, por trás do príncipe ai-como-era-mesmo-o-nome-dele?, que o cantava, e que bonito adivinhar nos seus lábios aquela letra "Einigkeit und Recht und Freiheit sind des Glückes Unterpfand", isto é um hino tão bom que até dá vontade de uma pessoa se tornar alemã), enquanto a família real holandesa entoou o do seu país como uns valentes - pareciam o Cavaco nas últimas eleições, sozinhos contra todos. Mas, pensando bem, pode ter sido delicadeza e prudência dos alemães: se a sala inteira começasse a cantar o hino alemão, depois o contraste ia parecer mal, e à rainha podia dar um despeito e virar-se para o Wulff e dizer assim "devolvam-nos as nossas ricas bicicletas".

- Alguém havia de dizer ao príncipe holandês que fica um bocado esquisito usar laço com os botões da camisa à vista. É verdade que não é o único na sala, mas o público berlinense já se sabe como é. Aliás: nem os reconheci, de tão arranjadinhos que estavam. Será que vieram também todos da Holanda, tal como os músicos?

- A Máxima estava um espanto. Perfeita. E repararam como esperou pela rainha antes de se sentar? Ah, isto é que é boa educação. Estava agora para ir ver de novo, para ver se a Bettina Wulff também tinha esperado, mas no entretanto o concerto já começou, e nem pensar em interromper isto.


Acabou o intervalinho para a futilidade, vão ouvir o concerto, que é só até ao dia 15 de maio e está muito bom.

entrevista com Estela Barbot

Provavelmente já todos viram isto, e como sempre o interessado (eu) é o último a saber, mas gostei muito desta entrevista, e caso haja alguém que ainda não a conhece, aqui está:

Estela Barbot: Portugal precisa de recuperar credibilidade (vídeo)

15 abril 2011

uma "Gretchenfrage" em português

A ver se entendo o exemplo da Islândia: indivíduos holandeses e ingleses acreditaram nos mundos e fundos que bancos islandeses lhes prometiam (curioso, não conheciam aquela história dos almoços grátis), os bancos faliram, os governos da Holanda e do Reino Unido pagaram aos seus  cidadãos e exigem agora o reembolso dessa quantia, mais juros, por parte da Islândia (alguém me explica porque é que esses governos resolveram tomar para si um problema que não era deles?). Entretanto, os islandeses decidiram por referendo que não pagavam a dívida, pelo que ela acabará por ser paga pelos contribuintes holandeses e ingleses. Na prática é isto, não é?

A ver se entendo: é este o exemplo islandês que alguns portugueses querem seguir no momento em que o FMI se instala em Portugal. Têm quase metade dos portugueses a depender do orçamento de Estado (não estou a questionar se é legítimo, estou a dizer que é um facto), têm um Governo que não sabe como lhes pagar a partir do próximo mês e não arranja quem empreste, e acham que não pagar as dívidas é uma solução.
E talvez seja: se o Estado português pura e simplesmente não pagar os empréstimos (já agora: apenas aos estrangeiros, ou também aos portugueses?) e optar por um orgulhosamente sós, pobrezinhos mas sem dívidas, e se fizer orelhas moucas às decisões dos tribunais, e se simplesmente não gastar mais do que tem em caixa, talvez isso seja uma solução e até um modo de vida. 

Por mim, tudo bem. Mas antes de o FMI e a União Europeia começarem a gastar neurónios sobre como resolver o problema, convinha colocar a Gretchenfrage em referendo:

- O povo português tenciona respeitar os compromissos assumidos pelo seu Governo?

14 abril 2011

"Uma Acção de Cidadania - Denúncia acerca de três Agências de Rating"



Ontem escrevi sobre a denúncia apresentada contra as três agências de rating. A seguir transcrevo uma síntese de esclarecimento, publicada no blogue A Areia dos Dias por Manuela Silva, e passo, a exemplo da sem-se-ver, o link para um artigo de Robert Fishman no New York Times que questiona a acção dos mercados (aqui o original em inglês, aqui a notícia em português)

À falta de fotografia para o cartaz "Wanted", recorro a este excelente retrato robot pela pena do José Bandeira.

***


Foi ontem entregue na Procuradoria Geral da República uma denúncia do comportamento das três maiores agências de rating em relação às suas notações relativamente ao Estado português e aos bancos sediados em território nacional.

Causou surpresa o facto de, em poucos dias, as referidas agências terem baixado as suas notações sem que se conheçam os fundamentos com que o fizeram. O Presidente da República chegou a dizer que tais notações revelavam um enorme exagero na avaliação do risco de crédito.

