A Rita, com aquele seu ar de "eu?! eu só estava aqui a fazer tempo enquanto não vou almoçar..." escreveu o post mais engraçado que li sobre the Royal Wedding.
Eu a ler, e a pensar: eh, lá, ela também reparou nisto (III, V, VII, VIII, XX, XXII, XXIII, XXX)?! será que estamos definitivamente telepáticas?
Não, definitivamente telepáticas não estamos. Ainda me falta muito para conseguir produzir comentários sensacionais como estes: IV, IX, X, XIV, XXVI.
Rita, só para ti, aqui vão os comentários que não passaram no twitter: a mulher do David Cameron levava um "fascinator" minúsculo. Tinham pedido às senhoras que não exagerassem nos chapéus, porque só havia 0,25 m² por pessoa e aqueles apetrechos tiram a vista aos que estão atrás, mas elas, ó pra mim era o que faltava, zimbas. O broche da rainha era da rainha-mãe - para a tornar simbolicamente presente nesta festa (e eu, desde que vi o King's speech, acho bem). A baby-sitter era não propriamente dama-de-honor (cheira-me que com o novo acordo ortográfico estes hífenes desaparecem todos, o que é muito inteligente: gasta-se menos tinta da impressora; de onde se prova que o acordo ortográfico é muito ecológico - poupa nos hífenes e nas consoantes mudas. Olha, tem graça: acabei de descobrir o único aspecto positivo dessa trapalhada) mas madrinha.
01 maio 2011
30 abril 2011
análise comparada
O casamento do século (até ver, e sem contar com os casamentos dos meus amigos), foi bonitinho - gostei especialmente de ver o Elton John a cantar pelo livro de cânticos, melhor que isso só mesmo imaginar o Saramago muito atinado a repetir com os outros meninos B-A-BA B-E-BE -, mas...
Chegada da noiva é assim:
Momento musical único num casamento é assim:
Beijo(s) é assim (a partir de 4:20 e 5:00):
E ainda está para nascer duas vezes quem conseguir superar isto:
"Queridos amigos: quero começar por agradecer ao povo sueco, porque me deu o meu príncipe".
Chegada da noiva é assim:
Momento musical único num casamento é assim:
Beijo(s) é assim (a partir de 4:20 e 5:00):
E ainda está para nascer duas vezes quem conseguir superar isto:
"Queridos amigos: quero começar por agradecer ao povo sueco, porque me deu o meu príncipe".
troco uma informação por outra
Informação que quero receber: como é que se tira o detergente de lavar a louça que saiu da garrafa e se espalhou na alcatifa do carro?
Informação que dou para troca: Sauerland, de onde acabei de chegar, não significa "terra azeda" mas "terra do sul" - é Plattdeutsch. Aposto que estavam todos mortinhos por ficar a saber isto, e não tarda nada vão chover comentários sobre como tirar o malfadado detergente da malfadada alcatifa.
Obrigada, obrigada.
(Depois de resolver esse problema ponho algumas fotografias da "terra do sul" - que fica a norte, claro: só para que conste que tudo é relativo, e nem os pontos cardeais escapam)
Informação que dou para troca: Sauerland, de onde acabei de chegar, não significa "terra azeda" mas "terra do sul" - é Plattdeutsch. Aposto que estavam todos mortinhos por ficar a saber isto, e não tarda nada vão chover comentários sobre como tirar o malfadado detergente da malfadada alcatifa.
Obrigada, obrigada.
(Depois de resolver esse problema ponho algumas fotografias da "terra do sul" - que fica a norte, claro: só para que conste que tudo é relativo, e nem os pontos cardeais escapam)
25 abril 2011
canção de amor para o meu país
O título do post é de uma canção de Lluis Llach, que também canta este poema de Miquel Marti i Pol. "Agora mesmo", um poema que parece escrito para este momento de Portugal:
Ara Mateix
Ara mateix enfilo aquesta agulla
amb el fil d'un propòsit que no dic
i em poso a apedaçar. Cap dels prodigis
que anunciaven taumaturgs insignes
no s'ha complert, i els anys passen de pressa.
De res a poc, i sempre amb vent de cara,
quin llarg camí d'angoixa i de silencis.
I som on som; més val saber-ho i dir-ho
i assentar els peus en terra i proclamar-nos
hereus d'un temps de dubtes i renúncies
en què els sorolls ofeguen les paraules
i amb molts miralls mig estrafem la vida.
De res no ens val l'enyor o la complanta,
ni el toc de displicent malenconia
que ens posem per jersei o per corbata
quan sortim al carrer. Tenim a penes
el que tenim i prou: l'espai d'història
concreta que ens pertoca, i un minúscul
territori per viure-la. Posem-nos
dempeus altra vegada i que se senti
la veu de tots solemnement i clara.
Cridem qui som i que tothom ho escolti.
I en acabat, que cadascú es vesteixi
com bonament li plagui, i via fora!,
que tot està per fer i tot és possible.
Miquel Marti i Pol
Ara Mateix
Ara mateix enfilo aquesta agulla
amb el fil d'un propòsit que no dic
i em poso a apedaçar. Cap dels prodigis
que anunciaven taumaturgs insignes
no s'ha complert, i els anys passen de pressa.
De res a poc, i sempre amb vent de cara,
quin llarg camí d'angoixa i de silencis.
I som on som; més val saber-ho i dir-ho
i assentar els peus en terra i proclamar-nos
hereus d'un temps de dubtes i renúncies
en què els sorolls ofeguen les paraules
i amb molts miralls mig estrafem la vida.
De res no ens val l'enyor o la complanta,
ni el toc de displicent malenconia
que ens posem per jersei o per corbata
quan sortim al carrer. Tenim a penes
el que tenim i prou: l'espai d'història
concreta que ens pertoca, i un minúscul
territori per viure-la. Posem-nos
dempeus altra vegada i que se senti
la veu de tots solemnement i clara.
Cridem qui som i que tothom ho escolti.
I en acabat, que cadascú es vesteixi
com bonament li plagui, i via fora!,
que tot està per fer i tot és possible.
Miquel Marti i Pol
24 abril 2011
23 abril 2011
a Paixão segundo S. João e Bach
Parece-me que ganhei um novo vício: o Bach-Chor da Kaiser Wilhelm Gedächtnis Kirche, um coro com cinquenta anos e cerca de oitenta cantores,
(e quase metade deles homens, vi com estes que a terra e tal, podem crer, valhósdeus! - e agora suspiro, com uma pontinha de inveja, que bem sei como é difícil arranjar homens para os coros, ali estão quarenta e no meu coro, hã? - de momento, zero)
interpreta em ritmo quinzenal cantatas de Bach para acompanhar os serviços religiosos. E, se querem saber tudo: a entrada é gratuita.
Ontem cantaram a Paixão segundo S. João. Aaaaah.
Pois lá fomos, e encontrámos amigos que tinham feito gazeta à missa de Sexta-Feira Santa, considerando que aquele concerto era cerimónia suficiente. Espertos, pensámos nós, e anotámos logo a ideia para o próximo ano.
Antes de começar, o maestro pediu ao público que no fim não aplaudisse "mesmo que tivessem vontade de o fazer..." - o público riu (mas discretamente - foi quando desconfiei que não eram apenas os nossos amigos que faziam daquele concerto o momento espiritual do dia).
Às vezes achei a interpretação demasiado bombástica. Eles provavelmente sabem melhor que eu como se deve cantar aquilo, mas pronto, não cantam Bach à minha maneira, é o que é...
Outras vezes, achei sublime. Gostei especialmente dos momentos de puro mob, quando o coro dava voz à multidão enfurecida, "crucifica-o! crucifica-o!" ou "não escrevas, não escrevas, não escrevas Rei dos Judeus". E também daquele momento do mais cínico fundamentalismo "nós temos uma lei! nós temos uma lei! nós temos uma lei!"
Já lá vão três séculos, já lá vão dois milénios, e permanece tão actual.
Bach integrou nas suas oratórias e cantatas melodias e textos já existentes, vindos sobretudo da época da Reforma, e que ainda hoje são cantadas nas igrejas. O que complica a vida do público, porque temos de nos reprimir para não cantar com o coro. E talvez fosse essa a ideia, no tempo em que Bach presidia à execução na sua igreja em Leipzig, e as oratórias eram parte da celebração religiosa com o povo.
Quando a última nota se extinguiu, só os que tinham chegado atrasados bateram palmas e, pelo silêncio obstinado dos outros, perceberam rapidamente que deviam ficar quietos. Pelo que o arrebatamento não foi quebrado. Aaaah, que coisa boa: sair de um concerto assim sem o alvoroço dos aplausos.
(e quase metade deles homens, vi com estes que a terra e tal, podem crer, valhósdeus! - e agora suspiro, com uma pontinha de inveja, que bem sei como é difícil arranjar homens para os coros, ali estão quarenta e no meu coro, hã? - de momento, zero)
interpreta em ritmo quinzenal cantatas de Bach para acompanhar os serviços religiosos. E, se querem saber tudo: a entrada é gratuita.
Ontem cantaram a Paixão segundo S. João. Aaaaah.
Pois lá fomos, e encontrámos amigos que tinham feito gazeta à missa de Sexta-Feira Santa, considerando que aquele concerto era cerimónia suficiente. Espertos, pensámos nós, e anotámos logo a ideia para o próximo ano.
Antes de começar, o maestro pediu ao público que no fim não aplaudisse "mesmo que tivessem vontade de o fazer..." - o público riu (mas discretamente - foi quando desconfiei que não eram apenas os nossos amigos que faziam daquele concerto o momento espiritual do dia).
Às vezes achei a interpretação demasiado bombástica. Eles provavelmente sabem melhor que eu como se deve cantar aquilo, mas pronto, não cantam Bach à minha maneira, é o que é...
Outras vezes, achei sublime. Gostei especialmente dos momentos de puro mob, quando o coro dava voz à multidão enfurecida, "crucifica-o! crucifica-o!" ou "não escrevas, não escrevas, não escrevas Rei dos Judeus". E também daquele momento do mais cínico fundamentalismo "nós temos uma lei! nós temos uma lei! nós temos uma lei!"
Já lá vão três séculos, já lá vão dois milénios, e permanece tão actual.
Bach integrou nas suas oratórias e cantatas melodias e textos já existentes, vindos sobretudo da época da Reforma, e que ainda hoje são cantadas nas igrejas. O que complica a vida do público, porque temos de nos reprimir para não cantar com o coro. E talvez fosse essa a ideia, no tempo em que Bach presidia à execução na sua igreja em Leipzig, e as oratórias eram parte da celebração religiosa com o povo.
Quando a última nota se extinguiu, só os que tinham chegado atrasados bateram palmas e, pelo silêncio obstinado dos outros, perceberam rapidamente que deviam ficar quietos. Pelo que o arrebatamento não foi quebrado. Aaaah, que coisa boa: sair de um concerto assim sem o alvoroço dos aplausos.
"o inevitável é inviável"
Não vou falar propriamente do novo manifesto, que pode ser lido aqui, mas apenas de um facto curioso: o seu terceiro ponto, que abaixo transcrevo, é algo que também na Alemanha suscita cada vez mais queixas.
Concretamente: contra a Angela Merkel, que vai ao Parlamento defender determinadas políticas afirmando que são inevitáveis. Ainda outro dia ela teimava que o pacote de medidas para ajudar os países do euro que estão em dificuldades é - adivinharam! - inevitável. E o pessoal protesta, que inevitável é a avó dela e tal, e que não há nada mais anti-democrático que vir com propostas que não admitem discussão.
Parece que andamos todos ao mesmo, mas de lados diferentes do espelho.
"Por fim, o terceiro e mais inquietante eixo desta ofensiva anti-Abril assenta na imposição de uma ideia de inevitabilidade que transforma a política mais numa ratificação de escolhas já feitas do que numa disputa real em torno de projectos diferenciados. Este discurso ganhou terreno nos últimos tempos, acentuou-se bastante nas últimas semanas e tenderá a piorar com a transformação do país num protectorado do FMI. Um novo vocabulário instala-se, transformando em «credores» aqueles que lucram com a dívida, em «resgate financeiro» a imposição ainda mais acentuada de políticas de austeridade e em «consenso alargado» a vontade de ditar a priori as soluções governativas. Esta maquilhagem da língua ocupa de tal forma o terreno mediático que a própria capacidade de pensar e enunciar alternativas se encontra ofuscada."
Concretamente: contra a Angela Merkel, que vai ao Parlamento defender determinadas políticas afirmando que são inevitáveis. Ainda outro dia ela teimava que o pacote de medidas para ajudar os países do euro que estão em dificuldades é - adivinharam! - inevitável. E o pessoal protesta, que inevitável é a avó dela e tal, e que não há nada mais anti-democrático que vir com propostas que não admitem discussão.
Parece que andamos todos ao mesmo, mas de lados diferentes do espelho.
"Por fim, o terceiro e mais inquietante eixo desta ofensiva anti-Abril assenta na imposição de uma ideia de inevitabilidade que transforma a política mais numa ratificação de escolhas já feitas do que numa disputa real em torno de projectos diferenciados. Este discurso ganhou terreno nos últimos tempos, acentuou-se bastante nas últimas semanas e tenderá a piorar com a transformação do país num protectorado do FMI. Um novo vocabulário instala-se, transformando em «credores» aqueles que lucram com a dívida, em «resgate financeiro» a imposição ainda mais acentuada de políticas de austeridade e em «consenso alargado» a vontade de ditar a priori as soluções governativas. Esta maquilhagem da língua ocupa de tal forma o terreno mediático que a própria capacidade de pensar e enunciar alternativas se encontra ofuscada."
22 abril 2011
telegrama para quem veio passar as férias da Páscoa a Berlim
(este post tem um destinatário concreto, mas pode ser que aproveite a outros - ora então, para todos: bom proveito, e boas férias!)
Algumas propostas para gozar este bom tempo:
-- Sábado de manhã: mercado na Karl-August-Platz (Charlottenburg) ou Kollwitzplatz (Prenzlauer Berg).
-- Domingo à tarde: assistir ao karaoke no Mauerpark - é um ambiente fantástico.
