24 junho 2010

Chaco Culture



Today I will walk out, today everything evil will leave me, I will be as I was before, I will have a cool breeze over my body.
I will have a light body, I will be happy forever, nothing will hinder me.

I walk with beauty before me.
I walk with beauty behind me.

I walk with beauty below me.
I walk with beauty above me.

I walk with beauty around me.

My words will be beautiful.


In beauty all day long may I walk.

Through the returning seasons, may I walk.
On the trail marked with pollen may I walk.

With dew about my feet, may I walk.
With beauty before me may I walk.
With beauty behind me may I walk.
With beauty below me may I walk.

With beauty above me may I walk.

With beauty all around me may I walk.

In old age wandering on a trail of beauty, lively, may I walk.
In old age wandering on a trail of beauty, living again, may I walk.

My words will be beautiful.



Poema anasazi, no museu de Canyon de Chaco, New Mexico.

***

A etapa seguinte da nossa viagem anunciava-se muito prometedora: Chaco, no meio do deserto - combinando um riquíssimo conjunto arqueológico da cultura anasazi com um observatório astronómico.
A pesquisa por "Pueblo Bonito, NM 87037" no Google Maps, dá uma boa ideia da grandiosidade das construções.
Por estar tão longe das cidades, Chaco não tem muita poluição luminosa. Os meus guias gabavam-lhe o céu nocturno: um céu de breu sobre o deserto, que permite, mesmo à vista desarmada, saborear as estrelas deslumbrantes e a Via Láctea, que vem ao nosso encontro como se fosse um destino.
Organizámos a viagem de modo a poder participar no Night Sky Program, cheios de expectativa sobre o que prometia ser um ponto alto nas nossas férias já tão cheias de superlativos. Há alguns anos tivemos a sorte de poder ver a lua num telescópio potente, e ficámos encantados com a imagem daquele sossego que quase podíamos tocar com as mãos. Imaginávamos que de Chaco poderíamos ir a Andrómeda, repousar em Júpiter...

Por aquela altura da nossa rota do Sudoeste, já tínhamos muita prática: levantar arraiais bem cedo, partir o mais depressa possível, tentar estar entre os primeiros a entrar no parque de campismo seguinte: first come, first serve. No caso de Chaco era ainda mais importante, porque sabíamos que o hotel mais próximo ficava a hora e meia de caminho.

E assim fizemos. Ao princípio da manhã dissemos adeus a Mesa Verde e partimos em direcção ao sul, para o que se anunciava como uma viagem de 160 milhas, 3 horas. A paisagem árida era interrompida por estranhos oásis muito viçosos. Tínhamos visto esse fenómeno do avião: enormes círculos verdes no meio da paisagem seca - o milagre da irrigação. Milagre, ou desvario? Que sentido faz transportar a água por centenas de quilómetros para ter plantações no deserto? Ou, pensando a uma escala global: o que está a correr mal no nosso planeta, para nos EUA se irrigar o deserto, enquanto os campos tão férteis do nosso Minho estão cada vez mais abandonados?



A última parte do percurso foi feita a passo de caracol: a estrada de acesso ao canyon está propositadamente em muito mau estado, para evitar avalanches de turistas. A investigação e a exploração deste centro, classificado como Património da Humanidade, colidem com os interesses de várias tribos de índios, para as quais estes locais são sagrados: a eles regressam ainda hoje para orar e honrar os espíritos dos antepassados. A solução encontrada em conjunto pela administração do parque e pela população indígena foi manter péssimas acessibilidades, e lembrar repetidamente aos visitantes que devem respeitar o espírito do local.

Passámos o parque de campismo ("Olhem, está vazio! Óptimo! Chegámos antes dos outros!) e dirigimo-nos ao centro de informações e pequeno núcleo museológico. Aí, o balde de água fria: o parque de campismo estava fechado, porque ao fazer obras de modernização descobriram vestígios arqueológicos que obrigaram a adiar sine die a reabertura. "E agora?", perguntámos nós, desconsolados, sabendo bem que a localidade mais próxima ficava a hora e meia de viagem. "Bem, podem ficar num parque de campismo privado, aqui perto", respondeu uma das funcionárias do parque, e foi buscar a proprietária: era uma ranger navajo, com uma longa trança preta e brincos de turquesa lindíssimos. Disse que sim, que podíamos ficar junto aos hogan da sua família, e avisou que era tudo muito primitivo.
Resolvido esse problema, partimos a pé, sob um sol inclemente, à descoberta dos vestígios arqueológicos. "Respeite estes lugares sagrados, leve muita água, e tenha cuidado com as cascavéis", dizia o nosso folheto. Ai.

A construção das casas grandes de Chaco foi planeada com notável precisão. Não apenas a orientação, segundo os pontos cardeais e as movimentações dos astros, mas também a própria engenharia: a construção das divisões no rés-do-chão tinha já em conta o que se tencionava construir no terceiro andar. Isto leva-me a desconfiar que terá havido ali dedo de alemão. Espantem-se... Já não seria a primeira vez na História: também o "rei de Stonehenge" era alemão, ou talvez austríaco. A minha teoria é reforçada pela tradição oral dos navajo, segundo a qual Chaco foi criado pelo Great Gambler, que veio do Sul, escravizou os povos dos pueblos e os obrigou a construir aqueles complexos segundo planos extremamente detalhados, antes de ser vencido e expulso. Se isto não é um caso de austríaco, talvez alemão...
E mais uma prova: o mistério das tumbas em Pueblo Bonito, onde se encontraram em lugar de destaque esqueletos de pessoas muito mais altas que os índios da região. Ora aí está: noves fora, nada.
E eis como, num momento de intuição de raro alcance, ofereço um contributo indispensável à compreensão dos mistérios da Chaco Culture. Bem me podiam dar uma medalhinha. A mim, e às vacas de Mesa Verde e de Bryce Canyon.

Findo o intervalinho para café, vou tentar agora fazer uma descrição fidedigna: as construções no canyon de Chaco foram erguidas entre 850 e 1150. Trata-se de vários complexos de casas construídas em semicírculo, desenhadas com grande rigor geométrico e extensos conhecimentos de astronomia. Os conjuntos maiores tinham mais de quinhentas divisões, e chegavam aos três andares. Também as kivas eram extraordinariamente grandes, algumas das quais com capacidade para albergar centenas de pessoas. Era o centro religioso, comercial e administrativo de uma vasta região. Não tinha muitos habitantes permanentes, mas atraía inúmeros visitantes.
A guia que nos mostrou Pueblo Bonito, um dos conjuntos mais bem conservados, comparou Chaco a Las Vegas. Eu teria dito Santiago de Compostela, mas ela era uma jovem americana - que saberá das rotas medievais europeias? E num ponto a sua comparação é perfeita: um lugar no meio do deserto, onde não havia absolutamente nada, e foi construído um centro que exerce um profundo fascínio sobre povos longínquos.
Calcula-se que para construir as casas tenha sido necessário abater mais de 200.000 árvores. Os construtores iam cortá-las às florestas, a mais de 70 quilómetros de distância, cortavam-lhes os ramos, deixavam secar os troncos para se tornarem mais leves, e arrastavam-nos até Chaco, pois não conheciam ainda a roda.


Por algum estranho motivo, algumas das "casas grandes" foram construídas junto a enormes rochedos que ameaçavam cair sobre elas. Pueblo Bonito, por exemplo, estava no sopé da Threatening Rock. Para evitar a erosão, os anasazi construíram plataformas e apoios na sua base. Também colocavam pahos (varetas de oração) na fenda entre a rocha e a escarpa. Em Janeiro de 1941, após um ano de muita chuva, a pedra abateu-se sobre as ruínas, destruindo mais de 30 compartimentos.





A fotografia a preto e branco foi feita nos anos 30, e tirada de um artigo que analisava o risco e apresentava propostas para o reduzir. Nas duas fotografias seguintes, vêem-se os fragmentos caídos sobre os edifícios.










Nas paredes do canyon há inúmeros petróglifos, ou, como lhes chamam os hopi: tutuveni - marcas dos que vieram antes. Alguns são de um tipo muito raro, por combinarem na mesma figura várias técnicas diferentes.






A espiral é um dos símbolos recorrentes (seriam os anasazi umbiguistas?). Mas também se vêem animais e figuras humanas, homens a cavalo - registo da chegada dos espanhóis -, e até um comboio. E, infelizmente, sinais dos visitantes de tempos mais modernos: um tal de Henri e um Mark B passaram por ali, e em 1887 um comerciante deixou indicações para a sua loja, a duas milhas down canyon.

***

A navajo tinha dito "vão de carro nesta direcção, antes de chegarem a um wash virem à esquerda, e continuem durante cerca de vinte minutos. Depois de passarem a terceira colina, virem outra vez à esquerda".
Um wash?! Talvez se referisse ao leito seco de um aluvião. Virámos à esquerda, e seguimos a corta-mato, enquanto nos interrogávamos se não teria sido melhor ideia ir para o tal hotel, mais longe, mas por estrada e com sinalização. Afinal, tudo correu bem: ao fim de meia hora encontrámos o parque de campismo: dois hogans, uma "casinha" (sim, isso mesmo: a uns vinte metros do hogan principal havia uma casinha no meio do terreno, que era suposto ser a nossa casa de banho - decidi logo ali que ia passar umas doze horas sem precisar), e um monte de ferro velho a fazer de mesas, cadeiras e protecção do vento. Tudo com um aspecto desolado.










À nossa volta estendia-se o planalto raso e sem uma única árvore, sobre nós um céu desmedido. Ao fim da tarde levantou-se uma ventania terrível, e nós olhávamos desorientados para aquela paisagem exposta, sem nada que travasse a poeira que remoinhava no ar e nos batia com fúria.
Resolvemos regressar ao centro de informação de Chaco e preparar lá o nosso jantar, protegidos do mau tempo pelas muralhas do canyon, enquanto esperávamos pelo Night Sky Program.


Mais uma vez havia belas mesas para piqueniques, mas não tinham pias para lavar a louça. Apesar do letreiro "não lave a louça aqui", usámos o lavatório da casa de banho. Por causa da má consciência, deixámos tudo ainda mais limpo do que tínhamos encontrado. No céu, as nuvens estavam cada vez mais densas. Então, e Júpiter? E Andrómeda? Deixaram-nos ver um bocadinho da lua num telescópio móvel, mostraram-nos fotografias excelentes feitas naquele observatório, contaram-nos meia dúzia de histórias, e depois boa noite, adeus, voltem sempre.
Aproveitámos a casa de banho do centro, último reduto da civilização, para lavar os dentes e fazer os despejos para as doze horas seguintes, e voltámos tristonhos para o nosso parque de campismo no meio do ferro-velho.
Na manhã seguinte não havia vento, não havia nuvens, e a casinha (sim: quem aguenta doze horas?) revelou-se uma boa surpresa: com uma plataforma forrada a linóleo e um buraco no centro, tudo muito asseado, e sem cheiros. Quem diria.

