10 fevereiro 2011

ainda o humor dos músicos









(uma gracinha da Berliner Philharmoniker)

Esta manhã, enquanto esperava pela minha vez para comprar bilhetes para a Berlinale, comecei a conversar com um senhor já de certa idade. Palavra puxa palavra, desatou a falar do humor de Haydn, e das suas brincadeiras musicais. "Um compositor cheio de ironia", dizia ele, acrescentando que nos concertos de Haydn era normalíssimo as pessoas conversarem e fazerem barulho, e que o compositor se vingava com maluquices. Como a Sinfonia da Despedida, na qual os músicos vão abandonando a sala até só restarem dois violinistas. Beethoven é que não estava para essas graças, e não permitia ruído durante os seus concertos. Pobres públicos que não se deram conta de que aqueles já não eram os tempos de Haydn - Beethoven chegou a abandonar um concerto insultando os ouvintes: "Nunca mais toco para porcos como vocês!"
Li um pouco sobre a sua surdez, e enchi-me de pena dele, desse músico que ainda antes dos trinta anos começou a ter problemas graves de audição: os zumbidos permanentes e o stress de sentir que estava a perder o orgão mais importante para o seu trabalho e o seu dom. Como se Deus lhe tivesse dado com uma mão e tirado com a outra. Não admira que apareça em todos os quadros com os cabelos em pé.

ai! afinal o Génesis tem razão!

Estava eu toda descansadinha a estudar o Helder Guégués, e deparo-me com esta notícia: as cobras já tiveram pernas. O Helder Guégués estava a falar de outra coisa, reconheço, mas eu às vezes dá-me para reparar no dedo que aponta a estrela.

Afinal aquela passagem do Génesis, quando Deus diz à serpente que doravante há-de rastejar sobre o ventre (e uma pessoa se pergunta: e antes disso, andava como?) é todo um tratado de ciência. E mais:  nesta simples frase casam-se criacionismo e evolucionismo!

Mais uma terrível questão existencial que se resolveu, e ainda nem são nove da manhã. 
O dia promete.

09 fevereiro 2011

ora vamos cá a apostas: quem tem mais sentido de humor - Mozart ou Beethoven? (2)

Se bem entendi, para o pianista Alfred Brendel é Beethoven.
Ontem, passámos um belo serão na Filarmonia ouvindo este homem de oitenta anos falar sobre humor na música, e vendo-o interpretar alguns exemplos. Curiosamente, tocou imenso Beethoven, e também algum Haydn. Mas Mozart, que seria o exemplo mais evidente para todos, nem pensar. Segundo Brendel, as suas peças são de um perfeito equilíbrio formal - Mozart consegue surpreender ao oferecer-nos aquilo que se esperava -, enquanto algumas peças de Beethoven e de Haydn só podem ser compreendidas se lidas num registo de humor: passagens inesperadas, acordes dissonantes que surgem como se o pianista se tivesse enganado, gargalhadas repetidas nas notas mais graves, diálogos em pianissimo e fortissimo, repetições malucas, variações cujo tema parece ele próprio já uma variação.
Onde Mozart era um perfeccionista da surpresa dentro da norma, Beethoven era um brincalhão que nos dava o descabido. Quem diria!


Se eu fosse amiga dos meus leitores, escrevia agora à Filarmonia e pedia a lista das peças que ele tocou, só para vocês verem. Mas algo me diz que humor também é uma questão de interpretação: outro pianista não arrancaria ao público estas gargalhadas que nós ontem largámos enquanto Alfred Brendel tocava Haydn e Beethoven, com as mãos alegremente saltitantes sobre o teclado e um sorriso enorme. Pese embora o seu comentário, ao chegar ao fim de uma peça que nos fez rir a bom rir: "se um pianista não for capaz de pôr o público a rir com esta peça, mais lhe vale tornar-se organista".

Uma bela sessão, foi o que foi. Que me abriu um pouco mais o horizonte: nunca me tinha ocorrido que algumas passagens de um concerto para piano e orquestra pudessem ser para rir! Vou passar a estar mais atenta a esta faceta da música. Mas prometo que não me rio nos concertos, como é óbvio: é que não há muitos iniciados nestas artes, e os outros, os que não percebem nada disto, podiam sentir-se incomodados e olhar para mim com cara de "minha senhora, isto é uma coisa muito séria!"

Mas se me desse para desatar a rir, tinha um bom advogado de defesa: Alfred Brendel, que entre as tosses e os risos nos concertos, prefere...
...ora cá vamos a mais apostas: o que prefere Alfred Brendel, quem dá um palpite?

ora vamos cá a apostas: quem tem mais sentido de humor - Mozart ou Beethoven?

Vão fazendo apostas na caixa de comentários, mais logo venho cá dizer quem ganhou.

women are heroes

Um filme muito bem feito e uma enorme lição: não sendo possível tirar o sofrimento de dentro de pessoas tão traumatizadas como as mulheres vítimas da guerra mais cruel, pequenos passos são precisos para lhes restituir humanidade. Este projecto é um deles, e é uma ideia incrível. 

08 fevereiro 2011

Júlio Verne no Google, hoje



Aviso urgente: vão espreitar o google.
Hoje tem uma homenagem a Júlio Verne: entramos nos site, e estamos dentro de um submarino a ver os peixinhos lá fora. Reparem na manete, do lado direito da escotilha: permite alterar a posição do submarino. Não recomendável para quem enjoa no mar.
Com licencinha, vou-me estender um pouco a ver se isto me passa.

PS. Viram o homem do escafandro? Quando me passar o enjoo, vou lá explorar mais.

o que estava a faltar: um hino para os irmãos mais velhos da "geração parva"

07 fevereiro 2011

Bernd Eichinger e eu

Acabou de decorrer numa igreja de Munique uma cerimónia de despedida de Bernd Eichinger. A igreja cheia de famosos do cinema e da televisão, a tv a transmitir em directo - e quem é o padre que celebra? O que celebrou o nosso casamento e nos baptizou os filhos! Eu bem digo que estou aqui estou em Hollywood.
Linda cerimónia, como só a igreja católica sabe fazer. Nem sei porque é que Hollywood não se lembrou de instalar uma filial no Vaticano. Filial, digo eu? Sede!
Largada a gracinha, olhem que bonito (vou mudar de linha, que isto agora é a sério):

Na despedida de um homem do cinema, um padre lê o Evangelho escrito por João como uma construção literária, como uma peça de teatro que procura encontrar a essência de Deus. Eu, que o conheço há um quarto de século e inúmeras sessões de estudos bíblicos, imagino bem como lhe agradaria ter discutido com Eichinger os recursos dramáticos da Paixão segundo S. João. Ele continua: fala do Jesus de João, um amigo, faz a ponte para as pessoas com quem preparou esta celebração, da amizade que transparecia das suas palavras. Lembra de Bernd Eichinger o homem que sempre tentou ver Deus nas pessoas. 
No final, deu a palavra a Karl Rahner (quantas vezes já lhe ouvi citações de Rahner) para afirmar a intangibilidade divina que habita o Homem, e convidou os presentes a homenagear Eichinger de pé e em silêncio. 
Mais uma vez se revela o dom deste padre para fazer as pessoas entenderem o sobrenatural através do seu próprio corpo. Imagino que Eichinger teria ficado satisfeito com esta despedida.
E eis como a minha história se cruzou hoje com a de Bernd Eichinger - não no lado Sunset Boulevard de Hollywood, mas no seu extremo oposto: o melhor lugar.

***

Uma informação para quem tem filhos, é cristão e mora na região de Munique: as celebrações que este padre faz para crianças são absolutamente imperdíveis. Alguns dos que lá estiveram hoje bem podiam lembrar-se de fazer um documentário sobre este fenómeno.

06 fevereiro 2011

stress...

Saiu o programa da Berlinale.
Tirei o fim-de-semana para estudar aquelas cerca de cem páginas, e ainda só vou a meio. Escolher entre os filmes concorrentes é fácil - são apenas vinte e quatro...
(E já sei um que quero ver sem falta: El Premio, sobre uma miúda argentina filha de dissidentes políticos, que tem de fazer uma redacção sobre o exército. E também Pina, um filme que Wim Wenders queria fazer com Pina Bausch, e acabou a realizar em 3D depois da morte desta, com o Ensemble de Wuppertal.)
Mas depois vêm os especiais: por exemplo, um documentário sobre o juíz Garzon, e Toast (quero ver Toast), e mais um com o Colin Firth (que vem à ante-estreia, pode ser que apareça ao lado da Isabella Rosselini, pode ser que eu lhes faça uma espera em frente ao tapete vermelho).
E depois tem as curtas-metragens, e a secção Panorama (só aí, quero ver uma série deles: Tomboy, Life in a Day, También la Lluvia, Amador, Qualunquemente, e ainda não cheguei nem a meio da lista). E há o Fórum, sobretudo ligado aos temas Família, Relações e Identidade, do qual consta um filme de Hugo Vieira da Silva, Swans.
E na secção Generation há um que me interessa muito, Bad o Meh (vento e nevoeiro) sobre um rapazito que perde a voz devido a um trauma da guerra - entre tantos outros.
E há a retrospectiva de Ingmar Bergmann,  e o Culinary Cinema (filmes ligados à culinária, juntamente com um jantar inspirado no filme e preparado por alguns dos melhores cozinheiros de Berlim - acho que vamos ver Jiro Dreams of Sushi, mas também apetece El Camino del Vino  e Dwen-Jang).
Até ao dia 20 de Fevereiro vai ser uma alegria de um stress, só vos digo.