-- Qualquer dia, excepto segundas: ir de S-Bahn até Wannsee, ir de autocarro até à casa do Max Liebermann (tem de momento uma exposição de pinturas suas de motivos marítimos) e tomar um cafézito no seu terraço, em frente ao lago. Seguir a pé até à casa da Conferência de Wannsee, e almoçar ou jantar numa barraquinha com esplanada, que fica ao nível do lago, mesmo ao lado (esquerdo) dessa casa. Eu encomendo sempre uma espécie de tortilha com presunto que se chama Bauernfrühstück.
-- Terça-feira, entre as 12:00 e as 18:30: mercado dos turcos no Maybachufer. Comer Gözleme. Ou ir ao Defne, um restaurante turco fantástico no Planufer, mesmo ao lado, e comer o polvo deles, o mais macio que conheço. Ou ir ao italiano (il Casolare) também no Planufer, mas que costuma estar sempre muito cheio - toda a comida é muito boa, e as pizzas são famosas.
-- Terça-feira, 13:00 (é melhor chegar meia hora antes): concerto gratuito no foyer da Filarmonia. Programa do dia 26.03:
Ukrainischer Kammerchor CREDO, Kiew
Bogdan Plish Leitung
Erzbischof Ionafau - Ausgewählte Gesänge aus der Tschernobyl-Liturgie (cânticos escolhidos da Liturgia de Tchernobyl)
Valentin Bibick - Gesänge aus der Oper Die Flucht (temas da ópera "a fuga")
-- A qualquer hora e dia: sentar-se na relva entre a estação S-Bahn Hackesche Markt e o rio, em frente à ilha dos museus.
Queria incluir fotografias, e contar histórias, mas estou com muito stress de lazer. Fica para outra vez.
Algumas propostas para gozar este bom tempo:
-- Sábado de manhã: mercado na Karl-August-Platz (Charlottenburg) ou Kollwitzplatz (Prenzlauer Berg).
-- Domingo à tarde: assistir ao karaoke no Mauerpark - é um ambiente fantástico.
-- Qualquer dia, excepto segundas: ir de S-Bahn até Wannsee, ir de autocarro até à casa do Max Liebermann (tem de momento uma exposição de pinturas suas de motivos marítimos) e tomar um cafézito no seu terraço, em frente ao lago. Seguir a pé até à casa da Conferência de Wannsee, e almoçar ou jantar numa barraquinha com esplanada, que fica ao nível do lago, mesmo ao lado (esquerdo) dessa casa. Eu encomendo sempre uma espécie de tortilha com presunto que se chama Bauernfrühstück.
-- Terça-feira, entre as 12:00 e as 18:30: mercado dos turcos no Maybachufer. Comer Gözleme. Ou ir ao Defne, um restaurante turco fantástico no Planufer, mesmo ao lado, e comer o polvo deles, o mais macio que conheço. Ou ir ao italiano (il Casolare) também no Planufer, mas que costuma estar sempre muito cheio - toda a comida é muito boa, e as pizzas são famosas.
-- Terça-feira, 13:00 (é melhor chegar meia hora antes): concerto gratuito no foyer da Filarmonia. Programa do dia 26.03:
Ukrainischer Kammerchor CREDO, Kiew
Bogdan Plish Leitung
Erzbischof Ionafau - Ausgewählte Gesänge aus der Tschernobyl-Liturgie (cânticos escolhidos da Liturgia de Tchernobyl)
Valentin Bibick - Gesänge aus der Oper Die Flucht (temas da ópera "a fuga")
-- A qualquer hora e dia: sentar-se na relva entre a estação S-Bahn Hackesche Markt e o rio, em frente à ilha dos museus.
Queria incluir fotografias, e contar histórias, mas estou com muito stress de lazer. Fica para outra vez.
Etiquetas:
viagens,
visitar Berlim,
viver em Berlim
o que procuro?
I have climbed highest mountains
I have run through the fields
Only to be with you
Only to be with you
I have run
I have crawled
I have scaled these city walls
These city walls
Only to be with you
But I still haven't found what I'm looking for
But I still haven't found what I'm looking for
I have kissed honey lips
Felt the healing in her fingertips
It burned like a fire
This burning desire
I have spoke with the tongue of angels
I have held the hand of a devil
It was warm in the night
I was cold as a stone
But I still haven't found what I'm looking for
But I still haven't found what I'm looking for
I believe in the Kingdom Come
Then all the colors will bleed into one
Bleed into one
But yes I'm still running
You broke the bonds
And you loosed the chains
Carried the cross
Of my shame
Oh my shame
You know I believe it
But I still haven't found what I'm looking for
But I still haven't found what I'm looking for
But I still haven't found what I'm looking for
21 abril 2011
pequeníssimo ensaio sobre a transversalidade de Bach
(detalhe da Nikolaikirche - foto daqui)
A Paixão segundo S. João foi ouvida pela primeira vez em Leipzig, na Nikolaikirche - a igreja onde nasceu o movimento pacífico que muito contribuiu para a queda do muro. Amanhã vou ouvi-la na Gedächtniskirche, a ruína de uma igreja que, no coração de Berlim, não deixa esquecer o que aqui aconteceu durante a segunda guerra mundial.
Um Bach que atravessa a História da Alemanha.
(melhor seria ter-lhe chamado "pequeníssimo ensaio sobre a transversalidade de Jesus Cristo")
elogio da Marta
No meio de tanto desânimo e tanta queixa, misturados com cinismo e venenos, aparece um post assim, que nos faz acreditar que nem tudo está perdido - e podemos começar hoje mesmo, por nós próprios:
A Marta dos questionários
A Marta dos questionários
20 abril 2011
a energia mais barata do mundo
Vinte e cinco anos depois do acidente de Tchernobyl, vai ser construído um sarcófago gigante para substituir o primeiro, que foi construído à pressa nos meses que se seguiram ao acidente e já apresenta sinais de corrosão. Ontem foi acordado um pacote de 500 milhões de euros, e isso é apenas cerca de um terço do montante necessário.
Já há quem diga que se devia fazer o mesmo em Fukuxima.
Aqui pode-se ver uma animação do projecto: uma obra fascinante.
(Se eu tivesse dinheiro disponível, jogava na indústria do ferro e do betão - anuncia-se-lhes um grande futuro)
19 abril 2011
alvíssaras!
A boa notícia do dia: há uma dieta para emagrecer baseada em comer tanto quanto se quer, ou até mais. De duas em duas horas: toca a fazer mais dieta.
O meu irmão disse-me ontem que perdeu dois quilos em pouco tempo. Sem nunca ter sentido fome.
Quem quiser o nome do médico, eu vendo.
(hihihi)
Claro que não é tudo perfeito: acabaram-se os refogadinhos, os azeitinhos, essas coisinhas.
Portanto, plano B: troco o nome daquele médico por receitas de comidas saborosas e sem gordura.
O meu irmão disse-me ontem que perdeu dois quilos em pouco tempo. Sem nunca ter sentido fome.
Quem quiser o nome do médico, eu vendo.
(hihihi)
Claro que não é tudo perfeito: acabaram-se os refogadinhos, os azeitinhos, essas coisinhas.
Portanto, plano B: troco o nome daquele médico por receitas de comidas saborosas e sem gordura.
18 abril 2011
the Royal Concertgebouw Orchestra + Mariss Jansons + Janine Jansen
Até ao dia 15 de maio pode-se ver neste site (está em inglês) o concerto que decorreu na Filarmonia por ocasião da recente visita da rainha Beatriz à Alemanha.
Programa:
Felix Mendelssohn
Violin Concerto in E minor
Janine Jansen Violin
Johannes Brahms
Symphony No. 4 in E minor
E ainda este extra:
The arrival of Her Majesty Queen Beatrix of the Netherlands, Their Royal Highnesses Prince Willem-Alexander and Princess Máxima, and the German President Christian Wulff and his wife Bettina
Claro que foi esta a parte que eu vi primeiro e tenho a dizer que:
- Já vi jogadores de futebol entoarem o hino alemão com mais alma do que esta orquestra.
- Os efeitos especiais estiveram fantásticos. Repararam naquela parte em que os tambores entram em cheio e o vestido da rainha começa a cintilar?
- Tive um bocadinho de vergonha ao reparar que ninguém na sala cantou o hino alemão (errado: havia uma senhora vestida de verde, por trás do príncipe ai-como-era-mesmo-o-nome-dele?, que o cantava, e que bonito adivinhar nos seus lábios aquela letra "Einigkeit und Recht und Freiheit sind des Glückes Unterpfand", isto é um hino tão bom que até dá vontade de uma pessoa se tornar alemã), enquanto a família real holandesa entoou o do seu país como uns valentes - pareciam o Cavaco nas últimas eleições, sozinhos contra todos. Mas, pensando bem, pode ter sido delicadeza e prudência dos alemães: se a sala inteira começasse a cantar o hino alemão, depois o contraste ia parecer mal, e à rainha podia dar um despeito e virar-se para o Wulff e dizer assim "devolvam-nos as nossas ricas bicicletas".
- Alguém havia de dizer ao príncipe holandês que fica um bocado esquisito usar laço com os botões da camisa à vista. É verdade que não é o único na sala, mas o público berlinense já se sabe como é. Aliás: nem os reconheci, de tão arranjadinhos que estavam. Será que vieram também todos da Holanda, tal como os músicos?
- A Máxima estava um espanto. Perfeita. E repararam como esperou pela rainha antes de se sentar? Ah, isto é que é boa educação. Estava agora para ir ver de novo, para ver se a Bettina Wulff também tinha esperado, mas no entretanto o concerto já começou, e nem pensar em interromper isto.
Acabou o intervalinho para a futilidade, vão ouvir o concerto, que é só até ao dia 15 de maio e está muito bom.
Programa:
Felix Mendelssohn
Violin Concerto in E minor
Janine Jansen Violin
Johannes Brahms
Symphony No. 4 in E minor
E ainda este extra:
The arrival of Her Majesty Queen Beatrix of the Netherlands, Their Royal Highnesses Prince Willem-Alexander and Princess Máxima, and the German President Christian Wulff and his wife Bettina
Claro que foi esta a parte que eu vi primeiro e tenho a dizer que:
- Já vi jogadores de futebol entoarem o hino alemão com mais alma do que esta orquestra.
- Os efeitos especiais estiveram fantásticos. Repararam naquela parte em que os tambores entram em cheio e o vestido da rainha começa a cintilar?
- Tive um bocadinho de vergonha ao reparar que ninguém na sala cantou o hino alemão (errado: havia uma senhora vestida de verde, por trás do príncipe ai-como-era-mesmo-o-nome-dele?, que o cantava, e que bonito adivinhar nos seus lábios aquela letra "Einigkeit und Recht und Freiheit sind des Glückes Unterpfand", isto é um hino tão bom que até dá vontade de uma pessoa se tornar alemã), enquanto a família real holandesa entoou o do seu país como uns valentes - pareciam o Cavaco nas últimas eleições, sozinhos contra todos. Mas, pensando bem, pode ter sido delicadeza e prudência dos alemães: se a sala inteira começasse a cantar o hino alemão, depois o contraste ia parecer mal, e à rainha podia dar um despeito e virar-se para o Wulff e dizer assim "devolvam-nos as nossas ricas bicicletas".
- Alguém havia de dizer ao príncipe holandês que fica um bocado esquisito usar laço com os botões da camisa à vista. É verdade que não é o único na sala, mas o público berlinense já se sabe como é. Aliás: nem os reconheci, de tão arranjadinhos que estavam. Será que vieram também todos da Holanda, tal como os músicos?
- A Máxima estava um espanto. Perfeita. E repararam como esperou pela rainha antes de se sentar? Ah, isto é que é boa educação. Estava agora para ir ver de novo, para ver se a Bettina Wulff também tinha esperado, mas no entretanto o concerto já começou, e nem pensar em interromper isto.
Acabou o intervalinho para a futilidade, vão ouvir o concerto, que é só até ao dia 15 de maio e está muito bom.
entrevista com Estela Barbot
Provavelmente já todos viram isto, e como sempre o interessado (eu) é o último a saber, mas gostei muito desta entrevista, e caso haja alguém que ainda não a conhece, aqui está:
Estela Barbot: Portugal precisa de recuperar credibilidade (vídeo)
Estela Barbot: Portugal precisa de recuperar credibilidade (vídeo)
15 abril 2011
uma "Gretchenfrage" em português
A ver se entendo o exemplo da Islândia: indivíduos holandeses e ingleses acreditaram nos mundos e fundos que bancos islandeses lhes prometiam (curioso, não conheciam aquela história dos almoços grátis), os bancos faliram, os governos da Holanda e do Reino Unido pagaram aos seus cidadãos e exigem agora o reembolso dessa quantia, mais juros, por parte da Islândia (alguém me explica porque é que esses governos resolveram tomar para si um problema que não era deles?). Entretanto, os islandeses decidiram por referendo que não pagavam a dívida, pelo que ela acabará por ser paga pelos contribuintes holandeses e ingleses. Na prática é isto, não é?
A ver se entendo: é este o exemplo islandês que alguns portugueses querem seguir no momento em que o FMI se instala em Portugal. Têm quase metade dos portugueses a depender do orçamento de Estado (não estou a questionar se é legítimo, estou a dizer que é um facto), têm um Governo que não sabe como lhes pagar a partir do próximo mês e não arranja quem empreste, e acham que não pagar as dívidas é uma solução.
E talvez seja: se o Estado português pura e simplesmente não pagar os empréstimos (já agora: apenas aos estrangeiros, ou também aos portugueses?) e optar por um orgulhosamente sós, pobrezinhos mas sem dívidas, e se fizer orelhas moucas às decisões dos tribunais, e se simplesmente não gastar mais do que tem em caixa, talvez isso seja uma solução e até um modo de vida.
Por mim, tudo bem. Mas antes de o FMI e a União Europeia começarem a gastar neurónios sobre como resolver o problema, convinha colocar a Gretchenfrage em referendo:
- O povo português tenciona respeitar os compromissos assumidos pelo seu Governo?
