31 março 2011

ensaio sobre a comunhão

Ando há duas semanas a pensar que devia comprar imediatamente os ingredientes para todos os sushi que quero fazer nos próximos 3 anos. 300 anos. 3000 anos.
O arroz, as folhas de algas secas, o vinagre especial, etc.
Só por causa das coisas.

Ando há duas semanas a adiar, porque me sinto assim uma espécie de primeiro rato a abandonar o barco japonês.

Para mim, não passa de um detalhe: sushi ou não sushi. Um detalhe que, ao tocar levemente a minha vida, me ajuda a vislumbrar a dimensão da tragédia que se está a abater sobre aquele país.

E aqui está um bom tema para a próxima quinta-feira santa: a comunhão do pão - a comunhão das angústias - a comunhão do destino.

(Sim, sim: acusem-me de embarcar ingenuamente no sensacionalismo das notícias. O caso é que o governo japonês só agora - mais de duas semanas e várias explosões mais tarde - começou a pensar em deslocar as populações para a distância de segurança procurada pelos engenheiros alemães no próprio dia em que os problemas começaram. Com transparência de informações e decisões rápidas como estas, que confiança pode restar?)

mais uma ideia fantástica para salvar Portugal

Roubadinho tudo tal e qual ao Maradona, excepto o título. Só porque esta fotografia é impressionante, e de repente me ocorreu que o meu amigo Ed havia de largar umas aranhas na sua figueira, em vez daquela rede que lá pôs para evitar que os pássaros vão aos figos. 
(Será que posso registar esta patente como método de agricultura biológica?)


An unexpected side-effect of the flooding in parts of Pakistan has been that millions of spiders have climbed into the trees to escape the rising flood waters. Because the water has taken so long to recede, many trees have become cocooned in spiders webs. People in this part of Sindh report that there are now less mosquitos than they would normally expect.

30 março 2011

sobre a derrota da CDU no domingo passado

A propósito deste post no Hoje há Conquilhas, um pequeno reparo: não é que os alemães estejam a ficar fartos das políticas "liberais" da Angela Merkel. Nem sequer é bem verdade que os alemães estejam a ficar verdes, ou a virar à esquerda (a pobre da SPD que o diga!), ou sabe-se lá.

O que aconteceu em Baden-Württemberg, onde a CDU governava há 58 anos e tinha algumas hipóteses de continuar a governar - apesar das catástrofes que houve sobretudo na gestão inicial do conflito "Stuttgart 21" -, é que o candidato da CDU ao cargo de "ministro-presidente" daquele Estado é um adepto convicto da energia nuclear, e as eleições foram muito ensombradas pela preocupação de que se dê uma terrível explosão em Fukushima.

Ora então sentem-se confortavelmente, que cá vai um bocadinho de análise de história contemporânea à minha maneira:

(este é o momento em que os olhos dos meus filhos começam a brilhar, "conta, mãe, conta!") (desconfio que só eles se deixam iludir tão facilmente... o amor filial é lindo)

No dia 12 de Março, estava a revista Spiegel a imprimir uma capa com imagens da tsunami e título "a natureza mortal" ou "a natureza inimiga", ou algo do género, quando chegaram as primeiras imagens da explosão em Fukushima. Cancelaram imediatamente a impressão dessa página, e fizeram outra: "o fim da era nuclear".


Isto foi duas semanas antes das eleições às quais concorria um acérrimo defensor da energia nuclear. A Angela Merkel, que há meia dúzia de meses tinha aceitado o prolongamento da vida útil de algumas centrais bastante velhas, fazendo uma chocante inversão nas políticas que vinham a ser seguidas há mais de uma década, viu repentinamente a luz, e reagiu com uma moratória sobre o futuro das centrais nucleares neste país. O candidato da CDU em Baden-Württemberg também teve uma revelação: afinal o risco residual pode ser maior do que se pensava, temos de ver isso, disseram eles.

Na semana seguinte, a edição do Spiegel trazia várias páginas de discussão dos leitores sobre o assunto (os comentários ao título da capa não costumam ocupar mais do que uma página).
Alguns defendiam a energia nuclear: que as alternativas provocam milhares de mortos por ano, mas que ninguém fala disso, ou que é uma questão de reforçar a segurança, e que aqui não há tsunamis, ou ainda que fechar as centrais nucleares alemãs implica passar a comprar a energia produzida em centrais da Europa de Leste, cuja segurança não podemos controlar.
A maior parte deles, contudo, estava a favor de uma passagem acelerada da energia nuclear para energias renováveis.
Já disse aqui que gosto imenso dos leitores do Spiegel? Da riqueza das análises que fazem, e do sarcasmo de alguns? Pois mais uma vez mostraram o que valem. Um deles dizia que a nossa geração ficará inesquecível: séculos e séculos depois de encerrarmos a última central, ainda haverá emprego garantido para especialistas em Física Nuclear, ainda andarão os nossos tatatatataranetos aflitos sem saber que fazer aos nossos resíduos radioactivos. Outro leitor alertava: não precisamos de tsunami para nada - um simples ataque cibernético aos sistemas de produção ou distribuição de energia que alimentam a central nuclear  pode sabotar o arrefecimento, e num instante se chega ao risco residual e ao GAU. 

Isto foi uma semana antes das eleições.
Entretanto o Mappus apercebeu-se que não conseguia recuperar os seus eleitores que estavam aterrorizados com o cenário de Fukushima, e estava a perder também o eleitorado entre os fundamentalistas da energia nuclear - que ainda os há -, e viu outra vez a luz, mas em sentido contrário: afinal a energia nuclear é boa, basta saber usá-la com responsabilidade.

E ao sétimo dia o povo votou. Nos Verdes: o partido que desde 1980 luta contra a energia atómica.

Quanto às políticas "liberais" de que fala o Tomás Vasques: o que será isso? Se se refere a cortar no Estado Social, vou desapontá-lo: prefiro ser pobre na Alemanha a ser da actual classe média em Portugal. Se se refere ao ziguezaguear Merkeleano na condução da crise do euro, há que esclarecer que a Angela Merkel está a avançar sobre um arame impossível: quanto mais ajudar os países em dificuldades, mais críticas recebe do seu próprio povo. Embora se repita ad nauseum que o Euro é bom para  a Alemanha e é preciso salvá-lo para  proteger os interesses alemães, as pessoas não percebem. E perguntam: porque é que os contribuintes alemães têm de pagar a má gestão dos outros países, que não se sabem governar e nos vêm pedir a nós? Porque é que temos de pagar, mas não podemos influenciar as suas políticas?

Esta questão explica em parte aquela intervenção zangada da Merkel no Parlamento, criticando o PSD, que os portugueses sentiram como uma intromissão inaceitável. No momento em que o governo alemão equaciona a possibilidade de usar muitos milhares de milhões de euros do seu orçamento (já de si muito endividado, diga-se de passagem), e o faz num contexto de fortes críticas internas e incompreensão popular, uma crise política em Portugal só vem complicar ainda mais.

29 março 2011

Mohamed Bouazizi

* 29.03.1984 em Sidi Bouzid; † 4.01.2011 em Ben Arous




Mohamed Bouazizi fazia hoje 27 anos.

Contaremos a história de um homem simples, desde muito novo responsável pelo sustento da sua família. Esse que chegou ao mais fundo desespero por obra das humilhações e dificuldades provocadas por uma cruel máquina estatal, e no seu corpo acendeu uma chama, manifesto de uma palavra só - não! - que se fez grito e convocatória. Referiremos o ridículo desespero dos poderosos que deram ao mais indefeso dos homens tratamento hospitalar de rico, que o foram visitar perante as câmaras dos jornalistas, que quiseram castigar os pequenos maus da fita. Falaremos de uma revolução que nasceu no coração da rua e alastrou por continentes.