05 fevereiro 2011

conselho para os irmãos mais novos da "geração parva":

Se bem percebi, o Vasco Pulido Valente acha desnecessário haver tantos licenciados em Portugal.
Assim sem pensar muito, não vejo melhor desistência de um país que esta de dizer que não vale a pena formar os seus jovens porque a Economia não precisa deles. Mas dou de barato que esta minha reacção epidérmica seja culpa da Angela Merkel: de tanto a ouvir insistir que a prioridade das prioridades para o futuro da Alemanha é dar a melhor formação possível a todos os seus jovens, acabo por acreditar. Aliás, nem se fala em "dar formação a" mas em "esperar de cada indivíduo que ponha o máximo do seu potencial ao serviço do país". Chego a suspeitar que um dia destes ainda vão decretar que abandonar a escola é um crime de lesa-pátria, passível de prisão. É que, dizem eles, se não for assim, não há hipótese de competir com a China, a Índia e todos esses países emergentes.
Em defesa do Vasco Pulido Valente concedo, contudo, que pode bem dar-se o caso de a Alemanha e Portugal serem realidades completamente diferentes, e que quem nasceu para chinelo...

Enquanto o governo não abre os olhos para estas revelações do Vasco Pulido Valente, e enquanto não fecham as universidades, aqui deixo um conselho aos jovens portugueses:

Esqueçam o espanhol, aprendam muito bem inglês e alemão. Façam o vosso curso universitário ou técnico, de preferência complementem-no com estágios de Verão (mesmo que não remunerados). Não se esqueçam de aprender óptimo inglês e alemão. No fim do curso pode ser eventualmente necessário que façam algum estágio não remunerado - sugiro que o escolham e façam com o objectivo primordial de aprender o mais possível. Depois disso, andor: a Alemanha chegou à conclusão que lhe faltam muitos milhares de jovens qualificados no mercado de trabalho. Calcula-se que sejam uns seis milhões até 2030. Em especial são necessárias pessoas com formação académica - até 2020 serão umas 800.000 pessoas com curso universitário e mais de um milhão com curso técnico: ciências económicas e sociais, ciências naturais, engenharia civil e mecânica, matemática, direito. E também: enfermeiros, assistentes de geriatria, pessoal de hotelaria e restauração, técnicos de processamento de dados, contabilidade ou comunicação internacional. Etc. Etc. Etc.

Claro que bonito bonito era Portugal precisar destas pessoas e ter condições para lhes dar empregos dignos. E - ao contrário do que diz o Vasco Pulido Valente - talvez precise, mas enquanto for possível ter o pessoal a produzir em estágios sucessivos e a recibos verdes durante anos e anos, parva será a empresa que se der ao trabalho de investir num vínculo condigno.

04 fevereiro 2011

bocagrande de escuteira

Eu e a minha bocagrande.
Tudo começou com o debate sobre o aborto, há alguns anos, no qual a minha bocagrande andou por aí a dizer que a única maneira de ser contra o aborto é ajudar as mulheres grávidas, para que a criança possa ser acolhida com serenidade e confiança.
Mais tarde, num encontro com a irmã Monika, que dá apoio a mulheres que querem ter partos anónimos, a minha bocagrande ofereceu-me para ajudar no que fosse preciso.
De modo que há algumas semanas a irmã Monika telefonou-me a perguntar se eu podia ajudar uma mulher que estava numa situação terrível, e eu engoli em seco e disse que sim.
Era uma estudante africana, com um filho de pouco mais de um ano, novamente grávida. O pai das crianças pôs-se ao fresco quando percebeu que ela não ia abortar. O parto estava previsto para 20 de Janeiro, e Fevereiro é mês de exames que ela não pode chumbar, por causa do seu visto de estudante. E ali estava ela, na sala da Caritas: uma mulher jovem, gravidíssima, desalentada. Sem companheiro, e com os pais lá longe, no seu país, em zanga profunda. E eu a olhar para ela e a imaginar como será possível sair da sala de partos para a de exames.
Disse-lhe que sim a tudo. Mal a criança nascesse eu arranjaria a minha vida de modo a cuidar dos dois bebés enquanto ela estivesse a estudar ou nos exames.
Ela perguntava-me estupefacta porque é que eu faço isto. Mas eu não sabia explicar-lhe em poucas palavras este meu fenómeno bocagrande. Nem em poucas palavras, nem em muitas e, para ser sincera, nem a mim própria. De modo que respondi que já recebi tanto da vida que bem posso passar aos outros um pouco da minha boa sorte.
Trocámos moradas e números de telefone, e ela ficou de me telefonar se precisasse de alguma coisa.

Se conto isto aos amigos, a primeira pergunta que me fazem é "mas ela não sabe usar preservativos?" Curiosamente, essa questão não me ocorreu. Entrei nesta história porque me ofereci para ajudar, não para julgar.

Já tentei várias vezes convidá-la para jantar connosco, mas nunca lhe dá jeito. Entretanto a menina já nasceu (tem uns pulmões portentosos, vai dar cantora lírica), e aparentemente não precisam de mim. Sei que o pai reapareceu, imagino que se terá reapaixonado pela família. Às vezes temo que ela esteja completamente esgotada, sem força sequer para pedir ajuda, e telefono.

E agora, faço o quê? De cada vez que lhe telefono a perguntar se está tudo bem, e quando quer que eu vá tomar conta dos miúdos, sinto-me como aquele escuteiro que obrigava a velhinha a atravessar a rua.

03 fevereiro 2011

"a situação está perigosa"

Ontem, no noticiário das dez da noite da ZDF, um jornalista falava em directo a partir da varanda de um hotel no Cairo. Tinham-se mudado para esse hotel porque o escritório estava a ficar muito perigoso para os jornalistas. E de repente - em directo - ele manda apagar as luzes e refugia-se dentro de casa. Explica que estavam a apontar para ele com um projector laser. A jornalista interrompeu imediatamente a entrevista, e - sempre em directo, claro - disse-lhe para ter cuidado consigo e com todos os colegas.
Podem ver o vídeo aqui - a cena de que falo ocorre nos últimos segundos.

É um pequeno detalhe, mas tornou muito mais palpável e próximo o perigo que a população egípcia corre neste momento.

02 fevereiro 2011

cloaca a céu aberto (3)

Continua a saga da cloaca: recebi a resposta de uma escola americana, onde me informam como é que tratam o problema. É uma escola privada, tipo Jenaplan mas caríssima, em San Francisco.

There is really not much I can say other than this kind of issue is a HOT HOT topic in the states. Schools across the country are exploring anti-cyberbullying efforts, hiring experts and counseling students. At our school, we've built new language into the Student Handbook, we prohibit anonymous posting, and -- if caught -- the school punishes students - treating this as harassment. I can not speak about "law" -- but we treat this as harassment.


Comparo isto com a reacção dos alunos que trataram de boicotar a cloaca enchendo-a com spam sem nexo.
Sendo certo que é necessário que a escola faça a demarcação clara dos limites e julgue abertamente os comportamentos, olho com gosto para a reacção dos alunos: sem dramas, e até com humor.

Este episódio reforça a minha confiança nos mais novos, e no seu futuro: é gente que tem valores, que sabe ser solidária, gente que sabe lutar por aquilo em que acredita e defender-se com muita categoria.

