05 novembro 2010

passatempo

Alguém faz o favor de me mandar sair daqui, e parar de me deliciar com isto?

(depois dizem que a produtividade dos portugueses está a descer...)

(no meu caso, a culpa é do blog Arrumário, onde encontrei aquele link para os trabalhos do fotógrafo Fernando Guerra, e agora é o que se vê)

(que tal mandarmos o link para os senhores do FMI, a ver se eles se distraem de nós?)

(aquele Fernando Guerra e as suas fotografias de arquitectura... estou aqui desconfiada que até seria capaz de dar às célebres casas do Sócrates um ar de bauhaus)

03 novembro 2010

"une autre vie"


io, valkirio, pv, Rita, e mais a quem interessar possa: podem comprar à confiança (aqui, por exemplo). Um documentário excepcional sobre um professor de música, em Minsk, e os seus jovens alunos.

nem sei porque vou eu para os lados dos Alpes franceses à procura do Outono...


...se no coração de Berlim, no Tiergarten, está igualmente bonito!


(esta foto foi tirada deste site, onde pode ser vista em todo o seu esplendor - porque eu, por azar, ainda não aprendi que devo ter sempre comigo uma máquina fotográfica quando ando em Berlim)

28 outubro 2010

fim-de-semana de quatro dias

Vou ali controlar os Alpes para os lados de Grenoble, e volto já.

é isto uma Europa?

Esta notícia do Público deixa-me pasmada e sem palavras: vão baixar os abonos de família. Por exemplo: uma família com um rendimento mensal inferior ou igual a 209,61 euros recebia 174,72 euros de abono caso a criança tivesses menos de 12 meses, ou 43,68 euros se tivesse mais de 36 meses - e até estes valores vão baixar???

Esta notícia também me surpreende: em Portugal discute-se sobre como poupar 230 milhões de euros?! Tanta coisa, tanta discussão, para o governo poupar 3.420 milhões de euros?!
Só para terem uma ideia: no ano passado, a cidade de Berlim gastou 1.340 milhões de euros *apenas* em segurança social (total nacional: quase 21.000 milhões de euros). Só para terem outra ideia: em Stuttgart estão a pensar gastar uns 4.000 milhões, ou provavelmente muito mais, para construir uma via ferroviária subterrânea.

Na Alemanha, os pobres (desempregados de longo termo, incapacitados, etc.) recebem do Estado cuidados de saúde iguais aos da restante população, habitação e correspondentes custos (água, luz, aquecimento, eventual mobiliário e electrodomésticos), e ainda uns 350 euros mensais por pessoa. Se tiverem filhos, o Estado tem com estes uma atenção especial, porque é importante quebrar o ciclo de pobreza (sim, porque, como estão a ver, os pobres saem muito caros). De modo que toca de lhes dar acesso privilegiado à Educação, com todas as despesas pagas. E mais uma ou outra coisita, como vestuário, viagens, etc.

Por um lado: não sei como é possível viver com 209,61 euros mensais. Não sei como é possível viver com 209,61 mensais, e sobreviver a um aumento do IVA. A sério que não sei.
Por outro lado: o PEC, claro, os países assinaram um acordo de estabilidade do euro, e tal, e já sabiam ao que iam, pois, então porque é que agora vêm com desculpas por não se terem sabido governar? Sim, tudo isso. Entendo muito bem a Merkel e o Sarkozy. Mas há um patamar de dignidade abaixo do qual uma comunidade europeia não pode descer. O que está a acontecer em Portugal, sobretudo se comparado com os níveis de apoio social e gastos em obras públicas nos países mais ricos, é uma vergonha europeia.
Tenho a sensação que a União perdeu o norte.
É isto uma Europa?

Contudo, há aqui algumas questões incontornáveis:
- Porque é que continua a haver em Portugal pessoas com 200 euros de rendimento mensal?
- Porque é que, após mais de trinta anos de FEDER, Portugal ainda não conseguiu dar a volta? Os fundos estão a ser mal utilizados, não houve ainda tempo suficiente para mudar a estrutura, ou temos de aceitar que Portugal ficará para sempre um país estruturalmente pobre e a viver das esmolas dos ricos?
- A UE e/ou o euro são uma oportunidade para Portugal, ou um erro grave?

27 outubro 2010

hoje quase me ia entrando o PEC em casa...

O jornal de hoje trazia uma notícia que me assustou: vão tirar o abono de família às pessoas com rendimentos mais altos. Bem sei que está correcto: o abono de família não devia ser dado a todos, mas apenas àqueles que mais precisam, especialmente em tempo de crise, pois claro, blablabla.
Compreendo, mas não me dá jeito: cá em casa são 368 euros por mês.
(O abono de família alemão é assim: 184 euros por criança, 190 para o terceiro, 215 para o quarto e seguintes. Uma família com seis filhos receberia mensalmente 1203 euros. Já dava para uns litrinhos de leite e uma grosa de fraldas.)
(Por acaso, agora que voltei a olhar para o regulamento, hei-de ver se não nos convém mais pedir uma isenção de impostos - seriam 7.008 euros por ano. Algo me diz que o nosso contabilista tem andado a dormir...)

Lá fui lendo a notícia, fazendo contas de cabeça sobre os tais 368 por mês que vamos deixar de receber, até que cheguei à penúltima frase: rendimentos mais altos é 250.000 euros anuais, ou 500.000 no caso de ambos trabalharem.
Fiquei toda contente e aliviada por não sermos ricos...

***

Os custos de alimentação aqui são semelhantes aos portugueses. As rendas de casa são aceitáveis (nós pagamos, numa das melhores zonas de Berlim, cerca de 6 euros por metro quadrado) (é verdade que em Munique os preços são bem diferentes, mas eu também nunca me lembraria de ir viver para Munique...). Os cuidados de saúde das crianças são gratuitos (do champô para piolhos até às férias na praia ou nas termas para tratar a asma). O ensino é mais barato que em Portugal, porque (ainda) é a escola que empresta a maior parte dos livros. As famílias que têm menores rendimentos recebem participações especiais para as crianças terem acesso a actividades extra-escolares ou participarem nos passeios da turma.
Entre a Alemanha e Portugal: tanto mar, tanto mar.

uma vez, na China

Mão amiga ofereceu-me
(o que eu gosto de poder começar um post assim: "mão amiga")
(esta cultura do hedonismo é o que se vê: uma pessoa começa o post como gosta, em vez de o começar como deve ser, ou seja, com a verdade, e sai asneira. A ver se acerto à segunda:)

Coração amigo ofereceu-me o "disse-me um adivinho" do Tiziano Terzani. Tenho andado a lê-lo com muito gosto (e vagar: há três quinze dias que não falo de outra coisa). Recentemente, ao ler o capítulo sobre a sua travessia da China, lembrei-me de um relato que fiz para amigos, há dez anos, quando andei em viagem por essa estranha terra.