28 março 2011

e então, nos intervalos da escola, do computador, do futebol, dos amigos, do xadrez e de dar cabo da paciência à mãe dele, o rapaz faz isto:



(peço desculpa pela péssima qualidade de som e imagem, mas as coisas são como são, e por acaso até melhoraram - lembram-se daquele Natal em que aqui deixei umas pecinhas de Bartók com imagem mas sem som? é só para verem como a técnica tem evoluído neste blogue. Além disso, nem era suposto gravar nada, e muito menos fazer um post disto, mas a pedido de várias famílias vejo-me obrigada a abrir uma excepção)
(há bocado estivemos a ver o vídeo, e ele comentava "aqui devia ter sido mais rápido" "esta passagem saiu muito pesada" "aqui está muito bonito" etc. - música é um prazer e um trabalho que não acabam, e ser mãe de um rapaz assim idem)

27 março 2011

está tudo louco? (2)

Hoje havia várias crianças barulhentas na missa. Incomodam um bocado, reconheço, mas: fazer o quê? Se as quiserem fora da igreja, a elas e aos pais, a idade média dos participantes eleva-se aí para uns 87.
No momento em que as pessoas se trocaram gestos de Paz, dois irmãozinhos, talvez de 2 e 4 anos, começaram a ir pelas filas adiante, cumprimentando todas as pessoas. Parecia que um raio de luz avançava na direcção do altar: por onde eles passavam, as pessoas sorriam muito enternecidas. Mas depois a miúda mais velha deixou o pequenito sozinho e voltou para trás, ele começou a chorar, e a mãe foi a correr buscá-lo mas já foi tarde: um homem resmungou "isto não é lugar para crianças!" e pela igreja passou um burburinho de "agarrem-me que eu vou-me a ele" e "sim, senhor, é isso mesmo!". Ao meu lado alguém gritou "as crianças são bem-vindas na nossa igreja!", outros apoiaram, outros criticaram, e o padre, que já estava preparado para dar a comunhão, disse: no fim falaremos disso, agora não é o momento.
Lembram-se do que contei neste post? Pois é, já não precisamos de estudantes espanholas malucas para abandalhar a missinha, nós cá, católicos de Berlim, somos muito faça-você-mesmo.

***

No fim, o padre disse duas coisas:

- Sobre as crianças, o óbvio: que as queremos na igreja, mas que em certos momentos se apela aos pais para que tentem resolver a agitação do melhor modo para as crianças e também para os outros presentes - sem que ninguém esqueça, contudo, que "é pela voz das crianças que se louva Deus", como vem no salmo.

- Na próxima semana vai haver um colóquio literário cuja receita devia reverter a favor das obras da igreja
(o famoso "telhado da igreja", haverá paróquia que não junte dinheiro para o telhadinho? - mas por acaso desta vez é sério: toda a igreja tem estado em obras, e temos andado a celebrar no ginásio da escola vizinha. Talvez isso explique um pouco a maluquice que hoje acometeu a comunidade)
mas o padre vai tentar que todos concordem em enviar o dinheiro para o Japão em vez de o usar para o objectivo inicial. Porque, dizia ele, "é bem verdade que precisamos do dinheiro, mas se compararmos as nossas dificuldades com as dos japoneses, as coisas ganham toda uma outra dimensão".

(Será que já disse hoje que gosto da minha paróquia?)

26 março 2011

mais um choque cultural

À época da Expo 98 os meus filhos tinham quatro anos um e ano e meio o outro.
Na Alemanha passavam por muito bem educados, ah, e tanta competência social, e tal.

Em Portugal, nesse verão, passei muitas vergonhas.

Por exemplo: na confusão do oceanário (lembram-se de como era no oceanário durante a Expo 98?) disse-lhes para furarem por entre as pessoas para chegar mais perto do vidro, e os adultos portugueses em vez de darem um jeitinho para deixar passar as crianças, desatavam a queixar-se "ai os meus pés!" e "o que é isto?" e "mas que abuso é este?!" e "que é isto de furar a fila?"

Ou no autocarro, quando disse à Christina, que ia sentada junto a uma janela, que viesse ter comigo porque íamos descer na paragem seguinte (e o fiz em português porque ela percebia e eu não me queria armar em emigrante), a senhora ao lado de quem ela ia sentada ralhou logo muito zangada e muito alto "então não se pede licença?!"
Não, na Alemanha as crianças não precisam de pedir licença, porque os adultos adivinham os seus desejos e necessidades ainda antes de as próprias crianças os perceberem, e reagem muito proactivamente. Uma alemã que ouvisse a mãe de uma criança de quatro anos dizer "vamos sair agora" imediatamente se desviava para a criança passar, e ficava alerta para a poder segurar caso estivesse em risco de cair ou de se magoar.

No verao de 98 eu quase parecia aquela mãe que ao ver os militares a passar ficou toda orgulhosa porque o seu filho era o único que fazia o passo certo. Quem é mal-educado: os meus filhinhos, ou os portugueses?

(O melhor é não contar daquela vez que fomos expulsos de um museu em San Francisco por causa dos filhos de amigos nossos alemães, que se puseram a cavalo num hipopótamo de esferovite que havia na exposição. As pernas do pobre do bichinho cederam, e nós: rua! Vá lá que não pagámos multa. Mas quem é que se lembra de deixar coisas assim frágeis no meio de uma sala de exposições para crianças e jovens, sem qualquer barreira nem aviso para não tocar? Na Alemanha seria impensável! Conclusão à maneira do Obelix: os americanos são loucos...)

e depois do céu, qual será o próximo limite?

O meu nome já chegou às ondas hertzianas!
Podem ouvir aqui, e: hehehe.

***

"Quem se lembraria do Keynes?", pergunta ela, lá para o meio da entrevista.
"Porque é que mais ninguém se lembrou do Keynes, heinhe?", retruco eu com uma piscadela de olho para os meus botões.

(porque será que os portugueses dizem "kaines"? o resultado é eu depois aflitinha por este mundo fora sem saber em que língua devo pronunciar esse nome)  (e porque hoje é sábado e eu estou boa pessoa, para quem não sabe aqui vai um truque: se não souberem como pronunciar uma palavra, escrevam-na no tradutor do google, escolham a língua em que a querem pronunciar, e carreguem no megafonezinho que está por baixo da caixa) (programa óptimo para uma tarde de chuva: escrever uma palavra qualquer, por exemplo "Weltanschauung" e ver como é que os franceses ou os chineses a pronunciam, hihihi, "Freud" em brasileirês fica muito giro, "freudchi") (ó Heleninha, os parêntesis estavam outra vez a preço de pague um leve a família toda?)

"Encontram-se aqui coisas que não são para rir...", comenta ela.
"E de que maneira!", lamento-me eu para os meus tristonhos botões. É o que dá fazer gracinhas sobre macroeconomia em pleno delírio do TGV, e o livro ser publicado no tempo dos pesadelos PEC.

***

Triste vida de emigrante: na próxima segunda-feira fazem mais uma festa sem mim.  Desta vez na Figueira da Foz, um bocadinho à desamão de Berlim.
Quem morar mais perto e quiser, é assim:

25 março 2011

mel

Vejo no sound + vision  que o filme bal (mel) chegou a Portugal.
Olhares sussurrados, diz o Nuno Galopim: isso mesmo. E também os olhos daquele miúdo, que parecem poemas.
Um filme que respira fundo.

outras maneiras de rezar

Por causa do Sócrates e do Passos Coelho
(ah! finalmente a culpa já não é só do Sócrates! Portugal deu um grande salto em frente! e o que isto nos vai custar de ginástica mental para perceber e conseguir reajustar o disco riscado, hã? um exercício óptimo contra o Alzheimer! que seja tudo para bem da saúde pública! e adiante:)
hoje senti que precisava de ir a uma sessão de "yoga para reduzir o stress".
Não é que seja realmente yoga, mas faz-me bem na mesma.

Lá para o fim fizemos uma pequena revisão da matéria dada, "eu sou o meu melhor amigo", "eu tenho muito valor", "eu vou conseguir atingir os meus objectivos", e depois esfregamos as mãos para elas se encherem de energia, e enquanto o fazíamos a monitora (monitora? maga? sacerdotisa?) lembrava as pessoas que estão a sofrer horrores devido às catástrofes naturais e técnicas, lembrava os políticos de todo o mundo e a necessidade de eles terem pensamentos de Paz e de Bem, e depois abrimos muito os braços para espalhar a nossa melhor energia para o mundo inteiro, e com os braços fazíamos um grande círculo, para a frente e para a esquerda e para a direita, enquanto repetíamos: "eu irradio o meu sol".