01 fevereiro 2011

Kai Hafez a propósito dos acontecimentos no Egipto

Entrevista na televisão alemã (aqui, em alemão): Kai Hafez, professor de Ciências da Comunicação, acabado de chegar do Egipto, após vários meses de trabalho numa universidade do Cairo.
Alguns excertos:
(...) Vive-se uma enorme euforia. Obviamente há algum temor, por parte de alguns cidadãos, no que diz respeito à segurança, mas de um modo geral este movimento é apoiado por praticamente toda a sociedade. (...)
Aquilo a que estamos a assistir no mundo árabe é fantástico. Poucas pessoas teriam considerado possível que se assistisse a uma - pode dizer-se - onda de democratização tão rápida. Estes acontecimentos vão provavelmente alterar o nosso modo de ver o mundo árabe. Durante demasiado tempo pensámos que aquelas populações não são capazes de viver em Democracia - os recentes acontecimentos apontam para o contrário. (...)
O exército tem uma boa relação com a população, ao contrário da polícia. Não se imagina uma situação como na China, com soldados a atirar sobre o povo. As declarações feitas ontem confirmam esta ideia, e admite-se até que os militares possam virar-se contra o regime para evitar mais violência. (...) Há algumas dúvidas quanto à guarda do Presidente, mas partimos do princípio que o exército não participará numa escalada de violência. (...)
Quanto à Irmandade Muçulmana: existem condições para que não se repita o que aconteceu no Irão. São uma entre as muitas forças que neste momento saem à rua, não estão de modo algum sozinhos, não têm grande poder, e - ao contrário do Irão em 1979 - não são liderados por uma figura carismática apoiada por toda a população. Já não estamos perante um movimento totalitarista, e pelo menos em parte existe nele a possibilidade de um desenvolvimento em direcção à Democracia. Penso que a Irmandade Muçulmana aceita eleições e parlamentarismo. Na área do secularismo já tem os seus problemas: aceitar a existência de outras religiões, da igualdade entre homem e mulher, também na área política... Mas penso que tudo isso vai ser nivelado neste movimento, dado que a Irmandade Muçulmana é uma entre muitas forças e vai ser por conseguinte obrigada a aceitar compromissos. Ou seja: do meu ponto de vista, estamos perante uma constelação ideal, da qual não é necessário ter medo.(...)
A Paz nesta região não está ameaçada. Já começava a ser tempo de apoiar movimentos democráticos de cidadãos nestas regiões, as sociedades civis estão muito mais avançadas do que até agora pensávamos, as pessoas querem Democracia, nas manifestações não se ouve qualquer slogan islâmico ou exigência de um Estado islâmico. Ainda não sabemos como vai terminar, mas se esta revolução conduzir à queda do regime, com certeza que se vão impor outras orientações políticas que acabarão por conduzir a um sistema de equilíbrio democrático.
Não prevejo instabilidade na região. Contudo, as coisas vão-se tornar desconfortáveis para as políticas externas ocidentais, pois muitas pessoas no mundo árabe continuam a sentir-se próximas dos palestinianos, muitas delas criticam a política americana no Iraque e no Afeganistão - tudo isso vai ter de ser renegociado. Mas penso que é justo negociar com parceiros democráticos no mundo árabe. Temos de fazer esse esforço! Não podemos continuar a apontar para o risco potencial dos islamistas como desculpa para impedir a democratização desses países. Penso que isso já não é possível.

(tradução do Speedy Gonzalez, como sempre, que ultimamente anda a fazer cara de "ou me dão um aumento, ou faço uma revolução")

adidas yoga

Há tempos o meu ginásio deu uma formação de "adidas sports" a quase todos os professores. Não percebendo bem o que seria esse "adidas", até imaginei que fosse uma deusa como a Nike - sei lá, a Nike estaria para os jogos olímpicos dos gregos como a Adidas para os dos romanos, sei lá.
A minha imaginação prodigiosa nunca me deixará ficar mal: consegue sempre acertar em cheio completamente ao lado, como aqui mais uma vez se comprova.
Na realidade, é a empresa adidas que teve a genial ideia de criar uma nova linha de exercício físico: adidas Yoga, adidas Dance, adidas Zone Cycling, adidas Treino Personalizado e adidas Ballett (este último foi desenvolvido justamente com professores do meu ginásio e bailarinos do famoso Berliner Staatsballett, e com o jeito que tenho para estar no sítio certo no momento certo calhou de assistir a essa sessão enquanto fazia horas para a minha aula de aeróbica. E pensava eu "eh, pá, esta gente dança que é um fascínio!" sem saber que estava a assistir a um ensaio com alguns dos melhores bailarinos da Alemanha.)

 (foto daqui)


Ontem fui à minha primeira sessão (e última, acho) de adidas yoga.

Primeiro sentámo-nos de pernas cruzadas (eu tentando manter as costas direitas, debalde e fazendo de conta que no pasa nada) enquanto cantávamos

om namah shivaya gurave
sacchidananda murtaye
nisprapanchaya shantaya
niralambaya tejase

que quer dizer:              inclino-me perante o Bom em mim, o verdadeiro mestre
a essência interior é verdade, consciência e felicidade
sempre presente e plena de Paz
livre por natureza e radiante de brilho sobrenatural, inexplicável

Cantámos a duas vozes: os outros faziam a primeira, e eu a segunda - a culpa é dos tantos viras que dancei quando era minhota, que me puseram com uma certa tendência para sincopar as melodias que entoo.

Não sei qual era a ideia da professora, mas garanto que não funcionou. Ou talvez sim, no meu subconsciente arcaico, lá onde ressoa a memória da humanidade (cá está a minha imaginação prodigiosa a funcionar em cheio, repararam? estou aqui, estou capaz de acreditar que no fundo, no fundo, a minha alma entende sânscrito cantado em compasso de vira).

Depois começámos a fazer os exercícios típicos de yoga, mas com uma inovação da adidas: além de dizer os nomes tradicionais das posições (cobra, cão, etc.) também havia expressões em inglês para descrever a atitude mental do corpo (será que me entendem?) - as ancas alinhadas pelos ombros, os ombros baixos, as omoplatas unidas, os membros em permanente pressão para se unirem, etc.

De modo que estávamos ali desesperados, a tentar baloiçar um pino ao ritmo da respiração (imaginei logo que à Herta Müller teria ocorrido a expressão "Atemschaukel" quando estava a fazer este yoga), e, como se não bastasse, a professora dizia uma coisa em inglês que eu não percebia por isso não vou escrever e que queria dizer: ancas alinhadas pelos ombros, ombros baixos (que no caso devia ser altos, acho eu), pressão para unir os braços e as mãos, etc.

Pior ainda era o momento em que ela se lembrava que o objectivo do adidas yoga é produzir efeitos ao nível espiritual e emocional, para criar uma atitude plena de energia e optimista perante a vida.
E então mandava-nos fazer a ponte, ou congelar em flexão, ou outra tortura qualquer, dizia a fórmula mágica em inglês (ancas alinhadas pelos ombros, ombros baixos, omoplatas unidas, pressão para unir as pernas e os braços) e acrescentava: solta o teu coração, deixa-o flutuar em paz.

A culpa é dos portugueses, não tenham dúvidas! Dos cristãos portugueses, que saíram nas suas caravelas para levar a mensagem de Cristo aos confins dos novos mundos. Os da Opus Dei iam nas filas da frente e conseguiram passar para as culturas orientais esta peregrina ideia de que o Homem só se liberta e atinge a felicidade num corpo mortificado.

Escusado será dizer que hoje tenho dores em músculos que até ontem nem sequer existiam no meu corpo. Mas escrevi este post com muito prazer, sinal indubitável de que o adidas yoga produz efeitos ao nível espiritual e emocional, e me dá muita energia para escrever disparates - que é a única maneira de levar a vida com optimismo quando se tem o corpo a doer por todos os músculos.

validação

Este filme é muito chicken soup for the soul, mas tem algumas situações que nos fazem pensar (e rir) - sobretudo nos primeiros cinco minutos.

Fiquei com vontade de o enviar para as escolas - para uma aula de ética, de religião, de filosofia, qualquer uma. Para pôr os adolescentes a debater sobre a importância do olhar dos outros, a questionar a sua necessidade e o seu poder, a reformular a questão existencial feita (cinicamente) por Caim: serei acaso o guarda do meu irmão? Serei acaso o anjo do meu irmão? Serei acaso o Criador do meu irmão?



PS para os amigos: recebi-o da minha filha, com o recadinho
para que nao me chateias que nao te mostrei antes : )
(escreve "quase em português", e surpreendo-me sempre com a sua capacidade de autodidacta)
e isto porque a sem-se-ver protestou que ela não nos passa as coisas boas que vê.
Como vês, sem-se-ver, os teus desejos são para nós uma ordem!

31 janeiro 2011

kelmti horra

Que seria da actualidade mundial sem o facebook?
Foi lá que encontrei um vídeo, falsamente atribuído ao Egipto, onde uma cantora tunisina canta a capella numa demonstração em homenagem às vítimas.

Nous sommes des hommes libres qui n'ont pas peur
Nous sommes des secrets qui ne meurent pas
Nous sommes la voix de ceux qui ont résisté
Dans le chaos nous sommes le sens
Nous sommes le droit des opprimés....

