04 outubro 2010
qi gong
O problema é que, nem sei bem porquê, de momento os meus músculos não estão muito predispostos a colaborar. Nada de power yoga e hatha yoga. Muito menos step ou bodyshape.
Olhei para o quadro dos cursos, e sobrava qi gong, um curso com uma descrição enigmática: exercícios fluidos para optimizar a circulação da energia vital.
Suspirei, fiz uma careta discreta, e fui.
Começámos por respirar profundamente, levantando e baixando os braços conforme inspirávamos ou expirávamos. Nada mau, pareceu-me.
Depois pusemo-nos a agitar a energia, subindo-a do umbigo para o coração e baixando-a de novo para o umbigo. Não te rias, pensei.
Daí a nada estava a andar em círculo, respirando com convicção, enquanto puxava com as mãos a energia que estava atrás de mim e a lançava para a frente. Sozinha até não estaria mal, mas via aquele gordinho a resfolegar à minha frente, e sentia na nuca o bafo da energética que me seguia, o que me desconcentrava um bocado.
Volta e meia parávamos com os olhos fechados, para sentir melhor o nosso chi, que eu - especialista em tirar pelo sentido - facilmente traduzi: tonturas.
Quase no fim, limpámos o pó aos chakras todos. O da comunicação correu-me mal: desconfio que vem por aí mais uma infecção de garganta.
Finalmente, juntámos a nossa energia mais positiva e bem-intencionada entre as mãos, rodámo-la para que ganhasse mais força, e lançámo-la para o mundo - a professora diz que é assim que se promove a paz, e eu por acaso desta vez até estava capaz de acreditar.
No vestíbulo, enquanto calçava os sapatos, ouvi alguns participantes discutir se os chakras devem fazer parte do qi gong. Alguém dizia que sim, porque estão intimamente ligados à corrente de energia. Ele há gente que tem pós-graduações em matérias que eu nem sabia que existiam...
Em todo o caso: saí de lá cheia de energia limpa para me atirar a um trabalho que tenho andado a adiar há três quinze dias. Nem sei porque é que estou a contar isto em vez de o ir fazer.
E na próxima segunda-feira lá estarei de novo: a puxar energia de trás para a frente, a promover a paz mundial, e a bufar como um cavalo cansado.
Só tenho de ter cuidado para não comer feijões no domingo, que aquela cambalhota para trás, para massajar a coluna, é incompatível com certos estados intestinais.
03 outubro 2010
quando é que acabou a primeira guerra mundial?
Hoje a Alemanha paga a última prestação das reparações devidas pelo tratado de Versalhes. Uns escassos setenta milhões de euros.
Explicando um pouco melhor: para pagar os
Quando Hitler subiu ao poder deixou de pagar, mas os juros foram acumulando. Depois de 1945, a Alemanha Ocidental pagou boa parte da dívida, até 1983. Uma última parcela, relativa a juros, devia ser paga apenas após a reunificação (como acordado em Londres em 1953). Estes pagamentos iniciaram-se a partir de 1996, até hoje.
***
E agora com licencinha, tenho de sair: a cidade está em festa. Daqui a pouco vai passar um cortejo de Trabis em frente à minha casa. Estou com vontade de levar um cesto de bananas para oferecer aos condutores, como a 9.11.1989. Mas não sei se o gesto evoca a alegria ou a miséria, por isso vou de mãos a abanar.
01 outubro 2010
o exacto nome da coisa

O ministro dos negócios estrangeiros, Guido Westerwelle, e o seu companheiro, Michael Mronz, assinaram este registo de convivência com uma discreta cerimónia há duas semanas.
Aquela relação é conhecida há vários anos, e já em 2004 foi referida numa entrevista do Spiegel (aqui, em alemão), de que traduzo uma parte:
SPIEGEL: Herr Westerwelle, agora toda a Alemanha sabe que o presidente da SPD ama um homem. Sente-se aliviado?
Westerwelle: Talvez eu gaste menos tempo a pensar nisso que você. É que nunca escondi a minha vida, limitei-me a vivê-la sem fazer grandes discursos sobre ela. E tenciono continuar a fazer o mesmo, de futuro.
SPIEGEL: Num curto espaço de tempo apareceu várias vezes com o seu companheiro, Michael Mronz, em eventos públicos: num torneio de equitação em Aachen, numa homenagem ao novo Presidente, Horst Köhler, e no 50º aniversário de Angela Merkel. Pretendeu com isso tornar a sua relação pública?
Westerwelle: Fiz o que muitas pessoas fazem na minha situação: em vez de comparecer sózinho em determinadas ocasiões, fi-lo acompanhado. Não me parece dramático. Afinal, de que se trata?
SPIEGEL: Em todo o caso, de um outing mudo.
Westerwelle: Sou a favor de mais naturalidade no tratamento destas questões. Quero viver a minha vida como o ser humano Guido Westerwelle, também porque só tenho esta vida. Não é um ensaio geral, é a minha vida.
SPIEGEL: E não se preocupou com as consequências políticas?
Westerwelle: Não tenho como mudar isso, se a minha vida agrada ou não às pessoas. Se a minha vida atrai eleitores nas cidades e eventualmente os afasta nos meios rurais. Não sei, nunca o saberemos. Também não posso orientar a minha vida em função disso. Para mim, a minha vida é indiscutível. Vivo-a em consciência e posso dizer que nunca me esquivei.
Gosto daquela afirmação: é a minha vida, não é um ensaio geral.
Mas o que eu queria mesmo contar era isto: no país da Filosofia, do Direito e da língua exacta como uma matemática, dois homens assinam discretamente um "registo de convivência" - e o que é que aparece na primeira página dos jornais? Isto:
Bios Politikos again
Tenho de avisar os rapazes: no deserto onde andam a pregar há mais um ou outro eremita.
***
Tanto para debater!
Hesito entre meter-me por aí, ou rir-me do Almeida Santos, que me lembra os meus pais quando tentavam convencer-nos que, quando nos castigavam, lhes doía mais a eles do que a nós.
30 setembro 2010
perguntas para bingo
Estas, do Miguel Marujo (a quem roubei o título do post)
e mais estas, do Jorge Bateira,
e mais dois detalhes:
- Quanto é que o Estado gasta com as Fundações, e com que proveitos?
- Será possível aumentar drasticamente os impostos sobre produtos de luxo importados?
(Gostei muito de uma das medidas do pacote: eliminar a acumulação de vencimentos públicos com pensões do sistema público de aposentação)
rir
Para que conste que os políticos também são seres humanos...
(via A Terceira Noite e Entre as Brumas da Memória)
Caso se perguntem porque é que o homem ri assim, aqui vai uma ajuda - a tradução do texto, na mesma entrada do youtube (em inglês, desculpem e tenham paciência - é que, se tivesse de traduzir isto, não teria a menor vontade de rir):
"Referring to addition 6a in capter 2 of the KN, the customs administration has additionally published the so called Swiss explanations about the customs tariff.
According to that, certain products, that have spices added during the production, are added to chapter 2, if the character of a product of this chapter ist not changed (for example "Bündnerfleisch"). Meat, that has spices on the whole surface of the product and that is noticable with the eyes, is excluded by the chapter."
trabalhos da Fernanda Câncio sobre os ciganos
O texto o problema cigano, publicado na coluna "sermões impossíveis", devia tornar-se elemento obrigatório no debate sobre a tolerância e a sua perversão.