Se isto não é uma maneira de rezar...
O que é curioso: primeiro afastamo-nos da Igreja, fazemos grande escarcéu para nos libertarmos do jugo desse ópio, e depois andamos por aí ó tio ó tio a tentar recuperar mistérios.
(e nem vos digo quanto custam essas sessões de irradiar o meu sol para os políticos do mundo inteiro)

24 março 2011

atordoada

Nem sei que escrever num dia assim.
Sem pensar muito, o primeiro impulso era para pedir que me agarrem, que estou quase a participar na tal manifestação para mandar passear a classe política (eu sei, não precisam de comentar). O segundo era para pensar uma maneira de nos juntarmos à Espanha: talvez uma Ibéria tenha mais hipóteses de definir um caminho europeu, em vez deste nosso ir na cauda e de chapéu na mão. O terceiro era para (agarrem-me! que vai sair outra vez disparate) ficarmos como a Bélgica, sem governo. Sempre se poupavam as despesas de representação e assim. Ah, afinal o terceiro impulso é apenas uma pequena variação do primeiro.


Os noticiários alemães falam do país mais pobre da Europa Ocidental, e do endividamento. E, oh!, como estou curiosa para ler nas revistas semanais os artigos que porão a nu as trocas e baldrocas deste meu país que parece não conseguir sair do lugar apesar do tanto que se agita.

Depois penso mais um bocadinho, e assusto-me: prevejo o moço das fotocópias a ocupar outra  vez uma cadeira ministerial e a brincar às batalhas navais. E vejo os mais pobres de Portugal a viver em condições de ainda maior pobreza - "enquanto houver batatas e couves para uma sopinha...", dizem-me. Enquanto os restaurantes topo de gama se enchem de gente bem-falante que tem imensas ideias sobre como se governar em Portugal. 

23 março 2011

será que há trogloditas em Portugal?


Que seria de nós sem os escandalozinhos de cada dia?

O de hoje até é engraçado, e permite descansar por uns momentos da novela vira-o-disco-e-toca-o-mesmo do Coelhócrates e Sócrelho (a vontade que dá de os fechar a todos num quarto, sem pão nem água, e só os deixar sair quando estiverem dispostos a trabalhar uns com os outros com o único objectivo de servir o país) (não, eu não disse nada, nem "em alguns casos, a tortura justifica-se" nem "governo de salvação nacional" nem "suspender a democracia por seis meses" nem "por onde andas, D. Sebastião?", nem nada).

A propósito: e que me dizem do Idílio, a tentar responder a um colombiano que lhe perguntou se o governo português é conservador ou liberal? Ele há perguntas difíceis!...
(cuidado com esse blogue: uma pessoa tem de se agarrar com muita determinação à cadeira para conseguir resistir ao impulso de fazer a mochila e partir) (partir de mota, claro, que por esse mundo fora há muitas subidas...)

Adiante. O não-escândalo de hoje é sobre o conceito de "sem-abrigo" do INE.
Pondo a questão desta forma, uma pessoa até compreende a crítica:

Ficam assim excluídos do conceito de pessoa sem-abrigo:
• As pessoas a viverem em edifícios abandonados;
• As pessoas que, não tendo um alojamento que possa ser classificado de
residência habitual, no momento censitário estavam presentes em
alojamentos colectivos como hospitais, centros de acolhimento com
valência residencial, casas de abrigo, etc…
• As pessoas que, apesar de não terem uma residência habitual, no
momento censitário se encontravam em alojamentos de amigos ou
familiares;
• As pessoas a viverem em abrigos naturais, por exemplo grutas.


Mas, acrescentando o texto que precede esta lista, já fica mais difícil compreender tanto escândalo:

Considera-se sem-abrigo toda a pessoa que, no momento censitário, se encontra a viver na rua ou outro espaço público como jardins, estações de metro, paragens de autocarro, pontes e viadutos, arcadas de edifícios entre outros, ou aquela que, apesar de pernoitar num centro de acolhimento nocturno (abrigo nocturno) é forçada a passar várias horas do dia num local público. Está nesta última situação a pessoa que, apesar de poder jantar e dormir num abrigo nocturno, é obrigada a sair na manhã seguinte.

Sinceramente, não vejo motivo para tanta zanga. Quem, no momento do censo, não está a viver na rua, não é sem-abrigo. Do mesmo modo que quem, no momento do censo, tem um emprego que vai acabar no dia seguinte, não é desempregado.
A única dúvida é a história das grutas. Há trogloditas em Portugal?
Alguém que veja se se podem incluir nos pacotes de turismo cultural (pois se os tunisinos se fartam de ganhar dinheiro por conta disso!), depois pressiona-se o governo para pôr um IVA de 6% nos autocarros que levam os turistas às casas nas grutas, e está a andar: mais um nicho de mercado.

(Olha... acabei de inventar um projecto para propor no Prémio de Empreendedorismo Inovador na Diáspora Portuguesa, cujo prazo de inscrição termina daqui a 3 dias - quem diria que um não-escândalo como este faria avançar Portugal?... Nem sei de que se queixa a geração à rasca - é que isto é um país cheio de recursos!) (ó Heleninha, não seria melhor ires tratar já daquela tradução? olha que tem de estar pronta amanhã, e assim como assim já escreveste num post só disparates que chegam para uma semana inteira!)

***

Adenda (depois de ler este post): okupas são sem-abrigo?
"Aaaah, insultos é que não, meu! Não confundas pobreza extrema com filosofia de vida, pá!"

(o que me lembra mais uma dúvida: e os eremitas? e os que vivem no deserto e se alimentam de escaravelhos? serão sem-abrigo?) (a tradução, Heleninha, olha o tempo a passar, olha a tradução!)

22 março 2011

está tudo louco?

Ou é só meia dúzia?
A Helena Ferro de Gouveia conta o caso, e nota os sintomas de totalitarismo.
Eu prefiro pensar que é só um magote de malucas que resolveram invadir um igreja durante a celebração da missa para fazer figura de parvas. Que idade terão elas? Isto parece coisa de gente a sofrer de adolescentice aguda, em último grau de desespero.

Contudo, nestes momentos lembro-se sempre do poema de Brecht: "do rio que tudo arrasta, se diz que é violento..."
A que violências é que essas raparigas terão sido submetidas para precisarem de fazer tal palermice? Ou: de que demónios interiores se quererão elas libertar, que precisam de subir a um altar? Não devem ser pêra doce, esses demónios que as habitam...

Mais poderosos que os demónios que habitavam os stasi e os polícias que no Outono de 1989 atacavam cidadãos da RDA: o espaço da Igreja foi sempre respeitado. Nem sequer os demónios das nossas políticas territoriais ousam invadir as casas das Igrejas na Europa para expulsar os estrangeiros que lá encontraram abrigo contra as leis que os querem expulsar do país. Mas estas mocinhas, ah! valentes!, entram numa igreja, fazem o que querem, e não têm cultura ou consciência que as trave. Pobrezitas.

21 março 2011

bem sei que no mundo está a acontecer tudo ao mesmo tempo...

...mas de momento a questão que mais me aflige é esta: que pilhas devo comprar para os alarmes de incêndio? É que as últimas que usei só duraram quatro meses, e deviam ser proibidas - tanto material que se gasta, tanta energia para produzir aquilo, tão pesada factura ecológica, e para quê? Para ao fim de quatro meses eu ter de ir buscar outra vez o escadote e trocar tudo.
(e logo eu que morro de medo de subir mais que dois degraus, não sei porque é que ainda não inventaram escadotes com cinto de segurança e música calmante)

Portanto: agradeço que me digam o que devo comprar, porque as bloco 9 V da marca Carrera nunca mais voltam a entrar cá em casa. Humpf e aiminhamãequevoucaiiiiiiiiiiir!