O vídeo da Tunísia:



e a mesma canção, cantada também por Amel Mathlouthi, na Praça da Bastilha:



(cá para nós: bem mais bonita que aquela estopada da Gaivota que nós cantávamos emocionados lá por meados dos anos 70...)

novo inquérito sociológico: fitness studio

Os meus comentadores não se entendem, e eu fico sem saber o que fazer: devo continuar a frequentar o fitness studio, ou simplesmente caminhar bastante, andar de bicicleta e limpar a casa com movimentos enérgicos?

Outra questão: um médico receitou-me há tempos "fazer exercício de modo a suar, pelo menos uma vez por semana", para activar as defesas do organismo. Acham que isso de "suar" também inclui ... ahem, esqueçam, deixem lá, prefiro não perguntar.

a Canção da Terra

O fim-de-semana terminou em belo, na Filarmonia: Simon Rattle e Magdalena Kožená, Mahler: das Lied von der Erde.

Deixem-me despachar rapidamente a parte "gaja": ela vinha com uma espécie de gabardine de tafetá sobre a saia comprida de brilhantes, e sapatos de saltos impossíveis. Como será que consegue cantar com tanta segurança, apesar de alcandorada sobre tão finas andas? Talvez estivesse a fazer playback - que isto nos dias de hoje, tudo é possível só para corresponder aos apelos da Vogue.
Pronto, já está, já posso ficar normal outra vez.

Um encantamento: mesmo depois de Simon Rattle baixar as mãos, as pessoas não queriam aplaudir. Como se ninguém quisesse ser o primeiro a quebrar o prodígio. E mesmo os longos e entusiásticos aplausos não conseguiram quebrar o mantra final, para sempre... para sempre... para sempre. Nem o habitual russo da balalaica, no parque de estacionamento, conseguiu sobrepor-se à melodia final, para sempre... para sempre... para sempre... e à serena nostalgia que ecoava ainda em nós.

O que se segue é a canção final do concerto, na voz de Janet Baker. Gostei mais da interpretação de Magdalena Kožená: tem um timbre de madeira e chocolate (podem verificar aqui), muito mais terra. Apesar daqueles sapatos de impossível periclitância.



29 janeiro 2011

Wynton Marsalis com as escolas e a Filarmónica de Berlim

Penso que já falei aqui deste projecto da Filarmónica, mas hoje estive a ver o concerto inteiro e achei-o tão bonito que venho cá passar o link.
Explicando um pouco: a Filarmónica tem uma área de actividades a que chama "Futuro @ Filarmónica" (Zukunft@BPhil), dirigido a crianças e jovens. Um dos seus projectos, em que alunos de diversas escolas secundárias preparam uma coreografia para ser apresentada ao som da orquestra, deu origem a um filme engraçado, Rhythm is it!



Todos os anos se faz esse concerto com dança, na Arena Treptow, com bilhetes a 8 euros. O do ano passado pode ser visto aqui. Foi em pleno mundial do futebol, pelo que a dança conta também histórias sobre esse momento - a começar pela "vuvuzela" do início. No mesmo site há também uma conversa com Wynton Marsalis e Simon Rattle que recomendo: belo par!

coisas da minha vida

Ultimamente tenho tido dores de joelhos ao fazer zumba.
Ainda agora comecei, e já estou a correr o risco de ser mal entendida. Antes que os mais brejeiros comecem a mandar bocas: zumba é uma espécie de aeróbica com música da América Latina, que também pode incluir dança do ventre e flamenco - no fundo, tudo o que nos fizer suar e rir.

O extraordinário fenício que nos põe a dançar está cada vez melhor, e nós, o mulherio, também não fazemos má figura. Quando chega a vez da dança do ventre já nem nos preocupamos em imitar os seus movimentos. Aplaudimos, gritamos wow! e huuu!, e ele finge cara de zangado e diz "pouco barulho" e continua a agitar as ancas no seu fato de basquetebolista. É tudo muito engraçado.

Mas ultimamente tenho tido dores num joelho, e resolvi atacar em cheio pela hidroginástica, para fortalecer os músculos. E fui, na terça-feira passada. Na quarta tinha uma dor lancinante (ahem, digamos, forte) na anca. Nem conseguia andar em casa, quanto mais ir dançar zumba. Na quinta-feira percebi que não era lumbago nem ciática, porque a dor deslocou-se para a caixa torácica. A familória riu-se, fizeram apostas sobre uma enxaqueca para sexta. São uns insensíveis, porque eu estou como se tivesse uma costela partida: rir ou tossir provoca-me dores, como já disse, lancinantes.

"Faz desporto, vais ver que te sentes melhor dentro do teu corpo", foi o que me disseram, e eu inscrevi-me neste ginásio. Ainda agora estou a tentar descobrir o que é que percebi mal.

28 janeiro 2011

cloaca a céu aberto (2)

Para os que ficaram indignados com o que contei neste post, aqui vão notícias frescas:
- Encontrei na internet um trabalho de uma aluna do secundário que andou a investigar o caso, fez o seu julgamento, e combinou com os outros alunos da sua escola uma maneira de tirar força à página: encheram-na de frases curtas copiadas da wikipedia, de modo que quem lá ia à procura de maldades só encontrava coisas sem nexo. Nem sei como exprimir a minha admiração por eles.
- Ontem o site deixou de existir.
- Quando se escreve esse endereço, é-se redireccionado para um blogue com o mesmo nome, onde o autor, até agora ele próprio anónimo e dizendo-se residente na Nova Zelândia, aparece identificado: Aaron Goldberg, 24 anos, Berlim. Os leitores são avisados que têm de ter cuidado com o que escrevem, porque se acabou o anonimato.

O site tinha apenas duas ou três semanas.

Será que já disse isto hoje? Dá gosto viver num país assim.

cyber mobbing

Depois de passar horas a ler textos sobre cyber mobbing e cyber bullying, chego à conclusão que muitos problemas se evitavam se os anónimos da internet soubessem que haverá sempre uma maneira de os identificar e de serem confrontados abertamente pela sociedade.
Se me deixassem mandar (agarrem-me, que...) criava uma regra mundial para a internet, de modo a tornar identificáveis todos os seus utilizadores.

Mas depois lembro-me das revoluções dos nossos dias, que têm nascido e crescido graças à internet, e penso que nada disso seria possível se as pessoas temessem que o tirano do seu país pudesse saber quem elas são.

Tudo seria tão mais fácil se em cada país houvesse um saudável Estado de Direito...

***

No meio da minha pesquisa encontrei uma passagem muito interessante da wikipedia alemã sobre sites onde alunos criticam os professores (que o Speedy Gonzalez passa a traduzir - aquele moço parece que não tem mais nada que fazer) (aquele moço devia ter frequentado um curso de Direito, em momentos como este fazia jeito para encontrar as palavras certas):

"Contudo, se a intenção do discurso não é a difamação ou o descrédito de uma pessoa, mas a classificação de características suas que se reflectem na vida escolar, aplica-se neste caso o princípio da liberdade de expressão. (...) Além disso, o direito constitucional da liberdade de expressão protege a opinião emitida, independentemente de esta ser racional ou emocional, baseada ou não em argumentos, e considerada por outros útil ou prejudicial, com ou sem valor. Mesmo uma formulação polémica ou ofensiva está ao abrigo da Constituição. Os direitos da personalidade não são abrangentes a ponto de conferir ao seu detentor o poder de só permitir a sua representação no espaço público como ele se vê a si próprio ou como gostaria que os outros o vissem."
O tribunal referiu também o uso de pseudónimo: "É indiscutível que a expressão de ideias ao abrigo de um pseudónimo pode ser vantajosa para a opinião pública. Esse é um recurso válido quando alguém se veja impedido de fazer uma contribuição legítima para a opinião pública por temer represálias injustas caso se conheça a sua verdadeira identidade. Caso se trate de um insulto, o direito da personalidade é mais forte que o da liberdade de expressão. É considerada crítica insultuosa aquela que não se refere aos factos, mas que, passando mesmo os limites da polémica e do exagero, se centra na diminuição da pessoa em causa."

sobre o pátio dos gentios

Um bom post de Manuel Pinto no religionline.

27 janeiro 2011

in memoriam

(foto daqui)


27 de Janeiro: libertação de Auschwitz.

Hoje foi pela primeira vez convidado um representante de uma etnia cigana para falar no Parlamento Alemão a propósito desta data. Aqui podem ver o vídeo que passou no noticiário da TV. A música que ali se ouve é uma peça composta em memória dos sinti e roma assassinados: in memoriam.