Alguns desdobramentos importantes:
- Os sentimentos destes ocidentais: "Uma estudante de Enfermagem e outro de Engenharia Física, um estagiário de advocacia e um educador falam de estereótipos, de integração e assimilação, de estigma e exclusão, de pertença e de recusa. E dessa linha que faz a diferença entre o eles e o nós, os 'ocidentais' de cá e de lá" - onde se mostra que "eles" têm muitos rostos diferentes.
- Entrevista com o antropólogo José Gabriel Pereira Bastos, aqui. (Gostei especialmente da parte a partir do quarto minuto do segundo vídeo)
- A cultura dos maus tratos (um dos "sermões impossíveis", que põe o dedo na ferida: aceitar como legítimas certas idiossincrasias culturais é abrir mão de um valor estruturante da nossa sociedade: a igualdade. E acrescento, só para fazer um desenho: porque não abrir também uma secção "sharia" no nosso Código Civil?)
29 setembro 2010
uns chatos, estes católicos...

Cito: A Areia dos Dias é um espaço de reflexão e debate, da responsabilidade do Grupo Economia e Sociedade da Comissão Nacional Justiça e Paz, aberto a quem quiser contribuir com os seus grãos de conhecimento para uma nova economia ao serviço de um desenvolvimento humano e sustentável.
**
Uns chatos, estes católicos. Quando o país se divide entre pagar mais ou menos impostos, cortar mais ou menos as despesas, recorrer ao FMI ou sabe-se lá o quê, e ó pra nós a olhar para o abismo aqui tão perto, vêm eles perguntar, como quem não quer a coisa: Mas que andamos nós a fazer aqui? De onde vimos, para onde vamos, e sobretudo: segundo que critérios?
Uns atrasados, que ainda não se deram conta que isto só vai à twittada.
Uns complicados, incapazes de resolver todos os problemas do mundo em cinco minutos à mesa do café.
Uns visionários, que gostam de trocar ideias e questões, em vez de esgrimir argumentos para acabar de vez com a opinião do outro. E que acreditam (vejam só o despautério!) que o desenvolvimento se deve orientar pelos valores da dignidade humana, da justiça, da solidariedade e da paz.
Uma pessoa põe-se a passear desprevenida por aquele blogue, lê por exemplo este texto da Manuela Silva, e dá-se conta que os verdadeiros desafios estão muito para além das catástrofes diariamente repetidas do OE e do acordo dos partidos, da crise e do euro.
Uns incómodos: porque a luz das questões que levantam expõe cruamente os limites dos actores políticos e dos comentadores habituais.
"você seria capaz de produzir conteúdos de baixa qualidade?"
Tratava-se de fazer um site na internet que atraísse leitores para depois lhes pespegar com publicidade.
(Aaaah, quem diria que as coisas funcionam assim? Primeiro vai-se ver quais são as palavras/frases mais procuradas de momento na internet, depois encomenda-se um texto a um redactor online onde essas palavras/frases apareçam, depois publica-se o texto, e depois enfia-se a publicidade discretamente pelos olhos adentro. Elementar, meu caro Watson, e nem sei porque não me ocorreu antes. Tanto mais que já há dez anos assisti a um processo semelhante: na empresa onde trabalhava, nos EUA, um dos colegas foi despedido em circunstâncias desumanas e humilhantes. Sem emprego, com família para sustentar, criou um site para as pessoas fazerem queixa dos patrões. Contarem as suas histórias, desabafarem para a net. Foi um sucesso: desataram a pipocar relatos de tragédias pessoais. Um dia destes hei-de ir saber se enriqueceu, ou se arranjou outro emprego.)
A meio da entrevista, alertaram-me para um debate que circula em certas esferas do universo paralelo: os que entendem que na internet deve haver qualidade, e os que já repararam que quanto menor a qualidade melhor vende, e por isso...
Perguntaram-me então: "você seria capaz de produzir conteúdos de baixa qualidade?"
Não conto o que respondi, mas algo me diz que foi aí que perdi o emprego.
Passo a pergunta, que é interessante: para ganhar dinheiro na internet, você seria capaz de baixar o seu nível de exigência intelectual?
28 setembro 2010
começar de novo - agora como blogue feminino
Mas depois esqueci-me em que ficheiro de que computador guardei as fotografias e lá se foi mais uma ideia genial. Não tenho jeito nenhum para fazer blogues femininos. Pior ainda: não sei se se diz "blogue feminino" ou "blogue de gaja". Por isso é que, em vez de milhões, não passo dos três ou quatro leitores diários. Não são muitos, mas são muito bons. E além disso não sentem qualquer reflexo compulsivo de comentar sapatos feios e de dizer "mitú! mitú!".
E porque andava eu de câmara fotográfica em riste pelo Ku'damm?, perguntar-me-ão agora os mais curiosos. Porque a Christina pediu, já que íamos escolher um vestido para ela. Assim: experimenta o vestido, faço uma fotografia, vemos que tal. Esta geração do facebook já não se serve de espelhos, tem uma relação profundamente fotogénica consigo própria.
Tudo isto para dizer que: voltei, cheguei bem, os limões também, as maçãs também, os figos nem por isso. E sapatos feios é um tema tão bom como qualquer outro para regressar ao business as usual.
19 setembro 2010
outros mundos
As crianças não eram recebidas com votos de uma vida feliz, e todas essas palavras que procuramos para desejar o melhor possível. Em vez disso, eram fadadas. Invocavam-se as fadas para que as tocassem e lhes concedessem os melhores dons.
As fadas faziam parte da nossa realidade concreta. De tal modo reais, que cheguei a recorrer a elas para tirar uma nódoa do vestido, antes que a minha mãe visse e se zangasse. Procurei-as no quintal, e encontrei-as dentro dos lírios roxos. Mostrei-lhes a nódoa e pedi que a apagassem, mas permaneceram silenciosas. Em desespero de causa, esfreguei um dos lírios no tecido branco, certa de que me ajudariam. Bem vi como se esforçaram, mas não conseguiram tirar a nódoa, só a alteraram: ganhou mais cor. Ou talvez um sinal secreto. O que é certo é que, daquela vez, a minha mãe não se zangou.
Sorrio agora ao pensar nisso. Agora que já não há fadas nem moiras encantadas, excepto - talvez - no meu sangue.
17 setembro 2010
não é para me gabar...
já ando há dois ou três posts sem falar do Obama...
(via Ma-schamba)
16 setembro 2010
a parábola do filho pródigo
1. A história do filho pródigo é o tema tratado este ano em Olinda (a parte de Taizé reservada às famílias). A peça de teatro inclui uma grande festa no final, no princípio da qual o irmão mais velho está num canto do pavilhão, de costas voltadas para a festa. Na semana em que lá estivemos, alertaram-nos para um facto curioso: alguns miúdos foram consolar o irmão mais velho, dizendo-lhe "Deixa lá, não estejas triste, o teu irmão é parvo. Eu bem sei como te sentes, em minha casa passa-se o mesmo."
2. Françoise Dolto, num livro fascinante chamado "l'Évangile au risque de la psychanalyse", fala da atitude deste irmão mais velho: aquele que se sacrifica, que aceita a "ordem natural das coisas" sem se questionar, e que quer fazer do pai um refém deste sacrifício. Uma atitude que é a antítese da liberdade humana.
Também o filho mais novo é apresentado sob uma perspectiva completamente diferente: não o estroina que leva uma vida dissoluta, mas aquele que aceita o desafio e o risco da vida, e parte à procura de si próprio.