Aqui fica ele, em jeito de agradecimento por aquele belo livro (isto é para ti, io!):


Primeiro foi o Joachim. Logo na primeira noite em Pequim saiu, de cachimbo em riste, a tomar o pulso à cidade.
Meteu-se pelas ruelas do hutong vizinho ao hotel, bebeu uma cerveja num bar improvisado na rua e foi à salinha de cabeleireiro lá do sítio.
Regressou ao hotel feliz da vida, contando das duas lavagens (uma antes e outra depois de cortar o cabelo) e da massagem interminável à cabeça.

Claro que resolvi ir também. Sentei-me na cadeira e ela começou a lavar-me o cabelo assim sentada, com algumas gotas de água e de champô, alargando a pouco e pouco a área de actuação. Depois de muitas fosquinhas, levou-me para o lavatório e tirou o champô do cabelo. Depois, quase uma hora de massagens.
Para falar verdade, não gostei. Dava a sensação que me queria fazer buracos no crânio, ou rasgar-me o couro cabeludo com as unhas, coisas assim. Distraía-me observando um grupo de adolescentes do bairro, que estavam lá sentados a observar tudo, mortinhos de riso, e mais uma velhota muito atenta que ia dando instruções à cabeleireira como devia fazer o trabalho bem feito.

Pelo meio, quando me limpou algumas gotas de água da cara, eu murmurei um "sie-sie" tímido e ela desatou a falar chinês toda contente, obviamente aliviada por se sentir compreendida.
Eu expliquei como pude que só sei dizer "olá" e "obrigada", e ela voltou ao silêncio forçado.

Ao fim de quase hora e meia, apresentou-me a conta: cerca de três dólares. Tive vontade de pagar 50, afinal é o que pago por um serviço semelhante na Alemanha, e ela merecia isso, sem dúvida (de onde se conclui que eu gosto de sofrer). Mas fiquei na dúvida - que será que ela ia pensar de uma gorjeta assim?
Esta é uma das coisas de que mais gosto quando viajo: sentir-me despida da segurança que os hábitos dão, e ter de refazer rapidamente a minha "Weltanschauung" e o meu modo de comunicar com os outros.
Paguei (5 dólares), saí, e ela despediu-se: "bye bye". Chatice, estava a contar com esse momento para aprender como é que os chineses se despedem.
Fiquei com vontade de voltar àquele lugar. Não é que seja prático, mas é com certeza fino ter uma cabeleireira preferida em Pequim. E ninguém precisa de saber que é num hutong.

Ah, e a propósito de comunicar: os meus contactos com chineses eram quase sempre terminados com um sie-sie, acompanhado de uma vénia em regra, da cabeça (que inclinava) aos joelhos (que dobrava).
Após regressar a San Francisco, tive de telefonar para a escola dos miúdos e, quando cheguei ao fim do telefonema, agradeci (thank you very much), curvei a cabeça e dobrei os joelhos. Vénia em regra, na sala da minha casa, ao telefone.
Se o Pavlov me apanhasse a jeito, nunca mais quereria saber do cão dele...

26 outubro 2010

ele há coisas...

Um restaurante chamado:


Duvido que algum português esteja interessado, mas para quem não é esquisito, aqui vai o principal: restaurante de comida biológica ou, pelo menos, com produtos regionais e sazonais (pergunto-me se fecha no inverno...) (ó Heleninha: concentra-te no post!), cruzando a cozinha mediterrânica com a asiática. Em Kreuzberg, na Bergmannstrasse. Almoços por 7,5 € (sopa ou salada e prato principal).

um táxi para o nosso admirável mundo novo

Encontrei o Jailson Taxista no facebook de uma amiga. Só visto!

Aqui está um mundo admirável: pelos erros de gramática que há no site, imagino que o "seu Jailson" não terá andado muito tempo na escola; contudo, no seu táxi oferece acesso gratuito à internet (e se o cliente não tem portátil com ele, o condutor empresta) e chamadas telefónicas também gratuitas para vários países. As explicações no vídeo revelam uma extraordinária flexibilidade na utilização dos recursos da internet - e estão recheados de pequenos àpartes de humor.
Por exemplo: "O Jailson não fala inglês, mas você pode usar o tradutor do Google, que fica mais fácil".
Morasse eu em São Paulo, e não queria outro taxista.

25 outubro 2010

descobri um belo de um blogue

...quer dizer, já sabia que existia, mas entre uma coisa e outra fui adiando a visita. Que foi hoje, e fiquei cliente.
E agora, vá, por favor, não se riam de mim.

- Ó Helena, parece impossível, o Horas Extraordinárias só agora?!
Mas esse é um daqueles blogues que pedem que uma pessoa faça um bocadinho de horas extraordinárias só para os ler! E logo pela manhãzinha: levantas-te cinco minutos mais cedo, lês, já o dia te começou bem, ó Helena!

- Está bem, que querem, aqui estou eu a dar a mão à palmatória. Querem que me apresente também de corda ao pescoço, como o outro? Desculpem, pronto, vá.

***

Pois lá ia eu toda lançada pelo blogue adiante, até que cheguei a este post onde a autora pergunta:
Disse-me recentemente alguém (...) que, mesmo que estejamos sempre a ler desde pequenos, nunca, no tempo normal de uma vida, conseguiremos ultrapassar os três mil títulos. Não sei se haverá três mil livros imprescindíveis, claro, mas... como terão então feito aqueles que se gabam de ter mais de vinte mil volumes nas suas bibliotecas?

Ora, a essa pergunta sei eu responder: essas pessoas têm criadagem para as ajudar a aviar a biblioteca a eito!
(hihihi)

festival of lights - as imagens

Um pequeno passeio de seis quilómetros, depois do jantar. Uma beleza.
Infelizmente não nos foi possível subir ao prédio da Potsdamer Platz para ver os efeitos especiais sobre a cidade, porque o tal elevador rapidíssimo fechava às oito da noite.
Mas não faz mal: para o ano há mais, e da próxima vez já sabemos.