A cerimónia foi iniciada pelo presidente do Parlamento, Norbert Lammert, dizendo que "nós, os descendentes, prometemos e continuamos a garantir que não esqueceremos os horrores da História, que manteremos a Memória, e saberemos usar no futuro as lições do passado. (...) As vítimas obrigam-nos a desprezar todas as formas de discriminação e intolerância, e a tomar atitudes claras contra qualquer tipo de ódio e estigmatização". Lembrou ainda que, mesmo na Alemanha, ainda há muitos sinti e roma que se sentem discriminados e estigmatizados. A ignorância sobre a cultura e o quotidiano destes povos dá lugar a preconceitos e clichés generalizados.

Zoni Weisz, holandês, sobrevivente do Holocausto e representante dos sinti e roma, tomou a palavra. Contou como em criança assistiu à deportação da sua família (Naquele momento vi partir o comboio. O meu pai gritou com desespero, de dentro da carruagem para gado: "Muzla, cuida bem do meu filho!" - foram as últimas palavras que lhe ouvi.) e exigiu mais direitos para a sua etnia: "É inaceitável que um povo que ao longo dos séculos foi vítima de discriminação e perseguição, hoje - no século XXI - ainda seja mantido à margem da sociedade e de qualquer possibilidade de ter um futuro melhor". O genocídio dos sinti e roma é um "Holocausto esquecido". Meio milhão de pessoas destes povos foram assassinados pelos nazis. "A sociedade não aprendeu nada, ou quase nada, com isso - caso contrário, tratar-nos-ia hoje com mais responsabilidade", queixa-se Weisz, e continua, dizendo que hoje em dia vivem na Europa cerca de 12 milhões de pessoas destas etnias, constituindo a maior minoria do continente. "A maior parte deles não tem qualquer oportunidade de conseguir um trabalho, acesso ao ensino e à saúde". São quotidianamente vítimas de discriminação, estigmatização e exclusão. O modo como ainda hoje sinti e roma são tratados, especialmente em países como a Roménia e a Bulgária, mas também a Itália e a França, é indigno. Lembrando placas na Hungria, onde se lê "proibido a ciganos", afirma que "a História se repete". A UE tem de falar sobre esses problemas com os países onde eles ocorrem.


(tradução Speedy Gonzalez, deste site)

cloaca a céu aberto

O Matthias contou-me ontem que estão com um problema na escola: no site isharegossip.com alguém escreveu que Fulano (um aluno conhecido, de uma turma do ano dele) é homossexual; outro escreveu que a acusação foi feita por alguém da turma do meu filho, e agora anda toda a gente a querer saber quem terá sido.

isharegossip é uma página organizada por escolas, onde cada um pode escrever - a coberto de um anonimato assegurado - tudo o que lhe apetecer sobre qualquer outra pessoa dessa escola.

Na primeira página lê-se:

"Nunca gravámos os IPs, e nunca o faremos.
Por isso, nunca estaremos em condições de os fornecer seja a quem for, e nem respondemos aos pedidos que nos fazem nesse sentido - quer venham da Polícia, de um advogado ou de um director escolar.
Vocês estão 100% anónimos.
QUEM AFIRMAR O CONTRÁRIO É UM MENTIROSO E SÓ VOS QUER FAZER MEDO.
Porque é que as pessoas afirmam isso? Porque não sabem o que fazer.
Esta página também não pode ser bloqueada ou apagada porque é 100% legal segundo o direito dos EUA.


O resultado são momentos de pura vergonha. Por exemplo (mudei os nomes, que naquela página correspondem a alunos perfeitamente identificados):


„O Siegfried faz broches ao Otto no intervalo grande, depois de ter andado a escarafunchar na mãe dele.“
Comentários:
24.01.2011 21:31:59  : ouvi dizer que o Otto é gay?
24.01.2011 21:32:07  : o Siegfried também!
24.01.2011 21:32:14  : o dele é pequeno
24.01.2011 21:32:22  : quem?
24.01.2011 21:32:27  : os dois!!!
24.01.2011 21:37:40  : os dois são gay
(Seguem-se vários comentários de alunos que querem defender a honra dos dois miúdos, afirmando que não são nada gay, e que até têm namorada. E outros que os acusam de vestir assim e pentear assado, por isso só podem ser gay.)
Ou:
„A Anna S. perdeu a virgindade anal.“
Alguns comentários:
21.01.2011 14:57:05  : siim, de facto é verdade..
21.01.2011 15:04:26  : hahahahah - foi o Wolfgang .:D
21.01.2011 15:48:44  : haha sim, mas isso já todos sabem..
(…)
22.01.2011 20:10:43  : o Otto também..
22.01.2011 21:29:40  : o Otto também perdeu a virgindade anal :O ?
22.01.2011 21:37:59  : Normal..
22.01.2011 22:30:40  : Haaaahahaha fantástico (isso do Otto^^)


Não traduzo mais. Aquela página enoja-me, e assim como assim já têm aqui material para vários estudos de sociologia.

***

Escrevi à representante dos pais, que me veio com um blablabla sobre o que fazer quando se é vítima de mobbing cibernético, e que havemos de falar disso na próxima reunião de pais.

Telefonei ao director da escola, e fiquei a saber que: os directores da área já se reuniram para falar do assunto, e chegaram à conclusão que estão de mãos atadas. De facto, nem sequer podem pedir o IP dos comentadores. Também não têm meios para ajudar as vítimas - quando muito, o psicólogo escolar daquela área. E eu penso nos pobres "Ottos" com muita tristeza: como se estarão a sentir neste momento? Como estarão a conseguir aguentar esta terrível pressão?
Pedi que ao menos enviem um e-mail a todos os pais, para os informar sobre o que se está a passar. Aquilo é um campo de batalha onde, a coberto do anonimato, se escrevem coisas horrorosas sobre pessoas concretas, e pode acontecer que alguns alunos estejam a ter imensa dificuldade em lidar com essas difamações ou revelações, e não tenham coragem para contar em casa.

Depois escrevi à Procuradoria a pedir que tomem medidas, e ao Spiegel a pedir que investiguem e façam uma notícia.

A ver vamos.

***

Os miúdos não querem que os adultos se metam nesta questão. Têm andado num debate intenso nas suas redes, criticando aquele site. Na própria página da escola do meu filho há imensas críticas, e até uma entrada do representante dos alunos a dizer que estão a ir longe de mais. Pobres miúdos: enchem as críticas de smileys e frases contemporizadoras, porque não querem perder a coolness tão importante naquela idade.

A questão fica em aberto: como manter a internet dentro dos limites de uma sociedade civilizada?

26 janeiro 2011

the state of the onion...

Li hoje no Facebook esta notícia do The Onion:

PARIS—At a press conference Tuesday, the World Heritage Committee officially recognized the Gap Between Rich and Poor as the "Eighth Wonder of the World," describing the global wealth divide as the "most colossal and enduring of mankind's creations."

Aqueles criadores são mesmo muito bons.
Ainda me lembro de quando o descobri o The Onion, meia dúzia de dias após o 11 de Setembro. Mostravam a fotografia de uma americana que tinha feito um bolo com o desenho da bandeira nacional para tentar encontrar algum conforto. O texto era - como sempre - de uma perfeição hilariante.

a primeira vez

O Lutz, em grande forma:

(roubado do seu blogue, aqui)

Fez dezoito anos em Setembro. Recensiou-se como eleitor. Com a elevação de quem assume, pela primeira vez, a sua qualidade de cidadão pleno, dirigiu-se ontem ao local do voto, a Escola Primária 101. Num gesto bonito e muito apropriado à dignidade da ocasião, as pessoas na mesa do voto deram-lhe os parabéns.
Na cabine, descobriu que faltava a esferográfica. Depois de solicitar e receber uma nova, voltou e votou em branco.

(história não ficcional)

25 janeiro 2011

o abstencionismo dos emigrantes

(publicado também aqui)


Para as eleições do Presidente da República os emigrantes podem votar, sendo obrigados ao voto presencial.
Se bem se lembram, há alguns anos fecharam uma série de consulados para poupar dinheiro.
Isso significa que há agora ainda mais portugueses obrigados a fazer centenas de quilómetros para poderem votar. Antes de vir morar para Berlim, no meu caso eram quase 600 km.
Da última vez que ouvi debater esta questão, exigia-se o voto presencial por medo das "chapeladas". Ora, esta situação é que é uma grave "chapelada" na Democracia!