E o pai, no meio disto? A parábola é sobre Deus, não o esqueçamos: Jesus revela-nos Deus como esse pai que aceita o risco de acabar ele próprio na miséria para não impedir um filho seu de fazer a experiência da liberdade em abundância e vertigem.
a propósito da visita do Papa ao Reino Unido
A 16 de Setembro o Papa Bento XVI chega a Edimburgo, na Escócia, para a primeira visita de Estado de um papa ao Reino Unido; a visita de João Paulo II em Maio de 1982 foi uma visita pastoral. (...) Nenhum católico foi chefe do governo e é proibido por lei o casamento de um herdeiro ao trono com um católico, pois ainda existe entre alguns a suspeita de que a sua lealdade ao Vaticano teria mais peso numa decisão de Estado do que a sua lealdade à pátria. Tony Blair, ex-primeiro-ministro do Governo Britânico, só se converteu ao Catolicismo depois de sair do poder embora fosse regularmente à missa com a sua mulher e os seus filhos, todos católicos.
É difícil para um católico português compreender o que foi ser católico em Inglaterra até há poucas décadas. Segundo o censo de 2001 há 4.2 milhões de católicos no Reino Unido, cerca de 8% da população, muitos descendentes de irlandeses que imigraram no sec. XIX quando se deu o Acto de União entre Inglaterra e a Irlanda. Este número aumentou nos últimos anos devido à entrada no país de um grande número de polacos. Mas durante séculos a população católica resumia-se a várias famílias denominadas recusants por se recusarem assistir aos serviços religiosos anglicanos. Maioritariamente viviam no norte do país e, até princípios do séc. XIX, eram perseguidos, multados, acusados de criminosos e alguns martirizados. Vários seminários, financiados por estas famílias, foram fundados na Europa continental um dos quais em Lisboa, o Colégio dos Inglesinhos, no Bairro Alto, que só fechou em fins do século passado. Os padres formados aí voltavam clandestinamente para Inglaterra e viviam escondidos. Membros destas famílias casavam entre si e, sendo esta a minha herança materna, ouvi sempre durante a minha juventude “Tens que casar com um católico. Temos que manter a fé.” Do lado paterno soube que o meu bisavô tinha sido deserdado por se ter convertido ao Catolicismo. No grande hospital londrino onde tirei o curso de enfermagem só no fim dos anos sessenta foi permitido a uma católica ser chefe de serviço. Até à data da Emancipação Católica em 1829, a missa era celebrada na clandestinidade.
O texto integral pode ser lido aqui.
15 setembro 2010
"repatriamento"


As fotos foram copiadas deste artigo do Spiegel.
pequeno ensaio sobre a diferença entre os sexos
Agora percebo melhor aquela coisa de os homens ficarem de olhos colados a uma mulher que passa, e percebo porque é que o inverso não acontece tantas vezes: é que a maior parte deles não tem muito cuidado com o aspecto físico(*), de modo que não há muito para ver...
Se houvesse, caramba, ópramim com cara de trolha, quase em risco de largar assobios e tudo.
(*) Claro que esta descrição não se aplica aos meus amigos(**).
(**) Claro que os meus amigos pertencem a uma realidade paralela.
Michael Moore: If That 'Mosque' ISN'T Built, This Is No Longer America
OpenMike 9/11/10
Michael Moore's daily blog
I am opposed to the building of the "mosque" two blocks from Ground Zero.
I want it built on Ground Zero.
Why? Because I believe in an America that protects those who are the victims of hate and prejudice. I believe in an America that says you have the right to worship whatever God you have, wherever you want to worship. And I believe in an America that says to the world that we are a loving and generous people and if a bunch of murderers steal your religion from you and use it as their excuse to kill 3,000 souls, then I want to help you get your religion back. And I want to put it at the spot where it was stolen from you.
There's been so much that's been said about this manufactured controversy, I really don't want to waste any time on this day of remembrance talking about it. But I hate bigotry and I hate liars, and so in case you missed any of the truth that's been lost in this, let me point out a few facts:
1. I love the Burlington Coat Factory. I've gotten some great winter coats there at a very reasonable price. Muslims have been holding their daily prayers there since 2009. No one ever complained about that. This is not going to be a "mosque," it's going to be a community center. It will have the same prayer room in it that's already there. But to even have to assure people that "it's not going to be mosque" is so offensive, I now wish they would just build a 111-story mosque there. That would be better than the lame and disgusting way the developer has left Ground Zero an empty hole until recently. The remains of over 1,100 people still haven't been found. That site is a sacred graveyard, and to be building another monument to commerce on it is a sacrilege. Why wasn't the entire site turned into a memorial peace park? People died there, and many of their remains are still strewn about, all these years later.
2. Guess who has helped the Muslims organize their plans for this community center? The JEWISH COMMUNITY CENTER of Manhattan! Their rabbi has been advising them since the beginning. It's been a picture-perfect example of the kind of world we all want to live in. Peter Stuyvessant, New York's "founder," tried to expel the first Jews who arrived in Manhattan. Then the Dutch said, no, that's a bit much. So then Stuyvessant said ok, you can stay, but you cannot build a synagogue anywhere in Manhattan. Do your stupid Friday night thing at home. The first Jewish temple was not allowed to be built until 1730. Then there was a revolution, and the founding fathers said this country has to be secular -- no religious nuts or state religions. George Washington (inaugurated around the corner from Ground Zero) wanted to make a statement about this his very first year in office, and wrote this to American Jews:
"The citizens of the United States of America have a right to applaud themselves for having given to mankind examples of an enlarged and liberal policy -- a policy worthy of imitation. ...
"It is now no more that toleration is spoken of as if it were the indulgence of one class of people that another enjoyed the exercise of their inherent natural rights, for, happily, the Government of the United States, which gives to bigotry no sanction, to persecution no assistance, requires only that they who live under its protection should demean themselves as good citizens ...
"May the children of the stock of Abraham who dwell in this land continue to merit and enjoy the good will of the other inhabitants -- while every one shall sit in safety under his own vine and fig tree and there shall be none to make him afraid."
3. The Imam in charge of this project is the nicest guy you'd ever want to meet. Read about his past here.
4. Around five dozen Muslims died at the World Trade Center on 9/11. Hundreds of members of their families still grieve and suffer. The 19 killers did not care what religion anyone belonged to when they took those lives.
5. I've never read a sadder headline in the New York Times than the one on the front page this past Monday: "American Muslims Ask, Will We Ever Belong?" That should make all of us so ashamed that even a single one of our fellow citizens should ever have to worry about if they "belong" here.
6. There is a McDonald's two blocks from Ground Zero. Trust me, McDonald's has killed far more people than the terrorists.
7. During an economic depression or a time of war, fascists are extremely skilled at whipping up fear and hate and getting the working class to blame "the other" for their troubles. Lincoln's enemies told poor Southern whites that he was "a Catholic." FDR's opponents said he was Jewish and called him "Jewsevelt." One in five Americans now believe Obama is a Muslim and 41% of Republicans don't believe he was born here.
8. Blaming a whole group for the actions of just one of that group is anti-American. Timothy McVeigh was Catholic. Should Oklahoma City prohibit the building of a Catholic Church near the site of the former federal building that McVeigh blew up?
9. Let's face it, all religions have their whackos. Catholics have O'Reilly, Gingrich, Hannity and Clarence Thomas (in fact all five conservatives who dominate the Supreme Court are Catholic). Protestants have Pat Robertson and too many to list here. The Mormons have Glenn Beck. Jews have Crazy Eddie. But we don't judge whole religions on just the actions of their whackos. Unless they're Methodists.
