14 março 2011

ii.iii.ii Japão

Help Japan posters created by different individuals and organizations with a recurring broken red dot.
(via Der Terrorist)


"Pray for Japan" levanta uma questão curiosa: a que Deus devo rezar - ao deles ou ao meu?
(resposta fácil: ao que eu achar que ajuda mais)
(resposta alternativa: também tem cartazes para as pessoas fazerem donativos à Cruz Vermelha)



Ontem estávamos a ver imagens da tsunami - aquelas cenas em que se prevê o que vai acontecer a seguir e se vê com horror que acontece mesmo: barcos enormes levados contra pontes, carros atirados contra as casas -, sentindo-nos como no onze de Setembro, quando assistimos em directo à derrocada das torres.
E a catástrofe nuclear. Uma amiga minha, aqui em Berlim, já foi comprar comida em latas e chocolates, porque desconfia que tudo vai ficar contaminado.
Eu não fui comprar coisa nenhuma, mas só penso nos japoneses: se em Berlim há quem tenha medo, como se estarão eles a sentir?

"Um protesto espontâneo e pacífico mostrou um país digno"


(Foto copiada do blogue de Paulo Vaz Henriques - podem ver mais algumas aqui.)

Quanto mais fotos e filmes vejo, mais orgulhosa fico: grande manifestação! Não apenas pelos números, mas pelo colorido - sinal de diversidade -, e pela forma pacífica como decorreu.  

No Ladrões de Bicicletas: ponto da situação.
Muito boa, esta síntese:
Que surpresa maravilhosa ontem: cerca de duzentos mil manifestantes em Lisboa, oitenta mil no Porto, milhares por outras cidades do país, jovens na maioria, jovens que não caem na armadilha da luta de gerações. A unidade intergeracional faz-se com a luta contra a precariedade e os salários baixos, uma combinação que é a expressão de um capitalismo medíocre porque sem contrapoderes legais e sociais robustos, contra o desemprego de massas, a consequência de políticas de austeridade destrutivas. Um protesto espontâneo e pacifico mostrou um país digno, um país de cidadãos que não se deixam atemorizar pela chantagem antidemocrática dos mercados financeiros sem trela, de cidadãos que sabem que só a acção colectiva, o tal nós, pode contrariar os planos de contínua regressão, formulados e instituídos pelos doutrinários do choque e do pavor, os que nos querem conformados e amedrontados porque isolados. Seguir-se-á outra manifestação no dia 19. Que sejamos cada vez mais: a esperança contra o medo.

No  oblogouavida: a revolta dos (es)cravos
Destaco:  
O resultado desta campanha DoItYourself não se fez esperar: as pessoas sentiram que aquela luta era delas, gerando-se uma onda de motivação sem precedentes - artistas e músicos participaram e publicitaram o protesto, cada um fez campanha como pôde e inventou as próprias palavras de ordem - e voltámos a ter uma manifestação 'marca branca', com mil slogans diferentes e cartazes feitos à mão. Isto é uma nova forma de fazer política, que não há nada mais político do que reclamar as ruas.
Por cada um que se inscreveu no Facebook, vieram cinco para as ruas, incluindo alguns dos que nunca participam em protestos de rua e muitos dos que escolhem habitualmente não votar, os descrentes do sistema, a real maioria. Agora, quando a maioria do país acorda do 'lado errado' do capitalismo, vieram pais, avós e netos, em auto-defesa, pelo direito ao futuro e contra o desemprego, o trabalho não remunerado, os salários de miséria, os vínculos precários no trabalho, contra a inevitabilidade da política da austeridade só-para-alguns e os governantes que partem, repartem e dão ao sistema financeiro especulativo a melhor parte. Os abraços emocionados de quem descobria pela primeira vez o poder colectivo da rua, por um objectivo comum, eram promessas de novas batalhas futuras. Elas já estão em discussão e preparação, online. A luta continua.



No The Ressabiator: política de marca branca
Destaco:
Ontem fui à manifestação da Avenida da Liberdade e aquilo que mais me entusiasmou foi a variedade. Letreiros para todos os gostos e todas as cores. Gente de todas as idades e feitios. Carrinhos de bebé, bicicletas e gaitas de foles. Hipsters no limite do gótico. Numa furgoneta, os Homens da Luta cantavam a música do festival com Vitorino entre os acompanhantes. A coisa foi realmente apartidária – havia desde skin-heads até anarquistas, toda a escala possível do espectro político – e refrescante por isso mesmo.

A melhor definição que já vi de democracia defende que esta é o governo através da discussão. Meter o voto na urna é apenas a maneira de escolher os melhores argumentos. Mas, nos últimos anos, essa discussão e esses argumentos têm-se estreitado até ao absurdo. Ou se vota num partido ou noutro (se possível reduzindo a escolha a dois); ou se salva o país ou se recebe um salário; ou se paga ao jovem ou se dá a reforma ao idoso. Sempre escolhas que limitam artificialmente o âmbito da discussão e a tornam cada vez mais extrema.
Uma manifestação destas demonstra, pelo contrário, uma vontade de encontrar outras opções e de fazer outras escolhas, de acrescentar argumentos novos e novas soluções à discussão pública.
 

por sorte não somos a Itália, onde há organizações mafiosas que impõem a sua própria lei

Por sorte somos um país de brandos eufemismos, nada de sério.

Embora alegando que as associações "não se podem responsabilizar por acções menos correctas de eventuais piquetes", disse temer o "aproveitamento" da situação por parte de "algumas pessoas revoltadas", que possam praticar "acções menos dignas".

Não se podem responsabilizar, diz ele. Acções menos correctas, diz ele. 

Agarrem-me, que já faltou mais para eu estar quase a achar bem suspender o Estado de Direito por uns mesitos... Assim tipo: prender imediatamente as pessoas "revoltadas" que tenham praticado "acções menos correctas" ou "menos dignas" contra quem ousa ter uma opinião diferente, e deixá-las presas até o tribunal chegar a alguma conclusão.

ecos da manifestação de 12 de março na imprensa em alemão



(daqui) Protestavam contra uma "distribuição injusta da riqueza" em Portugal e contra as más perspectivas de futuro para os jovens. Portugal é o país mais pobre da Europa ocidental. O governo socialista de Sócrates apresentou na sexta-feira passada novas medidas de poupança para saneamento das finanças.


Não encontro mais que isto, sensivelmente o mesmo em todos os jornais que vi na internet informando sobre essa manifestação. Não houve reportagem na TV.
Azar o da "geração à rasca": as terríveis notícias que nos chegam do Japão abafam todas as restantes.

Azar maior o dos líbios: a coberto da ameaça atómica que desvia as atenções, o Khadafi lá vai atacando cidade após cidade.

Ecos disto tudo em mim: tenho de ir ver como é aquela coisa da máquina de lavar a roupa que funciona a pedais. Em vez de gastar dinheiro no ginásio: lavava a roupa, fazia exercício e não gastava electricidade. Sempre seria um começo...

13 março 2011

alguns apontamentos a propósito da manifestação de ontem

Gostei de ler este texto e ver estas fotografias no Acatar.

Num registo completamente diferente, este texto da Inês de Barros Baptista  (via Delito de Opinião).

Em frente à embaixada de Portugal em Berlim havia uns bons 50 manifestantes à hora a que passei.