Porta de Brandemburgo
Do lado da Pariser Platz estavam a projectar frases para o espaço sob a quadriga. Berlim comemora-se a si própria: 30 prémios Nobel são de Berlim, todos os dias são construídas em Berlim 550 motorizadas, há 100 anos que se fabricam pilhas em Berlim, o hospital universitário comemora este ano o seu terceiro centenário, etc.
Uma cidade de bem consigo.





Unter den Linden

Gendarmenmarkt (para mim, a praça mais bonita de Berlim)

A catedral e a torre da televisão

Catedral com um motivo diferente do anterior

smb - Staatliche Museen zu Berlin

Mais informações para turistas: "smb" é a sigla que agrupa a maior parte dos melhores museus de Berlim: ilha dos museus + núcleo museológico de Dahlem + Hamburger Bahnhof + Kulturforum perto da Potsdamer Platz + etc.
Para todos eles é possível comprar um bilhete válido por três dias, por 19 € (9,5 € para estudantes), que não inclui exposições especiais.

Aqui encontram todas as informações relativas a cada um desses museus.

O Neues Museum tem um regime um pouco diferente. Dado que só há pouco foi reaberto, e tem muitos visitantes, é preciso reservar uma hora para entrada no museu. Esta reserva é gratuita.

É possível comprar este bihete para todos os museus smb em qualquer um deles. Ou seja: se virem que há fila para comprar bilhetes no Pergamon, basta irem comprar o bilhete ao Bode, ao lado, que tem muito menos visitantes. Em qualquer um deles se pode fazer também a reserva para entrada no Neues Museum.

transportes públicos em Berlim

O que se segue é uma mera informação para os visitantes de Berlim, para que saibam que tipo de bilhetes de transportes públicos lhes convém comprar.

Podem encontrar todas as informações aqui, em inglês.

Em português:

1. No site dos transportes públicos encontra-se logo na primeira página, do lado direito, um "journey planner" que explica como ir de um ponto a outro da cidade. Basta escrever de onde se quer sair e para onde se quer ir, a partir de que hora, e recebe-se a informação sobre que meio(s) de transporte(s) se deve usar e o tempo que demora.

2. Os bilhetes devem ser validados no início da viagem, ao entrar no autocarro ou no tram, ou antes de entrar no metro ou S-Bahn (obliterador junto às máquinas de venda de bilhetes).

3. Há bilhetes com preços reduzidos para crianças dos 6 aos 14 anos. Também há alguns preços especiais para estudantes.

4. A experiência que eu tenho feito é que não vale a pena comprar bilhetes para três dias, porque as pessoas não costumam passar o dia a ziguezaguear pela cidade. Vão para uma determinada zona, ficam por ali o dia todo, e regressam a casa. Isso custa no máximo 4 €: um bilhete para ir, outro para regressar. Para quem fica uma semana em Berlim já vale a pena comprar o bilhete semanal.

5. Há um bilhete para turistas que inclui os museus da Ilha dos Museus. Antes de decidir comprar esse, convém saber que é possível obter por 19 € um bilhete para três dias que dá acesso a todos os museus mais importantes da cidade (não apenas os da Ilha dos Museus).

6. - Regiões: AB, ou ABC (C é o anel exterior, que inclui Potsdam). É possível comprar um dos bilhetes para a região AB, e uma extensão para C no dia em que se pretende ir a essa região.

7. Tipos de bilhete (região AB):
* Single ticket: 2,1 € - válido por duas horas, com interrupções e mudanças de veículo, mas apenas numa direcção (ou seja: não dá para ida e volta)
* Grupos de 4 single tickets: 8 €
* Short trip ticket: 1,3 € - válido para seis estações de autocarro (inclusivamente os expresso) ou tram, ou para três estações de metro ou S-Bahn.
* Day ticket: 6,10 € - válido desde o momento da validação até às 3 da manhã do dia seguinte.
* 7-day ticket: 26,20 € - válido desde o momento da validação até à meia-noite do sétimo dia, a contar desta. É possível levar gratuitamente um acompanhante adulto e até três crianças dos 6 aos 14 anos: aos sábados e domingos, e aos dias úteis a partir das oito da noite e até às três da manhã do dia seguinte.
* Small group ticket: 15,90 € - válido para um grupo de até 5 pessoas, desde o momento da validação até às 3 da manhã do dia seguinte.

Bilhetes especiais para turistas:
* Berlin City Tour Card: 15,90 € para 48 horas; 21,90 € para 72 horas; 28;90 € para cinco dias - com descontos em várias atracções turísticas
* Berlin CityTourCard Museums Island: 31,50 €, válido por 72 horas - entrada gratuita em todos os museus da Ilha dos Museus, e descontos em várias atracções turísticas.
* Berlin Welcome Card: 16,90 € para 48 horas; 22,90 € para 72 horas; 29;90 € para cinco dias - semelhante ao Berlin City Tour Card, mas dá um livrinho com a lista de descontos para 150 actividades ou locais turísticos (passeios de barco, alguns museus, etc.).

23 outubro 2010

festival of lights


Isto é uma cidade que é um stress!
Mal uma pessoa se distrai um bocadinho, lá começam a acontecer coisas à nossa revelia...
Quase me ia esquecendo que o festival of lights acaba amanhã, e que hoje há uma corrida de 7,5 km ao longo de alguns dos highlights (literalmente).
E lá vamos nós passear por aquelas bandas, e subir a uma torre na Potsdamer Platz, no "elevador mais rápido da Europa", para ter um panorama geral da cidade iluminada. E depois, se calhar, vamos ver o seu Jorge - não sei que me parece música brasileira neste fresquinho outonal, mas é o que se arranja.

22 outubro 2010

há dez anos (uma mensagem enviada no ano 2000)

Ontem foi o meu primeiro dia de aulas.
Curso de inglês gratuito no City College, sala cheia de russos e asiáticos, uns a ler o jornal da terra deles e outros a dormitar, o professor cheio de genuíno entusiasmo forçado... algo me diz que não vou aprender muito aqui. Lemos um artigo de um jornal de San Francisco noticiando que vão proibir as bebidas alcoólicas em 20 parques da cidade, aumentando assim para mais do dobro o número actual de parques públicos onde o consumo de álcool é proibido. Acrescentava que essa medida vai ser tomada respondendo a pedidos de moradores e comerciantes das zonas afectadas. Pelos vistos, o problema é que as pessoas se embebedam, depois partem as garrafas, urinam em público e incomodam toda a gente.