A ver se entendo: é este o exemplo islandês que alguns portugueses querem seguir no momento em que o FMI se instala em Portugal. Têm quase metade dos portugueses a depender do orçamento de Estado (não estou a questionar se é legítimo, estou a dizer que é um facto), têm um Governo que não sabe como lhes pagar a partir do próximo mês e não arranja quem empreste, e acham que não pagar as dívidas é uma solução.
E talvez seja: se o Estado português pura e simplesmente não pagar os empréstimos (já agora: apenas aos estrangeiros, ou também aos portugueses?) e optar por um orgulhosamente sós, pobrezinhos mas sem dívidas, e se fizer orelhas moucas às decisões dos tribunais, e se simplesmente não gastar mais do que tem em caixa, talvez isso seja uma solução e até um modo de vida.
Por mim, tudo bem. Mas antes de o FMI e a União Europeia começarem a gastar neurónios sobre como resolver o problema, convinha colocar a Gretchenfrage em referendo:
- O povo português tenciona respeitar os compromissos assumidos pelo seu Governo?
14 abril 2011
"Uma Acção de Cidadania - Denúncia acerca de três Agências de Rating"
Ontem escrevi sobre a denúncia apresentada contra as três agências de rating. A seguir transcrevo uma síntese de esclarecimento, publicada no blogue A Areia dos Dias por Manuela Silva, e passo, a exemplo da sem-se-ver, o link para um artigo de Robert Fishman no New York Times que questiona a acção dos mercados (aqui o original em inglês, aqui a notícia em português)
À falta de fotografia para o cartaz "Wanted", recorro a este excelente retrato robot pela pena do José Bandeira.
***
Foi ontem entregue na Procuradoria Geral da República uma denúncia do comportamento das três maiores agências de rating em relação às suas notações relativamente ao Estado português e aos bancos sediados em território nacional.
Causou surpresa o facto de, em poucos dias, as referidas agências terem baixado as suas notações sem que se conheçam os fundamentos com que o fizeram. O Presidente da República chegou a dizer que tais notações revelavam um enorme exagero na avaliação do risco de crédito.
Nem a crise política, normal em democracia, nem a evolução da capacidade produtiva do País, que não se altera em 24 ou 48 horas, justificam os cortes drásticos recentemente verificados. Há, pois, que procurar outras causas e ver o que está por detrás destes comportamentos.
Três razões objectivas justificam dúvidas: o elevado grau de concentração das três maiores agências de rating, todas americanas e que, no conjunto, detêm mais de 90% do seu respectivo mercado; a possível conflitualidade de interesses, devida à presença de empresas de gestão de fundos na estrutura do capital accionista em duas dessas empresas de rating (num caso, em posição de accionista maioritário) e a falta de transparência por ocultação de critérios em que se baseiam as notações.
Podemos perguntar: a quem aproveita a severidade nos ratings da dívida da República e dos bancos portugueses? A resposta é simples: em primeiro lugar, serve os interesses dos especuladores que vêem as suas possibilidades de lucro aumentadas pelo simples facto da subida dos juros; serve também a uma estratégia de enfraquecimento do euro face ao dólar ou mesmo ao propósito de ressuscitar a moeda americana como único meio de pagamento internacional, conveniente, entre outras razões, para fazer face à elevada dívida pública americana contraída no exterior.
O mais grave é que estes ratings têm efeitos devastadores sobre o acesso ao crédito por parte das pessoas, do Estado e das empresas do nosso País e constituem também uma rampa de lançamento para justificar políticas de austeridade que impedem um desenvolvimento humano sustentável.
Para saber mais consulte http://www.peticaopublica.com/?pi=denuncia. Se concordar pode dar o seu apoio, subscrevendo esta acção.
13 abril 2011
when I'm sixty four
Hoje encontrei na aula de zumba uma - não vou dizer velhinha, não vou dizer velhota - mulher de oitenta anos. Uma mulher fantástica. De momento tem problemas nos joelhos (artrose, derrame de líquido e um tumor benigno) mas que é isso para alguém da fibra dela? Pôs umas joelheiras ortopédicas, e toca a dançar. Tango, salsa, merengue, cumbia. E roda a anca, e salta, e vira.
Saiu da aula mais fresca e alegre que as outras, e ficámos a conversar um bocadinho - eu encantada. Ela é polaca, tem uns olhos verdes muito vivos, e o cabelo impecavelmente arranjado num tom avermelhado. A amiga dela, peruana, gabou-lhe a coragem de dançar. E ela, rindo: tem de ser, quero continuar em forma. Não me posso ver ao espelho, porque olho para aquela e pergunto "Maria? onde estás tu? essa aí é a tua mãe!" - o meu corpo está a ficar igual ao da minha mãe, tenho de ter cuidado para não ganhar barriga como ela.
E vá de falar de dietas, e das melhores máquinas para não ganhar barriga, e eu "basta fazer zumba com o umbigo colado às costas" e ela "como as francesas, andam sempre esticadas e com os músculos tensos, é uma coisa que se pode treinar" e eu "ai é esse o truque delas?" e a peruana "Pilates também ajuda muito" e eu "comer devagar" e a peruana "tu comes muito depressa" e ela "sim, às vezes sirvo o meu marido e vou comendo sem sequer me sentar". E por aí fora. Depois contou que o marido vai ser internado alguns dias no hospital, mas mudou logo de assunto, porque vem ao ginásio para descansar dos problemas que tem em casa, deixa-os todos à porta. Disse-nos adeuzinho, foi para as máquinas.
Oitenta anos.
O Paul McCartney não sabia nada da vida quando escreveu When I'm Sixty Four.
Saiu da aula mais fresca e alegre que as outras, e ficámos a conversar um bocadinho - eu encantada. Ela é polaca, tem uns olhos verdes muito vivos, e o cabelo impecavelmente arranjado num tom avermelhado. A amiga dela, peruana, gabou-lhe a coragem de dançar. E ela, rindo: tem de ser, quero continuar em forma. Não me posso ver ao espelho, porque olho para aquela e pergunto "Maria? onde estás tu? essa aí é a tua mãe!" - o meu corpo está a ficar igual ao da minha mãe, tenho de ter cuidado para não ganhar barriga como ela.
E vá de falar de dietas, e das melhores máquinas para não ganhar barriga, e eu "basta fazer zumba com o umbigo colado às costas" e ela "como as francesas, andam sempre esticadas e com os músculos tensos, é uma coisa que se pode treinar" e eu "ai é esse o truque delas?" e a peruana "Pilates também ajuda muito" e eu "comer devagar" e a peruana "tu comes muito depressa" e ela "sim, às vezes sirvo o meu marido e vou comendo sem sequer me sentar". E por aí fora. Depois contou que o marido vai ser internado alguns dias no hospital, mas mudou logo de assunto, porque vem ao ginásio para descansar dos problemas que tem em casa, deixa-os todos à porta. Disse-nos adeuzinho, foi para as máquinas.
Oitenta anos.
O Paul McCartney não sabia nada da vida quando escreveu When I'm Sixty Four.
uma iniciativa de interesse vital para a Europa
"Economistas entregaram queixa contra agências de rating na PGR" é o título é de uma notícia do Público, que sintetiza assim:
Um grupo de economistas – constituído por José Reis, José Manuel Pureza, Manuel Brandão e Maria Manuela Silva – entregou hoje ao Procurador-Geral da República uma queixa contra as agências de rating, com vista a abertura de um inquérito pelo crime de manipulação do mercado.
O texto da denúncia está também disponível em forma de petição. Já fui ler, já assinei.
Admiro e louvo o gesto destes cidadãos, e pergunto: porque é que o Governo português não se lembrou de fazer isto já há meses? E o que é que a Merkel, o Sarkozy e o Durão Barroso andam a fazer (por esta ordem, hoje apetece-me o sarcasmo), que ainda não assinaram a petição? É que se trata de uma iniciativa de interesse vital para a Europa, e não apenas para Portugal.
***
Uma pequena dúvida, à margem deste assunto: não eram estas as agências que na primeira metade de Setembro de 2008 ainda davam A+ a títulos do Lehman Brothers? Como estão a decorrer os processos instaurados pelos lesados? Como é possível que empresas que falham tão redondamente, e com resultados tão catastróficos, continuem activas e com poder para alterar, com um mero estalar de dedos, a vida real dos Povos?
Um grupo de economistas – constituído por José Reis, José Manuel Pureza, Manuel Brandão e Maria Manuela Silva – entregou hoje ao Procurador-Geral da República uma queixa contra as agências de rating, com vista a abertura de um inquérito pelo crime de manipulação do mercado.
O texto da denúncia está também disponível em forma de petição. Já fui ler, já assinei.
Admiro e louvo o gesto destes cidadãos, e pergunto: porque é que o Governo português não se lembrou de fazer isto já há meses? E o que é que a Merkel, o Sarkozy e o Durão Barroso andam a fazer (por esta ordem, hoje apetece-me o sarcasmo), que ainda não assinaram a petição? É que se trata de uma iniciativa de interesse vital para a Europa, e não apenas para Portugal.
***
Uma pequena dúvida, à margem deste assunto: não eram estas as agências que na primeira metade de Setembro de 2008 ainda davam A+ a títulos do Lehman Brothers? Como estão a decorrer os processos instaurados pelos lesados? Como é possível que empresas que falham tão redondamente, e com resultados tão catastróficos, continuem activas e com poder para alterar, com um mero estalar de dedos, a vida real dos Povos?
12 abril 2011
a oferta cultural desta cidade é uma coisa por demais...
"Aí vêm os holandeses!", anunciavam na Filarmonia, ousando brincar com uma frase de múltiplos sentidos. Sim, aí vêm eles: a rainha da Holanda, acompanhada pelo príncipe herdeiro e a sua Máxima vêm aí, e trazem com eles a Concertgebouw Orchestra, que vai dar um concerto amanhã, sob a batuta de Mariss Jansons e com a violinista Janine Jansen.
Ainda pensei ir ao concerto (a famosa orquestra, o famoso maestro, a famosa solista) e ficar nos bancos de pau para poder ver melhor (o famoso sorriso da Máxima, um dos famosos vestidos da rainha, um dos famosos vestidos da Máxima). Mas é claro que já está esgotadíssimo, como sempre.
Nada que não se resolva com um pequeno milagre: o concerto será transmitido em directo e gratuitamente no site do digital concert hall. Mais informações aqui.
Espero que ponham uma câmara do lado dos bancos de pau, virada para o público, por causa daqueles meus interesses culturais.
(O concerto começa às 8 da noite na Alemanha, 7 em Portugal)
11 abril 2011
o dia em que tentei convencer o Joseph Calleja de que ele tinha estado em Lisboa
Se querem saber sobre a Lucia de Lammermoor e o Joseph Calleja, leiam aqui, aqui, aqui e aqui.
Eu direi apenas que é uma ópera muito curtinha. E que o Edgardo é homem de poucas palavras, passa o tempo quase todo calado e mudo. Bem podia ter cantado o triplo ou o quádruplo - e mesmo assim sabia a pouco.
Fui com uma amiga que é advogada, o que é uma grande vantagem porque lê também as letras miudinhas, e assim descobriu que iam dar autógrafos. No final da ópera, depois de nos assegurarmos que eles não voltavam mesmo ao palco, despachámo-nos para a sala onde já várias dezenas de pessoas esperavam. Atrás de nós havia um grupo de malteses eufóricos, mostrando orgulhosos as suas bandeiras de Malta. Foi muito engraçado ver no átrio da Deutsche Oper gente já de alguma idade e muito bem vestida a agitar bandeirinhas de plástico. Quando Joseph Calleja e Elena Mosuc chegaram, o bando de malteses correu em alvoroço para o seu tenor, e de repente nós, que estávamos no meio da fila, vimo-nos no fim. Ora, há males que vêm por bem: como não havia ninguém atrás de nós, pudemos ficar um bocadinho na conversa com os cantores. Durante a espera tentei negociar com a minha amiga, se ela pedia dois autógrafos e eu pedia outros dois, assim ficava com um para mim e podia dar os outros à io e ao Paulo, responsáveis por esta nossa noite em beleza. A minha amiga não tinha coragem, eu pensei "ai três não peço, também não tenho lata para tanto, paciência, pronto, peço dois e dou ambos" e depois aconteceu tudo muito depressa: enquanto ela fazia fotografias, eu pedi quatro autógrafos, dois para mim e dois para ela, e eles deram, e riram-se das minhas confusões de multiplicação de caderninhos naquela mesa. O Joseph Calleja ainda se riu mais quando eu comecei a gaguejar em inglês que estava ali graças à insistência de amigos meus que ficaram encantados quando o viram em Lisboa, e ele "em Lisboa? só se foi no cinema!", e eu "ia jurar que não - tem a certeza que não cantou em Lisboa?", e ele é encantador, abre a cara e ri-se pelos olhos fora, "tenho a certeza, tenho". E eu, ainda pouco convencida, "adorei o seu Edgardo", e ele "muito obrigado", "eu é que agradeço!"
Eu é que agradeço: ao entusiasmo dos amigos que me levou (posso confessar? um pouco a contragosto) a comprar os bilhetes, e ao distribuidor de prodígios - seja lá quem ele for - que escolheu um homem tão simpático e simples para portador daquela voz impressionante.
Eu direi apenas que é uma ópera muito curtinha. E que o Edgardo é homem de poucas palavras, passa o tempo quase todo calado e mudo. Bem podia ter cantado o triplo ou o quádruplo - e mesmo assim sabia a pouco.