(e: é chocante a quantidade de material altamente poluente que vou deitar fora ao fim de quatro meses, só porque algum senhor esperto achou boa ideia reduzir o tempo de vida das pilhas para poder vender mais quantidade - as anteriores duraram um ano, mas infelizmente esqueci-me de reparar na marca) (por estas e por outras é que me parece que o nosso mundo precisa de dar uma grande volta) (por exemplo - e já agora pergunto a vossa opinião - que tal se deixasse apenas um detector, no máximo dois, em vez dos dez que aí tenho?)

um dia que vá a um lançamento de um livro da Isabela Figueiredo...

...hei-de pedir um autógrafo ao senhor Simões. Este.

(  ;-) para a Isabela )

onde será o botão para desacelerar a História?



É que não consigo dar vazão: ainda estou a tentar digerir este filme - o que eu odeio montanhas russas! -, e já começou uma guerra.
(sou eu e a Merkel, que também se deve estar a sentir numa espécie de várias montanhas russas)

17 março 2011

Engagez-vous!


Rui Bebiano, fala neste post do livro Indignai-vos!, de Stephane Hessel.
Ao aproximar-se do final da vida, escreve Bebiano sobre Hessel, mas - digo-o com toda a satisfação! - o homem está alive and kicking.  Depois de pôr o dedo na ferida, tratou imediatamente de nos abrir portas para sairmos desta situação. Porque a indignação não basta.
O novo livro chama-se Engagez-vous!, e é uma conversa com  Gilles Vanderpooten, um jovem ecologista.

Si Indignez-vous ! appelle à l'indignation, Engagez-vous ! – vous l'aurez compris – appelle à «s'engager sur tous les fronts dans les combats de son époque : droits de l'homme, défense des sans-papiers et des sans logis, etc.» Car, insiste le vieillard engagé au travers des échanges : «il ne suffit pas seulement de s'indigner». Un entretien sur l'engagement, donc, que le sociologue Jean Viard résume en trois mots : vif, profond et passionnant.

D'écologie, il en est donc aussi question dans Engagez-vous : «Je crois que l'engagement pour l'écologie est aussi fort que l'était pour nous l'engagement de la Résistance. L'intérêt du mot «écologie» est qu'il s'articule en problèmes très concrets, certainement plus facilement que l'engagement dans la lutte contre l'injustice. L'engagement de votre génération pour limiter la consommation excessive d'énergie et de ressources, c'est un des engagements concrets où l'on peut déjà agir par soi-même [...]», souligne un Stéphane Hessel plus impliqué que jamais sur la question.
(aqui)

***

Recentemente, ao preparar uma visita turística a Weimar, cruzei-me com o nome de Hessel. Nascido alemão em 1917 e filho de um judeu assimilado, tornou-se membro da resistência francesa, foi preso e torturado pela Gestapo, e enviado para Buchenwald, sendo o seu nome inscrito numa lista de condenados à morte. Foi salvo por Eugen Kogon e Arthur Dietzsch, também prisioneiros, que trocaram o seu número pelo de um judeu morto do bloco de experiências de medicina, o que o marcou para sempre com uma espécie de culpa. Fez parte do grupo que escreveu a Declaração Universal dos Direitos Humanos, insurgindo-se em especial contra a tortura porque, como a sua própria experiência ensinou, além de ser uma violência absolutamente inadmissível, é uma coisa estúpida: o algoz não tem meios para saber se o torturado diz a verdade ou está a inventar para escapar ao sofrimento.
Neste site (em francês) encontrei mais informações sobre ele, e um conjunto de entrevistas admiráveis. 

Indignez-vous! Engagez-vous! - é a consciência do século XX que nos fala, a voz de um homem livre que atravessou o pior e o melhor que o século passado nos legou.  
 

16 março 2011

choque cultural







Por estes dias tenho pensado muito nos meus amigos japoneses que, espalhados um pouco por todo o mundo, estão a salvo da catástrofe, mas terão com certeza parentes e amigos a viver um tempo de incrível angústia. Por várias vezes retraí o impulso de lhes escrever - porque sei o que lhes diria, mas não sei se é o que precisam de ler neste momento.
Observando a aparente placidez desses japoneses presos numa brutal armadilha, vendo esta gente que procura controlar as emoções e atravessar o inferno sem sobressaltos de pânico, pergunto-me: que valor acrescentado seria o meu se enviasse mensagens a abrir para cima deles as comportas do meu horror?
É em momentos assim que me dou conta de enormes diferenças, e de como temos de ser cuidadosos para não esperar dos outros formas de agir, reagir e interagir como as que na minha cultura se consideram naturais.

(Outra questão sobre o que posso fazer, sem o cómodo distanciamento das análises sociológicas, é esta: estaria disposta a oferecer a minha casa em Portugal para abrigar uma família de "refugiados de radioactividade"?) (sim, estaria - excepto nos meses de Verão...) (como era mesmo aquela história do camelo e do buraco da agulha?...)

«Houston, we have a problem»


Título e imagem copiados deste post dos Ladrões de Bicicletas, no qual Nuno Serra aponta um problema grave dos Censos 2011. Resumida e cruamente, é isto: ao dizer que os falsos recibos verdes se devem declarar "trabalhador por conta de outrém" está-se a promover o branqueamento estatístico de um crime punido por lei.
Agora entendo melhor um e-mail que recebi há dias, onde se propunha que os que trabalham a falsos recibos verdes ponham a cruzinha em "outra situação".

E começo a suspeitar, tal como Nuno Serra, que as estatísticas apresentadas para provar que os jovens não estão pior que os outros, e que os recibos verdes são uma realidade de importância residual  (só tornada visível porque esse pessoal fez cursos onde se aprende a ter mais impacto mediático bla bla bla), essas estatísticas, suspeito eu, podem estar erradas.

Errata: ao contrário do que escrevi acima, parece que o uso de falsos recibos verdes não é crime - embora viole alguns princípios básicos e seja sujeito a coima.
Para ser considerado crime, era preciso votarmos todos PCP nas próximas eleições...

15 março 2011

ajudar ou não, eis a questão

De momento, o Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão desaconselha qualquer viagem ao Japão que não seja estritamente necessária. Ainda não chegou ao ponto de insistir no cancelamento de toda e qualquer viagem, e de repatriar todos os alemães que estão no Japão, mas a embaixada alemã naquele país recomenda aos seus cidadãos residentes na área de Tóquio/Yokohama que acompanhem atentamente as notícias e considerem bem os motivos para continuarem a morar no país - especialmente no caso de famílias com filhos pequenos. Também prestam informações sobre o uso de cápsulas de iodo para se protegerem dos efeitos da radiação.(*)
Ontem temia-se que o vento e sobretudo a chuva com elementos radioactivos atinjam a cidade de Tóquio, hoje confirmou-se que foi medido um nível de radioactividade anormal nesta cidade. 

À luz destes avisos, aqui manifesto a minha enorme admiração pela equipa de 41 alemães e 3 cães que no dia 13 de Março chegou ao Japão para ajudar em operações de salvamento na cidade de Tome. Pelos soldados americanos que estão a participar em operações de resgate. Por todos os que ficam naquela região a ajudar, em vez de se porem a milhas. E sobretudo pelos que continuam no inferno das centrais nucleares desgovernadas, e estão a arriscar a sua saúde e até a sua vida para tentarem minorar os efeitos da catástrofe. No meio do sofrimento e do terror, esta gente heróica dá-nos sinais de uma responsabilidade e humanidade muito para lá do exigível.
Quando eu for grande...
...acho que nem mesmo aí seria capaz de ser como eles.



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(*) Mudando completamente de assunto: tentem encontrar este tipo de informações no site do Ministério dos Negócios Estrangeiros português, e digam-me quanto tempo demorou. Pode ser que eu esteja a procurar mal, mas confesso que não vejo qualquer informação para portugueses em visita ou residentes no Japão.
Não era preciso criar uma comissão especial para estas coisas, com 10 membros e reuniões semestrais, nem ter um especialista de informática especialmente encarregado de tratar disto. Talvez bastasse fazerem um acordo com o MNE alemão para autorizar a tradução e publicação destas informações, e arranjarem um tradutor para ir actualizando a página. O site é este: Auswärtiges Amt.
(aqui em inglês, infelizmente sem a parte relativa a viagens ao estrangeiro)
O site do MNE do Reino Unido também não está mau, como se pode ver pela página relativa ao Japão: Travel & living abroad.