Lemos o texto, e começou a discussão.
O professor perguntou quem estava de acordo com a medida e muitos alunos levantaram a mão. Porque é preciso proteger as crianças desses espectáculos indecorosos, e assim e assado, e eu a pensar "não me digam que agora vou ter de beber a minha cerveja por uma garrafa de ginger-ale". Depois o professor perguntou quem era contra esta medida, eu levantei a mão e no momento seguinte dei-me conta que tinha sido a única. "Aha, um voto contra, então levante-se, venha aqui para a frente, e diga lá porque é contra esta medida." (Mas porque é que estas coisas só me acontecem a mim, e sempre justamente no dia em que não lavei o cabelo e nas calças brancas há uma nódoa de geleia que o Matthias lá deixou ao pequeno-almoço e além disso estão largas demais?)
Lá me levantei e comecei a explicar que, primeiro, não acho que seja necessário proteger as crianças do espectáculo degradante que dou quando estou a beber uma cervejinha enquanto vou grelhando os bifes da família num parque público e que, segundo, o problema dos alcoólatras não se resolve mandando-os ir embebedar-se para locais onde incomodem menos, segundo o princípio "vai morrer longe" e que, terceiro... ...ia acrescentar que uma sociedade civilizada deveria ser mais que a soma aritmética dos seus lobbies, mas preferi ficar calada.

E eis como eu, na primeira hora do primeiro dia de aulas, me autopromovi a porta-voz dos bêbedos de San Francisco.

Acho que vou ali para o parque em frente à nossa casa beber uma caipirinha para esquecer...

Beijos, hips, perdão,
Helena

provincianismo da capital

Ao escrever neste post que Helmut Schmidt e a mulher, nascidos em famílias de operários, "em vez de embarcarem em miragens de novo-rico e arrivista, espelharam a dignidade do meio no qual nasceram", não pude deixar de pensar no modo como em Portugal se fala de certos políticos. Ele é o rapaz de Boliqueime, ele é o de Massamá, ou o da Marmeleira.
Triste sinal de provincianismo na capital...

E agora me dou conta: todos esses "parolos" são do PSD. Haverá aqui material para uma pequena generalização sobre quem recorre a adjectivos tão ricos de conteúdo?
(digam-me que não, por favor, vejam lá, não me deixem com esta dúvida)

"isto é Berlim"



Há também uma versão com frases:
Sobre os nudistas: quando cada um veste o que lhe apetece. Sobre a rapariga ao balcão, com uma t-shirt onde está escrito "Gorjeta, ou então bico calado": quando as palavras são mais duras que as intenções. Sobre a menina que se chama Paula Berlin: quando a cidade se torna para sempre uma parte de ti.

Já contei hoje que adoro viver nesta cidade?

21 outubro 2010

Loki Schmidt 1919-2010

(foto tirada daqui)

Loki Schmidt, a mulher de um antigo chanceler, Helmut Schmidt, morreu hoje.
Tinha 91 anos, e iam festejar em breve 70 anos de casados. Esta foto foi feita em 2009, durante uma comemoração do 90º aniversário dele.

Ambos oriundos de famílias de operários, serviram o país até ao topo da hierarquia política, mantendo uma simplicidade desconcertante. Por exemplo, conta ela, a propósito de uma visita dos reis de Espanha: "Tinha algum pão em casa. No fim da ópera, perguntei-lhes se gostariam de vir connosco. Passámos um belo tempo em amena cavaqueira."
Por aquela rua simples, de construção em banda como em tantas zonas urbanas, perante uma vizinhança de profissões relativamente modestas, passaram os mais poderosos do mundo. Brejnev, por exemplo, que não queria acreditar que eles não tinham um muro em frente à casa, nem empregados internos.

Aprecio neste casal essa fidelidade às origens. Em vez de embarcarem em miragens de novo-rico e arrivista, espelharam a dignidade do meio no qual nasceram.
Há uma história, em especial, que me faz sentir por eles um enorme respeito. Em plena crise do "Outono alemão", no momento em que terroristas dominavam um avião cheio de passageiros e Hanns Martin Schleyer permanecia raptado, eles combinaram que, caso algum deles fosse capturado, o outro não faria absolutamente nada para o tentar libertar. Comentário dela, numa entrevista: "escrever e assinar aquela folha foi uma espécie de libertação para cada um de nós".

liberdade de expressão - um post de Abril de 2006

Enquanto procurava o tal post antigo sobre Integração, encontrei este que também merece ser republicado. No coração de Berlim dou-me conta da diferença: aqui nunca me sinto ameaçada por ser estrangeira. Em Weimar era bem diferente.
E antes que venham dizer que os alemães são todos iguais e muito orgulhosamente arianos, e que a Merkel é um Hitler de saias (de saias, a Merkel, hihihi), aviso já que na região da antiga RDA há problemas sociais graves. Altíssima taxa de desemprego, poucas perspectivas de futuro para os jovens, desorientação devido ao fim da RDA e a alguns aspectos humilhantes do processo de reunificação, etc.

**

Em Erfurt (capital da Turíngia, uma das Länder da antiga RDA), numa loja de revistas, uma mulher que estava na fila para a caixa reparou que alguém estava a comprar um jornal onde se lia em parangonas góticas:

O SEU POSTO DE TRABALHO JÁ FOI ROUBADO POR UM ESTRANGEIRO ?

- Isso é discurso de extrema-direita, isso é incitamento ao ódio! Porque é que você vende isso?, perguntou a mulher ao dono da loja.
- Neste país há liberdade de expressão, respondeu ele.
- Pois há, e é por isso mesmo que eu digo aqui, alto e bom som, que numa loja que vende material deste não deixo ficar nem um cêntimo!

Largou o que queria comprar, e saiu.

Asseguro que não era eu. Entre vários outros motivos, por este muito simples: pela minha pronúncia, é fácil perceber que sou estrangeira. Há por aqui gente que não
se ensaia nada para mandar estrangeiros para o hospital, partidos de pancada. É uma sensação estranha andar pelas ruas sabendo que posso apanhar um par de bofetadas apenas porque não sou alemã. E tenho sorte: aos asiáticos e aos africanos aqui residentes não basta manter a boca bem fechada para conseguir disfarçar a sua condição.

integração - um post de 2006 (ai, como o tempo passa, e nada muda)

Em 24 de Abril de 2006 escrevi um post sobre o tema Integração, que passo a seguir. Gosto imenso do ponto I, onde se sugere que o Papa (o Joseph Ratzinger!) não poderia tornar-se alemão porque não aceita a homossexualidade...

