Deve haver uns dez graus de diferença entre a rua e o meu apartamento, que é um ninho de águia por cima das copas frondosas das árvores. Está um calor insuportável em Berlim, mas nos passeios anda-se lindamente pela fresquinha. Nenhuma cidade europeia tem mais árvores nas ruas. E estão todas numeradas. Outro dia, parada num semáforo, olhei para a árvore ao meu lado e vi a plaquinha: 5347. Quantos milhares de árvores haverá *apenas* daquele lado da avenida?
Abençoados urbanistas, planeadores, fundamentalistas do ambiente e jardineiros!
30 junho 2010
28 junho 2010
Canyon de Chelly

O nome deste canyon e a sua pronúncia (də·shā′) são um bom reflexo da história conturbada das culturas que aqui se sucederam e combateram. Os diné chamam-lhe „Tséyi’“, desfiladeiro - literalmente: dentro das rochas. Os espanhóis optaram por escrever "de Chelly". Os americanos leram o nome, e acharam que era francês. Em suma: para pronunciar "de Chelly" segundo o uso actual, basta imaginar um americano a tentar falar francês - é mais ou menos por aí.
O nosso primeiro contacto com a paisagem de Canyon de Chelly foi o mais difícil: o miradouro de Massacre Cave, no North Rim. A paisagem é deslumbrante, mas é impossível ignorar a cena que no inverno de 1805 ali se desenrolou: fugindo a uma expedição militar espanhola, que vinha retaliar um ataque navajo, um grupo de famílias refugiou-se numa reentrância da falésia. Os soldados descobriram o seu esconderijo, vieram para o ponto da orla do desfiladeiro onde existe hoje o miradouro, e começaram a disparar para os navajos completamente expostos, matando 115 pessoas. Ainda hoje se podem ver as marcas das balas na parede de pedra. Os sobreviventes foram feitos escravos. Muitos navajos daquela época foram obrigados a trabalhar em condições desumanas nas minas de prata mexicanas.
É verdade que também os navajos raptavam pessoas de tribos inimigas para as escravizar e até vender - os pobres paiutes, mais ao norte, que atravessavam o Inverno em estado de semi-hibernação porque quase não tinham o que comer, eram raptados no início da Primavera, época em que estavam tão debilitados que não se conseguiam defender; seguia-se um tratamento de engorda, e o trabalho forçado nos campos dos navajos, ou a venda. Os espanhóis não estavam a inventar nada de muito novo quando escravizavam os navajos - mas, convenhamos: ladrão que rouba ladrão, não deixa de ser ladrão.
Um pouco mais à frente, fica um dos melhores miradouros, de onde se pode ver o grande complexo de Mummy Cave - assim chamado porque se encontraram lá duas múmias. Esta povoação, abrigada sob a massa monumental do paredão, foi habitada continuamente durante mil anos, de 300 a 1300. O conjunto arquitectónico mais recente foi construído por volta de 1280 por pessoas provenientes de Mesa Verde.
Mais dois miradouros (Antelope House e Ledge Ruin), e chegámos a Chinle. Fomos imediatamente ao centro de informações marcar uma visita guiada, dado que, à excepção do White House Trail, a entrada no canyon só é permitida a pessoas acompanhadas por um ranger ou guia navajo autorizado.
Em seguida fomos à procura de um hotel que nos confortasse os ossos e limpasse da alma o desconsolo que foi a experiência do campismo em Chaco. Encontrar um hotel em Chinle não é difícil: só há três. Optámos pelo Holiday Inn, que tem uma pequena piscina ao ar livre. Ah, poder tomar um duche! Ah, poder lavar a louça na casa de banho sem letreiros a dizer "arreda"!
Os miúdos desapareceram para os lados da piscina, e nós fomos explorar o hotel, e verificar a hora dos nossos relógios. É que a reserva navajo adopta o horário de Verão, ao contrário da prática no Arizona e nas regiões dos hopi. Em viagem por aquela área, o turista desprevenido nunca sabe a quantas anda. Um fenómeno que tem ocupado bastante a ciência, e foi magistralmente explicado por Einstein: tempo e espaço estão interligados.
À hora certa (confirmámos várias vezes) para a visita guiada, dirigimo-nos de novo ao centro de informações. A guia, uma navajo sem trança e com ar muito simpático, já estava à nossa espera. Na caixa, perguntaram-nos se tínhamos um veículo com high clearance. Temos um SUV, dissemos nós, todos ufanos, porque o tínhamos alugado propositadamente para as estradas de Chelly e Chaco. Mas tem high clearance?, insistiram eles. Bem, é um SUV..., retorquimos hesitantes. Um SUV com high clearance? - pareciam obcecados. Não sabemos..., respondemos nós, e era verdade: não sabíamos o que é que eles queriam dizer exactamente com aquela expressão.
Impaciente, a guia afirmou que sim, que a nossa high clearance era suficiente, e entrámos no canyon. Percebemos logo o motivo da obsessão: os caminhos são arenosos, e em alguns pontos têm sulcos profundos. Em parte, anda-se no leito seco dos aluviões. O Joachim precisou de toda a sua habilidade (e é muita) para conseguir fazer avançar o SUV naquele terreno sem deixar lá o pára-choques.

Durante as quatro horas que a visita demorou, a guia foi incansável a explicar o que víamos e a responder às nossas perguntas.

Logo no início apontou a bela mancha verde que se estende ao longo do rio e se tornou uma imagem distintiva de Chelly: uma catástrofe ecológica, disse ela. Estas árvores - tamarisco e oliveira-do-paraíso - não são naturais daqui. Foram introduzidas artificialmente, são invasivas, esgotam a nossa água e destroem a nossa biodiversidade. Começaram a ser arrancadas, mas a substituição de espécies é um processo caro, e tem de ser feito com muito cuidado, para evitar um aceleramento da erosão.
Um camião de caixa aberta com bancos corridos passou por nós, levantando uma nuvem de poeira. Os turistas, fortemente sacudidos pelo terreno irregular, acenaram na nossa direcção. A nossa guia soltou uma gargalhada:
- Ali vai um camião do "shake and bake tours"...
Mais à frente, os primeiros petróglifos. O canyon é habitado há quase 5000 anos. Ao longo desse tempo, os diferentes habitantes foram inscrevendo na pedra os seus símbolos religiosos e históricos. Não se conhece o significado de muitos deles.

- Aquela cruz ali, estão a ver? Pode ser um símbolo das quatro direcções dos diné, ou então das quatro montanhas sagradas que marcam os limites dos nossos territórios, ou talvez até das migrações periódicas: os povos iam para leste, e regressavam; para oeste, e regressavam; para sul e para norte, e regressavam.


Outros conjuntos de imagens são extraordinariamente fáceis de entender. Como esta de cavalos, cavaleiros com chapéus, um padre. Pensa-se que descreve a expedição de Antonio Narbona, que terminou com a tragédia de Massacre Cave.

- Ali, aquela cabeça de cavalo, é mais recente. Talvez tenha sido feita por um inglês. E a parede branca da White House Ruin está cheia de inscrições, várias delas datadas de fins do séc.XIX.
- Apesar de tudo, tiveram sorte - comentámos nós. Junto ao rio San Juan vimos uma parede enorme coberta com símbolos dos anasazi, onde alguém escreveu "fuck!" com tinta de spray. Milhares de anos de cultura profanados por alguém cuja inteligência não permite ir mais longe que uma ordinarice pintada à pressa na rocha.
- Também temos tido esse problema neste canyon. Há muito grafitti. Alguns jovens pensam que são engraçados, e não fazem ideia do erro que estão a cometer. Temos aumentado a vigilância, e vamos removendo na medida do possível.

Na povoação seguinte, um grande choque, ao ver na pedra, por trás das casas, uma cruz suástica branca (clicar na fotografia para ver melhor). Graffiti de neonazis em Canyon de Chelly?
A guia ri-se:
- Todos os alemães que vêem isto ficam incomodados, mas não é nada disso. Provavelmente é um símbolo das migrações segundo os pontos cardeais.
Nova etapa, nova paragem. Desta vez, para ver as pulseiras e os colares que a nossa guia faz ao serão, e que o marido está a vender junto a uma carrinha - essa sim, de high clearance. Ora aqui está uma família com apurado sentido empresarial.
A Christina e eu procurámos brincos de prata e turquesa como os da navajo de Chaco, mas não tinha nada do género. Apenas pulseiras e colares com lindas combinações de pedras. Mal sabíamos nós que a cada pedra é atribuído um poder diferente. O que para nós são combinações de cores, para os navajos tem significados profundos. A turquesa, por exemplo, é uma pedra sagrada, capaz de aumentar a fertilidade dos rebanhos, de conduzir à vitória numa batalha, de assegurar boas caçadas, e de proteger o seu portador contra azares diversos, nomeadamente ser colhido por um raio ou mordido por uma cobra. De modo que comprámos várias pulseiras muito poderosas e carregadas de significados, que tragicamente se esvaziaram ao chegar à Europa, porque perdemos o folheto que explicava tudo. Razão têm os antigos, quando afirmam que a passagem da tradição oral à escrita é o princípio do fim.
A guia continuou a contar. De quando os espanhóis chegaram "e ficaram cheios de inveja dos nossos pomares e campos viçosos", e capturaram centenas de diné para os obrigarem a fazer agricultura assim bonita noutros lugares. De quando os ingleses chegaram, lhes destruíram campos e árvores de fruto, os perseguiram sem piedade. Do seu bisavô, que sobreviveu à grande marcha forçada: 300 milhas até Fort Summer, 300 milhas para o regresso quatro anos mais tarde, quando os americanos se deram conta de que afinal aqueles territórios não eram tão ricos em recursos naturais, e que a ideia de concentrar na mesma área tribos tradicionalmente inimigas não tinha sido brilhante: como se concluiu sarcasticamente na época, teria ficado mais barato metê-los em hotéis em Nova Iorque...
Junto a um conjunto de ruínas, lembrei o que o ranger de Mesa Verde nos contou: os navajos não deixam os seus filhos visitar aqueles locais, por temor aos espíritos dos que lá viveram. Ela fitou-me, pensativa:
- Na noite do 4 de Julho passado fui com as minhas amigas ao miradouro de Massacre Cave. Podíamos ouvir distintamente os gritos e o choro das crianças. A gente do meu povo não gosta de chegar muito perto destes locais, porque a morte é contagiosa.