14 março 2011

ii.iii.ii Japão

Help Japan posters created by different individuals and organizations with a recurring broken red dot.
(via Der Terrorist)


"Pray for Japan" levanta uma questão curiosa: a que Deus devo rezar - ao deles ou ao meu?
(resposta fácil: ao que eu achar que ajuda mais)
(resposta alternativa: também tem cartazes para as pessoas fazerem donativos à Cruz Vermelha)



Ontem estávamos a ver imagens da tsunami - aquelas cenas em que se prevê o que vai acontecer a seguir e se vê com horror que acontece mesmo: barcos enormes levados contra pontes, carros atirados contra as casas -, sentindo-nos como no onze de Setembro, quando assistimos em directo à derrocada das torres.
E a catástrofe nuclear. Uma amiga minha, aqui em Berlim, já foi comprar comida em latas e chocolates, porque desconfia que tudo vai ficar contaminado.
Eu não fui comprar coisa nenhuma, mas só penso nos japoneses: se em Berlim há quem tenha medo, como se estarão eles a sentir?

"Um protesto espontâneo e pacífico mostrou um país digno"


(Foto copiada do blogue de Paulo Vaz Henriques - podem ver mais algumas aqui.)

Quanto mais fotos e filmes vejo, mais orgulhosa fico: grande manifestação! Não apenas pelos números, mas pelo colorido - sinal de diversidade -, e pela forma pacífica como decorreu.  

No Ladrões de Bicicletas: ponto da situação.
Muito boa, esta síntese:
Que surpresa maravilhosa ontem: cerca de duzentos mil manifestantes em Lisboa, oitenta mil no Porto, milhares por outras cidades do país, jovens na maioria, jovens que não caem na armadilha da luta de gerações. A unidade intergeracional faz-se com a luta contra a precariedade e os salários baixos, uma combinação que é a expressão de um capitalismo medíocre porque sem contrapoderes legais e sociais robustos, contra o desemprego de massas, a consequência de políticas de austeridade destrutivas. Um protesto espontâneo e pacifico mostrou um país digno, um país de cidadãos que não se deixam atemorizar pela chantagem antidemocrática dos mercados financeiros sem trela, de cidadãos que sabem que só a acção colectiva, o tal nós, pode contrariar os planos de contínua regressão, formulados e instituídos pelos doutrinários do choque e do pavor, os que nos querem conformados e amedrontados porque isolados. Seguir-se-á outra manifestação no dia 19. Que sejamos cada vez mais: a esperança contra o medo.

No  oblogouavida: a revolta dos (es)cravos
Destaco:  
O resultado desta campanha DoItYourself não se fez esperar: as pessoas sentiram que aquela luta era delas, gerando-se uma onda de motivação sem precedentes - artistas e músicos participaram e publicitaram o protesto, cada um fez campanha como pôde e inventou as próprias palavras de ordem - e voltámos a ter uma manifestação 'marca branca', com mil slogans diferentes e cartazes feitos à mão. Isto é uma nova forma de fazer política, que não há nada mais político do que reclamar as ruas.
Por cada um que se inscreveu no Facebook, vieram cinco para as ruas, incluindo alguns dos que nunca participam em protestos de rua e muitos dos que escolhem habitualmente não votar, os descrentes do sistema, a real maioria. Agora, quando a maioria do país acorda do 'lado errado' do capitalismo, vieram pais, avós e netos, em auto-defesa, pelo direito ao futuro e contra o desemprego, o trabalho não remunerado, os salários de miséria, os vínculos precários no trabalho, contra a inevitabilidade da política da austeridade só-para-alguns e os governantes que partem, repartem e dão ao sistema financeiro especulativo a melhor parte. Os abraços emocionados de quem descobria pela primeira vez o poder colectivo da rua, por um objectivo comum, eram promessas de novas batalhas futuras. Elas já estão em discussão e preparação, online. A luta continua.



No The Ressabiator: política de marca branca
Destaco:
Ontem fui à manifestação da Avenida da Liberdade e aquilo que mais me entusiasmou foi a variedade. Letreiros para todos os gostos e todas as cores. Gente de todas as idades e feitios. Carrinhos de bebé, bicicletas e gaitas de foles. Hipsters no limite do gótico. Numa furgoneta, os Homens da Luta cantavam a música do festival com Vitorino entre os acompanhantes. A coisa foi realmente apartidária – havia desde skin-heads até anarquistas, toda a escala possível do espectro político – e refrescante por isso mesmo.

A melhor definição que já vi de democracia defende que esta é o governo através da discussão. Meter o voto na urna é apenas a maneira de escolher os melhores argumentos. Mas, nos últimos anos, essa discussão e esses argumentos têm-se estreitado até ao absurdo. Ou se vota num partido ou noutro (se possível reduzindo a escolha a dois); ou se salva o país ou se recebe um salário; ou se paga ao jovem ou se dá a reforma ao idoso. Sempre escolhas que limitam artificialmente o âmbito da discussão e a tornam cada vez mais extrema.
Uma manifestação destas demonstra, pelo contrário, uma vontade de encontrar outras opções e de fazer outras escolhas, de acrescentar argumentos novos e novas soluções à discussão pública.
 

por sorte não somos a Itália, onde há organizações mafiosas que impõem a sua própria lei

Por sorte somos um país de brandos eufemismos, nada de sério.

Embora alegando que as associações "não se podem responsabilizar por acções menos correctas de eventuais piquetes", disse temer o "aproveitamento" da situação por parte de "algumas pessoas revoltadas", que possam praticar "acções menos dignas".

Não se podem responsabilizar, diz ele. Acções menos correctas, diz ele. 

Agarrem-me, que já faltou mais para eu estar quase a achar bem suspender o Estado de Direito por uns mesitos... Assim tipo: prender imediatamente as pessoas "revoltadas" que tenham praticado "acções menos correctas" ou "menos dignas" contra quem ousa ter uma opinião diferente, e deixá-las presas até o tribunal chegar a alguma conclusão.

ecos da manifestação de 12 de março na imprensa em alemão



(daqui) Protestavam contra uma "distribuição injusta da riqueza" em Portugal e contra as más perspectivas de futuro para os jovens. Portugal é o país mais pobre da Europa ocidental. O governo socialista de Sócrates apresentou na sexta-feira passada novas medidas de poupança para saneamento das finanças.


Não encontro mais que isto, sensivelmente o mesmo em todos os jornais que vi na internet informando sobre essa manifestação. Não houve reportagem na TV.
Azar o da "geração à rasca": as terríveis notícias que nos chegam do Japão abafam todas as restantes.

Azar maior o dos líbios: a coberto da ameaça atómica que desvia as atenções, o Khadafi lá vai atacando cidade após cidade.

Ecos disto tudo em mim: tenho de ir ver como é aquela coisa da máquina de lavar a roupa que funciona a pedais. Em vez de gastar dinheiro no ginásio: lavava a roupa, fazia exercício e não gastava electricidade. Sempre seria um começo...

13 março 2011

alguns apontamentos a propósito da manifestação de ontem

Gostei de ler este texto e ver estas fotografias no Acatar.

Num registo completamente diferente, este texto da Inês de Barros Baptista  (via Delito de Opinião).

Em frente à embaixada de Portugal em Berlim havia uns bons 50 manifestantes à hora a que passei.

O nosso embaixador em França contou no seu blogue que foi falar com as pessoas. Quantos embaixadores terão feito o mesmo? Não terá qualquer consequência, imagino, mas é um gesto simples que a todos honra.

Há uns anos falei com um arquitecto português que trabalha em Berlim e me contou que se viu obrigado a emigrar devido às políticas do Cavaco, naqueles anos 90 em que o seu governo maioritário aprovou medidas rigorosas de poupança para preparar a entrada no Euro, o que acelerou a recessão e o aumento da taxa de desemprego (onde é que já vi este filme?...). Foi no tempo em que vários dos seus ministros andavam envolvidos em escândalos de corrupção.
(é curioso que a wikipedia em português e em inglês sejam muito menos informativas, a este respeito, que a alemã...)
A gente esquece-se, não é? Não fôra essa conversa com o tal emigrante-por-conta-das-políticas-do-cavaquistão, e eu não estranhava aquele apelo de Cavaco Silva aos jovens, para que levantem a voz. Talvez nem ele estranhe, talvez até ele próprio já se tenha esquecido. Ou, se calhar, na altura achava normal.