O nosso embaixador em França contou no seu blogue que foi falar com as pessoas. Quantos embaixadores terão feito o mesmo? Não terá qualquer consequência, imagino, mas é um gesto simples que a todos honra.

Há uns anos falei com um arquitecto português que trabalha em Berlim e me contou que se viu obrigado a emigrar devido às políticas do Cavaco, naqueles anos 90 em que o seu governo maioritário aprovou medidas rigorosas de poupança para preparar a entrada no Euro, o que acelerou a recessão e o aumento da taxa de desemprego (onde é que já vi este filme?...). Foi no tempo em que vários dos seus ministros andavam envolvidos em escândalos de corrupção.
(é curioso que a wikipedia em português e em inglês sejam muito menos informativas, a este respeito, que a alemã...)
A gente esquece-se, não é? Não fôra essa conversa com o tal emigrante-por-conta-das-políticas-do-cavaquistão, e eu não estranhava aquele apelo de Cavaco Silva aos jovens, para que levantem a voz. Talvez nem ele estranhe, talvez até ele próprio já se tenha esquecido. Ou, se calhar, na altura achava normal.

11 março 2011

enganem-me, que eu gosto (2)

As estatísticas, essas ousadas púdicas:

No Douta Ignorância foi publicada uma série de posts, muito aplaudidos, a provar que os jovens - e em especial os licenciados - não têm de que se queixar, porque não estão pior que os outros. Gostei do tom calmo e factual da exposição, mas parece-me que assenta num erro grave: ao usar os dados disponíveis (grupos etários 15-24, 25-34, etc.) e ao recusar-se a considerar a inclusão do grupo até aos 34 anos, por não serem "jovens", distorce o problema.
- Primeiro, reduzir a questão aos menores de 25 anos ignora o seu próprio cerne, que é o arrastamento por vários anos de uma situação de precariedade que não permite que se comece uma vida independente dos pais, se seja capaz de prover ao próprio sustento e de fundar uma família. Um sinal de que as coisas estão a correr muito mal são os números do INE que revelam que a primeira maternidade ocorre cada vez mais tarde. Já ultrapassa os 28 anos, o que significa que há por aí muitos casais que só começam a ter filhos lá para os 33 ou 35 anos. 

- Segundo, se para falar do emprego dos licenciados jovens se dividem estes entre "até aos 24 anos" e os "dos 25 até à reforma", acaba por não se provar nada: os que têm menos de 24 anos acabaram há pouco tempo a formação universitária e muitos deles não se consideram desempregados porque estão a fazer um ou outro estágio, enquanto que os que têm entre 25 e 30 anos vão fazer subir a média de desemprego do grupo de comparação, o que nos leva a pensar que as coisas estão a piorar de igual modo para todos. Ou seja: Priscila Rêgo separou da análise pelo menos 2/3 do grupo em causa, para os incluír no grupo que se pretendia ser o de comparação - é um autêntico caso de estar a comparar alhos com uma mistura de alhos e bugalhos, e concluir que há algumas parecenças entre os grupos. Oh, quão admirada fico.

Apesar destas distorções, as suas conclusões (ou especulações, como lhes chamou, dada a exiguidade de dados disponíveis), que cito deste post, são - digamos - desconfortáveis :

a) a situação relativa dos jovens licenciados [licenciados com menos de 25 anos] degradou-se nos últimos anos;

b) mas continuou, ainda assim, bem melhor do que a situação dos jovens não licenciados [o que nos leva a questionar aquela teoria dos electricistas, sapateiros e canalizadores...]


c) os desvios face à média salarial agravaram-se substancialmente, o que levou à criação de um segmento de jovens licenciados low cost, que se arrasta em estágios não remunerados. Deste ponto de vista, os últimos anos criaram, de facto, uma "Geração Deolinda". Desempregada, pobre e precária. Mas, provavelmente, pouco expressiva em termos numéricos. [Se é pouco expressiva ou não, não sabemos - era preciso conhecer, entre outros, o número exacto de estágios que existem neste momento, e a idade dos estagiários, que pode ir até aos 35 anos.]

Uma última nota, a propósito do vitorioso comentário sobre não haver desemprego entre os licenciados em Engenharia: é óbvio que se as pessoas fossem espertas e racionais, e escolhessem todas esse curso, agora metade dos licenciados em Engenharia estava desempregada, e as empresas ofereciam salários altíssimos aos juniores de jornalismo e gambozinologia. E é para não falar do Latim que, se não for estudado por ninguém, corre sérios riscos de se tornar uma língua morta...

enganem-me, que eu gosto (1)

Grande confusão se tem gerado à volta da manifestação da geração à rasca, marcada para amanhã.
Nem sou muito de teorias da conspiração, mas pergunto-me se anda alguém a criar propositadamente estas confusões, e porquê.

O manifesto está acessível a qualquer um, podem lê-lo aqui, bem como no fim deste post.
Não se cansam de repetir que esta manifestação não tem nada a ver com aquela que pretende acabar com a classe política (hihihi, boa ideia, e já agora podiam exigir também chocolates gratuitos para todos) mas, por algum motivo que não entendo, há quem continue a insistir nessa confusão.

Também me causam alguma perplexidade essas reacções que tentam desmoralizar as vítimas: são os diolindos, são uns preguiçosos mimados e mal habituados pelos papás, uns meninos todos iMac, que escolheram o curso errado e agora se queixam de não receberem um emprego do Estado. Será assim tão simples?

Alguns apontamentos avulsos:

1. Quando o Eduardo Pitta sugere que isto seja manobra do Bloco de Esquerda, ou talvez do PC, ocorre-me uma discussão frequente na casa da família do meu marido, na Alemanha Ocidental dos anos oitenta. Sempre que os filhos participavam nas manifestações pacifistas e contra o armamento alemão, o meu sogro resmungava que estavam a ser manipulados pela URSS. Eles riam-se: "pois é, é, os da KGB até descem o Reno de submarino para nos virem servir espumante da Crimeia e caviar do bom". Depois da queda do muro, descobriram envergonhados que de facto havia agentes da Stasi a preparar essas manifestações. Mas, pensando bem: qual é o problema? O pacifismo e a recusa da corrida ao armamento são valores muito aceitáveis. Não devem ser calados apenas porque podem aproveitar ao inimigo.
Voltando a Portugal, continuando na defesa dos princípios e dos valores: se é o BE que está à frente disto, porque é que o PS não se lembrou antes? É que esta situação é insustentável e inaceitável para qualquer partido de esquerda. Aliás: para qualquer partido decente.


2. Diz-se que as empresas não podem pagar mais, ou dar vínculos mais sólidos. E eu pergunto: uma empresa que só sobrevive com base em salários baixíssimos, nos estágios não ou mal remunerados e dos falsos recibos verdes sem qualquer obrigação social - não seria melhor fechá-la? Bem sei que estou a dizer uma brutalidade, mas parece-me importante deixar claro que só se permitem empresas que funcionem dentro do estrito respeito pela Lei. E a Lei obriga a que as pessoas que trabalham para uma empresa tenham determinadas garantias, como direito a férias e pagamento compartilhado das contribuições para a Segurança Social. Se uma empresa não tem meios para cumprir estes requisitos legais mínimos, simplesmente não tem condições para existir.
Se pactuamos com este tipo de argumentação, daqui a nada vamos aceitar tudo. Gente de trinta, quarenta e cinquenta anos a receber salários de fome e sem ter qualquer garantia, só para que as pobres empresas não vão à falência.