**


Aqui na Alemanha, o debate sobre a integração está na ordem do dia.

Deixo alguns apontamentos soltos:


I. De uma entrevista publicada na Stern de 30.03.06, com Daniel Cohn-Bendit e Armin Laschet (ministro de um novo ministério em Nordrhein-Westfalen que parece uma sopinha de letras: gerações, família, mulher e integração. O governo é uma coligação CDU/FDP):

Stern: Em todo o caso, o questionário [teste para os estrangeiros residentes que querem a nacionalidade alemã] tornou claro que a tolerância em relação aos homossexuais é parte fundamental da cultura alemã.

Laschet: Isso foi quase reeducação Verde para os eleitores CDU. Mas essas questões não são da conta do Estado. Todos sabem o que o Papa pensa sobre a homossexualidade. Tendo isso em conta, ele não se poderia naturalizar alemão em Baden-Württemberg.

(E ainda dizem que os alemães não têm sentido de humor: conhecendo a rivalidade que há entre Bayern e Baden-Württemberg, é muito engraçado imaginar esta Land
a recusar a naturalização ao Ratzinger.)

A piada levanta uma questão interessante: exige-se aos estrangeiros que se queiram naturalizar que sejam mais "germanofundamentalistas" que qualquer alemão. Não apenas em termos de cultura geral (uma portuguesa que mora em Bayern, falou
recentemente disto: fez um desses testes, deu-o aos colegas alemães, e descobriu que ela passaria o teste, mas eles não), mas também em termos de liberdade de
opinião. O Ratzinger pode-se dar a esse luxo, mas os turcos...


II. No Sabine Christiansen de ontem, Gregor Gysi (do partido Die Linke, outra sopa de letras) afirmou que, curiosamente, os bairros onde há mais estrangeiros
(o quase gueto turco que é Berlin-Kreuzberg, por exemplo) não votam à extrema direita. Os fenómenos de xenofobia surgem nas regiões onde há poucos estrangeiros. E acrescentou: temos anti-semitismo sem judeus, anti-comunismo sem comunistas, xenofobia sem estrangeiros.

Tememos o que desconhecemos.

Lembra-me um estudo que já referi aqui, feito em Israel: pediram a crianças israelitas que escrevessem cartas a crianças palestinianas, e o nível de ódio aumentava na medida inversa do contacto com palestinianos. Os que conheciam de perto crianças palestinianas lamentavam-se que a paz não fosse possível entre os dois povos.

No mesmo programa obrigaram um imã a explicar porque se recusava a apertar a mão de uma mulher, e ele disse que a religião não deixava e além disso tinha prometido à mulher dele que nunca tocaria noutra mulher. Foi muito engraçado.
Mas, por outro lado, ao ver o presidente iraniano aos beijinhos a um correligionário (foram 5, que eu contei: esquerda, direita, esquerda, direita, e mais um que levou de lambuja no pescoço, quando julgava que já tinha dado beijos suficientes), imaginei como nos sentiríamos se o nosso Cavaco Silva fosse visitar países árabes e desatasse aos beijinhos aos políticos de lá, esquerda,
direita, esquerda, direita, e mais um no pescoço. Ui, que nojo.


III. Recentemente perguntaram-me se tenho receio de ser vítima de neo-nazis. Respondi que tenho os meus truques: mantenho a boca bem fechada e só atravesso a rua quando está verde para peões. Tenho sorte, sou branca - não dou nas vistas. Há por aí muita gente com pele escura ou cara de asiático que já aprendeu a evitar certas ruas, certos bares, certas horas. Ia acrescentar que alguns deles fazem parte de uma certa elite a nível mundial, pessoal que vem para cá fazer pós-graduações e promove um alargamento das redes internacionais, mas este facto
nada acrescenta - excepto por revelar um país que, devido a uma pequena percentagem de idiotas, pode ficar mais excluído das redes de progresso.

Todo um país? Não sei: o fenómeno é bastante visível na antiga RDA e em Berlim. Dizem-me que na parte ocidental não é assim.


IV. A televisão de Weimar, que é uma espécie de jornal paroquiano em versão televisiva, passou hoje uma reportagem sobre a violência na cidade. A entrevistadora apanhava incautos na rua e perguntava-lhes se agora há
mais ou menos violência, e porquê. A partir do momento em que uma adolescente disse que na turma dela havia muitos estrangeiros violentos, a entrevistadora começou a perguntar aos outros se a culpa da violência em Weimar era dos estrangeiros, e ninguém lhe respondeu "que estrangeiros?".

São cerca de 4% da população, e a maior parte deles são estudantes da Bauhaus. Os que conheço são pessoas afáveis e pacíficas. Os miúdos violentos que conheço são
alemães - e isto é uma tautologia inevitável por motivos meramente estatísticos.

Estava para escrever uma carta ao pasquim televisivo, protestando por empolarem um problema que nem chega a existir e por usarem a palavra "estrangeiros" com tanta
irresponsabilidade.
Mas sei lá - se calhar isto também é liberdade de expressão...
Além disso, estou com vontade de dar razão a toda a gente. Já que sou estrangeira, aproveito e vou lá partir tudo.

aviso à navegação (2):

Desta vez, sobre a França.
A propósito deste post, mas poderia ser a propósito de muitos outros onde se exprime a perplexidade de os franceses estarem chateados por terem de esperar até aos 62 anos para poderem ir para a reforma, deixem-me esclarecer umas coisinhas:

(nota: o que se segue é resultado de uma conversa que tive ontem com um francês. Sintam-se à vontade para me mostrar os documentos que rebatem isto.)

- Os franceses só podem deixar de trabalhar depois de terem trabalhado 42 anos. Uma pessoa que estude até aos 28 só tem direito à reforma lá para os setenta.
- Até agora dizia-se que cada filho dava à mulher um desconto de dois anos no período obrigatório de trabalho para a reforma. O que era merecido, porque com o seu esforço ela contribui para o contrato social (concordaremos que é mais fácil trabalhar durante quarenta anos sem filhos que durante quarenta anos com filhos). Esta reforma anula isso. Pior ainda (se bem percebi): uma mulher que teve quatro filhos, e ficou oito anos em casa a cuidar deles, perde oito anos de tempo de trabalho. Vai para a reforma lá para os setenta e cinco?