Fui com uma amiga que é advogada, o que é uma grande vantagem porque lê também as letras miudinhas, e assim descobriu que iam dar autógrafos. No final da ópera, depois de nos assegurarmos que eles não voltavam mesmo ao palco, despachámo-nos para a sala onde já várias dezenas de pessoas esperavam. Atrás de nós havia um grupo de malteses eufóricos, mostrando orgulhosos as suas bandeiras de Malta. Foi muito engraçado ver no átrio da Deutsche Oper gente já de alguma idade e muito bem vestida a agitar bandeirinhas de plástico. Quando Joseph Calleja e Elena Mosuc chegaram, o bando de malteses correu em alvoroço para o seu tenor, e de repente nós, que estávamos no meio da fila, vimo-nos no fim. Ora, há males que vêm por bem: como não havia ninguém atrás de nós, pudemos ficar um bocadinho na conversa com os cantores. Durante a espera tentei negociar com a minha amiga, se ela pedia dois autógrafos e eu pedia outros dois, assim ficava com um para mim e podia dar os outros à io e ao Paulo, responsáveis por esta nossa noite em beleza. A minha amiga não tinha coragem, eu pensei "ai três não peço, também não tenho lata para tanto, paciência, pronto, peço dois e dou ambos" e depois aconteceu tudo muito depressa: enquanto ela fazia fotografias, eu pedi quatro autógrafos, dois para mim e dois para ela, e eles deram, e riram-se das minhas confusões de multiplicação de caderninhos naquela mesa. O Joseph Calleja ainda se riu mais quando eu comecei a gaguejar em inglês que estava ali graças à insistência de amigos meus que ficaram encantados quando o viram em Lisboa, e ele "em Lisboa? só se foi no cinema!", e eu "ia jurar que não - tem a certeza que não cantou em Lisboa?", e ele é encantador, abre a cara e ri-se pelos olhos fora, "tenho a certeza, tenho". E eu, ainda pouco convencida, "adorei o seu Edgardo", e ele "muito obrigado", "eu é que agradeço!"
Eu é que agradeço: ao entusiasmo dos amigos que me levou (posso confessar? um pouco a contragosto) a comprar os bilhetes, e ao distribuidor de prodígios - seja lá quem ele for - que escolheu um homem tão simpático e simples para portador daquela voz impressionante.
querido diário:
De manhãzinha cedo saí feita taxista, para ir buscar o Joachim ao aeroporto e levá-lo ao trabalho. Enquanto esperava dentro do carro, a uns vinte metros do seu avião (já disse aqui que o aeroporto de Tegel é o mais fantástico do mundo?), ri-me com um detalhe da descrição da première do ballet Esmeralda, que passava na rádio: o bailarino Michael Banzhaf fez um Frollo tão convincente, que no fim foi vaiado pelo público.
Para nossa surpresa, o lugar de estacionamento reservado do Joachim estava ocupado por outro. Ele foi trabalhar, e eu fui resolver o problema. Num instante encontrei o chefe das oficinas que me deixou usar um dos seus lugares. Fui levar a chave à secretária dos serviços, que abriu um grande sorriso e me levou ao gabinete do Joachim, enquanto dizia "ele já foi buscar um café, e devia começar o dia devagarinho, porque temos muito que fazer" (quem me dera ter uma secretária assim).
O gabinete está lindíssimo: com móveis todos velhos encontrados no armazém, uma escultura nossa e quadros emprestados por um pintor amigo.
Deixei-lhe o carro, disse onde estava, disse o nome do simpático que me ajudou, e voltei para casa de transportes públicos. Passei por um velhote que se tinha apeado da sua bicicleta avariada, e vi parar um rapaz sorridente, com ar de profissional do velocípede - capacete e bicicleta de corrida e pernas como um cavalo de raça - oferecendo-se para ajudar.
No Media Markt perdi a cabeça, e comprei DVDs como se me preparasse para fazer um sabático em frente à televisão. No metro tentei meter o saco dentro da minha mochila, e a senhora à minha frente sorriu-me e comentou "são sempre demasiado pequenas, as mochilas", e eu respondi "especialmente quando se exagera nas compras!", e ela começou a contar "tenho andado a ajudar duas famílias, uma com cinco filhos e outra com oito, cujo pai está desempregado, e levo-lhes sempre coisas mas é difícil conseguir que caiba tudo nos sacos", "talvez fosse boa ideia arranjar um daqueles carrinhos de ir às compras?" sugeri eu, "um carrinho de avó? é melhor não: ainda me sentia mais velha do que sou" rematou ela, e eu despedi-me e saí porque já era a minha estação.
O Ratzinger que não me venha com conversas do "deserto interior". Que eu hoje, em duas horas e meia pela cidade, só encontrei gente movida a água fresca.
Para nossa surpresa, o lugar de estacionamento reservado do Joachim estava ocupado por outro. Ele foi trabalhar, e eu fui resolver o problema. Num instante encontrei o chefe das oficinas que me deixou usar um dos seus lugares. Fui levar a chave à secretária dos serviços, que abriu um grande sorriso e me levou ao gabinete do Joachim, enquanto dizia "ele já foi buscar um café, e devia começar o dia devagarinho, porque temos muito que fazer" (quem me dera ter uma secretária assim).
O gabinete está lindíssimo: com móveis todos velhos encontrados no armazém, uma escultura nossa e quadros emprestados por um pintor amigo.
Deixei-lhe o carro, disse onde estava, disse o nome do simpático que me ajudou, e voltei para casa de transportes públicos. Passei por um velhote que se tinha apeado da sua bicicleta avariada, e vi parar um rapaz sorridente, com ar de profissional do velocípede - capacete e bicicleta de corrida e pernas como um cavalo de raça - oferecendo-se para ajudar.
No Media Markt perdi a cabeça, e comprei DVDs como se me preparasse para fazer um sabático em frente à televisão. No metro tentei meter o saco dentro da minha mochila, e a senhora à minha frente sorriu-me e comentou "são sempre demasiado pequenas, as mochilas", e eu respondi "especialmente quando se exagera nas compras!", e ela começou a contar "tenho andado a ajudar duas famílias, uma com cinco filhos e outra com oito, cujo pai está desempregado, e levo-lhes sempre coisas mas é difícil conseguir que caiba tudo nos sacos", "talvez fosse boa ideia arranjar um daqueles carrinhos de ir às compras?" sugeri eu, "um carrinho de avó? é melhor não: ainda me sentia mais velha do que sou" rematou ela, e eu despedi-me e saí porque já era a minha estação.
O Ratzinger que não me venha com conversas do "deserto interior". Que eu hoje, em duas horas e meia pela cidade, só encontrei gente movida a água fresca.
10 abril 2011
e depois da moeda única, a ortografia única
Como se escreveria português se fosse a Alemanha a mandar?
Talvez assim: "phrase bonita nao achach?"
(inspirado num e-mail que a minha filha me enviou ontem)
(ai! que estou a escarafunchar numa chaga aberta!)
("chaga aberta" parece pleonasmo, e para o caso não chega. Saia também uma tautologia: ai! que estou a escarafunchar numa ferida em chaga aberta!)
(um dia que entenda a diferença entre tautologia e pleonasmo vai ser como se me tivesse saído a lotaria)
(porque não te calas, Heleninha? porque não vais arrumar a tua mesa, que foi para isso que hoje te levantaste mais cedo, Heleninha?)
(Está bem, está bem. Já cá não está quem brincou.)
Talvez assim: "phrase bonita nao achach?"
(inspirado num e-mail que a minha filha me enviou ontem)
(ai! que estou a escarafunchar numa chaga aberta!)
("chaga aberta" parece pleonasmo, e para o caso não chega. Saia também uma tautologia: ai! que estou a escarafunchar numa ferida em chaga aberta!)
(um dia que entenda a diferença entre tautologia e pleonasmo vai ser como se me tivesse saído a lotaria)
(porque não te calas, Heleninha? porque não vais arrumar a tua mesa, que foi para isso que hoje te levantaste mais cedo, Heleninha?)
(Está bem, está bem. Já cá não está quem brincou.)
hieróglifos egípcios
O dia amanhece com uma dúvida existencial: que letra será esta?
(roubado ao é tudo gente morta, aqui)
09 abril 2011
mercado da Karl-August-Platz (Charlottenburg)
Belo programa para um sábado de manhã: ir ao nosso mercado preferido, o da Karl-August-Platz, fazer as compras para a semana, petiscar aqui e ali, comprar talvez também um chapéu feito à mão. Encontrar-se com os amigos. Tentar encontrar o vendedor de ostras do ano passado, para lhe pagar as ostras e o vinho que consumimos e nos esquecemos de pagar. Ainda não foi desta vez que o encontrei, mas em compensação vi as bancas cheias de espargos e morangos. Sinal indiscutível de que chegou a primavera!
"Então faz fotografias do meu stand sem pedir autorização?", perguntou o dono dos morangos, muito zangado. Mostrei-lhe a fotografia, perguntei-lhe se podia publicar. "Pode, essa pode". A fotografia não vale nada mas, conquistada a este preço, tem de vir para a página dos troféus:
No tempo dos espargos não há que saber: servem-se com manteiga derretida, acompanhados por batatas cozidas com casca.
Escolher as batatas é que é mais complicado, perante tanta variedade.
Os egípcios das ervas aromáticas estavam bem dispostos. "Posso fazer uma fotografia?", perguntei eu, gato escaldado. "O quê, quer-me fotografar a mim?", provocou o mais velho. "Com certeza!", e apontei para ele. Quais quê - com um gesto largo da mão ofereceu toda a mercadoria à minha objectiva e foi-se embora a rir.
Geografia berlinense: em frente ao Egipto fica a Turquia.
E um pouco mais à frente, um pasteleiro francês.
A mocinha dos cogumelos ainda não tinha acabado de decorar o stand, mas já tinha clientes. Ficámos na conversa com quem passava, eu ia fazendo fotografias, ela chegou a posar, e no fim disse-me que depois de tantas fotografias tinha de lhe comprar cogumelos. Bom: há coisas piores na vida.
Comprei-lhe 200 g de cogumelos variados, vim para casa, fiz o almoço.
Etiquetas:
viagens,
visitar Berlim,
viver em Berlim
em Berlim, a primavera vem por partes
Em Berlim, a primavera já chegou ao nordeste da cidade, mais propriamente a Prenzlauer Berg:
A Wedding também, mas no que diz respeito a esse bairro vão ter de crer sem ver, porque quando passei por lá não tinha máquina fotográfica.
E no Ku'damm, a famosa avenida da antiga Berlim ocidental? Isto:
Para que vejam como a cidade é grande: tão grande que a primavera se organiza para conquistar um bairro de cada vez!
(Agora tenho uma dúvida: quando os plátanos do Ku'damm ficarem verdes, será que em Prenzlauer Berg já se prepara o outono?)
A Wedding também, mas no que diz respeito a esse bairro vão ter de crer sem ver, porque quando passei por lá não tinha máquina fotográfica.
E no Ku'damm, a famosa avenida da antiga Berlim ocidental? Isto:
Para que vejam como a cidade é grande: tão grande que a primavera se organiza para conquistar um bairro de cada vez!
(Agora tenho uma dúvida: quando os plátanos do Ku'damm ficarem verdes, será que em Prenzlauer Berg já se prepara o outono?)
08 abril 2011
o maestro como pastor de catarses
"Esta Helena só conhece o Rattle, coitada", dirão vocês, mas é o que tenho mais à mão, paciência. Cá vamos nós outra vez:
Ao ver este vídeo, que roubei ao valkirio (não me digam que precisam do link?!),
(nota para os meus amigos cristãos que não têm tempo para ver tudo o que aqui ponho: vejam ao menos os dois últimos minutos - quem me dera que o arcebispo de Berlim que fez uma homilia interminável sobre "Deus e a Arte" tivesse visto este vídeo e aprendido!)
como ia dizendo: ao ver este vídeo, lembrei-me do Simon Rattle, que dirige a orquestra com um tempo de avanço. Ainda os violinos estão num pianissimo sublime, e já ele está a fazer caretas aos metais, que no momento seguinte arrancam em tempestade.
Até parece eu daquela vez que fui ver pela segunda vez o mesmo filme, e no momento em que todos se estavam a rir eu já estava a soluçar alto porque sabia que na cena seguinte a mãe ia morrer.
Ao ver este vídeo, que roubei ao valkirio (não me digam que precisam do link?!),
(nota para os meus amigos cristãos que não têm tempo para ver tudo o que aqui ponho: vejam ao menos os dois últimos minutos - quem me dera que o arcebispo de Berlim que fez uma homilia interminável sobre "Deus e a Arte" tivesse visto este vídeo e aprendido!)
como ia dizendo: ao ver este vídeo, lembrei-me do Simon Rattle, que dirige a orquestra com um tempo de avanço. Ainda os violinos estão num pianissimo sublime, e já ele está a fazer caretas aos metais, que no momento seguinte arrancam em tempestade.
Até parece eu daquela vez que fui ver pela segunda vez o mesmo filme, e no momento em que todos se estavam a rir eu já estava a soluçar alto porque sabia que na cena seguinte a mãe ia morrer.
para acordar em beleza (2)
Mais uma bela maneira de começar a manhã: iluminada por palavras simples e inteligentes.
Resumindo: o Avaaz está a juntar assinaturas de protesto contra o modo como Bradley Manning (o rapaz que passou informações confidenciais ao Wikileaks) tem sido tratado. Se quiserem ler mais informação e assinar, é por aqui.
O e-mail que recebi tinha links de vários artigos em jornais. Entre eles, este testemunho de PJ Crowley, um alto funcionário do Department of State que teve de se demitir após ter afirmado em público que esse tratamento era estúpido e contraproducente.
Para minha memória futura, é isto:
Resumindo: o Avaaz está a juntar assinaturas de protesto contra o modo como Bradley Manning (o rapaz que passou informações confidenciais ao Wikileaks) tem sido tratado. Se quiserem ler mais informação e assinar, é por aqui.
O e-mail que recebi tinha links de vários artigos em jornais. Entre eles, este testemunho de PJ Crowley, um alto funcionário do Department of State que teve de se demitir após ter afirmado em público que esse tratamento era estúpido e contraproducente.
Para minha memória futura, é isto:
Why I called Bradley Manning's treatment 'stupid'
The US should uphold the highest standards towards its citizens, including the WikiLeaks accused. I stand by what I said
The way suspected WikiLeaks leaker Bradley Manning is being treated in the Marine Corps brig at Quantico, Virginia amounts to abuse, his lawyer has said. Photograph: AP
Earlier this month, I was asked by an MIT graduate student why the United States government was "torturing" Private First Class Bradley Manning, who is accused of being the source of the WikiLeaks cables that have been reported by the Guardian and other news outlets and posted online. The fact is the government is doing no such thing. But questions about his treatment have led to a review by the UN special rapporteur on torture, and challenged the legitimacy of his pending prosecution.