Nem a crise política, normal em democracia, nem a evolução da capacidade produtiva do País, que não se altera em 24 ou 48 horas, justificam os cortes drásticos recentemente verificados. Há, pois, que procurar outras causas e ver o que está por detrás destes comportamentos.

Três razões objectivas justificam dúvidas: o elevado grau de concentração das três maiores agências de rating, todas americanas e que, no conjunto, detêm mais de 90% do seu respectivo mercado; a possível conflitualidade de interesses, devida à presença de empresas de gestão de fundos na estrutura do capital accionista em duas dessas empresas de rating (num caso, em posição de accionista maioritário) e a falta de transparência por ocultação de critérios em que se baseiam as notações.

Podemos perguntar: a quem aproveita a severidade nos ratings da dívida da República e dos bancos portugueses? A resposta é simples: em primeiro lugar, serve os interesses dos especuladores que vêem as suas possibilidades de lucro aumentadas pelo simples facto da subida dos juros; serve também a uma estratégia de enfraquecimento do euro face ao dólar ou mesmo ao propósito de ressuscitar a moeda americana como único meio de pagamento internacional, conveniente, entre outras razões, para fazer face à elevada dívida pública americana contraída no exterior.

O mais grave é que estes ratings têm efeitos devastadores sobre o acesso ao crédito por parte das pessoas, do Estado e das empresas do nosso País e constituem também uma rampa de lançamento para justificar políticas de austeridade que impedem um desenvolvimento humano sustentável.

Para saber mais consulte http://www.peticaopublica.com/?pi=denuncia. Se concordar pode dar o seu apoio, subscrevendo esta acção.

13 abril 2011

when I'm sixty four

Hoje encontrei na aula de zumba uma - não vou dizer velhinha, não vou dizer velhota - mulher de oitenta anos. Uma mulher fantástica. De momento tem problemas nos joelhos (artrose, derrame de líquido e um tumor benigno) mas que é isso para alguém da fibra dela? Pôs umas joelheiras ortopédicas, e toca a dançar. Tango, salsa, merengue, cumbia. E roda a anca, e salta, e vira.
Saiu da aula mais fresca e alegre que as outras, e ficámos a conversar um bocadinho - eu encantada. Ela é polaca, tem uns olhos verdes muito vivos, e o cabelo impecavelmente arranjado num tom avermelhado. A amiga dela, peruana, gabou-lhe a coragem de dançar. E ela, rindo: tem de ser, quero continuar em forma. Não me posso ver ao espelho, porque olho para aquela e pergunto "Maria? onde estás tu? essa aí é a tua mãe!" - o meu corpo está a ficar igual ao da minha mãe, tenho de ter cuidado para não ganhar barriga como ela. 
E vá de falar de dietas, e das melhores máquinas para não ganhar barriga, e eu "basta fazer zumba com o umbigo colado às costas" e ela "como as francesas, andam sempre esticadas e com os músculos tensos, é uma coisa que se pode treinar" e eu "ai é esse o truque delas?" e a peruana "Pilates também ajuda muito" e eu "comer devagar" e a peruana "tu comes muito depressa" e ela "sim, às vezes sirvo o meu marido e vou comendo sem sequer me sentar". E por aí fora. Depois contou que o marido vai ser internado alguns dias no hospital, mas mudou logo de assunto, porque vem ao ginásio para descansar dos problemas que tem em casa, deixa-os todos à porta. Disse-nos adeuzinho, foi para as máquinas.

Oitenta anos. 
O Paul McCartney não sabia nada da vida quando escreveu When I'm Sixty Four.

uma iniciativa de interesse vital para a Europa

"Economistas entregaram queixa contra agências de rating na PGR" é o título é de uma notícia do Público, que sintetiza assim:
Um grupo de economistas – constituído por José Reis, José Manuel Pureza, Manuel Brandão e Maria Manuela Silva – entregou hoje ao Procurador-Geral da República uma queixa contra as agências de rating, com vista a abertura de um inquérito pelo crime de manipulação do mercado.

O texto da denúncia está também disponível em forma de petição. Já fui ler, já assinei.

Admiro e louvo o gesto destes cidadãos, e pergunto: porque é que o Governo português não se lembrou de fazer isto já há meses? E o que é que a Merkel, o Sarkozy e o Durão Barroso andam a fazer (por esta ordem, hoje apetece-me o sarcasmo), que ainda não assinaram a petição? É que se trata de uma iniciativa de interesse vital para a Europa, e não apenas para Portugal.