Fui ter com a proprietária, para que nos indicasse a direcção para Canyon de Chelly. Encontrei-a em frente ao seu hogan. Tinha a longa trança e os seus belíssimos brincos de turquesa e prata, e estava de pé, muito direita e concentrada em algo que se passava no horizonte - o arquétipo de um vigia índio. Olhei também: nada, apenas a planície. Ela explicou-me: "Vê aquela nuvem de pó? É o carro das pessoas que saíram daqui há pouco. Estou a ver se viram no sítio certo e encontram a estrada sem problemas."


Também nós encontrámos o nosso caminho sem problemas.
Virámos costas a Chaco fartos de campismo, vento, pó, casinhas, nuvens que tapam estrelas, falta de água e de conforto. Tão desalentados, que chegámos a comentar maldosamente: na altura em que estes andavam a arrastar árvores por mais de 70 quilómetros, na Europa estavam a começar a construir a catedral de Estrasburgo...
Partimos rumo a Canyon de Chelley, ansiosos por um hotel com duche e restaurante.

zumba

Hoje tive a minha primeira aula de zumba, numa sala cheia de mulheres que suavam e riam, e no fim de cada sequência aplaudiam o professor.

O professor, ai, o professor!
Um belo fenício, extraordinária mistura de graciosidade e humor.

Mas já se sabe qual é o senão da história, nos tempos que correm: quase* todos os homens que conheço, nos quais se aliam desta forma beleza, graça e humor, são homossexuais.
Bem: eles homossexuais, e eu casada. Estamos quites, hehehe.

Para quem não sabe o que é zumba (eu até ontem também não sabia) e está a pensar brejeirices, aqui vai um exemplo:



A minha aula foi melhor. Do melhor, podem crer. Às tantas, veio uma música "oriental", e o nosso fenício começou a fazer dança do ventre. Dança excelente - o rapaz deve ser bailarino -, e ao mesmo tempo divertida: imaginem um homem, de t-shirt e calções enormes, a menear as ancas numa bela dança do ventre. Lindo! Mas ça va sans dire, que essa parte da questão já está suficientemente debatida.


(*) Repararam no "quase"? Foi de propósito, por causa das susceptibilidades dos "não desfazendo".

23 junho 2010

para ajudar a pagar o TGV e assim

Por causa daquela história de o empresário que suporta os custos de instalação de um equipamento ou de uma infraestrutura ser o mesmo que embolsa os lucros colaterais do equipamento ou da infraestrutura (como no caso das companhias ferroviárias que faziam estações não nas cidades existentes mas ao lado delas, em terrenos comprados a baixo preço pela companhia - tal como contei neste post) ocorreu-me que (agarrem-me, que estou outra vez a ter uma ideia!) o Estado sobre-endividado podia fazer o mesmo: não apenas pagar a instalação dos equipamentos e das infraestruturas, mas também embolsar os lucros extraordinários deles derivados. Por exemplo: congelar o valor das propriedades naquele local antes da realização do investimento, e exigir o pagamento da diferença que ocorresse no momento da venda.
Contra mim falo, que ando há anos à espera que a Junta de Freguesia faça uma estrada planeada para passar em frente ao meu terreno agrícola, não sei se me entendem.
Mas - cá para nós - quanto mais penso nisso mais imoral acho que a Junta pague o preço da estrada e eu embolse a diferença de valor entre o terreno agrícola e o urbano. Eu, que me limitei a ter o terreno no sítio certo no momento certo.

Se já estão a carregar no "comente" para me virem dizer "e nada te impede de dar esse dinheiro à Junta, Heleninha", vá, travões a fundo: ou há moralidade, ou embolsamos todos...
Era o tipo de mudança estrutural que não me custava aceitar. E resolvia uma série de problemas de corrupção dos agentes do Estado.

22 junho 2010

Durango & Silverton Narrow Gauge Railroad

Quem já está em Mesa Verde pode bem entrar numa de "já agora", e dar um saltinho a Durango (a 60 milhas desse Parque) para participar numa das mais extraordinárias jornadas ferroviárias do mundo, como assegura o meu melhor conselheiro de viagens: the Durango train is the most spectacular in the world, if the weather allows you to see the mountains.



Já agora, fomos: saímos em busca de um comboio a vapor para turistas, e demos com um belo naco de História dos EUA.

Se a conquista ferroviária dos EUA tivesse sido feita pelo Estado, e não pela mão invisível do mercado, Durango chamava-se Animas City. No caso concreto desta cidade, a mão pode ter sido invisível, mas não era anónima: general William J. Palmer, herói da Guerra Civil, proprietário da Denver & Rio Grande, inteligente investidor e, de um modo geral, agente de desenvolvimento por motivos nem sempre altruístas.
Palmer vinha desde 1871 a traçar a sua linha ferroviária pelo mapa abaixo, primeiro de Denver para Colorado Springs (cidade fundada por ele, mais uma prova do seu fantástico faro para o negócio, pois logo viu que aquele local havia de dar um magnífico centro turístico), depois até Pueblo (onde tratou de criar uma empresa metalúrgica integrada que lhe permitiu reduzir em 50% os seus custos com os carris, e que se tornaria no maior empregador do Colorado durante algumas décadas), e ia avançando aplicadamente, com os olhos postos em Santa Fé e mais além. O sonho era ligar Denver à Cidade do México.
Tempos conturbados aqueles: apenas vinte anos antes a fronteira do México tinha sofrido um brutal empurrão para o sul, o território do Colorado ainda não fazia parte da União, a Guerra Civil era tragédia recente. Como se não tivesse já problemas de sobra com as dificuldades próprias do empreendimento e os impasses financeiros, Palmer tinha ainda de suportar a concorrência de outras companhias ferroviárias, e em particular a da Santa Fe Railroad (mais exactamente: a Atchison, Topeka & Santa Fe), que queria a todo o custo dominar a rede de transportes naquela região. Aconteceu o que tinha de acontecer: uma autêntica sequência de Tom & Jerry, envolvendo pistoleiros a guardar pontos estratégicos para a construção das linhas, presentes a políticos e magistrados, cenas de espionagem. A D&RG acabou a perder a melhor passagem para sul, Raton Pass, a favor da SFR. Decidida ainda a chegar a Santa Fé, optou por um pequeno mas difícil desvio: para oeste, na direcção de Alamosa, fazendo assim a primeira experiência de construção ferroviária nas Montanhas Rochosas - do qual nasceu o orgulhoso slogan "Thru the Rockies... Not Around Them". Saber vender os fracassos como vitória é a alma do negócio.
A luta continuou. Ambas as companhias tinham interesse numa ligação de Pueblo para Leadville, cidade que estava a ter um acelerado crescimento devido às minas de prata. A D&RG tencionava construir a ligação ao longo do rio Arkansas, por uma estreita passagem de penhascos abruptos, a Royal Gorge. E eis que chegou o momento fatal: num restaurante, empregados da Denver & Rio Grande descuidaram-se a conversar sobre esses projectos, outros clientes (ou talvez espiões, ou talvez esta história esteja muito mal contada) ouviram e foram contar à Santa Fe Railroad, e daí a nada havia cenas de pancadaria, tiroteios e até tribunais a decidir quem tinha direitos sobre aquela passagem.
Estou até em crer que foi por causa deste episódio que, um pouco por todo o mundo, começaram a fazer cantinas nas empresas: para o pessoal poder falar à vontade sem medo de espiões da concorrência.
Resumindo, que a história já vai longa: para a Denver & Rio Grande e a Santa Fe Railroad foi feito um Tratado de Tordesilhas, sendo que a primeira não podia explorar a região para sul (e lá se foi o sonho de chegar à Cidade do México) e a segunda não podia explorar para oeste de Cañon City. Esta veio a tornar-se uma grande empresa ferroviária continental, enquanto que a D&RG acabou por se fixar sobretudo no Colorado e em Utah. De onde se poderá talvez concluir que, naqueles tempos do faroeste, quando as coisas metiam tribunais e políticos, umas mãos eram mais invisíveis que outras.
E foi assim que a empresa do general Palmer descobriu a sua vocação de montanhista no apoio aos cada vez mais importantes centros mineiros daquela região. A conquista da impenetrable wilderness foi feita com vias reduzidas (com carris mais leves, mais baratas, mais fáceis de instalar naquele terreno acidentado, mais aptas a permitir curvas apertadas), não recuando nem sequer perante a dificuldade de uma passagem a 3000 m de altitude no Cumbres Pass. Mal eles sabiam o que por lá neva em certos meses, e as dificuldades que as pobres locomotivas haviam de ter para atravessar a invernia. Mas estávamos em 1880, ainda faltavam uns enormes cem anos para as informações metereológicas mundiais ficarem à distância de uma tecla enter.

Em Julho de 1881 o comboio chegou finalmente ao vale do rio Animas - a Durango. Não: a Animas City. Não: a Durango.
Naquela época, era normal a mão invisível levar os comboios até perto das cidades. Onde houvesse um aglomerado com uma dimensão aceitável, a linha parava um pouco antes, a empresa ferroviária comprava os terrenos à volta da estação, e vendia-os depois a bom preço a quem quisesse deslocar-se da povoação inicial para o novo centro criado pelo meio de transporte.
O descampado no meio do qual se construiu a estação recebeu de Palmer o nome de Durango - talvez a pensar ainda no México. A povoação cresceu e cresceu e cresceu, acabando por englobar Animas City, ali para os lados da 32nd Street. Com o comboio veio também o progresso: bandos rivais e tiroteios, enforcamentos públicos, bordéis ("Sino de Prata", "Jardins Suspensos da Babilónia", etc. - ah, a poesia daqueles tempos...), salas de ópio. E regulamentos a proibir mulheres fancy de "andar a cavalo ou em carruagem aberta, ou de outro modo exibindo ou publicitando a sua profissão pelas ruas de Durango". Regulamentos esses que coexistiam pacificamente com os impostos cobrados às mulheres fancy, e que bom jeito faziam aos cofres da cidade.