As greves dos franceses não se destinam a protestar contra a passagem dos 60 para os 62 anos. Isso é a mensagem simplista que alguns escolheram passar para desmoralizar esta luta.

Os franceses perguntam-se porque é que o Estado disponibiliza tanto dinheiro para ajudar o sistema financeiro, e o vai extorquir depois aos trabalhadores. Porque é que se recusa a aumentar os impostos sobre determinadas operações bancárias e especulativas, mas os aumenta tão facilmente sobre a população. Porque é que aceita sem discutir um capitalismo liberal desenfreado e cada vez mais desavergonhado, e pensa que o povo vai continuar a pagar estas opções sem protestar.

Por isso é que os franceses estão em greve.

problemazinho caseiro

Temos um ruído estranhíssimo em casa. Assim mais ou menos de minuto a minuto, curto e um pouco metálico. Depois de muito pensar e procurar por toda a casa, imaginamos que seja um pássaro no sotão. Estou a ver se convenço o Matthias a ir pelas escadas de serviço, que ninguém usa, e atravessar várias paredes intransponíveis de teias de aranha para ver se deslinda o mistério. Mas ele põe-se com cara de vai chamar Flash a outro, e ficamos assim.

mais um belo post

Este é do nosso embaixador em França:
("nosso", diz ela, com um irreprimível sentimento de orgulho pátrio)

Passo o texto integral:


Uma questão de justiça

Um esforçado colega de serviço público, de seu nome António Martins, expoente sindical de um "órgão de soberania", por via da profissão que, nomeadamente, decretou, há pouco, a indisputável inocência dos acusados do "Apito Dourado" e que acaba de atestar, para sossego de todos nós, a imaculada pureza de intenções do senhor Domingos Névoa, um estimável cidadão de Braga vilmente acusado pelos irmãos Sá Fernandes, houve por bem afirmar que as medidas de restrição salarial, que injustamente acabaram por ferir a sua nobre casta, mais não configuram do que uma objetiva intenção de coartar a eficácia da máquina judicial, a qual tem mobilizado, com uma coerência que o país testemunha com diária admiração, sangue, suor, férias especiais e ajudas de muito custo.

Que as mãos lhe não doam nunca, companheiro Martins!

20 outubro 2010

o post do ano

O post do ano está aqui: ainda a Alemanha e a integração - um post com convidados especiais.

Absolutamente fora de série. Se houvesse por aí alguém a preparar um livro com diálogos muito inteligentes com gente famosa, este tinha de fazer parte.

"o fim é o meu princípio"


Um filme muito especial: conversas entre pai e filho, sobre o sentido da vida e o mistério da morte. O que corria o risco de ser um monólogo algo enfadonho transforma-se num fantástico trabalho de Bruno Granz, sabiamente combinado com a riqueza de conteúdos de Tiziano Terzani.
O livro é baseado no livro "La fine è il mio inizio". Fala da vida de Tiziano, mas não lhe mostra os episódios. Só o poder evocativo da voz de Bruno Ganz nos leva àqueles cenários, e nos faz imaginar Tiziano Terzani a morrer de medo numa frente de guerra, ou a descobrir o seu silêncio interior num templo indiano.

Aqui podem ver um belo vídeo italiano que apresenta o livro:



E aqui o trailer do filme (vozes em alemão e imagens em esperanto):



Sugiro que se organize uma petição ;-) para que o filme passe em Portugal, e para que a Tinta da China, que já publicou o belíssimo "Um adivinho me contou", publique também este livro, e mais o "Cartas contra a guerra".

19 outubro 2010

"a Alemanha e o debate da integração"

Rita,

a propósito da tua série sobre a Alemanha e o debate da integração (I , II , III) (cuja leitura recomendo a todos), e em especial como resposta a este post:

Uma das coisas que aprendi quando fazia parte do conselho de estrangeiros de Weimar foi o uso actual das expressões multiculti e interculti. Multiculti associa-se a sociedades paralelas, não comunicantes (que não queremos), enquanto que interculti é, afinal, o conceito de multiculti que referes (o objectivo a atingir).

Penso que o multiculti que a Angela Merkel diz ter falhado tem ainda um outro sentido. Aquilo a que ela, mal ou bem, chamou "conceito multiculti" não é a sociedade multiculturista como a defines no início do post, mas - no fundo - essa tal inércia por parte dos alemães perante a realidade da imigração, e os resultados da atitude de deixar andar.

Infelizmente ainda não encontrei o discurso inteiro. Só vi algumas passagens na TV. Terá sido algo do género:
O conceito multikulti, segundo o lema "agora vivemos lado a lado e damo-nos muito bem" falhou redondamente. (...) No passado, exigimos pouco dos nossos imigrantes. Os imigrantes deveriam conhecer as leis e a língua alemãs.

Esta passagem, que parece estar na base das críticas levantadas à Merkel, é em minha opinião absolutamente inócua. E se tomarmos em conta que, um pouco mais à frente, citou aquela frase do Presidente da República que deixou muitos alemães escandalizados ("a Alemanha é terra de cristãos e judeus, mas também de muçulmanos", acrescentando que negar isto é recusar-se a ver a realidade), parece-me que dificilmente a podemos acusar de manobrar para agradar à extrema direita.

(Por azar, o jornal Neues Deutschland - o Avante alemão? - não me dá razão. Aqui, em alemão. Mas não vou traduzir. É muito longo...)

É evidente que a Alemanha cometeu um grande erro quando pensou que não era preciso fazer nada para integrar esses imigrantes turcos, e que eles de qualquer modo ao fim de uns anos regressariam a casa. É verdade que, quando deixaram de ser necessários e a Alemanha iniciou um programa de regresso voluntário, os portugueses, espanhóis, gregos e italianos foram-se embora, mas o número de turcos continuou a crescer. Só há cerca de dez anos os alemães despertaram para a sua realidade de país de imigração, e começaram finalmente a trabalhar para uma sociedade multicultural na acepção que referes. Há obviamente muito trabalho a fazer, de parte a parte, para corrigir constelações perversas entretanto consolidadas e para construir a pouco e pouco uma plataforma comum de entendimento, onde haja espaço para as diferenças.