As a public diplomat and (until recently) spokesman of the department of state, I was responsible for explaining the national security policy of the United States to the American people and populations abroad. I am also a retired military officer who has long believed that our civilian power must balance our military power. Part of our strength comes from international recognition that the United States practises what we preach. Most of the time, we do. This strategic narrative has made us, broadly speaking, the most admired country in the world.
To be clear, Private Manning is rightly facing prosecution and, if convicted, should spend a long, long time in prison. Having been deeply engaged in the WikiLeaks issue for many months, I know that the 251,000 diplomatic cables included properly classified information directly connected to our national interest. The release placed the lives of activists around the world at risk.
Julian Assange and others have suggested that the release of the cables was to expose wrongdoing. Nonsense.
While everyone can point to an isolated cable, taken as a whole, the cables tell a compelling story of "rightdoing" – of US diplomats engaged in 189 countries around the world, working on behalf of the American people, and serving broader interests as well. As a nation, we are proud of the story the cables tell, even as we decry their release.
But I understood why the question was asked. Private Manning's family, joined by a number of human rights organisations, has questioned the extremely restrictive conditions he has experienced at the brig at Marine Corps base Quantico, Virginia. I focused on the fact that he was forced to sleep naked, which led to a circumstance where he stood naked for morning call.
Based on 30 years of government experience, if you have to explain why a guy is standing naked in the middle of a jail cell, you have a policy in need of urgent review. The Pentagon was quick to point out that no women were present when he did so, which is completely beside the point.
The issue is a loss of dignity, not modesty.
Our strategic narrative connects our policies to our interests, values and aspirations. While what we do, day in and day out, is broadly consistent with the universal principles we espouse, individual actions can become disconnected. Every once in a while, even a top-notch symphony strikes a discordant note. So it is in this instance.
The Pentagon has said that it is playing the Manning case by the book. The book tells us what actions we can take, but not always what we should do. Actions can be legal and still not smart. With the Manning case unfolding in a fishbowl-like environment, going strictly by the book is not good enough. Private Manning's overly restrictive and even petty treatment undermines what is otherwise a strong legal and ethical position.
When the United States leads by example, we are not trying to win a popularity contest. Rather, we are pursuing our long-term strategic interest. The United States cannot expect others to meet international standards if we are seen as falling short. Differences become strategic when magnified through the lens of today's relentless 24/7 global media environment.
So, when I was asked about the "elephant in the room," I said the treatment of Private Manning, while well-intentioned, was "ridiculous" and "counterproductive" and, yes, "stupid".
I stand by what I said. The United States should set the global standard for treatment of its citizens – and then exceed it. It is what the world expects of us. It is what we should expect of ourselves.
As a public diplomat and (until recently) spokesman of the department of state, I was responsible for explaining the national security policy of the United States to the American people and populations abroad. I am also a retired military officer who has long believed that our civilian power must balance our military power. Part of our strength comes from international recognition that the United States practises what we preach. Most of the time, we do. This strategic narrative has made us, broadly speaking, the most admired country in the world.
To be clear, Private Manning is rightly facing prosecution and, if convicted, should spend a long, long time in prison. Having been deeply engaged in the WikiLeaks issue for many months, I know that the 251,000 diplomatic cables included properly classified information directly connected to our national interest. The release placed the lives of activists around the world at risk.
Julian Assange and others have suggested that the release of the cables was to expose wrongdoing. Nonsense.
While everyone can point to an isolated cable, taken as a whole, the cables tell a compelling story of "rightdoing" – of US diplomats engaged in 189 countries around the world, working on behalf of the American people, and serving broader interests as well. As a nation, we are proud of the story the cables tell, even as we decry their release.
But I understood why the question was asked. Private Manning's family, joined by a number of human rights organisations, has questioned the extremely restrictive conditions he has experienced at the brig at Marine Corps base Quantico, Virginia. I focused on the fact that he was forced to sleep naked, which led to a circumstance where he stood naked for morning call.
Based on 30 years of government experience, if you have to explain why a guy is standing naked in the middle of a jail cell, you have a policy in need of urgent review. The Pentagon was quick to point out that no women were present when he did so, which is completely beside the point.
The issue is a loss of dignity, not modesty.
Our strategic narrative connects our policies to our interests, values and aspirations. While what we do, day in and day out, is broadly consistent with the universal principles we espouse, individual actions can become disconnected. Every once in a while, even a top-notch symphony strikes a discordant note. So it is in this instance.
The Pentagon has said that it is playing the Manning case by the book. The book tells us what actions we can take, but not always what we should do. Actions can be legal and still not smart. With the Manning case unfolding in a fishbowl-like environment, going strictly by the book is not good enough. Private Manning's overly restrictive and even petty treatment undermines what is otherwise a strong legal and ethical position.
When the United States leads by example, we are not trying to win a popularity contest. Rather, we are pursuing our long-term strategic interest. The United States cannot expect others to meet international standards if we are seen as falling short. Differences become strategic when magnified through the lens of today's relentless 24/7 global media environment.
So, when I was asked about the "elephant in the room," I said the treatment of Private Manning, while well-intentioned, was "ridiculous" and "counterproductive" and, yes, "stupid".
I stand by what I said. The United States should set the global standard for treatment of its citizens – and then exceed it. It is what the world expects of us. It is what we should expect of ourselves.
para acordar em beleza
Este vídeo entrou-me em casa esta manhã: bela maneira de começar o dia!
Recomendo um passeio pelos comentários. Desde o que imita o miúdo no regresso do dentista ("IS THIS REAL???"), ao que se zanga por ser um anúncio para um telemóvel, passando pelas gargalhadas que o slogan provoca: "touch wood". O mais engraçado de todos, para mim, é o azedo que diz que a execução tem alguns erros de ritmo. Hihihi.
Recomendo um passeio pelos comentários. Desde o que imita o miúdo no regresso do dentista ("IS THIS REAL???"), ao que se zanga por ser um anúncio para um telemóvel, passando pelas gargalhadas que o slogan provoca: "touch wood". O mais engraçado de todos, para mim, é o azedo que diz que a execução tem alguns erros de ritmo. Hihihi.
07 abril 2011
"diálogo com um jovem à rasca"
Mais ou menos à milésima vez que este texto do Rui Herbon me passa pela frente, lembro a Maria Antonieta e o comentário que (dizem que) largou perante a população enraivecida:
"não têm pão? comam brioche!"
Independentemente das razões de uns e de outros: não é grande ideia subestimar milhares de pessoas que saem à rua, ou desconversar.
***
Ainda sobre este assunto: a Rita Dantas saiu-se outra vez com um post de antologia.
"não têm pão? comam brioche!"
Independentemente das razões de uns e de outros: não é grande ideia subestimar milhares de pessoas que saem à rua, ou desconversar.
***
Ainda sobre este assunto: a Rita Dantas saiu-se outra vez com um post de antologia.
Portugal visto de longe
Portugal foi hoje notícia na rádio e nos jornais alemães. Mas notícia calma: que eles bem tentaram evitar isto, mas o que tem de ser tem muita força, e que agora o que é preciso é que a Espanha não venha pedir também, porque se isso acontecer vai ser um sarilho. Parece que andam a ler os Ladrões de Bicicletas, porque falaram na recessão que por aí vem, e que é preciso evitar a todo o custo. Ouvi alguém dizer na rádio que seria normal pensar em taxas de juro altas para impor mais disciplina, mas que isso não deve ser feito porque terá efeitos muito contraprodutivos - a ideia é ajudar estes países a sair da crise, e não empurrá-los ainda mais para o abismo da recessão.
Vista de longe, a situação não parece tão negra.
E para quem se chateou outro dia por a Angela Merkel ter falado de Portugal no Parlamento: não é só Portugal! Hoje pressionou Israel para resolver os problemas com a Palestina, e até disse que a única solução seria a de dois Estados. E o embaixador da China foi convidado a prestar esclarecimentos sobre o Ai Weiwei. Mas podem sentir-se vingados: o Bill Gates veio ontem a Berlim dizer como é que a Alemanha podia ser um país melhor.
Resumindo: anda toda a gente a meter-se na vida de toda a gente - este nosso mundo parece uma cambada de comadres...
Vista de longe, a situação não parece tão negra.
E para quem se chateou outro dia por a Angela Merkel ter falado de Portugal no Parlamento: não é só Portugal! Hoje pressionou Israel para resolver os problemas com a Palestina, e até disse que a única solução seria a de dois Estados. E o embaixador da China foi convidado a prestar esclarecimentos sobre o Ai Weiwei. Mas podem sentir-se vingados: o Bill Gates veio ontem a Berlim dizer como é que a Alemanha podia ser um país melhor.
Resumindo: anda toda a gente a meter-se na vida de toda a gente - este nosso mundo parece uma cambada de comadres...
e concerto
O ensaio geral foi tão bom que resolvi ir também ao concerto.
Os bilhetes estavam esgotados há séculos, mas ontem era dia de prodígios.
Como contar o que se passou naquela sala?
Talvez baste se disser isto: deviam banir as palmas nos cinco minutos seguintes ao fim da peça. Foram todas mais que merecidas, mas aquele ruído de chuva furiosa parece uma escavadora gigante a abrir brutalmente caminho pela nossa paisagem interior.
No fim, enquanto bebíamos uma cervejinha nos bastidores, entre caixas de instrumentos musicais e insiders com o rosto marcado por um cansaço feliz, dissemos a um dos músicos:
- O concerto foi ainda e muito melhor que o ensaio!
Resposta sorridente dele:
- A Filarmónica é conhecida pelos seus concertos, não pelos seus ensaios gerais.
Quem quiser ver, pode procurar aqui. Por 9,90 € podem assistir hoje à transmissão em directo. O bilhete permite ver também todos os concertos em arquivo durante um período de 24 horas.
Os bilhetes estavam esgotados há séculos, mas ontem era dia de prodígios.
Como contar o que se passou naquela sala?
Talvez baste se disser isto: deviam banir as palmas nos cinco minutos seguintes ao fim da peça. Foram todas mais que merecidas, mas aquele ruído de chuva furiosa parece uma escavadora gigante a abrir brutalmente caminho pela nossa paisagem interior.
No fim, enquanto bebíamos uma cervejinha nos bastidores, entre caixas de instrumentos musicais e insiders com o rosto marcado por um cansaço feliz, dissemos a um dos músicos:
- O concerto foi ainda e muito melhor que o ensaio!
Resposta sorridente dele:
- A Filarmónica é conhecida pelos seus concertos, não pelos seus ensaios gerais.
Quem quiser ver, pode procurar aqui. Por 9,90 € podem assistir hoje à transmissão em directo. O bilhete permite ver também todos os concertos em arquivo durante um período de 24 horas.
06 abril 2011
ensaio geral
Tenho de rever a minha teoria sobre os melhores lugares da Filarmonia quando Simon Rattle dirige. É verdade que dos mais baratos se vê a fantástica coreografia e mímica do maestro, mas nos lugares nobres a orquestra tem som de madeiras antigas e chocolate, e chega-nos com uma clareza que quase dói.
Invente-se um arquitecto capaz de resolver este dilema do audiovisual.
Hoje tive a sorte de poder assistir ao ensaio geral da 5ª de Mahler com Simon Rattle e a Filarmónica. No bloco B, um luxo - pese embora o, enfim, já sabem.
Entre os assistentes havia alguns grupos de crianças de infantário. Dezenas de miúdos, sentados em filinha no bloco por cima da orquestra. Pensei "aimêdês, isto ainda vai dar barraca", mas não: portaram-se muito bem, nem fizeram barulho enquanto tapavam ostensivamente os ouvidos, nem se lembraram de tossir, nem nada.
Ao fim do primeiro minuto do adagietto lamentei não estar num lugar de frente para o maestro, para lhe poder ver o rosto em lágrimas, com certeza tomado por uma dor vinda do princípio do mundo. Como me enganei: ele parou, para repetir uma passagem que não estava ainda como ele a queria, e falou com uma voz perfeitamente controlada, chegou até a cantar algumas notas para os músicos perceberem melhor.
O maestro é um fingidor...
No fim do ensaio almoçámos na cantina dos músicos, e eu encantada a ouvir as histórias: "o Simon Rattle estava todo contente, até disse que..." e "sabem daquelas aulas de música de câmara nas primeiras quartas-feiras de cada mês?" e "daqui a nada vão começar a ensaiar o Parsifal, se quiserem podemos ir ver" e "nos pianissimo não há quem consiga bater o coro RIAS". Também uns casos interessantes de Biologia: "o meu gato gosta de Mozart mas sente-se incomodado com Bartók" e "já me aconteceu de ter dois cães lado a lado, um chorava e o outro cantava a acompanhar a música".
Na mesa ao lado almoçava Simon Halsey, o famoso maestro do Rundfunkchor.
Quando nos levantámos, dois técnicos do edifício, em fato-macaco azul, ocuparam a nossa mesa.
Berlim.
Invente-se um arquitecto capaz de resolver este dilema do audiovisual.
Hoje tive a sorte de poder assistir ao ensaio geral da 5ª de Mahler com Simon Rattle e a Filarmónica. No bloco B, um luxo - pese embora o, enfim, já sabem.
Entre os assistentes havia alguns grupos de crianças de infantário. Dezenas de miúdos, sentados em filinha no bloco por cima da orquestra. Pensei "aimêdês, isto ainda vai dar barraca", mas não: portaram-se muito bem, nem fizeram barulho enquanto tapavam ostensivamente os ouvidos, nem se lembraram de tossir, nem nada.
Ao fim do primeiro minuto do adagietto lamentei não estar num lugar de frente para o maestro, para lhe poder ver o rosto em lágrimas, com certeza tomado por uma dor vinda do princípio do mundo. Como me enganei: ele parou, para repetir uma passagem que não estava ainda como ele a queria, e falou com uma voz perfeitamente controlada, chegou até a cantar algumas notas para os músicos perceberem melhor.