Uma outra questão que me interessaria averiguar: quanto ganham os directores e os quadros superiores dessas empresas que, tragicamente, funcionam abaixo do mínimo de sobrevivência económica e por isso não podem fazer contratos de trabalho justos e legais? Qual é a diferença de salário entre o topo e a base da hierarquia?
Claro que esta minha ousadia repousa num preconceito: não acredito que as empresas não possam oferecer contratos normais aos seus funcionários - penso que não o fazem porque a chico-espertice dos estágios e dos recibos verdes se tornou norma, e burro seria quem pagasse mais para ter aquilo que pode receber pagando menos.Responder-me-ão: nos tempos da globalização temos de aceitar compromissos, sob pena de toda a produção se deslocar para a China. Até me lembra aquela anedota do homem que ia de comboio e gemia de cada vez que chegava a uma estação, porque via que estava a ir na direcção errada. Quando lhe perguntaram porque é que não mudava de comboio, ele respondeu: "é que neste, pelo menos sei para onde vou - se sair e entrar noutro, não sei o que me espera."

3. Fala-se muito na falta de canalizadores e electricistas. Acredito, e não me admiro. Por mim, até se podia recuperar a figura da senhora que, num quartinho debaixo das escadas, apanhava foguetes nas meias. Tudo trabalhos dignos - e que deviam ser (ou já são) bem pagos. Recupere-se a ideia da escola profissional, que forme técnicos respeitados, orgulhosos da sua arte e do seu saber. Mas que não haja ilusões: se é para competir com a China, temos de investir também na excelência das ciências. E se é para criar uma sociedade moderna e europeia, temos de investir na qualidade de vida social e na cultura. Isto não é apenas uma questão de resolver o problema dos precários de hoje, mas de nos perguntarmos em que direcção queremos ir, como país.  

4. Sobre as estatísticas, essas abusadinhas de bikini, que mostram quase tudo mas escondem o essencial, vou fazer um post à parte, porque este já vai muito longo.


***

Manifesto

Nós, desempregados, “quinhentoseuristas” e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal.
Nós, que até agora compactuámos com esta condição, estamos aqui, hoje, para dar o nosso contributo no sentido de desencadear uma mudança qualitativa do país. Estamos aqui, hoje, porque não podemos continuar a aceitar a situação precária para a qual fomos arrastados. Estamos aqui, hoje, porque nos esforçamos diariamente para merecer um futuro digno, com estabilidade e segurança em todas as áreas da nossa vida.
Protestamos para que todos os responsáveis pela nossa actual situação de incerteza – políticos, empregadores e nós mesmos – actuem em conjunto para uma alteração rápida desta realidade, que se tornou insustentável.
Caso contrário:
a) Defrauda-se o presente, por não termos a oportunidade de concretizar o nosso potencial, bloqueando a melhoria das condições económicas e sociais do país. Desperdiçam-se as aspirações de toda uma geração, que não pode prosperar.
b) Insulta-se o passado, porque as gerações anteriores trabalharam pelo nosso acesso à educação, pela nossa segurança, pelos nossos direitos laborais e pela nossa liberdade. Desperdiçam-se décadas de esforço, investimento e dedicação.
c) Hipoteca-se o futuro, que se vislumbra sem educação de qualidade para todos e sem reformas justas para aqueles que trabalham toda a vida. Desperdiçam-se os recursos e competências que poderiam levar o país ao sucesso económico.
Somos a geração com o maior nível de formação na história do país. Por isso, não nos deixamos abater pelo cansaço, nem pela frustração, nem pela falta de perspectivas. Acreditamos que temos os recursos e as ferramentas para dar um futuro melhor a nós mesmos e a Portugal.
Não protestamos contra as outras gerações. Apenas não estamos, nem queremos estar à espera que os problemas se resolvam. Protestamos por uma solução e queremos ser parte dela.

"nada é só bom"

Esta manhã recebi por uma amiga este texto da revista Época. Copio-o integralmente para aqui, porque é demasiado bom para passar apenas um link ou um excerto.


NADA É SÓ BOM


A felicidade pode ser uma mercadoria ordinária, vendida e não entregue

Ao assistir ao novo filme de Arnaldo Jabor, “A Suprema Felicidade”, fiquei desesperada porque não tinha uma caneta e um bloquinho. Eu nunca ando sem uma caneta e um bloquinho. Mas assisti ao filme na abertura do Festival de Cinema do Rio, na quinta-feira (23/9), vestida para festa e com uma daquelas bolsas ridículas onde mal cabem o batom e o dinheiro do táxi. Um problema quando ouvimos uma frase realmente ótima e tudo o que encontramos para retê-la é um bastão com algum nome bizarro como “beijo fatal”. Tive de apelar para a minha péssima memória porque há no filme algumas frases imperdíveis. Daquele tipo essencial, tão boas que parecem simples e até óbvias e você quer morrer por nunca tê-las escrito. Estas frases unem as memórias do cineasta, que vão emergindo no filme do mesmo modo que as lembramos na vida – sem linearidade e só aparentemente descosturadas. Fiquei repetindo-as durante toda a sessão para mim mesma. Consegui que sobrevivessem razoavelmente ilesas. E a primeira delas é a do título desta coluna: “Nada é só bom”.

Virou meu mantra desde então. Vejo tanta gente sofrendo por aí, achando que sua vida está aquém do que deveria ser, porque tudo deveria ser só bom. Não sei quando nos enfiaram garganta abaixo esta ideia absurda de um estado de felicidade absoluta. Uma espécie de nirvana a ser alcançado em que nada mais nos perturbaria e que seríamos felizes para sempre. Na verdade, só há um jeito de isso acontecer: podemos ser felizes e mortos. Porque este estado imperturbável, imune à vida, só se alcança na morte.

Acho que a grande causa atual de infelicidade é a exigência da felicidade. É o deslocamento do lugar da felicidade para o centro da vida, como um fim a ser alcançado e a medida de uma existência que valha a pena. Se nos lembrarmos bem dos contos de fadas, o “e foram felizes para sempre” era exatamente o fim da história. Era quando o conto morria num ponto final porque não havia mais nada relevante para ser contado. Tudo o que interessava, o que nos hipnotizava e nos mantinha pedindo a nossos pais ou à professora ou a nós mesmos “de novo, conta de novo”, era o que vinha antes. O desejo, as turbulências, os avanços e recuos, os tropeços e os arrependimentos, os erros, o frio na barriga, a busca. Tudo aquilo que é a matéria da vida de todos. O que realmente importa.

Acho impressionante a quantidade de adultos pedindo um final feliz para as suas vidas, para suas histórias de amor, para o sucesso profissional. Não há nenhum mistério no final. Independentemente do que cada um acredita, o fato é que no final a vida como cada um a conhece acaba. Para viver, o que nos interessa não são os pontos finais, mas as vírgulas. Os acontecimentos do meio, o enredo entre o primeiro parágrafo e o último.