***

Uma pequena dúvida, à margem deste assunto: não eram estas as agências que na primeira metade de Setembro de 2008 ainda davam A+ a títulos do Lehman Brothers? Como estão a decorrer os processos instaurados pelos lesados? Como é possível que empresas que falham tão redondamente, e com resultados tão catastróficos, continuem activas e com poder para alterar, com um mero estalar de dedos, a vida real dos Povos?

12 abril 2011

a oferta cultural desta cidade é uma coisa por demais...



"Aí vêm os holandeses!", anunciavam na Filarmonia, ousando brincar com uma frase de múltiplos sentidos. Sim, aí vêm eles: a rainha da Holanda, acompanhada pelo príncipe herdeiro e a sua Máxima vêm aí, e trazem com eles a Concertgebouw Orchestra, que vai dar um concerto amanhã, sob a batuta de Mariss Jansons e com a violinista Janine Jansen.
Ainda pensei ir ao concerto (a famosa orquestra, o famoso maestro, a famosa solista) e ficar nos bancos de pau para poder ver melhor (o famoso sorriso da Máxima, um dos famosos vestidos da rainha, um dos famosos vestidos da Máxima). Mas é claro que já está esgotadíssimo, como sempre.

Nada que não se resolva com um pequeno milagre: o concerto será transmitido em directo e gratuitamente no site do digital concert hall. Mais informações aqui.
Espero que ponham uma câmara do lado dos bancos de pau, virada para o público, por causa daqueles meus interesses culturais.   

(O concerto começa às 8 da noite na Alemanha, 7 em Portugal)

11 abril 2011

o dia em que tentei convencer o Joseph Calleja de que ele tinha estado em Lisboa

Se querem saber sobre a Lucia de Lammermoor e o Joseph Calleja, leiam aqui, aqui, aqui e aqui.
Eu direi apenas que é uma ópera muito curtinha. E que o Edgardo é homem de poucas palavras, passa o tempo quase todo calado e mudo. Bem podia ter cantado o triplo ou o quádruplo - e mesmo assim sabia a pouco.

Fui com uma amiga que é advogada, o que é uma grande vantagem porque lê também as letras miudinhas, e assim descobriu que iam dar autógrafos. No final da ópera, depois de nos assegurarmos que eles não voltavam mesmo ao palco, despachámo-nos para a sala onde já várias dezenas de pessoas esperavam. Atrás de nós havia um grupo de malteses eufóricos, mostrando orgulhosos as suas bandeiras de Malta. Foi muito engraçado ver no átrio da Deutsche Oper gente já de alguma idade e muito bem vestida a agitar bandeirinhas de plástico. Quando Joseph Calleja e Elena Mosuc chegaram, o bando de malteses correu em alvoroço para o seu tenor, e de repente nós, que estávamos no meio da fila, vimo-nos no fim. Ora, há males que vêm por bem: como não havia ninguém atrás de nós, pudemos ficar um bocadinho na conversa com os cantores. Durante a espera tentei negociar com a minha amiga, se ela pedia dois autógrafos e eu pedia outros dois, assim ficava com um para mim e podia dar os outros à io e ao Paulo, responsáveis por esta nossa noite em beleza. A minha amiga não tinha coragem,  eu pensei "ai três não peço, também não tenho lata para tanto, paciência, pronto, peço dois e dou ambos" e depois aconteceu tudo muito depressa: enquanto ela fazia fotografias, eu pedi quatro autógrafos, dois para mim e dois para ela, e eles deram, e riram-se das minhas confusões de multiplicação de caderninhos naquela mesa. O Joseph Calleja ainda se riu mais quando eu comecei a gaguejar em inglês que estava ali graças à insistência de amigos meus que ficaram encantados quando o viram em Lisboa, e ele "em Lisboa? só se foi no cinema!", e eu "ia jurar que não - tem a certeza que não cantou em Lisboa?", e ele é encantador, abre a cara e ri-se pelos olhos fora, "tenho a certeza, tenho". E eu, ainda pouco convencida, "adorei o seu Edgardo", e ele "muito obrigado", "eu é que agradeço!"
Eu é que agradeço: ao entusiasmo dos amigos que me levou (posso confessar? um pouco a contragosto) a comprar os bilhetes, e ao distribuidor de prodígios - seja lá quem ele for - que escolheu um homem tão simpático e simples para portador daquela voz impressionante.