11 março 2011

enganem-me, que eu gosto (2)

As estatísticas, essas ousadas púdicas:

No Douta Ignorância foi publicada uma série de posts, muito aplaudidos, a provar que os jovens - e em especial os licenciados - não têm de que se queixar, porque não estão pior que os outros. Gostei do tom calmo e factual da exposição, mas parece-me que assenta num erro grave: ao usar os dados disponíveis (grupos etários 15-24, 25-34, etc.) e ao recusar-se a considerar a inclusão do grupo até aos 34 anos, por não serem "jovens", distorce o problema.
- Primeiro, reduzir a questão aos menores de 25 anos ignora o seu próprio cerne, que é o arrastamento por vários anos de uma situação de precariedade que não permite que se comece uma vida independente dos pais, se seja capaz de prover ao próprio sustento e de fundar uma família. Um sinal de que as coisas estão a correr muito mal são os números do INE que revelam que a primeira maternidade ocorre cada vez mais tarde. Já ultrapassa os 28 anos, o que significa que há por aí muitos casais que só começam a ter filhos lá para os 33 ou 35 anos. 

- Segundo, se para falar do emprego dos licenciados jovens se dividem estes entre "até aos 24 anos" e os "dos 25 até à reforma", acaba por não se provar nada: os que têm menos de 24 anos acabaram há pouco tempo a formação universitária e muitos deles não se consideram desempregados porque estão a fazer um ou outro estágio, enquanto que os que têm entre 25 e 30 anos vão fazer subir a média de desemprego do grupo de comparação, o que nos leva a pensar que as coisas estão a piorar de igual modo para todos. Ou seja: Priscila Rêgo separou da análise pelo menos 2/3 do grupo em causa, para os incluír no grupo que se pretendia ser o de comparação - é um autêntico caso de estar a comparar alhos com uma mistura de alhos e bugalhos, e concluir que há algumas parecenças entre os grupos. Oh, quão admirada fico.

Apesar destas distorções, as suas conclusões (ou especulações, como lhes chamou, dada a exiguidade de dados disponíveis), que cito deste post, são - digamos - desconfortáveis :

a) a situação relativa dos jovens licenciados [licenciados com menos de 25 anos] degradou-se nos últimos anos;

b) mas continuou, ainda assim, bem melhor do que a situação dos jovens não licenciados [o que nos leva a questionar aquela teoria dos electricistas, sapateiros e canalizadores...]


c) os desvios face à média salarial agravaram-se substancialmente, o que levou à criação de um segmento de jovens licenciados low cost, que se arrasta em estágios não remunerados. Deste ponto de vista, os últimos anos criaram, de facto, uma "Geração Deolinda". Desempregada, pobre e precária. Mas, provavelmente, pouco expressiva em termos numéricos. [Se é pouco expressiva ou não, não sabemos - era preciso conhecer, entre outros, o número exacto de estágios que existem neste momento, e a idade dos estagiários, que pode ir até aos 35 anos.]

Uma última nota, a propósito do vitorioso comentário sobre não haver desemprego entre os licenciados em Engenharia: é óbvio que se as pessoas fossem espertas e racionais, e escolhessem todas esse curso, agora metade dos licenciados em Engenharia estava desempregada, e as empresas ofereciam salários altíssimos aos juniores de jornalismo e gambozinologia. E é para não falar do Latim que, se não for estudado por ninguém, corre sérios riscos de se tornar uma língua morta...

enganem-me, que eu gosto (1)

Grande confusão se tem gerado à volta da manifestação da geração à rasca, marcada para amanhã.
Nem sou muito de teorias da conspiração, mas pergunto-me se anda alguém a criar propositadamente estas confusões, e porquê.

O manifesto está acessível a qualquer um, podem lê-lo aqui, bem como no fim deste post.
Não se cansam de repetir que esta manifestação não tem nada a ver com aquela que pretende acabar com a classe política (hihihi, boa ideia, e já agora podiam exigir também chocolates gratuitos para todos) mas, por algum motivo que não entendo, há quem continue a insistir nessa confusão.

Também me causam alguma perplexidade essas reacções que tentam desmoralizar as vítimas: são os diolindos, são uns preguiçosos mimados e mal habituados pelos papás, uns meninos todos iMac, que escolheram o curso errado e agora se queixam de não receberem um emprego do Estado. Será assim tão simples?

Alguns apontamentos avulsos:

1. Quando o Eduardo Pitta sugere que isto seja manobra do Bloco de Esquerda, ou talvez do PC, ocorre-me uma discussão frequente na casa da família do meu marido, na Alemanha Ocidental dos anos oitenta. Sempre que os filhos participavam nas manifestações pacifistas e contra o armamento alemão, o meu sogro resmungava que estavam a ser manipulados pela URSS. Eles riam-se: "pois é, é, os da KGB até descem o Reno de submarino para nos virem servir espumante da Crimeia e caviar do bom". Depois da queda do muro, descobriram envergonhados que de facto havia agentes da Stasi a preparar essas manifestações. Mas, pensando bem: qual é o problema? O pacifismo e a recusa da corrida ao armamento são valores muito aceitáveis. Não devem ser calados apenas porque podem aproveitar ao inimigo.
Voltando a Portugal, continuando na defesa dos princípios e dos valores: se é o BE que está à frente disto, porque é que o PS não se lembrou antes? É que esta situação é insustentável e inaceitável para qualquer partido de esquerda. Aliás: para qualquer partido decente.


2. Diz-se que as empresas não podem pagar mais, ou dar vínculos mais sólidos. E eu pergunto: uma empresa que só sobrevive com base em salários baixíssimos, nos estágios não ou mal remunerados e dos falsos recibos verdes sem qualquer obrigação social - não seria melhor fechá-la? Bem sei que estou a dizer uma brutalidade, mas parece-me importante deixar claro que só se permitem empresas que funcionem dentro do estrito respeito pela Lei. E a Lei obriga a que as pessoas que trabalham para uma empresa tenham determinadas garantias, como direito a férias e pagamento compartilhado das contribuições para a Segurança Social. Se uma empresa não tem meios para cumprir estes requisitos legais mínimos, simplesmente não tem condições para existir.
Se pactuamos com este tipo de argumentação, daqui a nada vamos aceitar tudo. Gente de trinta, quarenta e cinquenta anos a receber salários de fome e sem ter qualquer garantia, só para que as pobres empresas não vão à falência.

Uma outra questão que me interessaria averiguar: quanto ganham os directores e os quadros superiores dessas empresas que, tragicamente, funcionam abaixo do mínimo de sobrevivência económica e por isso não podem fazer contratos de trabalho justos e legais? Qual é a diferença de salário entre o topo e a base da hierarquia?
Claro que esta minha ousadia repousa num preconceito: não acredito que as empresas não possam oferecer contratos normais aos seus funcionários - penso que não o fazem porque a chico-espertice dos estágios e dos recibos verdes se tornou norma, e burro seria quem pagasse mais para ter aquilo que pode receber pagando menos.Responder-me-ão: nos tempos da globalização temos de aceitar compromissos, sob pena de toda a produção se deslocar para a China. Até me lembra aquela anedota do homem que ia de comboio e gemia de cada vez que chegava a uma estação, porque via que estava a ir na direcção errada. Quando lhe perguntaram porque é que não mudava de comboio, ele respondeu: "é que neste, pelo menos sei para onde vou - se sair e entrar noutro, não sei o que me espera."