O maestro é um fingidor...
No fim do ensaio almoçámos na cantina dos músicos, e eu encantada a ouvir as histórias: "o Simon Rattle estava todo contente, até disse que..." e "sabem daquelas aulas de música de câmara nas primeiras quartas-feiras de cada mês?" e "daqui a nada vão começar a ensaiar o Parsifal, se quiserem podemos ir ver" e "nos pianissimo não há quem consiga bater o coro RIAS". Também uns casos interessantes de Biologia: "o meu gato gosta de Mozart mas sente-se incomodado com Bartók" e "já me aconteceu de ter dois cães lado a lado, um chorava e o outro cantava a acompanhar a música".
Na mesa ao lado almoçava Simon Halsey, o famoso maestro do Rundfunkchor.
Quando nos levantámos, dois técnicos do edifício, em fato-macaco azul, ocuparam a nossa mesa.
Berlim.
05 abril 2011
uma gaivota voava voava...
Chama-se Smart Bird, foi criado por uma empresa alemã, e apresentado por estes dias na Feira de Hannover. Onde, ao que consta, as empresas de energia nuclear deram lugar a outras, da área das energias renováveis. Às vezes o nosso futuro aparece-nos com um sorriso na cara.
04 abril 2011
marcos miliários
Ainda outro dia andava em chás de panela, aquelas festas malucas em que aprendíamos a dança da garrafa e ensinávamos a noiva a pôr preservativos em bananas.
Ainda outro dia andava de baby shower em baby shower, que as mulheres dos investigadores estrangeiros da UCSF aproveitam quase todas esse sabático para arranjar um pequeno american citizen.
Ainda outro dia, pois, e na semana passada fui convidada para uma festa ainda sem nome: uma avó comemorava em Berlim o nascimento do seu neto em Zurique. Ainda só o conhece por skype, e enquanto espera o momento de o visitar vai anunciando ao mundo que está com coração de festa. Nos tempos que correm, com as distâncias cada vez maiores que separam as famílias, acredito que muito em breve estas festas terão um nome.
Entre a dança da garrafa e a festa de avó-de-fresco não há-de haver mais que quinze anos.
Ou é de mim, ou à medida que a vida avança os espaços entre os marcos miliários ficam muito mais curtos...
Ainda outro dia andava de baby shower em baby shower, que as mulheres dos investigadores estrangeiros da UCSF aproveitam quase todas esse sabático para arranjar um pequeno american citizen.
Ainda outro dia, pois, e na semana passada fui convidada para uma festa ainda sem nome: uma avó comemorava em Berlim o nascimento do seu neto em Zurique. Ainda só o conhece por skype, e enquanto espera o momento de o visitar vai anunciando ao mundo que está com coração de festa. Nos tempos que correm, com as distâncias cada vez maiores que separam as famílias, acredito que muito em breve estas festas terão um nome.
Entre a dança da garrafa e a festa de avó-de-fresco não há-de haver mais que quinze anos.
Ou é de mim, ou à medida que a vida avança os espaços entre os marcos miliários ficam muito mais curtos...
taxista
Hoje vou andar feita taxista. Começou de madrugada, para levar o Joachim ao trabalho, para ficar com o carro, para levar a Christina à médica (está com uma comoção cerebral por causa de uma bolada que levou; tem melhorado muito, mas ainda não consegue ler - se isto continua assim, só lhe restará fazer carreira como modelo fotográfico) (eu avisei que hoje ando feita taxista), para trazer a Christina de volta à cama, para levar o atestado à escola, para ir levar o carro ao Joachim.
Depois volto para casa de transportes públicos, mas até aí vou poder fazer todos os comentários primários que me apetecer. Até já tenho os olhinhos a brilhar só de pensar no fartar vilanagem que pode ser.
Hehehe.
De madrugada, no regresso para casa, tive de esperar numa ruazinha porque a condutora à minha frente queria estacionar o carro. Chega à frente, chega atrás, mete mais para o meio da estrada, faz uma curva como quem quer meter de viés por cima da caldeira da árvore, e eu "aimêdês, pobres pneus", e ela chega mais à frente, e curva menos pronunciada, e eu "aimêdês que ela vai direitinha às barras de metal que protegem o canteiro!", e ela isso mesmo, direitinha, e eu apito mas ela não pára, puum! contra a barra de metal. Nem sei se reparou, porque arrancou logo e seguiu. No cruzamento seguinte parou, indecisa sobre o lado para onde virar, e eu parei ao lado dela para lhe explicar porque tinha apitado, abri a janela, ela olhou para mim, barafustou, arrancou a toda a velocidade e foi-se embora. Eu pensei "mulheres!" (eu avisei que hoje ando feita taxista) e fui à padaria. Estacionei o carro, saí, e só então me lembrei que não tinha dinheiro. Mulheres...
Tenho de ir ver para que lado se virou a lua, que este dia está-me a começar esquisito.
Depois volto para casa de transportes públicos, mas até aí vou poder fazer todos os comentários primários que me apetecer. Até já tenho os olhinhos a brilhar só de pensar no fartar vilanagem que pode ser.
Hehehe.
De madrugada, no regresso para casa, tive de esperar numa ruazinha porque a condutora à minha frente queria estacionar o carro. Chega à frente, chega atrás, mete mais para o meio da estrada, faz uma curva como quem quer meter de viés por cima da caldeira da árvore, e eu "aimêdês, pobres pneus", e ela chega mais à frente, e curva menos pronunciada, e eu "aimêdês que ela vai direitinha às barras de metal que protegem o canteiro!", e ela isso mesmo, direitinha, e eu apito mas ela não pára, puum! contra a barra de metal. Nem sei se reparou, porque arrancou logo e seguiu. No cruzamento seguinte parou, indecisa sobre o lado para onde virar, e eu parei ao lado dela para lhe explicar porque tinha apitado, abri a janela, ela olhou para mim, barafustou, arrancou a toda a velocidade e foi-se embora. Eu pensei "mulheres!" (eu avisei que hoje ando feita taxista) e fui à padaria. Estacionei o carro, saí, e só então me lembrei que não tinha dinheiro. Mulheres...
Tenho de ir ver para que lado se virou a lua, que este dia está-me a começar esquisito.
02 abril 2011
um atalho para sair do nuclear
Resumidamente, é assim: a SPD e os Verdes queriam acabar com a energia nuclear na Alemanha, e prepararam as coisas para que isso sucedesse o mais depressa possível. Depois veio a CDU, e a política mudou de novo: afinal, as centrais nucleares são seguras. Depois veio a catástrofe de Fukuxima (com x, como me avisou um simpático comentador, tal como Hiroxima) e a CDU começou a achar que se calhar as centrais não são tão seguras como parecem, e resolveu mandar parar algumas, as mais velhas, enquanto vamos pensar. Agora as empresas do nuclear andam por aí a protestar que não se pode fazer política de pára e arranca, e que se a CDU mudar de ideias em relação a coisas que já assinou o Estado vai ter de indemnizar as empresas, e não será pouco.
Não será pouco: só esta paragem temporária provoca prejuízos de 700.000 euros por dia em Biblis A.
Se eu fosse consumidor, era agora que me mudava para um fornecedor de energia "limpa". Por acaso sou consumidor, e já me mudei há dois anos. A nossa electricidade vem de produtoras de energia hídrica na Floresta Negra.
Se eu fosse a Angela Merkel, não discutia com as empresas. Obrigava-as a pagar todos-todos-todos os custos causados por um acidente: desde os bombeiros às indemnizações às vítimas. E obrigava-as a fazer agora um seguro que cobrisse todos esses riscos. De modo que as produtoras de energia nuclear não tinham de fazer lobbying para o lado do Governo, tinham era de ir discutir essas questões de risco residual com as suas seguradoras. Ah, isso é que seria lindo de se ver!
Se a Angela Merkel lesse este blogue, este seria o momento em que ela batia com a mão na testa e se perguntava: "porque é que ainda não me lembrei da Helena para me vir dar ideias a tempo inteiro?"
("A tempo inteiro não, minha senhora" diria eu, "preciso de algum tempo livre para as aulas de zumba, onde me ocorrem todas estas ideias geniais")
Não será pouco: só esta paragem temporária provoca prejuízos de 700.000 euros por dia em Biblis A.
Se eu fosse consumidor, era agora que me mudava para um fornecedor de energia "limpa". Por acaso sou consumidor, e já me mudei há dois anos. A nossa electricidade vem de produtoras de energia hídrica na Floresta Negra.
Se eu fosse a Angela Merkel, não discutia com as empresas. Obrigava-as a pagar todos-todos-todos os custos causados por um acidente: desde os bombeiros às indemnizações às vítimas. E obrigava-as a fazer agora um seguro que cobrisse todos esses riscos. De modo que as produtoras de energia nuclear não tinham de fazer lobbying para o lado do Governo, tinham era de ir discutir essas questões de risco residual com as suas seguradoras. Ah, isso é que seria lindo de se ver!
Se a Angela Merkel lesse este blogue, este seria o momento em que ela batia com a mão na testa e se perguntava: "porque é que ainda não me lembrei da Helena para me vir dar ideias a tempo inteiro?"
("A tempo inteiro não, minha senhora" diria eu, "preciso de algum tempo livre para as aulas de zumba, onde me ocorrem todas estas ideias geniais")
01 abril 2011
da série "uma aventura"
Já nas bancas: Uma Aventura na Primavera.
Começa com o misterioso caso da roupa que encolheu no armário.
Continua com abordagens várias ao dilema: comprar roupa de Verão para o status quo, ou acreditar que dias melhores virão?
(A esperança é a última a morrer - resiste ainda e muito mais que as costuras.)
(Triste vida.)
Começa com o misterioso caso da roupa que encolheu no armário.
Continua com abordagens várias ao dilema: comprar roupa de Verão para o status quo, ou acreditar que dias melhores virão?
(A esperança é a última a morrer - resiste ainda e muito mais que as costuras.)
(Triste vida.)
31 março 2011
ensaio sobre a comunhão
Ando há duas semanas a pensar que devia comprar imediatamente os ingredientes para todos os sushi que quero fazer nos próximos 3 anos. 300 anos. 3000 anos.
O arroz, as folhas de algas secas, o vinagre especial, etc.
Só por causa das coisas.
Ando há duas semanas a adiar, porque me sinto assim uma espécie de primeiro rato a abandonar o barco japonês.
Para mim, não passa de um detalhe: sushi ou não sushi. Um detalhe que, ao tocar levemente a minha vida, me ajuda a vislumbrar a dimensão da tragédia que se está a abater sobre aquele país.
E aqui está um bom tema para a próxima quinta-feira santa: a comunhão do pão - a comunhão das angústias - a comunhão do destino.
(Sim, sim: acusem-me de embarcar ingenuamente no sensacionalismo das notícias. O caso é que o governo japonês só agora - mais de duas semanas e várias explosões mais tarde - começou a pensar em deslocar as populações para a distância de segurança procurada pelos engenheiros alemães no próprio dia em que os problemas começaram. Com transparência de informações e decisões rápidas como estas, que confiança pode restar?)
O arroz, as folhas de algas secas, o vinagre especial, etc.
Só por causa das coisas.
Ando há duas semanas a adiar, porque me sinto assim uma espécie de primeiro rato a abandonar o barco japonês.
Para mim, não passa de um detalhe: sushi ou não sushi. Um detalhe que, ao tocar levemente a minha vida, me ajuda a vislumbrar a dimensão da tragédia que se está a abater sobre aquele país.
E aqui está um bom tema para a próxima quinta-feira santa: a comunhão do pão - a comunhão das angústias - a comunhão do destino.
(Sim, sim: acusem-me de embarcar ingenuamente no sensacionalismo das notícias. O caso é que o governo japonês só agora - mais de duas semanas e várias explosões mais tarde - começou a pensar em deslocar as populações para a distância de segurança procurada pelos engenheiros alemães no próprio dia em que os problemas começaram. Com transparência de informações e decisões rápidas como estas, que confiança pode restar?)
mais uma ideia fantástica para salvar Portugal
Roubadinho tudo tal e qual ao Maradona, excepto o título. Só porque esta fotografia é impressionante, e de repente me ocorreu que o meu amigo Ed havia de largar umas aranhas na sua figueira, em vez daquela rede que lá pôs para evitar que os pássaros vão aos figos.
(Será que posso registar esta patente como método de agricultura biológica?)
An unexpected side-effect of the flooding in parts of Pakistan has been that millions of spiders have climbed into the trees to escape the rising flood waters. Because the water has taken so long to recede, many trees have become cocooned in spiders webs. People in this part of Sindh report that there are now less mosquitos than they would normally expect.


30 março 2011
sobre a derrota da CDU no domingo passado
A propósito deste post no Hoje há Conquilhas, um pequeno reparo: não é que os alemães estejam a ficar fartos das políticas "liberais" da Angela Merkel. Nem sequer é bem verdade que os alemães estejam a ficar verdes, ou a virar à esquerda (a pobre da SPD que o diga!), ou sabe-se lá.
O que aconteceu em Baden-Württemberg, onde a CDU governava há 58 anos e tinha algumas hipóteses de continuar a governar - apesar das catástrofes que houve sobretudo na gestão inicial do conflito "Stuttgart 21" -, é que o candidato da CDU ao cargo de "ministro-presidente" daquele Estado é um adepto convicto da energia nuclear, e as eleições foram muito ensombradas pela preocupação de que se dê uma terrível explosão em Fukushima.
Ora então sentem-se confortavelmente, que cá vai um bocadinho de análise de história contemporânea à minha maneira:
(este é o momento em que os olhos dos meus filhos começam a brilhar, "conta, mãe, conta!") (desconfio que só eles se deixam iludir tão facilmente... o amor filial é lindo)
No dia 12 de Março, estava a revista Spiegel a imprimir uma capa com imagens da tsunami e título "a natureza mortal" ou "a natureza inimiga", ou algo do género, quando chegaram as primeiras imagens da explosão em Fukushima. Cancelaram imediatamente a impressão dessa página, e fizeram outra: "o fim da era nuclear".