Escrevo pequenas histórias de ficção em um site de crônicas e alguns leitores se manifestam, por comentários ou por email, reclamando do desfecho. Eles me ensinam sobre esta exigência da felicidade por toda parte. Pedem, com todas as letras, “um final feliz”. Sentem-se traídos porque não dou isso a eles. Mas voltam na semana seguinte para se perturbarem com o desfecho do novo conto e reclamar mais uma vez. São adultos pedindo histórias da carochinha. E consumidores bem treinados para achar que tudo é produto de consumo.

Acham que ofereço a eles cachorro-quente. Por favor, um pouco mais de mostarda, duas salsichas, menos pimenta no molho. É muito interessante. Mas, de algum modo, algo nos meus “finais infelizes” os engata. Porque, em vez de me deixar para lá e ler algo mais “feliz”, voltam por alguma razão. Talvez descobrir se me rendi a tal da felicidade.

A ideia de felicidade como um fim em si mesmo encobre e desbota tanto a delicadeza quanto a grandeza do que vivemos hoje, faz com que olhemos para nossas pequenas conquistas, nossos amores nem sempre tão grandiloquentes, nosso trabalho às vezes chato, como se fosse pouco. Apenas porque nem a conquista nem o amor nem o trabalho é só bom. E há uma crença coletiva e alimentada pelo mundo do consumo afirmando que tudo deveria ser só bom. E se não é só bom é porque fracassamos.

Deixamos então de enxergar a beleza de nosso amor imperfeito, de nossa família imperfeita, de nosso trabalho imperfeito, de nosso corpo imperfeito, de nossos dentes imperfeitos e até de nossas taxas de colesterol imperfeitas. De nossos dias imperfeitos. Escolher como olhamos para nossa vida é um ato profundo de liberdade que temos descartado em troca de propaganda enganosa.

Tanta gente se esquece de viver o que está aí em troca desta mercadoria ordinária chamada de felicidade. Que, como toda mercadoria, tem essência de fumaça. Se tivesse de escolher entre esta felicidade de plástico que vendem por aí e a infelicidade, preferiria ser infeliz. Pelo menos, a infelicidade me faz buscar. E a felicidade absoluta é mortífera, ela mata o tempo presente.

Não tenho nenhum interesse por esta pergunta corriqueira: “Você é feliz?”. Acho uma questão irrelevante. O que me interessa perguntar a mim mesma – e pergunto a todos a quem entrevisto é: “Você deseja?”

Desejar é o contato permanente com o buraco, com a falta, com a impossibilidade de ser completo. Desejar é o que une o homem à sua vida. Une pela falta. Tem mais a ver com um estado permanente de insatisfação. Não a insatisfação que paralisa, aquela causada pela impossibilidade da felicidade absoluta; mas a insatisfação que nos coloca em movimento, carregando tudo o que somos numa busca permanente de sentido. Desejar é estar sempre no caminho, conscientes de que o fim não importa. O fim já está dado, o resto tudo é possibilidade.

No filme de Arnaldo Jabor, as melhores frases são de Noel, avô do personagem principal, vivido pelo enorme Marco Nanini. Numa ocasião ele diz ao neto: “Ninguém é feliz. Com sorte, a gente é alegre”. E completa: “A vida gosta de quem gosta dela”. Achei de uma simplicidade brilhante. É isso, afinal. É claro que há uns poucos momentos de felicidade, mas, como diz Noel em seguida, eles duram no máximo uns 10 minutos e se vão para sempre.
Em vez de ficar perdendo tempo com finais felizes ou se perguntando sobre a felicidade ou invejando a suposta felicidade do vizinho ou se sentindo mal porque não é um personagem de comercial de margarina, vale mais a pena tratar de viver. Tratar de gostar da vida para que ela goste de você.

Aliás, nada me dá mais medo do que gente que vive como se estivesse num comercial de margarina. Se aceitarem um conselho: corram dessas vidas de photoshop. Elas não existem. Gente de verdade vive do jeito possível – e tenta lembrar que o possível não é pouco. Isso não significa se acomodar, pelo contrário. Mas abrir os olhos para a novidade do mundo na soma subtraída de nossos dias, desejar a vida que nos deseja.

É como em outra frase, esta dita por um comprador ambulante de coisas antigas num momento crucial do filme. Um delirante Noel, assustado com a proximidade da morte e disposto a retomar a alegria, sacode na rua o personagem de Emiliano Queiroz, gritando: “Hoje é sábado, hoje é sábado”. E o comprador de coisas que já perderam o sentido diz a frase antológica, digna de um frasista como Nelson Rodrigues: “O sábado é uma ilusão”.

Sim, o sábado é uma ilusão. Então, lembre de viver também de segunda a sexta.



Eliane Brum

Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).
elianebrum@uol.com.br

***
E há mais, há muito mais. 
Acho que este fim-de-semana vou passear para aqui: nossa sociedade, Eliane Brum.

10 março 2011

samba do avião



Um amigo meu, brasileiro que mora nos EUA, contou-me que é mais forte que ele: quando vai ao Brasil, ao sobrevoar o Rio de Janeiro momentos antes de aterrar, põe-se a cantar o "samba do avião".

No Verão passado, ao fim de um belo dia passado com amigos na ilha de Armona, justamente no momento em que entrávamos no barco e eles nos acenavam do cais, essa canção brotou de mim:

"minha alma canta" não apenas quando se chega, mas quando se parte com o coração a transbordar de alegria - e de saudade antecipada, também.

para quem gostava de conhecer a minha casa de Weimar

Aqui está ela (podem crer!):




(mas têm de carregar na imagem e procurar um bocadinho)

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Um flash mob na estação central de Berlim, com 200 bailarinos: todo o ensemble do Staatsballett Berlin, alunos de outras escolas de dança e bailarinos avulsos.
A peça foi criada especialmente para esta ocasião por Giorgio Madia, o coreógrafo da nova produção  "OZ -- The Wonderfull Wizard", e ensaiada nas escolas e em parte até por vídeo.
No final, uma voz anuncia que o comboio para Oz parte no dia 12 de Março, na Komische Oper.

(Já disse que estou a gostar imenso de morar nesta cidade?)

Chapeau!

O dia começa bem: com este filme que encontrei no Delito de Opinião, num post da Ana Vidal do qual copiei o título. É assim mesmo!

09 março 2011

ah, bom, se é um protesto político...

Parece que a canção dos Homens da Luta não é apenas uma gracinha fácil, é mesmo um protesto político. E até há quem diga que isso nos envergonha (via meditação na pastelaria).

Ah, bom, se é um protesto político, pois eis senhores uma importante razão para os mandar a Düsseldorf!
(Se houver petição, assino já.)

É que gosto disso: parece-me um protesto muito mais civilizado e inteligente que lembrarem-se de incendiar a baixa de Lisboa, como aconteceu em Atenas.

E acho que sim, que era importante contar na Europa o que está a acontecer em Portugal.

E que a Europa se encha de medo, acredite mesmo que "estes movimentos da “reacção”, “anti-sistema”, “anti-partidos”, “anti-tudo” estão na moda, são bem organizados, mas não teêm soluções credíveis para o país no mundo moderno em que vivemos. Cantam contra o governo, contra a Alemanha, o FMI, a Europa, os mercados, as agências de rating, os bancos, os EUA, os partidos. Acenam com o fantasma do fascismo, mas teêm como alternativa a anarquia ou uma ditadura comunista." (daqui)

Pois tinha graça que o refrão "contra a reacção" destes patuscos fosse temido como uma ameaça equivalente  aos estados teocráticos do Médio Oriente...

os piadistas do 8 de Março

Pelo apontamento no Segunda Língua encontro um post da Maria João Pires no Jugular que vale um compêndio de sociologia: Para todos os piadistas do 8 de Março (aconselho vivamente que sigam os dois links - ainda só foi outro dia, e é de morrer de vergonha).

Depois, para desanuviar, ou quiçá vingar-se, vejam isto:



(e eu, que de preconceituosa não tenho nada, pergunto-me se os que reagem ao pontapé não estariam entre os outros heróis muito homens, os que naquele 8 de Março diziam que as mulheres são boas é prá cama)

08 março 2011

mensagem críptica para o meu irmão que está em Angola

Após a queda do muro e a consequente retirada do exército russo, libertou-se em Weimar, entre o parque de Goethe e a fronteira nascente da cidade, uma bela encosta que era anteriormente terreno militar. Nesse espaço, a que se dá o nome de neues bauen am Horn estão agora a construir casas da nova bauhaus - afinal de contas, era o mesmo terreno no qual a primeira bauhaus, a que nasceu nessa cidade em 1919 e foi corrida pelos nazis em 1925, tinha projectado construir uma colónia moderna.

Começo por mostrar a minha preferida:




Esta também é engraçada:
(são casas geminadas, mas com formas e cores diferentes; a da direita foi construída à volta de uma árvore)


As casas pretendem-se bastante abertas (sem medos da vizinhança curiosa e das janelas indiscretas), mas com alguns espaços de refúgio:


Tem muitas mais, claro, mas eu só fotografei estas porque já passava das duas, o pessoal estava esfomeado e a implorar silenciosamente para nos irmos às famosas salsichas grelhadas da Turíngia.

E já que estou com a mão na massa, aqui ficam fotografias da primeira casa construída pelo movimento bauhaus, na altura da grande exposição de 1923 (o projecto vencedor não foi, curiosamente, o do director Gropius, mas o de Muche, que era um pintor):

Em vez de um muro à volta da propriedade, optaram por aproveitar uma técnica de embalagens industriais que na época se inventara na Holanda. Assim conseguiram separar o jardim da rua sem se perder a vista para o parque, mesmo em frente.


Estes candeeiros embutidos na parede são muito engraçados. Não é que dêem muita luz, mas esta também não era uma casa para se viver, era só para mostrar.

Em Erfurt, a vinte quilómetros de Weimar, também andam a fazer umas casas interessantes no centro histórico da cidade:





Como se vê na esquina desta casa, só se pode abrir uma pequena parte da janela. É uma solução interessante para ter luz sem os custos de uma janela, mas pergunto-me como é que o morador do andar de cima lavará os vidros. A não ser que tenham inventado um sistema de janelas "auto-lavantes", como já há nos fornos de alguns fogões... (ora aqui está uma coisa que podiam inventar, sim senhor)




Erfurt, para quem não sabe, é uma cidade assim:


Esta rua não é apenas uma rua, é uma ponte com casas - no seu género, a maior da Europa. Hei-de ir lá a melhor hora, que esta fotografia, feita ao lusco-fusco, está uma porcaria.

Vista das casas, do lado de fora da ponte:

Vista da catedral e da igreja vizinha, ao anoitecer:

outros carnavais - Rottweil

Em Rottweil, cidade suábia, festeja-se o carnaval alemânico, de antiquíssima tradição. Chamam-lhe "Narrensprung" (primeira regra de sobrevivência nessa cidade: nunca digam "carnaval").
As pessoas levantam-se de madrugada, tentam chegar antes das sete da manhã para terem um bom lugar no passeio. Às oito em ponto inicia-se o desfile, que sai da "porta negra", na torre que fecha o topo da rua.

(foto tirada daqui)
Neste filme podem ver um pouco o ambiente, o tipo de máscaras, a coreografia de cada figura.



Tudo obedece a regras precisas e antigas. Só há uma meia dúzia de tipos diferentes de máscara, cada tipo tem uma maneira própria de agir, e o público responde com sons diferentes segundo cada um deles.

O Federhannes, o meu preferido, que se vê na foto abaixo, tem um manto com penas, dá saltos vertiginosos, usa o rabo do seu bastão para acariciar e irritar as mulheres da assistência, levanta o manto com os braços enquanto anda de roda num bailado saltitante de galo de volta da galinha. Um espectáculo!


(foto tirada daqui, onde encontram outras também muito boas)


O Benner Rössle é uma figura com um homem "a cavalo" e dois acompanhantes que tentam arrancar à chicotada a pena presa à cabeça do cavaleiro. Só há 9 cavalos destes. O ruído que se faz quando o cavaleiro chega perto de nós ouve-se no final deste vídeo:



O Gschell, no seu fato de linho pintado com diversos motivos decorativos ou alegóricos, desce a rua aos saltinhos, o que faz tocar os inúmeros sinos que carrega.

(foto daqui)
Há um galo, o Guller (que significa "galo" em suábio), um tarado cujo papel no desfile é meter-se com as mulheres, esta beleza:

(foto daqui)


E outros, como podem ver neste site.
Ao abrigo do anonimato que a máscara permite, os mascarados vão ter com conhecidos seus entre a assistência, e segredam-lhes um ralhete a propósito de algo menos correcto que terão feito no ano transacto. Depois, como quem consola, oferecem-lhe uma guloseima que trazem num cestinho, despedem-se com um elegante aceno de mão, e regressam ao cortejo.

Estes fatos estão contados e registados, só podem ser feitos mediante autorização, e são parte muito apreciada do património de cada família.

Como já devem ter percebido: gosto de tudo. Das máscaras, da delicadeza da mão que segura a máscara como quem cofia o queixo, dos saltinhos de uns e dos bailaricos dos outros, desta interacção com o público. Começa a ser tempo de voltar a Rottweil.

outros carnavais

Os desfiles carnavalescos das cidades alemãs que levam estas coisas muito a sério (Colónia, Mainz, Düsseldorf, entre outras) tornam-se um interessante momento de crítica social e política. É Carnaval, ninguém leva a mal: servem-se da sátira até ao ponto de, rindo, pôr os nomes aos bois. Ontem, por aqui, foi assim: 


Connosco todos os dias são de "encontro mundial da juventude"









O ministro da saúde como "a lagartinha faminta" (famoso livro para crianças)
Guttenberg dentro de uma fotocopiadora, "copiar em vez de estudar!" 
Podem ver mais algumas aqui (gosto muito do carro da 28ª foto)

e já que hoje é o dia não sei quê das mulheres

E a propósito deste texto no É tudo gente morta, sobre a crónica "faz favor, menina", de Maria José Casa-Nova (que só pode ser lida online por assinantes do Público), deixem-me dizer que acho muito estranho o modo como alguns portugueses falam da chanceler alemã quando estão zangados com ela. Por tudo e por nada, é a frau Merkel. Para mais, "Frau" com minúscula - ou por ignorância ou para requinte da humilhação. Porquê "frau"? Em Portugal a norma é referir o título académico das pessoas, quando o têm - o que é o caso.
Alguém imagina que se o chanceler fosse um homem as pessoas se lembrariam de o tratar por Herr, alguém se lembraria da formulação "Sócrates não tem de ir prestar contas ao herr Kohl"?
Será que sou a única que sente este "frau" como uma maneira de sonegar respeito e importância a uma mulher poderosa?

eis como transformar uma patetice numa oportunidade:



Sugiro que o filme de apresentação de Portugal no próximo Festival da Eurovisão seja um pequeno documentário onde fique claro que, para poupar 250 milhões de euros, o Governo português eliminou o abono de família aos agregados familiares com rendimentos anuais brutos superiores a 8.803 € (mais informações aqui e aqui), e que os outros - os que dispõem de menos de 700 € mensais para alojamento, alimentação, vestuário, medicamentos, transportes, etc. - também sofreram cortes no abono de família. Só com o que conseguiu poupar reduzindo os apoios aos agregados familiares com rendimentos anuais brutos entre os 2.934 e os 5.869 euros (isto dá sensivelmente entre 200 e 500 euros por mês!) o Governo reduziu a despesa em 150 milhões de euros. Contem no filme que será passado a partir de Düsseldorf que, para “dar sinais claros e inequívocos do esforço de consolidação das finanças públicas que Portugal está a efectuar, reforçando a credibilidade financeira junto dos mercados internacionais”, o Governo português retirou apoios às crianças que já vivem muito abaixo do limiar de pobreza, poupando assim 150 milhões de euros - que é, por exemplo, o montante anual extra que a universidade de Viena diz ser necessário para se poder equiparar à universidade de Zurique ou à TU de Munique (não é 150 milhões para essa universidade funcionar, é um complemento para conseguir chegar ao excelente nível das outras). Mostrem as casas em que essas crianças vivem, o que comem. Perguntem à Angela Merkel se o Governo alemão acha bem que na União Europeia haja crianças a crescer nestas condições, e se o povo alemão aprecia realmente estes sinais claros e inequívocos vindos dos países do Sul. Mostrem esta tabela aos alemães, juntamente com uma lista de preços: quilo de pão, litro de leite, livros escolares.




Podem ter a certeza que, se os alemães (que têm abonos de família de pelo menos 184 euros mensais por cada filho, pelo menos até aos 18 anos) souberem isto, vão olhar para os Homens da Luta com outros olhos. Talvez pressintam nessa maluquice de canção um ar de jasmim, um grito de Tahrir.

(Mas não traduzam a letra da canção, por todos os santinhos, não traduzam a letra da canção!)

07 março 2011

escadas de van de Velde



Quem entra no edifício central da universidade Bauhaus em Weimar, obra do arquitecto belga Henry van de Velde, depara-se com esta beleza de escada:


Deve ter sido por volta desta altura que os engenheiros começaram a desentender-se dos arquitectos, "olhem-me para este desconchavo, só para fazer as escadas mais engraçadinhas dá-lhe para fanar um bocado à trave que sustenta o conjunto". Ou talvez isso tenha acontecido um pouco antes, lá pela época do  gótico, não sei e não vou tão longe. Quero apenas falar da beleza das escadas que o van de Velde sabia desenhar, essas do edifício principal:


e mais estas, no edifício das oficinas:





Gostei da simplicidade do terrazzo (vê-se no canto inferior direito) - um revestimento barato e prático para o chão. Gostei muito deste encadeamento das escadas. Isto não é ainda bauhaus, mas nota-se já um despojamento do estilo arte nova que preparou o caminho àquele salto quântico da arquitectura.


O equilíbrio das formas, a combinação dos dois tons de amarelo nas paredes das escadas para a cave: um encanto.
E que dizer da fluidez desta curva das escadas, e da beleza do pilar industrial, que van de Velde assumiu em vez de esconder sob elementos decorativos?





Aqui passo mais um pormenor do pilar:





Quem vai a Weimar não sabe o que perde se não fizer uma visita guiada por um dos especialistas da Bauhaus. Estas escadas do van de Velde são apenas um dos pontos da visita - e só elas já teriam valido a visita.

muito resumidamente, é assim:

Estou toda partidinha.
(mas contei a história do cão, e a da violeta, e mais duas ou três ou quatro)

04 março 2011

"hola!" em Weimar

Daqui a bocadinho (isto sou eu a lembrar-me que tenho de ir dormir muito depressa) saio para levar um grupo de portugueses a Weimar.
Se durante o fim de semana os comentários não forem publicados, é porque estou a repetir uma correria de há um ano.

Desta vez são dois dias. Dá para respirar um bocadinho entre dois museus, mas mal sabem eles que eu sou a Hola! da época da cultura clássica de Weimar. Vão ser dois dias a ouvir coisas do género: "Quatro semanas depois de voltar da Itália, Goethe cruzou-se no parque com uma simpática moçoila. De facto, não foi um acaso. Ela pertencia a uma família outrora com bom nome, juristas e pastores, mas que caíra na miséria devido a descuidos vários do pai, e trazia-lhe um recado do irmão, para que Goethe metesse uma cunhazita. Goethe ajudou o irmão - um rapaz com muito valor, que chegou a ser um escritor conhecido em toda a Europa, mas infelizmente os direitos das publicações não foram muito compensatórios, e o homem escrevia best-seller atrás de best-seller mas não enriquecia -, e de caminho apaixonou-se pela moçoila, levou-a logo ali para a sua casa e escreveu o lindo poema "violeta" para se convencer a si próprio que as suas intenções eram as melhores. A moça chamava-se Christiane Vulpius, e a cidadezinha começou a fervilhar de má-língua e despeito. Nem queiram saber o que a Frau von Stein, já um bocado com os azeites por Goethe ter ido para Itália sem lhe pedir autorização, nem queiram saber o que ela ferveu. Mas, de facto, já tudo estava perdido ("tudo", o quê? nunca saberemos realmente o que se passou entre esta mulher casada e Goethe, sua alma irmã, embora sete anos mais novo, e sem jeito nenhum para os punhos de renda da corte), porque ela, na ausência do escritor, até arranjara um cão para ter em casa, bicho que o génio detestava. Não se imaginaria melhor gesto para bater a porta sobre os cacos de uma profunda amizade. E por falar em cão, quando a actriz principal do teatro, a Caroline Jagemann, que era há longos anos a amante do grão-duque, disse que queria ter o seu poodle no palco, aí Goethe..."
Etc.
Mal eles sabem. A esta hora estarão a dormir descansadinhos, porque amanhã saímos às sete da madrugada, e o melhor que eu tenho a fazer é seguir-lhes o exemplo.

caixa automática

Por volta de 1998, tinham os meus filhos 4 e 2 anos (e os computadores ainda tinham problemas com os acentos - nem queiram saber os truques a que os tradutores de software recorriam para tentarem tornear as dificuldades), enviaram-me esta piadinha:

Os portugueses acabam de inventar a caixa Multibanco-DRIVE-IN.
Basicamente é uma caixa multibanco normal, mas a uma altura mais reduzida para permitir levantar dinheiro sem sair do carro. Para usar esta novidade foram divulgadas instrucoes especificas que se aplicam a cada caso, por favor leia as instrucoes que se aplicam a si:

***Homens***
Guiar ate a caixa Multibanco
Baixar o vidro da janela
Inserir o cartao e introduzir o PIN
Introduzir quantia desejada
Retirar o dinheiro, cartao e recibo
Fechar o vidro
Continuar a guiar

***Mulheres***
Guiar ate a caixa Multibanco;
Fazer marcha-atras 1 metro para alinhar a janela com a caixa
Multibanco;
Deixar o carro ir abaixo;
Baixar o vidro da janela;
Abrir a mala, retirar o estojo de maquilhagem e encontrar o cartao;
Verificar a maquilhagem no retrovisor;
Tentar meter o cartao na maquina ( abrir a porta do carro para mais facilmente aceder a maquina, devido a distancia entre o carro e a maquina );
Inserir cartao;
Re-abrir a mala e localizar o maco de cigarros com o PIN escrito;
Inserir PIN, cancelar, voltar a introduzir o PIN;
Introduzir quantia desejada;
Verificar maquilhagem e cabelo no retrovisor;
Retirar dinheiro e recibo;
Localizar carteira e guardar o dinheiro;
Localizar livro de cheques para guardar o recibo;
Re-verificar maquilhagem;
Avancar 2 metros com o carro;
Fazer marcha-atras 2 metros para alinhar a janela com a caixa Multibanco;
Retirar cartao;
Localizar bolsa do cartao na carteira e guardar cartao;
Re-verificar maquilhagem;
Voltar a ligar o carro e arrancar;
Guiar durante 3 kilometros; Destravar o travao de mao;


Respondi-lhes assim:

Que generalização mais tola sobre as mulheres! Se fosse eu (e eu sou muito mulher!) era bem diferente:

***Helena***
Guiar ate a caixa Multibanco;
Reconhecer a caixa Multibanco tarde demais;
Continuar a rodar até à seguinte, mas não poder travar porque o de trás vem muito colado a mim e ainda havia um acidente, e por isso:
Rodar até à terceira (e última) caixa da cidade;
Fazer marcha-atrás 1 metro para alinhar a janela com a caixa Multibanco;
Deixar o carro ir abaixo ("paciência, e além disso assim sempre poupo alguma gasolina");
Baixar o vidro da janela;
Abrir a mala, retirar as duas chupetas, o carrinho vermelho da Matchbox, o CD-Terminologia e a fralda de reserva, e procurar o porta- moedas;
Olhar para o banco, e ver o porta-moedas lá pousado;
Tirar o cartão do porta-moedas;
Olhar para o banco de trás e verificar se os gelados de chocolate não começaram ainda a escorrer pelos bancos até ao chão;
Ver que as pipocas já se espalharam por todos os lados;
Ralhar com a Christina, que tinha o pacote na mão;
Rir à socapa com a resposta "a culpa é tua, já te disse que não devias fazer as curvas tão depressa";
Tentar meter o cartao na máquina (ligar de novo o carro e avançar um pouquinho; voltar atrás; ir repetindo a manobra, em aproximações sucessivas de 2 cm cada, até chegar perto da máquina);
Inserir cartao;
Re-abrir a mala e retirar o cartão certo, porque com o cartão do telefone não vou longe;
Pensar: "ai meu deus, como é que era o meu número?";
Virar-se para trás dizendo num tom decidido "pouco barulho, vocês os dois, que eu estou a ficar nervosa!"
Saltar do carro para ir limpar o gelado que já começou a chegar ao chão e, ao fazê-lo,
Bater com a porta na caixa automática;
Dizer algumas "daquelas" palavras;
Voltar a fechar a porta, e começar a limpar os filhos e o carro num exercício de contorcionismo pleno de maestria (mas também, são muitos anos de experiência acumulada);
Inserir PIN, cancelar, voltar a introduzir o PIN;
Tentar de novo, cancelar antes que o cartão seja engolido definitivamente pela máquina;
Retirar o cartão;
Ligar o carro;
Rodar até à casa de uns amigos e pedir 50 marcos emprestados para comprar alguma coisa para o jantar;
À saída do supermercado, ver uma caixa automática;
Inserir o cartão, o PIN, a quantia pretendida;
Retirar o cartão e arrumar na carteira;
Avançar;
Voltar atrás e retirar o dinheiro;
Ir muito depressa para casa e deitar-se rapidamente, porque este é um daqueles dias em que nem devia ter saído da cama.

***

Parece que falta pouco para o dia internacional da mulher. Nesse dia não nos ofereçam rosas - um copito de champanhe dá mais jeito, para atenuar o stress de uma vida assim.

03 março 2011

um crime perfeito

Imagine-se que um político sem tempo quer conquistar um título académico, e arranja para isso um ghost writer (parece que os há muito nas universidades, põem anúncios do género "tutor oferece-se"). Imagine-se que o ministro é de direita, e o ghost writer é o último resistente de uma antiga estirpe de anarquistas. Um génio da academia, por sinal, mas precisando de recorrer a estes expedientes para pagar o tratamento homeopático da sua esposa que padece de doença crónica.
Imagine-se o momento em que o ghost writer, num desvario de cinismo, tem o desplante de copiar inclusivamente a frase que abre a introdução ao trabalho. Imagine-se a câmara parada sobre a expressão de gozo no seu rosto.
Muitos anos mais tarde, quando o político já é ministro, o ghost writer (o anarca) cria as condições para que o caso se descubra. O político não pode dizer que o culpado do plágio era, afinal, outro.

O filme continua. Quem quer imaginar o próximo capítulo?

(Não, não estou a sugerir que o Guttenberg tal e coisa. Estou apenas a imaginar um filme para lá daquilo que vimos - e, confesso, um pouco também a partir de certas formulações dele no Parlamento: em vez de dizer "eu não copiei propositadamente" optou várias vezes por uma terceira pessoa incerta, do género "não se agiu com dolo". Eh, lá!)

o poder da internet

A propósito deste post, e da discussão muito interessante que vai por aquela caixa de comentários
(será que já louvei hoje os meus comentadores? É que são o maior orgulho deste blogue!),
acrescento as frases finais de um artigo que li hoje no Spiegel, sobre a extraordinária diferença nos resultados dos inquéritos à popularidade do Guttenberg, que variam conforme as pessoas tenham acesso à internet, se informem via televisão ou jornais. Em suma: pessoas que percorrem a internet são menos influenciáveis.

As frases finais desse artigo:

"Aqui ocorreu uma mudança de paradigma", afirma o psicólogo social Strack. Até agora, os políticos conseguiam resistir a um escândalo desde que tivessem do seu lado media com uma componente visual forte - segundo o lema de Gerhard  Schröder, que disse uma vez, quando era chanceler, que para a Política basta ter o Bild, o Bild am Sonntag e a televisão. 
Hoje o mundo tem um aspecto diferente, graças à internet - e pode ser visto, como no caso Guttenberg, na página "Guttenplag Wiki", na qual centenas de voluntários revelaram, a uma velocidade estonteante, a dimensão do plágio. "As pessoas já não se deixam travar, por exemplo por uma Universidade que pretende examinar as acusações contra Guttenberg durante semanas e semanas",  diz Strack. A existência de informações disponíveis numa dimensão como nunca houve até agora conduz a que "a opinião pública não se deixe enganar tão facilmente". 

Rio

À parte lembrar-me muito aquela sala da Disneyland onde há pássaros e flores a cantar, aqui está um início que dá vontade de voltar ao Rio, e sobretudo a Santa Teresa:

02 março 2011

a queda de um anjo (4) - o papel da internet


No Spiegel online há um texto muito interessante (em alemão, e infelizmente o Speedy Gonzalez hoje anda ocupado com outras traduções) sobre o papel da internet no caso Guttenberg. Sinteticamente: se não tivesse havido um grupo de voluntários a fazer um excelente trabalho de controle, o caso não tinha chegado a ser escândalo. A Política dizia que a Universidade tem de controlar, a Universidade levava meses até conseguir controlar tudo, e teria tempo para pensar no interesse da Pátria e essas coisas.
Não, nada disso: as reacções de Guttenberg ("isso são acusações ridículas", seguida de "sim, parece que cometi involuntariamente um ou outro erro, vou deixar de usar o título até o caso ser esclarecido" para evoluir para "sim, cometi erros graves, e peço desculpa por isso - é que andava muito ocupado com outras coisas") foram provocadas por um trabalho de pesquisa rápido e muito eficiente, levado a cabo por - imagino - centenas ou milhares de voluntários. Para terem uma ideia da qualidade desse controle, cliquem neste link. Uma apresentação visual esmerada, simples e muito informativa. Carregando sobre qualquer das páginas a vermelho chega-se à página em causa, do lado esquerdo, com os trechos copiados, no lado direito, e indicação da fonte. Extraordinária clareza.

Até agora, dizia o artigo do Siegel, os políticos pensavam que meio caminho andado para a resolução destes problemas era ter o jornal Bild do seu lado. Isso acabou: o Guttenberg tinha o Bild a seu favor, mas nada pôde contra os factos revelados com espantosa simplicidade na internet.

Anunciam-se novos tempos. 
Mas, pergunto eu (e já não estou a falar da chico-espertice do Guttenberg): quem de nós aguentaria a transparência absoluta? Quem de nós passaria incólume um exame de milhares de voluntários procurando e publicando tudo aquilo que fizemos de errado, descabido ou politicamente incorrecto, desde que nascemos até hoje?
Estamos perante um mecanismo diabólico, e convinha falarmos hoje sobre os limites básicos da tolerância exigíveis perante a fragilidade do humano que - afinal de contas - todos nós somos.

ontem falaram-me de uma orquestra de arenques

Ontem disseram-me para ir ao jardim zoológico em Janeiro, quando tudo está coberto de neve, a seguir ao almoço: a hora em que começa a escurecer e as luzes se acendem sobre a paisagem branca.
Contaram que os animais dos climas frios rejubilam, muitos brincam felizes com os pinheiros de Natal que a cidade recolhe das ruas para lhes oferecer, os elefantes fazem pequenas batalhas com neve, os funcionários estão muito simpáticos.

E contaram-me de um cardume de arenques que houve nos anos setenta no aquário: das voltas e reviravoltas que davam, das curvas rápidas, das subidas em espiral - "como música", disseram.

Tantas vezes visitei aquários, e nunca me ocorreu ver-lhes a música.

gosto muito de te ver, leãozinho, caminhando sob o sol

Encontrei hoje no Spiegel: dois hippies compraram um leão bebé para levar para casa, em Londres, ao fim de uns meses decidiram devolvê-lo à natureza do Quénia, um ano mais tarde deu-se o reencontro: bela cena (se conseguirmos abstrair da moral da história que lhe passam por cima).

01 março 2011

Berlim, Grécia - ou vice-versa



Com o jeito que tenho para estar no sítio certo no momento certo, no domingo passado calhou-me ser convidada para um passeio pela Grécia Antiga, conduzido por um grande especialista alemão (ainda hei-de ver como era a posição dos astros no dia em que nasci, alguma coisa deve ter estado muito bem alinhada para aqueles lados...).
De modo que nos encontrámos ao meio-dia à porta do Altes Museum, na Ilha dos Museus.

Naquele lugar nada foi feito ao acaso: o museu, símbolo da cultura, ocupa um dos lados da praça delimitada pela catedral, o palácio do Kaiser e a casa das armas (hoje Museu da História Alemã). No centro (atente-se nisto: no centro do coração da capital do império) fica o Lustgarten, "Jardim dos Prazeres" - e ainda dizem que os alemães não têm humor...
A visita começou pela rotunda, o elemento central do edifício, cujo interior imita o Panteão em Roma. Só que, ao contrário desse, este panteão não foi transformado em igreja: é habitado por deuses gregos e romanos, que têm como função receber o visitante burguês e vigiar o palácio do Kaiser, que em parte se avista no lado oposto da praça.
Tal como o museu, o palácio foi bombardeado na guerra. Mas enquanto o museu foi rapidamente reconstruído (o que se vê é basicamente o resultado do trabalho de recuperação de monumentos com os meios e os conhecimentos que havia na RDA nos anos cinquenta), o palácio foi vítima da ideologia comunista, que não queria cá desses símbolos. Sobrou apenas uma pequena parte, poupada também por motivos ideológicos: por ali ter sido proclamada a república por Karl Liebknecht, a 9 de Novembro de 1918. A república comunista, claro - a outra, a socialista, foi proclamada no mesmo dia, mas por Philipp Scheidemann no Reichstag. Aquilo é que eram revoluções: sem facebook nem SMS, deviam ver-se aflitos para encontrar a praça certa para a manifestação. Estou mesmo a ver a Rosa Luxemburgo a correr com um magote de gente para a praça em frente ao Reichstag, a chegar lá e a descobrir com susto "ai! este não é o meu Karl!" e toca de correr para a praça seguinte, e que longa lhe terá parecido a avenida Unter den Linden.

Ainda agora comecei, e já me afastei do tema. Será retomado no próximo post (segundo espero - mas não prometo).

a queda de um anjo (3)

Guttenberg acabou de renunciar ao cargo de Ministro da Defesa.
Já vai tarde, quase com duas semanas de atraso. O que se passou nestes últimos dias foi um perigoso caminhar sobre o arame: a Merkel feita equilibrista distraída, a dar desculpas vergonhosas e sobretudo inaceitáveis num chanceler, para manter um ministro que ainda é mais popular que ela; o ministro a fazer de conta que se pode passar por cima de erros destes (e o pessoal nas caixas de comentários a rir com tristeza: "então está bem, se me apanharem a assaltar um banco, devolvo o dinheiro, peço desculpa, e não há problema); os professores universitários furiosos com o modo como a política tentou perverter regras do jogo que se consideram básicas, e como estava a criar um precedente que desmoralizaria as práticas académicas; a oposição fora de si, não poupando adjectivos ao ministro (mentiroso, desonesto, arrivista), sentindo-se impotente perante decisões políticas que corroem os valores mais fundamentais da sociedade.

Estranhamente, a popularidade do ministro não sofreu muito durante estes dias. Pelo contrário: uma boa parte do povo junta o fascínio por aquele homem (no qual já se sonhava um chanceler bem amado) ao repúdio pelos aparentes jogos palacianos que "armam ratoeiras aos nossos melhores ídolos".

Pergunto-me se se exige de um D. Sebastião que seja honesto, ou se lhe basta estar presente e ser amado. E essa é, no fundo, a questão mais importante que este caso levanta sobre o funcionamento das Democracias.

Aqui podem ver a comunicação à imprensa (em alemão)