O canyon é habitado, e é até possível pernoitar num hogan alugado, ou acampar no terreno de uma família. Pede-se aos turistas que respeitem a privacidade dos habitantes, e não fotografem pessoas, animais domésticos ou hogans sem antes pedir autorização.
A família da guia mora ao fundo do Canyon de Muerto, mas ela tem uma casa em Chinle. A sociedade é matriarcal: o património familiar passa de mulher para mulher. Esses bens não são possuídos, mas administrados em função do bem de todos: à sua detentora cabe garantir a todos os membros da família alojamento e meios de subsistência. A família é alargada, e a "herdeira" é a mulher mais velha da geração subsequente, escolhida entre as filhas e as sobrinhas. Após o casamento, os homens mudam-se para a família da mulher. Daí a importância das kivas, acrescenta: os homens precisam de um refúgio só para eles.
- Então as kivas não eram compartimentos multi-usos para toda a população, como nos disseram em Mesa Verde?
- Não. Só para os homens. - diz ela, com um ligeiro sorriso irónico.
Depois fala das tradições e da modernidade. É católica, mas continua a respeitar os ritos e as crenças do seu povo. Conforme a doença, decide se vai ao médico ou ao medicine man. Recorre à medicina natural. Após uma pequena hesitação, aponta-nos um arbusto com frutos verdes, semelhantes a tomates: "Aquele fruto ali - vêem? - é um excelente analgésico. O problema é que pode viciar. Temos problemas graves de toxicodependência por causa desta planta". Os nossos filhos observam a planta, subitamente muito interessados. Esta atracção pelo abismo...
É muito difícil criar os filhos no ponto de intersecção das sociedades americana e diné. São permanentemente obrigados a escolher um rumo para a evolução da sua cultura de origem. As crianças aprendem inglês e a língua dos antepassados, mas muitas preferem falar inglês.
- E como encontram palavras para descrever algo novo, como avião ou computador? Usam as palavras inglesas?
- Não. Procuramos criar significados novos a partir das palavras de que dispomos... - e eu a pensar: ai que engraçado, a "loi Toubon" chegou tão longe? - ...Por exemplo: para televisão, dizemos "imagens que vêm pelo ar". Ontem, para dizer à minha mãe que comprámos um computador, tive de dizer assim: "imagens que vêm pelo ar e máquina de escrever".

Entretanto tínhamos chegado à nossa última etapa. A White House Ruin, com a sua parede branca para, segundo se pensa, reflectir a luz para as casas em torno.
Que estranha fé levaria aquela gente a construir casas sob maciços rochosos tão imponentes e intimidantes?
Esta é a mesma casa que (quase não) se vê na primeira fotografia deste post, e que foi feita do miradouro na orla do canyon.Despedimo-nos da guia e regressamos ao hotel. Nesse dia celebrávamos o aniversário do nosso casamento, e decidimos festejá-lo no restaurante, com um bom bife que nos tirasse a barriga de misérias, depois de tantas sopas biológicas de pacote e do eterno esparguete com molho de tomate. E bem regado com um daqueles vinhos californianos tecnicamente perfeitos (isto não é um elogio).
Carne, havia, e era muito boa. Também havia enchiladas deliciosas. Quanto ao vinho... azar o nosso: o álcool é proibido nas reservas navajo. Por curiosidade, encomendámos um vinho sem álcool, muito recomendado na carta do restaurante. Revelou-se óptimo para melhorar a memória: nunca mais, por cem anos que viva, serei capaz de esquecer o sabor horroroso daquela coisa.

No dia seguinte percorremos o South Rim até Spider Rock. Os navajos acreditam que a Spider Woman vive no topo da coluna mais alta, que tem uma altura de 240 metros. A Marvel Comics, aqui?!, perguntarão. Nada disso: a Spider Woman é uma figura mítica ligada ao surgimento da vida na terra. No princípio do mundo, enfeitou uma das suas teias com orvalho e atirou-a para o espaço: das gotas de água nasceram as estrelas. É amiga dos navajos, e protege-os. Foi ela quem ensinou as mulheres dos antigos a tecer, enquanto o seu marido, o Spider Man, ensinou os homens a construir um tear:
Cruzam-se os pólos da terra e do céu para fixar a estrutura; alinham-se raios de sol na teia; os liços são feitos de relâmpagos difusos e cristais de rocha, para manterem a qualidade das fibras; para melhor cerrar a trama, põe-se na ripa a auréola do sol; usar para o pente uma concha branca que purifique os fios.
Embora amiga e generosa, a Spider Woman pode ser muito severa. Captura as crianças que se portam mal, leva-as para a sua casa, devora-as, e deixa os seus ossos a secar ao sol - são as manchas brancas no topo da coluna.
Com uma protectora deste calibre, não admira que as gerações mais novas prefiram aproximar-se da cultura americana...

Estava um dia glorioso para continuar a viagem, com destino a Monument Valley.
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propaganda
Ao ver o filme horroroso que o Rui Bebiano passa no fim deste post, lembro Eduard Rosé, violoncelista famoso, que só por amor à sua mulher Emma, irmã de Gustav Mahler, trocou os EUA por Weimar, em 1900. Aos 83 anos foi enviado para Theresienstadt. Penso na viúva de Max Liebermann, que aos 87 anos se suicidou para evitar a deportação para Theresienstadt. Conheço-lhes a história, sei das casas em que viveram. Imagino estas duas pessoas tão concretas, imagino a sua humilhação ao serem obrigadas a despir-se e tomar um duche perante câmaras de filmar, imagino-as sentadas no meio daquelas camaratas, sem qualquer privacidade. Se este filme servia fins de propaganda, quão mais horrível ainda seria a realidade?
27 junho 2010
Shiprock
Apesar de os canyons de Chaco e de Chelly se situarem sensivelmente à mesma latitude, para ir de um ao outro é preciso desenhar um enorme ómega por estradas que nem sempre são muito boas. Rumámos primeiro para norte, até Farmington, depois para oeste, e na pequena localidade de Shiprock voltámos para sul. Desperdício de tempo? De modo algum!

Ao cabo de meia dúzia de milhas a sul dessa localidade, entrámos na Indian Route 13, em direcção a sudoeste. A paisagem desértica é atravessada por estranhas muralhas de basalto, lembrando um gigantesco dinossauro enterrado com a crista dorsal de fora. À direita, levanta-se um maciço imponente: Shiprock, montanha sagrada dos navajo, com quase 500 metros de altura. Em geologês, trata-se simplesmente dos diques e da chaminé de um vulcão extinto, mas na tradição dos navajos tudo se torna muito mais rico. Segundo a lenda, quando os diné (o nome que os navajo dão a si próprios, e que significa "o povo que surgiu da terra") vinham a fugir de cruéis inimigos do noroeste, atravessando um canal (talvez o estreito de Bering?), no seu enorme desespero pediram ajuda ao Grande Espírito. Repentinamente, do chão sob os seus pés nasceu um pássaro enorme, que os transportou no dorso durante um dia e uma noite em direcção ao sul. À hora do sol-pôr, deixou-os no ponto onde fica agora Shiprock, e transformou-se de novo em pedra. Em homenagem ao pássaro que os salvou, os navajo chamam a esta formação Tsé Bitʼaʼí: rocha com asas. A partir de então, os navajo ficaram a viver no cimo da montanha, e só vinham ao vale buscar água e cultivar os campos. Um dia, quando os homens estavam a trabalhar no vale, uma grande tempestade abateu-se sobre a montanha. Um raio fendeu as suas encostas, tornando-a inacessível. Impossível ajudar as mulheres, as crianças e os velhos presos no topo das escarpas, que acabaram por morrer de fome e sede. Para não despertar os seus espíritos, é proibido escalar o rochedo.
Um pouco mais à frente, a paisagem muda de novo: Red Valley, terra de magníficas rochas vermelhas e formações semelhantes às de Monument Valley.