Mas conseguimos fazer pior, como relata uma portuguesa residente em Munique:

"(...) não votei, se bem que tenha a atenuante de nem as pessoas do Cons ulado terem sido capazes de me explicar como é que isso funciona. Só faltou dizerem "ó menina, mas quer votar para quê, deixe-se lá dessas modernices".
(...) Aqui temos um consulado que "funciona" um dia por semana, que é visitado pelo cônsul um dia por mês (...) e estas coisas são processadas em Estugarda - é que nem me garantiram que podia votar aqui, parece que os novos recenseados têm que votar em Estugarda, que é bué longe... ponho-me mais depressa em Lisboa que em Estugarda."

E continua, com uma pergunta que nos deveria dar muito que pensar:

"E o mais inacreditável é que não há desculpa. Se os alemães podem votar por carta ou noutro local de voto, se os suecos podem votar por SMS, porque é que nós, que em tantas coisas estamos tão mais avançados (dois exemplos: sistema bancário (MB) e telecomunicações, em particular as móveis), porque é que nisto, tão simples e tão importante, não podemos avançar um bocadinho?"


Outro elemento que falha redondamente é a informação. Se os candidatos se dão ao trabalho de correr o país de Norte a Sul para "vender o seu peixe", porque é que ninguém se lembrou sequer de avisar os emigrantes de que havia eleições, e de informar sobre os candidatos e respectivo programa? Podem responder-me que é dever do eleitor informar-se - e é verdade. Mas parece-me que os emigrantes, pelo simples facto de viverem no estrangeiro, e de terem mais dificuldade em acompanhar no dia-a-dia o que se passa no seu país, mereciam um cuidado especial, em vez desta incrível indiferença. Ou então, assumam com frontalidade que os emigrantes são cidadãos portugueses de segunda classe, sem aptidão para participar nos actos eleitorais.

acho que vou ficar por aqui a manhã toda...



(emprestado do Jansenista)

(vocês desculpem o desabafo, mas às vezes até eu tenho vontade de mandar certos machos à tesourinha...)

Feito o desabafo, voltemos à civilização: ler o texto, assinar.
Passar palavra, para que outros assinem.




Dear friends,

‘Corrective rape’, the vicious practice of raping lesbians to ‘cure’ their sexuality, is becoming a crisis in South Africa. But brave activists are calling on the world to help stop these heinous Hate Crimes -- and finally the government is beginning to respond. Let's support them. Sign the petition and send it to friends!

Sign the petition!


Millicent Gaika was bound, strangled, tortured and raped for five hours by a man who crowed that he was ‘curing’ her of her lesbianism.

She barely survived, but she is not alone -- this vicious crime is recurrent in South Africa, where lesbians live in terror of attack. But no one has ever been convicted of 'corrective rape'.

Amazingly, from a tiny Cape Town safehouse a few brave activists are risking their lives to ensure that Millicent’s case sparks change. Their appeal to the Minister of Justice has exploded to over 140,000 signatures, forcing him to respond on national television. But the Minister has not yet answered their demands for action.

Let's shine a light on this horror from all corners of the world -- if enough of us join in to amplify and escalate this campaign, we can reach President Zuma, who is ultimately responsible to uphold constitutional rights. Let’s call on Zuma and the Minister of Justice to publicly condemn ‘corrective rape’, criminalise hate crimes, and ensure immediate enforcement, public education and protection for survivors. Sign the petition now and share it with everyone -- we’ll deliver it to the South African government with our partners in Cape Town:

https://secure.avaaz.org/en/stop_corrective_rape/?vl

South Africa, often called the Rainbow Nation, is revered globally for its post-apartheid efforts to protect against discrimination. It was the first country to constitutionally protect citizens from discrimination based on sexuality. But in Cape Town alone, the local organization Luleki Sizwe has recorded more than one 'corrective rape' per day, and impunity reigns.

'Corrective rape' is based on the outrageous and utterly false notion that a lesbian woman can be raped to 'make her straight', but this heinous act is not even classified as a hate crime in South Africa. The victims are often black, poor, lesbian women, and profoundly marginalised. But even the 2008 gang rape and murder of Eudy Simelane, the national hero and former star of the South Africa women's national football team, did not turn the tide. And just last week Minister Radebe insisted that motive is irrelevant in crimes like 'corrective rape.'

South Africa is the rape capital of the world. A South African girl born today is more likely to be raped than she is to learn to read. Astoundingly, one quarter of South African girls are raped before turning 16. This has many roots: masculine entitlement (62 per cent of boys over 11 believe that forcing someone to have sex is not an act of violence), poverty, crammed settlements, unemployed and disenfranchised men, community acceptance -- and, for the few cases that are courageously reported to authorities, a dismal police response and lax sentencing.

This is a human catastrophe. But Luleki Sizwe and partners at Change.org have opened a small window of hope in the fight against it. If the whole world weighs in now, we could get justice for Millicent and national action to end 'corrective rape':

https://secure.avaaz.org/en/stop_corrective_rape/?vl

This is ultimately a battle with poverty, patriarchy, and homophobia. Ending the tide of rape will require bold leadership and concerted action to spearhead transformative change in South Africa and across the continent. President Zuma is a a Zulu traditionalist, who has himself stood trial for rape. But he condemned the arrest of a gay couple in Malawi last year, and, after massive national and international civic pressure, South Africa finally approved a UN resolution opposing extra-judicial killing in relation to sexual orientation.

If enough of us join this global call for action, we could push Zuma to speak out, drive much-needed government action, and begin a national conversation that could fundamentally shift public attitudes toward rape and homophobia in South Africa. Sign on now and spread the word:

https://secure.avaaz.org/en/stop_corrective_rape/?vl

A case like Millicent’s makes it easy to lose hope. But when citizens come together with one voice, we can succeed in shifting fundamentally unjust, but deeply ingrained practices and norms. Last year, in Uganda, we succeeded in building such a massive wave of public pressure that the government was forced to shelve legislation that would have sentenced gay Ugandans to death. And it was global pressure in support of bold national activists that pushed South African leaders to address the AIDS crisis that was engulfing their country. Let’s join together now and speak out for a world where each and every human being can live without fear of abuse.

With hope and determination,

Alice, Ricken, Maria Paz, David and the rest of the Avaaz team

SOURCES:

Blog of Luleki Sizwe, South African organization leading the call to their government to stop 'corrective rape', and provides support to victims
http://lulekisizwe.wordpress.com

Minister of Justice Radebe’s nationally televised interview (South African Broadcasting Corporation)
http://www.youtube.com/watch?v=lkx-PYqHM0U

Protest against ‘corrective rape’ (The Sowetan)
http://www.sowetanlive.co.za/news/2011/01/06/protest-against-corrective-rape

Petition launched on Change.org by activists from Luleki Sizwe
http://humanrights.change.org/petitions/view/south_africa_declare_corrective_rape_a_hate-crime

"South Africa's shame: the rise of child rape" (The Independent)
http://www.independent.co.uk/news/world/africa/south-africas-shame-the-rise-of-child-rape-1974578.html

"Exploring homophobic victimisation in Gauteng, South Africa: issues, impacts, and responses" (Centre for Applied Psychology, University of South Africa)
http://www.avaaz.org/out_ucap_gauteng_study

"We have a major problem in South Africa" (The Guardian)
http://www.guardian.co.uk/lifeandstyle/2010/nov/18/south-africa-murder-rape

"South Africa: Rape Facts" (Channel 4)
http://www.channel4.com/programmes/dispatches/articles/south-africa-rape-facts

"Understanding men’s health and use of violence: interface of rape and HIV in South Africa" (Medical Research Council)
http://gender.care2share.wikispaces.net/file/view/MRC+SA+men+and+rape+ex+summary+june2009.pdf

"Preventing Rape and Violence in South Africa" (Medical Research Council)
http://www.mrc.ac.za/gender/prev_rapedd041209.pdf


24 janeiro 2011

o melhor é rir...

- Joana Lopes, uma série fantástica: Aníbal e Maria, em dia de reflexão (1) (2) (3)

- O Pipoco mais Salgado, série de posts a acompanhar a noite das eleições: 
Das Eleições  (são demasiados links. Entrem no blogue, e vejam os posts do dia 23 de Janeiro.)

tristeza

(publicado também aqui)

Sonhei para Portugal um presidente capaz de acreditar no melhor do seu país, com visão para apontar um rumo muito para além dos interesses partidários e do ruído dos dias, e com a grandeza de saber reconciliar um povo consigo próprio.
O povo escolheu, e os discursos - o de Cavaco na hora da vitória e o de Alegre na hora da derrota - marcam iniludivelmente a diferença entre o que Portugal vai ter nos próximos cinco anos e o que poderia ter tido.
Meu país, que desconsolo.

23 janeiro 2011

e agora já se pode falar de política?

Então, é assim:
Estou aqui a pensar que o melhor é ir dormir, e acordar daqui a cinco anos.

já foi votar?