Depois, em apenas onze meses, o esforço de 500 homens levou a linha de Durango a Silverton, que era até à data o único grande centro mineiro sem ligação ferroviária, e com péssimos acessos.






Silverton ou Silvertown? Segundo a lenda (nos EUA é assim: ao fim de meia dúzia de anos, já se pode falar em lendas; um europeu às vezes tem de se conter para não rir - e pergunto-me se não virá daí a cara risonha dos chineses na Califórnia...), o nome nasceu da resposta de um mineiro a quem perguntaram se encontrara ouro: "We ain't found any gold, but we struck that blasted silver by the hunnerd ton!"
Prata às toneladas, portanto. O transporte de uma tonelada de minério custava $80 pelo trilho para carretos de mercadorias, construído em 1872 sobre um velho caminho dos Ute, o Stony Pass - uma passagem tão difícil, que em certos pontos era preciso passar a carga para lombos de burros. Pela Million Dollar Highway, estrada com peagem construída por um outro empresário de visão e arrojo, Otto Mears, custava $30. Nas carruagens da D&RG custava $12, e mesmo assim as pessoas reclamaram que o preço era demasiado alto. Fazer o quê? A Santa Fe Railroad estava impedida de construir um discount railroad para aqueles lados...

Ao chegar a Silverton, Palmer teve uma surpresa: o vale não permitia a mesma gracinha que em Durango. Não havia terrenos nas imediações da cidade que a Denver & Rio Grande pudesse comprar ao desbarato para vender logo depois com muito valor acrescentado. Por esse motivo, viu-se obrigado a comprar os terrenos para a linha e a estação a preços proibitivos.
Ora aqui está uma autarquia como já não há: em vez de pagar para trazer o progresso à sua cidade, cobra preços altíssimos ao empresário? Isto só mesmo no faroeste.
Em todo o caso, a ligação ferroviária trouxe à cidade um enorme impulso, que durou até aos anos vinte, altura em que o preço do minério baixou substancialmente, levando ao encerramento da maior parte das minas. Mas como diz o povo: quando se fecha uma porta, abre-se uma janela, e esta veio em forma de Lei Seca. Silverton terá sido uma das poucas cidades onde os alambiques podiam funcionar descansadamente à luz do dia, porque os fiscais vinham de comboio, o que dava tempo a que os produtores, avisados por amigos em Durango, dessem um jeitinho ao cenário.

Tal como em Durango, a ligação ferroviária trouxe riqueza, progresso e bordéis. Estes revelaram-se uma das actividades económicas mais estáveis da cidade. Apesar dos esforços de alguns cidadãos de bem, que chegaram a pagar a pistoleiros para repor a ordem e a moralidade, as casas de prostituição foram ficando: afinal de contas, tinham uma importante função social para os mineiros, além de contribuírem para a saúde financeira da urbe.
Com o passar dos meses, o comboio trouxe também mulheres de respeito, e a pouco e pouco a cidade tornou-se um lugar agradável para constituir família.
Mal fechou o último bordel da Blair Street, veio Hollywood (não sei que conclusões tirar sobre esta coincidência). A fábrica de sonhos descobriu o potencial destas linhas de via estreita no sudoeste do Colorado, e escolheu a região para rodar o filme "A Ticket to Tomahawk", com Marilyn Monroe. Para melhorar os efeitos cénicos, mandaram pintar o comboio de um amarelo que ganhou nome próprio (Rio Grande Gold) e acabou por se estender a toda a frota. Por meados dos anos cinquenta o antigo cor-de-verde-quando-foge já tinha sido integralmente substituído em todas as carruagens pelo alegre amarelo, e as fotografias dos turistas nunca mais foram as mesmas.


Os filmes continuaram: Across the Wide Missouri (filmado em grande parte nas montanhas San Juan, embora se dissesse que passava em Montana), Denver & Rio Grande, Viva Zapata, Lone Star, Around the World in Eighty Days, Butch Cassidy and The Sundance Kid.

O impulso publicitário oferecido pela indústria cinematográfica , com resultados brilhantes no turismo, não impediu a empresa D&RG de pretender encerrar a linha, a par com todas as outras de via estreita que detinha no Colorado. É verdade que o antigo tráfego ligado ao minério estava em vias de extinção. Contudo, havia cada vez mais turistas interessados naquele percurso. Mas a empresa, que não, que não, que não estava interessada em manter a ligação Durango-Silverton - apesar de ser, de entre todas as suas linhas de passageiros, a que lhe trazia maior facturação.
E então aconteceu algo improvável no país do laissez faire capitalista: os cidadãos uniram-se, fizeram prova da viabilidade económica e da importância histórica daquele troço, foram para Washington protestar por causa do fim da indústria mineira. Pelo seu lado, a empresa não se fez rogada a inventar soluções alternativas, que chegaram a incluir a oferta de um serviço de camionagem e autocarros para fazer concorrência ao seu próprio comboio. Como entender uma decisão tão estranha? Talvez assim: nos anos 50 do século passado, via estreita não era propriamente sinónimo de progresso e algo que contribuísse para a imagem de dinamismo de uma empresa. Além disso, a linha Durango-Silverton tornava-se uma área cada vez mais isolada, geografica e economicamente, no novo painel de especialização da empresa.
Pergunto-me o que é que a CP tem, que a D&RG não teve: no fim de uma longa série de protestos, alegações e contra-alegações, o Estado obrigou a empresa privada a manter aquela ligação ferroviária em funcionamento, mesmo contra a sua vontade. Nas décadas seguintes o troço foi vendido repetidas vezes, tendo sido comprado em 1998 pelos fundadores da American Heritage Railways, amantes de linhas e comboios antigos, que se vêem sobretudo como guardiães de um património histórico. Muito para nosso gáudio, que num belo dia de Julho nos fizemos à estrada em direcção a Durango, trocámos as reservas feitas na internet por bilhetes vintage muito bonitinhos, tivemos imensa dificuldade para escolher entre carruagem fechada ou gôndola, lado direito ou esquerdo, e partimos para a grande aventura. Direcção: westbound, embora Silverton fique a Nor-Nordeste de Durango. Westbound é uma reminiscência da história centenária daquela linha americana, para a qual todos os trilhos iam dar a Denver, que ficava no Leste absoluto do mapa D&RG. Os comboios que saíam de Denver (mesmo os que iam para sul, viravam para oeste pelo Cumbres Pass, e em Durango seguiam para Nor-Nordeste) iam todos para Oeste.

Direcção: Westbound. Partida! O fumo da locomotiva, o apito piiiiiiiiii, o arranque suave, pouca-terra pouca-terra pouca-terra, sair da cidade, avançar pelo meio de belos prados verdes junto ao rio. Tudo conforme os melhores sonhos do turista.



Ao fim de alguns minutos apareceu um rapaz simpático a vender óculos de protecção (iguaizinhos aos Ray Ban, mas por $3), bebidas e livros sobre a história do comboio e da linha. Íamos para a romaria, comprámos tudo.
A seguir apareceu um ranger que falava pelos cotovelos, mas que, devido ao ruído do comboio, era quase impossível de compreender. Informava sobre as formações geológicas, contava histórias dos índios Ute, que acabaram por ter de sair daquela região devido aos mineiros, e informou ainda que, apesar de nos livros de ciências constar que naquelas montanhas não há alces, alguns deles não sabem e volta e meia aparecem por lá. Toda a gente se riu e tratou de espreitar pela janela na esperança de avistar algum alce analfabeto.

Sobre a beleza do trajecto, falam melhor as fotografias:









O tom avermelhado das pedras no rio é sinal de uma tragédia ecológica: a oxidação dos minerais misturados com a água, consequência da actividade mineira. Recentemente tem sido feito um enorme esforço para limpar o rio, cujos efeitos positivos estão patentes no paulatino regresso da população de trutas.



A cidade de Silverton é estranha: algumas ruas desastradamente largas mas em terra batida e cheias de irregularidades, casas vitorianas ao lado de barracões, e para onde quer que se olhe, um cerco de montanhas.





Vivendo como vive praticamente só do turismo, a cidade oferece restaurantes para todos os gostos. Escolhemos um saloon, com comida típica (diria: "típica de lata", mas a fome é boa cozinheira, como dizem os alemães), e um piano todo desafinado, do qual um figurante tentava arrancar sem anestesia algo ligeiramente semelhante à "sonata ao luar".



Depois do almoço demos um passeio pela cidade, e parámos numa loja de souvenirs que estava com saldos porque ia fechar. Mais uma. Comprámos uma t-shirt "out of coffee" para a Christina, e fartámo-nos de discutir com o Matthias porque ele queria comprar uma t-shirt "no species, no feces", que tinha nas costas desenhos detalhados das "fezes em perigo de extinção" (do lobo, do urso, do lince, etc.). O que são as coisas: o rapaz comprou a t-shirt com a semanada dele, começou a vesti-la, e nós, sempre que o víamos de costas, ríamos cada vez mais de tamanho disparate. O plano inclinado dos costumes é isto mesmo: uma pessoa cede um bocadinho, e num instante se torna insensível à anormalidade...

A meio da conversa com a dona da loja, ouvimos quatro apitos longos: _ _ _ _
Sinal de que o comboio ia partir, e que tínhamos apenas dez minutos para regressar ao nosso lugar. Também podiam ser cinco: a cidade é tão pequena!

Ao sair da cidade, uma estranha agitação percorreu os turistas em todo o comboio. Nós, que já temos alguma experiência de viagens nos EUA, perguntamos logo: É um alce? Onde está?
É que nestes passeios não é necessário olhar para a paisagem à procura de um animal daqueles tipo troféu fotográfico. Basta olhar para os outros turistas, ou para os carros parados na berma da estrada. São um óptimo indicador.
No caso, era um urso enorme a uns cem metros, que se balançava na encosta enquanto nos observava.
Os serviços municipais de turismo de Silverton estão de parabéns, organizaram tudo com excelência.

A empresa que explora e protege a linha histórica também não dorme no serviço. Oferece bilhetes combinados de comboio e autocarro, com diversos programas alternativos para as horas passadas em Silverton: passeios equestres ou em jipe até aos cumes, visita ao interior de uma mina e garimpagem no rio (tourisme oblige), aventuras em ATV ou snowmobile.
Uma das viagens é feita no comboio, a outra em autocarro, pela célebre San Juan Skyway, atravessando o Molas Pass (3325 m) e o Coal Bank Pass (3243 m).
Outros programas possíveis: visita a um parque de arborismo numa floresta de faias, só acessível por comboio; viagem de comboio combinada com rafting em Durango; sarau de teatro e vaudeville no Henry Strater Theatre.
Eis como de uma região inóspita e em processo de desertificação se fez um centro turístico de alta qualidade. Com mão invisível e Estado, com espírito empreendedor, arrojo e paixão. E um retoque de cor dado por Hollywood.







De olhos postos nesta espécie de fim do mundo no outro lado do globo, penso na linha do Douro, e nas tantas vias estreitas que em Portugal foram fechadas ou vão ainda resistindo, moribundas. Um dia destes hei-de trazer o meu melhor conselheiro de viagens a este lado do mundo, hei-de-lhe mostrar outras linhas ferroviárias que são igualmente the most spectacular in the world.

Galileu ensinado a miúdos de 13 anos

Amanhã temos de entregar na escola o livro de História do Matthias do 7º e 8º ano, para ser vendido aos alunos mais novos. Alguns pais organizam estas vendas na escola, e é um autêntico negócio win-win.
Folheei o livro para ver se estava tudo em ordem, e parei na página do Galileu:


"E contudo move-se"

Como Copérnico, também Galileu etc. telescópio mais potente etc. sistema heliocêntrico, publicação em 1610, discussões.

Na peça de teatro "Vida de Galileu", de Bertolt Brecht (1898-1956), diz um monge a Galileu:
... Eu sou filho de um lavrador e cresci na Campagna. São pessoas simples. Sabem tudo sobre oliveiras, mas do resto pouco sabem ...
Asseguraram-lhes que o olho divino paira sobre eles, ... que o grande teatro do universo se arma à sua volta, para que eles ... se possam sentir confirmados.
O que diria a minha gente se eu lhes contasse que se encontram num torrão de pedra que, sem parar de girar, anda no espaço vazio à volta de outro corpo celeste?
Para que serve então a Sagrada Escritura, que tudo explica ... e da qual se dirá agora que está cheia de erros ...

7. Observa atentamente a figura. Com que palavras poderia Galileu ter elogiado o seu telescópio?
8. Com a ajuda do texto de Brecht, descreve que angústias podem ter surgido nas pessoas devido às afirmações de Galileu.
9. Escreve a resposta que Galileu poderia ter dado ao monge.

Em 1633 julgamento etc., prisão domiciliária etc.
Em 1992, o Papa João Paulo II afirmou que Galileu revelou mais visão que os seus adversários teólogos.

10. Prepara uma carta ao tribunal eclesiástico na qual defendes a posição de Galileu.

***

Eu quero voltar à escola! Eu não vou vender este livro! Na próxima quinta-feira vou à escola do meu filho e compro todos os desta série!

(que diferença em relação aos livros pelos quais eu própria estudei História)

21 junho 2010

herdeiro meu

Hoje de manhã o Matthias anunciou numa voz muito contente:

"mãe, depois disto, nunca mais voltas a pensar em me deserdar!"

e mostrou-se: calções verdes, t-shirt vermelha, uma bela bandeira portuguesa pintada na cara.
Depois tomou o pequeno-almoço e foi para a escola.

(A vantagem das raízes duplas é que vivem os campeonatos internacionais de futebol com o dobro da intensidade dos frenéticos normais.)

20 junho 2010

para quem diz que os alemães não têm sentido de humor...

1.

Este filme, em que um grupo de estudantes faz uma paródia à Lena (a miúda vencedora do festival eurovisão da canção), transformando a sua canção num hino alternativo para a selecção alemã.
(Apresso-me a pôr isto no ar antes que seja tarde demais...)
(Na sexta-feira passada comovi-me um bocadinho ao ver a alegria dos sérvios nas ruas de Berlim. Se na Loja do Cidadão sabem disto, vão-me obrigar a pagar uma taxa extra para me concederem a nacionalidade alemã...)


2.

Quando contei ao Joachim que o Saramago tinha morrido, ele comentou: "os espanhóis devem estar muito tristes..."

dois posts sobre Saramago

Morreu abraçado às palavras, no segunda língua.

No dia da morte de José Saramago, no jardim de luz.

18 junho 2010

Breaking balls Sonata - for Vuvuzela



(encontrado no facebook da Laura Barile)
(aviso de amiga: anotem este nome)

deixá-lo partir com este beijo

quem tem medo das cartas aos luxemburgueses?

A propósito desta notícia, pergunto: e qual é o problema?
Acho o convite feito nesse e-mail muito acertado, e até o quero reforçar:

Caro luxemburguês,

embora não tenha competências para tanto, gostaria de o convidar a instalar-se ilegalmente em Portugal.
Em caso de doença e necessidade de recorrer aos cuidados médicos, pode dirigir-se aos serviços hospitalares públicos portugueses. Provavelmente será atendido tal como qualquer português, ou até melhor, e gratuitamente. Com certeza que todos os funcionários desse serviço tentarão falar numa língua que o senhor entenda.
Não se esqueça de pendurar uma bandeira do seu país à janela - nós gostamos do colorido da internacionalidade.
Se cometer uma infracção, trate de alertar imediatamente o agente da autoridade para a sua nacionalidade. É mais provável que esse facto jogue a seu favor que contra si.
Em Portugal, tudo isto é possível, não porque sejamos governados por idiotas politicamente correctos, mas porque o povo é mesmo assim: gosta de ser hospitaleiro, e nem se importa muito que abusem.


Adenda (que me ocorreu, sabe-se lá porquê, no momento do 1-0 no Sérvia-Alemanha): podemos escrever um convite assim porque é para luxemburgueses. Se fosse para - sei lá - brasileiros, ucranianos, cabo-verdianos...

um dilema grave

Estou aqui a pensar se vou à minha sessão semanal de yoga para redução de stress, que bem preciso, porque ando aflita com um trabalho urgente que já devia ter feito, ou se fico em casa e faço o trabalho.

Acho que vou ao yoga. Perco duas horas, mas saio de lá como se estivesse no nirvana.

Emboramente: há um momento em que temos de repetir frases do género

"eu - digo o meu nome - conseguirei atingir os meus objectivos com determinação, calma e alegria"
"eu - digo o meu nome - sou capaz de ultrapassar todas as dificuldades que surgem no meu caminho"

- e eu, a propriamente dita, fico sempre mentalmente gaga, a pensar qual será o nome que devo usar. "Eu, Helena Araújo", ou "Eu, Helena," ou "Eu, Heleninha", ou "Eu, Lena", ou "Eu, Leninha," - e terei mais uma meia dúzia de exemplos, mas esses não conto, porque não são nomes de guerra.
Qual dos meus nomes é portador de projectos, tranquilidade e alegria?
Suspeito que este trabalho anda empatado só porque eu não me sei dar o nome exacto.

A ver se lá no ginásio também fazem sessões de yoga para asserção de identidade.

ainda se fosse para ver o Papa...

As escolas dos meus filhos estão a dar tolerância de ponto para os alunos verem o jogo de futebol a meio do dia. A empresa do meu marido marcou um convívio na esplanada de um restaurante com écran gigante - e até paga o almoço aos empregados.
Neste país ninguém pensa em trabalhar?

A culpa é do Sócrates, claro.
Aquela tolerância de ponto por causa do Papa abriu um precedente que só podia resultar neste plano inclinado.

17 junho 2010

por causa daquele meu post sobre "cala a boca"

Por causa daquele meu post sobre "cala a boca", o sitemeter ia enlouquecendo: em 24 horas, mil visitantes extra.
Parece que a censura é que está a dar.

and now for something completely beautiful:

Vejam-me esta página dos "gêmeos" sobre a sua visita a uma cidadezinha italiana.

O bem que me soube passear por aquelas fotografias que com tanta nitidez revelam a sensibilidade dos rapazes, o que gostei de saborear a simplicidade do texto e de rir com a já habitual surpresa dos seus murais.

E a confusão que me fez aquela fotografia das árvores: será mera realidade vista com olhos atentos? será uma ilusão de óptica, um mural muito bem conseguido?


(É só a mim que acontece isto? Quanto tenho realmente imenso que fazer, distraio-me pelo caminho.)
(Laura: obrigada pelo link no facebook!)

"norte-coreanos"

Como não temos outros problemas (onde será que fui buscar este belo argumento?) entretemo-nos no facebook com este filme, no qual um grupo de alegados norte-coreanos rejubila às ordens de um maestro, perante as câmaras.
Mas afinal qual é o problema de um grupo de eventuais actores fazer fitas para as câmaras antes do início do jogo? Não me digam que acham que fenómenos de publicidade e criação deliberada de uma imagem não atravessam a fronteira das Coreias? (e nem sei dizer de que lado para que lado...)

Confesso que, da primeira vez que vi o filme, imaginei que estariam a treinar para saber estar em estádio à maneira ocidental. É que nunca se sabe como é que cada povo exprime a sua satisfação durante o jogo. Quem, como eu, já viu uma brasileira a saltar para cima de uma mesa ao lado do écran gigante, e levantar a t-shirt, virada para o público, só para festejar um golo, acredita em tudo e em muito mais. E é óbvio que a Coreia do Norte tem uma imagem a defender, que convém acertar e polir antes do início do jogo (quem nunca combinou participar em grupo num evento público exibindo determinados trajes ou comportamentos, que atire a primeira pedra). Mas depois reparei melhor no estádio vazio, e nas câmaras em frente a este grupo.

Se nos vamos incomodar com isto, e tirar conclusões sobre as condições de vida na Coreia do Norte, vamos ter de nos incomodar muitas mais vezes e tirar muitas mais conclusões sobre as condições de vida em todos os países do mundo. Quem é que permanece normal perante uma câmara de TV?

***

Esta pequena agitação internética lembra-me uma teoria que li algures, há já não sei quanto tempo, sobre a nossa sociedade da informação: nós não andamos informados - andamos em estado de permanente semi-excitação devido a pseudo-escândalos.

melhor ainda que falar de sapatos feios e de receitas culinárias (incluindo o fenómeno "Nutella Lawson")

Desde que fiz um post sobre o "cala boca Galvão", o sitemeter explodiu.

Mais uma vez fica provada a estranha inconsistência das estatísticas.
Se fosse esta a maneira de chegar ao milhão de leitores, seria motivo de orgulho?

liberdade de expressão x liberdade de imprensa

Ora aqui está um livro que parece interessante, por questionar o uso de "liberdade de expressão" e "liberdade de imprensa" como sinónimos. No prefácio, uma frase chave: "no sistema capitalista, a liberdade de imprensa foi transformada em liberdade de empresa".
(Para mais informações, carregar sobre a imagem.)

No entanto, o tema parece em parte ultrapassado, ou pelo menos incompleto: falta referir a internet, concretamente o novo fenómeno de grupos mais informais de fazedores de opinião e veiculadores de ruído informativo.

16 junho 2010

e então ela disse assim: "e se não estiver satisfeita, vá à Polícia" - e eu fui

O Matthias esqueceu-se de um casaco numa loja do cidadão (alemã). Eu fui lá no dia seguinte, e disseram-me que já tinham mandado o casaco para o centro dos perdidos e achados. E que esperasse uns dias antes de telefonar a perguntar pelo dito. E eu esperei. E depois procurei na internet, mas não estava listado. Telefonei, e não sabiam de casaco nenhum como o descrito, mas disseram-me para ir lá, para ver no armazém. Eu fui, e não encontrei o casaco.
Depois procuraram no computador, e disseram-me que não tinham recebido nada desse centro, além de acharem muito esquisito a rapidez com que despacharam uma coisa esquecida - que não é nada habitual, disseram eles. De modo que eu fui outra vez à loja do cidadão, ver se o casaco não teria caído para trás de algum móvel.
A senhora que me atendeu foi muito desagradável. Aquele tipo de mulher sobre quem se diz que tem "cabelos nos dentes". Disse-me com maus modos que não registam essas coisas sem importância, e que não tinha como provar ou verificar fosse o que fosse ligado a uma bagatela. E que dava o assunto por encerrado. Perguntei-lhe se não a incomodava a suspeita de ter havido um furto, perpetrado por funcionários do Estado, dentro de organismos estatais. Ela disse que não a interessava, e "se não estiver satisfeita, vá à Polícia".
E eu fui.
Disse na recepção ao que ia, e que até tinha vergonha de vir incomodar por causa de um artigo de tão pouco valor, mas que não gosto da ideia de haver furtos dentro das repartições públicas. Daí a nada chamaram-me para registar a queixa. Voltei a pedir desculpa por causa da bagatela, e a funcionária, muito simpática, cortou-me a palavra: que era o que faltava, que não se pode admitir uma coisa destas, aonde é que vamos parar se nem nos serviços públicos nos sentimos em segurança?, e que até o polícia da recepção ficou boquiaberto quando contei o sucedido.
Daí a nada estava a telefonar à barbuda dental, que voltou a dizer que não tinha nada com isso, e a polícia só fazia "hm-hm, hm-hm", e eu pensava "pronto, já foste bem embrulhada". Mas quando a outra acabou de falar, ela rematou: pois é, mas a senhora tem obrigação de registar tudo o que sai dessa casa, independentemente do seu valor, até para sua própria defesa, e teremos de dar início a uma investigação sobre a "subtracção de coisa perdida" ocorrida nesses serviços.

Já perdi a esperança de recuperar o casaco, e é pena, porque ainda estava a contar dá-lo a uma escadinha de três sobrinhos - a qualidade da "coisa perdida" chega para esses rapazes, e mais outros tantos. Mas que o esforço valha ao menos para que alguém naquela cadeia de serviços afaste para longe a ideia de que se pode servir impunemente à custa dos utentes.

(Sim, eu sei: a proceder assim, bem mereço um descontozinho nos tais 300 euros que custa o processo para obter a nacionalidade alemã)

cala boca Galvão!



O caso é simples, como conta o El País: twitteiros do Brasil começaram a twittar "cala boca Galvão", e fizeram-no com tanto empenho que num ápice a frase se tornou famosa.
Twitteiros do resto do mundo começaram a interrogar-se sobre o que isso queria dizer.
E aí, foi o disparate total: desde o filme acima, preparado a toda a velocidade, até ao boato que seria o novo vídeo da Lady Gaga, passando pelo Paulo Coelho a afirmar que se trata de um medicamento homeopático, o silentium galvanus.

Nada disso: era apenas um movimento de protesto contra o comentador brasileiro do mundial de futebol, Galvão Bueno.

Entretanto, já há um Galvao Bird's Foundation, e até o New York Times escreve sobre o caso.


Se eu fosse o Galvão Bueno, metia-me debaixo da cama e só saía de lá com nome falso e barba postiça.
Os desenvolvimentos do caso são divertidos, sem dúvida. Contudo, será que a algum destes twitteiros ocorreu que por trás do nome "Galvão" há uma pessoa de carne e osso e sentimentos? É o que me incomoda nesta história. Até estava a pensar criar um grupo no Facebook, algo como "estamos com o Galvão!" ou "Deixa-os twittar, Galvão, que quem muito twitta pouco acerta", mas informaram-me que afinal não é preciso. O Galvão Bueno leva o caso com humor, e até conta uma história lembrando o Ayrton Senna, que deve estar farto de rir.
Valente Galvão! Consegue cavalgar a onda da internet.

E no entanto...
...que mundo é este, onde é possível que uma multidão passe com toda a facilidade frases pouco abonatórias sobre uma pessoa concreta, e essa cadeia num instante atinja um nível global?
Para finalizar, o detalhe do erro gramatical: que mundo é este, onde é possível que uma multidão passe com toda a facilidade frases com erros gramaticais...?


***

Este post foi feito with a little help from my friends, brasileiros. Quando eu nem sabia ainda da história, já eles me estavam a explicar a sua desconstrução.

15 junho 2010

coisas da vida

Esta manhã a Christina partiu um osso do pé quando estava a saltar à corda.

Ainda não conseguiu parar de rir de si própria.
"A saltar à corda!", diz ela, "hihihi, a saltar à corda!"

***

Estou desde as seis e meia da manhã de serviço à família: passar uma camisa para o Joachim (como é que vocês fazem? eu de momento não me dá jeito nenhum passar a ferro, porque na tv só passa futebol), levar o Matthias à escola porque ontem foi vítima de um caso cartão vermelho no treino e agora anda a coxear, coitadinho, até parece o Ballack, depois ir para o outro lado da cidade em busca do casaco que o rapaz perdeu numa loja do cidadão, para saber que a loja do cidadão não enviou casaco nenhum para o centro de perdidos e achados, e eis senão quando me telefonam a dizer que tenho de regressar ao outro lado da cidade porque a Christina teve um acidente na escola. Enquanto isso, todo o trabalho que tinha previsto fazer hoje...
- Deixem-me trabalhar!
Como será que fazem as pessoas com filhos e trabalho das nove às cinco?

13 junho 2010

andamos a brincar a quê, concretamente?

A frota de solidariedade saída da Turquia, acto assumido de provocação no qual participaram vários políticos, intelectuais e activistas europeus, e que foi atacada pelo exército israelita com uma violência que levou a própria Angela Merkel (olhem quem!) a perguntar se o princípio da proporcionalidade terá sido respeitado, teve um triste dano colateral: o naufrágio da retórica nos blogues portugueses.
Uns serviram-se pelo lado do "malditos judeus, sempre os mesmos!" outros optaram pela desconfiança barata "e seriam mesmo apenas alimentos e medicamentos que esses terroristas lá levavam?"
Uns dias mais tarde, os escombros estão a dar à costa: que Israel é o único país da região onde os homossexuais não são perseguidos, balhósdeus, e que realmente maus e desumanos são os outros. Daqui a nada temos sharia verus democracia. Óptimo, óptimo, este mundo avança tão depressa que é sempre bom quando a discussão não sai do sítio - aproveitamos para descansar um bocadinho...

E se, para simplificar, combinássemos alguns princípios de argumentação básicos?
Estes:
- Os erros dos outros não justificam os meus.
- O que eu faço de errado, é errado; o que eu faço de correcto, é correcto. Uma mão não lava a outra.

viva a Elvira!

Este fim-de-semana tivemos cá visitas. Eu tinha um litro de natas no frigorífico (mas não vou explicar, nem eu própria entendo) que estavam a chegar ao limite do prazo de validade. Fui ao bistrot da Elvira, escrevi "natas" na caixinha "pesquisar neste blogue" (encontra-se na coluna da direita), e depois foi só escolher.
Ontem tivemos bacalhau à beneditino seguido de bavaroise de morangos, hoje foi a vez de peito de pato com maçã e gratin dauphinois.

Não é só o recurso fantástico de poder procurar receitas a partir dos ingredientes que já tenho em casa. É muito mais: a Elvira tem uma maneira tão simples de descrever a confecção dos pratos, torna tudo tão fácil, que devia ganhar uma medalha da sociedade de psicanálise só pelo bem que faz à nossa auto-confiança (ou talvez medalha nenhuma: afinal de contas, acaba por esvaziar os consultórios dos psi da lusofonia).

Resumindo e concluindo: viva a Elvira!
(E muito obrigada!)


(A Nutella Lawson, ou lá como ela se chama, já era.)


Ah, quase me ia esquecendo de uma nota importante:
Para quem acha que eu, depois de me regalar com um litro de natas, devo estar gorda como sei lá o quê, aqui vai o meu truque: o escritório fica bem longe da cozinha. Enquanto vou preparando estas receitas, devo fazer umas vinte vezes o percurso (com gincana entre os móveis) entre o fogão e a internet. É quase tão tiro e queda como ter o frigorífico e a despensa três andares acima do sítio onde se come.

12 junho 2010

Vietname em Berlim

Ontem fomos jantar com amigos, de Karlsruhe, que nunca tinham estado num restaurante vietnamita. Ora aqui está um caso flagrante de assimetrias regionais: depois das pizzas e dos dönner, é impossível conceber Berlim sem a cozinha vietnamita.

Para os visitantes de Berlim, aqui vai uma lista com quatro dos nossos preferidos (em todos eles é possível almoçar bem por cerca de 10 euros; e dificilmente o jantar ultrapassa os 20 euros, bebidas incluídas):

- Mitte - Rosenthaler Str. 38 (junto aos Hackeschen Höfe): Pan Asia - no verão é muito agradável usar as mesas do pátio. Sabores da cozinha vietnamita (e também tailandesa e chinesa) com um toque muito elegante e moderno. Não deixem de experimentar as bebidas especiais da casa.

- Mitte - Alte Schönhauser Straße 46: Monsieur Vuong - durante algum tempo foi aquilo a que se chama "um local para insiders", mas entretanto tornou-se um segredo de Polichinelo. Apesar de sempre cheio, e do consequente burburinho, vale a pena. Às vezes temos sorte, e o Monsieur Vuong vem ter connosco para conversar um pouco - enquanto fala solta as mãos num fino bailado, e nós até nos esquecemos de comer. As ruas à volta desse restaurante são muito agradáveis para passear, com lojas pequenas e originais, algumas delas muito engraçadas - literalmente.
(Pequeno truque: ao fim de semana, os berlinenses comem tarde. Para não ter de esperar muito nestes locais famosos, o mais fácil é chegar antes das 13 para o almoço e por volta das 19 para o jantar.)

- Neukölln - Hasenheide 10: Hamy Cafe Foodstore - simples, serviço incrivelmente rápido, pratos deliciosos, preços inacreditavelmente baixos. E quem, no fim da refeição, tiver ainda algum espaço livre no estômago, pode atravessar a rua e ir comer um gelado na gelataria Hennig.
Pequeno senão: o parque em frente, Volkspark
Hasenheide, já no tempo da Christiane F. era famoso como local de tráfico de drogas. A situação tem vindo a escalar, com bandos africanos e árabes a lutar pelo domínio desse espaço. Aos visitantes dessa área (que inclui a Hermannplatz, ali perto) recomenda-se alguma precaução, sobretudo à noite.

- Charlottenburg - Leonhardtstrasse 7: My Hanoi. O Kiez da Leonhardtstrasse é um local muito especial em Charlottenburg: com larguíssimos passeios onde os cafés e restaurantes espalham as suas mesas à sombra das árvores frondosas, num cenário em estilo Art Nouveau muito bem cuidado. Um espaço para saborear a boa vida com todo o sossego. Num raio de uma centena de metros encontram-se restaurantes que vão da Espanha à Áustria, passando pelos inevitáveis italiano e indiano e, claro, pelo My Hanoi. Todos eles muito bons. No vietnamita recomendo especialmente as sobremesas. Todas elas.



Adenda

- Mitte - Münzstr. 3, entre Alexanderplatz e U Weinmeisterstr. : "Com Viet". É muito pequeno, mas a qualidade é muito boa e os preços são bastante acessíveis.
(a partir de um comentário do Francisco)

Mais uma Adenda: 
(também por sugestão do Francisco)
ChénChè

11 junho 2010

uma praga

Se não me engano, começou o primeiro jogo do Mundial.
Aquele barulho contínuo de vuvuzela deixa-me a imaginar que seria tal e qual o que se ouviu no Egipto quando lhes caiu em cima a praga dos gafanhotos.

ainda o inquérito sociológico

Está aberta a votação para o melhor argumento contra ou a favor da Bimby.
(Viram que não escrevi nem Pimba nem Bimba? Hoje estou muito respeitadora das sensibilidades alheias.)

Os prémios são todos provenientes da feira de Barcelos, ainda do tempo em que os animais falavam (bem, pelo menos na aldeia da minha avó alguns cucos destravados* diziam "Ó Zé! Ó Zé!") - o que significa que nada sei sobre o teor de chumbo no vidrado, e essa é justamente uma das razões pelas quais estas coisas cada vez têm mais pó. Mas um pó muito cosmopolita, já deram a volta ao mundo. O que prova também que são resistentes, porque apesar de tanto passeio ainda não racharam.

Posto isto, cá vamos ao que interessa:

Primeiro prémio - panela grande com tampa
Segundo prémio - assadeira pequena
Terceiro prémio - castiçal
Prémio suplementar, ex aequo - a gratidão eterna do meu marido, por se ver finalmente livre destes trambolhos.

Este post vai sem comentários, porque estou a ver se chego aos 100 comentários no post anterior, sobre o mesmo tema...

**

Adenda, muitos dias depois, porque reparei que me esqueci de falar daquele "destravados*":

(*) Na aldeia da minha avó, há mais ou menos dois séculos, disseram-me que para destravar os pássaros, para eles poderem imitar os humanos, é preciso cortar-lhes alguma coisa sob a língua. Espero que isto não passe de uma brincadeira para enganar a miúda de 10 anos que eu era.
Mas talvez seja verdade: há mais ou menos dois séculos havia muita crueldade na maneira de tratar os animais. Por estas e por outras é que, se me dessem a escolher, gostaria de viver no futuro.

Cluny



Quando eu tinha dez anos, li no meu livro de História um relato sobre a Abadia de Cluny. Dizia-se: importantíssimo centro religioso medieval e maior mosteiro da Europa.
A partir daí, e embora viesse num livro escolar, lugar algo propenso a matar curiosidades e fascínios, habituei-me a imaginar a Abadia de Cluny como um lugar mítico, e sonhava um dia poder entrar nela e sorver na sua semi-penumbra o respirar dos séculos.

Qual não foi o meu espanto quando fui a Cluny e dei com o descampado onde ficava a Abadia. Apenas isso, e um torreão, e um moinho ou algo do género. Após a revolução francesa, o conjunto foi vendido e transformado na maior pedreira da Europa. Hoje em dia, os guias turísticos da cidade ganham a vida apelando à capacidade de imaginação dos visitantes.

Como nós cá não precisamos de pagar a ninguém para começar a imaginar coisas, passeámos pela cidade, sem guia turístico, em busca dos vestígios da gatunagem. Olhávamos para as fachadas, e debatíamos, feitos Sherlock Holmes da arquitectura antiga: de onde terão vindo estas pedras? Terão sido da abadia? Serão originais?





Cansados de levantar falsos testemunhos a meia cidade, dirigimo-nos para a antiga estação ferroviária, onde há uma loja que aluga bicicletas. Após a suspensão da linha, converteram a via em estrada para ciclistas, pelo que agora é possível atravessar a Borgonha de bicicleta em caminhos com pouca inclinação e risco nenhum, passando por lugares com nomes que de algum modo nos estão no ADN, como: Charolles, Givry, Beaune (enfim, talvez não seja tanto no ADN como no sangue. Na taxa de álcool no sangue...)

O dono da loja é uma simpatia, e um modelo de confiança. Entregou-nos as bicicletas sem exigir sequer que lhe mostrássemos o cartão crédito, ou algum documento de identificação. "Paga depois, quando entregar as bicicletas", disse ele.
Mesmo antes de a loja fechar, alugámos por uma hora um carro alto movido a pedais, e deu-nos um cadeado para o deixar fechado quando regressássemos.
"Se não está aqui quando regressarmos, como sabe que não vamos andar quatro horas pagando apenas uma?"
Encolheu os ombros. Deve estar habituado a gente honesta, nem lhe passa pela cabeça que alguém faça uma trafulhice. Abençoados clientes que vieram antes de nós!

Agradecemos, e saímos a pedalar paisagem fora. E voltamos ao fim da hora combinada, também por causa dos clientes que virão depois de nós.



10 junho 2010

10 de Junho

Como aqui não há praia, vou tirar o dia para reflectir nisto de ser portuguesa (apesar de emigrãunte).

Do coração de Berlim mando um grande abraço para o meu país e para os mais-ou-menos-portugueses espalhados pelo mundo.

Não tendo mérito ou culpa no facto de ter nascido portuguesa, tenho a minha quota-parte de mérito ou culpa no Portugal que temos.
Devo pedir desculpa? Não, não perca eu tempo com isso: mais me vale arregaçar as mangas, e começar a varrer por dentro da minha casa. Mais o meu bocadinho de rua.

(A ver se um ano destes mereço uma medalhinha...)

08 junho 2010

inquérito sociológico

Olá minhas amigaaaas,

(como se chamaria a personagem do Herman José que fazia esta voz foleira? O que eu me ria com as cassettes que a minha amiga Paula gravava ardua e directamente do programa matinal da rádio. Quando havia engarrafamento na autoestrada, o pessoal todo parado e a fumegar, e eu a rir como parvinha, "olá minhas amigaaaas", e mais a entrevista à Greta Garfo, e mais aquele rufia que fungava entre cada duas palavras, e mais o outro que gostava de mulheres gordas porque se sentia muito aconchegado...)
(ainda não comecei, já estou outra vez a divagar)

Olá minhas amigas,

A pergunta de hoje é:
- Quem é que gosta da Bimby? Porquê?
- Quem é que não gosta da Bimby? Porquê?

Aceitam-se todas as respostas. Desde a da Rita (porque uma mulher que usa Bimby não percebe nada de erotismo) até à minha (porque Bimby, Pimby, Pimba - não quero em casa uma coisa com um nome tão rasca) passando por um eventualmente "bem, se ma dessem era uma vantagem, vendia-a logo na e-bay e comprava um trem de panelas de barro como deve de ser".

(Porque será que só escrevi frases negativas? Não me digam que tenho preconceitos?...)

Isto, em parecendo que não, é um concurso. O vencedor, ou a vencedora, ganha uma panelinha de barro da feira de Barcelos que é um mimo e me anda a atravancar a cozinha há mais de dez casas. Sim: uma panela muito viajada. Até já na Califórnia se encheu de pó.

O prazo fecha impreterivelmente amanhã ao meio-dia. Todas as frases serão publicadas (na caixa de comentários, pois está bem de ver). E será o estimável público a votar a frase vencedora, para não me acusarem de favoritismo.

E antes que desconfiem que a Bimby me paga para isto: *choro inconsolável* não, não paga! E se pagasse, depois daqueles argumentos ali em cima, deixava agora de pagar.
Não tenho jeito nenhum para o negócio.

desculpem que mal pergunte:

Que estão a fazer aqui? Mais vos valia irem ao Boas Intenções, que anda outra vez como sempre!
Vão lá ver, vão.

Por exemplo, o post "aculturação".

07 junho 2010

programa para um dia de verão em Berlim

Preparamos os fatos de banho e as toalhas, e cá vamos nós: apanhar o metro U1 (U está para unconvencional, porque embora devesse ser U de underground, boa parte da linha é sobre um viaduto), e sair em Schlesisches Tor. Entrar na Schlesischestrasse, e parar no cruzamento seguinte, onde se pode apreciar o Bonjour Tristesse de Álvaro Siza Vieira.



Continuar caminho, até passar sobre dois canais. Daí a nada a estrada é visualmente cortada por duas linhas paralelas feitas com paralelipípedos, que indicam o local onde passava o muro - no caso, onde começava Berlim Leste. Um pouco atrás, junto a um parque, fica uma das duas torres de vigia que permaneceram após a queda do muro (aberta de Maio a Setembro, de quinta a domingo, das duas às sete da tarde).

Entre a rua e o rio Spree estende-se um dos locais mais abgefahren de Berlim:

- Ao longo do segundo canal, na sua margem esquerda, há um conjunto de barcaças transformadas em restaurante. Assim:

(foto tirada daqui)

- Na margem direita do canal, na rua am Flutgraben, encontra-se o Klub der Visionäre, com concertos, DJ, e o mais que eles se lembrarem de inventar. Também alugam um barco com capacidade para 11 pessoas (mas não sei se exigem carta de patrão de costa, ou se serve para qualquer marinheiro de água doce).


(foto tirada daqui)

- Um pouco mais à frente dos restaurantes fica uma empresa que aluga kayaks, nos quais se pode sair rio fora, e saborear Berlim de uma perspectiva completamente diferente.

- Ao fundo da Am Flutgraben fica a Kunstffabrik - pavilhão para uso de artistas. Ao lado, há um café com um terreno relvado onde espalharam bancos de jardim sobredimensionados (uma pessoa senta-se lá em cima, a metro e meio do chão, e percebe como é que os bebés se devem sentir quando sentados nos móveis dos adultos), e carros velhos cobertos com relva (Dali? tu por cá?).

- Virando nessa pequena rua à direita, chega-se ao rio Spree e encontra-se o Badeschiff (vale mesmo a pena seguir este link): um barco com piscina, onde se fazem concertos ao ar livre, aulas de yoga, e até se pode nadar "sobre" o rio. Contudo, nos dias quentes, o mais que se consegue é chapinhar, tanta é a gente que se junta naquela piscina.

- Logo a seguir fica a Arena Berlin, edifício industrial transformado em pavilhão para concertos. Com inúmeros concertos para jovens, e outros. Por exemplo: em Junho a Orquestra Filarmónica de Berlim costuma dar dois concertos da série Zukunft@BPhil. No próximo fim-de-semana vão tocar uma peça composta para esta orquestra por Wynton Marsalis, com Sir Simon Rattle a dançar de um lado da orquestra, e miúdos das escolas berlinenses a dançar do outro lado, segundo uma coreografia de Rhys Martin. Por oito euros.)

Para ocupar um dia, parece-me que já chega.
No entanto, turistas mais do meu género (daqueles que conseguem meter aceleradamente vários Rossios numa Betesga) podem ainda ir até ao cais de Treptow apanhar um barco para descer o rio, passando por Köpenick com destino a um lago mais a sul, o Muggelsee. Ou passear pelo parque de Treptow, apreciando o roseiral com as suas 25.000 roseiras e o Memorial dos Soldados Soviéticos - se acham que 25.000 roseiras é muita rosa, olhem para este número: foram 80.000 os soldados que morreram na conquista (ou libertação) de Berlim.

Antes de regressar, um must absoluto : depois de anoitecer, percorrer a ruela entre a Arena Berlin e a Kunstfabrik (junto ao café com bancos enormes). Sobre toda a rua penduraram candeeiros com lâmpadas vermelhas, e não digo mais que isto: é mágico.

pequeno dicionário de alemão: abgefahren


Adjectivo

abgefahren (comparativo: abgefahrener; superlativo: am abgefahrensten)

  1. just left, recently departed
  2. (idiomatic) outstanding, great, cool

"Abgefahren" (2.) é o adjectivo que me ocorre para a ideia do Joachim: fazer uma festa de família no atelier de um amigo nosso, num edifício industrial tornado antro de artistas.

Imaginem as pessoas nos seus vestidos de festa, os sapatos chiques, e eu própria disfarçada de Isabel Preysler (mas mais nova, e sem fazer aquela expressão esfíngica das vítimas do botulismo) a avançar por este corredor, que de facto é uma galeria ao longo do rio Spree,


para um almoço numa sala assim:



Se acham a sala aceitável (obrigados, obrigados, trabalhámos muito para a pôr neste estado), vejam agora o corredor das casas de banho



e a propriamente dita (inlimpável, mas deu-se um jeito)


com esta janela toda partida, e uma vista fenomenal para o rio



Do programa constou também uma visita a uma torre de vigia na temível fronteira de Berlim, agora tornada museu e classificada como Património Mundial (não sei que me parece), e que fica mesmo ao lado do pavilhão dos artistas. O descampado por onde está a passar a bicicleta era o corredor da morte; as árvores muito frondosas por trás foram propositadamente poupadas, para que ninguém pudesse ver o que se passava junto ao muro.

(foto tirada daqui)

Ao fim da tarde: um mergulho no Badeschiff, que é um barco transformado em piscina.
(Os convidados estavam avisados, levaram fato de banho - de modo que não houve cenas como daquela vez que estávamos num casamento principesco num antigo convento austríaco junto ao Danúbio e o tio da noiva se atirou à piscina, no meio do que fora o claustro, em cuecas)



Em suma: um lugar completamente abgefahren, para uma festa completamente abgefahren.

06 junho 2010

de balde debalde

O José Bandeira teve a amabilidade de nomear este estaminé "blogue da semana" no Delito de Opinião. Estou que nem sei que diga. Bem puxo pela memória, mas não me lembro de ele me dever dinheiro nem nada.
Coitados dos leitores do Delito de Opinião. Chegam aqui, lêem, e põem cara de "será que o José Bandeira deve dinheiro à Helena?"
De modo que prometi lá que ia meter água aqui, para o caso de virem a este blogue debalde.

Para isso, repesco do fundo dos arquivos um delírio de uma noite de Inverno.
Ó, assim:

(senhoras: não leiam)
(cavalheiros: isto não fui eu propriamente dita, isto foi uma coisa que me aconteceu)

20.11.05

palavrões de sobra

Como é fim-de-semana, não há sol, não li o texto do MST e não me apetece falar sobre o caso das alunas do liceu de Gaia, e ainda por cima estou com um ataque de nostalgia, resolvo dar um gosto ao Mr.Hide que há em mim e contar que vivi quase 20 anos no Porto, onde tive oportunidade de aprender alguns dos muitos registos da ordinarice.

(Atenção: Ainda vão a tempo de parar por aqui!)

É todo um universo de alegorias e coloridos, uma espécie de dialecto bem-disposto, que permite

sínteses formidáveis
(como a do professor da faculdade de arquitectura do Porto que manda os alunos desenharem "com os tomates em cima do estirador")

insultos divertidos
(como a miúda da Ribeira, gritando ao rapazinho que se afasta amuado: "Olha, vai pela sombra! Ouviste? Vai pela sombra, que a merda ao sol seca!")

e até novos recursos para a luta de classes
(como esta cena a que assisti no Bolhão:
Cliente (uma senhora fina): A como são as rosas?
Vendedora: A 100 escudos.
Cliente: A dúzia?
Vendedora (muito alto, muito escandalizada): A dúzia?! A dúzia de rosas a 100 escudos?! A mulher está mas é maluca! Deve ser tarada sexual!!!)

O Porto é uma nação, já se sabe, mas eu fiz a pós-graduação do dialecto aos fins-de-semana, quando ia para a casa da avó, numa aldeia minhota.
É um mundo curioso, onde palavras como estrume ou porco são consideradas grosseiras, enquanto que aquelas que o resto do país considera palavrão são usadas com toda a naturalidade.
Foi lá que ouvi delícias do género: "fui buscar um carro de, com licença, estrume, mas a puta da roda partiu-se, a porra da carga espalhou-se na estrada e eu fodi-me todo."

A minha avó tinha uma empregada, a Ana, uma mulher muito bonita e de uma alegria contagiante, que pontuava as frases com palavrões espantosos - acho que até as vacas que ela mungia ("Chiça, hoje tens leite como um caralho!") coravam e ruminavam um muuuuh de desaprovação.
A vizinhança murmurava ("Ela até à frente da patroa fala assim!"), mas os meus irmãos e eu gostávamos imenso de andar de volta dela a aprender para a vida.
A Ana casou, e alguns anos depois fui visitá-la. Continuava bem-disposta e expansiva. Mostrou-me o filho, de ano e meio, gabou-o: "este rapaz é que é fino, fosca-se, olhe-me só para isto",
virou-se para ele, aos berros: "ó meu filho da puta, se te apanho fodo-te os cornos!"
e ele desatou a fugir com as perninhas muito rápidas, soltando gritos alegres
e ela corria atrás dele, insultava-o, ameaçava-o
e depois virou-se para mim: "Está a ver como o raio do rapaz é esperto? Fino como um caralho!"
Do fundo do corredor, o rapazito olhava para ela com os olhos muito brilhantes, ria-se, pedia mais.

A quem estiver interessado em conhecer este vernáculo, recomendo o camião da feira.
Espero que ainda exista: é um camião de carga onde, às quintas-feiras, instalam bancos precários sob a armação de lona, para levar pessoas para a feira de Barcelos. À ida, não há problema. As pessoas repartem-se pelas várias carreiras, vão ainda sonolentas, talvez a fazer contas de cabeça ao que querem comprar. À volta, é um sarilho: querem regressar todos no mesmo camião, atafulham o compartimento com dornas, masseiras, arados, ancinhos, sacos de milho, galinhas e leitões vivos, ajeitam-se como podem pelo espaço que sobra. Vêm bem-dispostos, comparam preços, contam anedotas e histórias das respectivas terras.

Foi num desses camiões que aprendi o meu chorrilho de antologia.
Vínhamos de regresso, todos eles muito faladores e eu muito calada a saborear aquela algazarra alegre, quando o camião parou para deixar sair uma passageira. Foi uma confusão, porque ela estava no fundo do compartimento e não tinha praticamente espaço nenhum para passar, mas com jeitinho e a ajuda de todos lá conseguiu passar sem estragar as mercadorias alheias, lá conseguiu descer do camião, juntar as suas compras, "e olhe aqui este saco, não se esqueça de o levar", "ah, muito obrigada, querem lá ver que me esquecia mesmo". Foi-se embora, o camião arrancou, e quando já íamos na aldeia seguinte uma mulher solta um grito:
"Ai! O caralho foda a merda, que a puta da mulher levou as minhas sardinhas!!!"

04 junho 2010

a culpa é dos jornalistas...

(podia ter escolhido outro título, Rita, mas achei que ias gostar muito deste)

No Mar Salgado há uma ligação para um post no Portugal dos Pequeninos, que eu segui - para acabar incrédula a ler os comentários sobre o ataque do exército de Israel aos navios que queriam furar o boicote imposto por aquele país. Claro que não é caso único, mas é um bom exemplo do que está a correr mal nos debates sobre estes temas.

Na caixa de comentários do Portugal dos Pequeninos fica patente que o grande mal é as pessoas não estarem informadas. No fundo, e como alguns até o reconhecem, pura e simplesmente não sabem do que é que estão a falar. Não sabem quem ia lá, nem o que levavam nem ao que iam. Tomaram partido pró e contra, zangaram-se uns com os outros, insultaram-se, aproveitaram para bater nos judeus (uns) e nos árabes (outros), mas factos palpáveis que é bom, nada.