Isto foi duas semanas antes das eleições às quais concorria um acérrimo defensor da energia nuclear. A Angela Merkel, que há meia dúzia de meses tinha aceitado o prolongamento da vida útil de algumas centrais bastante velhas, fazendo uma chocante inversão nas políticas que vinham a ser seguidas há mais de uma década, viu repentinamente a luz, e reagiu com uma moratória sobre o futuro das centrais nucleares neste país. O candidato da CDU em Baden-Württemberg também teve uma revelação: afinal o risco residual pode ser maior do que se pensava, temos de ver isso, disseram eles.
Na semana seguinte, a edição do Spiegel trazia várias páginas de discussão dos leitores sobre o assunto (os comentários ao título da capa não costumam ocupar mais do que uma página).
Alguns defendiam a energia nuclear: que as alternativas provocam milhares de mortos por ano, mas que ninguém fala disso, ou que é uma questão de reforçar a segurança, e que aqui não há tsunamis, ou ainda que fechar as centrais nucleares alemãs implica passar a comprar a energia produzida em centrais da Europa de Leste, cuja segurança não podemos controlar.
A maior parte deles, contudo, estava a favor de uma passagem acelerada da energia nuclear para energias renováveis.
Já disse aqui que gosto imenso dos leitores do Spiegel? Da riqueza das análises que fazem, e do sarcasmo de alguns? Pois mais uma vez mostraram o que valem. Um deles dizia que a nossa geração ficará inesquecível: séculos e séculos depois de encerrarmos a última central, ainda haverá emprego garantido para especialistas em Física Nuclear, ainda andarão os nossos tatatatataranetos aflitos sem saber que fazer aos nossos resíduos radioactivos. Outro leitor alertava: não precisamos de tsunami para nada - um simples ataque cibernético aos sistemas de produção ou distribuição de energia que alimentam a central nuclear pode sabotar o arrefecimento, e num instante se chega ao risco residual e ao GAU.
Isto foi uma semana antes das eleições.
Entretanto o Mappus apercebeu-se que não conseguia recuperar os seus eleitores que estavam aterrorizados com o cenário de Fukushima, e estava a perder também o eleitorado entre os fundamentalistas da energia nuclear - que ainda os há -, e viu outra vez a luz, mas em sentido contrário: afinal a energia nuclear é boa, basta saber usá-la com responsabilidade.
E ao sétimo dia o povo votou. Nos Verdes: o partido que desde 1980 luta contra a energia atómica.
Quanto às políticas "liberais" de que fala o Tomás Vasques: o que será isso? Se se refere a cortar no Estado Social, vou desapontá-lo: prefiro ser pobre na Alemanha a ser da actual classe média em Portugal. Se se refere ao ziguezaguear Merkeleano na condução da crise do euro, há que esclarecer que a Angela Merkel está a avançar sobre um arame impossível: quanto mais ajudar os países em dificuldades, mais críticas recebe do seu próprio povo. Embora se repita ad nauseum que o Euro é bom para a Alemanha e é preciso salvá-lo para proteger os interesses alemães, as pessoas não percebem. E perguntam: porque é que os contribuintes alemães têm de pagar a má gestão dos outros países, que não se sabem governar e nos vêm pedir a nós? Porque é que temos de pagar, mas não podemos influenciar as suas políticas?
Esta questão explica em parte aquela intervenção zangada da Merkel no Parlamento, criticando o PSD, que os portugueses sentiram como uma intromissão inaceitável. No momento em que o governo alemão equaciona a possibilidade de usar muitos milhares de milhões de euros do seu orçamento (já de si muito endividado, diga-se de passagem), e o faz num contexto de fortes críticas internas e incompreensão popular, uma crise política em Portugal só vem complicar ainda mais.
O que aconteceu em Baden-Württemberg, onde a CDU governava há 58 anos e tinha algumas hipóteses de continuar a governar - apesar das catástrofes que houve sobretudo na gestão inicial do conflito "Stuttgart 21" -, é que o candidato da CDU ao cargo de "ministro-presidente" daquele Estado é um adepto convicto da energia nuclear, e as eleições foram muito ensombradas pela preocupação de que se dê uma terrível explosão em Fukushima.
Ora então sentem-se confortavelmente, que cá vai um bocadinho de análise de história contemporânea à minha maneira:
(este é o momento em que os olhos dos meus filhos começam a brilhar, "conta, mãe, conta!") (desconfio que só eles se deixam iludir tão facilmente... o amor filial é lindo)
No dia 12 de Março, estava a revista Spiegel a imprimir uma capa com imagens da tsunami e título "a natureza mortal" ou "a natureza inimiga", ou algo do género, quando chegaram as primeiras imagens da explosão em Fukushima. Cancelaram imediatamente a impressão dessa página, e fizeram outra: "o fim da era nuclear".
Isto foi duas semanas antes das eleições às quais concorria um acérrimo defensor da energia nuclear. A Angela Merkel, que há meia dúzia de meses tinha aceitado o prolongamento da vida útil de algumas centrais bastante velhas, fazendo uma chocante inversão nas políticas que vinham a ser seguidas há mais de uma década, viu repentinamente a luz, e reagiu com uma moratória sobre o futuro das centrais nucleares neste país. O candidato da CDU em Baden-Württemberg também teve uma revelação: afinal o risco residual pode ser maior do que se pensava, temos de ver isso, disseram eles.
Na semana seguinte, a edição do Spiegel trazia várias páginas de discussão dos leitores sobre o assunto (os comentários ao título da capa não costumam ocupar mais do que uma página).
Alguns defendiam a energia nuclear: que as alternativas provocam milhares de mortos por ano, mas que ninguém fala disso, ou que é uma questão de reforçar a segurança, e que aqui não há tsunamis, ou ainda que fechar as centrais nucleares alemãs implica passar a comprar a energia produzida em centrais da Europa de Leste, cuja segurança não podemos controlar.
A maior parte deles, contudo, estava a favor de uma passagem acelerada da energia nuclear para energias renováveis.
Já disse aqui que gosto imenso dos leitores do Spiegel? Da riqueza das análises que fazem, e do sarcasmo de alguns? Pois mais uma vez mostraram o que valem. Um deles dizia que a nossa geração ficará inesquecível: séculos e séculos depois de encerrarmos a última central, ainda haverá emprego garantido para especialistas em Física Nuclear, ainda andarão os nossos tatatatataranetos aflitos sem saber que fazer aos nossos resíduos radioactivos. Outro leitor alertava: não precisamos de tsunami para nada - um simples ataque cibernético aos sistemas de produção ou distribuição de energia que alimentam a central nuclear pode sabotar o arrefecimento, e num instante se chega ao risco residual e ao GAU.
Isto foi uma semana antes das eleições.
Entretanto o Mappus apercebeu-se que não conseguia recuperar os seus eleitores que estavam aterrorizados com o cenário de Fukushima, e estava a perder também o eleitorado entre os fundamentalistas da energia nuclear - que ainda os há -, e viu outra vez a luz, mas em sentido contrário: afinal a energia nuclear é boa, basta saber usá-la com responsabilidade.
E ao sétimo dia o povo votou. Nos Verdes: o partido que desde 1980 luta contra a energia atómica.
Quanto às políticas "liberais" de que fala o Tomás Vasques: o que será isso? Se se refere a cortar no Estado Social, vou desapontá-lo: prefiro ser pobre na Alemanha a ser da actual classe média em Portugal. Se se refere ao ziguezaguear Merkeleano na condução da crise do euro, há que esclarecer que a Angela Merkel está a avançar sobre um arame impossível: quanto mais ajudar os países em dificuldades, mais críticas recebe do seu próprio povo. Embora se repita ad nauseum que o Euro é bom para a Alemanha e é preciso salvá-lo para proteger os interesses alemães, as pessoas não percebem. E perguntam: porque é que os contribuintes alemães têm de pagar a má gestão dos outros países, que não se sabem governar e nos vêm pedir a nós? Porque é que temos de pagar, mas não podemos influenciar as suas políticas?
Esta questão explica em parte aquela intervenção zangada da Merkel no Parlamento, criticando o PSD, que os portugueses sentiram como uma intromissão inaceitável. No momento em que o governo alemão equaciona a possibilidade de usar muitos milhares de milhões de euros do seu orçamento (já de si muito endividado, diga-se de passagem), e o faz num contexto de fortes críticas internas e incompreensão popular, uma crise política em Portugal só vem complicar ainda mais.
29 março 2011
Mohamed Bouazizi
* 29.03.1984 em Sidi Bouzid; † 4.01.2011 em Ben Arous
Mohamed Bouazizi fazia hoje 27 anos.
Contaremos a história de um homem simples, desde muito novo responsável pelo sustento da sua família. Esse que chegou ao mais fundo desespero por obra das humilhações e dificuldades provocadas por uma cruel máquina estatal, e no seu corpo acendeu uma chama, manifesto de uma palavra só - não! - que se fez grito e convocatória. Referiremos o ridículo desespero dos poderosos que deram ao mais indefeso dos homens tratamento hospitalar de rico, que o foram visitar perante as câmaras dos jornalistas, que quiseram castigar os pequenos maus da fita. Falaremos de uma revolução que nasceu no coração da rua e alastrou por continentes.
Mohamed Bouazizi fazia hoje 27 anos.
Contaremos a história de um homem simples, desde muito novo responsável pelo sustento da sua família. Esse que chegou ao mais fundo desespero por obra das humilhações e dificuldades provocadas por uma cruel máquina estatal, e no seu corpo acendeu uma chama, manifesto de uma palavra só - não! - que se fez grito e convocatória. Referiremos o ridículo desespero dos poderosos que deram ao mais indefeso dos homens tratamento hospitalar de rico, que o foram visitar perante as câmaras dos jornalistas, que quiseram castigar os pequenos maus da fita. Falaremos de uma revolução que nasceu no coração da rua e alastrou por continentes.
28 março 2011
e então, nos intervalos da escola, do computador, do futebol, dos amigos, do xadrez e de dar cabo da paciência à mãe dele, o rapaz faz isto:
(peço desculpa pela péssima qualidade de som e imagem, mas as coisas são como são, e por acaso até melhoraram - lembram-se daquele Natal em que aqui deixei umas pecinhas de Bartók com imagem mas sem som? é só para verem como a técnica tem evoluído neste blogue. Além disso, nem era suposto gravar nada, e muito menos fazer um post disto, mas a pedido de várias famílias vejo-me obrigada a abrir uma excepção)
(há bocado estivemos a ver o vídeo, e ele comentava "aqui devia ter sido mais rápido" "esta passagem saiu muito pesada" "aqui está muito bonito" etc. - música é um prazer e um trabalho que não acabam, e ser mãe de um rapaz assim idem)
27 março 2011
está tudo louco? (2)
Hoje havia várias crianças barulhentas na missa. Incomodam um bocado, reconheço, mas: fazer o quê? Se as quiserem fora da igreja, a elas e aos pais, a idade média dos participantes eleva-se aí para uns 87.
No momento em que as pessoas se trocaram gestos de Paz, dois irmãozinhos, talvez de 2 e 4 anos, começaram a ir pelas filas adiante, cumprimentando todas as pessoas. Parecia que um raio de luz avançava na direcção do altar: por onde eles passavam, as pessoas sorriam muito enternecidas. Mas depois a miúda mais velha deixou o pequenito sozinho e voltou para trás, ele começou a chorar, e a mãe foi a correr buscá-lo mas já foi tarde: um homem resmungou "isto não é lugar para crianças!" e pela igreja passou um burburinho de "agarrem-me que eu vou-me a ele" e "sim, senhor, é isso mesmo!". Ao meu lado alguém gritou "as crianças são bem-vindas na nossa igreja!", outros apoiaram, outros criticaram, e o padre, que já estava preparado para dar a comunhão, disse: no fim falaremos disso, agora não é o momento.
Lembram-se do que contei neste post? Pois é, já não precisamos de estudantes espanholas malucas para abandalhar a missinha, nós cá, católicos de Berlim, somos muito faça-você-mesmo.
***
No fim, o padre disse duas coisas:
- Sobre as crianças, o óbvio: que as queremos na igreja, mas que em certos momentos se apela aos pais para que tentem resolver a agitação do melhor modo para as crianças e também para os outros presentes - sem que ninguém esqueça, contudo, que "é pela voz das crianças que se louva Deus", como vem no salmo.
- Na próxima semana vai haver um colóquio literário cuja receita devia reverter a favor das obras da igreja
(o famoso "telhado da igreja", haverá paróquia que não junte dinheiro para o telhadinho? - mas por acaso desta vez é sério: toda a igreja tem estado em obras, e temos andado a celebrar no ginásio da escola vizinha. Talvez isso explique um pouco a maluquice que hoje acometeu a comunidade)
mas o padre vai tentar que todos concordem em enviar o dinheiro para o Japão em vez de o usar para o objectivo inicial. Porque, dizia ele, "é bem verdade que precisamos do dinheiro, mas se compararmos as nossas dificuldades com as dos japoneses, as coisas ganham toda uma outra dimensão".
(Será que já disse hoje que gosto da minha paróquia?)
No momento em que as pessoas se trocaram gestos de Paz, dois irmãozinhos, talvez de 2 e 4 anos, começaram a ir pelas filas adiante, cumprimentando todas as pessoas. Parecia que um raio de luz avançava na direcção do altar: por onde eles passavam, as pessoas sorriam muito enternecidas. Mas depois a miúda mais velha deixou o pequenito sozinho e voltou para trás, ele começou a chorar, e a mãe foi a correr buscá-lo mas já foi tarde: um homem resmungou "isto não é lugar para crianças!" e pela igreja passou um burburinho de "agarrem-me que eu vou-me a ele" e "sim, senhor, é isso mesmo!". Ao meu lado alguém gritou "as crianças são bem-vindas na nossa igreja!", outros apoiaram, outros criticaram, e o padre, que já estava preparado para dar a comunhão, disse: no fim falaremos disso, agora não é o momento.
Lembram-se do que contei neste post? Pois é, já não precisamos de estudantes espanholas malucas para abandalhar a missinha, nós cá, católicos de Berlim, somos muito faça-você-mesmo.