10. If I should ever, God forbid, perish in a terrorist incident, and you or some nutty group uses my death as your justification to attack or discriminate against anyone in my name, I will come back and haunt you worse than Linda Blair marrying Freddy Krueger and moving into your bedroom to spawn Chucky. John Lennon was right when he asked us to imagine a world with "nothing to kill or die for and no religion, too." I heard Deepak Chopra this week say that "God gave humans the truth, and the devil came and he said, 'Let's give it a name and call it religion.' " But John Adams said it best when he wrote a sort of letter to the future (which he called "Posterity"): "Posterity! You will never know how much it cost the present Generation to preserve your Freedom! I hope you will make a good use of it. If you do not, I shall repent in Heaven that I ever took half the Pains to preserve it." I'm guessing ol' John Adams is up there repenting nonstop right now.
Friends, we all have a responsibility NOW to make sure that Muslim community center gets built. Once again, 70% of the country (the same number that initially supported the Iraq War) is on the wrong side and want the "mosque" moved. Enormous pressure has been put on the Imam to stop his project. We have to turn this thing around. Are we going to let the bullies and thugs win another one? Aren't you fed up by now? When would be a good time to take our country back from the haters?
I say right now. Let's each of us make a statement by donating to the building of this community center! It's a nonprofit, tax-exempt organization and you can donate a dollar or ten dollars (or more) right now through a secure pay pal account by clicking here. I will personally match the first $10,000 raised (forward your PayPal receipt to webguy@michaelmoore.com). If each one of you reading this blog/email donated just a couple of dollars, that would give the center over $6 million, more than what Donald Trump has offered to buy the Imam out. C'mon everyone, let's pitch in and help those who are being debased for simply wanting to do something good. We could all make a huge statement of love on this solemn day.
I lost a co-worker on 9/11. I write this today in his memory.
"The man who speaks of the enemy / Is the enemy himself."
-- Bertolt Brecht
14 setembro 2010
se fôssemos apenas 100...
Post roubado à Joana Lopes (título incluído)
***
Tropecei naquele "20 pessoas são detentoras de 75% da riqueza".
Li 20, e pensei "ai os malandros".
Mas depois dei-me conta que eu faço parte desse grupo.
pequena revisão de matéria dada sobre Estado de Direito
A Polícia já tinha dado o caso por encerrado, mas a magistrada do Ministério Público reabriu-o com a pergunta: "o casaco já foi pago à queixosa?", e por isso chamaram-me para ir fazer novo depoimento.
Estava marcado para as oito horas da manhã, e começou sem atraso. O polícia esclareceu-me sobre os meus direitos (que não sou obrigada a dizer nada que me incrimine, e coisas assim) e começou a escrever o meu relato. Quando eu cheguei ao ponto do "o que me incomoda é que tenha sido roubado numa repartição pública, por algum dos funcionários" ele meteu-me os travões a fundo: "Minha senhora, tem de ter cuidado com essas afirmações que faz. Uma coisa é presumir, outra é saber. Se afirma como certeza algo que não passa de uma suposição, pode arranjar problemas graves. O chefe daquele serviço público pode abrir-lhe um processo".
No fundo, é elementar. Mas a gente esquece-se muitas vezes.
13 setembro 2010
ainda o estágio na Telekom
Só ontem me contou o pormenor mais engraçado da conversa que teve com a funcionária da Telekom:
- E vão-me dar tarefas interessantes, ou vão-me pôr só a servir cafés?
(isto promete)
10 setembro 2010
hatha yoga
Dizem que é para meu bem, e para bem do meu futuro. Sem pensar muito (é a minha especialidade) assim se prova que hatha yoga é o contrário de fumar: sofrer na juventude ("juventude", diz ela, hihihi) para uma velhice com mais qualidade versus gozar agora como apetece para uma velhice com menos qualicof cof, perdão.
Se daqui a uns anos me der tosse, terei de rever esta brilhante matriz teórica.
E então, perguntarei eu, quem me devolve os melhores anos da juventude (ó pra ela a insistir, hihihi) perdidos nos ginásios?
...Algo me diz que não estou a dizer coisa com coisa.
Então, a ver se melhora, e quase a propósito: num inquérito perguntaram a pessoas (de todas as idades) se estariam dispostas a trocar um ano de vida (o último) por um milhão de euros. Quanto mais jovens, maior era o número de respostas "sim". O que é lógico: aos vinte anos, um milhão de euros é mais palpável e necessário do que chegar aos 103 anos, em vez dos 102 - assim como assim, já se terá recebido um cartãozinho de parabéns do Presidente da República, ou lá quem é que se encarrega de celebrar os centenários, e, depois de tal honra, só mesmo o céu como limite; além disso, aos vinte anos somos imortais. Mas aos setenta anos já começamos a sentir que o tempo não nos vai chegar para gastar o milhãozito.
Moral da história: fazer hatha yoga e essas maldades agora, confiando que me vai sair o totoloto quando chegar à reforma.
free sunday
É mesmo uma coisa séria, e passo a citar o e-mail que recebi:
Está a decorrer a nível europeu uma campanha de recolha de assinaturas pela internet, com o objectivo de defender o "Domingo como dia de descanso na Europa".
Esta campanha conta com o apoio de alguns deputados do parlamento europeu e de organizações, entre as quais: o KAB da Alemanha e o EZA. (Centro Europeu para os Assuntos dos Trabalhadores)
Pretende-se recolher 1 milhão de assinaturas para apresentar a proposta do "Domingo como dia de descanso na Europa", no Parlamento Europeu.
Quem quiser saber mais, e assinar, pode ler aqui:
***
Quando, há vinte anos, vim morar para a Alemanha, as lojas fechavam às 18:30 (excepto às quintas-feiras, 20:00), e aos sábados fechavam às 14:00 (excepto no primeiro sábado de cada mês, que fechavam mais tarde - se bem me lembro, às 18:00). Obviamente que isto eram horários muito pesados para quem trabalhava, embora, de um modo geral, as pessoas entrassem entre as 7 e as 8 da manhã, e saíssem sete ou oito exactas horas mais tarde, mais uns quinze minutitos para o intervalo do almoço.
Era uma sociedade em que não havia ainda o hábito das horas extraordinárias, e em que boa parte das mulheres estava em casa a cuidar da família.
Vinda do país das grandes superfícies comerciais e do shopping como programa cultural de domingo, surpreendeu-me encontrar um povo que conseguia organizar o seu tempo para fazer as compras dentro de horários muito limitados, e com programas simples para o tempo livre: fazer passeios de bicicleta ou a pé, procurar cogumelos na floresta no Outono e organizar com os amigos aventuras de canoa na Primavera, recolher com os filhos "tesouros" no parque para construir mobiles, fazer bolachinhas caseiras para oferecer, etc.
Nos últimos anos, muito se tem alterado: as lojas abrem mais cedo e fecham muito mais tarde, começa a haver regularmente domingos em que o comércio está aberto, começa a haver supermercados abertos 24 horas. Descobriu-se que ao domingo as pessoas estão mais predispostas a gastar dinheiro. E surgiram duas frentes: os comerciantes, sobretudo os grupos com mais poder, que fazem pressão para a Alemanha "se modernizar" e para "salvar a economia" ajudando as pessoas a gastar mais; os defensores de uma ordem mais humana, afirmando que nem só de compras e economia vive o Homem, e que é preciso manter na sociedade janelas temporais comuns para convívio e descanso.
Não admira, pois, que esta iniciativa tenha surgido na Alemanha. Concordo inteiramente com a ideia. Um dia semanal sem trabalho é fundamental não apenas para as famílias, mas para fortalecer os laços sociais. Um dia em que todos estão disponíveis para se encontrarem e saborearem a amizade.