A seguir, atravessa-se uma bela floresta de faias (nota mental: regressar lá em Setembro - ou então, ainda melhor: à million dollar highway no Colorado). Em Lukachukai vira-se para sudeste, e pouco antes de chegar a Tsaile encontra-se o north rim do Canyon de Chelly, mais concretamente: o canyon del Muerto.

(imagem encontrada aqui)
Ao cabo de meia dúzia de milhas a sul dessa localidade, entrámos na Indian Route 13, em direcção a sudoeste. A paisagem desértica é atravessada por estranhas muralhas de basalto, lembrando um gigantesco dinossauro enterrado com a crista dorsal de fora. À direita, levanta-se um maciço imponente: Shiprock, montanha sagrada dos navajo, com quase 500 metros de altura. Em geologês, trata-se simplesmente dos diques e da chaminé de um vulcão extinto, mas na tradição dos navajos tudo se torna muito mais rico. Segundo a lenda, quando os diné (o nome que os navajo dão a si próprios, e que significa "o povo que surgiu da terra") vinham a fugir de cruéis inimigos do noroeste, atravessando um canal (talvez o estreito de Bering?), no seu enorme desespero pediram ajuda ao Grande Espírito. Repentinamente, do chão sob os seus pés nasceu um pássaro enorme, que os transportou no dorso durante um dia e uma noite em direcção ao sul. À hora do sol-pôr, deixou-os no ponto onde fica agora Shiprock, e transformou-se de novo em pedra. Em homenagem ao pássaro que os salvou, os navajo chamam a esta formação Tsé Bitʼaʼí: rocha com asas. A partir de então, os navajo ficaram a viver no cimo da montanha, e só vinham ao vale buscar água e cultivar os campos. Um dia, quando os homens estavam a trabalhar no vale, uma grande tempestade abateu-se sobre a montanha. Um raio fendeu as suas encostas, tornando-a inacessível. Impossível ajudar as mulheres, as crianças e os velhos presos no topo das escarpas, que acabaram por morrer de fome e sede. Para não despertar os seus espíritos, é proibido escalar o rochedo.
Um pouco mais à frente, a paisagem muda de novo: Red Valley, terra de magníficas rochas vermelhas e formações semelhantes às de Monument Valley.
A seguir, atravessa-se uma bela floresta de faias (nota mental: regressar lá em Setembro - ou então, ainda melhor: à million dollar highway no Colorado). Em Lukachukai vira-se para sudeste, e pouco antes de chegar a Tsaile encontra-se o north rim do Canyon de Chelly, mais concretamente: o canyon del Muerto.
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a mim dava-me jeito que a Alemanha parasse de marcar golos
A mim dava-me jeito que a Alemanha parasse de marcar golos, porque é assim: a minha família foi ver o jogo para uma esplanada, e eu fiquei em casa a preparar o farnel para o concerto da Filarmónica na Waldbühne, que começa daqui a bocadinho. Meti a velocidade de cruzeiro, e cá estou de volta dos muffins de groselha, das pataniscas de bacalhau, da salada de feijão branco, dos folhados de queijo, das sandes de salmão fumado, e do caraças, e a cada cinco minutos mais ou menos toca o telefone e é o Joachim a dizer que a Alemanha marcou um golo. Já lhe disse que também temos vizinhos com vuvuzelas, mas ele parece que não confia.
Portanto, aqui fica o meu apelo pungente: parem com os golos! deixem-me trabalhar!
***
Adenda: no youtube há algumas passagens do concerto da Filarmónica de ontem, com Renée Fleming. Geralmente esses vídeos são apagados, por isso não ponho qualquer link. Os interessados podem procurar por "philharmonie waldbühne 2010".
Portanto, aqui fica o meu apelo pungente: parem com os golos! deixem-me trabalhar!
***
Adenda: no youtube há algumas passagens do concerto da Filarmónica de ontem, com Renée Fleming. Geralmente esses vídeos são apagados, por isso não ponho qualquer link. Os interessados podem procurar por "philharmonie waldbühne 2010".
26 junho 2010
Goethe, sobre a tolerância
Toleranz sollte eigentlich nur eine vorübergehende Gesinnung sein: Sie muss zur Anerkennung führen. Dulden heißt beleidigen.
A tolerância devia ser um sentimento transitório: tem de dar lugar à estima. A indulgência ofende.
em: Máximas e Reflexões
(frase encontrada no centro dos visitantes de Buchenwald)
A tolerância devia ser um sentimento transitório: tem de dar lugar à estima. A indulgência ofende.
em: Máximas e Reflexões
(frase encontrada no centro dos visitantes de Buchenwald)
o post da semana
24 junho 2010
Chaco Culture
Today I will walk out, today everything evil will leave me, I will be as I was before, I will have a cool breeze over my body.
I will have a light body, I will be happy forever, nothing will hinder me.
I walk with beauty before me.
I walk with beauty behind me.
I walk with beauty below me.
I walk with beauty above me.
I walk with beauty around me.
My words will be beautiful.
In beauty all day long may I walk.
Through the returning seasons, may I walk.
On the trail marked with pollen may I walk.
With dew about my feet, may I walk.
With beauty before me may I walk.
With beauty behind me may I walk.
With beauty below me may I walk.
With beauty above me may I walk.
With beauty all around me may I walk.
In old age wandering on a trail of beauty, lively, may I walk.
In old age wandering on a trail of beauty, living again, may I walk.
My words will be beautiful.
Poema anasazi, no museu de Canyon de Chaco, New Mexico.
***
A etapa seguinte da nossa viagem anunciava-se muito prometedora: Chaco, no meio do deserto - combinando um riquíssimo conjunto arqueológico da cultura anasazi com um observatório astronómico.
A pesquisa por "Pueblo Bonito, NM 87037" no Google Maps, dá uma boa ideia da grandiosidade das construções.
Por estar tão longe das cidades, Chaco não tem muita poluição luminosa. Os meus guias gabavam-lhe o céu nocturno: um céu de breu sobre o deserto, que permite, mesmo à vista desarmada, saborear as estrelas deslumbrantes e a Via Láctea, que vem ao nosso encontro como se fosse um destino.
Organizámos a viagem de modo a poder participar no Night Sky Program, cheios de expectativa sobre o que prometia ser um ponto alto nas nossas férias já tão cheias de superlativos. Há alguns anos tivemos a sorte de poder ver a lua num telescópio potente, e ficámos encantados com a imagem daquele sossego que quase podíamos tocar com as mãos. Imaginávamos que de Chaco poderíamos ir a Andrómeda, repousar em Júpiter...
Por aquela altura da nossa rota do Sudoeste, já tínhamos muita prática: levantar arraiais bem cedo, partir o mais depressa possível, tentar estar entre os primeiros a entrar no parque de campismo seguinte: first come, first serve. No caso de Chaco era ainda mais importante, porque sabíamos que o hotel mais próximo ficava a hora e meia de caminho.
E assim fizemos. Ao princípio da manhã dissemos adeus a Mesa Verde e partimos em direcção ao sul, para o que se anunciava como uma viagem de 160 milhas, 3 horas. A paisagem árida era interrompida por estranhos oásis muito viçosos. Tínhamos visto esse fenómeno do avião: enormes círculos verdes no meio da paisagem seca - o milagre da irrigação. Milagre, ou desvario? Que sentido faz transportar a água por centenas de quilómetros para ter plantações no deserto? Ou, pensando a uma escala global: o que está a correr mal no nosso planeta, para nos EUA se irrigar o deserto, enquanto os campos tão férteis do nosso Minho estão cada vez mais abandonados?
A última parte do percurso foi feita a passo de caracol: a estrada de acesso ao canyon está propositadamente em muito mau estado, para evitar avalanches de turistas. A investigação e a exploração deste centro, classificado como Património da Humanidade, colidem com os interesses de várias tribos de índios, para as quais estes locais são sagrados: a eles regressam ainda hoje para orar e honrar os espíritos dos antepassados. A solução encontrada em conjunto pela administração do parque e pela população indígena foi manter péssimas acessibilidades, e lembrar repetidamente aos visitantes que devem respeitar o espírito do local.
Passámos o parque de campismo ("Olhem, está vazio! Óptimo! Chegámos antes dos outros!) e dirigimo-nos ao centro de informações e pequeno núcleo museológico. Aí, o balde de água fria: o parque de campismo estava fechado, porque ao fazer obras de modernização descobriram vestígios arqueológicos que obrigaram a adiar sine die a reabertura. "E agora?", perguntámos nós, desconsolados, sabendo bem que a localidade mais próxima ficava a hora e meia de viagem. "Bem, podem ficar num parque de campismo privado, aqui perto", respondeu uma das funcionárias do parque, e foi buscar a proprietária: era uma ranger navajo, com uma longa trança preta e brincos de turquesa lindíssimos. Disse que sim, que podíamos ficar junto aos hogan da sua família, e avisou que era tudo muito primitivo.
Resolvido esse problema, partimos a pé, sob um sol inclemente, à descoberta dos vestígios arqueológicos. "Respeite estes lugares sagrados, leve muita água, e tenha cuidado com as cascavéis", dizia o nosso folheto. Ai.
A construção das casas grandes de Chaco foi planeada com notável precisão. Não apenas a orientação, segundo os pontos cardeais e as movimentações dos astros, mas também a própria engenharia: a construção das divisões no rés-do-chão tinha já em conta o que se tencionava construir no terceiro andar. Isto leva-me a desconfiar que terá havido ali dedo de alemão. Espantem-se... Já não seria a primeira vez na História: também o "rei de Stonehenge" era alemão, ou talvez austríaco. A minha teoria é reforçada pela tradição oral dos navajo, segundo a qual Chaco foi criado pelo Great Gambler, que veio do Sul, escravizou os povos dos pueblos e os obrigou a construir aqueles complexos segundo planos extremamente detalhados, antes de ser vencido e expulso. Se isto não é um caso de austríaco, talvez alemão...
E mais uma prova: o mistério das tumbas em Pueblo Bonito, onde se encontraram em lugar de destaque esqueletos de pessoas muito mais altas que os índios da região. Ora aí está: noves fora, nada.
E eis como, num momento de intuição de raro alcance, ofereço um contributo indispensável à compreensão dos mistérios da Chaco Culture. Bem me podiam dar uma medalhinha. A mim, e às vacas de Mesa Verde e de Bryce Canyon.
Findo o intervalinho para café, vou tentar agora fazer uma descrição fidedigna: as construções no canyon de Chaco foram erguidas entre 850 e 1150. Trata-se de vários complexos de casas construídas em semicírculo, desenhadas com grande rigor geométrico e extensos conhecimentos de astronomia. Os conjuntos maiores tinham mais de quinhentas divisões, e chegavam aos três andares. Também as kivas eram extraordinariamente grandes, algumas das quais com capacidade para albergar centenas de pessoas. Era o centro religioso, comercial e administrativo de uma vasta região. Não tinha muitos habitantes permanentes, mas atraía inúmeros visitantes.
A guia que nos mostrou Pueblo Bonito, um dos conjuntos mais bem conservados, comparou Chaco a Las Vegas. Eu teria dito Santiago de Compostela, mas ela era uma jovem americana - que saberá das rotas medievais europeias? E num ponto a sua comparação é perfeita: um lugar no meio do deserto, onde não havia absolutamente nada, e foi construído um centro que exerce um profundo fascínio sobre povos longínquos.
Calcula-se que para construir as casas tenha sido necessário abater mais de 200.000 árvores. Os construtores iam cortá-las às florestas, a mais de 70 quilómetros de distância, cortavam-lhes os ramos, deixavam secar os troncos para se tornarem mais leves, e arrastavam-nos até Chaco, pois não conheciam ainda a roda.
Por algum estranho motivo, algumas das "casas grandes" foram construídas junto a enormes rochedos que ameaçavam cair sobre elas. Pueblo Bonito, por exemplo, estava no sopé da Threatening Rock. Para evitar a erosão, os anasazi construíram plataformas e apoios na sua base. Também colocavam pahos (varetas de oração) na fenda entre a rocha e a escarpa. Em Janeiro de 1941, após um ano de muita chuva, a pedra abateu-se sobre as ruínas, destruindo mais de 30 compartimentos.

Nas paredes do canyon há inúmeros petróglifos, ou, como lhes chamam os hopi: tutuveni - marcas dos que vieram antes. Alguns são de um tipo muito raro, por combinarem na mesma figura várias técnicas diferentes.
A espiral é um dos símbolos recorrentes (seriam os anasazi umbiguistas?). Mas também se vêem animais e figuras humanas, homens a cavalo - registo da chegada dos espanhóis -, e até um comboio. E, infelizmente, sinais dos visitantes de tempos mais modernos: um tal de Henri e um Mark B passaram por ali, e em 1887 um comerciante deixou indicações para a sua loja, a duas milhas down canyon.
***
A navajo tinha dito "vão de carro nesta direcção, antes de chegarem a um wash virem à esquerda, e continuem durante cerca de vinte minutos. Depois de passarem a terceira colina, virem outra vez à esquerda".
Um wash?! Talvez se referisse ao leito seco de um aluvião. Virámos à esquerda, e seguimos a corta-mato, enquanto nos interrogávamos se não teria sido melhor ideia ir para o tal hotel, mais longe, mas por estrada e com sinalização. Afinal, tudo correu bem: ao fim de meia hora encontrámos o parque de campismo: dois hogans, uma "casinha" (sim, isso mesmo: a uns vinte metros do hogan principal havia uma casinha no meio do terreno, que era suposto ser a nossa casa de banho - decidi logo ali que ia passar umas doze horas sem precisar), e um monte de ferro velho a fazer de mesas, cadeiras e protecção do vento. Tudo com um aspecto desolado.
À nossa volta estendia-se o planalto raso e sem uma única árvore, sobre nós um céu desmedido. Ao fim da tarde levantou-se uma ventania terrível, e nós olhávamos desorientados para aquela paisagem exposta, sem nada que travasse a poeira que remoinhava no ar e nos batia com fúria.
Resolvemos regressar ao centro de informação de Chaco e preparar lá o nosso jantar, protegidos do mau tempo pelas muralhas do canyon, enquanto esperávamos pelo Night Sky Program.
Mais uma vez havia belas mesas para piqueniques, mas não tinham pias para lavar a louça. Apesar do letreiro "não lave a louça aqui", usámos o lavatório da casa de banho. Por causa da má consciência, deixámos tudo ainda mais limpo do que tínhamos encontrado. No céu, as nuvens estavam cada vez mais densas. Então, e Júpiter? E Andrómeda? Deixaram-nos ver um bocadinho da lua num telescópio móvel, mostraram-nos fotografias excelentes feitas naquele observatório, contaram-nos meia dúzia de histórias, e depois boa noite, adeus, voltem sempre.
Aproveitámos a casa de banho do centro, último reduto da civilização, para lavar os dentes e fazer os despejos para as doze horas seguintes, e voltámos tristonhos para o nosso parque de campismo no meio do ferro-velho.
Na manhã seguinte não havia vento, não havia nuvens, e a casinha (sim: quem aguenta doze horas?) revelou-se uma boa surpresa: com uma plataforma forrada a linóleo e um buraco no centro, tudo muito asseado, e sem cheiros. Quem diria.
Fui ter com a proprietária, para que nos indicasse a direcção para Canyon de Chelly. Encontrei-a em frente ao seu hogan. Tinha a longa trança e os seus belíssimos brincos de turquesa e prata, e estava de pé, muito direita e concentrada em algo que se passava no horizonte - o arquétipo de um vigia índio. Olhei também: nada, apenas a planície. Ela explicou-me: "Vê aquela nuvem de pó? É o carro das pessoas que saíram daqui há pouco. Estou a ver se viram no sítio certo e encontram a estrada sem problemas."
Também nós encontrámos o nosso caminho sem problemas.
Virámos costas a Chaco fartos de campismo, vento, pó, casinhas, nuvens que tapam estrelas, falta de água e de conforto. Tão desalentados, que chegámos a comentar maldosamente: na altura em que estes andavam a arrastar árvores por mais de 70 quilómetros, na Europa estavam a começar a construir a catedral de Estrasburgo...
Partimos rumo a Canyon de Chelley, ansiosos por um hotel com duche e restaurante.
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Hoje tive a minha primeira aula de zumba, numa sala cheia de mulheres que suavam e riam, e no fim de cada sequência aplaudiam o professor.
O professor, ai, o professor!
Um belo fenício, extraordinária mistura de graciosidade e humor.
Mas já se sabe qual é o senão da história, nos tempos que correm: quase* todos os homens que conheço, nos quais se aliam desta forma beleza, graça e humor, são homossexuais.
Bem: eles homossexuais, e eu casada. Estamos quites, hehehe.
Para quem não sabe o que é zumba (eu até ontem também não sabia) e está a pensar brejeirices, aqui vai um exemplo:
A minha aula foi melhor. Do melhor, podem crer. Às tantas, veio uma música "oriental", e o nosso fenício começou a fazer dança do ventre. Dança excelente - o rapaz deve ser bailarino -, e ao mesmo tempo divertida: imaginem um homem, de t-shirt e calções enormes, a menear as ancas numa bela dança do ventre. Lindo! Mas ça va sans dire, que essa parte da questão já está suficientemente debatida.
(*) Repararam no "quase"? Foi de propósito, por causa das susceptibilidades dos "não desfazendo".
O professor, ai, o professor!
Um belo fenício, extraordinária mistura de graciosidade e humor.
Mas já se sabe qual é o senão da história, nos tempos que correm: quase* todos os homens que conheço, nos quais se aliam desta forma beleza, graça e humor, são homossexuais.
Bem: eles homossexuais, e eu casada. Estamos quites, hehehe.
Para quem não sabe o que é zumba (eu até ontem também não sabia) e está a pensar brejeirices, aqui vai um exemplo:
A minha aula foi melhor. Do melhor, podem crer. Às tantas, veio uma música "oriental", e o nosso fenício começou a fazer dança do ventre. Dança excelente - o rapaz deve ser bailarino -, e ao mesmo tempo divertida: imaginem um homem, de t-shirt e calções enormes, a menear as ancas numa bela dança do ventre. Lindo! Mas ça va sans dire, que essa parte da questão já está suficientemente debatida.
(*) Repararam no "quase"? Foi de propósito, por causa das susceptibilidades dos "não desfazendo".
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23 junho 2010
para ajudar a pagar o TGV e assim
Por causa daquela história de o empresário que suporta os custos de instalação de um equipamento ou de uma infraestrutura ser o mesmo que embolsa os lucros colaterais do equipamento ou da infraestrutura (como no caso das companhias ferroviárias que faziam estações não nas cidades existentes mas ao lado delas, em terrenos comprados a baixo preço pela companhia - tal como contei neste post) ocorreu-me que (agarrem-me, que estou outra vez a ter uma ideia!) o Estado sobre-endividado podia fazer o mesmo: não apenas pagar a instalação dos equipamentos e das infraestruturas, mas também embolsar os lucros extraordinários deles derivados. Por exemplo: congelar o valor das propriedades naquele local antes da realização do investimento, e exigir o pagamento da diferença que ocorresse no momento da venda.
Contra mim falo, que ando há anos à espera que a Junta de Freguesia faça uma estrada planeada para passar em frente ao meu terreno agrícola, não sei se me entendem.
Mas - cá para nós - quanto mais penso nisso mais imoral acho que a Junta pague o preço da estrada e eu embolse a diferença de valor entre o terreno agrícola e o urbano. Eu, que me limitei a ter o terreno no sítio certo no momento certo.
Se já estão a carregar no "comente" para me virem dizer "e nada te impede de dar esse dinheiro à Junta, Heleninha", vá, travões a fundo: ou há moralidade, ou embolsamos todos...
Era o tipo de mudança estrutural que não me custava aceitar. E resolvia uma série de problemas de corrupção dos agentes do Estado.
Contra mim falo, que ando há anos à espera que a Junta de Freguesia faça uma estrada planeada para passar em frente ao meu terreno agrícola, não sei se me entendem.
Mas - cá para nós - quanto mais penso nisso mais imoral acho que a Junta pague o preço da estrada e eu embolse a diferença de valor entre o terreno agrícola e o urbano. Eu, que me limitei a ter o terreno no sítio certo no momento certo.
Se já estão a carregar no "comente" para me virem dizer "e nada te impede de dar esse dinheiro à Junta, Heleninha", vá, travões a fundo: ou há moralidade, ou embolsamos todos...
Era o tipo de mudança estrutural que não me custava aceitar. E resolvia uma série de problemas de corrupção dos agentes do Estado.
22 junho 2010
Durango & Silverton Narrow Gauge Railroad
Quem já está em Mesa Verde pode bem entrar numa de "já agora", e dar um saltinho a Durango (a 60 milhas desse Parque) para participar numa das mais extraordinárias jornadas ferroviárias do mundo, como assegura o meu melhor conselheiro de viagens: the Durango train is the most spectacular in the world, if the weather allows you to see the mountains.