Gosto do modo como o debate está a decorrer dentro da própria CDU/CSU: as afirmações do Seehofer são rebatidas por ministros do mesmo partido ("é óbvio que precisamos de imigrantes" - e apresentam imediatamente um projecto para atrair à Alemanha bons profissionais estrangeiros) e até pelo Presidente da República (do mesmo partido), que na sua visita à Turquia começa por declarar que é um disparate dizer que há grupos que não são capazes de se integrar. E gosto especialmente do Conselho Judaico a dizer "eh, lá!" ao Seehofer.

o espaço aéreo sobre as mesas de café


(foto da Bild)


A frase mais divertida da semana:

"O governo alemão tenta retirar ao Sarrazin o domínio do espaço aéreo sobre as mesas de café".

Ouvi em alguns noticiários, não sei quem é o autor, e dá-me sempre vontade de rir.
(Pequena correcção em adenda - já sei quem é o autor: Petra Pau, do partido Die Linke. E não falava do governo alemão, mas dos dois chefes dos partidos de União Cristã, Merkel e Seehofer. Este último tem feito declarações de carácter nacionalista e populista.)

***

Fora de brincadeiras: o problema das provocações do Sarrazin é que ele, não vindo acrescentar mais informação ao que já é há mais de dez anos do conhecimento público e objecto de debate, bem como de programas de correcção, o faz de um modo que se encaixa perfeitamente naquilo que faz funcionar as exaltadas conversas de café: meias-verdades, exageros, generalizações, simplificações idiotas, apelo aos medos - sobretudo ao medo do "outro".

Entretanto já se coloca a questão sobre o modo como os media ajudaram a produzir e amplificar o fenómeno Sarrazin. A sua posição - como alto funcionário do partido socialista e membro da administração do Banco Central (cargo por nomeação política) - e o eco que recebeu na comunicação social tiveram como consequência uma grave descida de nível no debate sobre os problemas de integração.
Até aparecer o fenómeno Sarrazin, não era de bom tom falar dessa maneira, geralmente associada a uma baixa condição social. As pessoas esforçavam-se por articular um discurso informado, diferenciado, livre de preconceitos e conforme aos princípios básicos da constituição alemã. O que dá trabalho, obviamente. Mas havia um certo pudor em pôr-se retoricamente ao nível de um, digamos, operário não-qualificado, desempregado de longa duração, após a terceira cervejinha.
Quando apareceu um alto funcionário do aparelho de Estado a falar nestes termos, foi um bodo aos pobres. Finalmente é possível dizer abertamente o que nos vai nos instintos! Acabaram-se os constrangimentos! De um momento para o outro, um número surpreendente de alemães apoia o Sarrazin e aquela sua maneira desbragada e indigna de se exprimir sobre pessoas de outras culturas e religiões.
O título do livro do Sarrazin ("a Alemanha está a destruir-se") está muito bem achado. E foi o Sarrazin, ele próprio, quem deu uma tremenda machadada naquilo que a Alemanha tinha de melhor. Fez mais pela destruição da Alemanha do que muitos imigrantes não integrados.

Não pondo em causa a liberdade e a obrigação de informar, pergunto: não teriam prestado um melhor serviço à constituição alemã se, ao noticiar sobre o Sarrazin, tivessem imediatamente procedido à desconstrução das suas teses?
Esses suplementos informativos vieram com atraso e num número reduzido de canais de comunicação, num momento em que já era muito mais difícil acalmar os ânimos e apelar à racionalidade nas mesas de café.

Liberdade de informação? Obrigação não apenas de informar, mas também de formar? Censura?
Um episódio que é mais uma achega para continuar o necessário debate sobre a responsabilidade dos mass media.

18 outubro 2010

voltar a um lugar onde já se foi feliz

Ontem regressámos ao lago Wannsee à hora do pôr-do-sol, com jornais e lenha, tambor da máquina de lavar e fósforos. A fogueirinha, e um pequeno piquenique.
Beleza pura, harmonia, uma conversa que corria fácil e recheada de risos.

Estamos a ficar viciados.

Escureceu, e nós fomos ficando de volta das magníficas brasas, a fazer contas de cabeça sobre futuros magustos. De repente, pressentimos mais do que vimos uma sombra sobre quatro patas que passava bem perto. Entre a fogueira e o lago, avançou muito decidida em direcção ao que sobrara dos bolos.
Um cão? Não, a cauda denunciou-a: uma raposa. Ora, o desplante do bicho!

Tentei fazer fotografias, mas o automático não disparava. Limitava-se a acender o flash - o que afugentou a raposa, permitindo evitar os imprevisíveis resultados de um confronto físico com a vida selvagem.
Depois fomo-nos embora. Na próxima semana há mais. Esperamos.

(Não tenho jeito nenhum para photo hunter, mas pelos menos descobri recursos inesperados de pacifista nos meus embates com a natureza...)

17 outubro 2010

aviso à navegação:

A propósito desta notícia e de algumas reacções nos blogues, aqui fica um aviso à navegação: antes de escreverem mais asneiras sobre a Alemanha em geral e a Merkel em particular, vão-se informar melhor. Tentem ler todo o discurso da Angela Merkel, e de caminho informem-se sobre o que é que um alemão quer dizer quando diz “multikulti”.

Claro que o tradutor (como de costume) e o jornalista (como quase sempre) têm uma boa parte da culpa neste não-escândalo, mas as pessoas inteligentes deviam fazer como os pobres, que desconfiam quando a esmola é grande. Só que, quando a ignorância e o preconceito se encontram, o resultado é sempre muito mau. É passear hoje pelos blogues para ver tristes exemplos disso.
Em síntese: obviamente que a Angela Merkel não fez afirmações xenófobas. E quem admite que um chanceler alemão se pode permitir esse deslize não percebe nada da Alemanha.

De modo que voltemos ao princípio: a jornalista Dulce Furtado, que fez aquela bela peça, há-de fazer o favor de ler o discurso todo, e contar as outras partes relevantes. Por exemplo, quando Angela Merkel cita o presidente da república, que nas comemorações dos vinte anos da reunificação afirmou que o cristianismo e o judaísmo são parte da Alemanha, mas o islamismo também o é. Sim, podem crer: no discurso citado nesta notícia também havia frases desse género. Ah, quem diria.
A jornalista podia também fazer algum trabalho de casa, e contar o que é aquilo a que os alemães chamam "multikulti": sociedades paralelas, de costas viradas umas para as outras. Um erro que vem dos anos setenta, quando se pensou que os turcos vinham por meia dúzia de anos e depois regressavam ao seu país, e ninguém se preocupou em cuidar da sua integração. O que, três décadas mais tarde, tem consequências gravíssimas. Por exemplo: uma mulher turca assassinada numa rua de Berlim pelos seus próprios irmãos por desonrar a família - porque fazia a mesma vida que "essas putas alemãs". Escolas frequentadas quase a 100% por alunos que mal falam alemão, que por falta de integração não vêem para si qualquer perspectiva de futuro, e crescem sem lei nem referências - e cujos professores suspiram de alívio quando alguns alunos chegam aos 14 anos, porque já podem ser presos. Alunos que são vítimas de violência grave no caminho para a escola, ou no próprio recreio, só porque são alemães. Ou uma juíza que entende aplicar a um divórcio entre turcos regras que não aplicaria a um casal alemão. Tudo isto são exemplos do "multikulti" ao qual a Angela Merkel se refere e com o qual pretende acabar.