Eu vou agora.
E não vai ser em branco.

hoje já se pode falar sobre política, ou é para continuar a falar do tempo e assim?

  (foto daqui)

Se não se pode falar de política, pois falemos então de sapatos, ainda a propósito deste post, e de algo que não consigo entender: sendo certo que uma mulher tem de ser pelo menos duas vezes melhor que um homem para conseguir o mesmo cargo profissional, porque é que elas insistem em ir trabalhar com aquela roupa justa e incómoda, e sobretudo com sapatos de salto alto? Não entendo.
Vejo-as depois na rua, desequilibradas em cima dos cilícios, tentando fugir às irregularidades do passeio sem deixar cair a carteira e os sacos de compras do supermercado, às vezes ainda com miúdos pela mão, e não entendo.
Vejo-as a chegar a casa, a tirar os sapatos com um enorme suspiro de alívio, e - adivinharam! - não entendo.

Gosto do estilo Angela Merkel: roupa de trabalho. Quando vai a um concerto põe um vestidinho e até ousa um decote, mas quando está a trabalhar usa roupa de trabalho. Como os seus colegas homens, afinal.

E penso na história da Sereiazinha, de Hans-Christian Andersen, essa que queria a todo o custo dançar com o seu príncipe, e para isso trocou a cauda de sereia por pernas que lhe provocavam dores lancinantes. Reparem no pormenor muito significativo: para ganhar as pernas, perdeu a voz - aquele Andersen sabia muito.
Que príncipe é o destas mulheres, que fantástica miragem é essa pela qual elas estão dispostas a passar o dia inteiro a sofrer dores e desconforto, sorrindo e tentando fazer a melhor das figuras?

mais um motivo para gostar de viver em Berlim

Depois dos bilhetes gratuitos para ver o Lang Lang a dar aulas públicas de piano, depois dos bilhetes gratuitos para ver o András Schiff a tocar as Variações Goldberg, chegou a vez dos bilhetes gratuitos para ver Sir Simon Rattle a trabalhar com orquestras juvenis. Vai ser no domingo, dia 13 de Fevereiro, às 10:30. Estão a oferecer bilhetes na caixa da Filarmonia.

Bem sei que em termos de execução musical não vai ser excelente, mas já tenho os olhos a salivar só de imaginar Simon Rattle e um grupo de miúdos a experimentar o milagre da criação.

E no dia 8 há uma sessão especial com o pianista Alfred Brendel, que vai falar sobre humor na música.

E etc. - esta cidade não pára de me cativar.

Anne-Sophie Mutter, bis


Uma amiga mandou-me esta foto do  momento em que Anne-Sophie Mutter voltou à sala para nos oferecer um belíssimo solo. Para que vejam que não menti quando falei do seu vestido...

(eu ponho-me a falar de vestidos a propósito de um concerto destes e depois admiro-me que a Teresa, da Gota de Rantanplan, diga que se lembrou muito de mim, quando no blogue dela tem um post chamado Wannabes...) (muitos ;-)  ;-)  ;-)  para a Teresa)

22 janeiro 2011

Anne-Sophie Mutter e Sir Simon Rattle

Fui "ouvê-los" ontem. Nem sei o que é melhor: vê-los ou ouvi-los.

Ele dança e mima a música como ninguém. E ela, ao violino... como uma tempestade, toda a força da natureza.

Tínhamos lugares por trás da orquestra - ainda ninguém contou à administração da Filarmónica que esses são os melhores, e muito eu gostava de saber porque é que há quem pague 150 euros para ver o Rattle de costas, e perder isto:



- atenção, agora vai começar o derrapanço feminino, ai jesus que lá vou eeeeeeeu... -

A Anne-Sophie Mutter vinha num vestido fenomenal, em brocado cinzento, sem alças e com corte sereia. Por trás, à altura dos joelhos, tinha um enorme laço, sob o qual se formava a cauda. Daquele lugar quase nunca lhe via o rosto, mas podia apreciar todo o jogo dos músculos nos ombros e nas costas, enquanto ela fazia brotar do seu violino (da última vez que perguntei, era um Stradivarius - Stradivari, dizem eles por cá) uma impressionante cascata de música.


- atenção, agora vai começar o derrapanço masculino, ai jesus que lá vou eeeeeu... -

O vestido sublinhava um corpo magnífico. Nos intervalos, a mão direita segurava arco e violino, e a esquerda fazia arpejos no ar, por trás das costas. Antes de recomeçar, esfregava a mão esquerda sobre a nádega, para limpar o suor. Nunca me tinha ocorrido que músicos pudessem ter este tipo de liberdades corporais mais próprias dos courts de ténis.

- atenção, agora vou tentar salvar este post em extremis -


Gostei imenso da primeira peça do programa (sem a violinista, claro):
Fauré, Pelléas et Mélisande - Orchestersuite op. 80
No fim do concerto, o Simon Rattle cumprimentou quase metade dos músicos da sua orquestra. Até me lembrou o Mourinho, quase me comovia.

(já disse hoje que adoro viver em Berlim?)

decididamente: até na publicidade sou lenta de entendimento

Não tenho pachorra para maquilhagens, cremezinhos, não-sei-quê-cabelos, não-sei-quê-unhas.
A minha filha diz "máscara" e eu penso numa cara coberta de rodelas de pepino, quando afinal se trata de uma escovinha não-sei-quê-pestanas. Ela olha-me com um ar muito decepcionado, mas parece que continua a gostar de mim apesar de.

Por eu ser tal-qual como sou, sem disfarces nem paliativos, outro dia fizeram-me uma fotografia para aparecer na capa de um livro. Quanto mais penso nisso mais vontade de rir me dá: sem sequer me lembrar de perguntar "que livro?",  fiz o meu melhor sorriso para a câmara, esmerei-me o mais que pude, e no fim só puseram um bocadinho, aquela parte que mostra as rugas junto aos olhos e uma ou outra mancha acastanhada. Era um trabalho científico sobre envelhecimento da pele. Se os Monty Python soubessem de mim, compravam o meu diário e já não precisavam de ter mais trabalho a inventar cenas hilariantes.

Gosto de ver rostos de idosos com rugas - rugas que contam uma vida. Gosto especialmente das marcas dos sorrisos e do olhar atento aos outros. Ficaria muito contente se na minha cara se fosse desenhando um mapa de emoções boas.

Não sei de nada mais ridiculamente triste que ver na mesma mulher uns quarenta anos de diferença entre a pele da cara e a das mãos e do pescoço (a propósito, conselho a quem se preocupa com isso: usem para as mãos o mesmo creme que usam para a face). Para não falar dos rostos encharcados em botox, sem história nem expressão. Para não falar do embaraço que sinto ao ouvir comentários dos amigos especialistas sobre as operações de recauchutagem a que se terão submetido mulheres com quem nos cruzamos na rua: "olha, esta usa botox, olha, aquela deu um arranjo nos lábios, olha, quantidades industriais de silicone". Incomoda-me que seja tão evidente: é como se me apanhassem de cabeleira postiça por cima dos cabelos mal arranjados.

Ao ver este filme, que encontrei no anotações de uma viagem, dei-me conta que sou incólume à publicidade que influencia a percepção que as mulheres têm de si próprias. Nada como ser lenta de entendimento. Aliás, está escrito: "felizes os pobres de espírito".
(hihihi)

já que hoje não se pode falar de política, vou baixar o nível e falar de coisas porcas...

Ao ver esta imagem no lugares comuns, mais propriamente neste post,


lembrei-me de um conhecido meu que estava num café no Japão, foi à casa de banho, e quando chegou o momento de usar o autoclismo deparou-se com um computador destes, mas sem desenhos nem inglês. Inúmeros botõezinhos todos em japonês. Carregou num qualquer, e saiu-lhe um repuxo. Carregou noutro, para tentar parar esse, e a água começou a jorrar com mais força. Foi carregando a eito, e nada, quer dizer: e tudo, tudo, tudo. Um horror. Saiu a toda a pressa, pagou rapidamente e abandonou o local - no momento em que a água já escorria por baixo da porta em direcção às mesas.

21 janeiro 2011

a lagoa azul...

PARE BELO MONTE: NÃO À MEGA USINA NA AMAZÔNIA


Belo Monte seria maior que o Canal do Panamá, inundando pelo menos 400.000 hectares de floresta, expulsando 40.000 indígenas e populações locais e destruindo o habitat precioso de inúmeras espécies -- tudo isto para criar energia que poderia ser facilmente gerada com maiores investimentos em eficiência energética.

A pressão sobre a Presidente Dilma está aumentando: o Presidente do IBAMA acabou de renunciar, se recusando a emitir a licença ambiental de Belo Monte e expondo a pressão política para levar este projeto devastador adiante. Especialistas, lideranças indígenas e a sociedade civil concordam que Belo Monte é um desastre ambiental no coração da Amazônia.