Acresce ainda a minha história pessoal: o que eu odiava os fins de semana em que o Joachim fazia urgências! Não desejo isso a família nenhuma. Compreendo que um bombeiro, um polícia, um médico ou um enfermeiro tenha de trabalhar ao domingo, mas não quero que criança nenhuma passe o domingo sem o pai ou sem a mãe só para eu poder comprar as minhas batatas ou o meu perfume quando muito bem me apetecer. Idem para os supermercados que nunca fecham: morreria de vergonha ao olhar para a cara daquelas pessoas que ficam acordadas a noite toda só para eu poder comprar produtos alimentares às quatro da manhã se me apetecer.
Alguns poderão rebater: e os desempregados? Não é melhor alargar os horários de abertura do comércio, de modo a criar empregos? Ou, pelo contrário: se se fecharem as lojas ao domingo, quanto desemprego se vai provocar?
Não sei. Gostava de ouvir a vossa opinião.
09 setembro 2010
a Angelina Jolie, o Brad Pitt, o Joachim e eu
(o que eu andei para poder escrever um post com este título)
Ora bem: a Angelina Jolie, o Brad Pitt, o Joachim e eu temos uma coisa em comum:
(tã tã tã tãaããããã)
Já fizemos um donativo para o Paquistão.
Eles deram um bocadinho mais, mas também é porque podem: o abono de família deles é bem mais alto que o nosso.
08 setembro 2010
passou há bocadinho na televisão
- A minha mãe é russa, o meu pai é turco, e eu sou alemão.
(aqui)
retalhos da vida de um aluno alemão
O estágio vai ser no fim do ano lectivo, mas alguns dos seus colegas já têm tudo isso tratado. Agora, no início do ano. (Depois queixam-se de os outros povos terem preconceitos em relação aos alemães, por exemplo de terem a mania que eles são demasiado organizados...)
Hoje o Matthias visitou a IFA (Feira Internacional de Electrónica de Consumo) e falou com uma senhora, no stand da Telekom, sobre a possibilidade de um estágio nessa empresa. Já tem um nome e um número de telefone para entrar em contacto.
Para arraçado de português, não está nada mal.
puro deleite da inteligência
Vejam aqui a Maria N. a ensinar coisas básicas, de que nos esquecemos muitas vezes, sobre diálogo intercultural.
(Andava há dias para vos falar disto, e provavelmente já todos leram, mas
fica na mesma, para os mais distraídos.)
(Traduzam para francês e alemão, e embrulhem com um lacinho para oferecer ao Sarkozy e ao Sarrazin.)
notícias da frente leste
Mais um motivo para gostar desta cidade.E ainda mais outro: à volta da Siegessäule, que está em obras, puseram um enorme cartaz com fotografias de berlinenses que fazem trabalho voluntário. Num dos sítios mais nobres de Berlim, mostra-se o rosto de alguns heróis quotidianos desta cidade.


07 setembro 2010
boas notícias, quer dizer, é tudo uma questão de perspectiva
Que tal, e que queriam um brasileiro em vez de uma portuguesa, e assim.
O Sarrazin tem-se andado a esquecer de falar desse problema grave da sociedade alemã: os brasileiros que tiram os empregos aos europeus...
(Deixa-me pôr aqui muitos ;-) ;-) ;-)
para que percebam que estou a brincar.)
No entretanto, descobri que há na mesma rua uma outra empresa que quer mais ou menos a mesma coisa, mas para Portugal. Cá vou eu de novo.
estes malditos imigrantes...
Mudando um pouco a perspectiva, proponho um exercício divertido: nos comentários que fazem aos artigos dos jornais portugueses, troquem "árabes", "muçulmanos" e "estrangeiros" por "portugueses". E imaginem que o comentário foi escrito por um francês, falando dos portugueses em Paris. Por exemplo.
06 setembro 2010
Usedom
Nunca mais acredito no boletim meteorológico: por causa deles não levámos protector solar e agora estamos com um belo escaldão (nas partes do corpo que não andavam cobertas por camisolas, cachecóis, jeans e galochas).
Começo a desconfiar que todas as ilhas do Báltico são iguais: as mesmas avenidas perpendiculares à praia, ladeadas por pequenos palacetes dos fins do séc. XIX, com bonitas varandas de madeira e jardins de inverno virados para a rua. Os mesmos pontões para passear mar adentro. As mesmas florestas no chão de areia. A mesma beleza, em suma.
Muito eu gostava de saber como é que eles conseguiram preservar a paisagem costeira, e os portugueses não.
É verdade que volta e meia se encontra um prédio dos tempos da RDA, com a fachada mais ou menos reciclada para não chocar tanto. E em Rügen há uma colónia de férias gigantesca, feita pelos nazis (Prora - em parte também aqui, em inglês). Mas, de um modo geral, quando se passeia por aquela costa o que se vê são os palacetes centenários, as árvores e o mar. Como é que conseguem?
Em suma: um fim-de-semana cheio de pequenas aventuras e sossego.
Na sexta-feira, depois do jantar, fomos até à praia, atravessando a floresta. Um grupo de vinte pessoas, com uma única lanterna de bolso. Para lá correu bem: o ruído do mar indicava-nos o caminho. Para cá, perdemo-nos completamente. Quando nos parecia ter encontrado o parque de campismo junto à nossa residencial, disseram-nos que afinal ainda tínhamos de andar 3 km. Bem: há lugares piores para uma pessoa se perder na noite.
No sábado fomos para a praia, alguns levaram até fato de banho, e começou a chover.
Um dos amigos com quem estávamos tinha um toldo impermeável enorme, debaixo do qual nos abrigamos todos. Enfim, quase todos. Alguns miúdos optaram por se meter na água - molhar por molhar...
É impressionante a quantidade de coisas que os pais alemães carregam nas suas mochilas: debaixo do toldo estendeu-se uma manta de piquenique, com bolachas e chocolates, sanduíches de pão integral e bolo de limão caseiro. E bebidas, claro. Até chá quente havia.
Eu tinha ido para a praia de mãos a abanar - deve ser por estas e por outras que se queixam dos malditos estrangeiros que não se integram na sociedade alemã...
No domingo atrevi-me a entrar na água. Grande surpresa: era mais quente que o Atlântico. De modo que saboreei com vagar o último banho do ano. A seguir ao almoço voltámos à praia, para o pós-último banho do ano.
E depois fomos procurar cogumelos na floresta, e estendemo-nos ao sol numa clareira, a carregar as baterias para o inverno que se aproxima.
03 setembro 2010
mais um bocadinho de serviço público
E já que estão de passeio, espreitem o Indian Railway. Por exemplo: esta manhã de nevoeiro.
***
E por falar em passeio: daqui a bocadinho vou até à ilha de Usedom, e volto já. Talvez com fotografias, provavelmente fraquinhas, porque o Verão já acabou e os dias andam tristonhos. Agora, é aguentar até Maio. Frio, chuva, neve, gelo, vento, frio, chuva: cá vamos nóóóós!
update para os amigos
1. Encontrei um emprego que me parecia ser o ideal para mim: dar água sem caneco na internet, e ganhar dinheiro com isso. Concorri.
2. Telefonaram-me a dizer que estavam fascinados com o meu currículo, mas que lhes parecia que é bom demais para aquele trabalho. Disse-lhes logo que não, que os tinha enganado muito bem enganados. Marcámos uma entrevista.