3. Fala-se muito na falta de canalizadores e electricistas. Acredito, e não me admiro. Por mim, até se podia recuperar a figura da senhora que, num quartinho debaixo das escadas, apanhava foguetes nas meias. Tudo trabalhos dignos - e que deviam ser (ou já são) bem pagos. Recupere-se a ideia da escola profissional, que forme técnicos respeitados, orgulhosos da sua arte e do seu saber. Mas que não haja ilusões: se é para competir com a China, temos de investir também na excelência das ciências. E se é para criar uma sociedade moderna e europeia, temos de investir na qualidade de vida social e na cultura. Isto não é apenas uma questão de resolver o problema dos precários de hoje, mas de nos perguntarmos em que direcção queremos ir, como país.  

4. Sobre as estatísticas, essas abusadinhas de bikini, que mostram quase tudo mas escondem o essencial, vou fazer um post à parte, porque este já vai muito longo.


***

Manifesto

Nós, desempregados, “quinhentoseuristas” e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal.
Nós, que até agora compactuámos com esta condição, estamos aqui, hoje, para dar o nosso contributo no sentido de desencadear uma mudança qualitativa do país. Estamos aqui, hoje, porque não podemos continuar a aceitar a situação precária para a qual fomos arrastados. Estamos aqui, hoje, porque nos esforçamos diariamente para merecer um futuro digno, com estabilidade e segurança em todas as áreas da nossa vida.
Protestamos para que todos os responsáveis pela nossa actual situação de incerteza – políticos, empregadores e nós mesmos – actuem em conjunto para uma alteração rápida desta realidade, que se tornou insustentável.
Caso contrário:
a) Defrauda-se o presente, por não termos a oportunidade de concretizar o nosso potencial, bloqueando a melhoria das condições económicas e sociais do país. Desperdiçam-se as aspirações de toda uma geração, que não pode prosperar.
b) Insulta-se o passado, porque as gerações anteriores trabalharam pelo nosso acesso à educação, pela nossa segurança, pelos nossos direitos laborais e pela nossa liberdade. Desperdiçam-se décadas de esforço, investimento e dedicação.
c) Hipoteca-se o futuro, que se vislumbra sem educação de qualidade para todos e sem reformas justas para aqueles que trabalham toda a vida. Desperdiçam-se os recursos e competências que poderiam levar o país ao sucesso económico.
Somos a geração com o maior nível de formação na história do país. Por isso, não nos deixamos abater pelo cansaço, nem pela frustração, nem pela falta de perspectivas. Acreditamos que temos os recursos e as ferramentas para dar um futuro melhor a nós mesmos e a Portugal.
Não protestamos contra as outras gerações. Apenas não estamos, nem queremos estar à espera que os problemas se resolvam. Protestamos por uma solução e queremos ser parte dela.

"nada é só bom"

Esta manhã recebi por uma amiga este texto da revista Época. Copio-o integralmente para aqui, porque é demasiado bom para passar apenas um link ou um excerto.


NADA É SÓ BOM


A felicidade pode ser uma mercadoria ordinária, vendida e não entregue

Ao assistir ao novo filme de Arnaldo Jabor, “A Suprema Felicidade”, fiquei desesperada porque não tinha uma caneta e um bloquinho. Eu nunca ando sem uma caneta e um bloquinho. Mas assisti ao filme na abertura do Festival de Cinema do Rio, na quinta-feira (23/9), vestida para festa e com uma daquelas bolsas ridículas onde mal cabem o batom e o dinheiro do táxi. Um problema quando ouvimos uma frase realmente ótima e tudo o que encontramos para retê-la é um bastão com algum nome bizarro como “beijo fatal”. Tive de apelar para a minha péssima memória porque há no filme algumas frases imperdíveis. Daquele tipo essencial, tão boas que parecem simples e até óbvias e você quer morrer por nunca tê-las escrito. Estas frases unem as memórias do cineasta, que vão emergindo no filme do mesmo modo que as lembramos na vida – sem linearidade e só aparentemente descosturadas. Fiquei repetindo-as durante toda a sessão para mim mesma. Consegui que sobrevivessem razoavelmente ilesas. E a primeira delas é a do título desta coluna: “Nada é só bom”.

Virou meu mantra desde então. Vejo tanta gente sofrendo por aí, achando que sua vida está aquém do que deveria ser, porque tudo deveria ser só bom. Não sei quando nos enfiaram garganta abaixo esta ideia absurda de um estado de felicidade absoluta. Uma espécie de nirvana a ser alcançado em que nada mais nos perturbaria e que seríamos felizes para sempre. Na verdade, só há um jeito de isso acontecer: podemos ser felizes e mortos. Porque este estado imperturbável, imune à vida, só se alcança na morte.

Acho que a grande causa atual de infelicidade é a exigência da felicidade. É o deslocamento do lugar da felicidade para o centro da vida, como um fim a ser alcançado e a medida de uma existência que valha a pena. Se nos lembrarmos bem dos contos de fadas, o “e foram felizes para sempre” era exatamente o fim da história. Era quando o conto morria num ponto final porque não havia mais nada relevante para ser contado. Tudo o que interessava, o que nos hipnotizava e nos mantinha pedindo a nossos pais ou à professora ou a nós mesmos “de novo, conta de novo”, era o que vinha antes. O desejo, as turbulências, os avanços e recuos, os tropeços e os arrependimentos, os erros, o frio na barriga, a busca. Tudo aquilo que é a matéria da vida de todos. O que realmente importa.

Acho impressionante a quantidade de adultos pedindo um final feliz para as suas vidas, para suas histórias de amor, para o sucesso profissional. Não há nenhum mistério no final. Independentemente do que cada um acredita, o fato é que no final a vida como cada um a conhece acaba. Para viver, o que nos interessa não são os pontos finais, mas as vírgulas. Os acontecimentos do meio, o enredo entre o primeiro parágrafo e o último.

Escrevo pequenas histórias de ficção em um site de crônicas e alguns leitores se manifestam, por comentários ou por email, reclamando do desfecho. Eles me ensinam sobre esta exigência da felicidade por toda parte. Pedem, com todas as letras, “um final feliz”. Sentem-se traídos porque não dou isso a eles. Mas voltam na semana seguinte para se perturbarem com o desfecho do novo conto e reclamar mais uma vez. São adultos pedindo histórias da carochinha. E consumidores bem treinados para achar que tudo é produto de consumo.

Acham que ofereço a eles cachorro-quente. Por favor, um pouco mais de mostarda, duas salsichas, menos pimenta no molho. É muito interessante. Mas, de algum modo, algo nos meus “finais infelizes” os engata. Porque, em vez de me deixar para lá e ler algo mais “feliz”, voltam por alguma razão. Talvez descobrir se me rendi a tal da felicidade.

A ideia de felicidade como um fim em si mesmo encobre e desbota tanto a delicadeza quanto a grandeza do que vivemos hoje, faz com que olhemos para nossas pequenas conquistas, nossos amores nem sempre tão grandiloquentes, nosso trabalho às vezes chato, como se fosse pouco. Apenas porque nem a conquista nem o amor nem o trabalho é só bom. E há uma crença coletiva e alimentada pelo mundo do consumo afirmando que tudo deveria ser só bom. E se não é só bom é porque fracassamos.

Deixamos então de enxergar a beleza de nosso amor imperfeito, de nossa família imperfeita, de nosso trabalho imperfeito, de nosso corpo imperfeito, de nossos dentes imperfeitos e até de nossas taxas de colesterol imperfeitas. De nossos dias imperfeitos. Escolher como olhamos para nossa vida é um ato profundo de liberdade que temos descartado em troca de propaganda enganosa.

Tanta gente se esquece de viver o que está aí em troca desta mercadoria ordinária chamada de felicidade. Que, como toda mercadoria, tem essência de fumaça. Se tivesse de escolher entre esta felicidade de plástico que vendem por aí e a infelicidade, preferiria ser infeliz. Pelo menos, a infelicidade me faz buscar. E a felicidade absoluta é mortífera, ela mata o tempo presente.

Não tenho nenhum interesse por esta pergunta corriqueira: “Você é feliz?”. Acho uma questão irrelevante. O que me interessa perguntar a mim mesma – e pergunto a todos a quem entrevisto é: “Você deseja?”

