Há tempos o meu ginásio deu uma formação de "adidas sports" a quase todos os professores. Não percebendo bem o que seria esse "adidas", até imaginei que fosse uma deusa como a Nike - sei lá, a Nike estaria para os jogos olímpicos dos gregos como a Adidas para os dos romanos, sei lá.
A minha imaginação prodigiosa nunca me deixará ficar mal: consegue sempre acertar em cheio completamente ao lado, como aqui mais uma vez se comprova.
Na realidade, é a empresa adidas que teve a genial ideia de criar uma nova linha de exercício físico: adidas Yoga, adidas Dance, adidas Zone Cycling, adidas Treino Personalizado e adidas Ballett (este último foi desenvolvido justamente com professores do meu ginásio e bailarinos do famoso Berliner Staatsballett, e com o jeito que tenho para estar no sítio certo no momento certo calhou de assistir a essa sessão enquanto fazia horas para a minha aula de aeróbica. E pensava eu "eh, pá, esta gente dança que é um fascínio!" sem saber que estava a assistir a um ensaio com alguns dos melhores bailarinos da Alemanha.)
Ontem fui à minha primeira sessão (e última, acho) de adidas yoga.
Primeiro sentámo-nos de pernas cruzadas (eu tentando manter as costas direitas, debalde e fazendo de conta que
no pasa nada) enquanto cantávamos
om namah shivaya gurave
sacchidananda murtaye
nisprapanchaya shantaya
niralambaya tejase
que quer dizer: inclino-me perante o Bom em mim, o verdadeiro mestre
a essência interior é verdade, consciência e felicidade
sempre presente e plena de Paz
livre por natureza e radiante de brilho sobrenatural, inexplicável
Cantámos a duas vozes: os outros faziam a primeira, e eu a segunda - a culpa é dos tantos viras que dancei quando era minhota, que me puseram com uma certa tendência para sincopar as melodias que entoo.
Não sei qual era a ideia da professora, mas garanto que não funcionou. Ou talvez sim, no meu subconsciente arcaico, lá onde ressoa a memória da humanidade (cá está a minha imaginação prodigiosa a funcionar em cheio, repararam? estou aqui, estou capaz de acreditar que no fundo, no fundo, a minha alma entende sânscrito cantado em compasso de vira).
Depois começámos a fazer os exercícios típicos de yoga, mas com uma inovação da adidas: além de dizer os nomes tradicionais das posições (cobra, cão, etc.) também havia expressões em inglês para descrever a atitude mental do corpo (será que me entendem?) - as ancas alinhadas pelos ombros, os ombros baixos, as omoplatas unidas, os membros em permanente pressão para se unirem, etc.
De modo que estávamos ali desesperados, a tentar baloiçar um pino ao ritmo da respiração (imaginei logo que à Herta Müller teria ocorrido a expressão "Atemschaukel" quando estava a fazer este yoga), e, como se não bastasse, a professora dizia uma coisa em inglês que eu não percebia por isso não vou escrever e que queria dizer: ancas alinhadas pelos ombros, ombros baixos (que no caso devia ser altos, acho eu), pressão para unir os braços e as mãos, etc.
Pior ainda era o momento em que ela se lembrava que o objectivo do adidas yoga é produzir efeitos ao nível espiritual e emocional, para criar uma atitude plena de energia e optimista perante a vida.
E então mandava-nos fazer a ponte, ou congelar em flexão, ou outra tortura qualquer, dizia a fórmula mágica em inglês (ancas alinhadas pelos ombros, ombros baixos, omoplatas unidas, pressão para unir as pernas e os braços) e acrescentava: solta o teu coração, deixa-o flutuar em paz.
A culpa é dos portugueses, não tenham dúvidas! Dos cristãos portugueses, que saíram nas suas caravelas para levar a mensagem de Cristo aos confins dos novos mundos. Os da Opus Dei iam nas filas da frente e conseguiram passar para as culturas orientais esta peregrina ideia de que o Homem só se liberta e atinge a felicidade num corpo mortificado.
Escusado será dizer que hoje tenho dores em músculos que até ontem nem sequer existiam no meu corpo. Mas escrevi este post com muito prazer, sinal indubitável de que o adidas yoga produz efeitos ao nível espiritual e emocional, e me dá muita energia para escrever disparates - que é a única maneira de levar a vida com optimismo quando se tem o corpo a doer por todos os músculos.