3. Preparei-me. Como se fosse caloira nestas lides, pesquisei aquelas páginas de conselhos na internet sobre como se preparar para uma entrevista, linguagem corporal, perguntas difíceis, e essas coisas. Só encontrei lapalissades. Optei por ir fazer meditação transcendental para o cabeleireiro. A cabeleireira perguntou-me "hoje vai fazer alguma coisa especial?" e eu disse "vou tentar arranjar um emprego novo" e ela perguntou "não está nervosa?" e eu respondi "não mais que os entrevistadores" e ela contou "nessas entrevistas, eu morro de medo de dizer alguma coisa errada" e eu retorqui "a única coisa que me interessa é mostrar como sou". Ora, grande mentira que lhe contei, porque de facto estava era preocupada com o que iria vestir, porque os donos da empresa aparecem na homepage sem gravata. Pelo seguro, disfarcei-me de senhora. Pus-me a caminho.
4. Perdi o post-it onde tinha escrito o número da porta. Do carro, telefonei para a empresa a perguntar o número (ai! se o pessoal dos conselhos sobre como fazer entrevistas souber disto...). Apesar de ser no centríssimo de Berlim, encontrei logo lugar de estacionamento (se isto não é uma dupla prova da existência de Deus e do seu infinito amor por mim...) mas não conseguia encontrar a porta da empresa. Pus-me a ler os nomes em todas as campainhas dos vários pátios do complexo. Encontrei, entrei. No elevador tentei desesperadamente verificar se o post-it não se teria colado às minhas costas. Aparentemente, não.
5. Os rapazes eram simpáticos. E bem mais que isso: pertencem a uma nova geração de empresários, gente do software e da web 2.0, inteligentes e suficientemente loucos para ousarem. O tipo de pessoa capaz de imaginar um e-bay, um google, um facebook ou um skype - e deitar mãos à obra. Ao fim de vinte minutos começámos a tratar-nos por tu, e eu feliz da vida, porque detesto tratar por você pessoas com quem simpatizo - excepto quando são bem mais velhos que eu. Eles em calças de ganga e mangas de camisa, eu irremediavelmente overdressed no meu fato de uma famosa designer berlinense.
6. O trabalho não é bem como eu pensava, mas tipo "chefe de redacção online", sendo que eu escolheria os conteúdos e os colaboradores.
7. O único problema(zinho): é para o Brasil. Embora isso não chegue a ser problema, porque já temos o acordo ortográfico. Hihihi, não podia deixar de meter esta piadinha. Pronto, agora a sério: não chega a ser problema porque não sou eu quem escreve os textos.
8. Agora vão entrevistar os outros dois candidatos, e na próxima terça-feira decidem.
A ver vamos se na próxima terça-feira Deus ainda existe e ainda gosta de mim.
9. Ao chegar a casa encontrei o post-it no chão, e os filhos muito curiosos: correu bem? correu bem?
(devem estar mortinhos para que eu arranje um emprego fora de casa, para lhes desamparar a loja)
***
Pequena explicação para quem não me conhece, já que neste post brinco com isso: o Deus em que acredito não anda comigo ao colo. Não me arranja lugares de estacionamento nem empregos. Como diz um amigo meu: é bom, mas não é bombeiro.
02 setembro 2010
coisas de que não gosto no facebook
2. Passa a vida a sugerir que me amigue com pessoas que há muito apaguei da minha lista de telefones. Só porque calha de serem amigas de amigos. Ó, eu é que lhes dizia o que penso de tanta proactividade.
3. Oferece-me um serviço para encontrar parceiro. Uora benhe: primeiro, não preciso; segundo, a fotografia que acompanha o anúncio é esta:
Mas a que propósito é que partem do princípio que eu ando à procura de um marmanjo que podia ser meu pai?
if facebook existed years ago

Há mais aqui.
(E de repente ocorre-me que isto podia ser um projecto muito engraçado para fazer nas aulas de História)
01 setembro 2010
outro inquérito sociológico
Assim:
- Em cada escola, no fim do ano lectivo, os alunos entregam os livros de que não precisam mais.
- Um grupo de professores ou pais regista no serviço da internet o título dos livros, a quantidade, e o estado de conservação.
- No princípio do ano lectivo, as escolas consultam a lista dos livros disponíveis para oferta, e fazem as suas encomendas. A escola que os envia dá prioridade àquela que ofereceu mais livros e em melhor estado. Ou seja: quantos mais livros uma escola der, mais probabilidades tem de receber aqueles de que precisa.
- A escola que recebe os livros paga os custos do correio e a taxa do serviço da internet.
- A escola que recebe os livros atribui uma classificação à escola que os enviou (estado dos livros corresponde ao descrito / rapidez no envio / facilidade de comunicação)
Perguntas:
- Há interesse num sistema destes?
- Há nas escolas portuguesas professores e pais dispostos a fazer este trabalho? (nas escolas alemãs sei eu que há)
- No início do ano lectivo sabe-se em todas as escolas quais são os livros necessários, ou o arranque varia de professor para professor?
- O critério para entregar os livros a uma escola devia basear-se na quantidade de livros em oferta, ou na quantidade de livros realmente enviados? (quer dizer: uma escola podia oferecer milhares de "monos" que já ninguém quer, e ficar assim à frente na tabela)
Vá: que me dizem?
e se...?
É tão bom demais para ser verdade, que não deve ser verdade. Amanhã conto mais.
30 agosto 2010
de engenheiro e de mouco todos temos um pouco...
Revelei então que o artigo era sobre uma tenista israelita que é precedida por ódio anti-semita em quase todos os torneios internacionais nos quais participa.
- E como é que ela reage a isso?, perguntou. A adversidade torna-a melhor?
Eu ainda ia no início do artigo, não sabia.
Ele falou do horror de viver permanentemente rodeado por ódio. Referiu as guerras, contou que foi soldado ou oficial em quatro delas, e afirmou o direito de Israel a retaliar com muito mais força que a usada pelos seus inimigos. E que por isso é tão criticado e odiado, mas não deixará de o fazer, porque está em causa a sua sobrevivência. Disse-me ainda que, como turista, não preciso de ter preocupações de segurança em Israel - basta que me mantenha longe das zonas de fronteira.
Então perguntei-lhe qual era, na sua opinião, a melhor maneira de resolver o problema entre Israel e os palestinianos.
Respondeu-me que não sabia, que era apenas engenheiro. E foi-se embora.
Fiquei desapontada. Mas logo me passou, quando me lembrei dos ciganos europeus e do pouco espaço que eles ocupam nas minhas preocupações. Que autoridade moral tenho eu para o criticar? No fundo, também "sou apenas engenheira", não tenho nada a ver com os problemas dos outros. Posso seguir caminho, cega e surda aos sintomas de miséria.
(Sim, eu sei: isto está mal comparado. Há diferenças substanciais entre a situação dos ciganos e a dos palestinianos. Mas também vários pontos em comum, quer em termos da assimetria de poderes, quer em termos das suas condições de vida e dos - poucos - esforços feitos para melhorar estruturalmente a situação.)
afazeres
Não tarda nada tenho aí os clientes a bater à porta.
- Ó da casa? Está aqui alguém?
- Está, sim, senhores. Mas tenho andado ocupada com outros alazeres.
27 agosto 2010
ciganos (2)
Fica bem protestar contra estas expulsões, claro.
Façamos como a Mafalda, toca a subir para o banquinho da sala e a protestar, alto e bom som no meio da sala, para que conste. Toca a unir as nossas vozes às dos outros "simpáticos inoperantes".
Não iremos longe, porque o direito de livre movimentação dentro da UE pressupõe que quem vai para outro país tem lá emprego:
For stays for up to three months, the only condition is to have a valid passport or identity card. No entry visas, employment or sufficient resources can be required.EU citizens staying for more than three months must be economically active (i.e. they must work or be self-employed) or have sufficient resources not to become a burden on the social assistance system and have comprehensive sickness insurance cover (Article 7). EU citizens can be removed from the host country if after three months the EU citizen does not meet the above conditions on economic resources and health insurance.
After residing in the country for a continuous period of five years, EU citizens become permanent residents and are free from meeting any conditions.
(de um comunicado da Comissão Europeia)
Nem outra regra seria de esperar, porque não se imagina que todos os desempregados da Europa se instalem livremente no país que tem a melhor Assistência Social e o melhor SNS gratuito.
Voltando ao essencial: existe na Europa um povo destinado à condição de pária, metido num beco sem saída. Invisível para os nossos olhos, excepto quando alguns deles nos incomodam.
O Tratado de Lisboa permite iniciativas dos cidadãos. É possível, se juntarmos as assinaturas necessárias, levar um assunto à Comissão Europeia.
Então, de que estamos à espera para propor a criação de uma comissão especial para os ciganos europeus? Para definir com eles perspectivas dignas de existência e coexistência em todo o espaço europeu, para criar um programa supranacional dotado de fundos suficientes?
Já se vai fazendo muito, é verdade. Mas podíamos ousar mais. Por exemplo: estes 10 a 12 milhões de romanis devem/querem ser integrados no país onde residem, ou deveria ser criado um 28º Estado membro, um Estado sem fronteiras? Devem-se criar quotas nacionais para a sua redistribuição (voluntária, obviamente), em vez de se verem obrigados a permanecer como os mais pobres dos países mais pobres? Pode haver na Europa um povo de nómadas? (imagino, romanticamente e sem pensar muito, o renascimento das rotas comerciais antigas, comerciantes que levam produtos regionais de uma ponta do continente até à outra)
***
Se houvesse um Nobel para revolucionárias de sofá, tinha de começar a pensar em comprar uma roupinha jeitosa para o ir receber...
26 agosto 2010
ciganos
1. Há alguns anos já, li uma notícia sobre bandos organizados residentes na Alsácia, que enviavam à Alemanha, para assaltar casas, miúdos com menos de 14 anos. Jogavam pelo seguro a dois níveis: a idade dos miúdos, e a fronteira. Pelas entrelinhas, deduzia-se que seriam ciganos provenientes da Roménia.
2. Em 2005 fez-se na Suíça um referendo sobre a entrada no espaço de Schengen. Apesar de a UE ameaçar que a não entrada anularia acordos económicos já realizados, o que teria custos gravíssimos para aquele país, o "sim" ganhou por apenas 54,6%. O problema - percebia-se nas entrelinhas - seria a possibilidade de ciganos provenientes da Roménia e da Bulgária poderem entrar livremente na Suíça.
3. Quando vim morar para a Alemanha, em 1989, praticamente não havia pedintes nas ruas. Nos últimos anos o número destes tem vindo a crescer, e a sua idade média tem vindo a diminuir. Já se vêem adolescentes com bebés ao colo a pedir no metro, crianças de 4 ou 5 anos a pedinchar junto às paragens do autocarro.
Pergunto-me porque é que os serviços de protecção de menores não fazem com estes o que fariam com qualquer criança alemã: levá-los para um centro de apoio a menores, averiguar quem são os pais, esclarecer a situação e tomar medidas para garantir a longo prazo a defesa dos interesses das crianças.
Alguns amigos franceses, por sinal gente de esquerda, explicaram-me que é impossível. Que são redes muito bem organizadas, e que os organismos estatais não têm qualquer hipótese de intervenção.
4. Na semana passada, em Lisboa, ouviu-se a seguinte conversa entre duas ciganas, aparentemente mãe e filha, a propósito de um bebé que ia no mesmo eléctrico:
- Ouviste aquele bebé? Que choro irritante!
- Ouvi, ouvi. Até me perguntei porque é que não o atiraste pela janela fora.
- Bem me apeteceu, mas não queria acordar o gato da outra senhora naquele banco.
Quando me contaram, perguntei porque é que não tinham reagido.
"Com ciganos ninguém se mete!", foi a resposta.
5. Recentemente, num artigo de opinião de um diário berlinense, falava-se dos ciganos romenos que invadiram as ruas desta cidade e que chegam a ter comportamentos agressivos se não recebem o dinheiro que pedem. Dizia-se que era preciso encontrar resposta para este problema, e logo se brandia a pústula da História: desta vez, exige-se algo bem diferente da "solução" escolhida há 70 anos.
Sarkozy, pelos vistos, não lê os diários berlinenses. Bem sei que "repatriamento" não é sinónimo de câmaras de gás, mas o princípio é semelhante: ver-se livre do problema, em vez de o resolver de forma digna e justa.
É fundamental protestar contra a actuação do governo francês, mas para além disso - e sobretudo! - procurar com perseverança uma solução digna e justa, mas nunca "final", que tem de começar por:
- Melhorar o conhecimento sobre a realidade dessas pessoas, eliminar a confusão que nos leva a pensar "intruso que não respeita as nossas leis" quando se diz "cigano".
- Enunciar abertamente os motivos do medo e testá-los factualmente; reduzir a indiferença que é consequência daquele medo mais ou menos justificado.
- Retirar do discurso público as entrelinhas e os tabus, procurar palavras justas para falar desta realidade.
E venha então o debate a nível europeu, combinado com um diálogo exigente com os romani e os sinti. Sem tolerâncias nem compaixões, antes com respeito mútuo e vontade de encontrar, em conjunto, uma forma de coexistência pacífica e digna.
(Para que da próxima vez, no eléctrico 28, seja possível dizer de igual para igual, sem complexos nem medos: "Ó minha senhora, francamente! Que mau gosto, esse seu humor!")
vá para dentro lá fora

Na confusão que é aquela minha coluna "passeios" há dois blogues novos, feitos por gente que foi dar uma voltinha pelo mundo e aproveita para passear dentro de si.
O Bacalhau de Bicicleta com Todos é o quase-diário de uma longa aventura de bicicleta nas Américas. Começou há pouco, ainda o apanham no Canadá. A ver se ele explica melhor como é o repelente anti-ursos (assim sem pensar muito - é a minha especialidade - imagino que faça o zumbido de um enxame de abelhas furiosas; ou então, que tenha cheiro de ranger com mau feitio).
O Arrumário é também uma espécie de diário, onde se conta a vida de uma família que foi de Sintra para a ilha Terceira.
Bastante diferentes, têm em comum uma simplicidade e transparência que sabem bem neste nosso tempo de máscaras e ostentação de status.
(Roubei as fotografias àqueles blogues - espero que os proprietários não se zanguem. Um doce a quem adivinhar qual é de quem...)
25 agosto 2010
paciência de chinês
Já estive uma vez dentro de um engarrafamento na auto-estrada que tinha 20 km. Avançava connosco, era terrível. Ao fim de seis horas (e 100 km, ou algo do género) desistimos, e dormimos dentro do carro.Imagino o que será um engarrafamento de 100 km, com camiões cheios de produtos entretanto apodrecidos, com calor...
Imagino o que será a perspectiva de ser preciso um mês até regularizar a situação. Bem vão precisar da tal "paciência de chinês"!
(imagem e notícia: aqui)
estou cá desconfiada...
É que tem um corte muito mais recatado do que o habitual nos tops de Verão.