Desejar é o contato permanente com o buraco, com a falta, com a impossibilidade de ser completo. Desejar é o que une o homem à sua vida. Une pela falta. Tem mais a ver com um estado permanente de insatisfação. Não a insatisfação que paralisa, aquela causada pela impossibilidade da felicidade absoluta; mas a insatisfação que nos coloca em movimento, carregando tudo o que somos numa busca permanente de sentido. Desejar é estar sempre no caminho, conscientes de que o fim não importa. O fim já está dado, o resto tudo é possibilidade.

No filme de Arnaldo Jabor, as melhores frases são de Noel, avô do personagem principal, vivido pelo enorme Marco Nanini. Numa ocasião ele diz ao neto: “Ninguém é feliz. Com sorte, a gente é alegre”. E completa: “A vida gosta de quem gosta dela”. Achei de uma simplicidade brilhante. É isso, afinal. É claro que há uns poucos momentos de felicidade, mas, como diz Noel em seguida, eles duram no máximo uns 10 minutos e se vão para sempre.
Em vez de ficar perdendo tempo com finais felizes ou se perguntando sobre a felicidade ou invejando a suposta felicidade do vizinho ou se sentindo mal porque não é um personagem de comercial de margarina, vale mais a pena tratar de viver. Tratar de gostar da vida para que ela goste de você.

Aliás, nada me dá mais medo do que gente que vive como se estivesse num comercial de margarina. Se aceitarem um conselho: corram dessas vidas de photoshop. Elas não existem. Gente de verdade vive do jeito possível – e tenta lembrar que o possível não é pouco. Isso não significa se acomodar, pelo contrário. Mas abrir os olhos para a novidade do mundo na soma subtraída de nossos dias, desejar a vida que nos deseja.

É como em outra frase, esta dita por um comprador ambulante de coisas antigas num momento crucial do filme. Um delirante Noel, assustado com a proximidade da morte e disposto a retomar a alegria, sacode na rua o personagem de Emiliano Queiroz, gritando: “Hoje é sábado, hoje é sábado”. E o comprador de coisas que já perderam o sentido diz a frase antológica, digna de um frasista como Nelson Rodrigues: “O sábado é uma ilusão”.

Sim, o sábado é uma ilusão. Então, lembre de viver também de segunda a sexta.



Eliane Brum

Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).
elianebrum@uol.com.br

***
E há mais, há muito mais. 
Acho que este fim-de-semana vou passear para aqui: nossa sociedade, Eliane Brum.

10 março 2011

samba do avião



Um amigo meu, brasileiro que mora nos EUA, contou-me que é mais forte que ele: quando vai ao Brasil, ao sobrevoar o Rio de Janeiro momentos antes de aterrar, põe-se a cantar o "samba do avião".

No Verão passado, ao fim de um belo dia passado com amigos na ilha de Armona, justamente no momento em que entrávamos no barco e eles nos acenavam do cais, essa canção brotou de mim:

"minha alma canta" não apenas quando se chega, mas quando se parte com o coração a transbordar de alegria - e de saudade antecipada, também.

para quem gostava de conhecer a minha casa de Weimar

Aqui está ela (podem crer!):




(mas têm de carregar na imagem e procurar um bocadinho)

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Um flash mob na estação central de Berlim, com 200 bailarinos: todo o ensemble do Staatsballett Berlin, alunos de outras escolas de dança e bailarinos avulsos.
A peça foi criada especialmente para esta ocasião por Giorgio Madia, o coreógrafo da nova produção  "OZ -- The Wonderfull Wizard", e ensaiada nas escolas e em parte até por vídeo.
No final, uma voz anuncia que o comboio para Oz parte no dia 12 de Março, na Komische Oper.

(Já disse que estou a gostar imenso de morar nesta cidade?)

Chapeau!

O dia começa bem: com este filme que encontrei no Delito de Opinião, num post da Ana Vidal do qual copiei o título. É assim mesmo!

09 março 2011

ah, bom, se é um protesto político...

Parece que a canção dos Homens da Luta não é apenas uma gracinha fácil, é mesmo um protesto político. E até há quem diga que isso nos envergonha (via meditação na pastelaria).

Ah, bom, se é um protesto político, pois eis senhores uma importante razão para os mandar a Düsseldorf!
(Se houver petição, assino já.)

É que gosto disso: parece-me um protesto muito mais civilizado e inteligente que lembrarem-se de incendiar a baixa de Lisboa, como aconteceu em Atenas.

E acho que sim, que era importante contar na Europa o que está a acontecer em Portugal.

E que a Europa se encha de medo, acredite mesmo que "estes movimentos da “reacção”, “anti-sistema”, “anti-partidos”, “anti-tudo” estão na moda, são bem organizados, mas não teêm soluções credíveis para o país no mundo moderno em que vivemos. Cantam contra o governo, contra a Alemanha, o FMI, a Europa, os mercados, as agências de rating, os bancos, os EUA, os partidos. Acenam com o fantasma do fascismo, mas teêm como alternativa a anarquia ou uma ditadura comunista." (daqui)

Pois tinha graça que o refrão "contra a reacção" destes patuscos fosse temido como uma ameaça equivalente  aos estados teocráticos do Médio Oriente...

os piadistas do 8 de Março

Pelo apontamento no Segunda Língua encontro um post da Maria João Pires no Jugular que vale um compêndio de sociologia: Para todos os piadistas do 8 de Março (aconselho vivamente que sigam os dois links - ainda só foi outro dia, e é de morrer de vergonha).

Depois, para desanuviar, ou quiçá vingar-se, vejam isto:



(e eu, que de preconceituosa não tenho nada, pergunto-me se os que reagem ao pontapé não estariam entre os outros heróis muito homens, os que naquele 8 de Março diziam que as mulheres são boas é prá cama)

08 março 2011

mensagem críptica para o meu irmão que está em Angola

Após a queda do muro e a consequente retirada do exército russo, libertou-se em Weimar, entre o parque de Goethe e a fronteira nascente da cidade, uma bela encosta que era anteriormente terreno militar. Nesse espaço, a que se dá o nome de neues bauen am Horn estão agora a construir casas da nova bauhaus - afinal de contas, era o mesmo terreno no qual a primeira bauhaus, a que nasceu nessa cidade em 1919 e foi corrida pelos nazis em 1925, tinha projectado construir uma colónia moderna.

Começo por mostrar a minha preferida:




Esta também é engraçada:
(são casas geminadas, mas com formas e cores diferentes; a da direita foi construída à volta de uma árvore)


As casas pretendem-se bastante abertas (sem medos da vizinhança curiosa e das janelas indiscretas), mas com alguns espaços de refúgio:


Tem muitas mais, claro, mas eu só fotografei estas porque já passava das duas, o pessoal estava esfomeado e a implorar silenciosamente para nos irmos às famosas salsichas grelhadas da Turíngia.

E já que estou com a mão na massa, aqui ficam fotografias da primeira casa construída pelo movimento bauhaus, na altura da grande exposição de 1923 (o projecto vencedor não foi, curiosamente, o do director Gropius, mas o de Muche, que era um pintor):

Em vez de um muro à volta da propriedade, optaram por aproveitar uma técnica de embalagens industriais que na época se inventara na Holanda. Assim conseguiram separar o jardim da rua sem se perder a vista para o parque, mesmo em frente.


Estes candeeiros embutidos na parede são muito engraçados. Não é que dêem muita luz, mas esta também não era uma casa para se viver, era só para mostrar.

Em Erfurt, a vinte quilómetros de Weimar, também andam a fazer umas casas interessantes no centro histórico da cidade:





Como se vê na esquina desta casa, só se pode abrir uma pequena parte da janela. É uma solução interessante para ter luz sem os custos de uma janela, mas pergunto-me como é que o morador do andar de cima lavará os vidros. A não ser que tenham inventado um sistema de janelas "auto-lavantes", como já há nos fornos de alguns fogões... (ora aqui está uma coisa que podiam inventar, sim senhor)




Erfurt, para quem não sabe, é uma cidade assim:


Esta rua não é apenas uma rua, é uma ponte com casas - no seu género, a maior da Europa. Hei-de ir lá a melhor hora, que esta fotografia, feita ao lusco-fusco, está uma porcaria.

Vista das casas, do lado de fora da ponte:

Vista da catedral e da igreja vizinha, ao anoitecer: