No aeroporto português, o passageiro idoso que estava sentado ao meu lado interessou-se pela notícia que eu estava a ler no jornal Süddeutsche. Começou por falar em alemão, depois passou para inglês. Perguntei-lhe que língua falava. "Hebraico", foi a resposta. O pai dele tinha sido alemão.
Revelei então que o artigo era sobre uma tenista israelita que é precedida por ódio anti-semita em quase todos os torneios internacionais nos quais participa.
- E como é que ela reage a isso?, perguntou. A adversidade torna-a melhor?
Eu ainda ia no início do artigo, não sabia.
Ele falou do horror de viver permanentemente rodeado por ódio. Referiu as guerras, contou que foi soldado ou oficial em quatro delas, e afirmou o direito de Israel a retaliar com muito mais força que a usada pelos seus inimigos. E que por isso é tão criticado e odiado, mas não deixará de o fazer, porque está em causa a sua sobrevivência. Disse-me ainda que, como turista, não preciso de ter preocupações de segurança em Israel - basta que me mantenha longe das zonas de fronteira.
Então perguntei-lhe qual era, na sua opinião, a melhor maneira de resolver o problema entre Israel e os palestinianos.
Respondeu-me que não sabia, que era apenas engenheiro. E foi-se embora.
Fiquei desapontada. Mas logo me passou, quando me lembrei dos ciganos europeus e do pouco espaço que eles ocupam nas minhas preocupações. Que autoridade moral tenho eu para o criticar? No fundo, também "sou apenas engenheira", não tenho nada a ver com os problemas dos outros. Posso seguir caminho, cega e surda aos sintomas de miséria.
(Sim, eu sei: isto está mal comparado. Há diferenças substanciais entre a situação dos ciganos e a dos palestinianos. Mas também vários pontos em comum, quer em termos da assimetria de poderes, quer em termos das suas condições de vida e dos - poucos - esforços feitos para melhorar estruturalmente a situação.)
30 agosto 2010
afazeres
Ai! Que já vamos a meio de segunda-feira e ainda não fiz um post.
Não tarda nada tenho aí os clientes a bater à porta.
- Ó da casa? Está aqui alguém?
- Está, sim, senhores. Mas tenho andado ocupada com outros alazeres.
Não tarda nada tenho aí os clientes a bater à porta.
- Ó da casa? Está aqui alguém?
- Está, sim, senhores. Mas tenho andado ocupada com outros alazeres.
27 agosto 2010
ciganos (2)
Quanto mais penso nisso, mais os protestos contra a expulsão dos ciganos me soam a oco.
Fica bem protestar contra estas expulsões, claro.
Façamos como a Mafalda, toca a subir para o banquinho da sala e a protestar, alto e bom som no meio da sala, para que conste. Toca a unir as nossas vozes às dos outros "simpáticos inoperantes".
Não iremos longe, porque o direito de livre movimentação dentro da UE pressupõe que quem vai para outro país tem lá emprego:
For stays for up to three months, the only condition is to have a valid passport or identity card. No entry visas, employment or sufficient resources can be required.EU citizens staying for more than three months must be economically active (i.e. they must work or be self-employed) or have sufficient resources not to become a burden on the social assistance system and have comprehensive sickness insurance cover (Article 7). EU citizens can be removed from the host country if after three months the EU citizen does not meet the above conditions on economic resources and health insurance.
After residing in the country for a continuous period of five years, EU citizens become permanent residents and are free from meeting any conditions.
(de um comunicado da Comissão Europeia)
Nem outra regra seria de esperar, porque não se imagina que todos os desempregados da Europa se instalem livremente no país que tem a melhor Assistência Social e o melhor SNS gratuito.
Voltando ao essencial: existe na Europa um povo destinado à condição de pária, metido num beco sem saída. Invisível para os nossos olhos, excepto quando alguns deles nos incomodam.
O Tratado de Lisboa permite iniciativas dos cidadãos. É possível, se juntarmos as assinaturas necessárias, levar um assunto à Comissão Europeia.
Então, de que estamos à espera para propor a criação de uma comissão especial para os ciganos europeus? Para definir com eles perspectivas dignas de existência e coexistência em todo o espaço europeu, para criar um programa supranacional dotado de fundos suficientes?
Já se vai fazendo muito, é verdade. Mas podíamos ousar mais. Por exemplo: estes 10 a 12 milhões de romanis devem/querem ser integrados no país onde residem, ou deveria ser criado um 28º Estado membro, um Estado sem fronteiras? Devem-se criar quotas nacionais para a sua redistribuição (voluntária, obviamente), em vez de se verem obrigados a permanecer como os mais pobres dos países mais pobres? Pode haver na Europa um povo de nómadas? (imagino, romanticamente e sem pensar muito, o renascimento das rotas comerciais antigas, comerciantes que levam produtos regionais de uma ponta do continente até à outra)
***
Se houvesse um Nobel para revolucionárias de sofá, tinha de começar a pensar em comprar uma roupinha jeitosa para o ir receber...
Fica bem protestar contra estas expulsões, claro.
Façamos como a Mafalda, toca a subir para o banquinho da sala e a protestar, alto e bom som no meio da sala, para que conste. Toca a unir as nossas vozes às dos outros "simpáticos inoperantes".
Não iremos longe, porque o direito de livre movimentação dentro da UE pressupõe que quem vai para outro país tem lá emprego:
For stays for up to three months, the only condition is to have a valid passport or identity card. No entry visas, employment or sufficient resources can be required.EU citizens staying for more than three months must be economically active (i.e. they must work or be self-employed) or have sufficient resources not to become a burden on the social assistance system and have comprehensive sickness insurance cover (Article 7). EU citizens can be removed from the host country if after three months the EU citizen does not meet the above conditions on economic resources and health insurance.
After residing in the country for a continuous period of five years, EU citizens become permanent residents and are free from meeting any conditions.
(de um comunicado da Comissão Europeia)
Nem outra regra seria de esperar, porque não se imagina que todos os desempregados da Europa se instalem livremente no país que tem a melhor Assistência Social e o melhor SNS gratuito.
Voltando ao essencial: existe na Europa um povo destinado à condição de pária, metido num beco sem saída. Invisível para os nossos olhos, excepto quando alguns deles nos incomodam.
O Tratado de Lisboa permite iniciativas dos cidadãos. É possível, se juntarmos as assinaturas necessárias, levar um assunto à Comissão Europeia.
Então, de que estamos à espera para propor a criação de uma comissão especial para os ciganos europeus? Para definir com eles perspectivas dignas de existência e coexistência em todo o espaço europeu, para criar um programa supranacional dotado de fundos suficientes?
Já se vai fazendo muito, é verdade. Mas podíamos ousar mais. Por exemplo: estes 10 a 12 milhões de romanis devem/querem ser integrados no país onde residem, ou deveria ser criado um 28º Estado membro, um Estado sem fronteiras? Devem-se criar quotas nacionais para a sua redistribuição (voluntária, obviamente), em vez de se verem obrigados a permanecer como os mais pobres dos países mais pobres? Pode haver na Europa um povo de nómadas? (imagino, romanticamente e sem pensar muito, o renascimento das rotas comerciais antigas, comerciantes que levam produtos regionais de uma ponta do continente até à outra)
***
Se houvesse um Nobel para revolucionárias de sofá, tinha de começar a pensar em comprar uma roupinha jeitosa para o ir receber...
26 agosto 2010
ciganos
Neste momento, em plena onda de protestos contra a França devido ao desmantelamento de acampamentos ilegais e ao repatriamento de ciganos (o que, aliás, não é novo: há alguns meses, fizeram-no com grupos de imigrantes ilegais), recordo alguns episódios soltos ligados a esta difícil coexistência. Porque há que protestar, sem dúvida, mas não se pode escamotear os factos - e estes são muito preocupantes.
1. Há alguns anos já, li uma notícia sobre bandos organizados residentes na Alsácia, que enviavam à Alemanha, para assaltar casas, miúdos com menos de 14 anos. Jogavam pelo seguro a dois níveis: a idade dos miúdos, e a fronteira. Pelas entrelinhas, deduzia-se que seriam ciganos provenientes da Roménia.
2. Em 2005 fez-se na Suíça um referendo sobre a entrada no espaço de Schengen. Apesar de a UE ameaçar que a não entrada anularia acordos económicos já realizados, o que teria custos gravíssimos para aquele país, o "sim" ganhou por apenas 54,6%. O problema - percebia-se nas entrelinhas - seria a possibilidade de ciganos provenientes da Roménia e da Bulgária poderem entrar livremente na Suíça.
3. Quando vim morar para a Alemanha, em 1989, praticamente não havia pedintes nas ruas. Nos últimos anos o número destes tem vindo a crescer, e a sua idade média tem vindo a diminuir. Já se vêem adolescentes com bebés ao colo a pedir no metro, crianças de 4 ou 5 anos a pedinchar junto às paragens do autocarro.
Pergunto-me porque é que os serviços de protecção de menores não fazem com estes o que fariam com qualquer criança alemã: levá-los para um centro de apoio a menores, averiguar quem são os pais, esclarecer a situação e tomar medidas para garantir a longo prazo a defesa dos interesses das crianças.
Alguns amigos franceses, por sinal gente de esquerda, explicaram-me que é impossível. Que são redes muito bem organizadas, e que os organismos estatais não têm qualquer hipótese de intervenção.
4. Na semana passada, em Lisboa, ouviu-se a seguinte conversa entre duas ciganas, aparentemente mãe e filha, a propósito de um bebé que ia no mesmo eléctrico:
- Ouviste aquele bebé? Que choro irritante!
- Ouvi, ouvi. Até me perguntei porque é que não o atiraste pela janela fora.
- Bem me apeteceu, mas não queria acordar o gato da outra senhora naquele banco.
Quando me contaram, perguntei porque é que não tinham reagido.
"Com ciganos ninguém se mete!", foi a resposta.
5. Recentemente, num artigo de opinião de um diário berlinense, falava-se dos ciganos romenos que invadiram as ruas desta cidade e que chegam a ter comportamentos agressivos se não recebem o dinheiro que pedem. Dizia-se que era preciso encontrar resposta para este problema, e logo se brandia a pústula da História: desta vez, exige-se algo bem diferente da "solução" escolhida há 70 anos.
Sarkozy, pelos vistos, não lê os diários berlinenses. Bem sei que "repatriamento" não é sinónimo de câmaras de gás, mas o princípio é semelhante: ver-se livre do problema, em vez de o resolver de forma digna e justa.
É fundamental protestar contra a actuação do governo francês, mas para além disso - e sobretudo! - procurar com perseverança uma solução digna e justa, mas nunca "final", que tem de começar por:
- Melhorar o conhecimento sobre a realidade dessas pessoas, eliminar a confusão que nos leva a pensar "intruso que não respeita as nossas leis" quando se diz "cigano".
- Enunciar abertamente os motivos do medo e testá-los factualmente; reduzir a indiferença que é consequência daquele medo mais ou menos justificado.
- Retirar do discurso público as entrelinhas e os tabus, procurar palavras justas para falar desta realidade.
E venha então o debate a nível europeu, combinado com um diálogo exigente com os romani e os sinti. Sem tolerâncias nem compaixões, antes com respeito mútuo e vontade de encontrar, em conjunto, uma forma de coexistência pacífica e digna.
(Para que da próxima vez, no eléctrico 28, seja possível dizer de igual para igual, sem complexos nem medos: "Ó minha senhora, francamente! Que mau gosto, esse seu humor!")
1. Há alguns anos já, li uma notícia sobre bandos organizados residentes na Alsácia, que enviavam à Alemanha, para assaltar casas, miúdos com menos de 14 anos. Jogavam pelo seguro a dois níveis: a idade dos miúdos, e a fronteira. Pelas entrelinhas, deduzia-se que seriam ciganos provenientes da Roménia.
2. Em 2005 fez-se na Suíça um referendo sobre a entrada no espaço de Schengen. Apesar de a UE ameaçar que a não entrada anularia acordos económicos já realizados, o que teria custos gravíssimos para aquele país, o "sim" ganhou por apenas 54,6%. O problema - percebia-se nas entrelinhas - seria a possibilidade de ciganos provenientes da Roménia e da Bulgária poderem entrar livremente na Suíça.
3. Quando vim morar para a Alemanha, em 1989, praticamente não havia pedintes nas ruas. Nos últimos anos o número destes tem vindo a crescer, e a sua idade média tem vindo a diminuir. Já se vêem adolescentes com bebés ao colo a pedir no metro, crianças de 4 ou 5 anos a pedinchar junto às paragens do autocarro.
Pergunto-me porque é que os serviços de protecção de menores não fazem com estes o que fariam com qualquer criança alemã: levá-los para um centro de apoio a menores, averiguar quem são os pais, esclarecer a situação e tomar medidas para garantir a longo prazo a defesa dos interesses das crianças.
Alguns amigos franceses, por sinal gente de esquerda, explicaram-me que é impossível. Que são redes muito bem organizadas, e que os organismos estatais não têm qualquer hipótese de intervenção.
4. Na semana passada, em Lisboa, ouviu-se a seguinte conversa entre duas ciganas, aparentemente mãe e filha, a propósito de um bebé que ia no mesmo eléctrico:
- Ouviste aquele bebé? Que choro irritante!
- Ouvi, ouvi. Até me perguntei porque é que não o atiraste pela janela fora.
- Bem me apeteceu, mas não queria acordar o gato da outra senhora naquele banco.
Quando me contaram, perguntei porque é que não tinham reagido.
"Com ciganos ninguém se mete!", foi a resposta.
5. Recentemente, num artigo de opinião de um diário berlinense, falava-se dos ciganos romenos que invadiram as ruas desta cidade e que chegam a ter comportamentos agressivos se não recebem o dinheiro que pedem. Dizia-se que era preciso encontrar resposta para este problema, e logo se brandia a pústula da História: desta vez, exige-se algo bem diferente da "solução" escolhida há 70 anos.
Sarkozy, pelos vistos, não lê os diários berlinenses. Bem sei que "repatriamento" não é sinónimo de câmaras de gás, mas o princípio é semelhante: ver-se livre do problema, em vez de o resolver de forma digna e justa.
É fundamental protestar contra a actuação do governo francês, mas para além disso - e sobretudo! - procurar com perseverança uma solução digna e justa, mas nunca "final", que tem de começar por:
- Melhorar o conhecimento sobre a realidade dessas pessoas, eliminar a confusão que nos leva a pensar "intruso que não respeita as nossas leis" quando se diz "cigano".
- Enunciar abertamente os motivos do medo e testá-los factualmente; reduzir a indiferença que é consequência daquele medo mais ou menos justificado.
- Retirar do discurso público as entrelinhas e os tabus, procurar palavras justas para falar desta realidade.
E venha então o debate a nível europeu, combinado com um diálogo exigente com os romani e os sinti. Sem tolerâncias nem compaixões, antes com respeito mútuo e vontade de encontrar, em conjunto, uma forma de coexistência pacífica e digna.
(Para que da próxima vez, no eléctrico 28, seja possível dizer de igual para igual, sem complexos nem medos: "Ó minha senhora, francamente! Que mau gosto, esse seu humor!")
vá para dentro lá fora

Na confusão que é aquela minha coluna "passeios" há dois blogues novos, feitos por gente que foi dar uma voltinha pelo mundo e aproveita para passear dentro de si.
O Bacalhau de Bicicleta com Todos é o quase-diário de uma longa aventura de bicicleta nas Américas. Começou há pouco, ainda o apanham no Canadá. A ver se ele explica melhor como é o repelente anti-ursos (assim sem pensar muito - é a minha especialidade - imagino que faça o zumbido de um enxame de abelhas furiosas; ou então, que tenha cheiro de ranger com mau feitio).
O Arrumário é também uma espécie de diário, onde se conta a vida de uma família que foi de Sintra para a ilha Terceira.
Bastante diferentes, têm em comum uma simplicidade e transparência que sabem bem neste nosso tempo de máscaras e ostentação de status.
(Roubei as fotografias àqueles blogues - espero que os proprietários não se zanguem. Um doce a quem adivinhar qual é de quem...)
25 agosto 2010
paciência de chinês
Já estive uma vez dentro de um engarrafamento na auto-estrada que tinha 20 km. Avançava connosco, era terrível. Ao fim de seis horas (e 100 km, ou algo do género) desistimos, e dormimos dentro do carro.Imagino o que será um engarrafamento de 100 km, com camiões cheios de produtos entretanto apodrecidos, com calor...
Imagino o que será a perspectiva de ser preciso um mês até regularizar a situação. Bem vão precisar da tal "paciência de chinês"!
(imagem e notícia: aqui)
estou cá desconfiada...
Estou cá desconfiada que por engano vesti uma camisola interior em vez de um top.
É que tem um corte muito mais recatado do que o habitual nos tops de Verão.
(mas não ponho fotografias, era o que faltava)
(podia guardar isto para fazer o post de amanhã - o post novo de cada dia, e tal - mas corro o risco de amanhã a Rita aparecer por aí a perguntar se eu sou louca de vestir um top, ou lá o que isto é, com o frio que faz. Sim, senhores: parece que o Outono se aproxima a passos de gigante.)
É que tem um corte muito mais recatado do que o habitual nos tops de Verão.
(mas não ponho fotografias, era o que faltava)
(podia guardar isto para fazer o post de amanhã - o post novo de cada dia, e tal - mas corro o risco de amanhã a Rita aparecer por aí a perguntar se eu sou louca de vestir um top, ou lá o que isto é, com o frio que faz. Sim, senhores: parece que o Outono se aproxima a passos de gigante.)
regresso à escola
Em Berlim, as aulas começaram na segunda-feira passada. Menos mal: em Weimar já tivemos um ano em que começaram no dia 4 de Agosto. A nossa sorte é que por estes lados o Verão é assim a modos que, pelo que passar Agosto numa sala de aulas não é tão horrível como um português possa imaginar.
("A nossa sorte", diz ela!... sniff)
Logo no primeiro dia, a escola do Matthias organizou uma festinha para os alunos novos. Apesar de recorrente, o fenómeno não deixa de surpreender: antes das férias diz-se nas turmas novas desse ano lectivo que no primeiro dia de aulas têm de trazer bolos, pãezinhos e bebidas para a festa, e eles - seis semanas e várias voltas ao mundo mais tarde - trazem.
Ontem houve reunião dos delegados de pais. A escolocracia no seu melhor.
*suspiro*
O director contou os problemas que tem tido para arranjar novos professores. Porque não os há, e porque o Ministério (que atribui os professores segundo o número de alunos matriculados na escola) não acredita que nesta área haja tantas crianças como as escolas dizem que há. Um desalento: quando finalmente há luz verde para um novo posto, já o professor apalavrado tratou da vida dele alhures.
Para complicar, está cada vez mais difícil arranjar professores ou estagiários com qualidade. O Ministério faculta listas com pessoas disponíveis onde constam estagiários (entenda-se: o estágio é o primeiro ano práctico, etapa sine qua non para poder ser professor) que nem o primeiro exame geral passaram, outros têm mais de cinquenta anos...
Depois discutiram-se critérios para triar os alunos que querem frequentar aquela escola. Até agora, o critério era o tempo que demora a chegar à escola usando os transportes públicos. Até 13 minutos entram todos; no grupo dos restantes tira-se à sorte. A partir do próximo ano, pedem-se novos critérios, que devem ser tornados públicos. Mas quais? Quotas para raparigas, já que a escola tem demasiados rapazes? Notas? Relatórios sobre comportamento? Exame de admissão, que anule o efeito de diferentes critérios de avaliação consoante as escolas primárias? Aulas-teste, para ver como é que os miúdos participam e interagem?
Uma das mães pediu a palavra para dizer que é checa, e que no país dela não há entrada em escola alguma ou fase do ensino (básico, secundário, técnico, universitário) sem exame de aptidão. Não passa, não entra. Outro pai pediu a palavra para dizer que é croata, e portanto a checa também o é (não percebi, confesso; e a checa não gostou) e que no país dele não há exames desses e todos se fazem gente. O director riu-se por conta da globalização estar a invadir a nossa escola, e eu quase ia pedindo a palavra para dizer que sou portuguesa, mas preferi ficar calada, não fosse eles perguntarem-me como é essa coisa de não se poder reprovar os alunos.
A propósito de reprovar: a escola tem cerca de 500 alunos, e no ano passado só reprovaram 9. O que é bastante fácil de explicar: fica numa das regiões mais ricas da cidade, o que pressupõe que os pais tenham meios para ajudar os filhos; é um liceu, ou seja: só entram os alunos que na escola primária se distinguiram por excelente aproveitamento; tem fama de muita exigência, sobretudo nas áreas da matemática e das ciências, o que faz com que alunos menos ambiciosos procurem outras escolas.
Falou-se ainda da venda dos livros escolares usados. Um fiasco: algumas turmas esqueceram-se de trazer os livros para vender, outra esqueceram-se de aparecer para comprar. Apesar dos e-mails enviados a todos os delegados de pais, apesar de a organizadora ter percorrido todas as turmas a lembrar a iniciativa. Vamos tentar mais um ano antes de desistir. Mas alguns pais já desistiram: vendem os livros usados na amazon.
Quanto à escola da Christina: pouco sei, porque não sou lá mãe. Além disso é uma escola católica, e portanto pode relegar os factos para o âmbito dos Mistérios...
A grande inovação na turma dela é que, por terem entrado na última fase do secundário, agora os professores tratam os alunos por você. Que o respeitinho é uma coisa muito bonita.
("A nossa sorte", diz ela!... sniff)
Logo no primeiro dia, a escola do Matthias organizou uma festinha para os alunos novos. Apesar de recorrente, o fenómeno não deixa de surpreender: antes das férias diz-se nas turmas novas desse ano lectivo que no primeiro dia de aulas têm de trazer bolos, pãezinhos e bebidas para a festa, e eles - seis semanas e várias voltas ao mundo mais tarde - trazem.
Ontem houve reunião dos delegados de pais. A escolocracia no seu melhor.
*suspiro*
O director contou os problemas que tem tido para arranjar novos professores. Porque não os há, e porque o Ministério (que atribui os professores segundo o número de alunos matriculados na escola) não acredita que nesta área haja tantas crianças como as escolas dizem que há. Um desalento: quando finalmente há luz verde para um novo posto, já o professor apalavrado tratou da vida dele alhures.
Para complicar, está cada vez mais difícil arranjar professores ou estagiários com qualidade. O Ministério faculta listas com pessoas disponíveis onde constam estagiários (entenda-se: o estágio é o primeiro ano práctico, etapa sine qua non para poder ser professor) que nem o primeiro exame geral passaram, outros têm mais de cinquenta anos...
Depois discutiram-se critérios para triar os alunos que querem frequentar aquela escola. Até agora, o critério era o tempo que demora a chegar à escola usando os transportes públicos. Até 13 minutos entram todos; no grupo dos restantes tira-se à sorte. A partir do próximo ano, pedem-se novos critérios, que devem ser tornados públicos. Mas quais? Quotas para raparigas, já que a escola tem demasiados rapazes? Notas? Relatórios sobre comportamento? Exame de admissão, que anule o efeito de diferentes critérios de avaliação consoante as escolas primárias? Aulas-teste, para ver como é que os miúdos participam e interagem?
Uma das mães pediu a palavra para dizer que é checa, e que no país dela não há entrada em escola alguma ou fase do ensino (básico, secundário, técnico, universitário) sem exame de aptidão. Não passa, não entra. Outro pai pediu a palavra para dizer que é croata, e portanto a checa também o é (não percebi, confesso; e a checa não gostou) e que no país dele não há exames desses e todos se fazem gente. O director riu-se por conta da globalização estar a invadir a nossa escola, e eu quase ia pedindo a palavra para dizer que sou portuguesa, mas preferi ficar calada, não fosse eles perguntarem-me como é essa coisa de não se poder reprovar os alunos.
A propósito de reprovar: a escola tem cerca de 500 alunos, e no ano passado só reprovaram 9. O que é bastante fácil de explicar: fica numa das regiões mais ricas da cidade, o que pressupõe que os pais tenham meios para ajudar os filhos; é um liceu, ou seja: só entram os alunos que na escola primária se distinguiram por excelente aproveitamento; tem fama de muita exigência, sobretudo nas áreas da matemática e das ciências, o que faz com que alunos menos ambiciosos procurem outras escolas.
Falou-se ainda da venda dos livros escolares usados. Um fiasco: algumas turmas esqueceram-se de trazer os livros para vender, outra esqueceram-se de aparecer para comprar. Apesar dos e-mails enviados a todos os delegados de pais, apesar de a organizadora ter percorrido todas as turmas a lembrar a iniciativa. Vamos tentar mais um ano antes de desistir. Mas alguns pais já desistiram: vendem os livros usados na amazon.
Quanto à escola da Christina: pouco sei, porque não sou lá mãe. Além disso é uma escola católica, e portanto pode relegar os factos para o âmbito dos Mistérios...
A grande inovação na turma dela é que, por terem entrado na última fase do secundário, agora os professores tratam os alunos por você. Que o respeitinho é uma coisa muito bonita.
24 agosto 2010
eventualmente descobriu-se que actualmente terá sido por malícia
O Público informa que software malicioso pode ter sido parcialmente responsável pela queda de um avião.
Malicioso. E porque não maligno, pernicioso, criminoso?
Leio "malicioso", e imagino um software que faz piadas brejeiras.
É colega do software X, o infeliz que suporta a impressora Y. Muito mau feitio terá essa tal impressora Y, muita paciência terá o software X para a aturar. Com uma piscadela de olhos, o malicioso diz-lhe que "o que lhe falta a ela é um cartucho mais cheio", mas nem assim o anima. Em casa, desabafa com a mulher: "O que eu tenho de suportar... nem imaginas! De um lado a Y, sempre a fazer-se esquisita, e do outro o M, com o seu humor lorpa", e a mulher: "Olha, paciência! Queres jantar? Salvei-te a comida no forno".
Bem sei que malicioso e suportar são expressões técnicas, bem sei que já vou tarde, já foi tarde desde o princípio. E que o esforço para fazer traduções consistentes, eventualmente transformou a nossa língua, dando a certas palavras significados que elas actualmente não tinham.
Malicioso. E porque não maligno, pernicioso, criminoso?
Leio "malicioso", e imagino um software que faz piadas brejeiras.
É colega do software X, o infeliz que suporta a impressora Y. Muito mau feitio terá essa tal impressora Y, muita paciência terá o software X para a aturar. Com uma piscadela de olhos, o malicioso diz-lhe que "o que lhe falta a ela é um cartucho mais cheio", mas nem assim o anima. Em casa, desabafa com a mulher: "O que eu tenho de suportar... nem imaginas! De um lado a Y, sempre a fazer-se esquisita, e do outro o M, com o seu humor lorpa", e a mulher: "Olha, paciência! Queres jantar? Salvei-te a comida no forno".
Bem sei que malicioso e suportar são expressões técnicas, bem sei que já vou tarde, já foi tarde desde o princípio. E que o esforço para fazer traduções consistentes, eventualmente transformou a nossa língua, dando a certas palavras significados que elas actualmente não tinham.
23 agosto 2010
egoísmo
O Zé Maria agradeceu a visita que lhe fiz.
Não saberá que é por puro egoísmo que o visito?
Combinámos que no próximo ano o levo às festas da Senhora da Agonia. A ver se convenço também a Rosa e o Zé. Quem me dera poder levar todos os amigos!
Quero mostrar-lhes as mordomas orgulhosas, ostentando sobre o peito a confiança que nelas deposita quem lhes empresta aquele excesso de ouro. E os Zés-Pereiras na Praça da República, esse fenómeno de testosterona condensada - iremos para uma varanda que eu cá sei, para que os vejam bem quando formam roda no pico da adrenalina. E o azul impossível do rio Lima, e o verde das suas ilhas (talvez o Zé os possa captar, ele que sabe a arte de traduzir milagres para fotografia). E a procissão, quando os pescadores levam os santos em barcos engalanados a passear no mar - vêdes? é nestas ondas que penamos, lembrai-vos e intercedei por nós na hora da aflição. E os grupos de danças e gritares, tão bem dançam, tão mal cantam (não poderiam descer três tons?). E as barraquinhas de comida regional preparada pelas mulheres dos ranchos: o brio dos desenhos a canela no pratinho de arroz-doce, no amarelo vivo das pataniscas. O Alto Minho.
Gostava de poder partilhar esses dias com eles, e é por puro egoísmo: conto com os seus olhos para tornar esta festa ainda mais especial.

22 agosto 2010
vrrrrruuuummmmmmmmmm
Em Roma sê romano?
Na autoestrada, iam todos em indesmentível excesso de velocidade. E eu com eles.
De repente, o primeiro da coluna travou, todos travámos, mas já foi tarde para os dois da frente.
Polícia!
Fez-se uma cena muito cómica: seguíamos todos com cara de anjinhos a 100 km/h, atrás do carro da brigada, e ninguém ousava os 120 permitidos. Nem pensar em ultrapassar a Polícia, dar nas vistas. Eia, cidadãos livres! Eia, adultos!
Os dois bodes expiatórios saíram da estrada. Senti pena, quase remorsos - pagariam eles a multa que todos merecíamos.
Ainda os outros avançavam lentamente para o castigo exemplar, já o pessoal à minha frente - vrrrrruuuuuuummmmmmmm - ia outra vez a duzentos. Ou assim.
Eia, valentes!
Na autoestrada, iam todos em indesmentível excesso de velocidade. E eu com eles.
De repente, o primeiro da coluna travou, todos travámos, mas já foi tarde para os dois da frente.
Polícia!
Fez-se uma cena muito cómica: seguíamos todos com cara de anjinhos a 100 km/h, atrás do carro da brigada, e ninguém ousava os 120 permitidos. Nem pensar em ultrapassar a Polícia, dar nas vistas. Eia, cidadãos livres! Eia, adultos!
Os dois bodes expiatórios saíram da estrada. Senti pena, quase remorsos - pagariam eles a multa que todos merecíamos.
Ainda os outros avançavam lentamente para o castigo exemplar, já o pessoal à minha frente - vrrrrruuuuuuummmmmmmm - ia outra vez a duzentos. Ou assim.
Eia, valentes!
seis semanas
Fossem elas doze, e nem assim chegavam.
Também eu não chego: saí ontem ao fim da tarde do Porto, e perdi-me algures sobre a Europa. O invólucro aterrou em Berlim sem problemas, e está agora a ouvir Max Bruch, tentando unir as pontas desatadas de mim.
(Queria passar aqui a primeira das oito peças, a minha preferida, mas não encontrei no youtube uma interpretação suficientemente boa)
Também eu não chego: saí ontem ao fim da tarde do Porto, e perdi-me algures sobre a Europa. O invólucro aterrou em Berlim sem problemas, e está agora a ouvir Max Bruch, tentando unir as pontas desatadas de mim.
(Queria passar aqui a primeira das oito peças, a minha preferida, mas não encontrei no youtube uma interpretação suficientemente boa)
07 julho 2010
este blogue vai meter umas semanitas de férias...
...que também merece!
Aos amigos que me visitam aqui: que tenham um bom Verão, e até já!
Aos amigos que me visitam aqui: que tenham um bom Verão, e até já!
e agora vou revelar o grande segredo dos alemães...
Para quem se pergunta porque é que a selecção alemã tem tanto sucesso, e consegue marcar tantos golos, e tal, hoje vou revelar o segredo - e é porque estou a sair para férias, e é só por ser para vocês, que são gente boa.
Ora então, o segredo é:
Treinar.
Treinar muito.
Treinar sempre.
Nunca perder uma oportunidade de treinar.

(fotografado com o telemóvel numa casa de banho de um centro de ocupação de tempos livres de jovens)
Ora então, o segredo é:
Treinar.
Treinar muito.
Treinar sempre.
Nunca perder uma oportunidade de treinar.

(fotografado com o telemóvel numa casa de banho de um centro de ocupação de tempos livres de jovens)
02 julho 2010
Monument Valley

A aproximação mais deslumbrante a Monument Valley é pela scenic road 163, vindo de Bluff.
Ainda tentei convencer os companheiros de jornada a irmos almoçar a Bluff (tem lá um restaurante realmente agradável e com óptima cozinha - um caso raro no Sudoeste -, junto a um trading post com artesanato indígena realmente bonito e finamente trabalhado - outro caso raro no Sudoeste) mas eles estavam com pouca vontade de viajar setenta milhas suplementares. Além disso, já tínhamos feito aquele percurso em 2001, e é de supor que no entretanto a paisagem não se tenha alterado substancialmente para melhor.
Estava tudo marcado para nos encontrarmos com um guia a meio da tarde no The View Hotel. Iríamos no carro dele para o interior do parque, e lá ficaríamos acampados. Com a promessa de um pôr-do-sol inesquecível, um serão mágico sob as estrelas, uma alvorada deslumbrante. Cinco meses antes telefonara a combinar tudo (se não acreditam: tenho provas), uns dias antes telefonara de novo, tudo OK.
Chegámos ao hotel, nada. Perguntámos na recepção, não sabiam de nada. Esperámos. Perguntámos de novo. Foram muito simpáticos: telefonaram para a empresa, perguntaram. Esperámos de novo. O que não é tão trágico como parece: todo aquele hotel é uma beleza de bom gosto, cultura tradicional e conforto. A paisagem é extraordinária (não é por acaso que se chama "The View"), e tem várias lojas onde se pode gastar muito tempo como nos museus: a ver. Finalmente, apareceram dois navajos. Completamente alheios a tudo, começaram a desenrascar uma solução (aqui arrisco uma hipótese revolucionária: o seu povo não terá vindo pelo estreito de Bering, mas com os primeiros bacalhoeiros portugueses). O problema é que nós já tínhamos passado duas horas naqueles sofás confortáveis, e a última coisa que nos apetecia era sair para o meio da natureza agreste, para uma noitada que não tinha sido convenientemente preparada. Comecei a temer que nos servissem pizza congelada ao jantar, por não terem tido tempo de pedir à avó que lhes fizesse boas comidinhas tradicionais. De modo que perguntámos delicadamente se eles ficariam muito frustrados se não nos tivessem como companhia naquela noite, e a cara de alívio que fizeram deu-me vontade de correr para o psicólogo mais próximo. Combinámos que no dia seguinte nos encontraríamos às cinco e meia da madrugada para ir ver o nascer do sol nos confins sagrados do vale, e fomos a correr alugar um quarto. Conseguimos o último disponível, nas traseiras do hotel, e com apenas uma cama.
O The View Hotel foi construído em 2008 sobre uma plataforma natural, em frente às duas formações Mitten (as duas luvas mais fotografadas do mundo inteiro, depois das do Michael Jackson). Procurou-se integrar o edifício na paisagem, dando-lhe a mesma cor das rochas adjacentes, e fazê-lo reflectir a cultura navajo, para o que usaram na decoração os seus elementos estilísticos e artesanato. Quase todos os quartos são virados para aquele espectacular cenário. Nas traseiras, ao lado do parque de estacionamento, tem alguns quartos mais pequenos, apenas com uma cama - ao contrário do habitual em hotéis americanos, que é duas camas de casal -, por metade do preço. Tendo em conta que (1) nós queríamos o quarto para dormir e não para ver a paisagem, (2) metade do preço é sempre uma vantagem e (3) era o único que havia, aceitámos muito contentes e aliviados o que nos deram. Tanto mais que não se importavam que trouxéssemos do carro os colchões de campismo dos miúdos para eles dormirem no chão.
Junto ao hotel inicia-se um percurso panorâmico pelo vale, com 17 milhas, que pode ser feito sem guia, mas exige carro adequado: as estradas são meros caminhos de terra batida, esburacados e cheios de pedras. Resolvemos aproveitar as últimas horas de luz para fazer esse passeio.
As formações mais interessantes têm nomes para turista ver: Titanic, Elefante, Três Freiras, Polegar. Mas os navajos não esqueceram os nomes antigos, e o carácter sagrado daquelas pedras. Esta é terra tocada pelos Entes Sagrados, que no princípio do mundo nela abriram os seus caminhos.

As "luvas" (The Mittens), por exemplo: são duas mãos adormecidas, deixadas pelos Sagrados como promessa de que um dia regressarão e governarão o mundo a partir de Monument Valley. Nelas mora o Talking God que, a cada amanhecer, surge da terra e abençoa todas as rochas e mesas do vale.
Mau grado o insigne inquilino, a formação da direita, Merrick Butte, é assim chamada em memória de um soldado que tentou arrancar prata desta terra, e foi morto e enterrado ali mesmo, juntamente com um amigo que empresta o nome a outra butte famosa, a Mitchell Butte.



No meio de tantas rochas e areia, uma surpresa: vida.
Árvores, e um verde fascinante, muito vivo no contraste com a terra avermelhada.

Ao anoitecer fizemos esta fotografia. Claro que o que se vê é só resultado de uma incompetência fotográfica teimosamente cultivada. Mas podemos inventar, e garantir que em Monument Valley vimos os Espíritos sair da terra ao anoitecer - para abençoar as pedras, e talvez até o que resta de orvalho nas estrelas.
O jantar, no restaurante do hotel, foi memorável: uma interpretação moderna da culinária navajo. Tudo muito saboroso. E um fry bread com mel que era de comer e engordar por mais. Um músico da região fazia música ambiente numa flauta tradicional, o que, sendo muito bonito, não nos dava jeito nenhum: temos a mania de conversar enquanto comemos.
A seguir ao jantar, passaram um filme ao ar livre. Tudo perfeito: a temperatura amena, as estrelas, os famosos maciços rochosos recortando-se contra o que sobrava de luz, um western filmado naquele local. De John Ford, obviamente - que, em troca do uso daquele cenário, decidiu deixar aos navajos os vestígios da sua passagem, e por isso lhes ofereceu os edifícios que tinham sido construídos para fazer os filmes. Revelando rara intuição, os navajos agradeceram penhorados, e a seguir mataram dois coelhos de uma cajadada só: desmantelaram tudo, levaram os materiais para melhorar as suas casas, e livraram-se do risco de ver nascer nas suas terras uma espécie de Westernland com shows variados, montanhas russas e hot-dogs.
Pois, o filme. "She Wore a Yellow Ribbon", com as trapalhadas da cavalaria, uma história de não-amor mal-amanhada, e índios ameaçadores: uma gente muito má, muito má, muito má. Não sei que me parece passarem aqueles filmes numa reserva navajo - para nós foi muito penoso. Aproveitei estarmos no terraço, ao ar livre, para virar a minha cadeira na direcção das estrelas. O John Ford que me perdoe.
Também nos foi muito penoso levantar às cinco da manhã, para nos encontrarmos com o nosso guia. E subir para o seu pequeno camião do "shake and bake tours". Mas valeu a pena.


Passámos por um regato de prata e fomos para uma planície junto de Yeibi’chei e do Totem Pole, onde vimos nascer o sol na mais absoluta tranquilidade.
Reza a lenda que Yeibi’chei são seres sagrados petrificados. Nós vimos sentinelas atentas à primeira luz da madrugada. A seu lado, o Totem Pole, uma das pedras mais sagradas do vale. Junto à coluna fazem-se oferendas e rezas para que os deuses enviem a tão almejada chuva.
(Os miúdos interessaram-se muito por esta formação, mas não conto porquê)


O mais fascinante, para mim, era a luz rasa da manhã que mudava a substância de tudo o que tocava.


O guia era homem de poucas palavras - uma experiência bem diferente da que tivéramos em Canyon de Chelly. Mesmo assim, conversámos um pouco. Contámos-lhe do nosso desconforto ao ver o filme do dia anterior, onde os índios apareciam sempre de perfil e com ar selvático e ameaçador. Ele riu-se, e comentou com um certo desprezo: "o John Ford filmava sempre em frente às mesmas rochas".
Depois levou-nos a passear pelo vale.

e a ver vestígios dos antigos.
Dizia-nos: "venha para aqui, para fazer uma boa fotografia", e nós íamos e fazíamos como ele mandava.
Os miúdos, que sabiam bem que pisávamos solo sagrado, perguntavam: podemos ir até ali? podemos ir até acolá?
Ele ria-se: se acham que conseguem, podem.
Ele próprio subia aos sítios mais incríveis. Contou-nos que ninguém do seu povo sofria de vertigens. Nós muito admirados, e os de Manhattan ainda mais: eles pensavam que eram só os mohawk...
De novo na carrinha, de regresso ao hotel, o guia estacou de repente e saltou para a estrada. Começou a andar de um lado para o outro, olhando para o chão. Saímos também. Mostrou-nos marcas na areia: "passou por aqui uma cobra". Seguia-lhe o rasto. Cumpria na perfeição o seu papel de índio, e nós o de turistas satisfeitos: fizemos fotografias, procurámos a cobra com ele. Finalmente, apontou para um buraco: "deve ter-se metido por ali".
Regressámos ao carro sentindo uma enorme admiração por ele. Das duas, uma: ou combinou previamente com a cobra, ou tem olhos de lince para conseguir distinguir, àquela distância, o rasto dos diferentes animais no caminho.


Já perto do hotel, vimos um balão junto a The Hub. Para os turistas, é uma roda e o seu eixo. Para os navajos, é um hogan que se transformou em pedra, rodeado de bisontes, também eles petrificados.Despedimo-nos do nosso guia, fomos tomar o pequeno-almoço, depois o Joachim foi correr um bocado porque se andava a preparar para a maratona de Setembro, em Berlim. Chegou passada meia-hora, esgotado de calor. Aplaudimos muito o nosso herói. Uma última fotografia das residências do Talking God, e zarpámos.

Etapa seguinte: Lake Powel e Antelope Canyon. E ainda: travessia do Grand Canyon para os homens, Las Vegas para as mulheres (poupem-me às piadinhas, por favor). E Coral Pink Sand Dunes. E Bryce Canyon. E a scenic route 12.
Em Setembro conto o resto. De momento não posso, porque tenho compromissos importantes e inadiáveis.
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os berlinenses e as vuvuzelas
Algumas cidades alemãs proibiram as vuvuzelas.
Em Berlim, parece-me, há poucas. Ou então, é a gente do meu bairro que não é muito dada a essas coisas.
Mas há, ainda assim, as suficientes para que o típico humor berlinense se manifeste.
1. No domingo passado, a Filarmónica deu o habitual concerto de fim de época na Waldbühne. Tradicionalmente tocam no fim a canção "Berliner Luft", e 20.000 pessoas desatam a bater palmas e a fazer os assobios da praxe, em jeito de concerto promenade. Desta vez, trocaram as trompetas por vuvuzelas. Reparem que uma delas está envolta na bandeira inglesa. O concerto teve lugar pouco depois daquele histórico 4-1 com a Inglaterra. Ao dirigir-se ao público, o maestro começou por dizer "quatro um quatro um, teste de microfone". O delírio.
2. Músicos da orquestra da Konzerthaus (que fica no Gendarmenmarkt, uma belíssima praça) saíram-se agora com uma reinterpretação de algumas peças famosas, usando vuvuzela. E falam do fascínio que este instrumento exerceu sobre compositores como Brahms e Ravel. Uns pândegos.
Não percam o Bolero, no fim do filme.
(obrigada, Gi)
No post anterior, onde falava de como é necessário haver muito circo cultural, comentei na brincadeira que o Porto precisava de duas Casas da Música. Em Berlim, onde há três óperas e nem sei quantas salas de concertos com excelentes programas, o resultado de tanto excesso também se torna visível nestes episódios de criatividade e humor.
Em Berlim, parece-me, há poucas. Ou então, é a gente do meu bairro que não é muito dada a essas coisas.
Mas há, ainda assim, as suficientes para que o típico humor berlinense se manifeste.
1. No domingo passado, a Filarmónica deu o habitual concerto de fim de época na Waldbühne. Tradicionalmente tocam no fim a canção "Berliner Luft", e 20.000 pessoas desatam a bater palmas e a fazer os assobios da praxe, em jeito de concerto promenade. Desta vez, trocaram as trompetas por vuvuzelas. Reparem que uma delas está envolta na bandeira inglesa. O concerto teve lugar pouco depois daquele histórico 4-1 com a Inglaterra. Ao dirigir-se ao público, o maestro começou por dizer "quatro um quatro um, teste de microfone". O delírio.
2. Músicos da orquestra da Konzerthaus (que fica no Gendarmenmarkt, uma belíssima praça) saíram-se agora com uma reinterpretação de algumas peças famosas, usando vuvuzela. E falam do fascínio que este instrumento exerceu sobre compositores como Brahms e Ravel. Uns pândegos.
Não percam o Bolero, no fim do filme.
(obrigada, Gi)
No post anterior, onde falava de como é necessário haver muito circo cultural, comentei na brincadeira que o Porto precisava de duas Casas da Música. Em Berlim, onde há três óperas e nem sei quantas salas de concertos com excelentes programas, o resultado de tanto excesso também se torna visível nestes episódios de criatividade e humor.
01 julho 2010
que nos cortem o pão, ainda vá...
...mas cortar no circo, Eduardo, no circo?...
Vem isto a propósito do post no blogue Da Literatura sobre o orçamento da Casa da Música. Dez milhões, ou 9,5 depois do corte.
Havendo 10 milhões de portugueses, a Casa da Música custa anualmente um euro a cada um deles.
Não faria absolutamente nenhuma diferença para o preço dos transportes públicos, dos medicamentos, etc., se o orçamento da Casa da Música fosse reduzido a zero.
Em compensação, faria imensa diferença para Portugal e em especial para o seu Norte se não houvesse uma Casa da Música. Ou se o edifício se especializasse em programas medíocres.
Do ponto de vista do futuro de um povo, a Educação e a Cultura deviam ser como a orquestra do Titanic: a última a saltar do barco. Do ponto de vista da economia portuguesa, oferta cultural de excelente qualidade é condição indispensável para atrair turistas mais exigentes, que é como quem diz: com a carteira mais recheada.
Por uma vez sem exemplo, sei do que estou a falar (enfim, pelo menos até a Rita aparecer por aí a dizer que não é bem assim): a cidade onde moro, Berlim, está completamente falida. Mas para o circo cultural há sempre dinheiro, e os resultados estão à vista, em forma de hotéis completamente cheios e todos os etc. que lhes estão associados.
Vem isto a propósito do post no blogue Da Literatura sobre o orçamento da Casa da Música. Dez milhões, ou 9,5 depois do corte.
Havendo 10 milhões de portugueses, a Casa da Música custa anualmente um euro a cada um deles.
Não faria absolutamente nenhuma diferença para o preço dos transportes públicos, dos medicamentos, etc., se o orçamento da Casa da Música fosse reduzido a zero.
Em compensação, faria imensa diferença para Portugal e em especial para o seu Norte se não houvesse uma Casa da Música. Ou se o edifício se especializasse em programas medíocres.
Do ponto de vista do futuro de um povo, a Educação e a Cultura deviam ser como a orquestra do Titanic: a última a saltar do barco. Do ponto de vista da economia portuguesa, oferta cultural de excelente qualidade é condição indispensável para atrair turistas mais exigentes, que é como quem diz: com a carteira mais recheada.
Por uma vez sem exemplo, sei do que estou a falar (enfim, pelo menos até a Rita aparecer por aí a dizer que não é bem assim): a cidade onde moro, Berlim, está completamente falida. Mas para o circo cultural há sempre dinheiro, e os resultados estão à vista, em forma de hotéis completamente cheios e todos os etc. que lhes estão associados.
um estranho caso de melomania (será urban legend?)
Extracto de uma recensão na amazon.de sobre um CD recentemente saído, "Wiegenlieder, Vol. 2", com canções de embalar interpretadas por gente famosa:
(...)
Regalo-me e saboreio e sinto-me incrivelmente bem.
Tal como o meu cão.
Por um lado, é impossível acordá-lo enquanto o CD está a tocar.
Outros cães pedem comida, este pede canções de embalar.
Ontem, por exemplo, interrompi o CD.
O meu cão acordou assustado, e começou a andar de um lado para o outro muito inquieto.
A princípio, não percebi o que se estava a passar.
Ele voltava sempre para a aparelhagem de som e gania de tal maneira que me partia o coração.
Até ao momento em que pus o CD de novo.
O cão enrolou-se outra vez, todo satisfeito, e soltou um profundo suspiro.
Não consigo levar este cão à rua sem os Wiegenlieder.
Reconheço que é estranho ver um cão na rua de MP3-Player à volta do pescoço e headphones nas orelhas, prestes a adormecer a cada passo.
Mas de outra forma não consigo que ele saia à rua.
Será que se viciou em canções de embalar? ;)
(...)
(...)
Regalo-me e saboreio e sinto-me incrivelmente bem.
Tal como o meu cão.
Por um lado, é impossível acordá-lo enquanto o CD está a tocar.
Outros cães pedem comida, este pede canções de embalar.
Ontem, por exemplo, interrompi o CD.
O meu cão acordou assustado, e começou a andar de um lado para o outro muito inquieto.
A princípio, não percebi o que se estava a passar.
Ele voltava sempre para a aparelhagem de som e gania de tal maneira que me partia o coração.
Até ao momento em que pus o CD de novo.
O cão enrolou-se outra vez, todo satisfeito, e soltou um profundo suspiro.
Não consigo levar este cão à rua sem os Wiegenlieder.
Reconheço que é estranho ver um cão na rua de MP3-Player à volta do pescoço e headphones nas orelhas, prestes a adormecer a cada passo.
Mas de outra forma não consigo que ele saia à rua.
Será que se viciou em canções de embalar? ;)
(...)
30 junho 2010
sombra
Deve haver uns dez graus de diferença entre a rua e o meu apartamento, que é um ninho de águia por cima das copas frondosas das árvores. Está um calor insuportável em Berlim, mas nos passeios anda-se lindamente pela fresquinha. Nenhuma cidade europeia tem mais árvores nas ruas. E estão todas numeradas. Outro dia, parada num semáforo, olhei para a árvore ao meu lado e vi a plaquinha: 5347. Quantos milhares de árvores haverá *apenas* daquele lado da avenida?
Abençoados urbanistas, planeadores, fundamentalistas do ambiente e jardineiros!
Abençoados urbanistas, planeadores, fundamentalistas do ambiente e jardineiros!
28 junho 2010
Canyon de Chelly

O nome deste canyon e a sua pronúncia (də·shā′) são um bom reflexo da história conturbada das culturas que aqui se sucederam e combateram. Os diné chamam-lhe „Tséyi’“, desfiladeiro - literalmente: dentro das rochas. Os espanhóis optaram por escrever "de Chelly". Os americanos leram o nome, e acharam que era francês. Em suma: para pronunciar "de Chelly" segundo o uso actual, basta imaginar um americano a tentar falar francês - é mais ou menos por aí.
O nosso primeiro contacto com a paisagem de Canyon de Chelly foi o mais difícil: o miradouro de Massacre Cave, no North Rim. A paisagem é deslumbrante, mas é impossível ignorar a cena que no inverno de 1805 ali se desenrolou: fugindo a uma expedição militar espanhola, que vinha retaliar um ataque navajo, um grupo de famílias refugiou-se numa reentrância da falésia. Os soldados descobriram o seu esconderijo, vieram para o ponto da orla do desfiladeiro onde existe hoje o miradouro, e começaram a disparar para os navajos completamente expostos, matando 115 pessoas. Ainda hoje se podem ver as marcas das balas na parede de pedra. Os sobreviventes foram feitos escravos. Muitos navajos daquela época foram obrigados a trabalhar em condições desumanas nas minas de prata mexicanas.
É verdade que também os navajos raptavam pessoas de tribos inimigas para as escravizar e até vender - os pobres paiutes, mais ao norte, que atravessavam o Inverno em estado de semi-hibernação porque quase não tinham o que comer, eram raptados no início da Primavera, época em que estavam tão debilitados que não se conseguiam defender; seguia-se um tratamento de engorda, e o trabalho forçado nos campos dos navajos, ou a venda. Os espanhóis não estavam a inventar nada de muito novo quando escravizavam os navajos - mas, convenhamos: ladrão que rouba ladrão, não deixa de ser ladrão.
Um pouco mais à frente, fica um dos melhores miradouros, de onde se pode ver o grande complexo de Mummy Cave - assim chamado porque se encontraram lá duas múmias. Esta povoação, abrigada sob a massa monumental do paredão, foi habitada continuamente durante mil anos, de 300 a 1300. O conjunto arquitectónico mais recente foi construído por volta de 1280 por pessoas provenientes de Mesa Verde.
Mais dois miradouros (Antelope House e Ledge Ruin), e chegámos a Chinle. Fomos imediatamente ao centro de informações marcar uma visita guiada, dado que, à excepção do White House Trail, a entrada no canyon só é permitida a pessoas acompanhadas por um ranger ou guia navajo autorizado.
Em seguida fomos à procura de um hotel que nos confortasse os ossos e limpasse da alma o desconsolo que foi a experiência do campismo em Chaco. Encontrar um hotel em Chinle não é difícil: só há três. Optámos pelo Holiday Inn, que tem uma pequena piscina ao ar livre. Ah, poder tomar um duche! Ah, poder lavar a louça na casa de banho sem letreiros a dizer "arreda"!
Os miúdos desapareceram para os lados da piscina, e nós fomos explorar o hotel, e verificar a hora dos nossos relógios. É que a reserva navajo adopta o horário de Verão, ao contrário da prática no Arizona e nas regiões dos hopi. Em viagem por aquela área, o turista desprevenido nunca sabe a quantas anda. Um fenómeno que tem ocupado bastante a ciência, e foi magistralmente explicado por Einstein: tempo e espaço estão interligados.
À hora certa (confirmámos várias vezes) para a visita guiada, dirigimo-nos de novo ao centro de informações. A guia, uma navajo sem trança e com ar muito simpático, já estava à nossa espera. Na caixa, perguntaram-nos se tínhamos um veículo com high clearance. Temos um SUV, dissemos nós, todos ufanos, porque o tínhamos alugado propositadamente para as estradas de Chelly e Chaco. Mas tem high clearance?, insistiram eles. Bem, é um SUV..., retorquimos hesitantes. Um SUV com high clearance? - pareciam obcecados. Não sabemos..., respondemos nós, e era verdade: não sabíamos o que é que eles queriam dizer exactamente com aquela expressão.
Impaciente, a guia afirmou que sim, que a nossa high clearance era suficiente, e entrámos no canyon. Percebemos logo o motivo da obsessão: os caminhos são arenosos, e em alguns pontos têm sulcos profundos. Em parte, anda-se no leito seco dos aluviões. O Joachim precisou de toda a sua habilidade (e é muita) para conseguir fazer avançar o SUV naquele terreno sem deixar lá o pára-choques.

Durante as quatro horas que a visita demorou, a guia foi incansável a explicar o que víamos e a responder às nossas perguntas.

Logo no início apontou a bela mancha verde que se estende ao longo do rio e se tornou uma imagem distintiva de Chelly: uma catástrofe ecológica, disse ela. Estas árvores - tamarisco e oliveira-do-paraíso - não são naturais daqui. Foram introduzidas artificialmente, são invasivas, esgotam a nossa água e destroem a nossa biodiversidade. Começaram a ser arrancadas, mas a substituição de espécies é um processo caro, e tem de ser feito com muito cuidado, para evitar um aceleramento da erosão.
Um camião de caixa aberta com bancos corridos passou por nós, levantando uma nuvem de poeira. Os turistas, fortemente sacudidos pelo terreno irregular, acenaram na nossa direcção. A nossa guia soltou uma gargalhada:
- Ali vai um camião do "shake and bake tours"...
Mais à frente, os primeiros petróglifos. O canyon é habitado há quase 5000 anos. Ao longo desse tempo, os diferentes habitantes foram inscrevendo na pedra os seus símbolos religiosos e históricos. Não se conhece o significado de muitos deles.

- Aquela cruz ali, estão a ver? Pode ser um símbolo das quatro direcções dos diné, ou então das quatro montanhas sagradas que marcam os limites dos nossos territórios, ou talvez até das migrações periódicas: os povos iam para leste, e regressavam; para oeste, e regressavam; para sul e para norte, e regressavam.


Outros conjuntos de imagens são extraordinariamente fáceis de entender. Como esta de cavalos, cavaleiros com chapéus, um padre. Pensa-se que descreve a expedição de Antonio Narbona, que terminou com a tragédia de Massacre Cave.

- Ali, aquela cabeça de cavalo, é mais recente. Talvez tenha sido feita por um inglês. E a parede branca da White House Ruin está cheia de inscrições, várias delas datadas de fins do séc.XIX.
- Apesar de tudo, tiveram sorte - comentámos nós. Junto ao rio San Juan vimos uma parede enorme coberta com símbolos dos anasazi, onde alguém escreveu "fuck!" com tinta de spray. Milhares de anos de cultura profanados por alguém cuja inteligência não permite ir mais longe que uma ordinarice pintada à pressa na rocha.
- Também temos tido esse problema neste canyon. Há muito grafitti. Alguns jovens pensam que são engraçados, e não fazem ideia do erro que estão a cometer. Temos aumentado a vigilância, e vamos removendo na medida do possível.

Na povoação seguinte, um grande choque, ao ver na pedra, por trás das casas, uma cruz suástica branca (clicar na fotografia para ver melhor). Graffiti de neonazis em Canyon de Chelly?
A guia ri-se:
- Todos os alemães que vêem isto ficam incomodados, mas não é nada disso. Provavelmente é um símbolo das migrações segundo os pontos cardeais.
Nova etapa, nova paragem. Desta vez, para ver as pulseiras e os colares que a nossa guia faz ao serão, e que o marido está a vender junto a uma carrinha - essa sim, de high clearance. Ora aqui está uma família com apurado sentido empresarial.
A Christina e eu procurámos brincos de prata e turquesa como os da navajo de Chaco, mas não tinha nada do género. Apenas pulseiras e colares com lindas combinações de pedras. Mal sabíamos nós que a cada pedra é atribuído um poder diferente. O que para nós são combinações de cores, para os navajos tem significados profundos. A turquesa, por exemplo, é uma pedra sagrada, capaz de aumentar a fertilidade dos rebanhos, de conduzir à vitória numa batalha, de assegurar boas caçadas, e de proteger o seu portador contra azares diversos, nomeadamente ser colhido por um raio ou mordido por uma cobra. De modo que comprámos várias pulseiras muito poderosas e carregadas de significados, que tragicamente se esvaziaram ao chegar à Europa, porque perdemos o folheto que explicava tudo. Razão têm os antigos, quando afirmam que a passagem da tradição oral à escrita é o princípio do fim.
A guia continuou a contar. De quando os espanhóis chegaram "e ficaram cheios de inveja dos nossos pomares e campos viçosos", e capturaram centenas de diné para os obrigarem a fazer agricultura assim bonita noutros lugares. De quando os ingleses chegaram, lhes destruíram campos e árvores de fruto, os perseguiram sem piedade. Do seu bisavô, que sobreviveu à grande marcha forçada: 300 milhas até Fort Summer, 300 milhas para o regresso quatro anos mais tarde, quando os americanos se deram conta de que afinal aqueles territórios não eram tão ricos em recursos naturais, e que a ideia de concentrar na mesma área tribos tradicionalmente inimigas não tinha sido brilhante: como se concluiu sarcasticamente na época, teria ficado mais barato metê-los em hotéis em Nova Iorque...
Junto a um conjunto de ruínas, lembrei o que o ranger de Mesa Verde nos contou: os navajos não deixam os seus filhos visitar aqueles locais, por temor aos espíritos dos que lá viveram. Ela fitou-me, pensativa:
- Na noite do 4 de Julho passado fui com as minhas amigas ao miradouro de Massacre Cave. Podíamos ouvir distintamente os gritos e o choro das crianças. A gente do meu povo não gosta de chegar muito perto destes locais, porque a morte é contagiosa.

O canyon é habitado, e é até possível pernoitar num hogan alugado, ou acampar no terreno de uma família. Pede-se aos turistas que respeitem a privacidade dos habitantes, e não fotografem pessoas, animais domésticos ou hogans sem antes pedir autorização.
A família da guia mora ao fundo do Canyon de Muerto, mas ela tem uma casa em Chinle. A sociedade é matriarcal: o património familiar passa de mulher para mulher. Esses bens não são possuídos, mas administrados em função do bem de todos: à sua detentora cabe garantir a todos os membros da família alojamento e meios de subsistência. A família é alargada, e a "herdeira" é a mulher mais velha da geração subsequente, escolhida entre as filhas e as sobrinhas. Após o casamento, os homens mudam-se para a família da mulher. Daí a importância das kivas, acrescenta: os homens precisam de um refúgio só para eles.
- Então as kivas não eram compartimentos multi-usos para toda a população, como nos disseram em Mesa Verde?
- Não. Só para os homens. - diz ela, com um ligeiro sorriso irónico.
Depois fala das tradições e da modernidade. É católica, mas continua a respeitar os ritos e as crenças do seu povo. Conforme a doença, decide se vai ao médico ou ao medicine man. Recorre à medicina natural. Após uma pequena hesitação, aponta-nos um arbusto com frutos verdes, semelhantes a tomates: "Aquele fruto ali - vêem? - é um excelente analgésico. O problema é que pode viciar. Temos problemas graves de toxicodependência por causa desta planta". Os nossos filhos observam a planta, subitamente muito interessados. Esta atracção pelo abismo...
É muito difícil criar os filhos no ponto de intersecção das sociedades americana e diné. São permanentemente obrigados a escolher um rumo para a evolução da sua cultura de origem. As crianças aprendem inglês e a língua dos antepassados, mas muitas preferem falar inglês.
- E como encontram palavras para descrever algo novo, como avião ou computador? Usam as palavras inglesas?
- Não. Procuramos criar significados novos a partir das palavras de que dispomos... - e eu a pensar: ai que engraçado, a "loi Toubon" chegou tão longe? - ...Por exemplo: para televisão, dizemos "imagens que vêm pelo ar". Ontem, para dizer à minha mãe que comprámos um computador, tive de dizer assim: "imagens que vêm pelo ar e máquina de escrever".

Entretanto tínhamos chegado à nossa última etapa. A White House Ruin, com a sua parede branca para, segundo se pensa, reflectir a luz para as casas em torno.
Que estranha fé levaria aquela gente a construir casas sob maciços rochosos tão imponentes e intimidantes?
Esta é a mesma casa que (quase não) se vê na primeira fotografia deste post, e que foi feita do miradouro na orla do canyon.Despedimo-nos da guia e regressamos ao hotel. Nesse dia celebrávamos o aniversário do nosso casamento, e decidimos festejá-lo no restaurante, com um bom bife que nos tirasse a barriga de misérias, depois de tantas sopas biológicas de pacote e do eterno esparguete com molho de tomate. E bem regado com um daqueles vinhos californianos tecnicamente perfeitos (isto não é um elogio).
Carne, havia, e era muito boa. Também havia enchiladas deliciosas. Quanto ao vinho... azar o nosso: o álcool é proibido nas reservas navajo. Por curiosidade, encomendámos um vinho sem álcool, muito recomendado na carta do restaurante. Revelou-se óptimo para melhorar a memória: nunca mais, por cem anos que viva, serei capaz de esquecer o sabor horroroso daquela coisa.

No dia seguinte percorremos o South Rim até Spider Rock. Os navajos acreditam que a Spider Woman vive no topo da coluna mais alta, que tem uma altura de 240 metros. A Marvel Comics, aqui?!, perguntarão. Nada disso: a Spider Woman é uma figura mítica ligada ao surgimento da vida na terra. No princípio do mundo, enfeitou uma das suas teias com orvalho e atirou-a para o espaço: das gotas de água nasceram as estrelas. É amiga dos navajos, e protege-os. Foi ela quem ensinou as mulheres dos antigos a tecer, enquanto o seu marido, o Spider Man, ensinou os homens a construir um tear:
Cruzam-se os pólos da terra e do céu para fixar a estrutura; alinham-se raios de sol na teia; os liços são feitos de relâmpagos difusos e cristais de rocha, para manterem a qualidade das fibras; para melhor cerrar a trama, põe-se na ripa a auréola do sol; usar para o pente uma concha branca que purifique os fios.
Embora amiga e generosa, a Spider Woman pode ser muito severa. Captura as crianças que se portam mal, leva-as para a sua casa, devora-as, e deixa os seus ossos a secar ao sol - são as manchas brancas no topo da coluna.
Com uma protectora deste calibre, não admira que as gerações mais novas prefiram aproximar-se da cultura americana...

Estava um dia glorioso para continuar a viagem, com destino a Monument Valley.
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propaganda
Ao ver o filme horroroso que o Rui Bebiano passa no fim deste post, lembro Eduard Rosé, violoncelista famoso, que só por amor à sua mulher Emma, irmã de Gustav Mahler, trocou os EUA por Weimar, em 1900. Aos 83 anos foi enviado para Theresienstadt. Penso na viúva de Max Liebermann, que aos 87 anos se suicidou para evitar a deportação para Theresienstadt. Conheço-lhes a história, sei das casas em que viveram. Imagino estas duas pessoas tão concretas, imagino a sua humilhação ao serem obrigadas a despir-se e tomar um duche perante câmaras de filmar, imagino-as sentadas no meio daquelas camaratas, sem qualquer privacidade. Se este filme servia fins de propaganda, quão mais horrível ainda seria a realidade?
27 junho 2010
Shiprock
Apesar de os canyons de Chaco e de Chelly se situarem sensivelmente à mesma latitude, para ir de um ao outro é preciso desenhar um enorme ómega por estradas que nem sempre são muito boas. Rumámos primeiro para norte, até Farmington, depois para oeste, e na pequena localidade de Shiprock voltámos para sul. Desperdício de tempo? De modo algum!

Ao cabo de meia dúzia de milhas a sul dessa localidade, entrámos na Indian Route 13, em direcção a sudoeste. A paisagem desértica é atravessada por estranhas muralhas de basalto, lembrando um gigantesco dinossauro enterrado com a crista dorsal de fora. À direita, levanta-se um maciço imponente: Shiprock, montanha sagrada dos navajo, com quase 500 metros de altura. Em geologês, trata-se simplesmente dos diques e da chaminé de um vulcão extinto, mas na tradição dos navajos tudo se torna muito mais rico. Segundo a lenda, quando os diné (o nome que os navajo dão a si próprios, e que significa "o povo que surgiu da terra") vinham a fugir de cruéis inimigos do noroeste, atravessando um canal (talvez o estreito de Bering?), no seu enorme desespero pediram ajuda ao Grande Espírito. Repentinamente, do chão sob os seus pés nasceu um pássaro enorme, que os transportou no dorso durante um dia e uma noite em direcção ao sul. À hora do sol-pôr, deixou-os no ponto onde fica agora Shiprock, e transformou-se de novo em pedra. Em homenagem ao pássaro que os salvou, os navajo chamam a esta formação Tsé Bitʼaʼí: rocha com asas. A partir de então, os navajo ficaram a viver no cimo da montanha, e só vinham ao vale buscar água e cultivar os campos. Um dia, quando os homens estavam a trabalhar no vale, uma grande tempestade abateu-se sobre a montanha. Um raio fendeu as suas encostas, tornando-a inacessível. Impossível ajudar as mulheres, as crianças e os velhos presos no topo das escarpas, que acabaram por morrer de fome e sede. Para não despertar os seus espíritos, é proibido escalar o rochedo.
Um pouco mais à frente, a paisagem muda de novo: Red Valley, terra de magníficas rochas vermelhas e formações semelhantes às de Monument Valley.

A seguir, atravessa-se uma bela floresta de faias (nota mental: regressar lá em Setembro - ou então, ainda melhor: à million dollar highway no Colorado). Em Lukachukai vira-se para sudeste, e pouco antes de chegar a Tsaile encontra-se o north rim do Canyon de Chelly, mais concretamente: o canyon del Muerto.

(imagem encontrada aqui)
Ao cabo de meia dúzia de milhas a sul dessa localidade, entrámos na Indian Route 13, em direcção a sudoeste. A paisagem desértica é atravessada por estranhas muralhas de basalto, lembrando um gigantesco dinossauro enterrado com a crista dorsal de fora. À direita, levanta-se um maciço imponente: Shiprock, montanha sagrada dos navajo, com quase 500 metros de altura. Em geologês, trata-se simplesmente dos diques e da chaminé de um vulcão extinto, mas na tradição dos navajos tudo se torna muito mais rico. Segundo a lenda, quando os diné (o nome que os navajo dão a si próprios, e que significa "o povo que surgiu da terra") vinham a fugir de cruéis inimigos do noroeste, atravessando um canal (talvez o estreito de Bering?), no seu enorme desespero pediram ajuda ao Grande Espírito. Repentinamente, do chão sob os seus pés nasceu um pássaro enorme, que os transportou no dorso durante um dia e uma noite em direcção ao sul. À hora do sol-pôr, deixou-os no ponto onde fica agora Shiprock, e transformou-se de novo em pedra. Em homenagem ao pássaro que os salvou, os navajo chamam a esta formação Tsé Bitʼaʼí: rocha com asas. A partir de então, os navajo ficaram a viver no cimo da montanha, e só vinham ao vale buscar água e cultivar os campos. Um dia, quando os homens estavam a trabalhar no vale, uma grande tempestade abateu-se sobre a montanha. Um raio fendeu as suas encostas, tornando-a inacessível. Impossível ajudar as mulheres, as crianças e os velhos presos no topo das escarpas, que acabaram por morrer de fome e sede. Para não despertar os seus espíritos, é proibido escalar o rochedo.
Um pouco mais à frente, a paisagem muda de novo: Red Valley, terra de magníficas rochas vermelhas e formações semelhantes às de Monument Valley.
A seguir, atravessa-se uma bela floresta de faias (nota mental: regressar lá em Setembro - ou então, ainda melhor: à million dollar highway no Colorado). Em Lukachukai vira-se para sudeste, e pouco antes de chegar a Tsaile encontra-se o north rim do Canyon de Chelly, mais concretamente: o canyon del Muerto.
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a mim dava-me jeito que a Alemanha parasse de marcar golos
A mim dava-me jeito que a Alemanha parasse de marcar golos, porque é assim: a minha família foi ver o jogo para uma esplanada, e eu fiquei em casa a preparar o farnel para o concerto da Filarmónica na Waldbühne, que começa daqui a bocadinho. Meti a velocidade de cruzeiro, e cá estou de volta dos muffins de groselha, das pataniscas de bacalhau, da salada de feijão branco, dos folhados de queijo, das sandes de salmão fumado, e do caraças, e a cada cinco minutos mais ou menos toca o telefone e é o Joachim a dizer que a Alemanha marcou um golo. Já lhe disse que também temos vizinhos com vuvuzelas, mas ele parece que não confia.
Portanto, aqui fica o meu apelo pungente: parem com os golos! deixem-me trabalhar!
***
Adenda: no youtube há algumas passagens do concerto da Filarmónica de ontem, com Renée Fleming. Geralmente esses vídeos são apagados, por isso não ponho qualquer link. Os interessados podem procurar por "philharmonie waldbühne 2010".
Portanto, aqui fica o meu apelo pungente: parem com os golos! deixem-me trabalhar!
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Adenda: no youtube há algumas passagens do concerto da Filarmónica de ontem, com Renée Fleming. Geralmente esses vídeos são apagados, por isso não ponho qualquer link. Os interessados podem procurar por "philharmonie waldbühne 2010".
26 junho 2010
Goethe, sobre a tolerância
Toleranz sollte eigentlich nur eine vorübergehende Gesinnung sein: Sie muss zur Anerkennung führen. Dulden heißt beleidigen.
A tolerância devia ser um sentimento transitório: tem de dar lugar à estima. A indulgência ofende.
em: Máximas e Reflexões
(frase encontrada no centro dos visitantes de Buchenwald)
A tolerância devia ser um sentimento transitório: tem de dar lugar à estima. A indulgência ofende.
em: Máximas e Reflexões
(frase encontrada no centro dos visitantes de Buchenwald)
o post da semana
24 junho 2010
Chaco Culture
Today I will walk out, today everything evil will leave me, I will be as I was before, I will have a cool breeze over my body.
I will have a light body, I will be happy forever, nothing will hinder me.
I walk with beauty before me.
I walk with beauty behind me.
I walk with beauty below me.
I walk with beauty above me.
I walk with beauty around me.
My words will be beautiful.
In beauty all day long may I walk.
Through the returning seasons, may I walk.
On the trail marked with pollen may I walk.
With dew about my feet, may I walk.
With beauty before me may I walk.
With beauty behind me may I walk.
With beauty below me may I walk.
With beauty above me may I walk.
With beauty all around me may I walk.
In old age wandering on a trail of beauty, lively, may I walk.
In old age wandering on a trail of beauty, living again, may I walk.
My words will be beautiful.
Poema anasazi, no museu de Canyon de Chaco, New Mexico.
***
A etapa seguinte da nossa viagem anunciava-se muito prometedora: Chaco, no meio do deserto - combinando um riquíssimo conjunto arqueológico da cultura anasazi com um observatório astronómico.
A pesquisa por "Pueblo Bonito, NM 87037" no Google Maps, dá uma boa ideia da grandiosidade das construções.
Por estar tão longe das cidades, Chaco não tem muita poluição luminosa. Os meus guias gabavam-lhe o céu nocturno: um céu de breu sobre o deserto, que permite, mesmo à vista desarmada, saborear as estrelas deslumbrantes e a Via Láctea, que vem ao nosso encontro como se fosse um destino.
Organizámos a viagem de modo a poder participar no Night Sky Program, cheios de expectativa sobre o que prometia ser um ponto alto nas nossas férias já tão cheias de superlativos. Há alguns anos tivemos a sorte de poder ver a lua num telescópio potente, e ficámos encantados com a imagem daquele sossego que quase podíamos tocar com as mãos. Imaginávamos que de Chaco poderíamos ir a Andrómeda, repousar em Júpiter...
Por aquela altura da nossa rota do Sudoeste, já tínhamos muita prática: levantar arraiais bem cedo, partir o mais depressa possível, tentar estar entre os primeiros a entrar no parque de campismo seguinte: first come, first serve. No caso de Chaco era ainda mais importante, porque sabíamos que o hotel mais próximo ficava a hora e meia de caminho.
E assim fizemos. Ao princípio da manhã dissemos adeus a Mesa Verde e partimos em direcção ao sul, para o que se anunciava como uma viagem de 160 milhas, 3 horas. A paisagem árida era interrompida por estranhos oásis muito viçosos. Tínhamos visto esse fenómeno do avião: enormes círculos verdes no meio da paisagem seca - o milagre da irrigação. Milagre, ou desvario? Que sentido faz transportar a água por centenas de quilómetros para ter plantações no deserto? Ou, pensando a uma escala global: o que está a correr mal no nosso planeta, para nos EUA se irrigar o deserto, enquanto os campos tão férteis do nosso Minho estão cada vez mais abandonados?
A última parte do percurso foi feita a passo de caracol: a estrada de acesso ao canyon está propositadamente em muito mau estado, para evitar avalanches de turistas. A investigação e a exploração deste centro, classificado como Património da Humanidade, colidem com os interesses de várias tribos de índios, para as quais estes locais são sagrados: a eles regressam ainda hoje para orar e honrar os espíritos dos antepassados. A solução encontrada em conjunto pela administração do parque e pela população indígena foi manter péssimas acessibilidades, e lembrar repetidamente aos visitantes que devem respeitar o espírito do local.
Passámos o parque de campismo ("Olhem, está vazio! Óptimo! Chegámos antes dos outros!) e dirigimo-nos ao centro de informações e pequeno núcleo museológico. Aí, o balde de água fria: o parque de campismo estava fechado, porque ao fazer obras de modernização descobriram vestígios arqueológicos que obrigaram a adiar sine die a reabertura. "E agora?", perguntámos nós, desconsolados, sabendo bem que a localidade mais próxima ficava a hora e meia de viagem. "Bem, podem ficar num parque de campismo privado, aqui perto", respondeu uma das funcionárias do parque, e foi buscar a proprietária: era uma ranger navajo, com uma longa trança preta e brincos de turquesa lindíssimos. Disse que sim, que podíamos ficar junto aos hogan da sua família, e avisou que era tudo muito primitivo.
Resolvido esse problema, partimos a pé, sob um sol inclemente, à descoberta dos vestígios arqueológicos. "Respeite estes lugares sagrados, leve muita água, e tenha cuidado com as cascavéis", dizia o nosso folheto. Ai.
A construção das casas grandes de Chaco foi planeada com notável precisão. Não apenas a orientação, segundo os pontos cardeais e as movimentações dos astros, mas também a própria engenharia: a construção das divisões no rés-do-chão tinha já em conta o que se tencionava construir no terceiro andar. Isto leva-me a desconfiar que terá havido ali dedo de alemão. Espantem-se... Já não seria a primeira vez na História: também o "rei de Stonehenge" era alemão, ou talvez austríaco. A minha teoria é reforçada pela tradição oral dos navajo, segundo a qual Chaco foi criado pelo Great Gambler, que veio do Sul, escravizou os povos dos pueblos e os obrigou a construir aqueles complexos segundo planos extremamente detalhados, antes de ser vencido e expulso. Se isto não é um caso de austríaco, talvez alemão...
E mais uma prova: o mistério das tumbas em Pueblo Bonito, onde se encontraram em lugar de destaque esqueletos de pessoas muito mais altas que os índios da região. Ora aí está: noves fora, nada.
E eis como, num momento de intuição de raro alcance, ofereço um contributo indispensável à compreensão dos mistérios da Chaco Culture. Bem me podiam dar uma medalhinha. A mim, e às vacas de Mesa Verde e de Bryce Canyon.
Findo o intervalinho para café, vou tentar agora fazer uma descrição fidedigna: as construções no canyon de Chaco foram erguidas entre 850 e 1150. Trata-se de vários complexos de casas construídas em semicírculo, desenhadas com grande rigor geométrico e extensos conhecimentos de astronomia. Os conjuntos maiores tinham mais de quinhentas divisões, e chegavam aos três andares. Também as kivas eram extraordinariamente grandes, algumas das quais com capacidade para albergar centenas de pessoas. Era o centro religioso, comercial e administrativo de uma vasta região. Não tinha muitos habitantes permanentes, mas atraía inúmeros visitantes.
A guia que nos mostrou Pueblo Bonito, um dos conjuntos mais bem conservados, comparou Chaco a Las Vegas. Eu teria dito Santiago de Compostela, mas ela era uma jovem americana - que saberá das rotas medievais europeias? E num ponto a sua comparação é perfeita: um lugar no meio do deserto, onde não havia absolutamente nada, e foi construído um centro que exerce um profundo fascínio sobre povos longínquos.
Calcula-se que para construir as casas tenha sido necessário abater mais de 200.000 árvores. Os construtores iam cortá-las às florestas, a mais de 70 quilómetros de distância, cortavam-lhes os ramos, deixavam secar os troncos para se tornarem mais leves, e arrastavam-nos até Chaco, pois não conheciam ainda a roda.
Por algum estranho motivo, algumas das "casas grandes" foram construídas junto a enormes rochedos que ameaçavam cair sobre elas. Pueblo Bonito, por exemplo, estava no sopé da Threatening Rock. Para evitar a erosão, os anasazi construíram plataformas e apoios na sua base. Também colocavam pahos (varetas de oração) na fenda entre a rocha e a escarpa. Em Janeiro de 1941, após um ano de muita chuva, a pedra abateu-se sobre as ruínas, destruindo mais de 30 compartimentos.

Nas paredes do canyon há inúmeros petróglifos, ou, como lhes chamam os hopi: tutuveni - marcas dos que vieram antes. Alguns são de um tipo muito raro, por combinarem na mesma figura várias técnicas diferentes.
A espiral é um dos símbolos recorrentes (seriam os anasazi umbiguistas?). Mas também se vêem animais e figuras humanas, homens a cavalo - registo da chegada dos espanhóis -, e até um comboio. E, infelizmente, sinais dos visitantes de tempos mais modernos: um tal de Henri e um Mark B passaram por ali, e em 1887 um comerciante deixou indicações para a sua loja, a duas milhas down canyon.
***
A navajo tinha dito "vão de carro nesta direcção, antes de chegarem a um wash virem à esquerda, e continuem durante cerca de vinte minutos. Depois de passarem a terceira colina, virem outra vez à esquerda".
Um wash?! Talvez se referisse ao leito seco de um aluvião. Virámos à esquerda, e seguimos a corta-mato, enquanto nos interrogávamos se não teria sido melhor ideia ir para o tal hotel, mais longe, mas por estrada e com sinalização. Afinal, tudo correu bem: ao fim de meia hora encontrámos o parque de campismo: dois hogans, uma "casinha" (sim, isso mesmo: a uns vinte metros do hogan principal havia uma casinha no meio do terreno, que era suposto ser a nossa casa de banho - decidi logo ali que ia passar umas doze horas sem precisar), e um monte de ferro velho a fazer de mesas, cadeiras e protecção do vento. Tudo com um aspecto desolado.
À nossa volta estendia-se o planalto raso e sem uma única árvore, sobre nós um céu desmedido. Ao fim da tarde levantou-se uma ventania terrível, e nós olhávamos desorientados para aquela paisagem exposta, sem nada que travasse a poeira que remoinhava no ar e nos batia com fúria.
Resolvemos regressar ao centro de informação de Chaco e preparar lá o nosso jantar, protegidos do mau tempo pelas muralhas do canyon, enquanto esperávamos pelo Night Sky Program.
Mais uma vez havia belas mesas para piqueniques, mas não tinham pias para lavar a louça. Apesar do letreiro "não lave a louça aqui", usámos o lavatório da casa de banho. Por causa da má consciência, deixámos tudo ainda mais limpo do que tínhamos encontrado. No céu, as nuvens estavam cada vez mais densas. Então, e Júpiter? E Andrómeda? Deixaram-nos ver um bocadinho da lua num telescópio móvel, mostraram-nos fotografias excelentes feitas naquele observatório, contaram-nos meia dúzia de histórias, e depois boa noite, adeus, voltem sempre.
Aproveitámos a casa de banho do centro, último reduto da civilização, para lavar os dentes e fazer os despejos para as doze horas seguintes, e voltámos tristonhos para o nosso parque de campismo no meio do ferro-velho.
Na manhã seguinte não havia vento, não havia nuvens, e a casinha (sim: quem aguenta doze horas?) revelou-se uma boa surpresa: com uma plataforma forrada a linóleo e um buraco no centro, tudo muito asseado, e sem cheiros. Quem diria.
Fui ter com a proprietária, para que nos indicasse a direcção para Canyon de Chelly. Encontrei-a em frente ao seu hogan. Tinha a longa trança e os seus belíssimos brincos de turquesa e prata, e estava de pé, muito direita e concentrada em algo que se passava no horizonte - o arquétipo de um vigia índio. Olhei também: nada, apenas a planície. Ela explicou-me: "Vê aquela nuvem de pó? É o carro das pessoas que saíram daqui há pouco. Estou a ver se viram no sítio certo e encontram a estrada sem problemas."
Também nós encontrámos o nosso caminho sem problemas.
Virámos costas a Chaco fartos de campismo, vento, pó, casinhas, nuvens que tapam estrelas, falta de água e de conforto. Tão desalentados, que chegámos a comentar maldosamente: na altura em que estes andavam a arrastar árvores por mais de 70 quilómetros, na Europa estavam a começar a construir a catedral de Estrasburgo...
Partimos rumo a Canyon de Chelley, ansiosos por um hotel com duche e restaurante.
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