querido diário:

De manhãzinha cedo saí feita taxista, para ir buscar o Joachim ao aeroporto e levá-lo ao trabalho. Enquanto esperava dentro do carro, a uns vinte metros do seu avião (já disse aqui que o aeroporto de Tegel é o mais fantástico do mundo?), ri-me com um detalhe da descrição da première do ballet Esmeralda, que passava na rádio: o bailarino Michael Banzhaf fez um Frollo tão convincente, que no fim foi vaiado pelo público.
Para nossa surpresa, o lugar de estacionamento reservado do Joachim estava ocupado por outro. Ele foi trabalhar, e eu fui resolver o problema. Num instante encontrei o chefe das oficinas que me deixou usar um dos seus lugares. Fui levar a chave à secretária dos serviços, que abriu um grande sorriso e me levou ao gabinete do Joachim, enquanto dizia "ele já foi buscar um café, e devia começar o dia devagarinho, porque temos muito que fazer" (quem me dera ter uma secretária assim).
O gabinete está lindíssimo: com móveis todos velhos encontrados no armazém, uma escultura nossa e quadros emprestados por um pintor amigo.
Deixei-lhe o carro, disse onde estava, disse o nome do simpático que me ajudou, e voltei para casa de transportes públicos. Passei por um velhote que se tinha apeado da sua bicicleta avariada, e vi parar um rapaz sorridente, com ar de profissional do velocípede - capacete e bicicleta de corrida e pernas como um cavalo de raça - oferecendo-se para ajudar.
No Media Markt perdi a cabeça, e comprei DVDs como se me preparasse para fazer um sabático em frente à televisão. No metro tentei meter o saco dentro da minha mochila, e a senhora à minha frente sorriu-me e comentou "são sempre demasiado pequenas, as mochilas", e eu respondi "especialmente quando se exagera nas compras!", e ela começou a contar "tenho andado a ajudar duas famílias, uma com cinco filhos e outra com oito, cujo pai está desempregado, e levo-lhes sempre coisas mas é difícil conseguir que caiba tudo nos sacos", "talvez fosse boa ideia arranjar um daqueles carrinhos de ir às compras?" sugeri eu, "um carrinho de avó? é melhor não: ainda me sentia mais velha do que sou" rematou ela, e eu despedi-me e saí porque já era a minha estação.

O Ratzinger que não me venha com conversas do "deserto interior". Que eu hoje, em duas horas e meia pela cidade, só encontrei gente movida a água fresca.

10 abril 2011

e depois da moeda única, a ortografia única

Como se escreveria português se fosse a Alemanha a mandar?

Talvez assim: "phrase bonita nao achach?"


(inspirado num e-mail que a minha filha me enviou ontem)

(ai! que estou a escarafunchar numa chaga aberta!)

("chaga aberta" parece pleonasmo, e para o caso não chega. Saia também uma tautologia: ai! que estou a escarafunchar numa ferida em chaga aberta!) 

(um dia que entenda a diferença entre tautologia e pleonasmo vai ser como se me tivesse saído a lotaria)

(porque não te calas, Heleninha? porque não vais arrumar a tua mesa, que foi para isso que hoje te levantaste mais cedo, Heleninha?)

(Está bem, está bem. Já cá não está quem brincou.)

hieróglifos egípcios

O dia amanhece com uma dúvida existencial: que letra será esta?


09 abril 2011

mercado da Karl-August-Platz (Charlottenburg)


Belo programa para um sábado de manhã: ir ao nosso mercado preferido, o da Karl-August-Platz, fazer as compras para a semana, petiscar aqui e ali, comprar talvez também um chapéu feito à mão. Encontrar-se com os amigos. Tentar encontrar o vendedor de ostras do ano passado, para lhe pagar as ostras e o vinho que consumimos e nos esquecemos de pagar. Ainda não foi desta vez que o encontrei, mas em compensação vi as bancas cheias de espargos e morangos. Sinal indiscutível de que chegou a primavera!

"Então faz fotografias do meu stand sem pedir autorização?", perguntou o dono dos morangos, muito zangado. Mostrei-lhe a fotografia, perguntei-lhe se podia publicar. "Pode, essa pode". A fotografia não vale nada mas, conquistada a este preço, tem de vir para a página dos troféus:


No tempo dos espargos não há que saber: servem-se com manteiga derretida, acompanhados por batatas cozidas com casca.
Escolher as batatas é que é mais complicado, perante tanta variedade.