Em contrapartida, no dia em que o ataque ocorreu, o noticiário alemão entrevistou em directo alemães que vinham num dos barcos, e recolheu depoimentos de algumas das organizações alemãs que estavam por trás dessa iniciativa, para além de passar a Angela Merkel a questionar a proporcionalidade da acção. No dia seguinte, tinham uma das testemunhas no estúdio - a contar, entre outras coisas, que o exército israelita recolheu todo o material filmado e fotografado por quem vinha no navio, de modo que o que chegou à comunicação social é apenas a versão israelita dos factos; e a explicar que se tinham recusado a ir para o porto indicado por Israel porque o objectivo da missão não era apenas entregar as mercadorias mas protestar abertamente contra o boicote imposto por Israel. Etc.

Seria muito saudável para o bom entendimento entre os portugueses, e para o amadurecimento democrático, de um modo geral, que os noticiários passassem mais informação e menos espectáculo e suspense. Eu sei que é mais fácil e agradável para quase todos se a TV passar imagens da nova namorada do Ronaldo, ou assim, em vez de traduzir depoimentos de testemunhas e passá-los em tempo útil. Mas estamos a falar de informação - e o modo como em Portugal se discutiu o caso é um triste exemplo das consequências da má informação.

Luiza, e outros momentos da vida de cada um

No amor e outros desastres andou-se a falar da Luiza do Tom Jobim (que me toca alguma corda sensível, ahuuuu! ahuuuu!, ó pra mim a uivar).

Fala-se em Jobim, e eu lembro logo uma das exposições mais especiais que já vi. Estava no Rio de Janeiro, em 2002: "a arte e o som de Jobim".

Inspirada em cada uma de 80 músicas de Jobim havia uma obra de arte plástica. Ao lado, a letra da canção e os auscultadores com que se podia ouvir a música.
As pessoas paravam em frente a cada objecto, olhavam, cantavam com pouca voz e muito sentimento, arrebatadas para dentro de si próprias. Cada canção revelava o olhar de um artista e os muitos olhares das pessoas que paravam para soltar recordações, uma ou outra lágrima, sorrisos ternos.
Nunca vi uma exposição tão plena de sentidos e encontros - uma exposição feita sobretudo pelos seus visitantes.

falar do tempo assim:


It’s been raining steady since we came back, which makes everything green.

03 junho 2010

chegou o sol!

Depois do mais longo inverno de que me lembro (excepto o verão em San Francisco, ahahah, que engraçadinha estou hoje), chegou o sol. Lindo. Assumido. Como se fosse o mais normal do mundo entrar-nos pela casa dentro sem rodeios. Já nem me lembrava de como é ter tapetes de sol espalhados pelo chão.

Grande azar. Agora vê-se demasiado bem o sujo nas janelas.
E as visitas a chegar para a grande festa no próximo sábado.
Ai, que vou passar uma vergonha. A não ser que o Joachim lhes sirva o seu célebre mojito ainda na cama, a ver se já não vêem bem quando descerem para o pequeno-almoço.

- E porque não as limpas, Heleninha?
- Estão doidos? São mais de oitenta. Mais depressa mudava de casa...

E cá vou eu, a caminho da loja dos vietnamitas, para comprar quantidades industriais de menta.

02 junho 2010

ai que stress

Daqui a seis semanas desamarro para Portugal, e ainda não contei as férias do ano passado, coisa que solenemente prometi a alguns clientes fiéis desta casa.
Ai que stress.

De modo que não se surpreendam se de repente recomeçar a série EUA 2009.
Antes de mais, regressemos à Páscoa, e à Borgonha. Depois iremos ao Grand Canyon e redondezas, com passagem pelas sapateiras de Oregon e pelos museus de Washington D.C.
Talvez possa servir de ajuda a alguém para preparar as suas próprias viagens. E para calar a boca aos queridos clientes que me andam a atazanar sobre este assunto.

Ai! E ainda há aí alguém a pedir-me para traduzir um "und". E prometi que traduzia outro texto do diário da Ruth Andreas-Friederich, sobre a proibição de fazer abortos e a tragédia das berlinenses grávidas depois de terem sido violadas pelos soldados russos.
É o que vos digo: ai que stress.

E este fim-de-semana temos uma grande festa de família (a minha vida real atrapalha-me um bocadinho a minha vida internética...)

o problema é virem do Leste, só pode ser...

O Filipe Nunes Vicente revela neste post que

Os irmãos muçulmanos do Egipto tratam os irmãos muçulmanos da Palestina como leprosos.

Curiosa coincidência: no início do séc.XX, os judeus alemães tratavam os judeus vindos do Leste como leprosos.

E na viragem do séc.XX a Europa central olha para o alargamento a Leste como se de um mal se tratasse. Já para não falar do referendo da Suíça, que só por uma pequena margem aceitou a entrada no espaço de Schengen, apesar de saber que a não entrada teria brutais consequências económicas para o país.

Mesmo sem querer entrar em pormenores regionais como o do dossier para concorrer a um emprego na Alemanha, que veio devolvido do potencial empregador (uma empresa da antiga Alemanha Ocidental) com um grande "Ossi" escrito a vermelho na primeira folha.

***

Fora de brincadeiras: com o Egipto de um lado, e Israel do outro, o Hamas em cima e a mais profunda miséria por todos os lados, de que é que a Comunidade Internacional está à espera para ajudar realmente aquele povo a sair do beco sem saída?
A proposta de Reuven Moskowitz (judeu, israelita e que escapou por uma unha negra às câmaras de gás) é: desarmamento total da região, e capacetes azuis em quantidades fenomenais até a Paz ser possível.

01 junho 2010

Louise Bourgeois


Informação, para quem já estiver com saudades da Louise Bourgeois: em Berlim estará até ao dia 15 de Agosto uma exposição, a última realizada sob a sua férrea orientação.

No jornal onde li a notícia da sua morte fala-se do apartamento nova-iorquino, e da estranheza de uma das suas esculturas típicas, que o autor descreve como uma macabra prótese de perna pendurada do tecto. De onde se depreende que quem escreveu aquela notícia não sabia do problema físico da irmã de Louise, e de como o amor e o sofrimento atravessaram a sua arte e se revelaram tantas vezes em esculturas de corpos com uma perna de pau. Estas e outras coisas se aprendem na visita guiada (aos domingos, das 15:00 às 16:00 - também é possível marcar visitas noutras línguas, além do alemão).

(foto tirada daqui)

Adenda: sobre esta exposição, o núcleo museológico onde decorre, e umas coisinhas mais, já escrevi aqui.

cambada de umbiguistas!

Então a Alemanha ganha o Grand Prix Eurovision de la Chanson, e o Presidente da República demite-se, e ninguém em Portugal comenta nada?
Nem um "ai, parabéns, foi quase merecido..." nem um "ai, coitados, pobre Alemanha e pobre Angela Merkel!"?

Cambada de umbiguistas.

Sobre o Presidente da República, que se chateou pelo modo como criticaram uma afirmação dele, e saiu feito dama indignada "essas interpretações não são compatíveis com a dignidade do cargo que ocupo", lamento sobretudo que tenha escolhido tão mal o momento.
Quanto à afirmação propriamente dita, é das tais coisas: ele disse em voz alta o que todos fazem e pensam... Um dia hei-de conseguir compreender porque é que só se safa quem consegue ocultar melhor. Concretamente: neste momento há tropas alemãs no Oceano Índico a proteger aquela via comercial dos ataques piratas. Qual é o problema?
(para mim, o problema é não haver piratas e navios comerciais alemães a passar pelo meio do Darfur...)

Quanto ao Festival da Canção, vejam-me esta miúda:



É desconcertante.
Tem uma consciência de si própria e da sua dignidade como não é normal no mundo do espectáculo. Neste programa de televisão, trata o entrevistador por tu. Quando ele a trata por você, ela acusa logo: "Disseste "você"? Hã? Não me digas que também queres que te trate assim?" e acaba a trazê-lo para o campo dela, obrigando-o a que se tratem por tu. Quando ele lhe pergunta sobre a sua vida afectiva, ela diz que não é o primeiro a fazer essa pergunta, e que também ele ficará sem resposta. Da primeira vez que a quiseram interrogar sobre isso, respondeu que foi obrigada a casar aos oito anos de idade, e que o assunto ficara assim encerrado.
Mais à frente questiona o comportamento das pessoas perante a nova estrela que ela é: os que a chamam na rua como se se quisessem gabar de a terem reconhecido, ou os que, ao vê-la, sacam da câmara de filmar e toca de gravar tudo, sem respeito nem pudor, independentemente daquilo que ela esteja a fazer. Que acha muito estranho, diz ela.
A meio de uma frase diz "tenho um cabelo na boca", e ri, e continua a falar.
E conta que nunca aprendeu música, e que só tem experiência de palco devido a algumas festas na escola, "para o avô e a avó", e que achou graça a participar no concurso para selecção do cantor que iria representar a Alemanha em Oslo, mas que a vida dela continuou normal. Sim, normal: pelo meio fez o dificílimo exame final do ensino secundário.
- E como é que correu o exame, que sensação tens?, pergunta o entrevistador.
- Nenhuma, fiz questão de não ter nenhuma. Se achasse que correu muito bem, e no fim tivesse má nota, era desagradável. E se achasse que correu mal, ia passar um período de ansiedade até saber a nota, o que também não vale a pena.
- E como é que conseguiste estudar, apesar de teres a cabeça cheia de projectos bem mais interessantes?
- Ahem... estudei, simplesmente.
O entrevistador lembra o momento em que ela ganhou o concurso para ir a Oslo, e a enxurrada de calão juvenil que largou em frente à câmaras de televisão.
- E qual é o problema?! É esta a minha idade!

Se viram o Festival, no sábado passado, talvez tenham reparado num pormenor delicioso no fim do espectáculo: ela vem ao palco como vencedora, e o vencedor do ano passado rouba-lhe um beijo com aquele truque palhaciano de subitamente oferecer a boca no momento em que ela vai dar um beijo na face. Perante o público geral e os milhões de telespectadores, ela põe cara zangada e obriga o rapaz a vir dar um beijo como deve ser. Esta miúda não dorme na forma e não se deixa intimidar por nada!

E depois, tem uma capacidade fantástica de rir de si própria. Olhem só para isto (espero que dê para ouvir bem a pronúncia):