***
No fim, o padre disse duas coisas:
- Sobre as crianças, o óbvio: que as queremos na igreja, mas que em certos momentos se apela aos pais para que tentem resolver a agitação do melhor modo para as crianças e também para os outros presentes - sem que ninguém esqueça, contudo, que "é pela voz das crianças que se louva Deus", como vem no salmo.
- Na próxima semana vai haver um colóquio literário cuja receita devia reverter a favor das obras da igreja
(o famoso "telhado da igreja", haverá paróquia que não junte dinheiro para o telhadinho? - mas por acaso desta vez é sério: toda a igreja tem estado em obras, e temos andado a celebrar no ginásio da escola vizinha. Talvez isso explique um pouco a maluquice que hoje acometeu a comunidade)
mas o padre vai tentar que todos concordem em enviar o dinheiro para o Japão em vez de o usar para o objectivo inicial. Porque, dizia ele, "é bem verdade que precisamos do dinheiro, mas se compararmos as nossas dificuldades com as dos japoneses, as coisas ganham toda uma outra dimensão".
(Será que já disse hoje que gosto da minha paróquia?)
26 março 2011
mais um choque cultural
À época da Expo 98 os meus filhos tinham quatro anos um e ano e meio o outro.
Na Alemanha passavam por muito bem educados, ah, e tanta competência social, e tal.
Em Portugal, nesse verão, passei muitas vergonhas.
Por exemplo: na confusão do oceanário (lembram-se de como era no oceanário durante a Expo 98?) disse-lhes para furarem por entre as pessoas para chegar mais perto do vidro, e os adultos portugueses em vez de darem um jeitinho para deixar passar as crianças, desatavam a queixar-se "ai os meus pés!" e "o que é isto?" e "mas que abuso é este?!" e "que é isto de furar a fila?"
Ou no autocarro, quando disse à Christina, que ia sentada junto a uma janela, que viesse ter comigo porque íamos descer na paragem seguinte (e o fiz em português porque ela percebia e eu não me queria armar em emigrante), a senhora ao lado de quem ela ia sentada ralhou logo muito zangada e muito alto "então não se pede licença?!"
Não, na Alemanha as crianças não precisam de pedir licença, porque os adultos adivinham os seus desejos e necessidades ainda antes de as próprias crianças os perceberem, e reagem muito proactivamente. Uma alemã que ouvisse a mãe de uma criança de quatro anos dizer "vamos sair agora" imediatamente se desviava para a criança passar, e ficava alerta para a poder segurar caso estivesse em risco de cair ou de se magoar.
No verao de 98 eu quase parecia aquela mãe que ao ver os militares a passar ficou toda orgulhosa porque o seu filho era o único que fazia o passo certo. Quem é mal-educado: os meus filhinhos, ou os portugueses?
(O melhor é não contar daquela vez que fomos expulsos de um museu em San Francisco por causa dos filhos de amigos nossos alemães, que se puseram a cavalo num hipopótamo de esferovite que havia na exposição. As pernas do pobre do bichinho cederam, e nós: rua! Vá lá que não pagámos multa. Mas quem é que se lembra de deixar coisas assim frágeis no meio de uma sala de exposições para crianças e jovens, sem qualquer barreira nem aviso para não tocar? Na Alemanha seria impensável! Conclusão à maneira do Obelix: os americanos são loucos...)
Na Alemanha passavam por muito bem educados, ah, e tanta competência social, e tal.
Em Portugal, nesse verão, passei muitas vergonhas.
Por exemplo: na confusão do oceanário (lembram-se de como era no oceanário durante a Expo 98?) disse-lhes para furarem por entre as pessoas para chegar mais perto do vidro, e os adultos portugueses em vez de darem um jeitinho para deixar passar as crianças, desatavam a queixar-se "ai os meus pés!" e "o que é isto?" e "mas que abuso é este?!" e "que é isto de furar a fila?"
Ou no autocarro, quando disse à Christina, que ia sentada junto a uma janela, que viesse ter comigo porque íamos descer na paragem seguinte (e o fiz em português porque ela percebia e eu não me queria armar em emigrante), a senhora ao lado de quem ela ia sentada ralhou logo muito zangada e muito alto "então não se pede licença?!"
Não, na Alemanha as crianças não precisam de pedir licença, porque os adultos adivinham os seus desejos e necessidades ainda antes de as próprias crianças os perceberem, e reagem muito proactivamente. Uma alemã que ouvisse a mãe de uma criança de quatro anos dizer "vamos sair agora" imediatamente se desviava para a criança passar, e ficava alerta para a poder segurar caso estivesse em risco de cair ou de se magoar.
No verao de 98 eu quase parecia aquela mãe que ao ver os militares a passar ficou toda orgulhosa porque o seu filho era o único que fazia o passo certo. Quem é mal-educado: os meus filhinhos, ou os portugueses?
(O melhor é não contar daquela vez que fomos expulsos de um museu em San Francisco por causa dos filhos de amigos nossos alemães, que se puseram a cavalo num hipopótamo de esferovite que havia na exposição. As pernas do pobre do bichinho cederam, e nós: rua! Vá lá que não pagámos multa. Mas quem é que se lembra de deixar coisas assim frágeis no meio de uma sala de exposições para crianças e jovens, sem qualquer barreira nem aviso para não tocar? Na Alemanha seria impensável! Conclusão à maneira do Obelix: os americanos são loucos...)
e depois do céu, qual será o próximo limite?
O meu nome já chegou às ondas hertzianas!
Podem ouvir aqui, e: hehehe.
***
"Quem se lembraria do Keynes?", pergunta ela, lá para o meio da entrevista.
"Porque é que mais ninguém se lembrou do Keynes, heinhe?", retruco eu com uma piscadela de olho para os meus botões.
"Encontram-se aqui coisas que não são para rir...", comenta ela.
"E de que maneira!", lamento-me eu para os meus tristonhos botões. É o que dá fazer gracinhas sobre macroeconomia em pleno delírio do TGV, e o livro ser publicado no tempo dos pesadelos PEC.
***
Triste vida de emigrante: na próxima segunda-feira fazem mais uma festa sem mim. Desta vez na Figueira da Foz, um bocadinho à desamão de Berlim.
Quem morar mais perto e quiser, é assim:
Podem ouvir aqui, e: hehehe.
***
"Quem se lembraria do Keynes?", pergunta ela, lá para o meio da entrevista.
"Porque é que mais ninguém se lembrou do Keynes, heinhe?", retruco eu com uma piscadela de olho para os meus botões.
(porque será que os portugueses dizem "kaines"? o resultado é eu depois aflitinha por este mundo fora sem saber em que língua devo pronunciar esse nome) (e porque hoje é sábado e eu estou boa pessoa, para quem não sabe aqui vai um truque: se não souberem como pronunciar uma palavra, escrevam-na no tradutor do google, escolham a língua em que a querem pronunciar, e carreguem no megafonezinho que está por baixo da caixa) (programa óptimo para uma tarde de chuva: escrever uma palavra qualquer, por exemplo "Weltanschauung" e ver como é que os franceses ou os chineses a pronunciam, hihihi, "Freud" em brasileirês fica muito giro, "freudchi") (ó Heleninha, os parêntesis estavam outra vez a preço de pague um leve a família toda?)
"Encontram-se aqui coisas que não são para rir...", comenta ela.
"E de que maneira!", lamento-me eu para os meus tristonhos botões. É o que dá fazer gracinhas sobre macroeconomia em pleno delírio do TGV, e o livro ser publicado no tempo dos pesadelos PEC.
***
Triste vida de emigrante: na próxima segunda-feira fazem mais uma festa sem mim. Desta vez na Figueira da Foz, um bocadinho à desamão de Berlim.
Quem morar mais perto e quiser, é assim:
25 março 2011
mel
Vejo no sound + vision que o filme bal (mel) chegou a Portugal.
Olhares sussurrados, diz o Nuno Galopim: isso mesmo. E também os olhos daquele miúdo, que parecem poemas.
Um filme que respira fundo.
Olhares sussurrados, diz o Nuno Galopim: isso mesmo. E também os olhos daquele miúdo, que parecem poemas.
Um filme que respira fundo.
outras maneiras de rezar
Por causa do Sócrates e do Passos Coelho
(ah! finalmente a culpa já não é só do Sócrates! Portugal deu um grande salto em frente! e o que isto nos vai custar de ginástica mental para perceber e conseguir reajustar o disco riscado, hã? um exercício óptimo contra o Alzheimer! que seja tudo para bem da saúde pública! e adiante:)
hoje senti que precisava de ir a uma sessão de "yoga para reduzir o stress".
Não é que seja realmente yoga, mas faz-me bem na mesma.
Lá para o fim fizemos uma pequena revisão da matéria dada, "eu sou o meu melhor amigo", "eu tenho muito valor", "eu vou conseguir atingir os meus objectivos", e depois esfregamos as mãos para elas se encherem de energia, e enquanto o fazíamos a monitora (monitora? maga? sacerdotisa?) lembrava as pessoas que estão a sofrer horrores devido às catástrofes naturais e técnicas, lembrava os políticos de todo o mundo e a necessidade de eles terem pensamentos de Paz e de Bem, e depois abrimos muito os braços para espalhar a nossa melhor energia para o mundo inteiro, e com os braços fazíamos um grande círculo, para a frente e para a esquerda e para a direita, enquanto repetíamos: "eu irradio o meu sol".
Se isto não é uma maneira de rezar...
O que é curioso: primeiro afastamo-nos da Igreja, fazemos grande escarcéu para nos libertarmos do jugo desse ópio, e depois andamos por aí ó tio ó tio a tentar recuperar mistérios.
(e nem vos digo quanto custam essas sessões de irradiar o meu sol para os políticos do mundo inteiro)
(ah! finalmente a culpa já não é só do Sócrates! Portugal deu um grande salto em frente! e o que isto nos vai custar de ginástica mental para perceber e conseguir reajustar o disco riscado, hã? um exercício óptimo contra o Alzheimer! que seja tudo para bem da saúde pública! e adiante:)
hoje senti que precisava de ir a uma sessão de "yoga para reduzir o stress".
Não é que seja realmente yoga, mas faz-me bem na mesma.
Lá para o fim fizemos uma pequena revisão da matéria dada, "eu sou o meu melhor amigo", "eu tenho muito valor", "eu vou conseguir atingir os meus objectivos", e depois esfregamos as mãos para elas se encherem de energia, e enquanto o fazíamos a monitora (monitora? maga? sacerdotisa?) lembrava as pessoas que estão a sofrer horrores devido às catástrofes naturais e técnicas, lembrava os políticos de todo o mundo e a necessidade de eles terem pensamentos de Paz e de Bem, e depois abrimos muito os braços para espalhar a nossa melhor energia para o mundo inteiro, e com os braços fazíamos um grande círculo, para a frente e para a esquerda e para a direita, enquanto repetíamos: "eu irradio o meu sol".
Se isto não é uma maneira de rezar...
O que é curioso: primeiro afastamo-nos da Igreja, fazemos grande escarcéu para nos libertarmos do jugo desse ópio, e depois andamos por aí ó tio ó tio a tentar recuperar mistérios.
(e nem vos digo quanto custam essas sessões de irradiar o meu sol para os políticos do mundo inteiro)
24 março 2011
atordoada
Nem sei que escrever num dia assim.
Sem pensar muito, o primeiro impulso era para pedir que me agarrem, que estou quase a participar na tal manifestação para mandar passear a classe política (eu sei, não precisam de comentar). O segundo era para pensar uma maneira de nos juntarmos à Espanha: talvez uma Ibéria tenha mais hipóteses de definir um caminho europeu, em vez deste nosso ir na cauda e de chapéu na mão. O terceiro era para (agarrem-me! que vai sair outra vez disparate) ficarmos como a Bélgica, sem governo. Sempre se poupavam as despesas de representação e assim. Ah, afinal o terceiro impulso é apenas uma pequena variação do primeiro.
Os noticiários alemães falam do país mais pobre da Europa Ocidental, e do endividamento. E, oh!, como estou curiosa para ler nas revistas semanais os artigos que porão a nu as trocas e baldrocas deste meu país que parece não conseguir sair do lugar apesar do tanto que se agita.
Depois penso mais um bocadinho, e assusto-me: prevejo o moço das fotocópias a ocupar outra vez uma cadeira ministerial e a brincar às batalhas navais. E vejo os mais pobres de Portugal a viver em condições de ainda maior pobreza - "enquanto houver batatas e couves para uma sopinha...", dizem-me. Enquanto os restaurantes topo de gama se enchem de gente bem-falante que tem imensas ideias sobre como se governar em Portugal.
Sem pensar muito, o primeiro impulso era para pedir que me agarrem, que estou quase a participar na tal manifestação para mandar passear a classe política (eu sei, não precisam de comentar). O segundo era para pensar uma maneira de nos juntarmos à Espanha: talvez uma Ibéria tenha mais hipóteses de definir um caminho europeu, em vez deste nosso ir na cauda e de chapéu na mão. O terceiro era para (agarrem-me! que vai sair outra vez disparate) ficarmos como a Bélgica, sem governo. Sempre se poupavam as despesas de representação e assim. Ah, afinal o terceiro impulso é apenas uma pequena variação do primeiro.
Os noticiários alemães falam do país mais pobre da Europa Ocidental, e do endividamento. E, oh!, como estou curiosa para ler nas revistas semanais os artigos que porão a nu as trocas e baldrocas deste meu país que parece não conseguir sair do lugar apesar do tanto que se agita.
Depois penso mais um bocadinho, e assusto-me: prevejo o moço das fotocópias a ocupar outra vez uma cadeira ministerial e a brincar às batalhas navais. E vejo os mais pobres de Portugal a viver em condições de ainda maior pobreza - "enquanto houver batatas e couves para uma sopinha...", dizem-me. Enquanto os restaurantes topo de gama se enchem de gente bem-falante que tem imensas ideias sobre como se governar em Portugal.
Subscrever:
Mensagens (Atom)