Já agora, fomos: saímos em busca de um comboio a vapor para turistas, e demos com um belo naco de História dos EUA.
Se a conquista ferroviária dos EUA tivesse sido feita pelo Estado, e não pela mão invisível do mercado, Durango chamava-se Animas City. No caso concreto desta cidade, a mão pode ter sido invisível, mas não era anónima: general William J. Palmer, herói da Guerra Civil, proprietário da Denver & Rio Grande, inteligente investidor e, de um modo geral, agente de desenvolvimento por motivos nem sempre altruístas.
Palmer vinha desde 1871 a traçar a sua linha ferroviária pelo mapa abaixo, primeiro de Denver para Colorado Springs (cidade fundada por ele, mais uma prova do seu fantástico faro para o negócio, pois logo viu que aquele local havia de dar um magnífico centro turístico), depois até Pueblo (onde tratou de criar uma empresa metalúrgica integrada que lhe permitiu reduzir em 50% os seus custos com os carris, e que se tornaria no maior empregador do Colorado durante algumas décadas), e ia avançando aplicadamente, com os olhos postos em Santa Fé e mais além. O sonho era ligar Denver à Cidade do México.
Tempos conturbados aqueles: apenas vinte anos antes a fronteira do México tinha sofrido um brutal empurrão para o sul, o território do Colorado ainda não fazia parte da União, a Guerra Civil era tragédia recente. Como se não tivesse já problemas de sobra com as dificuldades próprias do empreendimento e os impasses financeiros, Palmer tinha ainda de suportar a concorrência de outras companhias ferroviárias, e em particular a da Santa Fe Railroad (mais exactamente: a Atchison, Topeka & Santa Fe), que queria a todo o custo dominar a rede de transportes naquela região. Aconteceu o que tinha de acontecer: uma autêntica sequência de Tom & Jerry, envolvendo pistoleiros a guardar pontos estratégicos para a construção das linhas, presentes a políticos e magistrados, cenas de espionagem. A D&RG acabou a perder a melhor passagem para sul, Raton Pass, a favor da SFR. Decidida ainda a chegar a Santa Fé, optou por um pequeno mas difícil desvio: para oeste, na direcção de Alamosa, fazendo assim a primeira experiência de construção ferroviária nas Montanhas Rochosas - do qual nasceu o orgulhoso slogan "Thru the Rockies... Not Around Them". Saber vender os fracassos como vitória é a alma do negócio.
A luta continuou. Ambas as companhias tinham interesse numa ligação de Pueblo para Leadville, cidade que estava a ter um acelerado crescimento devido às minas de prata. A D&RG tencionava construir a ligação ao longo do rio Arkansas, por uma estreita passagem de penhascos abruptos, a Royal Gorge. E eis que chegou o momento fatal: num restaurante, empregados da Denver & Rio Grande descuidaram-se a conversar sobre esses projectos, outros clientes (ou talvez espiões, ou talvez esta história esteja muito mal contada) ouviram e foram contar à Santa Fe Railroad, e daí a nada havia cenas de pancadaria, tiroteios e até tribunais a decidir quem tinha direitos sobre aquela passagem.
Estou até em crer que foi por causa deste episódio que, um pouco por todo o mundo, começaram a fazer cantinas nas empresas: para o pessoal poder falar à vontade sem medo de espiões da concorrência.
Resumindo, que a história já vai longa: para a Denver & Rio Grande e a Santa Fe Railroad foi feito um Tratado de Tordesilhas, sendo que a primeira não podia explorar a região para sul (e lá se foi o sonho de chegar à Cidade do México) e a segunda não podia explorar para oeste de Cañon City. Esta veio a tornar-se uma grande empresa ferroviária continental, enquanto que a D&RG acabou por se fixar sobretudo no Colorado e em Utah. De onde se poderá talvez concluir que, naqueles tempos do faroeste, quando as coisas metiam tribunais e políticos, umas mãos eram mais invisíveis que outras.
E foi assim que a empresa do general Palmer descobriu a sua vocação de montanhista no apoio aos cada vez mais importantes centros mineiros daquela região. A conquista da impenetrable wilderness foi feita com vias reduzidas (com carris mais leves, mais baratas, mais fáceis de instalar naquele terreno acidentado, mais aptas a permitir curvas apertadas), não recuando nem sequer perante a dificuldade de uma passagem a 3000 m de altitude no Cumbres Pass. Mal eles sabiam o que por lá neva em certos meses, e as dificuldades que as pobres locomotivas haviam de ter para atravessar a invernia. Mas estávamos em 1880, ainda faltavam uns enormes cem anos para as informações metereológicas mundiais ficarem à distância de uma tecla enter.
Em Julho de 1881 o comboio chegou finalmente ao vale do rio Animas - a Durango. Não: a Animas City. Não: a Durango.
Naquela época, era normal a mão invisível levar os comboios até perto das cidades. Onde houvesse um aglomerado com uma dimensão aceitável, a linha parava um pouco antes, a empresa ferroviária comprava os terrenos à volta da estação, e vendia-os depois a bom preço a quem quisesse deslocar-se da povoação inicial para o novo centro criado pelo meio de transporte.
O descampado no meio do qual se construiu a estação recebeu de Palmer o nome de Durango - talvez a pensar ainda no México. A povoação cresceu e cresceu e cresceu, acabando por englobar Animas City, ali para os lados da 32nd Street. Com o comboio veio também o progresso: bandos rivais e tiroteios, enforcamentos públicos, bordéis ("Sino de Prata", "Jardins Suspensos da Babilónia", etc. - ah, a poesia daqueles tempos...), salas de ópio. E regulamentos a proibir mulheres fancy de "andar a cavalo ou em carruagem aberta, ou de outro modo exibindo ou publicitando a sua profissão pelas ruas de Durango". Regulamentos esses que coexistiam pacificamente com os impostos cobrados às mulheres fancy, e que bom jeito faziam aos cofres da cidade.
Depois, em apenas onze meses, o esforço de 500 homens levou a linha de Durango a Silverton, que era até à data o único grande centro mineiro sem ligação ferroviária, e com péssimos acessos.