Os egípcios das ervas aromáticas estavam bem dispostos. "Posso fazer uma fotografia?", perguntei eu, gato escaldado. "O quê, quer-me fotografar a mim?", provocou o mais velho. "Com certeza!", e apontei para ele. Quais quê - com um gesto largo da mão ofereceu toda a mercadoria à minha objectiva e foi-se embora a rir.



Geografia berlinense: em frente ao Egipto fica a Turquia.


E um pouco mais à frente, um pasteleiro francês.



A mocinha dos cogumelos ainda não tinha acabado de decorar o stand, mas já tinha clientes. Ficámos na conversa com quem passava, eu ia fazendo fotografias, ela chegou a posar, e no fim disse-me que depois de tantas fotografias tinha de lhe comprar cogumelos. Bom: há coisas piores na vida.



Comprei-lhe 200 g de cogumelos variados, vim para casa, fiz o almoço.


em Berlim, a primavera vem por partes

Em Berlim, a primavera já chegou ao nordeste da cidade, mais propriamente a Prenzlauer Berg:




A Wedding também, mas no que diz respeito a esse bairro vão ter de crer sem ver, porque quando passei por lá não tinha máquina fotográfica.

E no Ku'damm, a famosa avenida da antiga Berlim ocidental? Isto:




Para que vejam como a cidade é grande: tão grande que a primavera se organiza para conquistar um bairro de cada vez!
(Agora tenho uma dúvida: quando os plátanos do Ku'damm ficarem verdes, será que em Prenzlauer Berg já se prepara o outono?)

08 abril 2011

o maestro como pastor de catarses

"Esta Helena só conhece o Rattle, coitada", dirão vocês, mas é o que tenho mais à mão, paciência. Cá vamos nós outra vez:
Ao ver este vídeo, que roubei ao valkirio (não me digam que precisam do link?!),



(nota para os meus amigos cristãos que não têm tempo para ver tudo o que aqui ponho: vejam ao menos os dois últimos minutos - quem me dera que o arcebispo de Berlim que fez uma homilia interminável sobre "Deus e a Arte" tivesse visto este vídeo e aprendido!)

como ia dizendo: ao ver este vídeo, lembrei-me do Simon Rattle, que dirige a orquestra com um tempo de avanço. Ainda os violinos estão num pianissimo sublime, e já ele está a fazer caretas aos metais, que no momento seguinte arrancam em tempestade. 

Até parece eu daquela vez que fui ver pela segunda vez o mesmo filme, e no momento em que todos se estavam a rir eu já estava a soluçar alto porque sabia que na cena seguinte a mãe ia morrer.

para acordar em beleza (2)

Mais uma bela maneira de começar a manhã: iluminada por palavras simples e inteligentes.

Resumindo: o Avaaz está a juntar assinaturas de protesto contra o modo como Bradley Manning (o rapaz que passou informações confidenciais ao Wikileaks) tem sido tratado. Se quiserem ler mais informação e assinar, é por aqui.
O e-mail que recebi tinha links de vários artigos em jornais. Entre eles, este testemunho de PJ Crowley, um alto funcionário do Department of State que teve de se demitir após ter afirmado em público que esse tratamento era estúpido e contraproducente.

Para minha memória futura, é isto:

Why I called Bradley Manning's treatment 'stupid'

The US should uphold the highest standards towards its citizens, including the WikiLeaks accused. I stand by what I said
The way suspected WikiLeaks leaker Bradley Manning is being treated in the Marine Corps brig at Quantico, Virginia amounts to abuse, his lawyer has said. Photograph: AP