(mas não ponho fotografias, era o que faltava)
(podia guardar isto para fazer o post de amanhã - o post novo de cada dia, e tal - mas corro o risco de amanhã a Rita aparecer por aí a perguntar se eu sou louca de vestir um top, ou lá o que isto é, com o frio que faz. Sim, senhores: parece que o Outono se aproxima a passos de gigante.)
regresso à escola
("A nossa sorte", diz ela!... sniff)
Logo no primeiro dia, a escola do Matthias organizou uma festinha para os alunos novos. Apesar de recorrente, o fenómeno não deixa de surpreender: antes das férias diz-se nas turmas novas desse ano lectivo que no primeiro dia de aulas têm de trazer bolos, pãezinhos e bebidas para a festa, e eles - seis semanas e várias voltas ao mundo mais tarde - trazem.
Ontem houve reunião dos delegados de pais. A escolocracia no seu melhor.
*suspiro*
O director contou os problemas que tem tido para arranjar novos professores. Porque não os há, e porque o Ministério (que atribui os professores segundo o número de alunos matriculados na escola) não acredita que nesta área haja tantas crianças como as escolas dizem que há. Um desalento: quando finalmente há luz verde para um novo posto, já o professor apalavrado tratou da vida dele alhures.
Para complicar, está cada vez mais difícil arranjar professores ou estagiários com qualidade. O Ministério faculta listas com pessoas disponíveis onde constam estagiários (entenda-se: o estágio é o primeiro ano práctico, etapa sine qua non para poder ser professor) que nem o primeiro exame geral passaram, outros têm mais de cinquenta anos...
Depois discutiram-se critérios para triar os alunos que querem frequentar aquela escola. Até agora, o critério era o tempo que demora a chegar à escola usando os transportes públicos. Até 13 minutos entram todos; no grupo dos restantes tira-se à sorte. A partir do próximo ano, pedem-se novos critérios, que devem ser tornados públicos. Mas quais? Quotas para raparigas, já que a escola tem demasiados rapazes? Notas? Relatórios sobre comportamento? Exame de admissão, que anule o efeito de diferentes critérios de avaliação consoante as escolas primárias? Aulas-teste, para ver como é que os miúdos participam e interagem?
Uma das mães pediu a palavra para dizer que é checa, e que no país dela não há entrada em escola alguma ou fase do ensino (básico, secundário, técnico, universitário) sem exame de aptidão. Não passa, não entra. Outro pai pediu a palavra para dizer que é croata, e portanto a checa também o é (não percebi, confesso; e a checa não gostou) e que no país dele não há exames desses e todos se fazem gente. O director riu-se por conta da globalização estar a invadir a nossa escola, e eu quase ia pedindo a palavra para dizer que sou portuguesa, mas preferi ficar calada, não fosse eles perguntarem-me como é essa coisa de não se poder reprovar os alunos.
A propósito de reprovar: a escola tem cerca de 500 alunos, e no ano passado só reprovaram 9. O que é bastante fácil de explicar: fica numa das regiões mais ricas da cidade, o que pressupõe que os pais tenham meios para ajudar os filhos; é um liceu, ou seja: só entram os alunos que na escola primária se distinguiram por excelente aproveitamento; tem fama de muita exigência, sobretudo nas áreas da matemática e das ciências, o que faz com que alunos menos ambiciosos procurem outras escolas.
Falou-se ainda da venda dos livros escolares usados. Um fiasco: algumas turmas esqueceram-se de trazer os livros para vender, outra esqueceram-se de aparecer para comprar. Apesar dos e-mails enviados a todos os delegados de pais, apesar de a organizadora ter percorrido todas as turmas a lembrar a iniciativa. Vamos tentar mais um ano antes de desistir. Mas alguns pais já desistiram: vendem os livros usados na amazon.
Quanto à escola da Christina: pouco sei, porque não sou lá mãe. Além disso é uma escola católica, e portanto pode relegar os factos para o âmbito dos Mistérios...
A grande inovação na turma dela é que, por terem entrado na última fase do secundário, agora os professores tratam os alunos por você. Que o respeitinho é uma coisa muito bonita.
24 agosto 2010
eventualmente descobriu-se que actualmente terá sido por malícia
Malicioso. E porque não maligno, pernicioso, criminoso?
Leio "malicioso", e imagino um software que faz piadas brejeiras.
É colega do software X, o infeliz que suporta a impressora Y. Muito mau feitio terá essa tal impressora Y, muita paciência terá o software X para a aturar. Com uma piscadela de olhos, o malicioso diz-lhe que "o que lhe falta a ela é um cartucho mais cheio", mas nem assim o anima. Em casa, desabafa com a mulher: "O que eu tenho de suportar... nem imaginas! De um lado a Y, sempre a fazer-se esquisita, e do outro o M, com o seu humor lorpa", e a mulher: "Olha, paciência! Queres jantar? Salvei-te a comida no forno".
Bem sei que malicioso e suportar são expressões técnicas, bem sei que já vou tarde, já foi tarde desde o princípio. E que o esforço para fazer traduções consistentes, eventualmente transformou a nossa língua, dando a certas palavras significados que elas actualmente não tinham.
23 agosto 2010
egoísmo
O Zé Maria agradeceu a visita que lhe fiz.
Não saberá que é por puro egoísmo que o visito?
Combinámos que no próximo ano o levo às festas da Senhora da Agonia. A ver se convenço também a Rosa e o Zé. Quem me dera poder levar todos os amigos!
Quero mostrar-lhes as mordomas orgulhosas, ostentando sobre o peito a confiança que nelas deposita quem lhes empresta aquele excesso de ouro. E os Zés-Pereiras na Praça da República, esse fenómeno de testosterona condensada - iremos para uma varanda que eu cá sei, para que os vejam bem quando formam roda no pico da adrenalina. E o azul impossível do rio Lima, e o verde das suas ilhas (talvez o Zé os possa captar, ele que sabe a arte de traduzir milagres para fotografia). E a procissão, quando os pescadores levam os santos em barcos engalanados a passear no mar - vêdes? é nestas ondas que penamos, lembrai-vos e intercedei por nós na hora da aflição. E os grupos de danças e gritares, tão bem dançam, tão mal cantam (não poderiam descer três tons?). E as barraquinhas de comida regional preparada pelas mulheres dos ranchos: o brio dos desenhos a canela no pratinho de arroz-doce, no amarelo vivo das pataniscas. O Alto Minho.
Gostava de poder partilhar esses dias com eles, e é por puro egoísmo: conto com os seus olhos para tornar esta festa ainda mais especial.

22 agosto 2010
vrrrrruuuummmmmmmmmm
Na autoestrada, iam todos em indesmentível excesso de velocidade. E eu com eles.
De repente, o primeiro da coluna travou, todos travámos, mas já foi tarde para os dois da frente.
Polícia!
Fez-se uma cena muito cómica: seguíamos todos com cara de anjinhos a 100 km/h, atrás do carro da brigada, e ninguém ousava os 120 permitidos. Nem pensar em ultrapassar a Polícia, dar nas vistas. Eia, cidadãos livres! Eia, adultos!
Os dois bodes expiatórios saíram da estrada. Senti pena, quase remorsos - pagariam eles a multa que todos merecíamos.
Ainda os outros avançavam lentamente para o castigo exemplar, já o pessoal à minha frente - vrrrrruuuuuuummmmmmmm - ia outra vez a duzentos. Ou assim.
Eia, valentes!
seis semanas
Também eu não chego: saí ontem ao fim da tarde do Porto, e perdi-me algures sobre a Europa. O invólucro aterrou em Berlim sem problemas, e está agora a ouvir Max Bruch, tentando unir as pontas desatadas de mim.
(Queria passar aqui a primeira das oito peças, a minha preferida, mas não encontrei no youtube uma interpretação suficientemente boa)