As obras poderão começar logo. Vamos aumentar a pressão para Dilma parar Belo Monte! Assine a petição, antes que as escavadeiras comecem a trabalhar -- ela será entregue em Brasília.


Para assinar a petição: avaaz.org

 

Esta está imparável, e os cartazes saem-lhe cada um melhor que o anterior.

ainda sobre as pessoas que acham que dantes é que se estava bem

Um post do João Pinto e Castro: pelos vistos as pessoas não chegam a achar - limitam-se a repetir o que ouviram alguém dizer.

(E eu, toca a repetir uma perplexidade antiga: como é que os portugueses se queixam permanentemente que estão mal, e eu só vejo restaurantes cheios, carros novos e bons, tanta a gente a viajar, telemóveis topo de gama, maquinetas, roupa de marca?) (bom, não sei como vai ser agora, com o pacote de austeridade, mas até ao Verão passado tinha a impressão que em Portugal havia uma certa desfocagem no modo de ver o próprio viver)

20 janeiro 2011

este blogue acabou de fazer sete anos

...e eu nem reparei!

Gracias a la vida - ao olhar para trás, é o que me apetece cantar.
E obrigada aos amigos com quem comecei, em especial à Céu que devia receber uma medalha dos bombeiros voluntários.

Eu sei que chega a esta altura e começo a repetir-me. Mas que hei-de eu fazer? Continua a ser um grande prazer encontrar-me aqui com tanta gente boa.

"isto só vai lá com uma revolução"

(Publicado também no Alegro Pianissimo)

"Isto só vai lá com uma revolução" ou, mais desconsoladamente, "isto só à bomba!" são frases que ouço com cada vez mais frequência.

Revolução? Já tivemos. Chama-se 25 de Abril, e até é feriado.

Agora, a única solução que nos resta é trabalhar. Arregaçar as mangas e começar a trabalhar. Ir votar. Participar num partido. Inventar outro. Escrever cartas abertas aos deputados e aos ministros e ao presidente, exigir, pressionar, tudo o que quiserem - dentro dos limites democráticos.
Ou até criar um serviço de acompanhamento dos escândalos, ter sempre um ponto da situação actualizado. Porque - já repararam? - nós vamos vivendo de escândalo em escândalo, com a sensação que tudo fica em águas de bacalhau.

Há muito para fazer.
Mas a revolução, essa, já fizemos. Agora há que trabalhar, e muito, e sem descanso, para uma Democracia mais saudável.

Começando por isto: ir votar no próximo domingo.
Em vez de sonhar com revoluções e sebastiões.

quem me ajuda?

Ontem fiz dim sum cozido a vapor naquelas caixas de bambu, e colaram-se um bocadinho às varetas.
Pensei: hei-de ver na internet como é que se faz para que o dim sum não cole.

Já viram coisa mais prodigiosa que isto? No nosso mundo há milhões de pessoas que todos os dias gastam imenso tempo a ajudar desconhecidos. Gratuitamente, e sem esperar qualquer espécie de recompensa. E há milhões de pessoas que contam com essa ajuda como se fosse a coisa mais natural e certa. E nem falo dos que criam o Linux, nem dos co-autores e co-editores da wikipedia. Por acaso desta vez só estava a pensar nos que me hão-de dizer como é que faço para o dim sum não colar.

Que diria Rousseau sobre isto?

(Diria: "Pourquoi dim sum, madame? Restez dans la bonne cuisine française, ça n'attache pas")

***

Adenda, em resposta a algumas perguntas que recebi em privado: comprei o dim sum congelado, pus um pouco de água no wok e as caixinhas de bambu sobrepostas, com os dim sum congelados dentro e uma tampa de bambu em cima. Deixei cozer no vapor durante cinco minutos. Pronto. Comemos com molho de soja.
Ou pensavam que me ia dar ao trabalho de fazer rissóis chineses à mão? Nem os portugueses, quanto mais... 
Contei o caminho das pedrinhas, mas não sei se volto a fazer o mesmo. Pareceu-me que aquilo estava cheio de químicos para dar mais sabor.

19 janeiro 2011

ó tempo volta pra trás

A minha avó tinha uma vizinha com treze filhos. Na realidade teve mais que treze, mas alguns morreram. Era no tempo do "isto morre muito", da notícia que se espalhava célere entre a miudagem: "na casa dos Fulanos há um anjinho!" - e lá íamos nós em bando, atraídos pelo espectáculo da morte, das velas e das flores à volta da caixa de madeira sobre uma mesa. Treze filhos: chegava e sobrava para uma equipa de futebol, havia sempre alguém com quem jogar à macaca ou à bandeirinha na rua. A rua não era perigosa: era tão má tão má, que os condutores se viam obrigados a fazê-la em passo de caracol. Que belos dias passávamos por ali na brincadeira, apesar das interrupções ora porque o bebé chorava ora porque era preciso ir lavar a roupa no tanque comunitário ora porque eram horas de fazer o almoço. Naquela ranchada de filhos só havia duas raparigas. Na época em que brincávamos todos na rua elas deviam andar entre os 6 e os 12 anos, e asseguravam todo o trabalho doméstico enquanto a mãe andava na lavoura. Dos rapazes, só os mais pequenos brincavam connosco - no intervalo de segar erva para a vaca, catar folhas de couve para as galinhas, o que fosse preciso. Os mais novos, digo, porque os mais velhos, esses, em chegando aos 10 anos iam trabalhar. A minha avó zangava-se se nós comíamos na casa deles. A princípio pensei que o que lhe desagradava era a cozinha de chão de terra batida, a casa escura e suja. Mas um dia vi três irmãos a disputar uma cabeça de sardinha, e percebi.

Do outro lado da rua havia uma família que tinha também duas filhas, mas apenas uma muda de roupa e de sapatos. Uma ia à escola de manhã, a outra à tarde. Isto foi por volta do 25 de Abril, no tempo em que ir de Braga ao Porto levava duas ou três horas, e para a viagem Porto-Lisboa era preciso contar um dia.

A minha avó era uma das pessoas mais ricas da freguesia. Medido em "bens ao luar", entenda-se. Dava aos jornaleiros uma mesa digna - e até relativamente farta. Quando matava o porco, distribuía peças pela vizinhança, embrulhadas em panos de linho. Mas não nos deixava ler na cama, à noite, porque a lâmpada gastava muito. Tinha uma televisão, presente do tio da América, que não podíamos usar. Excepto, por muito favor, uma vez por semana, para ver a Pipi das Meias Altas. Ela via o Mundo Rural.

Nós próprios, filhos da classe média, usávamos roupa cheia de remendos, cotoveleiras e joelheiras. Tínhamos duas, três mudas de roupa, e uma pecinha mais domingueira. Roupa e sapatos passavam para os irmãos mais novos. As mangas dos casacos eram acrescentadas por mil artifícios, desde a barra de crochet à de imitação de veludo no mesmo tom.

Também tínhamos empregada doméstica, claro. Durante anos tivemos uma serviçal muito fiel, uma mulher vítima de violência doméstica, que tinha três filhos espalhados por irmãos e amas. Por volta dos 3 anos aquelas crianças aprendiam a tratar os filhos dos amos por "os meninos".

Depois da morte do meu pai, soube por um antigo amigo dele, um daqueles padres "difíceis", que a PIDE o andou a espiar por causa de uma iniciativa de ambos para promoção do desenvolvimento sociocultural dos minhotos. O padre via a tragédia das famílias dos emigrantes - os homens que saíam para Paris e Hamburgo, e se enchiam de desgosto em relação à própria família e às suas condições de vida - e achou que a única solução era melhorar o nível dessas pessoas. Ensinar as mulheres a tratar melhor da casa, a não deitar os restos da comida para o chão, a pôr cortinas nas janelas, a cuidar da sua aparência física... A PIDE desconfiou: parecia coisa de comunistas e agitadores.

Bom, também há aquela história do princípio dos anos 60, quando o meu pai organizou uma excursão a Lourdes com jovens agricultores da JAC, e alguns deles aproveitaram para dar o salto. Foi uma sorte o juiz ser um transmontano dos melhores - caso contrário, o meu irmão mais velho teria de ir à prisão para conhecer o pai. E sabe-se lá se eu nascia...

Era assim. Como é que as pessoas se esqueceram tão depressa disto?

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Adenda: a Maria N. escreveu um post muito bom a propósito disto, que termina assim:

Ninguém esqueceu coisa nenhuma, mas a memória é selectiva, depende de quem pergunta e das intenções que quem responde julga ser as de quem pergunta.