Earlier this month, I was asked by an MIT graduate student why the United States government was "torturing" Private First Class Bradley Manning, who is accused of being the source of the WikiLeaks cables that have been reported by the Guardian and other news outlets and posted online. The fact is the government is doing no such thing. But questions about his treatment have led to a review by the UN special rapporteur on torture, and challenged the legitimacy of his pending prosecution.
As a public diplomat and (until recently) spokesman of the department of state, I was responsible for explaining the national security policy of the United States to the American people and populations abroad. I am also a retired military officer who has long believed that our civilian power must balance our military power. Part of our strength comes from international recognition that the United States practises what we preach. Most of the time, we do. This strategic narrative has made us, broadly speaking, the most admired country in the world.
To be clear, Private Manning is rightly facing prosecution and, if convicted, should spend a long, long time in prison. Having been deeply engaged in the WikiLeaks issue for many months, I know that the 251,000 diplomatic cables included properly classified information directly connected to our national interest. The release placed the lives of activists around the world at risk.
Julian Assange and others have suggested that the release of the cables was to expose wrongdoing. Nonsense.
While everyone can point to an isolated cable, taken as a whole, the cables tell a compelling story of "rightdoing" – of US diplomats engaged in 189 countries around the world, working on behalf of the American people, and serving broader interests as well. As a nation, we are proud of the story the cables tell, even as we decry their release.
But I understood why the question was asked. Private Manning's family, joined by a number of human rights organisations, has questioned the extremely restrictive conditions he has experienced at the brig at Marine Corps base Quantico, Virginia. I focused on the fact that he was forced to sleep naked, which led to a circumstance where he stood naked for morning call.
Based on 30 years of government experience, if you have to explain why a guy is standing naked in the middle of a jail cell, you have a policy in need of urgent review. The Pentagon was quick to point out that no women were present when he did so, which is completely beside the point.
The issue is a loss of dignity, not modesty.
Our strategic narrative connects our policies to our interests, values and aspirations. While what we do, day in and day out, is broadly consistent with the universal principles we espouse, individual actions can become disconnected. Every once in a while, even a top-notch symphony strikes a discordant note. So it is in this instance.
The Pentagon has said that it is playing the Manning case by the book. The book tells us what actions we can take, but not always what we should do. Actions can be legal and still not smart. With the Manning case unfolding in a fishbowl-like environment, going strictly by the book is not good enough. Private Manning's overly restrictive and even petty treatment undermines what is otherwise a strong legal and ethical position.
When the United States leads by example, we are not trying to win a popularity contest. Rather, we are pursuing our long-term strategic interest. The United States cannot expect others to meet international standards if we are seen as falling short. Differences become strategic when magnified through the lens of today's relentless 24/7 global media environment.
So, when I was asked about the "elephant in the room," I said the treatment of Private Manning, while well-intentioned, was "ridiculous" and "counterproductive" and, yes, "stupid".
I stand by what I said. The United States should set the global standard for treatment of its citizens – and then exceed it. It is what the world expects of us. It is what we should expect of ourselves.

para acordar em beleza

Este vídeo entrou-me em casa esta manhã: bela maneira de começar o dia!



Recomendo um passeio pelos comentários. Desde o que imita o miúdo no regresso do dentista ("IS THIS REAL???"), ao que se zanga por ser um anúncio para um telemóvel, passando pelas gargalhadas que o slogan provoca: "touch wood". O mais engraçado de todos, para mim, é o azedo que diz que a execução tem alguns erros de ritmo. Hihihi.

07 abril 2011

"diálogo com um jovem à rasca"

Mais ou menos à milésima vez que este texto do Rui Herbon me passa pela frente, lembro a Maria Antonieta e o comentário que (dizem que) largou perante a população enraivecida:
"não têm pão? comam brioche!"

Independentemente das razões de uns e de outros: não é grande ideia subestimar milhares de pessoas que saem à rua, ou desconversar.

***

Ainda sobre este assunto: a Rita Dantas saiu-se outra vez com um post de antologia.

Portugal visto de longe

Portugal foi hoje notícia na rádio e nos jornais alemães. Mas notícia calma: que eles bem tentaram evitar isto, mas o que tem de ser tem muita força, e que agora o que é preciso é que a Espanha não venha pedir também, porque se isso acontecer vai ser um sarilho. Parece que andam a ler os Ladrões de Bicicletas, porque falaram na recessão que por aí vem, e que é preciso evitar a todo o custo. Ouvi alguém dizer na rádio que seria normal pensar em taxas de juro altas para impor mais disciplina, mas que isso não deve ser feito porque terá efeitos muito contraprodutivos - a ideia é ajudar estes países a sair da crise, e não empurrá-los ainda mais para o abismo da recessão.
Vista de longe, a situação não parece tão negra.

E para quem se chateou outro dia por a Angela Merkel ter falado de Portugal no Parlamento: não é só Portugal! Hoje pressionou Israel para resolver os problemas com a Palestina, e até disse que a única solução seria a de dois Estados. E o embaixador da China foi convidado a prestar esclarecimentos sobre o Ai Weiwei. Mas podem sentir-se vingados: o Bill Gates veio ontem a Berlim dizer como é que a Alemanha podia ser um país melhor.
Resumindo: anda toda a gente a meter-se na vida de toda a gente - este nosso mundo parece uma cambada de comadres...

e concerto

O ensaio geral foi tão bom que resolvi ir também ao concerto.
Os bilhetes estavam esgotados há séculos, mas ontem era dia de prodígios.
Como contar o que se passou naquela sala?
Talvez baste se disser isto: deviam banir as palmas nos cinco minutos seguintes ao fim da peça. Foram todas mais que merecidas, mas aquele ruído de chuva furiosa parece uma escavadora gigante a abrir brutalmente caminho pela nossa paisagem interior.