Silverton ou Silvertown? Segundo a lenda (nos EUA é assim: ao fim de meia dúzia de anos, já se pode falar em lendas; um europeu às vezes tem de se conter para não rir - e pergunto-me se não virá daí a cara risonha dos chineses na Califórnia...), o nome nasceu da resposta de um mineiro a quem perguntaram se encontrara ouro: "We ain't found any gold, but we struck that blasted silver by the hunnerd ton!"
Prata às toneladas, portanto. O transporte de uma tonelada de minério custava $80 pelo trilho para carretos de mercadorias, construído em 1872 sobre um velho caminho dos Ute, o Stony Pass - uma passagem tão difícil, que em certos pontos era preciso passar a carga para lombos de burros. Pela Million Dollar Highway, estrada com peagem construída por um outro empresário de visão e arrojo, Otto Mears, custava $30. Nas carruagens da D&RG custava $12, e mesmo assim as pessoas reclamaram que o preço era demasiado alto. Fazer o quê? A Santa Fe Railroad estava impedida de construir um discount railroad para aqueles lados...
Ao chegar a Silverton, Palmer teve uma surpresa: o vale não permitia a mesma gracinha que em Durango. Não havia terrenos nas imediações da cidade que a Denver & Rio Grande pudesse comprar ao desbarato para vender logo depois com muito valor acrescentado. Por esse motivo, viu-se obrigado a comprar os terrenos para a linha e a estação a preços proibitivos.
Ora aqui está uma autarquia como já não há: em vez de pagar para trazer o progresso à sua cidade, cobra preços altíssimos ao empresário? Isto só mesmo no faroeste.
Em todo o caso, a ligação ferroviária trouxe à cidade um enorme impulso, que durou até aos anos vinte, altura em que o preço do minério baixou substancialmente, levando ao encerramento da maior parte das minas. Mas como diz o povo: quando se fecha uma porta, abre-se uma janela, e esta veio em forma de Lei Seca. Silverton terá sido uma das poucas cidades onde os alambiques podiam funcionar descansadamente à luz do dia, porque os fiscais vinham de comboio, o que dava tempo a que os produtores, avisados por amigos em Durango, dessem um jeitinho ao cenário.
Tal como em Durango, a ligação ferroviária trouxe riqueza, progresso e bordéis. Estes revelaram-se uma das actividades económicas mais estáveis da cidade. Apesar dos esforços de alguns cidadãos de bem, que chegaram a pagar a pistoleiros para repor a ordem e a moralidade, as casas de prostituição foram ficando: afinal de contas, tinham uma importante função social para os mineiros, além de contribuírem para a saúde financeira da urbe.
Com o passar dos meses, o comboio trouxe também mulheres de respeito, e a pouco e pouco a cidade tornou-se um lugar agradável para constituir família.
Mal fechou o último bordel da Blair Street, veio Hollywood (não sei que conclusões tirar sobre esta coincidência). A fábrica de sonhos descobriu o potencial destas linhas de via estreita no sudoeste do Colorado, e escolheu a região para rodar o filme "A Ticket to Tomahawk", com Marilyn Monroe. Para melhorar os efeitos cénicos, mandaram pintar o comboio de um amarelo que ganhou nome próprio (Rio Grande Gold) e acabou por se estender a toda a frota. Por meados dos anos cinquenta o antigo cor-de-verde-quando-foge já tinha sido integralmente substituído em todas as carruagens pelo alegre amarelo, e as fotografias dos turistas nunca mais foram as mesmas.

Os filmes continuaram: Across the Wide Missouri (filmado em grande parte nas montanhas San Juan, embora se dissesse que passava em Montana), Denver & Rio Grande, Viva Zapata, Lone Star, Around the World in Eighty Days, Butch Cassidy and The Sundance Kid.
O impulso publicitário oferecido pela indústria cinematográfica , com resultados brilhantes no turismo, não impediu a empresa D&RG de pretender encerrar a linha, a par com todas as outras de via estreita que detinha no Colorado. É verdade que o antigo tráfego ligado ao minério estava em vias de extinção. Contudo, havia cada vez mais turistas interessados naquele percurso. Mas a empresa, que não, que não, que não estava interessada em manter a ligação Durango-Silverton - apesar de ser, de entre todas as suas linhas de passageiros, a que lhe trazia maior facturação.
E então aconteceu algo improvável no país do laissez faire capitalista: os cidadãos uniram-se, fizeram prova da viabilidade económica e da importância histórica daquele troço, foram para Washington protestar por causa do fim da indústria mineira. Pelo seu lado, a empresa não se fez rogada a inventar soluções alternativas, que chegaram a incluir a oferta de um serviço de camionagem e autocarros para fazer concorrência ao seu próprio comboio. Como entender uma decisão tão estranha? Talvez assim: nos anos 50 do século passado, via estreita não era propriamente sinónimo de progresso e algo que contribuísse para a imagem de dinamismo de uma empresa. Além disso, a linha Durango-Silverton tornava-se uma área cada vez mais isolada, geografica e economicamente, no novo painel de especialização da empresa.
Pergunto-me o que é que a CP tem, que a D&RG não teve: no fim de uma longa série de protestos, alegações e contra-alegações, o Estado obrigou a empresa privada a manter aquela ligação ferroviária em funcionamento, mesmo contra a sua vontade. Nas décadas seguintes o troço foi vendido repetidas vezes, tendo sido comprado em 1998 pelos fundadores da American Heritage Railways, amantes de linhas e comboios antigos, que se vêem sobretudo como guardiães de um património histórico. Muito para nosso gáudio, que num belo dia de Julho nos fizemos à estrada em direcção a Durango, trocámos as reservas feitas na internet por bilhetes vintage muito bonitinhos, tivemos imensa dificuldade para escolher entre carruagem fechada ou gôndola, lado direito ou esquerdo, e partimos para a grande aventura. Direcção: westbound, embora Silverton fique a Nor-Nordeste de Durango. Westbound é uma reminiscência da história centenária daquela linha americana, para a qual todos os trilhos iam dar a Denver, que ficava no Leste absoluto do mapa D&RG. Os comboios que saíam de Denver (mesmo os que iam para sul, viravam para oeste pelo Cumbres Pass, e em Durango seguiam para Nor-Nordeste) iam todos para Oeste.
Direcção: Westbound. Partida! O fumo da locomotiva, o apito piiiiiiiiii, o arranque suave, pouca-terra pouca-terra pouca-terra, sair da cidade, avançar pelo meio de belos prados verdes junto ao rio. Tudo conforme os melhores sonhos do turista.

Ao fim de alguns minutos apareceu um rapaz simpático a vender óculos de protecção (iguaizinhos aos Ray Ban, mas por $3), bebidas e livros sobre a história do comboio e da linha. Íamos para a romaria, comprámos tudo.
A seguir apareceu um ranger que falava pelos cotovelos, mas que, devido ao ruído do comboio, era quase impossível de compreender. Informava sobre as formações geológicas, contava histórias dos índios Ute, que acabaram por ter de sair daquela região devido aos mineiros, e informou ainda que, apesar de nos livros de ciências constar que naquelas montanhas não há alces, alguns deles não sabem e volta e meia aparecem por lá. Toda a gente se riu e tratou de espreitar pela janela na esperança de avistar algum alce analfabeto.
Sobre a beleza do trajecto, falam melhor as fotografias:




O tom avermelhado das pedras no rio é sinal de uma tragédia ecológica: a oxidação dos minerais misturados com a água, consequência da actividade mineira. Recentemente tem sido feito um enorme esforço para limpar o rio, cujos efeitos positivos estão patentes no paulatino regresso da população de trutas.

A cidade de Silverton é estranha: algumas ruas desastradamente largas mas em terra batida e cheias de irregularidades, casas vitorianas ao lado de barracões, e para onde quer que se olhe, um cerco de montanhas.




Vivendo como vive praticamente só do turismo, a cidade oferece restaurantes para todos os gostos. Escolhemos um saloon, com comida típica (diria: "típica de lata", mas a fome é boa cozinheira, como dizem os alemães), e um piano todo desafinado, do qual um figurante tentava arrancar sem anestesia algo ligeiramente semelhante à "sonata ao luar".

Depois do almoço demos um passeio pela cidade, e parámos numa loja de souvenirs que estava com saldos porque ia fechar. Mais uma. Comprámos uma t-shirt "out of coffee" para a Christina, e fartámo-nos de discutir com o Matthias porque ele queria comprar uma t-shirt "no species, no feces", que tinha nas costas desenhos detalhados das "fezes em perigo de extinção" (do lobo, do urso, do lince, etc.). O que são as coisas: o rapaz comprou a t-shirt com a semanada dele, começou a vesti-la, e nós, sempre que o víamos de costas, ríamos cada vez mais de tamanho disparate. O plano inclinado dos costumes é isto mesmo: uma pessoa cede um bocadinho, e num instante se torna insensível à anormalidade...
A meio da conversa com a dona da loja, ouvimos quatro apitos longos: _ _ _ _
Sinal de que o comboio ia partir, e que tínhamos apenas dez minutos para regressar ao nosso lugar. Também podiam ser cinco: a cidade é tão pequena!
Ao sair da cidade, uma estranha agitação percorreu os turistas em todo o comboio. Nós, que já temos alguma experiência de viagens nos EUA, perguntamos logo: É um alce? Onde está?
É que nestes passeios não é necessário olhar para a paisagem à procura de um animal daqueles tipo troféu fotográfico. Basta olhar para os outros turistas, ou para os carros parados na berma da estrada. São um óptimo indicador.
No caso, era um urso enorme a uns cem metros, que se balançava na encosta enquanto nos observava.
Os serviços municipais de turismo de Silverton estão de parabéns, organizaram tudo com excelência.
A empresa que explora e protege a linha histórica também não dorme no serviço. Oferece bilhetes combinados de comboio e autocarro, com diversos programas alternativos para as horas passadas em Silverton: passeios equestres ou em jipe até aos cumes, visita ao interior de uma mina e garimpagem no rio (tourisme oblige), aventuras em ATV ou snowmobile.
Uma das viagens é feita no comboio, a outra em autocarro, pela célebre San Juan Skyway, atravessando o Molas Pass (3325 m) e o Coal Bank Pass (3243 m).
Outros programas possíveis: visita a um parque de arborismo numa floresta de faias, só acessível por comboio; viagem de comboio combinada com rafting em Durango; sarau de teatro e vaudeville no Henry Strater Theatre.
Eis como de uma região inóspita e em processo de desertificação se fez um centro turístico de alta qualidade. Com mão invisível e Estado, com espírito empreendedor, arrojo e paixão. E um retoque de cor dado por Hollywood.