Finalmente: é um absurdo dizer que foi o Sarrazin quem pôs o dedo na ferida - a ferida já anda a ser tratada por inúmeros especialistas há mais de uma década, e com bons resultados.
O que o Sarrazin fez foi verbalizar o problema de uma forma que apela aos instintos básicos das pessoas e que acentua o mal-estar entre os grupos.
O mais curioso é que hoje li blogues portugueses onde se falava sobre a Alemanha e os alemães no mesmo tom em que o Sarrazin fala contra os turcos e os árabes...

15 outubro 2010

"roubar para comer não é pecado"

Ora aqui está um site útil: http://www.mundraub.org/

Mundraub: fruta livre para cidadãos livres. Dizem eles. E registam num mapa a localização de árvores de fruto das quais qualquer pessoa se pode servir. Com algumas condições: só para consumo próprio, e tendo o cuidado de não danificar a árvore.
Em Weimar todos sabiam onde havia pomares de rainhas-cláudias deliciosas, maçãs e cerejas que "não eram de ninguém". Nos dias bonitos de verão as famílias partiam de bicicletas e cestos para a aventura que precedia a compota caseira, as tartes e as barrigadas de fruta.
Graças à internet, agora já sei para onde dirigir a minha bicicleta pelas ruas berlinenses. É só entrar neste mapa, escrever "Berlin" na caixa do google, e escolher a fruta conforme a época. E levar os cestos. E os capacetes - somos muito fundamentalistas.


Größere Kartenansicht

Este "B", por exemplo, eram rainhas-cláudias, em meados de Agosto.

14 outubro 2010

ainda os 33

Via antropocoiso via facebook cheguei a um texto de certeira crítica , do escritor chileno Luis Sepúlveda, que passo aqui integralmente:


Los 33

Chile es un país que crece en las tragedias. El poeta Fernando Alegría escribió: «cuando nos azota un temporal o nos sacude un terremoto, cuando Chile ya no puede estar seguro de sus mapas, digo enfurecido ¡viva Chile, mierda!». En el mes de agosto y todavía con la mitad del sur de país derribado por el terremoto del 27 de febrero, la voz de alarma llegó del norte, del desierto de Atacama, y supimos que 33 mineros habían quedado atrapados tras el derrumbe de una mina propiedad de una empresa que violaba todas las reglas de seguridad laboral. Treinta y tres hombres, uno de ellos boliviano, permanecieron atrapados a 700 metros de profundidad durante 69 días hasta que, y pese al show mediático montado por el Gobierno, empezaron a salir uno a uno de las profundidades de la tierra.

Mientras escribo estas líneas ya han salido ocho, y lo han hecho de pie, recibiendo el saludo efusivo de sus compañeros que los buscaron, encontraron y cavaron la dura roca hasta que, con el lenguaje parco de los mineros, les dijeron que los sacarían de ahí.

Cuando salió el primero, el presidente Piñera daba gracias a dios y a la nomenclatura en orden de importancia de cargos, pero olvidó agradecer a los mineros de Pensylvania que, por haber experimentado una tragedia similar, se solidarizaron con sus lejanos compañeros de Atacama y aportaron los conocimientos técnicos -cultura minera- y parte de la maquinaria que hizo posible el rescate. Tampoco mencionó a dos héroes silenciosos, dos internacionalistas del trabajo: James Stefanic y Matt Stafeard, los dos operadores que llegaron hasta los mineros atrapados y son los grandes responsables del rescate.

Mientras sacaban al segundo minero, que salía del calor y la humedad del encierro a 700 metros bajo tierra para enfrentarse a la sequedad y 10 grados bajo cero del desierto, el presidente Piñera no resistió la tentación de otra conferencia de prensa 'in situ' y en la que lo único destacable fue la vacilante declaración de intenciones para hacer algo por la seguridad laboral de los mineros. En su torpeza evidente, Piñera omite que ha sido justamente la derecha chilena la más feroz opositora a que se regule la seguridad laboral, indicando que los controles son sinónimo de burocracia y atentan contra la libertad de mercado.

En medio de su show cargado de gestos religiosos, Piñera omitió cualquier referencia a la triste situación de los otros doscientos y tantos mineros de la misma empresa, que trabajaban en la misma mina, que desde el mes de agosto no reciben sus salarios. Esta empresa se atrevió a declarar que incluso los 33 atrapados no cobrarían por todos los días bajo tierra, porque, sencillamente, no habían trabajado. Y la respuesta del Gobierno brilló por su ausencia.

La tragedia, esos 33 hombres sepultados, ha sido utilizada para marcar de invisibilidad al otro Chile, al país que no sale en televisión, por ejemplo, a los mapuche, cuya dramática huelga de hambre desapareció de la actualidad, ese sucedáneo del presente que se impone a la masa acrítica y dada al aplauso fácil que los modernos comunicadores llaman 'opinión pública'.

Desde luego que es emocionante verlos salir, uno a uno, y más emocionante es ver que esos 33 mineros, pese a los regalos prometidos, un viaje a España para ver un partido del Real Madrid, un viaje a Inglaterra para ver un partido del Manchester United, un iphone de última generación, un viaje a Grecia y hasta diez mil dólares a cada uno donados por un empresario chileno que aspira a ser presidente del país, pese a todo eso siguen siendo mineros y, por eso mismo, anunciaron la creación de una fundación que se preocupe de la situación de todos los trabajadores de la minería afectados por la irresponsabilidad de las empresas.

Sacarlos de ahí ha sido una proeza, pero una proeza de todos los que sudaron hasta conseguirlo y no de los encargados del show del rescate.

Y la mayor proeza será lograr que en Chile se respeten las normas de seguridad laboral para que nunca más 33 mineros desaparezcan en las entrañas de la tierra.