No fim, enquanto bebíamos uma cervejinha nos bastidores, entre caixas de instrumentos musicais e insiders com o rosto marcado por um cansaço feliz, dissemos a um dos músicos:
- O concerto foi ainda e muito melhor que o ensaio!
Resposta sorridente dele:
- A Filarmónica é conhecida pelos seus concertos, não pelos seus ensaios gerais.

Quem quiser ver, pode procurar aqui. Por 9,90 € podem assistir hoje à transmissão em directo. O bilhete permite ver também todos os concertos em arquivo durante um período de 24 horas.

06 abril 2011

ensaio geral

Tenho de rever a minha teoria sobre os melhores lugares da Filarmonia quando Simon Rattle dirige. É verdade que dos mais baratos se vê a fantástica coreografia e mímica do maestro, mas nos lugares nobres a orquestra tem som de madeiras antigas e chocolate, e chega-nos com uma clareza que quase dói.
Invente-se um arquitecto capaz de resolver este dilema do audiovisual.

Hoje tive a sorte de poder assistir ao ensaio geral da 5ª de Mahler com Simon Rattle e a Filarmónica. No bloco B, um luxo - pese embora o, enfim, já sabem.
 
Entre os assistentes havia alguns grupos de crianças de infantário. Dezenas de miúdos, sentados em filinha no bloco por cima da orquestra. Pensei "aimêdês, isto ainda vai dar barraca", mas não: portaram-se muito bem, nem fizeram barulho enquanto tapavam ostensivamente os ouvidos, nem se lembraram de tossir, nem nada.

Ao fim do primeiro minuto do adagietto lamentei não estar num lugar de frente para o maestro, para lhe poder ver o rosto em lágrimas, com certeza tomado por uma dor vinda do princípio do mundo. Como me enganei: ele parou, para repetir uma passagem que não estava ainda como ele a queria, e falou com uma voz perfeitamente controlada, chegou até a cantar algumas notas para os músicos perceberem melhor.
O maestro é um fingidor...


No fim do ensaio almoçámos na cantina dos músicos, e eu encantada a ouvir as histórias: "o Simon Rattle estava todo contente, até disse que..." e "sabem daquelas aulas de música de câmara nas primeiras quartas-feiras de cada mês?" e "daqui a nada vão começar a ensaiar o Parsifal, se quiserem podemos ir ver" e "nos pianissimo não há quem consiga bater o coro RIAS". Também uns casos interessantes de Biologia: "o meu gato gosta de Mozart mas sente-se incomodado com Bartók" e  "já me aconteceu de ter dois cães lado a lado, um chorava e o outro cantava a acompanhar a música".
Na mesa ao lado almoçava Simon Halsey, o famoso maestro do Rundfunkchor.
Quando nos levantámos, dois técnicos do edifício, em fato-macaco azul, ocuparam a nossa mesa.

Berlim.

05 abril 2011

uma gaivota voava voava...

Chama-se Smart Bird, foi criado por uma empresa alemã, e apresentado por estes dias na Feira de Hannover.  Onde, ao que consta, as empresas de energia nuclear deram lugar a outras, da área das energias renováveis. Às vezes o nosso futuro aparece-nos com um sorriso na cara.

04 abril 2011

marcos miliários

Ainda outro dia andava em chás de panela, aquelas festas malucas em que aprendíamos a dança da garrafa e ensinávamos a noiva a pôr preservativos em bananas.
Ainda outro dia andava de baby shower em baby shower, que as mulheres dos investigadores estrangeiros da UCSF aproveitam quase todas esse sabático para arranjar um pequeno american citizen.
Ainda outro dia, pois, e na semana passada fui convidada para uma festa ainda sem nome: uma avó comemorava em Berlim o nascimento do seu neto em Zurique. Ainda só o conhece por skype, e enquanto espera o momento de o visitar vai anunciando ao mundo que está com coração de festa. Nos tempos que correm, com as distâncias cada vez maiores que separam as famílias, acredito que muito em breve estas festas terão um nome.