De olhos postos nesta espécie de fim do mundo no outro lado do globo, penso na linha do Douro, e nas tantas vias estreitas que em Portugal foram fechadas ou vão ainda resistindo, moribundas. Um dia destes hei-de trazer o meu melhor conselheiro de viagens a este lado do mundo, hei-de-lhe mostrar outras linhas ferroviárias que são igualmente the most spectacular in the world.
Já agora, fomos: saímos em busca de um comboio a vapor para turistas, e demos com um belo naco de História dos EUA.
Se a conquista ferroviária dos EUA tivesse sido feita pelo Estado, e não pela mão invisível do mercado, Durango chamava-se Animas City. No caso concreto desta cidade, a mão pode ter sido invisível, mas não era anónima: general William J. Palmer, herói da Guerra Civil, proprietário da Denver & Rio Grande, inteligente investidor e, de um modo geral, agente de desenvolvimento por motivos nem sempre altruístas.
Palmer vinha desde 1871 a traçar a sua linha ferroviária pelo mapa abaixo, primeiro de Denver para Colorado Springs (cidade fundada por ele, mais uma prova do seu fantástico faro para o negócio, pois logo viu que aquele local havia de dar um magnífico centro turístico), depois até Pueblo (onde tratou de criar uma empresa metalúrgica integrada que lhe permitiu reduzir em 50% os seus custos com os carris, e que se tornaria no maior empregador do Colorado durante algumas décadas), e ia avançando aplicadamente, com os olhos postos em Santa Fé e mais além. O sonho era ligar Denver à Cidade do México.
Tempos conturbados aqueles: apenas vinte anos antes a fronteira do México tinha sofrido um brutal empurrão para o sul, o território do Colorado ainda não fazia parte da União, a Guerra Civil era tragédia recente. Como se não tivesse já problemas de sobra com as dificuldades próprias do empreendimento e os impasses financeiros, Palmer tinha ainda de suportar a concorrência de outras companhias ferroviárias, e em particular a da Santa Fe Railroad (mais exactamente: a Atchison, Topeka & Santa Fe), que queria a todo o custo dominar a rede de transportes naquela região. Aconteceu o que tinha de acontecer: uma autêntica sequência de Tom & Jerry, envolvendo pistoleiros a guardar pontos estratégicos para a construção das linhas, presentes a políticos e magistrados, cenas de espionagem. A D&RG acabou a perder a melhor passagem para sul, Raton Pass, a favor da SFR. Decidida ainda a chegar a Santa Fé, optou por um pequeno mas difícil desvio: para oeste, na direcção de Alamosa, fazendo assim a primeira experiência de construção ferroviária nas Montanhas Rochosas - do qual nasceu o orgulhoso slogan "Thru the Rockies... Not Around Them". Saber vender os fracassos como vitória é a alma do negócio.
A luta continuou. Ambas as companhias tinham interesse numa ligação de Pueblo para Leadville, cidade que estava a ter um acelerado crescimento devido às minas de prata. A D&RG tencionava construir a ligação ao longo do rio Arkansas, por uma estreita passagem de penhascos abruptos, a Royal Gorge. E eis que chegou o momento fatal: num restaurante, empregados da Denver & Rio Grande descuidaram-se a conversar sobre esses projectos, outros clientes (ou talvez espiões, ou talvez esta história esteja muito mal contada) ouviram e foram contar à Santa Fe Railroad, e daí a nada havia cenas de pancadaria, tiroteios e até tribunais a decidir quem tinha direitos sobre aquela passagem.
Estou até em crer que foi por causa deste episódio que, um pouco por todo o mundo, começaram a fazer cantinas nas empresas: para o pessoal poder falar à vontade sem medo de espiões da concorrência.
Resumindo, que a história já vai longa: para a Denver & Rio Grande e a Santa Fe Railroad foi feito um Tratado de Tordesilhas, sendo que a primeira não podia explorar a região para sul (e lá se foi o sonho de chegar à Cidade do México) e a segunda não podia explorar para oeste de Cañon City. Esta veio a tornar-se uma grande empresa ferroviária continental, enquanto que a D&RG acabou por se fixar sobretudo no Colorado e em Utah. De onde se poderá talvez concluir que, naqueles tempos do faroeste, quando as coisas metiam tribunais e políticos, umas mãos eram mais invisíveis que outras.
E foi assim que a empresa do general Palmer descobriu a sua vocação de montanhista no apoio aos cada vez mais importantes centros mineiros daquela região. A conquista da impenetrable wilderness foi feita com vias reduzidas (com carris mais leves, mais baratas, mais fáceis de instalar naquele terreno acidentado, mais aptas a permitir curvas apertadas), não recuando nem sequer perante a dificuldade de uma passagem a 3000 m de altitude no Cumbres Pass. Mal eles sabiam o que por lá neva em certos meses, e as dificuldades que as pobres locomotivas haviam de ter para atravessar a invernia. Mas estávamos em 1880, ainda faltavam uns enormes cem anos para as informações metereológicas mundiais ficarem à distância de uma tecla enter.
Em Julho de 1881 o comboio chegou finalmente ao vale do rio Animas - a Durango. Não: a Animas City. Não: a Durango.
Naquela época, era normal a mão invisível levar os comboios até perto das cidades. Onde houvesse um aglomerado com uma dimensão aceitável, a linha parava um pouco antes, a empresa ferroviária comprava os terrenos à volta da estação, e vendia-os depois a bom preço a quem quisesse deslocar-se da povoação inicial para o novo centro criado pelo meio de transporte.
O descampado no meio do qual se construiu a estação recebeu de Palmer o nome de Durango - talvez a pensar ainda no México. A povoação cresceu e cresceu e cresceu, acabando por englobar Animas City, ali para os lados da 32nd Street. Com o comboio veio também o progresso: bandos rivais e tiroteios, enforcamentos públicos, bordéis ("Sino de Prata", "Jardins Suspensos da Babilónia", etc. - ah, a poesia daqueles tempos...), salas de ópio. E regulamentos a proibir mulheres fancy de "andar a cavalo ou em carruagem aberta, ou de outro modo exibindo ou publicitando a sua profissão pelas ruas de Durango". Regulamentos esses que coexistiam pacificamente com os impostos cobrados às mulheres fancy, e que bom jeito faziam aos cofres da cidade.
Depois, em apenas onze meses, o esforço de 500 homens levou a linha de Durango a Silverton, que era até à data o único grande centro mineiro sem ligação ferroviária, e com péssimos acessos.
Silverton ou Silvertown? Segundo a lenda (nos EUA é assim: ao fim de meia dúzia de anos, já se pode falar em lendas; um europeu às vezes tem de se conter para não rir - e pergunto-me se não virá daí a cara risonha dos chineses na Califórnia...), o nome nasceu da resposta de um mineiro a quem perguntaram se encontrara ouro: "We ain't found any gold, but we struck that blasted silver by the hunnerd ton!"
Prata às toneladas, portanto. O transporte de uma tonelada de minério custava $80 pelo trilho para carretos de mercadorias, construído em 1872 sobre um velho caminho dos Ute, o Stony Pass - uma passagem tão difícil, que em certos pontos era preciso passar a carga para lombos de burros. Pela Million Dollar Highway, estrada com peagem construída por um outro empresário de visão e arrojo, Otto Mears, custava $30. Nas carruagens da D&RG custava $12, e mesmo assim as pessoas reclamaram que o preço era demasiado alto. Fazer o quê? A Santa Fe Railroad estava impedida de construir um discount railroad para aqueles lados...
Ao chegar a Silverton, Palmer teve uma surpresa: o vale não permitia a mesma gracinha que em Durango. Não havia terrenos nas imediações da cidade que a Denver & Rio Grande pudesse comprar ao desbarato para vender logo depois com muito valor acrescentado. Por esse motivo, viu-se obrigado a comprar os terrenos para a linha e a estação a preços proibitivos.
Ora aqui está uma autarquia como já não há: em vez de pagar para trazer o progresso à sua cidade, cobra preços altíssimos ao empresário? Isto só mesmo no faroeste.
Em todo o caso, a ligação ferroviária trouxe à cidade um enorme impulso, que durou até aos anos vinte, altura em que o preço do minério baixou substancialmente, levando ao encerramento da maior parte das minas. Mas como diz o povo: quando se fecha uma porta, abre-se uma janela, e esta veio em forma de Lei Seca. Silverton terá sido uma das poucas cidades onde os alambiques podiam funcionar descansadamente à luz do dia, porque os fiscais vinham de comboio, o que dava tempo a que os produtores, avisados por amigos em Durango, dessem um jeitinho ao cenário.
Tal como em Durango, a ligação ferroviária trouxe riqueza, progresso e bordéis. Estes revelaram-se uma das actividades económicas mais estáveis da cidade. Apesar dos esforços de alguns cidadãos de bem, que chegaram a pagar a pistoleiros para repor a ordem e a moralidade, as casas de prostituição foram ficando: afinal de contas, tinham uma importante função social para os mineiros, além de contribuírem para a saúde financeira da urbe.
Com o passar dos meses, o comboio trouxe também mulheres de respeito, e a pouco e pouco a cidade tornou-se um lugar agradável para constituir família.
Mal fechou o último bordel da Blair Street, veio Hollywood (não sei que conclusões tirar sobre esta coincidência). A fábrica de sonhos descobriu o potencial destas linhas de via estreita no sudoeste do Colorado, e escolheu a região para rodar o filme "A Ticket to Tomahawk", com Marilyn Monroe. Para melhorar os efeitos cénicos, mandaram pintar o comboio de um amarelo que ganhou nome próprio (Rio Grande Gold) e acabou por se estender a toda a frota. Por meados dos anos cinquenta o antigo cor-de-verde-quando-foge já tinha sido integralmente substituído em todas as carruagens pelo alegre amarelo, e as fotografias dos turistas nunca mais foram as mesmas.
Os filmes continuaram: Across the Wide Missouri (filmado em grande parte nas montanhas San Juan, embora se dissesse que passava em Montana), Denver & Rio Grande, Viva Zapata, Lone Star, Around the World in Eighty Days, Butch Cassidy and The Sundance Kid.
O impulso publicitário oferecido pela indústria cinematográfica , com resultados brilhantes no turismo, não impediu a empresa D&RG de pretender encerrar a linha, a par com todas as outras de via estreita que detinha no Colorado. É verdade que o antigo tráfego ligado ao minério estava em vias de extinção. Contudo, havia cada vez mais turistas interessados naquele percurso. Mas a empresa, que não, que não, que não estava interessada em manter a ligação Durango-Silverton - apesar de ser, de entre todas as suas linhas de passageiros, a que lhe trazia maior facturação.
E então aconteceu algo improvável no país do laissez faire capitalista: os cidadãos uniram-se, fizeram prova da viabilidade económica e da importância histórica daquele troço, foram para Washington protestar por causa do fim da indústria mineira. Pelo seu lado, a empresa não se fez rogada a inventar soluções alternativas, que chegaram a incluir a oferta de um serviço de camionagem e autocarros para fazer concorrência ao seu próprio comboio. Como entender uma decisão tão estranha? Talvez assim: nos anos 50 do século passado, via estreita não era propriamente sinónimo de progresso e algo que contribuísse para a imagem de dinamismo de uma empresa. Além disso, a linha Durango-Silverton tornava-se uma área cada vez mais isolada, geografica e economicamente, no novo painel de especialização da empresa.
Pergunto-me o que é que a CP tem, que a D&RG não teve: no fim de uma longa série de protestos, alegações e contra-alegações, o Estado obrigou a empresa privada a manter aquela ligação ferroviária em funcionamento, mesmo contra a sua vontade. Nas décadas seguintes o troço foi vendido repetidas vezes, tendo sido comprado em 1998 pelos fundadores da American Heritage Railways, amantes de linhas e comboios antigos, que se vêem sobretudo como guardiães de um património histórico. Muito para nosso gáudio, que num belo dia de Julho nos fizemos à estrada em direcção a Durango, trocámos as reservas feitas na internet por bilhetes vintage muito bonitinhos, tivemos imensa dificuldade para escolher entre carruagem fechada ou gôndola, lado direito ou esquerdo, e partimos para a grande aventura. Direcção: westbound, embora Silverton fique a Nor-Nordeste de Durango. Westbound é uma reminiscência da história centenária daquela linha americana, para a qual todos os trilhos iam dar a Denver, que ficava no Leste absoluto do mapa D&RG. Os comboios que saíam de Denver (mesmo os que iam para sul, viravam para oeste pelo Cumbres Pass, e em Durango seguiam para Nor-Nordeste) iam todos para Oeste.
Direcção: Westbound. Partida! O fumo da locomotiva, o apito piiiiiiiiii, o arranque suave, pouca-terra pouca-terra pouca-terra, sair da cidade, avançar pelo meio de belos prados verdes junto ao rio. Tudo conforme os melhores sonhos do turista.
Ao fim de alguns minutos apareceu um rapaz simpático a vender óculos de protecção (iguaizinhos aos Ray Ban, mas por $3), bebidas e livros sobre a história do comboio e da linha. Íamos para a romaria, comprámos tudo.
A seguir apareceu um ranger que falava pelos cotovelos, mas que, devido ao ruído do comboio, era quase impossível de compreender. Informava sobre as formações geológicas, contava histórias dos índios Ute, que acabaram por ter de sair daquela região devido aos mineiros, e informou ainda que, apesar de nos livros de ciências constar que naquelas montanhas não há alces, alguns deles não sabem e volta e meia aparecem por lá. Toda a gente se riu e tratou de espreitar pela janela na esperança de avistar algum alce analfabeto.
Sobre a beleza do trajecto, falam melhor as fotografias:
O tom avermelhado das pedras no rio é sinal de uma tragédia ecológica: a oxidação dos minerais misturados com a água, consequência da actividade mineira. Recentemente tem sido feito um enorme esforço para limpar o rio, cujos efeitos positivos estão patentes no paulatino regresso da população de trutas.
A cidade de Silverton é estranha: algumas ruas desastradamente largas mas em terra batida e cheias de irregularidades, casas vitorianas ao lado de barracões, e para onde quer que se olhe, um cerco de montanhas.
Vivendo como vive praticamente só do turismo, a cidade oferece restaurantes para todos os gostos. Escolhemos um saloon, com comida típica (diria: "típica de lata", mas a fome é boa cozinheira, como dizem os alemães), e um piano todo desafinado, do qual um figurante tentava arrancar sem anestesia algo ligeiramente semelhante à "sonata ao luar".
Depois do almoço demos um passeio pela cidade, e parámos numa loja de souvenirs que estava com saldos porque ia fechar. Mais uma. Comprámos uma t-shirt "out of coffee" para a Christina, e fartámo-nos de discutir com o Matthias porque ele queria comprar uma t-shirt "no species, no feces", que tinha nas costas desenhos detalhados das "fezes em perigo de extinção" (do lobo, do urso, do lince, etc.). O que são as coisas: o rapaz comprou a t-shirt com a semanada dele, começou a vesti-la, e nós, sempre que o víamos de costas, ríamos cada vez mais de tamanho disparate. O plano inclinado dos costumes é isto mesmo: uma pessoa cede um bocadinho, e num instante se torna insensível à anormalidade...
A meio da conversa com a dona da loja, ouvimos quatro apitos longos: _ _ _ _
Sinal de que o comboio ia partir, e que tínhamos apenas dez minutos para regressar ao nosso lugar. Também podiam ser cinco: a cidade é tão pequena!
Ao sair da cidade, uma estranha agitação percorreu os turistas em todo o comboio. Nós, que já temos alguma experiência de viagens nos EUA, perguntamos logo: É um alce? Onde está?
É que nestes passeios não é necessário olhar para a paisagem à procura de um animal daqueles tipo troféu fotográfico. Basta olhar para os outros turistas, ou para os carros parados na berma da estrada. São um óptimo indicador.
No caso, era um urso enorme a uns cem metros, que se balançava na encosta enquanto nos observava.
Os serviços municipais de turismo de Silverton estão de parabéns, organizaram tudo com excelência.
A empresa que explora e protege a linha histórica também não dorme no serviço. Oferece bilhetes combinados de comboio e autocarro, com diversos programas alternativos para as horas passadas em Silverton: passeios equestres ou em jipe até aos cumes, visita ao interior de uma mina e garimpagem no rio (tourisme oblige), aventuras em ATV ou snowmobile.
Uma das viagens é feita no comboio, a outra em autocarro, pela célebre San Juan Skyway, atravessando o Molas Pass (3325 m) e o Coal Bank Pass (3243 m).
Outros programas possíveis: visita a um parque de arborismo numa floresta de faias, só acessível por comboio; viagem de comboio combinada com rafting em Durango; sarau de teatro e vaudeville no Henry Strater Theatre.
Eis como de uma região inóspita e em processo de desertificação se fez um centro turístico de alta qualidade. Com mão invisível e Estado, com espírito empreendedor, arrojo e paixão. E um retoque de cor dado por Hollywood.
De olhos postos nesta espécie de fim do mundo no outro lado do globo, penso na linha do Douro, e nas tantas vias estreitas que em Portugal foram fechadas ou vão ainda resistindo, moribundas. Um dia destes hei-de trazer o meu melhor conselheiro de viagens a este lado do mundo, hei-de-lhe mostrar outras linhas ferroviárias que são igualmente the most spectacular in the world.
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