Entre a dança da garrafa e a festa de avó-de-fresco não há-de haver mais que quinze anos.
Ou é de mim, ou à medida que a vida avança os espaços entre os marcos miliários ficam muito mais curtos...

taxista

Hoje vou andar feita taxista. Começou de madrugada, para levar o Joachim ao trabalho, para ficar com o carro, para levar a Christina à médica (está com uma comoção cerebral por causa de uma bolada que levou; tem melhorado muito, mas ainda não consegue ler - se isto continua assim, só lhe restará fazer carreira como modelo fotográfico) (eu avisei que hoje ando feita taxista), para trazer a Christina de volta à cama, para levar o atestado à escola, para ir levar o carro ao Joachim.
Depois volto para casa de transportes públicos, mas até aí vou poder fazer todos os comentários primários que me apetecer. Até já tenho os olhinhos a brilhar só de pensar no fartar vilanagem que pode ser.
Hehehe.

De madrugada, no regresso para casa, tive de esperar numa ruazinha porque a condutora à minha frente queria estacionar o carro. Chega à frente, chega atrás, mete mais para o meio da estrada, faz uma curva como quem quer meter de viés por cima da caldeira da árvore, e eu "aimêdês, pobres pneus", e ela chega mais à frente, e curva menos pronunciada, e eu "aimêdês que ela vai direitinha às barras de metal que protegem o canteiro!", e ela isso mesmo, direitinha, e eu apito mas ela não pára, puum! contra a barra de metal. Nem sei se reparou, porque arrancou logo e seguiu. No cruzamento seguinte parou, indecisa sobre o lado para onde virar, e eu parei ao lado dela para lhe explicar porque tinha apitado, abri a janela, ela olhou para mim, barafustou, arrancou a toda a velocidade e foi-se embora. Eu pensei "mulheres!" (eu avisei que hoje ando feita taxista) e fui à padaria. Estacionei o carro, saí, e só então me lembrei que não tinha dinheiro. Mulheres...
Tenho de ir ver para que lado se virou a lua, que este dia está-me a começar esquisito.

02 abril 2011

um atalho para sair do nuclear

Resumidamente, é assim: a SPD e os Verdes queriam acabar com a energia nuclear na Alemanha, e prepararam as coisas para que isso sucedesse o mais depressa possível. Depois veio a CDU, e a política mudou de novo: afinal, as centrais nucleares são seguras. Depois veio a catástrofe de Fukuxima (com x, como me avisou um simpático comentador, tal como Hiroxima) e a CDU começou a achar que se calhar as centrais não são tão seguras como parecem, e resolveu mandar parar algumas, as mais velhas, enquanto vamos pensar. Agora as empresas do nuclear andam por aí a protestar que não se pode fazer política de pára e arranca, e que se a CDU mudar de ideias em relação a coisas que já assinou o Estado vai ter de indemnizar as empresas, e não será pouco.
Não será pouco: só esta paragem temporária provoca prejuízos de 700.000 euros por dia em Biblis A.

Se eu fosse consumidor, era agora que me mudava para um fornecedor de energia "limpa". Por acaso sou consumidor, e já me mudei há dois anos. A nossa electricidade vem de produtoras de energia hídrica na Floresta Negra.

Se eu fosse a Angela Merkel, não discutia com as empresas. Obrigava-as a pagar todos-todos-todos os custos causados por um acidente: desde os bombeiros às indemnizações às vítimas. E obrigava-as a fazer agora um seguro que cobrisse todos esses riscos. De modo que as produtoras de energia nuclear não tinham de fazer lobbying para o lado do Governo, tinham era de ir discutir essas questões de risco residual com as suas seguradoras. Ah, isso é que seria lindo de se ver!

Se a Angela Merkel lesse este blogue, este seria o momento em que ela batia com a mão na testa e se perguntava: "porque é que ainda não me lembrei da Helena para me vir dar ideias a tempo inteiro?"
("A tempo inteiro não, minha senhora" diria eu, "preciso de algum tempo livre para as aulas de zumba, onde me ocorrem todas estas ideias geniais")

01 abril 2011

da série "uma aventura"

Já nas bancas: Uma Aventura na Primavera.

Começa com o misterioso caso da roupa que encolheu no armário.

Continua com abordagens várias ao dilema: comprar roupa de Verão para o status quo, ou acreditar que dias melhores virão?

(A esperança é a última a morrer - resiste ainda e muito mais que as costuras.)
(Triste vida.)